HISTÓRIA DE NOVA CASTELA

De todos os impérios com possessões na Terra de Santa Cruz, Espanha é o mais poderoso e o que desenvolveu uma concepção política imperial mais ampla. Ela domina terras das mais variada culturas e aspectos geográficos, a que tem a população colonial mais numerosa e heterogênea e a que enfrenta os problemas mais complexos e persistentes. Assim, as colônias se tornaram Vice-Reinos, onde a Igreja funciona como instrumento colonial, controlando o povo e a ambição dos senhores-de-terra. O primeiro Vice-Reino foi o de Nova Castela, onde antes havia o Império do Sol.

• História Antiga

A costa oeste da Terra de Santa Cruz, dominada pelo deserto e pelas cordilheiras, tem seus primeiros sinais de civilização desde dois mil anos antes de Cristo, habitada por povos que desde cedo se mostraram engenhosos ao dominar e prosperar em uma terra inóspita e acidentada. Vários templos foram erguidos e várias tribos caminharam sobre esta região exercendo seu poder e influência, desde três mil anos antes dos castelhanos chegarem à costa.

Durante o primeiro milênio, predominaram os Mochicas (ao norte de Lima) e os Nascas (ao sul de Lima) na costa, e Tiahuanaco, cidade imponente próxima ao Lago Titicaca. Entre os anos 800 e 1200 d.C., surgiu o primeiro império das cordilheiras, o Império Tiahuanaco-Huari, formado pela fusão das duas cidades. Pela primeira vez uma cultura exercia forte domínio sobre as outras. Ao contrário das outras culturas, predominantemente agrícolas, o império possuía uma conotação fortemente urbana. A população destas cidades era sustentada com a produção agrícola dos povos conquistados. Algumas dessas cidades se transformaram em cidades-fantasmas antes do Império do Sol.

Com a queda do Império, a região passou novamente a ser dividida por várias tribos, todas de mesmo poder, com armas, poderio, organização e cultura semelhantes. A que mais se destacava era a cultura Chimú, que habitava a região anteriormente ocupada pelos Mochicas. Em Ica se desenvolvia a cultura Chincha, cuja população chegava a 100 mil. Na região do Titicaca se instalaram os Aymarás e os Uros.

Os Incas eram apenas mais uma tribo da serra, que havia se apossado do vale do Urubamba. O Inca, seu líder, não passava de um chefe tribal. E assim foi por 230 anos, até que os incas ganharam uma batalha decisiva contra os vizinhos Chancas. A partir daí os Incas não pararam mais de conquistar terras e submeter tribos inteiras ao domínio de seu Inca, agora sim um verdadeiro imperador. Surgia o Império do Sol.

• O Império do Sol

A fase imperial dos incas durou cerca de cem anos. Neste meio tempo, conquistaram todas as tribos da Cordilheira, até serem barrados pelos Araucos, no extremo sul, que já naquela época tinham o hábito de estragar grandes sonhos de conquista. Mais para o norte, conseguiram estender sua área de influência até o Equador. Tentaram também subjugar algumas tribos da selva, mas não foram bem sucedidos.

Após a morte repentina de Huayna Cápac, o terceiro Inca do Império, quando castelhanos e lusitanos já colonizavam a Terra de Santa Cruz, o Império mergulhou em uma guerra civil. Dois irmãos, Atahuallpa e Huáscar, disputavam o poder. Huáscar era apoiado pelos sacerdotes de Cusco; já Atahuallpa, seu meio-irmão, acompanhava o pai em suas campanhas militares e encabeçou uma grande rebelião. Huáscar foi coroado, enquanto Atahuallpa se instalava em Cajamarca. Atahuallpa ganhou a guerra e mandou matar toda a família de Huáscar perante seus olhos; depois o prendeu.

• A Conquista

Assim que começou a percorrer a costa norte da Terra de Santa Cruz, Francisco Pizarro começou a ouvir, entre os índios, histórias de uma terra magnífica, onde o ouro era abundante e as cidades grandiosas. Porém, a primeira viagem até a costa do Império do Sol foi muito difícil, com poucas provisões e homens já exaustos de tantas jornadas exploratórias. Apenas a promessa de encontrar o Eldorado fez com que continuassem.

Pizarro aportou numa ilha para decidir o seu destino. Desnutridos, quase nus, sem armas, sem apoio oficial, treze guerreiros se mantiveram fiéis à determinação de Pizarro. O grupo consegue alcançar a costa e todos ficam maravilhados com a beleza das cidades do litoral. O primeiro contato foi amistoso, e percorreram toda a costa norte do Império, bem recebidos na maioria das vezes, de Zaña até Tumbez. Ficaram espantados com a quantidade de objetos de ouro e prata. Nesta época, Huayna acabara de falecer e o Império caminhava silenciosamente para a guerra civil.

Satisfeito com o que viu, Pizarro retorna a Castela com o objetivo de pedir ao rei o direito de exploração das terras, levando três índios que mais tarde serviriam de intérpretes. A nova expedição de Pizarro chegou a Tumbez em 1531, mas, para sua surpresa, foram rechaçados pelos incas. Pizarro havia retornado com um exército de 80 homens à cavalo e 150 à pé. Logo de início tomaram a cidade de Tumbez. Nesta época, Atahuallpa acabara de derrotar Huáscar e marchava em direção a Cajamarca para ser coroado Inca. Pizarro partiu para lá com 67 homens à cavalo, 110 à pé e mais alguns índios auxiliares. Ao chegarem, ocuparam as casas mais fortes da cidade. Pizarro mandou alguns homens ao encontro do Inca com o objetivo de marcarem uma audiência. Sua autoconfiança impressionou os castelhanos e também foi o motivo de sua desgraça. Após sua grande vitória contra Huáscar, se julgava intocável, achando que ninguém ousaria atacá-lo, e partiu sem nenhuma proteção para o encontro, ordenando aos seus homens que não atacassem. O armamento superior, de ferro e fogo, as táticas bélicas mais avançadas, o impacto causado pelas detonações da pólvora e pela presença de cavalos foram determinantes na vitória castelhana. A batalha durou meia hora, e terminou com mais de dois mil índios mortos e Atahuallpa capturado.

A estrutura política fortemente centralizada do Império do Sol e a ausência de um sentimento de fidelidade das tribos dominadas bastaram para que, ao ser capturado o Inca, todo o resto se desintegrasse. Como resgate, Atahuallpa prometeu encher uma sala de ouro e prata. Pizarro aceitou a proposta, e o volume de objetos preciosos que chegava em Cajamarca só fazia crescer a cobiça dos castelhanos. Enquanto isso, Atahuallpa mandava, secretamente, seus homens matarem Huáscar em sua prisão. Quando o resgate estava quase todo pago, no valor de 1.326.539 marcos de ouro (sendo 236 mil para a Coroa e o resto divido entre os conquistadores, ganhando Pizarro cerca de 57 mil) e 51 mil marcos de prata, os castelhanos começaram a temer que os incas tentassem um ataque assim que o Inca fosse libertado.

Pizarro bem que intencionava cumprir sua promessa, mas o medo em seus comandados crescia de tal maneira que acabou optando pela traição. Usando como pretexto a morte de Huáscar, fez com que o Inca fosse julgado por fratricídio. Assim, o último imperador do Império do Sol foi condenado à morte e teve sua cabeça cortada em praça pública em agosto de 1533.

Uma vez executado o Inca, Pizarro marchou até Cusco. A viagem durou 14 dias sob a constante hostilidade dos nativos, mas os índios que defendiam Cusco, vendo que a nobreza se dividia, acabaram se retirando. Manco, outro filho de Huayna, recebeu Pizarro, que em troca ofereceu seu apoio. Os soldados não respeitaram nada e praticamente saquearam a cidade, profanando seus templos e transgredindo suas leis.

Pizarro oficializa a fundação castelhana de Cusco e é nomeado Governador Geral de Nova Castela, que passa a ser o novo nome do antigo Império do Sol. Em 1535, na costa, próximo a Pachacámac, Pizarro funda a Cidade dos Reis, capital da colônia. Ao contrário das principais cidades de Nova Castela, que foram fundadas a partir de importantes cidades incaicas, a Cidade dos Reis foi construída às margens do rio Rímac, numa área pouco povoada. O lugar foi escolhido a dedo pelo conquistador, que colocou a primeira pedra da cidade e traçou as primeiras ruas e casas. A colônia foi divida em diversos feudos, chamados de encomiendas, e Pizarro se casa com uma princesa inca, filha de Huayna Cápac.

Diego de Almagro, enviado às terras do sul (Chile), desiludido com a ausência de metais preciosos, só encontrando os destemidos araucos, resolveu reclamar uma parte maior devido a sua participação de destaque na conquista. Enfim, queria Cusco. Assim, deu-se início a uma sangrenta guerra civil. Almagro acabou morto em 1538 por Pizarro e seus irmãos, mas seu filho deu continuidade à luta do pai e acabou assassinando Pizarro em seu próprio palácio na Cidade dos Reis, aos 70 anos de idade. No ano seguinte, em 1542, o filho de Almagro é morto por um enviado real.

Em 1543 é criado o Vice-Reino de Nova Castela, e com isso são extintas as encomiendas. Indignados, os senhores dos feudos se revoltam, liderados por Hernando Pizarro, irmão de Francisco, que aprisiona e mata o primeiro Vice-Rei assim que ele aporta. Hernando governa por dois anos, mas acaba sendo deposto pelas forças reais. O segundo Vice-Rei chega em 1550, estabelecendo de vez a paz. A Cidade dos Reis acabou sendo chamada de Lima, corruptela do rio que corta a cidade, o Rímac.

• As Revoltas Incas

Manco Inca aceitou o acordo com Pizarro e foi nomeado Inca pelo governador. Manco respeitava os castelhanos e acreditava serem enviados pelo deus Viracocha, mas se cansou das traições e falsas promessas dos homens brancos. Manco organizou sua rebelião nas vilas próximas, longe de olhares castelhanos. Em 1536, os incas fizeram um grande cerco a Cusco, mantendo a cidade sitiada por dias. Incendiaram as regiões em volta da cidade e lançaram flechas flamejantes nos tetos de palha. Nada se podia ver com a fumaça. A guarnição castelhana não passava de 200 guerreiros, mas os contra-ataques de cavaleiros com lanças matavam centenas de índios. O ataque durou 17 dias. Os castelhanos, então, partiram com tudo e tomaram a fortaleza de Sacsayhuamán, fora da cidade, num ataque noturno.

Manco se mudou para Ollantaytambo, onde ficou por dois anos. Um exército inca foi mandado à Cidade dos Reis, e deu de cara com 80 cavaleiros enviados da capital a Cusco. Como era uma região montanhosa e extremamente acidentada, os incas destruíram a ponte que permitia aos castelhanos voltarem e atacaram numa trilha onde os cavalos não podiam manobrar. Não sobrou um castelhano vivo, com pouquíssimas perdas do lado indígena.

Depois, Pizarro enviou mais 150 soldados acompanhados por milhares de índios e vários escravos negros. A mesma tática foi empregada, só restando um castelhano vivo, que foi levado como prisioneiro para Manco. Pizarro tentou nomear outro Inca para enfraquecer o poder de Manco, mas com poucos resultados. As forças de Manco dizimaram mais duas expedições castelhanas. A essa altura, os incas já usavam armas de fogo, armaduras e até mesmo cavalos. O ataque castelhano à fortaleza de Ollantaytambo também acabou se tornando infrutífero. Animados com as vitórias, os incas tentaram invadir a Cidade dos Reis. No terreno do inimigo, plano, favorável aos cavalos, não tiveram a menor chance e conheceram a sua primeira derrota.

Manco abandonou Ollantaytambo e, após novas vitórias, se instalou em Vilcabamba. Apesar de ser chamada de a nova capital do império, Manco Inca era, como os primeiros Incas, apenas um chefe tribal. As forças comandadas por ele e a sua influência entre os índios da serra em nada se assemelhava ao esplendor do Império do Sol. Então, em 1544, sete castelhanos pediram asilo aos incas, cada um por um motivo diferente. Como os incas sempre pecaram pela auto-suficiência de seus governantes, aceitaram. Manco Inca acabou assassinado à traição pelos castelhanos, que também foram devidamente mortos.

Assumiu Sayri Túpac, filho mais velho de Manco. O Vice-Rei resolveu propor um tratado de paz, intermediado pelos sacerdotes católicos. Sayri acabou aceitando e foi a Lima em 1558, onde foi batizado e passou a receber uma renda anual de 20 mil pesos, se tornando um grande senhor de terras. Entre as terras sob o seu domínio, não estava Vilcabamba, mas, em compensação, possuía residências em Cusco e em Lima. Morreu em 1604, e sua filha, casada com um governador do Chile, herdou tudo.

Tito Cusi Yupanqui, segundo filho de Manco, se torna o novo líder dos revoltosos, permanecendo em Vilcabamba. Os castelhanos tentaram novo acordo, mas, durante as negociações, Tito caiu doente e morreu. Os incas acharam que Tito havia sido envenenado. O terceiro filho de Manco, Túpac Amaru, assume. Já enfraquecidos, foram derrotados em 1572, quando tentavam se refugiar na selva. Os capitães foram sentenciados à forca e Túpac foi decapitado em Lima.

• O Vice-Reinado

O período de pacificação se inicia com a chegada do segundo Vice-Rei em 1550. A chegada de novos colonos e o excesso de gente que não sabia fazer nada além do que sacudir a espada o motivou a conceder licenças para novas expedições e descobrimentos, mas nenhuma delas deu o resultado esperado. Se não foram encontradas novas cidades de ouro, pelo menos surgiram novos povoados, além de melhorar o conhecimento da região. Em 1567, o Amazonas é percorrido das cordilheiras até o oceano, dando início a diversas lendas.

A descoberta mais importante foi a mina de Potosí, que atraiu um grande número de pessoas. Em poucos anos, se tornou a vila mais povoada de Nova Castela. Logo depois foi a vez da mina de mercúrio de Huancavelica. Ou seja, imediatamente após à febre desbravadora se sucedeu o esforço de arrancar do solo as suas riquezas. Porém, diante do brilho sedutor dos metais preciosos e do tilintar inebriante dos pesos castelhanos, a capacidade agrícola dos incas e dos outros povos foram totalmente esquecidas.

A mineração já era feita pelos índios, mas as condições impostas pelos castelhanos eram absurdas. Havia uma preocupação de regular e humanizar o trabalho nas minas, mas a ambição dos colonos e a importância dada pela Coroa aos minérios falaram mais alto. A riqueza mineira alcançou o seu apogeu em fins do século XVI, e assim continua até meados do século XVII, atraindo o interesse de corsários de todas as partes do Novo e Velho Mundo.

A paz agora estabelecida permitiu que a Igreja desenvolvesse sua ação de elevar, de acordo com o seu ponto de vista, moral e intelectualmente os indígenas de Nova Castela. Na época do terceiro Vice-Rei foi adotada a política de reduções indígenas, que forçava o índio a se integrar mais à vida colonial. Foram fundadas universidades e a primeira imprensa da Terra de Santa Cruz, limitada a publicações religiosas ou dicionários de línguas indígenas. O século XVII se constitui no período áureo do Vice-Reino, seguindo sem grandes mudanças estruturais. A expansão missionária faz com que a fé e a civilização chegue a regiões até então inexploradas. Potosí e Huancavelica continuam sendo os nervos principais da economia. O comércio e as relações entre as cidades se intensificam cada vez mais. Começam a surgir livros contando histórias da conquista e revelando os costumes e contos do Império do Sol.

• Tempo Presente

Nova Castela é uma terra imponente, que irradia riqueza, vida, prosperidade, apesar dos constantes terremotos e ataques de piratas. Suas cidades são monumentais, suas igrejas resplandecentes. Apesar de se encontrar em seu auge, o Vice-Reino é palco de um largo conflito. Embora não seja possível vê-lo através de agitações nas ruas, de revoltas populares, se pode senti-lo nos olhares de cada um de seus habitantes, na tensão camuflada.

Os brancos castelhanos desconfiam dos brancos da colônia (os criollos). A Coroa tenta evitar que surjam grupos poderosos, buscando o equilíbrio entre senhores-de-terra, mineradores, políticos, Igreja e o próprio Vice-Rei, cada um vigiando o outro. Os negros são afastados dos índios para que não se unam contra seus algozes. Os índios são dizimados aos milhares nos trabalhos das minas. Os aventureiros, que comandaram o espetáculo no século passado, vagam pelas serras ou se esgueiram pelas ruelas sujas das grandes cidades à procura de um sonho, uma missão, algo que mantenha vivo o espírito dos conquistadores. Renegados pelos seus governantes, só lembrados para missões suicidas na selva, muitos já se tornaram bandoleiros, se unindo a escravos fugidos e índios e mestiços que se recusam a viver sob o domínio dos colonizadores ou sob a tutela dos missionários. As raras oportunidades de reviverem os velhos tempos se encontram nos delírios de algum nobre ou no ímpeto desbravador de algum capitão.

No centro de tudo está a Igreja. Ao mesmo tempo que preservou os índios da ambição predatória dos conquistadores, sufocou sua cultura e os afastaram de seus deuses. Seus cultos foram aniquilados, vários de seus costumes foram proibidos. Enquanto as cidades se parecem com um imenso claustro, onde o culto religioso é poderoso e a moral da Igreja inquestionável, os índios, clandestinamente, fazem de tudo para manter vivas as suas crenças.

Published in: on 12 de março de 2010 at 0:55  Deixe um comentário  
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