Apresentação

Após 10 anos mestrando ininterruptamente O Desafio dos Bandeirantes, é natural que, sendo um dos autores, muitas alterações fossem feitas para satisfazer tanto jogadores quanto mestres.

Houve mudanças tanto nas regras quanto na ambientação. A própria Terra de Santa Cruz foi ficando cada vez mais parecida com a América do Sul real, geográfica e historicamente.

Esse blog foi inicialmente dedicado a essas modificações pessoais e, principalmente, à publicação da ambientação de O Império do Sol, relativo aos incas e à colonização espanhola no Peru. O livro original foi escrito para ser publicado na sequência de O Vale dos Acritós, ainda em 1995, o que acabou não acontecendo.

Voltando recentemente à ativa, novas modificações são feitas constantemente. Muitas mudanças referentes ao Sacerdote Negro, Feiticeiro Negro, Jesuítas, atributos, novas classes, novas magias etc.

Na medida do possível, novas ambientações serão acrescentadas para compor o mosaico de histórias e culturas da Terra de Santa Cruz. Portanto, trata-se de uma obra em eterna construção.

Espero que gostem.

Flávio Andrade

O Bandeirante

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Published in: on 23 de fevereiro de 2010 at 4:21  Comments (11)  

DIÁRIO BANDEIRANTES 25 ANOS

Introdução

Eu já tinha a ideia de fazer uma bibliografia comentada do Desafio dos Bandeirantes, mas aí o Carlos Klimick sugeriu uma espécie de making of. Então resolvi fazer algo no meio do caminho. Não vou fazer um relato de bastidores pois isso envolve outras pessoas. Tampouco farei um adiantamento da nova edição, pois as decisões editoriais que serão tomadas de agora em diante não me envolvem. Portanto, minha exposição nesses diários é particular e não oficial.

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Capítulo 1

O projeto do “Desafio dos Bandeirantes 25 anos” com regras do D&D 5ª edição me pegou no sofá comendo pipoca como todo mundo. As pessoas me perguntavam “o que vai ser?” e eu só podia responder “sei lá”.

Estávamos em fins de 2017. Haveria uma celebração dos 25 anos no Rio Shopping, em Jacarepaguá, no início de dezembro. Logo em seguida teria o lançamento carioca do RPG A Bandeira do Elefante e da Arara na finada Livraria Cultura do Centro. A notícia me pegou justamente lendo a novela do Christopher, que achei muito foda e cuja resenha publiquei aqui.

Em 2016 eu havia feito em meu blog os módulos O Sul e As Missões para Desafio dos Bandeirantes, e também mini-suplementos para Ilha da Páscoa e Colônia do Sacramento. Também transcrevi as anotações da épica bandeira que mestrei entre 1994 e 2000.

Em meados de 2017, após dar de cara com o excelente O Rio antes do Rio, resolvi pesquisar, sem pressa, material para um futuro módulo da Capitania de São Sebastião. Nesse sentido também li o igualmente ótimo 1499 – O Brasil antes de Cabral. Ambos receberam resenha minha na época. E, sem saber o quão inspirador me seria, dei início à leitura dos livros de Alberto Mussa, A Primeira História do Mundo e O Trono da Rainha Jinga, também resenhados. O livro do Christopher parecia uma campanha de RPG romanceada, o que fazia tudo convergir para um fim de ano inesperado.

Paralelamente a isso tudo, resolvi baixar os oito volumes da História da África publicada pela Unesco. Botei na cabeça que deveria conhecer mais sobre a África, pois hoje em dia há tantas narrativas que o desconhecimento nos deixa à mercê de verdadeiras ficções históricas. Já tinha lido o 1º volume (basicamente aspectos metodológicos da obra) e avançava pelo Egito do 2º volume, já fazendo anotações para um longínquo módulo de Continente Negro (vai que eu dure até os 70, né?), quando veio o convite para eu integrar o projeto do “Bandeirantes 25 Anos” em dezembro.

Larguei minhas leituras, larguei minhas séries, sofri por adiar a leitura do segundo volume da série napolitana da Elena Ferrante, virei um estranho para minha própria cama e mergulhei de cabeça no Brasil do século XVII.

A primeira grande questão foi definir se seria um Brasil histórico com fantasia ou se seria a fantástica Terra de Santa Cruz do livro de 1992. Tanto na minha campanha dos anos 90 como em meu blog, já havia optado há muito pela geografia real. A decisão foi manter o cenário fantástico e aproximá-lo mais do cenário e cronologia histórica. Outra decisão foi usar os nomes reais das tribos nativas e dar mais diversidade à cultura negra.

E foi com essas diretrizes que dei início aos trabalhos. Sobre os índios, já havia pesquisado bastante para escrever a parte dos Guaranis para As Missões, e também lido os livros acima citados. Então resolvi partir para preencher a minha principal lacuna: África e as culturas negras.

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Capítulo 2

Em minha missão de desbravar o Continente Negro e sua cultura, sabia que não teria tempo para seguir cronologicamente a minha leitura da coleção de História da África da Unesco, e teria de pular direto do volume 2 para o volume 5. Com medo de perder o rumo nesse salto, senti que era necessário adquirir primeiro uma visão mais geral e sintética do continente.

Foi então que me deparei com A África explicada a meus filhos, de Alberto da Costa e Silva, um livreto curto e fácil de ler. Uma delícia sobre a qual comentei aqui na época. A partir daí, segui em frente.

A facilidade em obter a versão traduzida dos oito volumes da História da África entusiasma o leitor. Já o texto, são outros quinhentos. Escrito em sua maioria nos anos 70, o texto é bastante árido, diferente dos livros de História atuais. É preciso fôlego e paciência. E a própria África também não ajuda: são tantos reinos, etnias, subgrupos, conquistas, migrações… Acompanhar as mudanças em um período de 100 anos é como tentar desenhar a forma das nuvens. Quando você acha que já tá se achando na geografia política e humana, muda tudo. Para 2019, está em meus planos retomar essa leitura de onde parei: lá atrás, do Antigo Egito, dessa vez acompanhado das duas bíblias do Alberto Costa e Silva sobre o assunto.

A princípio, os negros serão representados no livro por três culturas: Banto, Iorubá e Fon. Mas, naquele início de trabalhos, estudávamos a possibilidade de incluir os Malês. Então, de início, usei muito Wikipedia e sites. E me deparei com alguns problemas sérios para a pesquisa.

Primeiro, que os Iorubás, principal referência do jogo anterior e principal referência de religião negra nos dias de hoje, só chegaram pra valer no final do século XVIII. Então, como fazer um jogo de Brasil histórico sem Orixás? Impensável! Essa foi a primeira de outras vezes que o rigor cronológico teve de ser deixado de lado. Os próprios Fon só foram marcantes a partir do século XVIII. Quem dominava na época eram os Bantos. No Rio de Janeiro, eram cerca de 99%.

Segundo, que o domínio do Culto dos Orixás no século XIX foi tão grande que contaminou todas as demais religiões africanas. Pra não falar na influência do próprio Cristianismo em todas elas. Assim sendo, a maioria dos textos falam da atualidade, ou no máximo como era no século XIX e XX. E a única certeza que eu poderia ter é que tudo era diferente, mas muito diferente mesmo no século XVII. Ao mesmo em tempo que isso era um complicador, era também libertador. Os historiadores e antropólogos que eu lia assinalavam esse fato e constatavam que dificilmente haveria como preencher essas lacunas. Sendo o jogo uma fantasia, a possibilidade de recriar essas raízes me pareceu ser a melhor saída. Como essas religiões teriam sobrevivido nos primeiros anos de cativeiro na colônia lusitana?

Primeiro mirei naquilo que mais me oferecia desafio: meu desconhecimento sobre a religião vodum dos Fon. O que mais me incomodava no nosso livro de 1992 era o Feiticeiro Negro. O Feiticeiro de Ferro e Fogo foi uma invenção nossa, pois alguém achou que faltava um personagem de magia mais porrador. O Sacerdote Negro, representando o Culto os Orixás, estava ok. Mas, de última hora, resolvemos retratar uma outra realidade africana, pra dar maior diversidade aos personagens negros, algo que estivesse para o Sacerdote Negro o que o Bruxo estava para o Jesuíta. Um antagonista com magia.

Numa época pré-internet, as possibilidades de pesquisa eram livrarias e bibliotecas. Mas havia também um problema grave: o Carlos Klimick estava indo para os Estados Unidos estudar e não queríamos escrever nenhuma linha do livro sem ele. Então, ainda que a parte sistêmica do Feiticeiro Negro seja a minha preferida (adoro mestrar para esse personagem!), a parte de pesquisa foi nas coxas. Pegamos alguns espíritos de um dicionário de mitologia e inventamos uns dois (salvo engano, Nohrum e Myila). Não que faltasses mais espíritos para usar, mas eles precisavam englobar um determinado leque de poderes pro personagem não ficar desequilibrado em relação aos demais.

Há cerca de dez anos, tirei essa pedra do meu sapato no blog. Ainda assim, estava insatisfeito, pois o personagem, tanto o antigo quanto a minha nova versão, era baseado no vodu haitiano e nos bush negroes das Guianas. Nada a ver com a colônia brasileira. Para a Terra de Santa Cruz, até dava pra passar, mas para o meu cenário mais histórico, tal constatação era um incômodo. Pra se ter uma ideia, o único vodum que sobreviveu do livro original para a nova versão foi Heviosso. Mas, caso cheguemos a desenvolver o norte da Terra de Santa Cruz, velhos conhecidos darão as caras.

O livro que me acendeu a luz de como deveria abordar o tema das religiões africanas foi O Rei, o Pai e a Morte, do antropólogo catalão radicado no Brasil Luis Nicolau Parés. Seu objetivo era justamente buscar as raízes do Vodum na Costa do Ouro, com base na tradição oral e registros históricos. E mesmo assim, o que surge ali é o Vodum do século XVIII (o mais perto que consegui chegar do meu objetivo), e termina com uma esclarecedora comparação deste com o Vodum praticado no Brasil, sendo o mais próximo ao original o da Casa das Minas, em São Luís do Maranhão. Leitura mais do que recomendada.

O rigor da pesquisa e honestidade do trabalho me serviram de norte ao longo de todo o ano de 2018. A partir do texto de Parés fui interpretando tudo o que encontrava na internet sobre o tema, e reformulando para o jogo. Pois, claro, estamos falando de um cenário de fantasia para RPG, acima de tudo.

Resolvido meu carma com os Fon, chegava a hora de encarar os Bantos e, de quebra, os Malês. Ingenuamente, escolhi deixar os Iorubás e seus Orixás para o final, achando que seria mais fácil.

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Capítulo 3

Encaminhada minha pesquisa sobre Vodum, chegara a hora de encontrar meu “carro-chefe” sobre os Bantos. Dei de cara na livraria com um livro que parecia capaz de matar dois coelhos com usa só cajadada: Bantos, Malês e identidade negra, do Nei Lopes, um autor bastante badalado. Mas a leitura me decepcionou um pouco.

Nei Lopes é antes de tudo um artista, e, como tal, a parte do livro que fala da cultura dos Bantos foi bastante inspiradora. Entretanto, no que diz respeito ao conteúdo histórico, achei o texto muito truncado e jogado de qualquer jeito. Talvez o fato de não ser historiador ou antropólogo tenha pesado.

Vou começar pelo mais fácil, os Malês.

Nei Lopes é tão comprometido em sua luta pela valorização da identidade negra que chegou ao ponto de desmerecer a participação dos Malês nas revoltas do início do século XIX. Ele implica com a influência islâmica na cultura negra, o que considera parte do branqueamento cultural. Assim, deixou de citar autores importantes e desprezar documentos essenciais para sustentar sua narrativa.

O texto que me salvou foi Negros islâmicos no Brasil escravocrata, artigo de Lídice Meyer Pinto Ribeiro, publicado na Revista USP n° 91, em 2011. Valeu a pena pesquisar os Malês só por ter lido a história dos sobreviventes da revolta refugiados no Rio de Janeiro.

No final das contas, chegamos à conclusão que os Malês eram um fenômeno muito próprio do século XIX. Além disso, se fossemos usá-los, teríamos também de abordar a religião muçulmana no livro. Ambientar um jogo no século XVII nos dias de hoje já é confuso o bastante pra gente ainda mexer nisso. Por razões semelhantes, apesar de tratarmos dos Cristãos Novos e a perseguição por eles sofridos pela Inquisição, também descartamos o Judaísmo e o Protestantismo como religiões “jogáveis”.

No que diz respeito aos Bantos, o livro foi importante para captar a alma dessa cultura. Quando a gente entra numa pesquisa dessas meio que no escuro, é bom termos um farol, uma luz guia a nos conduzir por outras leituras.

Nei força um pouco a barra ao exaltar a influência dos Bantos em tudo, além do que as fontes primárias permitem. Mas numa coisa ele tem razão: se os Bantos perderam a batalha religiosa para os Iorubás, na cultura eles estão presentes em tudo. Eles são a base da cultura afro-brasileira. Fato que, para mim, apresentou-se um grande desafio: no século XVII, os Bantos eram a maioria esmagadora de negros no Brasil. Eu teria de fazer um trabalho impossível de palimpsesto cultural para restituir aos Bantos o peso que eles tiveram no passado.

Há a teoria que a prevalência do Vodum e dos Orixás sobre as religiões dos Bantos se deveu por elas serem mais estruturadas, pois eram religiões de Estado, enquanto a dos Bantos que para cá vieram refletiam uma estrutura mais tribal, comunitária.

Outros obstáculos se colocavam em meu caminho. Os Bantos que aqui estavam no século XVII vieram em sua maioria do Congo e de Angola. O Reino do Congo aderiu ao Cristianismo assim que os Portugueses por lá chegaram. Angola, na verdade, eram vários reinos. Impossível traduzir essa realidade para o jogo. A solução óbvia era eleger uma corrente e tentar dar um corpo representativo a ela. Mas isso também não foi fácil.

A expressão mais conhecida é o Calundu, devido a um processo inquisitorial. Mas este relato já é muito contaminado pelo Cristianismo. E os Inquisidores não estavam nem um pouco interessados em descrever a estrutura dessa prática religiosa. Alguns artigos acadêmicos foram importantes na montagem desse quebra-cabeça.

A religião dos bantos: novas leituras sobre o calundu no Brasil colonial, artigo de Robert Daibert, publicado na revista Estudos Históricos, vol. 28, nº 55, em 2015.

Revisando o calundu, de Laura de Mello e Souza, a autora de O Diabo na Terra de Santa Cruz, publicado pela USP em 2002.

Filosofia Ubuntu, de Francisco Antonio de Vasconcelos, publicado na Logeion: Filosofia da Informação, v. 3, n. 2, em 2017.

E também o site da Cultura Bantu Afro Brasileira.

De todos essas leituras extraí uma pequena lista de Minkisi, a descrição do mundo espiritual a partir de Nzambi, o Ntu (energia vital) e a importância da ancestralidade.

E então chegou a vez de lidar com os Orixás.

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Capítulo 4

Como escrever sobre um assunto do qual todo mundo parece entender alguma coisa e que tem tantas variantes? Como traduzir essa complexidade para uma forma simples e jogável sem desagradar a gregos e troianos? Esse foi o desafio na hora de pesquisar a principal religião afro da atualidade.

De cara, dei-me conta que o Culto aos Orixás, na época, era um culto reduzido, de caráter local. Tem a dimensão atual porque se tornou dominante em Cuba e no Brasil. No século XIX, negros brasileiros cruzavam o Atlântico para fazer “intercâmbio” em Lagos, na atual Nigéria. Mas, no século XVII, a presença iorubá no Brasil era ínfima. Claro que o preciosismo histórico teve de ser deixado de lado nesse pormenor. Contudo, o problema para a pesquisa se mantinha: caracterizar uma religião sedimentada no século XIX em uma versão factível no século XVII.

Listar os Orixás mais conhecidos foi a parte mais fácil. As fontes virtuais são abundantes. A escolha dos nomes (alguns mudaram de nome no Brasil) foi debatida e votada dentro do grupo de trabalho.

Para driblar o gap de dois séculos, imaginei o desafio que negros recém-chegados do Império Oyo teriam enfrentado para fazer sobreviver sua cultura e sua religião não só em outras terras, mas em meio a uma comunidade negro composta, em sua maioria, por membros de outra cultura. Ou seja, mais do que se preocupar com estruturas, protocolos e códigos, o mais importante seria manter a ligação com seus Orixás.

Um artigo e um livro foram particularmente úteis para estruturar essa parte:

Culto aos Orixás, Voduns e Ancestrais nas Religiões Afro-brasileiras, livro de artigos selecionados pelo sociólogo e historiador Carlos Eugênio Marcondes de Moura. Em um deles, a autora descreve todo o seu processo de iniciação como Iaô.

O objeto do desejo. A identificação do dono da cabeça no candomblé, artigo de Monique Augras e Ângela Maria Correa, publicado na Revista de Psicología General y Aplicada nº 31, em 1979.

A pesquisa rendeu uma espécie de spin-off, que de tão complexo e detalhado deverá ficar para algum suplemento: as sociedades secretas. São elas o Culto dos Eguns, a Sociedade Ogboni e Ìyàmí Oxorongá.

Foi interessante constatar o quão recentes essas religiões podem ser em relação às monoteístas em certos aspectos. Xangô, por exemplo, era um rei possivelmente do século XIII. Voduns cultuados no final do século XVIII haviam vivido no início do mesmo século. A ausência de um registro escrito torna a percepção de uma cultura bem diferente da nossa. Algo ocorrido há 200 anos atrás pode ganhar o peso de algo ocorrido no início dos tempos. E a gente simplesmente não tem como rastrear isso.

Após destrinchar as três etnias africanas e suas respectivas religiões, percebi que estava faltando algo super importante: uma base bibliográfica para a realidade dos negros na colônia. Seria temerário contar apenas com o senso comum e o conhecimento adquirido ao longo dos anos. E aqui entra uma questão de percepção histórica. Como a documentação e iconografia são mais fartas a partir do século XVIII, quase tudo que vem a nossa mente sobre vilas, Brasil colonial e escravos são dos séculos XVIII e XIX. Acontece que no século XVI e XVII o Brasil era outra coisa. A descoberta do ouro mudou tudo, tanto para melhor quanto para pior. O Brasil foi um até 1700 e outro a partir dessa data.

Haveria escravo de ganho no século XVII? Qual o percentual de negros livres? Como era seu cotidiano nas cidades? Quais eram as leis que regiam a escravidão e os negros livres? Teriam os escravos direitos? Quais as perspectivas sociais de um ex-escravo? Nesse sentido, o livro “Escravismo no Brasil”, de Francisco Vidal Luna e Herbert S. Klein, foi bastante elucidativo e didático. Ancorado em fontes primárias, tabelas e estatísticas, ele mostra a presença do negro no Brasil passo a passo ao longo do tempo e apresentando seus desdobramentos sociais, econômicos e jurídicos. Infelizmente, tive de suspender minha leitura antes de chegar ao século XIX, pois não podia me dar ao luxo de sair do foco da pesquisa.

Várias outras leituras contribuíram para o tema, mas com informações dispersas. Livros sobre os quais falarei mais adiante, tendo como escopo a colônia em termos gerais.

Da mesma forma, por meio desses registros eventuais, foram colhidas informações sobre as outras culturas europeias presentes na ambientação: Espanhóis, Alemães, Ingleses, Franceses e Holandeses. Aqui também lancei mão do conhecimento adquirido na pesquisa para o módulo “O Sul” (que pega toda a colonização hispânica do Uruguai, Paraguai, Argentina, Chile e Bolívia).

Sobre os franceses, foi muito oportuno já ter lido sobre as incursões deles no século XVI, tanto no livro O Rio antes do Rio quanto em Os Franceses na Guanabara – Villegagnon e a França Antártica, de Vasco Mariz e Lucien Provençal, também já comentado no Facebook.

O material sobre Cristãos Novos veio da bibliografia relacionada à Inquisição, sobre a qual falarei mais adiante. Só os Ciganos mereceram a leitura de textos específicos:

O Povo Cigano e o Degredo: contributo povoador para o Brasil colônia, artigo de Elisa Maria Lopes da Costa publicado em Textos de História, vol. 6, nº 1 e 2, da UnB, em 1998.

História dos Ciganos no Brasil, artigo de Rodrigo Corrêa Teixeira publicado pelo Núcleo de Estudos Ciganos em 2008.

Como a pesquisa sobre os nativos já estava bem adiantada, o passo seguinte foi dedicado às vilas e ao cotidiano da colônia.

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Capítulo 5

Depois que fiz O Império do Sol, percebi que O Desafio dos Bandeirantes era um jogo sem cidades. Mencionávamos as vilas, elas eram indicadas nos mapas, mas não falávamos nada sobre elas. O jogo em 1992 foi mesmo pensado para reunir um grupo e se mandar pro meio do mato. Creio que isso retrata um pouco a preferência minha e do Klimick por histórias mais aventurescas, enquanto o Ricon tende mais para as intrigas e cenários urbanos. Tanto que realçar o cenário urbano foi uma demanda forte dele para a nova edição.

Eu só fui me dar conta desse meu lado ‘mateiro’ em Era do Caos. Não conseguia me sentir bem mestrando, até que fiz uma aventura inspirada em Antônio Conselheiro e outra em que o grupo produzia uma novela no Pantanal. Essas me deixaram satisfeito, e entendi a razão: eram aventuras rurais.

De fato, o jogo precisa dar azo aos dois estilos. Isso claro, exigiria de mim o mesmo cuidado que tive em O Império do Sol, ao buscar descrever as características mais marcantes daquela sociedade e dar pistas do seu cotidiano, mas dessa vez com o cuidado de não incorrer no mesmo erro.

Eu me senti tão agradecido pelos meses de acolhimento no Consulado Geral do Peru durante a minha pesquisa para O Império do Sol (eu tinha livre acesso à biblioteca, mas não podia levar os livros pra casa – um dia eu conto essa história), que me senti devedor, na obrigação moral de tratar aquela cultura da forma mais fiel e respeitosa possível. E foi então que me senti mal em usar nomes fictícios, cronologia diferente e até mesmo outra geografia. Uma coisa é mexer com a nossa própria história, outra é mexer com a história dos outros. Será que eles entenderiam a proposta? Será que eles se sentiriam ofendidos?

Enfim, quando estamos lidando com uma ambientação de fantasia, excesso de respeito também atrapalha. Em O Império do Sol, na hora de dar aquela apimentada criativa, creio que segurei um pouco a mão. Porém, uma primeira versão mais pé no chão é necessária antes de extrapolar.

E, para chegar nessa primeira versão, seria necessária uma ampla leitura que reunisse aspectos políticos, sociais, econômicos, administrativos, militares, religiosos, cronológicos e geográficos. Fácil, não?

Claro, basta pegar uma pilha de livros sobre a época e ler, anotar, compilar etc. Mais ou menos…

Da mesma forma que, em um filme, não pode haver cena sobrando, um take ou um diálogo que não acrescente nada à trama, em um RPG não deve haver uma informação que não sirva para a criação de uma aventura ou para a construção de um personagem. Reduzir uma ambientação vasta a um número limitado de linhas e páginas já exige muito suor e lágrimas editoriais para perder tempo com o que não vai interessar aos jogadores, só ao entusiasmado autor. Mas não há uma receita pronta pra isso. É preciso saber escolher, e sem jamais poder ter certeza se escolheu certo.

Duas decisões foram importantes para não tornar essa pesquisa uma insanidade: tempo e espaço. No que diz respeito à geografia, ainda que seja a fantástica Terra de Santa Cruz, o recorte seria limitado ao equivalente do sudeste brasileiro (Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo), acrescido do início da colonização do Sul.

Sobre a questão temporal, havia a opção de pegar uma faixa de tempo ou uma data específica. Acho que até hoje isso não ficou muito claro. Há uma data, mas ao mesmo tempo ela pode ser apenas o limite para um período de tempo.

Por quase todo o 1º semestre, prevaleceu que o “Bandeirantes 25 anos” seria em 1675, uma vez que o ano de referência do original era 1650. Apesar da cronologia anterior ser ficcional, a data não foi aleatória: a intenção era pegar uma época em que tanto a presença do negro quanto a do índio tivessem equivalência na colonização. Só que o ano de 1675, dentro de uma perspectiva histórica, não tem nenhum significado particular, mas demoramos a nos dar conta disso. E, ainda por cima, nos obrigava a antecipar dois fatos históricos que queríamos abordar na nova edição: o início da mineração e a Colônia do Sacramento.

Enfim, quando já tinha encerrado praticamente toda a pesquisa com essa data em mente, chamei a atenção para o fato que, se o jogo se passasse nos anos 90, a cronologia ficaria toda redonda. Não me dei conta de que estava arrumando sarna pra me coçar: a concordância foi imediata e ganhei de presente a missão de retocar toda a pesquisa para a nova data.

A nova data escolhida foi 1699. Mais do que uma data de tempo presente, ela serve mais como uma data símbolo, como no livro 1499 – O Brasil antes de Cabral. Como eu disse antes, a partir de 1700 tudo muda. Então a nova edição deveria retratar o crepúsculo de uma época, a Era dos Bandeirantes.

E, não coincidentemente, naqueles anos 90 do século XVII, os bandeirantes foram os principais protagonistas nos três maiores eventos da colônia: a descoberta do ouro mineiro; a guerra contra a Confederação dos Cariris; e a destruição do Quilombo dos Palmares. E tudo ocorrendo ao mesmo tempo!

Dessa forma, os desdobramentos dessas ações, ou seja, a entrada no novo século, ficariam reservados para o desenvolvimento futuro do jogo: o crescimento das cidades mineiras, a descoberta das minas em Goiás e Mato Grosso, o aumento da ocupação no Sul, maior interesse da Coroa nas coisas da terra etc., pra ficarmos apenas nos 50 anos seguintes.

Já deve ter dado pra perceber que dar conta de bibliografia pra tudo isso em e com tão pouco tempo não foi moleza, né?

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Capítulo 6

Minha pesquisa de ambientação sobre o Brasil colonial do século XVII começou com um livro que eu já havia adquirido tendo em vista o desenvolvimento de O Desafio dos Bandeirantes para o meu blog: Histórias da Gente Brasileira Volume 1: Colônia, de Mary Del Priore, uma autora bastante conhecida. Entretanto, o livro me incomodou.

Além de ser uma compilação por vezes desordenada de vários textos sobre o assunto, incapaz de fazer sobressair uma narrativa própria, mistura épocas de forma descuidada. Então, não era uma fonte na qual eu podia confiar totalmente para esse trabalho. Por outro lado, foi essencial para que eu percebesse que tipo de livro eu deveria evitar.

Dentro da proposta enciclopédica do livro da Del Priori, adquiri a História Social do Brasil Volume 1 – Espírito da Sociedade Colonial, de Pedro Calmon, antigo reitor da UFRJ, publicado originalmente em 1935, que me foi muito mais útil. Calmon possui uma escrita empolgada e empolada, o que me divertiu um pouco.

Eventualmente, deparei-me com três preciosas fontes virtuais de pesquisa.

Primeiro, o acervo gratuito de obras que caíram em domínio público.

Segundo, o acervo digital da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, um verdadeiro tesouro para os amantes de História.

Por fim, a Brasiliana Eletrônica da UFRJ, site que disponibiliza o acervo da coleção Biblioteca Pedagógica Brasileira, de publicações históricas dos anos 30 e 40. Esse site não permite download, e o texto aparece todo em caixa alta.

Com isso, a perspectiva de terminar a pesquisa histórica em maio acabou se tornando uma miragem no deserto. Imprimi a lista de obras obtidas e discuti cada título com a equipe para definir quais seriam lidas.

Ler estes livros da primeira metade do século XX é bastante revelador não só quanto à mentalidade da época (há, sim, muito preconceito), mas também para entender como determinadas narrativas entranharam na nossa cultura. Mal comparando, são como os Westerns daqueles tempos, muito mais preocupados em retratar a visão dos vencedores, pois aquele passado ainda era muito vivo para eles. No caso brasileiro, havia na época uma necessidade de consolidar uma identidade nacional e validar diversas mudanças ocorridas no país. Ver o passado por esses autores me deixou muito mais próximo do espírito do jogo do que as obras contemporâneas mais acuradas. É como se os autores antigos vissem a História do ponto de vista dos brancos e os modernos pelo ponto de vista dos negros e índios. Algumas obras contemporâneas, mais fiéis às fontes primárias, conseguem atingir um equilíbrio, tendência que vêm fazendo um bem enorme à historiografia.

Ter a oportunidade de dialogar ao mesmo tempo com essas escolas e construir pontes entre elas como base para uma obra ficcional, podem ter certeza, foi um imenso prazer. Não tem preço!

Sobre o período colonial como um todo, foram particularmente relevantes:

Capítulos de História Colonial (1500-1800), de João Capistrano de Abreu, publicado em 1907.

Expansão Geographica do Brasil Colonial (2ª edição), de Basílio de Magalhães, publicado em 1935.

Sobre a administração colonial do período, sobre a qual eu encontrava dados insatisfatórios, fui agraciado com a Organização Política e Administrativa do Brasil (Colônia, Império e República), de Augusto Tavares de Lyra, publicado em 1941. E, de quebra, o site Memória da Administração Pública Brasileira.

Da mesma forma, sobre a organização militar, fui salvo pelo livro História Militar do Brasil, do polêmico Gustavo Barroso, publicado em 1938. Polêmico atualmente, pois na época ele era considerado um grande luminar, de saber enciclopédico e inquestionável.

Sobre a estrutura militar do século XVII, também foram importantes os seguintes artigos:

Os Corpos de Ordenanças e Auxiliares. Sobre as relações militares e políticas na América Portuguesa., de Cristiane Figueiredo Pagano de Mello, publicado na revista História: Questões & Debates n° 45, da UFPR, em 2006.

Organização militar, poder de mando e mobilização de escravos armados nas conquistas: a atuação dos Corpos de Ordenanças em Minas colonial., de Ana Paula Pereira Costa, publicado na Revista de História Regional, vol 11, n. 2, da Universidade Estadual de Ponta Grossa, em 2007.

Gênese das milícias de pardos e pretos na América portuguesa: Pernambuco e Minas Gerais, séculos XVII e XVIII, de Luiz Geraldo Silva, publicado na Revista de História nº 169, da USP, em 2013.

O universo do bandeirantismo foi explorado a partir de dois livros que nos serviram de base para o livro original, em 1992:

No Tempo dos Bandeirantes, de Belmonte, publicado nos anos 40. Um livro delicioso, que merece ser lido, publicado originalmente em capítulos de jornal.

Vida e Morte Bandeirante, de Alcântara Machado, publicado em 1929, faz uma análise sobre os inventários da época.

Além desses, oriundo dos sites acima referidos, mais duas obras:

História das Bandeiras Paulistas (Leitura Básica), de Afonso d’Escragnolle Taunay, selecionado por Antonio Paim. Baixei dos sites também a obra completa, em dois volumes. Mas a pressão do tempo me fez optar pela versão compacta. O texto original foi escrito entre 1924 e 1936. Para entender o período, é bibliografia essencial.

Bandeiras e Bandeirantes de São Paulo, de Francisco de Assis Carvalho Franco, publicado em 1940.

Enfim, numa orelha de livro que lia sobre a Inquisição, descobri um livro que representava a essência do momento histórico escolhido: 1680-1720: O Império deste mundo, de Laura de Mello e Souza e Maria Fernanda Baptista Bicalho. Laura é autora de O Diabo na Terra de Santa Cruz, e a obra fazia parte da Coleção Virando Séculos, da Companhia das Letras, publicada em 2000. Não tinha como não ler esse livro! E trata-se de um livro curto, rápido de ler, que começa com a morte do Padre Antônio Vieira. Uma grande aquisição para o jogo e para minha biblioteca particular, adquirido no site Estante Virtual.

Para a Capitania de São Sebastião, tive a felicidade de ter na casa dos meus pais uma obra-prima em dois volumes monstruosos, daquela que as pessoas deixam na mesa da sala-de-estar como decoração mas nunca abrem pra ler: Geografia Histórica do Rio de Janeiro (1502 – 1700), de Maurício de Almeida Abreu, publicado em 2010.

Não tenho palavras para descrever o que foi a experiência de ler esse livro. Com base nele, simplesmente sou capaz de reproduzir rua por rua, esquina por esquina, o Rio de Janeiro do século XVII. Sou capaz até de dizer que vivi lá por algumas horas da minha vida. Sensacional é uma ofensa para a excelência alcançada pela obra. Valeu todos os aborrecimentos enfrentados nos últimos meses só por ter tido a motivação de encarar esses dois tomos!

Tendo uma obra tão magnífica para São Sebastião, senti que estava devendo para São Vicente. Afinal, era a terra dos bandeirantes! Então, nos estertores da pesquisa, descobri A Casa da Moeda de São Paulo – a primeira do Brasil e os meios de pagamento emitidos nessa cidade, de Alfredo e Fernanda Gallas, publicado em 2008. Além de ter como foco um período obscuro da história de São Paulo (sobre o qual falarei mais adiante) o livro tapa todos os buracos históricos que eu tinha em minha pesquisa sobre a Capitania de São Vicente.

Hora de tomar um fôlego antes de falar sobre a região mineira e a ocupação dos lusitanos no Sul.

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Capítulo 7

Inicialmente, a proposta da nova edição era antecipar a descoberta do ouro para 1675. Mas até qual momento? Optamos pelo limiar da Guerra dos Emboabas. Quando a data passou a ser 1699 (a guerra foi entre 1707 e 1709), tornou-se algo ainda mais raiz e de acordo com a cronologia histórica: o momento antes do big bang. O governador do Rio de Janeiro havia sido designado pela Coroa para ir até a região e se certificar da veracidade de todos os relatos que chegavam à Metrópole.

O desafio era mapear os arraiais já existentes no período. Nesse sentido, foi primorosa a contribuição o artigo Dilatação dos confins: caminhos, vilas e cidades na formação da Capitania de São Paulo (1532 – 1822), de Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, publicado nos Anais do Museu Paulista, v. 17, n. 2, em 2009, que me serviu de pontapé inicial. Dessa vez, um artigo me serviu de guia.

Pegar referências dessa mineração incipiente não era tão simples, pois a grandiosidade do século XVIII exercia uma força irresistível sobre qualquer relato. Então, nada de livros sobre Minas Gerais, Ouro Preto etc. o Melhor caminho foram os livros sobre bandeirantismo. E um artigo foi particularmente útil: Entradas e Bandeiras nas Minas dos Cataguases, de Maria Leônia Chaves de Resende, apresentado no XXIII Simpósio Nacional de História em Londrina.

Parte importante para o jogo era delimitar e descrever as formas de acesso à região, pois isso certamente era um desafio naqueles anos 1690, e certamente será ainda maior numa ambientação de fantasia.

A pesquisa me apresentou a fatos aos quais nunca havia dado muita importância: já havia sido descoberto ouro no Brasil, e um século antes. Cem anos antes de Ouro Preto, os paulistas já extraíam ouro de diversos pontos da capitania. Uma casa de fundição havia sido instalada em meados do século XVII em Iguape, litoral sul do atual Estado de São Paulo. Muito antes disso havia sido descoberto ouro em Paranaguá e, posteriormente, em Curitiba.

Fala-se muito pouco sobre esse ouro nos livros. Mas, para desenvolver um bom jogo, eu não podia deixar passar essa em branco. Mais uma vez me salvaram os artigos acadêmicos.

As controvertidas minas de São Paulo (1550-1650), de José Carlos Vilardaga, publicado na revista Varia Historia, vol. 29, nº 51, em 2013.

A Cartografia Primitiva da Baía de Paranaguá (Séculos XVI-XVII) e os Limites da América Portuguesa e A mineração aurífera na ocupação do planalto curitibano e litoral paranaense (séculos XVI-XVIII), de Jefferson de Lima Picanço e Maria José Mesquita, publicados respectivamente na Revista Brasileira de Cartografia n. 67/4, em 2015, e na revista Geosul, v. 27, n. 54, em 2012.

O Paraná na História da Mineração no Brasil do Século XVII, de Antonio Liccardo, Arnoldo Sobanski II e Nelson Luiz Chodur, publicado no Boletim Paranaense de Geociências n° 54, da UFPR, em 2004.

E foi nessa luta que cheguei ao já citado livro A Casa da Moeda de São Paulo, que fala sobre a controversa existência de moedas vicentinas cunhadas na capitania.

Esses textos também foram muito úteis na pesquisa da ocupação do litoral sul. As cidades de Paranaguá, São Francisco do Sul, Florianópolis e Laguna surgiram no período.

Reaproveitei também a pesquisa que já havia feito para o meu mini suplemento de Colônia do Sacramento. Para as relações entre Lusitanos e Castelhanos no Rio da Prata, foi inspiradora a leitura de O Comércio Português no Rio da Prata (1580-1640), de Alice Piffer Canabrava, publicado originalmente em 1842.

Para desafogar a minha carga de leitura, alguns tópicos ficaram a cargo do Ricon: pirataria, moedas, pesos e medidas, tipos de luta, armas e embarcações.

E havia chegado a hora de entrar na Igreja…

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Capítulo 8

Se hoje saúde e educação são questões problemáticas no Brasil, imagina no período colonial. Claro que esse não é um tema central para o jogo, mais são detalhes que dão mais densidade ao cenário. E não há como falar em saúde e educação na colônia sem falar nos Jesuítas.

Sobre saúde, tive a felicidade de encontrar os três artigos abaixo:

Doenças entre Indígenas do Brasil nos Séculos XVI e XVII, de Rosangela Baida, publicado na Revista História em Reflexão, vol. 5, n. 9, da Universidade Federal da Grande Dourados, em 2011. Esse artigo lista as doenças já existentes no continente quando os portugueses aqui chegaram, e as doenças epidêmicas trazidas por europeus e africanos. E ainda faz o favor de usar a terminologia da época!

Saúde e Doença no Brasil Colonial: Prática de cura e uso de plantas medicinais no Tratado Erário Mineral de Luís Gomes Ferreira (1735), de Isaac Facchini Badinelli, é um trabalho de conclusão do curso de História da UFSC, de 2014. Este trabalho analisa um livro escrito por um cirurgião-barbeiro que curava e minerava na região mineira. Só fui ter acesso ao original muito depois, mas o artigo já era suficientemente extenso e detalhado pra precisar consultá-lo. Apesar de se referir a experiências do início do século XVIII, pude tirar muito proveito do texto.

As práticas e os saberes médicos no Brasil Colonial (1677-1808), de Ana Carolina de Carvalho Viotti, é uma dissertação de mestrado em História, da Universidade Estadual Paulista, de 2012. Esse texto me deu a visão geral da prática da medicina da época.

Por fim, o livro que destrincha o papel dos Jesuítas na farmacologia colonial: As plantas brasileiras, os jesuítas e os indígenas do Brasil: história e ciência na Triaga Brasílica (séc. XVII-XVIII), de Fernando Santiago dos Santos, publicado pela Casa do Novo Autor em 2009.

A educação da colônia estava inteiramente na mão da Igreja. Sobre o tema, li o artigo O ensino jesuítico no período colonial brasileiro: algumas discussões, de Alexandre Shigunov Neto e Lizete Shizue Bomura Maciel, publicado na Educar n° 31 em 2008, revista da UFPR.

Já a pesquisa sobre a Igreja e as ordens religiosas foi dividida em duas frentes: sobre os Jesuítas e sobre as demais ordens presentes no Brasil do século XVIII.

Já em O Império do Sol vi o erro em ignorar a existência de outras ordens na ambientação, como se por aqui só houvesse os Jesuítas. Perde-se a possibilidade de elaborar tramas muito ricas. E, se fizesse apenas referências a essas ordens, os demais padres ficariam apenas como figurantes sem profundidade, assim como qualquer trama que os envolvesse.

Então, já na época, incluí Agostinianos, Dominicanos e Franciscanos. Dessa vez, fui mais a fundo e só deixei de fora a ordem dos Oratorianos. Agostinianos e Dominicanos não vieram ao Brasil na época, mas havia Franciscanos, Mercedários, Carmelitas e Beneditinos, pra não falar das subdivisões entre Carmelitas e Franciscanos, também incluídos na pesquisa. Pela primeira vez, decidi distinguir também os padres seculares e os padres conventuais.

Para isso, baseei-me principalmente na Internet, começando sempre no Wikipedia e terminando nos sites relativos às ordens. Também não faltou referência às irmandades, particularmente às irmandades dos homens pretos.

Para a estrutura administrativa e hierárquica da Igreja, além da Internet, foi útil o artigo Os Bispos do Brasil e a formação da sociedade colonial (1551-1706), de José Pedro Paiva, publicado no Texto de História, v. 14, n. 1/2, da Universidade de Coimbra, em 2006.

Como já havia feito o módulo As Missões para o blog, essa foi a minha linha mestra. O livro fundamental na ocasião foi Índios e Jesuítas no Tempo das Missões, de Maxime Haubert. Curioso que comprei esse livro antes mesmo da GSA fechar, aguardando o dia em que fosse escrever sobre o assunto.

Mas As Missões fala essencialmente das missões castelhanas. Já ali eu menciono as diferenças com as missões lusitanas. Para me aprofundar nisso (pois a diferença é relevante), a bibliografia foi a seguinte:

Antigos Aldeamentos Jesuíticos, organizado pelo filósofo e teólogo Gabriel Frade, que fala principalmente dos aldeamentos paulistas.

A Grande Aventura dos Jesuítas no Brasil, do jornalista Tiago Cordeiro, que narra a história da Companhia de Jesus através de seus principais expoentes, seguindo até o Papa Francisco. Na verdade, o “no Brasil” do título é enganoso, pois ele não se limita ao país. Assim, fiquei conhecendo detalhes também das missões no Oriente.

Instruções Secretas dos Jesuítas, de Charles Sauvestre, publicado na França em 1862. Esse texto ecoa outro publicado no início do século XVII, Monita Secreta. Trata-se de uma campanha ferrenha contra os Jesuítas devido ao retorno da ordem à França. Na mesma linha tem o Código dos Jesuítas, de Jules Michelet e Edgar Quinet, publicado também no século XIX. A julgar por estes textos, o nome da ordem deveria ser a Companhia de Lúcifer.

Estrutura e organização das Constituições dos Jesuítas (1539-1540), artigo de Cézar Arnaut e Flávio Massami Martins Ruckstadter, publicado na Acta Scientiarum, v. 24, n. 1, da Universidade Estadual de Maringá, em 2002.

Os Tesouros do Morro do Castelo: Ouro dos Jesuítas no Imaginário do Rio de Janeiro, de Carlos Kessel, publicado na Revista de História Regional, v. 2, nº 2, da Universidade Estadual de Ponta Grossa, em 1997. Uma interessante leitura complementar sobre o assunto certamente é O Subterrâneo do Morro do Castelo, de Lima Barreto.

Controvérsias sobre a pobreza: franciscanos e jesuítas e as estratégias de financiamento das missões no Brasil colonial, de Luiz Fernando Conde Sangenis, publicado em Estudos Históricos, vol. 27, n° 53, da UERJ, em 2014. Jesuítas e Franciscanos viviam às turras.

A disputa entre o Bispo franciscano de Assunção, Bernardino de Cárdenas, e as missões jesuíticas do rio da Prata é célebre. Sobre o tema, recomendo a leitura de Legenda Domino Tesorum Ourum, de Sérgio Conde de Albite Silva, e Jesuítas contra Franciscanos, religião e política na Revolução dos Comuneros do século XVII, artigo de Luís Alexandre Cerveira, publicado na Revista Brasileira de História das Religiões, da Universidade Estadual de Maringá, em 2013.

Muitas biografias sobre jesuítas famosos, escrito ainda na colônia, estão disponíveis nas bibliotecas virtuais já citadas. Por ser um jesuítas que viveu na época abordada, dei uma olhada na Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil, escrita por Padre Manoel da Fonseca em 1752.

Uma leitura que certamente há de ser interessante, mas que ficou de fora da pesquisa, é a Vida do Padre José de Anchieta, escrita pelo Padre Pedro Rodrigues em 1607.

Um que ficou de fora da bibliografia, mas que poderia servir a um eventual módulo nordestino, é o surpreendente Relação de uma missão no rio São Francisco, publicado em 1706 e escrito pelo Padre Martinho de Nantes em forma de diário.

Outra novidade em relação jogo original é a inclusão das Ordens Militares, ligadas à Igreja, como a famosa Ordem de Malta, da qual fazia Villegagnon. No Brasil, a principal era a Ordem de Cristo. Mas em Portugal também havia a Ordem de Santiago e a Ordem de Avis. A pesquisa foi feita basicamente por Internet e pelo artigo Em busca da honra: os pedidos de hábitos da Ordem de Cristo na Bahia e em Pernambuco, 1644-76, de Thiago Nascimento Krause, apresentado no XIII Encontro de História Anpuh-Rio, em 2008. Se você quiser travar contato com o que há de mais conspiratório em termos de história colonial, há o livro A Ordem de Cristo e o Brasil, de Tito Lívio Ferreira.

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Capítulo 9

A Inquisição ficou de fora do livro original porque não havia um Tribunal do Santo Ofício no Brasil. Na verdade, um bom pretexto para não avançar nessa discussão na ocasião. Certamente, num mundo onde a magia indubitavelmente existe, a Inquisição operaria de forma bastante diferente, inclusive em seus objetivos. Outra dificuldade é imaginar como alguém capaz de perpetrar tais horrores fosse também capaz de realizar encantos divinos: ou seja, milagres.

Só fui enfrentá-la em O Império do Sol, pois em Lima havia um Tribunal da Inquisição. Não é um malabarismo retórico fácil. Mas, num cenário onde Deus efetivamente existe e ateu não tem lugar, a hipocrisia também deve ser tratada em outro nível. Mas como abordar isso sem ser incoerente com a ambientação ou “passar pano”, tipo: a Inquisição só persegue aqueles que atuam junto às forças demoníacas?

De qualquer forma, no que diz respeito à pesquisa histórica, o foco foi a estrutura do Tribunal, sua hierarquia e funções, modo de operação, abrangência e ramificações políticas. Eu nunca tinha ouvido falar dos Familiares do Santo Ofício até fazer minha pesquisa sobre Colônia do Sacramento. Acredito que eles são as melhores fontes para as tramas, mais do que os padres inquisidores.

O pontapé inicial começou na pesquisa sobre os Ciganos. Vadios, Heréticos e Bruxas: os degredados portugueses no Brasil-Colônia é uma magistral tese de mestrado em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia, elaborada por Geraldo Pieroni em 1991.

O segundo passo foi encarar A Inquisição Portuguesa e a Sociedade Colonial, de Sonia A. Siqueira. A republicação da Fonte Editorial do original de 1978 foi uma das coisas mais toscas que eu já vi no mercado editorial, a ponto de tornar a leitura um desafio. Mas valeu a pena, pois há uma descrição bastante detalhada de toda a estrutura da inquisição portuguesa e a função de cada membro.

Em seguida, o óbvio O Diabo e a Terra de Santa Cruz, de Laura de Mello e Souza, que fez sucesso nos anos 80. Interessante observar que Laura ataca abertamente o livro de Sonia no texto.

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Capítulo 10

No que diz respeito ao livro original, sempre tive uma predileção pelos personagens indígenas. Mas eles tinham nomes de tribos fictícias e, ao contrário dos nomes dos povos do Velho Mundo, sequer eram nomes que remetiam aos povos nos quais se inspiravam (Tupis, Guaranis, Aimorés, Carijós etc.).

Ao falar sobre o resto do continente, chamamos os Incas de Illimanis. E, ao fazer O império do Sol, comecei a me perguntar se essa havia sido uma decisão acertada. Mesmo sendo uma terra fictícia como Westeros ou Terra Média, o paralelismo histórico (e até mesmo geográfico) era óbvio e escancarado. Então, em vez de preservar, não estaríamos ofendendo? Talvez não tanto ao mar, nem tanto a terra, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Realmente não sei dar uma resposta a isso, mas optei em passar a dar o nome certo aos bois.

E, assim, quando desenvolvi O Sul para o blog, desenvolvi 17 tribos distintas. Claro que, num trabalho assim, não dá para dar protagonismo a todas. Mas até para você fazer um NPC decente e crível, é necessária alguma informação. E desse trabalho anterior eu extraí o formato para essa pesquisa.

Os protagonistas de As Missões, os Guaranis, tem uma importância mais marginal no Desafio dos Bandeirantes, mas eles serviram de espelho para os Tupis, inclusive quanto à densidade. A própria pesquisa anteriormente feita sobre os Guaranis recebeu acréscimos.

Os Tupis certamente são os protagonistas entre os nativos da região dos bandeirantes, divididos entre os três subgrupos ali presentes: Tupiniquins, Tupinambás e Temiminós. Para eles, o pontapé inicial já havia sido dado muito antes, na leitura de O Rio antes do Rio, do jornalista esportivo Rafael Freitas da Silva; seguido pelo 1499 – O Brasil antes de Cabral, de Reinaldo José Lopes, editor de Ciências da Folha de São Paulo; e o romance de Alberto Mussa, A Primeira História do Mundo.

Contribuiu também a leitura dos livros A Religião dos Tupinambás e suas relações com a das demais tribus Tupi-Guaranis, de Alfred Métraux, publicado originalmente na França em 1928; e Tratados da Terra e Gente do Brasil, do padre jesuíta Fernão Cardim, escrito entre 1583 e 1606. E também o ótimo artigo A Terra Sem Mal, o Paraíso Tupi-Guarani, de Eduardo de Almeida Navarro, publicado na Revista de Cultura Vozes nº 2, em 1995.

Assim como em O Sul, não seria possível dar protagonismo a todas as tribos da região, ou sequer retratá-las todas. Mais difícil ainda foi dar a cada uma o mesmo grau de profundidade. Impossível, na verdade. Ainda mais considerando que o foco é retratar a tribo como ela seria no século XVII.

Outro problema foi a denominação, pois muitos nomes eram dados pelos colonos ou eram nomes pejorativos dados pela tribo rival. Sempre tentei evita-los, quando possível.

Tive de garimpar muito pela Internet para achar informações sobre as tribos, e até mesmo saber qual tribo vivia onde na época. Muito me auxiliaram os sites dos Povos Indígenas no Brasil, da Comissão Pró-Índio de São Paulo, e Instituto Antropos.

Os Cainguangues deram uma particular dor de cabeça. O nome atualmente adotado foi cunhado por um fazendeiro paranaense (no século XIX, salvo engano). Sobre eles pude recorrer diretamente ao Portal Kaingang.

Também complicado foi ocupar a região dos Campos dos Cataguazes. Até mesmo a existência dos índios Cataguazes não é muito certa. Para isso, foi muito útil o artigo Indígenas na historiografia mineira: estudo de caso, apresentado por Renata Silva Fernandes no XX Encontro Regional de História: História e Liberdade, em 2010.

Se para os Cataguazes eu pude contar com um pouco de liberdade, para os Xacriabás e Maxacalis, demorou mas achei os seguintes artigos:

O Yãmiyxop como forma de conhecimento: formas do imaginário Maxakali, publicado por Rodrigo Barbosa Ribeiro na Avá – Revista de Antropologia, n. 19, da Universidad Nacional de Misiones, em 2011.

Metamorfose na Literatura Maxacali, publicado por Charles Bicalho na Em Tese, v. 19, n. 3, da UFMG, em 2013.

A produção do espaço no território Xacriabá: aldeias Imbaúbas e Caatinguinha, dissertação em 2014 da Escola de Arquitetura da UFMG, escrita por Déborah Cimini Cancela Sanches.

Os Maxacalis revelaram ter um mundo espiritual bastante rico, e para melhor entendê-lo seria necessária uma pesquisa mais aprofundada. Pra piorar, os nomes dos espíritos são impronunciáveis sem um conhecimento e sua língua, gerando dúvidas se seria sensato usá-los dessa forma ou não.

Dois importantes rivais dos Tupis, os Goytacazes e os Aimorés, foram construídos por pesquisa virtual. E adotei a interpretação do Mussa que os Puris e os Coropós são parentes dos Goytacazes. E alguma ligação é sugerida com os Acritós, que entram como mais uma das tribos, conforme a fórmula adotada em O Vale dos Acritós.

Sobre os Puris, em particular, encontrei o artigo Os ìndios Puris do Vale do Vale da Paraíba Paulista e Fluminense, apresentado pelo Coronel Cláudio Moreira Bento no XII Simpósio de História do Vale do Paraíba, em 1995.

Por fim, como a ambientação chegava à Colônia do Sacramento, tive de reaproveitar os Charruas de O Sul. Mas dessa vez pude contar com um reforço de peso, um livro comprado em Montevideo: Nuestro Pasado Indígena, de Fernando Klein.

Chamar o líder espiritual da tribo de Pajé até faz sentido quando estamos no Brasil. Do outro lado da fronteira, não faz sentido algum. Pajé é para Tupis e Guaranis (e mesmo entre estes, há controvérsias). Então busquei o nome específico para cada tribo. Quando não consegui, usei o nome genérico, Xamã. Ainda que, bem sabemos, a origem do termo é longínqua, esse é o termo oficialmente utilizado pelos antropólogos e profissionais do ramo.

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Capítulo 11

Por fim, a cereja do bolo: os mitos e lendas. Acredito que a parte de magia e as criaturas sejam os elementos mais chamativos da ambientação.

No livro original, a nossa bíblia foi o Dicionário de Mitologia de Hernâni Donato, publicado em 1973, que faz um apanhado meio aleatório da mitologia de determinados povos africanos e das três Américas, indo da Terra do Fogo aos Esquimós. O livro era do Carlos Klimick, e consegui adquirir um volume via Estante Virtual.

Como ele é pouco conhecido, alguém passou a dizer que inventamos o Kanaíma. Na verdade, trata-se de uma lenda interessantíssima da Venezuela e Guianas que simplificamos para o jogo. Algumas de fato inventamos.

Touro Negro foi 100% criação nossa. Mas, pesquisando sobre mitos da América Espanhola, descobri uma lenda muito similar. Então nos safamos.

Escorpião Gigante foi uma criatura usada de improviso em um playteste. Como gostamos do resultado, incorporamos.

Cão da Meia-Noite é uma lenda que existe, mas não tem nada a ver com o que está no jogo e sequer é interessante. Já o nome é bem sugestivo, e o usamos para incrementar o rol de criaturas demoníacos.

Ahor existe, é o Ahó-Ahó. Como na época vivíamos preocupados com o preconceito com o qual o jogo poderia ser recebido, acabamos nós mesmos sendo vítimas de uma auto censura. Assim, jogamos um raio gourmetizador na lenda e a rebatizamos de Ahor.

Marajigoana e Jurupari são duas criaturas do livro que nada refletem suas lendas originais. Baseadas em uma e outra frase solta que serviu de inspiração para montar uma essas criaturas. Como a criatura nomeada de Jurupari ficou muito maneira, penei para achar um outro nome que tivesse algum sentido dentro da cultura indígena. Mas achei!

Dessa vez, recorri mais ao Câmara Cascudo: o excelente Geografia dos Mitos Brasileiros, o meu livro favorito sobre o tema, que devorei para fazer o suplemento Lendas, para Era do Caos; e o Dicionário do Folclore Brasileiro, um tijolo considerável, que me lembro de ter consultado na biblioteca da PUC nos anos 90, mas não lembro para qual trabalho.

Também lancei mão da minha bíblia usada em O Sul: Seres Mitológicos Argentinos, de Adolfo Colombres. Muitos mitos da região do Prata são também citados em livros do folclore brasileiro, ou com outro nome ou com uma descrição alternativa.

No livro original, não houve muita preocupação sobre a origem cultural e territorial das lendas. Afinal, não se tratava do Brasil. Então na região dos bandeirantes havia lendas da Amazônia, do Nordeste, do Rio da Prata, indiscriminadamente. Só evitamos as regiões mais diferentes, como Patagônia, Chile, Andes. Dessa vez, a orientação foi para sermos mais regionais.

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Anexo 1 – O Império do Sol

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Muitas coisas poderiam ter sido feitos na esteira do livro básico de O Desafio dos Bandeirantes: livro de aventuras, módulo de expansão, suplementos à ambientação. E, de tantas opções para expansão, por que eu fui escolher O Império do Sol?

Certamente, não foi por fins comerciais. Essa é uma falha minha. Não consigo fazer nada inspirado por interesses comerciais. Nem mesmo amizade. Se fico amigo de alguém que pode me abrir portas, para mim é como se uma porta se fechasse.

Quando eu era criança, ganhei da minha mãe uma enciclopédia juvenil. Em um dos volumes, havia uma foto de duas páginas de Machu Picchu. Aquela foto me deixou chapado, e jurei que um dia ia conhecer aquele lugar. Depois meus pais compraram uma nova edição da coleção histórica da Life, e nela havia um volume sobre Civilizações Pré-Colombianas, o que fez eu me inteirar mais sobre o tema. E não preciso dizer que minha revista predileta do Tintim na época era O Templo do Sol.

Enfim, levei 30 anos para conhecer Machu Picchu ao vivo e a cores, mas posso dizer que, uns 13 anos antes, conheci-a muito bem à distância, antes da Internet e dos Google Maps da vida. Ao chegar nas ruínas, tinha uma boa noção para onde ir.

Tudo aconteceu no primeiro semestre de 1994. Nem sei se cheguei a buscar alguma coisa em biblioteca ou quem me sugeriu buscar o consulado do Peru, que fica na avenida Rui Barbosa, no bairro do Flamengo, em um apartamento de andar inteiro. Inicialmente fui atendido com frieza. A secretária me mostrou um quartinho logo ao lado da entrada, que devia ser a antiga chapelaria do apartamento. Estreito, sem janelas (no máximo um basculante alto para o hall) e nem muito profundo. Havia estantes tomando as duas paredes laterais, e, ao fundo, uma mesinha e uma cadeira. Fiquei horas ali folheando todos os livros e analisando minhas possibilidades. Tive certeza que, com aquele material, meu livro estava garantido. Só tinha um problema: nenhum livro poderia ser tirado de lá.

Do segundo dia em diante, o tratamento passou a ser outro. Passei a ser recebido com sorrisos e regalias crescentes. Minha rotina era pegar carona com meu pai, que me deixava por ali por volta das 11 da manhã. E saía, inicialmente, no final da tarde. Posteriormente, tarde da noite. Chegou ao ponto do Vice-Cônsul se despedir de mim, me deixando sozinho com a copeira, uma negra peruana chamada Tereza, que ficava fazendo a limpeza. Então ela vinha me servir misto quente e Coca-Cola. E eu, que não queria deixar uma migalha sequer na minibiblioteca, não levava sequer um biscoito. Minha única refeição era uma barrinha de chocolate branco que ia consumindo ao longo do dia com muita parcimônia, deixando derreter na boca. E era branco pra não correr o risco de borrar algum livro. Isso durou de três a quatro meses.

Abaixo a lista do material consultado in loco:

Artesanatos, transaciones, monedas y formas de pago en el mundo andino: siglos XV y XVI – Tomo I, do etno-historiador Waldemar Espinoza Soriano. Esse livro me deu informações sobre toda a estrutura financeira do Vice-Reino.

Documental del Perú – Enciclopedia Nacional Básica. 25 volumes. Cada volume era um livreto sobre um departamento peruano (o equivalente ao nosso estado). Incluía detalhes sobre cultura, geografia, história e lendas. Só estava faltando um volume, já não me lembro de qual departamento.

El mundo andino en la época del descubrimiento, elaborado pela Comissão Nacional Peruana do V Centenário do descobrimento.

Gran Geografia del Perú – Naturaleza y Hombre. Trata-se de uma obra em três volumes. Utilizei o Volume 1, Geografia física / Geologia, e o Volume 3, Fauna, de onde eu pude extrair todas as informações possíveis sobre a fauna peruana e sua distribuição territorial, bem como sobre os diversos ecossistemas do país, que é bem diversificado.

Historia del Tahuantinsuyo, da renomada historiadora Maria Rostworowski de Diez Canseco. Uma grande fonte sobre a época incaica.

Tradiciones Peruanas Volumes 1 e 10, e Tradiciones Peruanas (Selección), do escritor e político Ricardo Palma. Essa é uma obra clássica, de contos históricos. Comprei o original muitos e muitos anos depois.

Teatro Quechua Colonial – Antologia, uma compilação da dramaturgia quéchua na época colonial.

Pequeña Antologia de Lima (1535 – 1935), do historiador, diplomata e senador Raúl Porras Barrenechea, publicada em 1935. Trata-se de uma compilação de ensaios, crônicas e tradições limenhas publicadas ao longo de quatro séculos.

Por fim, os volumes 1 e 2 de Historia general de los peruanos (11ª edição), que balizou historicamente toda a minha pesquisa.

O primeiro volume era El Perú Antiguo, escrito pelo antropólogo, arqueólogo e historiador Federico Kauffmann Doig. O segundo volume, El Perú Virreinal, foi escrito por Raúl Porras Barrenechea (já devidamente apresentado), pelo historiador e sacerdote jesuíta Rubén Vargas Ugarte, e pelos historiadores Luís A. Pardo, Enrique Docafe e J. M. Valega.

Pois bem, na época não tinha tablet, notebook, nenhuma dessas facilidades. Era tudo anotado em caderno mesmo. Certa noite, estiquei do consulado direto pro Baixo Gávea. Carregava comigo uma pasta azul com meu caderno de anotações, uma agenda com um marcador de livros do Spock, que o Klimick havia me dado de presente, e um rolo de papel higiênico para “eventualidades” (item necessário para quem mora em Jacarepaguá e passa o dia inteiro fora de casa).

Pois bem… Àquela altura eu já havia devorado todos os dois volumes da Historia general de los peruanos e já estava em outras publicações. Provavelmente já com um mês de pesquisas nas costas. Estava sentado com amigos em um daqueles bancos do BG. Saímos andando e, a certa altura, dei falta da pasta. Voltei correndo, mas a pasta não estava mais lá. Desespero!

Quando voltei ao consulado, contei a minha história triste e eles ficaram penalizados, a ponto de liberarem os dois volumes da Historia general de los peruanos para eu tirar xerox. Não me lembro quanto tempo se passou (no mínimo duas semanas) para alguém entrar em contato dizendo que havia encontrado minha pasta. Ela morava na Gávea mesmo, rua Major Rubens Vaz. Justificou a demora por ter viajado logo depois de ter encontrado a pasta.

Provavelmente alguém a afanou pra procurar algo de útil e a deixou largada em outro banco. Mas a razão dos dois itens faltantes permanece um mistério: o marcador do Spock e o papel higiênico.

Enfim, terminei a pesquisa e me despedi emocionado do pessoal do consulado. Finalizei o trabalho com o material que tinha em casa, compilei tudo como um “Dossiê Peru” e imprimi duas cópias para, junto com os outros autores de O Desafio dos Bandeirantes, transformá-lo em um módulo do jogo. Para minha frustração, nenhum deles se interessou. Então tive de me virar sozinho. Coisa que nunca havia feito ou gostado. E continuo sem gostar.

Terminado o trabalho, imprimi, de novo, duas cópias para os dois, aguardando algum retorno crítico, sugestão de mudança etc. Nada. Nenhum feedback. Só me restou, então, entregar pra GSA do jeito que estava, no aguardo de alguma orientação editorial. A resposta da editora foi no sentido de que o material parecia ser um novo livro-básico, e que eles haviam decidido não publicar mais nenhum jogo novo, que Millenia seria o último.

Assim, todo esse material serviu apenas para apimentar minha campanha de sete anos de Bandeirantes. Quando terminei minha campanha (inacabada), por volta de 2001, nunca mais mestrei. Até que, em fins de 2007, a minha esposa me convenceu a montar um grupo pra apresentar RPG a uma amiga minha do trabalho, cujo irmão jogava quando garoto, mas sempre a deixava de fora.

Com esse retorno ao jogo, me empolguei e decidi disponibilizar todo o material de O Império do Sol em um blog, junto com todas as alterações nas regras que eu havia feito ao longo de todos esses anos. Algumas, inclusive, para serem publicadas em O Império do Sol, e que foram divulgadas em 94/95 no site do Emerson Costa, um antigo entusiasta paraense do Bandeirantes.

O que eu fiz para essa nova edição de O Desafio dos Bandeirantes pode ser mais do mesmo na vida de um acadêmico, mas pra mim foi uma conquista. Ainda mais considerando que eu tenho de dar conta de um trabalho regular e ter casa e família pra cuidar. Pra não falar que a idade já não me permite mais varar noites insones (para cumprir um deadline na época da Akritó, trabalhei direto de quarta a sexta-feira, só parando para comer e ir ao banheiro). Eu realmente não me sentia capaz de fazer o que eu fiz. E nem me dei conta do que eu estava fazendo. Isso teve um impacto positivo na minha vida. Afinal, sempre me considerei um leitor lento e preguiçoso, excessivamente distraído.

E o que mais me surpreendeu foi que, por um momento, eu cheguei a acreditar que havia sido a primeira vez que tivesse feito algo do gênero. Mas, não. Foi naquele semestre de 1994, no Flamengo, naquele quartinho do Consulado Geral do Peru. Por que, então, em todos esses anos, eu não fui capaz de perceber aquele período da mesma forma, como uma conquista? Talvez a indiferença e a não publicação do material me tivessem feito vivenciar tudo como um fracasso. E, ainda que posteriormente tivesse me reconciliado com esse passado, sequer cogitei em tirar disso alguma lição de vida ou incentivo.

Anexo 2 – O Sul

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Por volta de 2015/2016, quando vi que algumas pessoas tinham se dado ao trabalho de organizar o material de O Império do Sol para pdf, tive a ideia de continuar o trabalho. Meu sonho, desde o início, lá em 1992, era completar todas as regiões da Terra de Santa Cruz descritas no livro básico, e, quem sabe, partir para o Continente Negro. Mas essa ideia de avançar não veio assim do nada.

Eu tinha aquele ótimo livro sobre as Missões mofando na estante. Havia, de impulso, comprado um livro sobre mitologia argentina em uma das minhas viagens a Montevideo (a família da minha esposa é de lá). Por fim, na minha campanha dos anos 90, eu havia pesquisado lendas da Patagônia para um trecho dela. Percebi que já tinha material para alguma coisa.

Logo me dei conta que toda aquela região – Chile, Bolívia, Argentina e Paraguai – era indissociável, e acabei abarcando tudo. Mas como não havia, dessa vez, nenhuma expectativa de publicação, a pesquisa foi menos rigorosa e quase toda feita por Internet.

De material específico, encontrei em pdf:

Los Aónikenk – Historia y Cultura, de Mateo Martinic, publicado em Punta Arenas.

Los Brujos de Chiloé. Célebre Proceso del Juzgado de Ancud. Declaraciones e los reos é o registro histórico de um julgamento ocorrido em 1880, publicado em Santiago do Chile em 1908.

Los Chono y los Veliche de Chiloé, investigação histórico-etnográfica realizada pelos professores Renato Cárdenas, Dante Montiel Vera e Catherine Grace Hall, publicada em Santiago do Chile. O estudo analisa os povos de Chiloé e demais ilhas da região.

El Mundo Espiritual de los Selk’nam – Volumen 1, publicado originalmente em Viena, em 1931, foi escrito por Martin Gusinde, padre austríaco e etnologista. Seu trabalho destrincha a cultura dos nativos da Terra do Fogo.

Os Chiquitano de Mato Grosso: estudo das classificações sociais em um grupo indígena da fronteira Brasil-Bolívia, artigo de Renata Bortoletto Silva, da USP. Os Chiquitanos são protagonistas da maior experiência missionária depois das missões do Sul. E foram as únicas que se mantiveram prósperas após as expulsões dos Jesuítas.

Também foram bastante úteis os sites Diccionario de Historia Cultural de la Iglesia en América Latina, Voces de la Tierra e Tempo Ameríndio, além do que já foi mencionado sobre os Guaranis e as Missões.

Às vezes me perguntam por que eu não publico todo esse material, por que não faço print on demand… Talvez eu faça um dia. Quem sabe quando eu terminar toooooda a Terra de Santa Cruz. Por enquanto, encaro tudo isso como um trabalho eternamente em andamento. E sem fins lucrativos.

Além do mais, toda vez que penso em tentar ganhar algum dinheiro com isso, mais atrapalha do que ajuda. Por mim, qualquer publicação ou iniciativa relacionada a O Desafio dos Bandeirantes poderia ter sua renda revertida a alguma causa nobre confiável. Sinceramente, trabalharia (e pesquisaria) feliz assim, pois, para mim O Desafio dos Bandeirantes sempre teve a ver com o prazer de fazer.

Quando o dinheiro entra em campo, as pessoas começam a se tornar mesquinhas, preocupadas em agradar, pensando no que “o mercado está pedindo”. Creio que um trabalho que mira o público, o mercado, tende a ficar datado. Não creio que, se o livro de 1992 tivesse sido escrito com essas preocupações, ele teria virado um cult. Aliás, nem teria sido sobre folclore brasileiro.

Na proposta imaginada para o financiamento coletivo dessa edição de 25 anos, a ideia era alternar um relançamento com um material novo. Ou seja, alternadamente com O Império do Sol, O Sul e As Missões, viriam um novo Quilombos da Lua e um novo Vale dos Acritós, levando também em consideração a passagem do tempo. Haveria também uma nova versão para A Floresta do Medo / O Engenho. E as ideias não param por aí: “O Desafio do Sertão”, “A Grande Floresta”, vilas, piratas etc.

Published in: on 2 de fevereiro de 2019 at 2:32  Comments (2)  

ITENS MAGICOS

Bolsas de Mandinga

As bolsas de mandinga começaram a ser usadas a pouquíssimo tempo em Santa Cruz por negros de origens distintas, mas principalmente entre os Fon e Yorubá. Trata-se de um misto de amuleto e poção embrulhado em pano fino, geralmente amarrado ao pescoço.

Nessa pequena bolsa podia haver de tudo: pó, pedras, ervas, sangue, ossos e até pergaminhos com escritos que, reunidos e atribuídos a eles um determinado poder por meio de ritual, dava a seu possuidor a capacidade de fazer magia ou algum tipo de proteção. O que é o mais comum. As bolsas são feitas de pano, quase sempre branco, e servem basicamente para que seus portador não seja ferido.

Cruz de Itapycyrycaá.

A cruz de madeira que fica em frente à capela da Aldeia de Itapycyrycaá, protege todo o terreiro de atividades malignas, impedindo que qualquer demônio se faça presente.

Imagem de Nossa Senhora da Candelária

Imagem localizada na igreja matriz da Vila de Nossa Senhora da Candelária do Ytu Guaçu. Aqueles que participam da missa realizada na igreja saem de lá revigorados, aliviados de toda a Fadiga do corpo.

Imagem de Nossa Senhora de Montserrat

Imagem na capela de Nossa Senhora de Montserrat, localizada no alto do Morro São Jerônimo, na Vila de Todos os Santos. O poder da imagem, ativada pela intensa reza dos fiéis e canalizada pelo padre, é capaz de criar um grande efeito do encanto Ventura.

Imagem de São Miguel

Localizada na capela da Aldeia São Miguel, às margens do rio Tietê. Com rezas fervorosas, em missas cheias, a imagem produz o efeito do encanto de Cura. No entanto, ela só produz esse efeito dentro da capela, não podendo ser transportada para outro local. Pelo menos isso é o que diz os Jesuítas.

Na verdade, o uso da imagem possui um efeito colateral. Toda vez que a imagem é usada para esse fim, um evento negativo ocorre em outro local. Por isso os Jesuítas não só evitam ativá-la como procuram esconder seus efeitos.

Imagem do Senhor Bom Jesus de Iguape

Localizado no altar da igreja de Nossa Senhora das Neves, a imagem é fonte de peregrinação. Antes de compor o altar, os nativos a haviam encontrado na praia em meio a restos de um naufrágio, e perceberam que, não importava em que posição ela fosse colocada, seu rosto sempre acabava se virando ao poente.

Em uma igreja, seu poder é inútil, pois se trata de uma imagem que servia como bússola para os viajantes, sempre mirando o oeste. Seu poder é totalmente desconhecido pelos padres e habitantes da vila. Aqueles que o conheciam provavelmente morreram no naufrágio.

Machados da Lua

Machados utilizados pela mítica tribo dos Cupendiepes, assim chamados por seu formato de lua minguante. Tais machados tem a capacidade de cortar qualquer material sem levar em conta sua absorção. Esse poder não é próprio da arma, mas da pedra com que os Cupendiepes a fabricam, retirada do fundo da montanha onde vivem. Por isso os nativos da região, que sofrem com os ataques noturnos dessa tribo-morcego, anseiam em ter em seu arsenal alguns machados da lua.

Mas o nome do machado vai além de seu formato. A propriedade da pedra mostra sua natureza mística ao só funcionar sob o luar. Por isso os Cupendiepes raramente são vistos em noites de lua nova ou de céu nublado.

Maracá

O maracá é um instrumento musical utilizado pelos xamãs nativos, particularmente os Pajés, formado por uma cabaça na qual são introduzidas sementes ou pedras, funcionando como um chocalho. Sua função é servir como receptáculo de um espírito.

O objeto não tem poder por si só, apenas quando manipulado pelo xamã. É com o poder mágico deste que o instrumento é ativado e consegue manipular a força dos espíritos. Uma vez convocado, o xamã é capaz de fazer pedidos ou perguntas ao espírito.

Os maracás, geralmente usados em par, ficam nas mãos do xamã ou fixadas no chão, muitas vezes com o auxílio de uma flecha, que a atravessava de lado a lado.

Ossos de Anchieta

Os ossos do padre jesuíta José de Anchieta, conforme estudos realizados em Roma com seu fêmur, possuem poderes sagrados. Quem o detém é capaz de realizar os feitos do encanto Meditação.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 12:59  Deixe um comentário  

DAS CRIATURAS INFERNAIS*

Algumas criaturas infernais parecem ter seguidos os europeus até o Novo Mundo. Outras parecem próprias destas terras. Seres malignos são suscetíveis ao exorcismo e aos encantos divinos, e não podem adentrar solo sagrado.

Cão da Meia‑noite

Trata-se de um enorme cão negro extremamente feroz e da altura de um homem. Suas garras compridas podem dilacerar um homem num instante. De seus olhos desprendem fogo e de sua boca sai chamas curtas. Ele se alimenta de carne humana.

Ele ataca exclusivamente à noite, mas há um único relato de atividade durante dia. Porém, havia uma neblina extremamente espessa que tornava o sol uma abstração.

Sua aparição é atribuída a uma conjuração da criatura com o objetivo de proteger uma fazenda. Para manter o seu serviço, contudo, é necessário oferecer-lhe um homem a cada ano. Caso contrário, deixará de obedecer ao dono. Só pode ser morto se decapitado.

Considerações adicionais: fora a hipótese do fazendeiro ser um bruxo, o dono deste cão infernal provavelmente fez um pacto com o Diabo ou contratou um bruxo para conjurá-lo.

Demônios

Alguns demônios possuem aparência semi-humana, com olhos de serpentes e pequenos chifres na testa. De cor parda, cinzenta ou avermelhada, variam entre 1,50m e 2m de altura. Suas peles são quentes e ásperas, podendo causar queimaduras em contato prolongado. Possuem garras curtas como a dos animais. Estes são os demônios mais comuns, mas há outros com características específicas. Só podem ser mortos por decapitação. É mais fácil exorcizá-los.

Considerações adicionais: demônios são muitas vezes vistos como sendo todos iguais, mas não é bem assim. Eles são um reflexo da humanidade, com uma grande variação de tipos.

Diabo

O Diabo tem muitas formas. Homem alto, forte, com pequenos chifres escondidos sob um chapéu negro, vestido com roupas negras. Demônio de pele vermelha e olhos de fogo, com chifres na testa. Um homem bonito e sedutor. Um touro. Um cão. Um anjo.

O Diabo tem vários nomes, não só devido às diferentes culturas, mas também porque o povo evita mencionar o seu nome, com medo de que isso seja uma forma de invocá-lo.

Cada cultura possui uma visão própria da personificação do mal. Para cada uma delas ele aparecerá como é imaginado por aquelas pessoas. Para os Incas, seu nome é Súpay, o Senhor do Caos.

Seja qual for sua aparência ou alcunha, chega para causar complicações, desespero, desilusão, mesmo a morte. Mas nunca atacará de forma direta. Usará seus poderes para iludir, manipular, seduzir, corromper. Só age diretamente em relação àquele que se dispôs a fazer algum tipo de acordo. Se, ao fim, o Diabo levar a alma da pessoa, estará apenas tomando o que é seu por direito.

Considerações adicionais: o Diabo possui um poder infalível, mas sua ação em nosso mundo se evidencia limitada. Por algum motivo, que só pode ser de origem divina, ele não pode agir diretamente sobre as pessoas. Ele precisa, portanto, seduzir a pessoal para o seu lado a fim que possa agir através dela. Além dessa limitação, símbolos e solos sagrados impõem-lhe restrições. O Diabo não resiste a um desafio. Caso perca, o que é difícil, cumprirá fielmente o que quer que tenha prometido. Normalmente, o que o desafiante mais deseja é que o Príncipe da Trevas o deixe em paz. Como qualquer demônio, ele também pode ser exorcizado, o que demanda um enorme esforço mágico.

Famaliá

Infelizmente, uma triste prática do velho continente atravessou o Mar Oceano junto com os colonos: o Famaliá. Os processos conduzidos pela Santa Inquisição descobriram esses pequenos demônios enegrecidos presos dentro de uma garrafa.

Seus proprietários podem ser bruxos ou alguém que com eles aprendeu o ritual que aprisiona o diabinho. Uma vez aprisionado, o demônio deve servir ao seu algoz como um escravo. E, enquanto estiver dentro da garrafa, assim o fará.

O ritual é trabalhoso, mas de simples compreensão para quem não é iniciado em magia negra. Uma vez realizado, tudo o que a pessoa precisa fazer é manter a garrafa em lugar seguro e alimentar o cativo com pó de ferro.

Sobres as vantagens adquiridas por meio dessa prática macabra, é perceptível a bonança que usufrui o proprietário de um Familiá. Seus negócios vão de vento em popa; a colheita é sempre generosa. Contudo, no final e ao cabo, o preço a ser pago será a própria alma.

Considerações adicionais: crime da mais alta gravidade e dos mais atacados pelo Santo Tribunal, não há notícia desses pequenos demônios nas vilas. Também é difícil comprovar a sua ocorrência, pois muito do que se diz a respeito é mais fruto da inveja do que de sortilégio. Mais muito se fala da existência de Familiás no interior, particularmente na região mineira, distante das leis dos homens e das leis de Deus.

Touro Negro

Aqueles que dominam as forças ocultas são capazes de conjurar um enorme touro de cor negra, com olhos e cascos incandescentes e que lança baforadas de fogo de curto alcance.  A criatura é gigantesca, com cabeça redonda, algo entre humana e taurina, ostentando chifres de ouro. Eles solta fumaça pelas ventas e seus bramidos lembram uma trompa.

O Touro Negro corre à noite pelos campos espalhando o medo e a destruição. Não é que ele só apareça nos campos, mas um desfiladeiro ou um pântano são ambientes pouco propícios para sua ação.

Geralmente ele é conjurado para proteger uma fazenda, perseguindo os ladrões de gado implacavelmente, garantindo ao proprietário muita prosperidade. Para que se mantenha nessa função sem causar transtornos para o próprio senhor de terra, será necessário realizar um pacto com o Diabo. Quando o fazendeiro morrer, o Diabo carrega a sua alma e também todo o gado, deixando os pastos vazios.

Nas terras castelhanas, essa criatura maligna é conhecida pelo nome de Touro Súpay.

Considerações adicionais: apesar do caráter protetivo desse touro diabólico, não é incomum sua aparição como besta desgovernada, incendiando e destruindo vilas e plantações. Talvez tais ocorrências sejam provocadas por conjurações amadoras. Como toa criatura demoníaco, é passível de exorcismo. Difícil é manter a concentração ante sua carga mortal.

*Compilação extraída do bestiário de Padre Maurício

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 12:36  Deixe um comentário  

DOS ESPÍRITOS QUE RONDAM*

Os espíritos abaixo listados são vistos nas regiões habitadas pelos nativos a eles vinculados. Mas é possível que tais espíritos também se manifestem em outras matas e recebam das outras tribos nomes distintos.

Anhangá

O Anhangá é um espírito que protege os animais da floresta contra os nativos que abusarem da caça para destruí-los inutilmente. Com a chegada dos colonos e escravos negros, seu trabalho tem aumentado. Todo aquele que persegue um animal que amamenta corre o risco de ver o Anhangá.

Quando se manifesta, este espectro toma a forma física de um animal, adquirindo uma coloração branca e olhos vermelhos como fogo. Por isso ele também pode ganhar diversos nomes, de acordo com a forma animal que incorpora: Miranhanga, Tatu-anhanga, Suaçu-anhanga, Tapira-anhanga, Pirarucu-anhanga. Os lugares que frequenta são mal-assombrados, com forte presença de espíritos e forças astrais.

O Anhangá não devora, nem mata. A sua visão é capaz de trazer a febre e, às vezes, a loucura. Também é de provocar ilusões, fazer que, ao procurar a caça abatida, em vez de encontrar o animal, o caçador veja a própria mãe ou coisas do tipo.

Considerações adicionais: por ser a manifestação de um espírito, é possível que este ser possa ser combatido com exorcismo. Entretanto, é importante não confundir o espírito protetor da caça, Anhangá, com os Anhangas, as entidades maléficas que habitam as matas, dedicadas a capturar as Angueras, as almas tupis que tentam alcançar a Terra Sem Mal. É possível que o Anhangá seja um Anhanga mais preocupado com o que acontece no mundo dos vivos do que com as almas que percorrem o reino dos mortos.

Angaba

Angaba é a assombração das matas da Serra de Paranapiacaba. Poucos tiveram a oportunidade de vislumbrá-la, e a descrevem como uma sombra viva que se funde à escuridão da noite. Alguns afirmam que tem a forma humana.

Quando chegaram aos Campos de Piratininga, os Jesuítas tomaram a sombra maligna por Jurupari, uma entidade cultuada pelos Tupis. Mas em alguns anos o equívoco se mostrou evidente. Os nativos temem a criatura mais do que os colonos, que, na verdade, pouco a conhecem e até mesmo duvidam de sua existência. E suas aparições também parecem ser restritas a determinados locais, sendo um deles o caminho do Padre José.

Sua natureza maligna parece ser atraída pela luz da vida, a alma humana. Durante o sono, Angaba se aproxima do corpo da vítima e parece a estrangular. Contudo, exatamente como uma sombra, a criatura não tem consistência, não tem matéria, e os golpes e tiros apenas golpeiam o ar.

O Angaba parece ser sensível à luz intensa e padres atestam a efetividade do exorcismo. Mas ou existem muitos Angabas ou o exorcismo apenas o espanta por alguns dias, pois ele sempre há de reaparecer na mesma área.

Considerações adicionais: como uma sombra poderia estrangular uma pessoa? Talvez não seja o ar que falte ou a garganta que lhe aperte, mas os gemidos de dor e sofrimento sejam da alma que lhe está sendo tirada do corpo.

Añás

Añás são almas dos Guaranis que tiveram má sorte, por suicídio ou agonia prolongada, transformando-se em espíritos de natureza maligna.

Assim como os Anhangás, esses espíritos são capazes de tomar a forma física de um animal em particular, mas não para proteger a caça, e sim para prejudicar a vida dos homens. Porém, eles não podem se se manifestar ou agir nas aldeias e vilas, pois sua força está diretamente ligada à floresta, fora da qual não possui energia para manter sua forma física.

O rei dos Añás chama-se Añá-Tumpa, inimigo de Tupã e senhor do submundo.

Boyguasu-Tumpa é um añá que possui forma de serpente e castiga aqueles que se submetem às leis do submundo e não a obedecem, atravessando-os com uma flecha invisível. A flecha provoca enfermidade e morte, que só pode ser evitada por magia.

Considerações adicionais: segundo os Tavyterã, os Añás podem ser exorcizados e mantidos afastados com o fogo. Diferentemente do Anhangá, cada Añá está vinculado a apenas uma forma animal, cada qual com uma característica especial, enquanto os Anhangás são todos iguais. É possível que haja alguma conexão dos Añás com os Angües, as almas guaranis impedidas de adentrar a Terra Sem Mal e encontrar seu repouso. Os Angües tentam continuamente invadir o Paraíso dos Guaranis. Talvez os Añás tenham sido Angües no passado, que desistiram de entrar na Terra Sem Mal e migraram para o submundo.

Kerpimanha

Para os Tupis, Kerpimanha é a origem dos sonhos, um espírito mensageiro enviado pelos Criadores. Os nativos a descrevem como uma velha bondosa que desce do céu e entra no coração deles, permitindo que alma vague mundo afora, só voltando ao despertar.

Quando a alma retorna, encontra um recado deixado por Kerpimanha. Quando não há recado, a pessoa recorda de seu voo noturno como um sonho. Quando há mensagem, as lembranças dessas andanças se apagam e o recado se torna a lembrança do sonho. O problema é saber qual é qual.

Considerações adicionais: sem a Kerpimanha, o corpo esfriaria durante o sonho e a alma não retornaria. Será que esse espírito se relaciona apenas com os Tupis ou pode se relacionar também com nativos de outra tribos ou mesmo com os colonos?

Yaguareté-Jhi

O Yaguareté-Jhi surge quando uma onça negra é possuída pelo espírito de um homem bom e nobre que foi assassinado. O objetivo dessa possessão é vingar a morte. O espírito do morto terá pleno domínio do corpo da onça e consciência de suas ações. Ao atingir seu objetivo, o espírito deixará a onça e partirá deste plano. Nada o impede de desistir da vingança e seguir seu caminho mesmo assim.

Considerações adicionais: apesar de inteligente, a onça não fala. Mas talvez seja possível identificar a alma humana dentro do corpo de onça de alguma forma. Segundo os pajés, é possível conversar com o Yaguareté-Jhi em uma viagem astral. E, como se trata de uma possessão, talvez seja possível exorcizá-la.

*Compilação extraída do bestiário de Padre Maurício

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 12:34  Deixe um comentário  

DOS SERES ENCANTADOS*

Os seres encantados podem ser encontrados em qualquer parte do Novo Mundo, ou mesmo do velho continente. Tanto no campo como nas cidades. Eles têm como origem maldições ou feitiços que saíram do controle.

Capiango

Habitat: Relatos sobre sua aparição foram registrados na Província do Guayrá e nas capitanias de São Vicente e Paranaguá. Mas sua natureza não apresenta nenhum limite de atuação.

Capiango é um homem que se transforma em onça, passando a atacar sem amor ou piedade. Ele tem origem quando alguém que não domina o feitiço de Metamorfose realiza um ritual específico para se transformar em onça. Este ritual inclui uma pele de um a onça, de qualquer parte do corpo, que a pessoa deverá vestir, e um coração do felino, que deverá ser comido. Não poderá ser qualquer pele de onça, mas uma pele já preparada em ritual mágico para esse fim.

Por não ter familiaridade com o feitiço, a pessoa perde facilmente o controle sobre a transformação e de suas ações. Uma vez transformada em onça, ela em o homem como vítima preferencial. Seu pelo é à prova de balas, sendo necessário acertar os olhos ou a boca.

Essa perda de controle não ocorrerá necessariamente nas primeiras transformações, mas acontecerá progressivamente. Quando o descontrole atingir seu ápice, o ritual se tornará desnecessário e a transformação ocorrerá de forma natural, passando a ser parte da natureza da pessoa.

Considerações adicionais: o Capiango pode ser tanto o monstro a ser batido ou a pessoa a ser salva, caso o grupo deseje desfazer os efeitos do ritual. Pode ser pensado também o motivo que levou a pessoa a fazer o ritual.

Corpo-Seco

Virar um Corpo-Seco é o destino de toda pessoa que passou pela vida semeando malefícios e que maltratou a própria mãe. Quando ela morre, nem Deus nem o Diabo o querem. A terra a repele, enojada de sua carne. Então ela vaga pela noite, com a pele pendurada sobre os ossos, feito assombração.

Há suspeita de que aqueles que mantiveram relações carnais com o demônio, ou os amaldiçoados e mortos sem penitência, terão o mesmo fim.

Considerações adicionais: pelos relatos colhidos, o Corpo-Seco não parece estar atrelado a sua tumba ou ao lugar em que viveu ou morreu. Uma vez repelido pela terra e recusado até mesmo pelos vermes, ele ganha livre atividade noturna ao som de berros e gargalhadas. Seu propósito pode ser bem diverso, e nunca positivo.

Cumacanga

Cumacanga é, antes de mais nada, uma maldição. A sétima filha de um casal sem filho homem nasce encantada se os pais não a batizarem imediatamente. A partir de uma determinada idade, a cabeça sai do corpo à noite, durante o sono, e voa como uma bola de fogo.

Analisando mais detalhadamente as ocorrências, é possível concluir que a Cumacanga só ataca se for molestada, quando então lançará labaredas sobre o eu agressor.

Considerações adicionais: não é conhecido se a moça está consciente ou não de suas ações como Cumacanga ou mesmo de sua maldição. É possível que se recorde de tudo como se fosse um sonho e se sinta um tanto cansada. Tampouco parece haver lógica ou objetivo em seu voo noturno. Talvez este seja dirigido por seus desejos mais secretos.

Lobisomem

Lobisomens são homens amaldiçoados que, em noites de lua cheia, se transformam em um monstro peludo com feições de lobo, que vagam alucinados pela noite atacando a todos.

Há muitas informações desencontradas sobre as origens dessa maldição. Uns dizem que a Licantropia é uma maldição fruto de sortilégio. Outros, que acomete o sétimo filho homem de um casal. Sendo um sortilégio, haveria a possibilidade da pessoa se auto-infligir tal maldição em algum tipo de ritual macabro? De qualquer forma, há poucos casos no Novo Mundo.

O Lobisomem possui garras poderosas e força descomunal, além das presas bestiais. Sua resistência é igualmente sobrenatural. Parece ser invulnerável a tiro. Para perfurar sua pele, a pólvora haveria de estar benzida em altar ou a lâmina revestida de prata. Também o fogo é mortal para a criatura. Se um de seus membros for decepado, ele volta à forma humana.

A Licantropia pode ser também contagiosa. Não se sabe ao certo se é o contato com o sangue da criatura ou sua mordida que transfere para o outro a sua triste herança.

Considerações adicionais: o Lobisomem é uma criatura mais infeliz do que má, aprisionado em sua fúria irracional, obrigado a esconder a sua maldição e a conviver com a terrível consequência de seus atos.

Mãe do Ouro

Relatos desencontrados sobre um ser de fogo chegam das regiões mineiras de São Vicente e Campos dos Cataguás. Nas noites de sexa-feira, uma bola de fogo indicaria o lugar onde há um tesouro escondido ou ouro não revelado. Seria a manifestação da alma de um ladrão, que em vida escondeu um tesouro formado por meio de crimes, ou de um mineiro que haveria falecido antes de revelar a sua descoberta. De uma forma ou de outra, essa alma procura a paz, que parece ser alcançável apenas com a revelação do segredo que carregou em vida.

Mais misteriosa é a alcunha Mãe de Ouro dada ao que parece ser uma cabeça flamejante. É possível que, hipnotizado pelo misto de horror e fascinação, o viajante noturno acredite ser seduzido por uma espécie de sereia ígnea.

Considerações adicionais: não há razões para acreditar que a sua ocorrência represente qualquer perigo para quem a encontre vagando na escuridão da noite. Porém, o viajante pode desconhecer a lenda em torno da aparição e julgar ser um demônio de fogo a assombrá-lo. Talvez venha daí os relatos que a Mãe de Ouro lance bolas de fogo ou exploda em chamas contra os aventureiros desavisados. Possivelmente venha daí a falsa noção de que seu objetivo seja proteger o ouro, e não revelá-lo.

Mula sem cabeça

De todos os seres encantados, a Mula Sem Cabeça tem sido a mais avistada na Terra de Santa Cruz. Não apenas na colônia lusitana, mas também nas províncias castelhanas do sul. O que é uma triste constatação, considerando-se sua origem.

A maldição recai sobre a concubina de um padre católico. Nas noites de quinta pra sexta-feira, ela se transforma em uma forte mula negra, que galopa veloz e assombra as vilas por onde passa. Como uma besta desenfreada, ela percorre vários povoados em uma só noite, correndo até o terceiro cantar do galo.

Sua visão é aterrorizante. Engana-se aquele que pensa que, por causa do nome, ela é desprovida de cabeça. O nome lhe foi dado devido às chispas de fogo que saem pelo nariz, olhos e pela boca, de forma a cobrir-lhe toda a cabeça de chamas e fumaça. Poucos são aqueles que conseguiram vislumbrar em sua testa uma cruz de pelos brancos.

As chamas não se limitam a essas partes, percorrendo-lhe também a cauda, que corta a escuridão como um facho de fogo que nenhum vento ou chuva parece capaz de apagar.

Suas patas são como calços de ferro, cuja violência do galope pode ser ouvida à distância. Quem cruzar o seu caminho morre cortado pelos cascos afiados como navalhas, muito mais fatais que as labaredas que solta pela boca.

Tão aterrador quanto a sua aparição é a estridência de seu relincho, seu soluçar quase humano e o barulho excruciante dos dentes mordendo o freio de ferro. Quem conseguir arrancar-lhe da cabeça o freio de ferro quebrará o encanto. A concubina, então, reaparecerá despida, humilhada e arrependida, e não voltará à forma encantada.

Outra forma de fazê-la reverter à forma humana é fazer-lhe sangue, por qualquer meio. Mas tanto a encantada quanto o audacioso herói serão levado ao erro em acreditar que maldição teve fim. Na semana seguinte, a Mula Sem Cabeça retomará a sua sina.

A outra forma definitiva de por fim ao encantamento é a morte da criatura, que voltará à forma humana.

Considerações adicionais: acredita-se que, quando uma Mula Sem Cabeça é morta em sua forma encantada, apesar de seu corpo recuperar a humanidade, sua alma haverá de penar sobre a terra como uma assombrosa visagem.

Yaguareté-Abá

Habitat: matas das províncias do Guayrá e Rio da Prata, e sul a Província de Santa Cruz.

O Yaguareté-Abá é um homem-onça, mais precisamente velhos índios que se transformam em uma onça feroz para dar morte ao inimigo.

Se a pessoa não for feiticeira e realizar o feitiço de metamorfose por qualquer motivo, poderá ter como efeito colateral a perda da consciência humana. Se, neste estado, copular com uma onça, perde de vez a condição humana. O Yaguareté-Abá raciocina como um animal, mas pode ter insights de sua parte humana.

O efeito pode ser reversível ao ser removida a magia, mas o Yaguareté-Abá resistirá contra essa tentativa de remoção. Caso volte ao normal, a pessoa será como uma onça no corpo de um homem, uma espécie de Tarzan felino.

Considerações adicionais: há várias lendas de homens-onças. A maior dificuldade é saber qual é a origem da criatura. Geralmente, a razão da transformação está relacionada com alguma vingança. Esse desejo de vingança, ou simplesmente o desejo de matar alguém, induz naturalmente a pessoa a adquirir a consciência de uma onça. O uso do amuleto de Metamorfose também pode ser um possível causador desse efeito colateral.

Zumbi

Zumbi é o cadáver animado por forças mágicas e obrigado a trabalhar para o encantador. Portanto, sua aparência depende do tempo decorrido entre o encanto e sua morte. O mais comum é a aparência de um ser humano semidecomposto.

Geralmente, o Zumbi é criado para fins malignos, mas não significa que ele próprio seja um ser maligno. Ele não tem vontade própria, é um corpo escravizado por magia, retirado de seu repouso. É comum também sua utilização para fins mundanos, como mover engenhos e fazer colheitas durante a noite.

Há casos em que o morto-vivo seja é abandonado à deriva, agindo sem objetivo, como uma fera irracional. Mesmo sem estar sob a influência do mal, agirá de forma caótica, com tendência à destruição.

Considerações adicionais: é normal que a primeira reação para combater um Zumbi seja por meio de exorcismo, mas a alma que o anima é a sombra daquela própria que um dia a habitou. Trata-se de um feitiço, e como tal deve ser desfeito, removido.

*Compilação extraída do bestiário de Padre Maurício.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 12:33  Deixe um comentário  

CRIATURAS E ANIMAIS FANTÁSTICOS*

DOS ANIMAIS FANTÁSTICOS

Cavalo de Três Pés

Habitat: tem sido avistado nas estradas das capitanias de São Vicente e Itanhaém.

O Cavalo de Três Pés é um animal assombroso que apavora os viajantes nas estradas desertas. Como o nome já diz, possui apenas três pés, sendo a pata ausente a dianteira. O animal deixa no barro três pegadas fundas, e quem por infelicidade pisar nelas enfrentará desventuras em série.

Mas esta é a mais banal de suas peculiaridades. Esta criatura fantástica não tem cabeça e possui asas. Aparece sempre à noite, voando ou correndo, dando coices em quem encontrar pela frente.

Considerações adicionais: a criatura é hostil, mas não maligna. Atacará sempre quem encontrar, mas não tem nenhum alvo ou objetivo determinado. A fama para quem achar e capturar uma criatura tão única pode valer o desafio.

Gafanhotão

Habitat: ocorrência relatada nos Campos de Piratininga.

O Gafanhotão tem o tamanho de um boi e costuma aparecer na madrugada de sábado pra domingo nas curvas das estradas. Pega o viajante de surpresa e o derruba no chão, colocando todo o seu peso em cima para paralisá-lo enquanto chupa o seu sangue, preferencialmente pela nunca. Mas a criatura não ataca para matar, apenas para se alimentar. Ao se sentir satisfeita, deixará a vítima no estado em que estiver e partirá.

Considerações adicionais: o Gafanhotão geralmente ataca sozinho e à noite. Portanto, dificilmente atacará quem não viaje sozinho. Por essa razão mesmo, um grupo contratado para for fim no terror que o animal tem provocado na vizinhança terá dificuldades em encontrá-lo. Como pouco se sabe sobre a natureza e os hábitos dessa bizarra criatura, nada impede que ela surja de surpresa em meio a uma praga de gafanhotos.

Mão Pelada

Habitat: avistado com preocupante frequência nos cerrados e campos da região mineira.

O Mão Pelada possui uma faixa de pelos negros em volta dos olhos, o resto do corpo coberto por tons avermelhados, e uma das mãos é ligeiramente encolhida e inteiramente desprovida de pelos, o que dá à criatura o nome com o qual é conhecida. É do porte de um bezerro novo, o que não parece representar perigo a quem com ele cruza pela primeira vez. Entretanto, nenhum animal, por mais valente que seja, atreve-se a entrar na área onde seu grunhido se faça ouvir.

Já o viajante descuidado, ao atravessar o seu caminho, cometerá um grande erro se cruzar seus olhos com os desse pequenino animal. Olhos fascinantes e misteriosos, que em breve faíscam uma luz azulada. Atraído pelo fascínio desse olhar, o viajante se queda paralisado. A vítima precisa reunir forças para escapar dessa fascinação, pois, no momento em que estiver para atacar, o Mão Pelada cresce para o tamanho de um urso e rasga sua presa com suas enormes patas e unhas afiadas.

Seria loucura querer enfrentar um animal tão perigoso, mas muitos o fazem. Acontece do Mão Pelada ter grande valor comercial para os caçadores. Sua banha é um eficiente remédio para muitos males, particularmente aqueles que provocam dores nos músculos e articulações. E, de quebra, o caçador poderá lucrar com cima vistosa pele e carne saborosa.

Mas caçar o Mão Pelada é tarefa tão difícil quanto resistir ao seu olhar. Primeiro, porque os cachorros não o perseguem, tamanho medo que sentem da criatura. E mesmo os melhores e mais ferozes cães de caças sucumbem facilmente ante seu olhar. A criatura atrai o caçador ardilosamente até o seu esconderijo, onde o ataca na forma de urso.

Considerações adicionais: o Mão Pelada é um predador nato. Ataca qualquer um que encontrar. Bastante esperto, evitará grupos, contra os quais o poder imobilizador de seu olhar terá pouca efetividade. Em situação desvantagem, procura dispersar o grupo fazendo sons e gemidos na floresta.

Mboi-Tatá

Habitat: a criatura é vista nos campos, geralmente próxima a alguma fonte d’àgua, seja rio, pântano ou mar.

O primeiro a registrar sua ocorrência foi o Padre Anchieta, que avistou um facho cintilante que deixava um rastro luminoso, um fogo vivo. Chamou-o na época de Mbai-Tatá, a coisa de fogo, pois não soube precisar sua origem e natureza.

Hoje já sabemos tratar-se do Mboi-Tatá, a temível cobra de fogo que protege as relvas naturais e é impiedosa com os incendiários. Aprendemos com os nativos as técnicas das queimadas para limpar o terreno para o plantio. Não fomos alertados, contudo, do terrível perigo dessa prática: provocar a ira de Mboi-Tatá.

Muitos caçadores acreditam que a criatura habita cavernas incrustradas nas pedras e ravinas, mas a versão de que ela habita as águas, a despeito de sua natureza ígnea, parece ser mais acertada.

De hábitos noturnos, não há muita precisão nas descrições de suas formas, exceto no que diz respeito à forma de serpente e o ataque feito com cusparadas incineradoras. Entretanto, uma discrepância salta ao olhos. Uns o descrevem como uma pequena serpente de fogo capaz de se erguer do chão em pequenos voos. Outros o descrevem como uma gigantesca serpente, cinco a sete vezes maior que uma Jiboia. Seria o Mboi-Tatá um ser que nasce e cresce como qualquer outro animal?

Considerações adicionais: o Mboi-Tatá é uma criatura essencialmente punitiva. Ela não vai surgir do nada para atacar vilas e viajantes. Seu propósito será sempre a defesa dos campos. Atacará até julgar que não há mais ameaça imediata a ser contida.

Mboiguaçu

Habitat: a criatura só foi avistada ao sul da capitania de Rosário de Paranaguá, próximo ao litoral. Supõe-se ser uma criatura local, mas a região mais para o sul e para o interior ainda é pouco explorada.

A lenda ouvida entre os Cariós fala de uma serpente que abria muito os olhos para melhor enxergar e que, para isso, havia devorado milhares de olhos. De tantos olhos que ingeriu, tornou-se brilhante pela multidão de pupilas que guardava. Seu olhos viraram duas bolas de chama, um clarão vivo.

De fato, o Mboiguaçu que conhecemos é serpente de olhos que assemelham a dois faróis. Seu couro é transparente e que cintila sob a luz do luar, quando aparece deslizando nas campinas, nas beiras dos rios. Mirar a criatura pode deixar a pessoa cega, louca ou até matar.

Aqueles que sobreviveram ao encontro acreditam que escaparam por terem ficado imóveis, sem respirar, e com os olhos bem fechados. Pode ser. Por outro lado, talvez a criatura seja sensível ao cheiro do medo.

Considerações adicionais: o Mboiguaçu muito lembra o Mboi-Tatá, mas suas ações não indicam nenhuma missão punitiva ou mesmo de hostilidade, e tampouco parece ser capaz de cuspir labaredas ou bolas de chamas. É uma criatura bastante arredia ao contato. A única coisa que parece atraí-la é a luz do luar. Sua pele única atiça a cobiça dos caçadores.

Terepomonga

Habitat: pode ser encontrada no litoral da Província de Santa Cruz.

Terepomonga é uma cobra marinha, à primeira vista igual a todas as outras. Porém, qualquer coisa viva que tocar em seu corpo permanece fortemente apegada, e não há nada que possa tirar. E é assim que a Terepomonga se alimenta. O que também não chega a ser extraordinário.

Ocorre que às vezes ela serpenteia para fora do mar e fica muito pequena. Aparenta ser tão vulnerável que a atacam e pegam, mas ficam com a mão presa. E, se tentam tirar com a outra mão, esta fica presa também. E aí o mais fantástico acontece: a Terepomonga volta a crescer e leva a pessoa para o mar e a come.

Considerações adicionais: nunca encoste numa Terepomonga. A única forma de se livrar dela é cortando aparte do animal que está grudada na pessoa ou o inverso.

DAS CRIATURAS FANTÁSTICAS

Aca Peré

Habitat: pode ser encontrado em qualquer trilha ou caminho nas terras de fronteira indefinida entre as províncias do Guayrá e do Rio da Prata e as terras lusitanas.

O Aca Peré aborda o viajante na forma de um velho nativo, possivelmente de origem guarani. Ele ostenta na cabeça uma faixa que lhe cobre uma ferida profunda e incurável. Difícil dizer a dor e aflição que aparenta sofrer é real ou fingida. Qualquer que seja a verdade, quando o viajante estiver distraído, Aca Peré removerá a faixa e, de sua ferida, surgirá uma nuvem de gusanos e moscardos.

Diferentemente dos vermes e moscas encontrados na natureza, esses se revelarão venenosos. Suas mordidas infligirão dores e agonias na vitima, enquanto Aca Peré aproveita-se para levar todos os pertences do viajante. Segundo relatos, a força vital dessas pequenas criaturas está estranhamente vinculada a do velho nativo.

Comentários adicionais: Aca Peré é uma criatura oportunista e traiçoeira, não um monstro assassino. Sentindo-se em desvantagem, partirá. Se morrer, os insetos morrem.

Bradador

Habitat: o evento já foi registrado em diversas regiões, desde os Campos dos Cataguás até o Rio da Prata, sempre em campos e florestas.

O Bradado é mais uma ocorrência do que propriamente um bicho, pois ninguém ainda viu, só ouviu. E muito! O bicho é danado de barulhento. Emite berros reiterados, desesperados, descompassados e intermitentes, que oscilam entre o alarido e o lamento, capazes de provocar da irritação ao horror.

A descrição a seguir segue o relato perturbador de um caraí dos Tavyterã. Muito explica a razão de nunca alguém ter avistado um Bradador. E, mesmo se tivesses, não teria acreditado no que viu ou sequer compreendido o ocorrido.

O que chamamos de Bradador é um pequeno ser escuro no qual só se distingue uma boca, capaz de tragar o que encontrar pela frente. Raramente é visto, nunca em detalhe. O Berrador não devora ninguém, pois nem tem estrutura corporal para isso. Trata-se, na verdade, de um portal vivo para o plano astral, para o qual a pessoa é levada fisicamente. Para esse pequeno orifício, tudo o que se encontra no caminho é sugado. A única defesa possível é desviar-se.

Sobre como escapar desse plano astral, uma vez tragado pelo Berrador, o caraí preferiu calar-se.

Considerações adicionais: ser tragado pelo Bradador pode ser um grande percalço durante uma campanha ou a própria razão de aventurara-se mata adentro: resgatar alguém que foi sugado pelo Berrador. A única forma de trazer a pessoa de volta seria encontrar outro portal físico entre os planos.

Caipora

Habitat: campos e florestas da Província de Santa Cruz. Raramente é visto na Grande Floresta.

Muita confusão se dá quando se fala dessa criatura. Uma das razões é sua semelhança com o Curupira, mas com os pés normais. A outra é que Caipora pode ser macho ou fêmea, cada qual com suas peculiaridades. O nome Caipora, ou Caa-Porá, significa habitante do mato.

O Caipora percorre as matas protegendo os animais de pequeno porte, particularmente os porcos do mato. Nada do que acontece em seu território lhe escapa. Normalmente surge montado em um enorme queixada, brandindo um cajado e comandando uma manada de queixadas.

Seu cajado, feito de Japecanga, permite-lhe resistir a qualquer ataque mágico de influência e ressuscitar animal morto sem sua permissão, desde que ainda não tenha sido apanhado pelo caçador. Japecanga é um cipó flexível, cheio de nozinhos e espinhos, que vegeta às margens dos rios e em lugares frescos.

Além dos pés normais, uma característica comum a todos os Caiporas é o gosto pelo fumo. Seu cachimbo é feito com um crânio e tíbia humanos. Tem por hábito devorar suas vítimas, só descartando os intestinos, que ficam jogados no chão.

O Caipora macho costuma ser descrito como um caboclo baixo, hercúleo, ágil e nu. Mas também pode ser um homenzarrão coberto de pelos negros por todo o corpo e a cara, como já foi visto no sul. Ou ainda uma criatura monstruosa e peluda, de aparência humana, cabeleira áspera, cabeça grande, olhos em brasa e dentes enormes. Todas essas versões montam sempre um queixada de grandes dimensões.

A Caipora fêmea é descrita como uma nativa retaca e forte, peluda, de farta cabelereira com a qual açoita gente e animais. Tem por hábito negociar caça por fumo e cachaça. Estabelece relações amorosas com os homens que lhe agradam, mas é extremamente ciumenta. Se o homem decidir casar-se com outra, persegue-o e o açoita até a morte com o cajado. Para fugir de sua ira, só abandonando a região.

Considerações adicionais: além dos queixadas, o Caipora poderá solicitar a ajuda de outros animais da mata. O ataque do Caipora é mais direto e violento que o do Curupira. A negociação com o fumo deve ser realizada antes da caça. Depois que o caçador cometer algum ato interpretado com prejudicial, a ira do Caipora será incontornável.

Cuarajhy-Yara

Habitat: serras e florestas nas terras de fronteira indefinida entre as províncias do Guayrá e do Rio da Prata e as terras lusitanas.

Os Guaranis descrevem o Cuarajhy-Yara como um homem alto, branco, de cabelos vermelhos e de certa idade. Seus pés, envoltos em plumas, ocultam seus passos e a direção da marcha, sempre silenciosa, sem emitir ruídos. No meio da testa ostenta um olho de fogo; seus dentes são como presas bestiais; seus braços cumpridos e as mãos muito grandes. Sua força é descomunal, imbatível.

Há quem o descreva também como um homem peludo, que veste um sombrero de palha e carrega um bastão. Em vez de falar, emite o canto dos pássaros. Possui a propriedade da invisibilidade, mas, neste estado, torna-se também intangível.

Os nativos se referem a ele como o Senhor do Sol, talvez pelos olhos de fogo, de onde saem chamas como as do sol, e o hábito de aparecer no início da tarde. Seu principal objetivo é proteger as aves da floresta. Como punição ao caçador imprudente, segura a vítima com suas mãos poderosas e derrama sobre ele o seu olhar de fogo. Com suas presas, é capaz também de rasgar seu pescoço, mas só o fará em caso de incômoda resistência. É com seu olhar de fogo que pretende purificar o agressor da natureza.

Considerações adicionais: na mão, o Cuarajhy-Yara é imbatível. Caso necessite lutar, não o fará com intenção de matar, embora isso possa ser inevitável. Seu objetivo é essencialmente punitivo, de purificação ante seu olhar.

Curupira

Habitat: florestas da Terra de Santa Cruz.

Curupira é uma criatura que tem como função principal proteger as florestas. Todo aquele que derruba ou estraga inutilmente as árvores é punido por ele. Dependendo da região ou da ausência de outras criaturas protetivas, o Curupira pode também as dores de animais injustamente mortos ou caçados.

Portanto, o Curupira não escolhe inimigos; são estes que, com suas ações, escolhem a inimizade dele, sejam brancos, negros ou nativos. Os nativos têm como prática oferecer fumo e outras prendas para que o Curupira não lhes faça mal, sem a certeza de serem atendidos.

Por vezes, o Curupira pode tomar a iniciativa de abordar o caçador e pedir algo em troca de sua permissão. Pode também oferecer armas infalíveis em troca de alimentos sem pimenta ou alho, exigindo segredo absoluto sobre o acordo.

O castigo mais comum do Curupira é fazer a pessoa errar por muitos dias pela mata, sem achar o caminho de casa, ou sem conseguir chegar aos seus. Não se trata de criar ilusões que façam o caçador ou viajante se perder, mas de uma magia que provoca a desorientação. Assim, os caçadores desaparecerem, esquecem o caminho, sofrem pavores súbitos. Tal abandono pode equivaler à morte ou à fome agonizante.

Como arma, o Curupira possui uma lança e arco e flecha. Há lugares em que foi visto com um machado feito de casco de jabuti. Mas o que utiliza mesmo é uma variedade de encantos. Suspeita-se que possa controlar animais e as plantas, entrar em comunhão com a floresta, e se transformar em diversos animais. Também tem a habilidade de desaparecer na floresta. Além do já mencionado encanto da desorientação.

Descrever essa criatura pode ser uma tarefa tão difícil quanto escapar ileso de sua ira. O normal é descrevê-lo como um homem com o corpo coberto de cabelos vermelhos e os pés virados para trás.

Entretanto, conforme a região, as variações físicas são incontáveis: pode ser todo peludo ou ter a cabeça pelada; ser do tamanho de uma criança ou agigantado; ter as penas sem articulações, apenas um olho, dentes azuis ou orelhas grandes. A única referência imutável são os pés virados ao avesso.

O nome também muda. Nas selvas de Nova Castela, chama-se Chudiachaque. Em Nova Granada pode ser o Máguare. Na Grande Floresta já foi chamado de Pocai e Iuirocô.

Considerações adicionais: a relação do Curupira com o viajante varia de acordo com a atitude deste com a floresta e com os animais que nela habita. Assim sendo, é raro o Curupira tomar a iniciativa de oferecer ajuda, exceto quando pretende obter algo em troca. Apesar dos relatos de caçadores que conseguiram favores em troca de fumo e alimentos, é pouco provável que um ser tão poderoso realmente precise recorrer a esse escambo para obtê-los. Mais provável que o faça para testar a índole do caçador e sua capacidade de manter a palavra. Quando decide atacar, dificilmente o faz diretamente, mas usando seus poderes mágicos para manter o controle da situação e impor sua punição.

Gorjala

Habitat: florestas da Província de Santa Cruz, especialmente aquelas que cobrem as serras penhascosas.

Há pouco a se falar do monstro Gorjala, pois poucos sobreviveram ao seu ataque. E, aqueles que o fizeram, estavam mais preocupados em fugir do que observar o seu aspecto. Sabe-se que é um gigante preto e feio, de grande ferocidade. Dizem que possui apenas um olho faiscante. Suas passadas são imensas, o que facilita sua locomoção pelas ravinas, escarpas e grotões. Mas há quem o descreva com apenas um pé e que as passadas, na verdade, são saltos. Após dominada a vítima, com vida ou não, mete-a embaixo do braço e vai comendo-a às dentadas com sua boca enorme.

Considerações adicionais: o Gorjala é uma criatura bestial que surge com o único propósito de matar. Sua resistência se mostra tão sobrenatural que não furtará em atacar um grupo de viajantes. Porém, dar-se-á por satisfeito ao conseguir sua presa, deixando os demais para uma posterior investida.

Iara

Habitat: rios e lagos das terras lusitanas.

A Iara é uma criatura intrigante. Semelhante à sereia europeia, é mulher da cintura pra cima e peixe da cintura pra baixo. É descrita como uma bela mulher de longos cabelos negros e olhos esverdeados. Mas há quem tenha ficado decepcionado com sua beleza. Como as sereias, a Iara atrai os homens com seu canto para sugar‑lhes o sangue ou arrastá‑los para o fundo do rio. Porém, alguns que resistiram a seus encantos não mencionam o canto, apenas a atração por sua beleza.

Descrevem-na como um ser que exala maldade, mas uma maldade extremamente sedutora, que provoca na vítima o desejo de se entregar a uma vida de gozo eterno no fundo das águas. Há quem afirme que ela tenha surgido como um moço para as mulheres, ao mesmo tempo em que os homens a viam como mulher.

Quem escapa da morte nos braços da Iara não escapa de seus encantos. Uma vez afetado por eles, mesmo que não se entregue de imediato, o desejo vai corroendo a pessoa, incutindo nela o ímpeto de atirar nas águas do rio e se deixar afogar em suas águas.

Sobre a Iara, há um elemento intrigante: os nativos parecem desconhecê-la. As poucas ocorrências envolvendo nativos são narradas como uma aterradora novidade. Os nativos de Santa Cruz se sentem mais desconcertados diante da Iara do que os colonos.

Considerações adicionais: se a Iara para de cantar para sugar o sangue de alguém, o encanto deve ser quebrado naquele instante, o que a tornaria vulnerável. Então devemos supor que ela primeiro puxa a vítima para o fundo das águas primeiro, vivo ou morto. Porém, aqueles que se viram livres de sua atração naquele instante sofrerão os efeitos colaterais já descritos.

Pitá-Yovái

Habitat: pode ser encontrado nas florestas de La Piñería ou nas terras de fronteira indefinida entre a Província do Guayrá e as terras lusitanas.

O Pitá-Yovái se assemelha a uma criança nativa, mas possui uma força incrível e natureza sanguinária. Seus pés são virados para trás como os do Curupira, mas não possui os dedos. Move-se com grande agilidade, pendurando-se nos cipós. Há quem diga que existe uma versão adulta.

Ataque a vítima de surpresa, pulando de cima das árvores, agarrando-a com sua força descomunal e a devorando como um peixe recém tirado das águas.

A única fraqueza dessa criatura parece ser o seu gosto pelo mel.

Considerações adicionais: o mel pode ser usado para atrai-lo a uma armadilha, mas poucos conhecem essa característica dele. Na verdade, além dos Guaranis e Guayanás, poucos o conhecem.

Saci

Habitat: sua ocorrência é registrada principalmente nas matas próximas a povoados e caminhos. Quanto mais ao sul da Província de Santa Cruz, mas frequente tem sido os encontros.

O Saci tem a forma de uma criança negra, de uma perna só, vestindo apenas uma carapuça vermelha e portando um cachimbo. Sua negritude, no entanto, é distinta daqueles trazidos do Continente Negro. É um preto lustroso, brilhante como piche, sem pelo no corpo e na cabeça. Seus olhos são vivos como os de uma cobra e vermelhos como os de um rato branco. Seus lábios também são salientes, de um vermelho vivo, que emolduram dentes muito brancos. Possui dois braços curtos e carrega uma só perna. Com ela, é capaz de pular nas costas de um cavalo e corre veloz como um veado.

Algumas características físicas do Saci, no entanto, são pouco claras e nem sempre presentes. Uma delas é a mão furada, por onde é possível passar uma moeda. A sua altura não passaria de três palmos, mas há relatos em que ele teria chegado a três varas de altura, como se pude aumentar e diminuir de tamanho a seu bel prazer.

Ágil e astuto, o Saci anuncia‑se com um assobio persistente e misterioso, não localizável e assombrador. Esse som é semelhante ao da ave saci, que, por essa razão, parece ter emprestado seu nome à criatura.

O Saci adora pregar peças e fazer pequenas maldades e travessuras. Sua maior diversão é criar dificuldades domésticas, espantar o gado, assustar os viajantes e fazer desaparecer seus pertences.

O Saci adora fumo, e não seria difícil para ele aliviar o viajante dessa carga. Mas ele apreciará sinceramente qualquer iniciativa de oferecer-lhe fumo, concedendo em troca um pequeno favor.

A criatura pode assumir a forma de um pequeno rodamoinho de vento, desaparecer em uma nuvem de fumaça ou ficar invisível.  O Saci arma os redemoinhos com as folhas voando ao redor da única perna girando. Nesse momento, é fácil apanhá-lo. Bastaria lançar uma peneira sobre o núcleo central do redemoinho.

Uma vez capturado, a pessoa deve retirar-lhe imediatamente a carapuça, pois ela é encantada, o foco de seu poder. Para recuperá-la, o Saci é capaz de prometer qualquer coisa. Sua primeira tentativa será oferecer uma fortuna a seu captor. Mas o dinheiro dado pelo Saci precisa ser benzido, sob pena de desaparecer ou transformar-se em folhas secas no dia seguinte.

Considerações adicionais: todos os relatos colhidos sobre essa criatura fantástica devem-se aos colonos. Os nativos ignora por completo a existência do Saci. Os negros, não importa a origem e a condição, não o reconhecem e ignoram sua procedência. Os colonos, muito menos. O Saci, então, revela-se uma criatura misteriosa a todos os povos, de origem desconhecida, de natureza imprecisa e objetivos insondáveis.

DAS RAÇAS MONSTRUOSAS

Igupiaras

Habitat: Pode ser encontrado nas barras dos rios, por toda a Província de Santa Cruz.

Os Igupiaras são seres marinhos que residem no fundo das águas. Misteriosos, parecem homens de boa estatura, um tanto deformados, com olhos muito encovados, andar incomum, um pouco desconjuntado. Possuem pelos pelo corpo e cerca de quinze palmos de altura, e o focinho com sedas muito grandes como bigode. As fêmeas parecem mulheres de cabelos compridos e sugestivamente formosas.

Os nativos os consideram inimigos dos pescadores, e morrem de medo deles. Quando atacam, são bestiais, famintos, de ferocidade primitiva, virando as canoas dos pescadores. Abraçam a pessoa fortemente e parecem que a beijam, apertando-a consigo, deixando-a feita em pedaços por dentro. Por fora, entretanto, parecem inteiras. Sentindo a vítima sem vida, soltam um forte gemido e fogem. Quando levam algum corpo, comem apenas os olhos, narizes, pontas dos dedos dos pés e das mãos, bem como as genitálias. E assim o corpo é encontrado na praia.

O Ipupiara não pede, não ameaça, não negocia. Ele simplesmente ataca ao sair da água, sempre para matar. E essa parece ser a sua única fraqueza, a sua ligação com a água, longe da qual não parecem resistir por tempo prolongado. Sua força, contudo, é sobre-humana.

Considerações adicionais: um Igupiara isolado dificilmente representará alguma ameaça, a não ser que a pessoa esteja sozinha. O fato de poder ser muitos deve ser explorado. Fora da água, é um ser lento.

Negros d’Água

Habitat: Podem ser encontrados nos rios e lagos na região dos rios da Prata e Paranaíba. Há relatos de terem sido avistados também no rio São Francisco.

Os Negros d’Água são criaturas fantásticas que exercem domínio sobre as águas e sobre os peixes. São inteiramente negros e calvos, baixos, com membranas entre os dedos e apenas um olho no centro da testa. Andam sempre em grupo. Atacam virando as canoas e afogando seus tripulantes, para depois devorá-los.

Essa estranha raça aparece à tardinha ou em noites de luar junto às margens dos rios, entre as pedras. Eles põem a cabeça de fora e soltam uma risada que não acaba mais. Seus dentes são aguçados como ferrão e brancos como leite.

Não são excepcionalmente fortes e tampouco se afastam para além da margem, mas estão sempre em bando e levam uma boa vantagem quando lutam dentro d’água.

Considerações adicionais: a principal ameaça do Negro d’Água é o fato de agir em bando. Como seus ataques são mais efetivos dentro d’água, há pouca utilidade se o grupo se mantiver fora dela. Podem se tornar um grande obstáculo se o rio precisar ser transposto.

*Compilação extraída do bestiário de Padre Maurício.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 12:30  Deixe um comentário  

TRINOS ESPECIAIS*

DAS TRIBOS FABULOSAS

Para além dos limites conhecidos da Província de Santa Cruz, em terras ainda não dominadas por Lusitanos ou Castelhanos, há relatos da existência de tribos fantásticas, com atributos inumanos. Algumas delas teriam sido confrontadas por bandeiras errantes, como aquelas que viajaram para além das terras dos Akroás, no coração da Terra de Santa Cruz. Outras se tornaram conhecidas pelas vozes dos nativos que habitam tais regiões, como os Guayanás de La Piñería. Desnecessário dizer que essas fabulosas criaturas povoam mais os pesadelos dos nativos, enquanto para os colonos são ainda apenas histórias a serem contadas em volta da fogueira.

Cupendiepes

Região: habitam cavernas em uma serra escarpada muito além da terra dos Akroás, vagamente localizada “após a terra vermelha”.

Os Cupendiepes são uma tribo de asas de morcego, muito temida pelos nativos da região. Eles atacam as aldeias próximas, sempre durante a noite, dando voos rasantes, usando lanças ou machados para degolar seus oponentes.

De forma semicircular, esses machados foram chamados de “machados de lua”. Muitos nativos também o possuem, pois os tomaram para si nos diversos embates contra os Cupendiepes.

Considerações adicionais: segundo os bandeirantes que enfrentaram tais criaturas, não há como enfrentá-los durante a noite. A melhor forma é identificar a caverna onde estão e invadi-la durante o dia, enquanto dormem.

Cupendogális

Região: habitam as mesmas serras que os Cupendiepes, mas na base das montanhas.

Os Cupendogális são mais uma tribo notívago das terras desconhecidas de Santa Cruz. Trata-se de um povo pigmeu, albino, canibal, e que não enxerga à luz do dia. Durante o dia, dormem em cavernas, pois não suportam a luz do sol.

Para eles, qualquer ser vivo que se movimenta durante a noite é caça. Atacam como qualquer tribo de Santa Cruz: em grupo, coordenadamente, portando tacapes, porretes, lanças ou arco e flecha.

Considerações adicionais: se são sensíveis à luz solar, é possível que também evitem outras fontes luminosas, como tochas e fogueiras.

Curinqueãs

Região: tribo avistada ao sul da Grande Floresta.

Os Curinqueãs são uma tribo de homens gigantes, medindo cerca de 16 palmos de altura, rosto largo com os beiços e narizes adornados de pedaços de ouro. Seu número é bastante reduzido, mas os demais nativos parecem respeitá-los e temê-los.

Pouco se sabe sobre sua natureza e hábitos. Sequer histórias de contato direto com os colonos, exceto o registro feito pelo reitor do Colégio da Companhia de Jesus da capital, o saudoso Padre Simão.

Considerações adicionais: tratando-se das matas de Santa Cruz, a escassez de noticias e falta de encontros costuma significar uma postura de neutralidade. Tribos mais guerreiras costumam deixar os vizinhos mais agitadas e fomentar guerras entre eles.

Curutons

Região: cavernas profundas das terras dos Guayanás.

Segundo os Guayanás, na época do grande dilúvio, quando as almas dos seus ancestrais estavam recolhidas no centro da terra, estas possuíam para servir-lhes uma uma espécie nativa de servidores, os Curutons, os “sem roupas”. Quando as águas baixaram, os irmãos Kaiurukré e Kamé abriram veredas no centro da terra para que sua gente pudesse voltar à superfície, saindo em duas grutas nas montanhas negras de La Piñería, conhecidas como Krinxy.  Os Curutons ficaram para trás a fim de trazer os utensílios deixados nas cavernas. Por revolta ou preguiça, os Curutons jamais deixaram as cavernas. E ainda estão por lá, preocupados em não se deixarem ver, sendo bastante hostis em relação a seus antigos algozes.

Os Curuton, por viverem nas profundezas da terra, são franzinos e de pele clara. Adaptados à escuridão, são sensíveis a luzes mais intensas que a de uma tocha. Nunca saem para a superfície e não gostam de visitantes.

O Monte Krinxy fica na Serra de Paranapiacaba, que os Guayaná chamam de Krinjijimbe, na vertente voltada para o interior.

Considerações adicionais: não é qualquer caverna que leva até os Curutons, pois eles habitam regiões bem profundas. Tampouco é conhecida a extensão dessas cavernas, que podem se conectar com outras por todo o continente.

Goyazis

Região: há relatos de note a sul da Grande Floresta que parecem se referir à mesma tribo.

Os Goyazis seriam uma tribo de anões de estatura extremamente pequena, do tamanho de uma criança de colo. Sua história se confunde com relatos sobre duendes da floresta, de forma que fica difícil estabelecer quais seriam suas características. De certa, só a sua completa ausência em terras colonizadas.

Apesar do tamanho diminuto, apresentam força desproporcional ao tamanho e se movimentam com grande facilidade por entre os arbustos. Se utilizam algum tipo de armamento, é desconhecido.

Considerações adicionais: serão perigosos, hostis, ou apenas desconfiados? Os nativos os tratam como seres encantados. Nem bons, nem maus, apenas mais um incômodo.

DAS TRIBOS DE MULHERES

De norte a sul da Terra de Santa Cruz ouve-se falar de aleias formadas apenas por mulheres. Nem todas as tribos, é bem verdade. Ainda assim, não é uma ocorrência incomum. Entretanto, Frei Carvajal exagerou na licença poética ao chamar um grupo de mulheres guerreiras de Amazonas. A começar pelo fato que nenhuma delas monta cavalos.

Icamiabas

Até onde foi possível apurar, no alto de um dos afluentes norte do rio Solimões, existe a serra conhecida pelos nativos como Icamiaba. A partir dela, uma guerreira conhecida como Conhori, no início do século passado, iniciou um pequeno império de mulheres que se espalhou por dezenas de aldeias de pedra ao longo de um rio conhecido como Conuris. Devido ao local, são conhecidas como Icamiabas.

Pela descrição dessas aldeias, a etnia de Conhori está mais para os nativos das cordilheiras do que para os Tupis. As casas possuem portas e aldeias são interligadas por estradas amparadas com cercas, exigindo pedágio a quem passar por elas. Tinham, na época de Carvajal, muito ouro e muita prata.

Na aldeia principal há cinco casas grandes, com templos dedicados ao sol, chamados Caranai. Tem assoalho no solo e os tetos forrados de pinturas coloridas. Os ídolos de ouro e prata são figuras femininas. As sacerdotisas vetem mantas de lã do peito, mantendo o peito descoberto.

São mulheres sem marido. Quando sentem desejo, fazem guerra e capturam escravos para procriar. Dos filhos nascidos, só sobrevivem as meninas. Às vezes, o menino é levado pelo pai, quando consideram este merecedor de tal honra.

Aqueles que não são capturados para esse fim, quando não morrem em combate, são pendurados pelas pernas e servem de tiro ao alvo para as flecheiras. Não são canibalizadas, mas queimados até virarem cinzas.

As Icamiabas são descritas como altas e de pele mais clara. Andam nuas, com arcos e flechas na mão. Muito fortes, uma valia por dez guerreiros nativos. Socialmente, possuem distinção entre fidalgas e plebeias.

Considerações adicionais: muitos aventureiros, após a publicação da história de Frei Carvajal, tentaram, sem sucesso, encontrar as cidades das Icamiabas.

Amossenes

Ulrich Schmidl, um mercenário germano que explorou o rio da Prata em meados do século passado, influenciado pelos relatos das “amazonas” de Carvajal, chamou de Amossenes o grupo de mulheres guerreiras que viviam na região ao norte de onde foi erguido o Forte Albuquerque.

Ao contrário das Icamiabas, esse grupo não se tratava propriamente de mulheres sem maridos. Elas se juntavam com eles três ou quatro vezes por ano. Eram guerreiras, hábeis no manejo do arco, e criavam as filhas numa grande ilha da região, apartadas dos homens. Os homens moravam em terra firme, guardando o ouro que era delas, em uma estranha sociedade.

Considerações adicionais: esses nativos, ao que tudo indica, são os Guatós, tribo que permanece isolada, não só dos colonos, mas também dos demais nativos da região. Reencontrar a tribo relatada por Schmidl é como um raio cair pela segunda vez no mesmo lugar.

Cupêndias

Os nativos que vivem no coração da Terra de Santa Cruz, e que precisam enfrentar os Cupendiepes e Cupendogális, também se veem às voltas com as Cupêndias.

Pouco se sabe desses nativos além do que foi relatado por bandeirantes que cruzaram a região. Há a possibilidade de que sejam aparentados com os Timbiras da Província do Grão-Pará.

As Cupêndias são as mulheres dessa tribo que vivem juntas na floresta, formando uma aldeia próxima ao rio Arauay, providencialmente do lado oposto ao da serra dos Cupendiepes.

As Cupêndias não hostilizam os homens que as visitam, nem guerreiam com seus vizinhos. Se o visitante vier em paz,  será bem recebido e bem tratado, e até mesmo poderá dormir entre elas. Contudo, se demonstrar desejo de se casar com uma cupêndia, deverá vencê-la na corrida. Para as Cupêndias, um mau corredor pode fazer o casal ser pego pelo inimigo. Geralmente retornam solteiros para suas aldeias.

As Cupêndias, além de muito bem treinadas na corrida, comem só ao meio-dia. São exímias cultivadoras de algodão, mandioca, arroz e outras plantas.

Considerações adicionais: pelos detalhes dos relatos sobre essa região localizada entre os rios Arauay e Tukanatim, é possível imaginarmos o quão emocionante foi a passagem de nossos bandeirantes pela região. Os quais, como sabemos, não se fizeram conhecidos por sua velocidade.

Coniapayaras

Entre os Tupis, as mulheres senhoras de si, soberanas, que vivem sem seus maridos, são conhecidas por Coniapayaras. Procuram os homens apenas para procriação ou por necessidade de aliança contra um inimigo em comum.

As mulheres tupis possuem uma característica particular no que diz respeito ao ritual de rachar a cabeça: elas não o praticam. Sua participação se limita a comer a carne, da mesma forma que o Caraíba. Não se trata de uma restrição, mas de um reconhecimento de superioridade.

As Tupis são consideradas seres perfeitos, detentoras do dom da vida. Elas não necessitam mostrar seu valor em combate para alcançar a Terra Sem Mal. Só serão privadas disso caso sejam adúlteras ou induzam seus maridos a nomearem um filho que não o pertença.

Como na cultura tupi é o homem quem nomeia o filho, mesmo as mulheres sem marido não ousam desrespeitar as tradições, temendo perdendo o direito de adentrar o Paraíso tupi. Jamais entregam ao pai um filho que não é dele, e só o liberam após ele nomear a filha. Por outro lado, não precisam se preocupar com o adultério.

Considerações adicionais: as Coniapayaras podem ser encontradas em qualquer região habitada pelos Tupis. Não parece se tratar de uma aldeia organizada, mas de um grupo de mulheres, de tamanho variado, que decide se juntar para viverem de uma forma mais livre, possivelmente nômades.

DO ELO PERDIDO

“Sumé já caminhava por estas terras quando os Guajáras aqui estavam.” Quando o caraí dos Tavyterã mencionou esse nome pela primeira e única vez, não pensei de imediato ter topado com um grande mistério. Perambular pela Terra de Santa Cruz é descobrir um novo nome a cada dia. Um animal, uma tribo, um monte, um espírito, uma criatura. “Guajáras” seria apenas mais um de uma longa lista da qual só um punhado vira anotação. De fato, este nome não viraria uma anotação, mas uma obsessão. E isso aconteceu no exato momento em que o caraí simplesmente ignorou minha pergunta: “Guajáras? Quem são esses?”

Todos os meus contatos, entre os Jesuítas e os nativos, ninguém parecia ter ouvido falar desse nome. Alguns pajés paravam por um segundo e pareciam reconhecer o nome, mas logo afastavam seus pensamentos como quem dispersa a fumaça de tabaco. Já estava convencido de estar perseguindo as palavras de um velho inebriado pelo cauim quando tive a minha quota de aventura no vale dos Acritós. Um de seus xamãs era bem diferente do resto da tribo. Parecia ser um tupinambá ou telikong adotado. Ao pergunta-lo sobre “uns tais Guajáras”, ele me olhou pesadamente e disse sem rodeios que, se eu tinha alguma esperança de sair vivo daquele vale, era melhor não repetir aquela palavra perto de um acritó.

Três anos após daquela noite com o caraí, retornei às terras dos Tavyterã. Dessa vez, passei uma temporada no Forte Albuquerque, quando conheci melhor o capitão Ruy Garcia, que demonstrou ter um conhecimento acima do normal sobre a Terra de Santa Cruz e seus mistérios. Então, como nada tinha a perder, perguntei: “o capitão já ouviu falar dos Guajáras?”

Ele ficou calado, examinando-me com um demorado olhar enquanto as baforadas de fumo deixavam seu semblante quase desaparecer por trás da névoa que se misturava à neblina. E, depois de alguns goles de um inesquecível vinho lusitano, começou a falar. E muito.

O capitão contou sobre uma aventura de barco pelos rios do Prata, quando foi surpreendido por uma enxurrada e sobrevivido por milagre. Ao despertar, viu que se encontrava aos cuidados de um nativo de rosto sereno, idade indefinida, gestos precisos e olhar confiante. Ministrava-lhe um eficiente tratamento com ervas. Garcia perguntou-lhe se falava a língua dos Guaranis, embora não se parecesse com um. E, para a sua surpresa, respondeu-lhe fluentemente naquela língua.

Garcia recuperou-se logo e o nativo dispôs-se a guia-lo até as proximidades de uma missão jesuítica. Porém, no meio do caminho, foram cercados pelos Charruas. O seu companheiro de imediato ergueu os braços e começou a falar em outra língua, que logo se mostrou ser a mesma dos Charruas. Garcia desconhecia o idioma para saber o que diziam, mas uma palavra logo lhe chamou a atenção, da forma como era repetida pelos guerreiros: “guajára”.

O nativo então se despediu do capitão e disse que aquele grupo se encarregaria de leva-lo a salvo até a missão, que não havia nada que ele precisasse temer. Claro que isso não foi o suficiente para aplacar seu temor de perder a cabeça, mesmo sabendo que os Charruas não eram adeptos do canibalismo.

Mas, de fato, ao longo da jornada, foi tratado com extrema cordialidade. A situação só mudou quando, já próximos das missões, encontraram-se com um grupo de batedores Tapes. A tensão era palpável e a batalha, iminente. Então bastou um dos Charruas apontar para Garcia e dizer “guajára”. E os Tapes imediatamente mudaram de atitude. E mais uma vez a escolta da capitão mudou, e os Tapes o levaram até a missão de São Francisco de Borja.

Curioso com o termo, indagou aos dois jesuítas responsáveis pela missão sobre a palavra, mas eles nunca tinham ouvido falar dela. Decidiu buscar algum pajé entre os guaranis que ainda viviam na mata, mas, assim como a mim, nada disseram. Porém, perspicaz, Garcia notou o assombro no olhar de um pajé por, possivelmente, ouvir tal palavra da boca de um homem branco. E foi nesse momento que teve uma ideia: se este era um segredo guardado pelos nativos, não é algo que ele descobriria junto aos amigos, mas com os inimigos. Tratou, então, a procurar algum feiticeiro que vivesse escondido nas serras dos Tapes. E não demorou a encontrar um, um antigo pajé que se voltou contra os seus por se recusar a fazer aliança com os Castelhanos.

Garcia não entrou nos pormenores de como conseguiu se aproximar de um feiticeiro que se declarava inimigo dos colonos, mas tão interessado em ouvir revelações sobre os Guajáras que só me dei conta disso mais tarde. Diante da indagação de Garcia, o feiticeiro sorriu maliciosamente e sugeriu que ele procurasse uma gruta na Serra dos Tapes, em um labirinto de cânions próximo à costa. Intrigado, o capitão partiu para o local, mas nunca conseguiu chegar lá. Encontrou tantos obstáculos pelo caminho que achou impossível tratar-se de uma coincidência.

“A curiosidade matou um gato”, disse. “E este, já escaldado, preferiu retomar seus afazeres em Cananeia.”

Essa menção distraída de Cananeia abriu a porta para mais um mistério, sobre o qual vim a me debruçar anos mais tarde. Na capital da província, em Piratininga ou em São Sebastião, ninguém jamais havia ouvido falar do comandante do Forte Albuquerque.

Sobre os Guajáras, resolvi seguir a dica de Garcia: buscar aqueles que não são aliados. Para minha frustração, o resultado não foi muito diferente. No entanto, após dez anos de pesquisa, reuni algumas pontas soltas que, se tiverem nos Guajáras uma explicação em comum, podemos estar diante de um elo perdido a respeito dos mistérios que cercam este novo mundo.

A começar pelo templo tabu avistado no vale dos Acritós; as carrancas da Serra da Lua, onde os Yorubás ergueram os seus quilombos; as pinturas encontradas em várias lapas da região mineira e no sul da província; os entalhe de Itacoatiara, a 15 léguas da Cidade de Nossa Senhora das Neves; os Peabirus, tão engenhosamente traçados, cuja origem escapa aos anciãos da terra; e a convicção dos caraís, ao contrário dos caraíbas dos Tupis, da existência física da Terra Sem Mal.

Que outros mistérios poderia encontrar viajando por todo o continente? Certamente seria preciso duas vidas, pois só este pedaço de chão que mal ocupamos, mesmo dedicando metade da minha a explorá-lo, sinto-me apenas arranhando a superfície.

Considerações adicionais: se tais conjecturas se mostrarem verdadeiras e não fruto de uma obsessão delirante provocada por uma vida inteira enfiado nas profundezas verdes de Santa Cruz, isso será ao mesmo tempo fantástico e aterrador. Ao atravessarmos o Mar Oceano, no que foi que viemos nos meter?

*Compilação extraída do bestiário de Padre Maurício.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 12:15  Deixe um comentário  

PERSONAGENS ESPECIAIS*

Estes personagens devem ser interpretados com cautela e com o objetivo de enriquecer a história. Eles são especiais e devem ser tratados como tais. Pode ser também que algum jogador queira fazer um personagem de uma das classes especiais (espera-se que não seja o Compactado). Isso pode ser arriscado. É aconselhável fazer isso só com um jogador experiente e que interprete muito bem seus personagens. E que o grupo também participe desta decisão.

DOS COMPACTADOS

Alguns bruxos fazem pacto com o Diabo com o intuito de aumentar seus poderes e, assim, sua malignidade. O Tribunal do Santo Ofício os classifica como Compactados.

O mais importante é ter em mente que ninguém se torna bruxo com o pacto. É preciso já sê-lo para convocar Satanás e negociar a alma com ele. Sempre a alma, pois não há nada mais valoroso que uma pessoa possa lhe entregar. Por isso, ao morrer, o cadáver desaparece entre nuvens de enxofre e ruídos infernais.

Apesar de conservar o aspecto humano, o bruxo se torna mais demônio do que gente. Além dos feitiços que já domina, o Compactado pode fazer crescer garras nas mãos, ganha força e resistência sobre-humana. Sua pele é capaz de queimar ao toque, caso assim o desejar. Possuem grande poder, que parecem recuperar rapidamente e crescer a cada dia. Os padres que os combaterem alegam ter grande resistência a alguns encantos, exceto ao poder da fé divina.

Considerações adicionais: a considerar verdadeiros os relatos vindos de Nova Castela, esses bruxos adquirem fortuna facilmente e se inserem na vida social dos fidalgos com muita habilidade e traquejo, não despertando suspeitas e agindo com bastante discrição. O que os torna ainda mais perigosos.

DAS PESSOAS ABENÇOADAS

Algumas pessoas nascem com a benção divina, poderes especiais que, ao mesmo tempo lhes concedem uma graça, também lhes impõem um pesado fardo.

Adivinho

O Adivinho já nasce com dom de prever o futuro, mas este permanece latente até que ele seja atingido por um raio. A partir deste evento fortuito e aparentemente traumático, pois o raio não lhe fará mal e nem lhe deixará marcas, ele começará ter visões de eventos futuros. Contudo, não terá o menor controle sobre o seu poder. Ele não terá visões quando bem entender e sequer sobre os assuntos que desejar.

Considerações adicionais: reza a lenda que o Adivinho, ainda no seio da mãe, sinaliza estar marcado pela sina adivinhatória ao chorar demasiado. É possível que seu poder se manifeste com tamanha força que a torrente de visões provoque uma excruciante agonia em uma mente incapaz de compreender o que ocorre. Para a própria sobrevivência, tais visões podem ser bloqueadas e só reativadas por um outro evento igualmente traumático. Seria o raio o único evento possível?

Estigmata

Estigmas são marcas que reproduzem as cinco chagas de Cristo, manifestadas fisicamente de formas variadas, como ulcerações, chagas e queimaduras, nos cinco pontos do corpo pelos quais Jesus teria sido pregado à cruz: pés, punhos e no peito.

Aqueles que porventura nascem no mesmo dia e hora em que ele foi crucificado recebem a graça do poder da cura e ostentam tais marcas, sendo conhecidas como Estigmatas. Quando exercem seu poder, que nunca falha, as feridas se abrem e começam a sangrar.

Considerações adicionais: os Estigmatas são pessoas geralmente pacíficas e sempre de boa índole, mas costumam ser tratados como santos e geralmente se encontram incapacitados de levar uma vida comum, sendo usados em nome da fé. Como seu poder desperta ainda na tenra infância, antes mesmo de poderem compreender o que ocorre com seu corpo e a sua volta, são crianças sofridas, que muita vezes confundem a graça com maldição.

Saludador

Aquele que nasce na Sexta-Feira Santa, na mesma hora da morte de Jesus, ostenta no corpo a marca de uma cruz. Seu hálito e sua saliva possuem poderes curativos. A saliva cura feridas, enquanto o hálito, soprado para dentro da boca ou narina da pessoa, pode curar doenças. São conhecido como Saludadores, os benzedores ou curandeiros.

Considerações adicionais: a lenda é pouco conhecida e nem sempre a cruz é aparente. Assim, a pessoa ou seus familiares podem descobrir seu poder tardiamente, ou talvez nunca descobri-lo.

Zaorís

Alguns homens nascidos na sexta-feira da Paixão, mas nem todos, possuem o poder de ver através das coisas. Os tesouros enterrados, monstros escondidos, um veio de ouro etc. Nada está oculto para eles. Seus olhos possuem um brilho especial, misterioso, inconfundível.

O primeiro desses homens abençoados a ser descoberto vivia no Levante, onde recebeu o nome de Zaorí. Inicialmente, acreditava-se que os Zaorís viam e conversavam com espíritos, e estes lhes contavam a localização daquilo que está escondido dos olhos dos vivos. Muito depois foi revelado o seu verdadeiro poder.

Mas a benção do Zaorí vem com um fardo: seu poder não pode ser exercido em seu próprio benefício. O Zaorí jamais encontra tesouro para uso próprio, ele sempre reverte em benefício alheio. Tal restrição não ocorre por algum tipo de punição divina, mas pela própria natureza de um Zaorí. Eles são irrecuperavelmente desapegados, distantes, indiferentes, desinteressados, praticamente desprovidos de ambições e emoções fortes.  Seu olhar é sempre vago. Costuma andar sujo e esfarrapado, arrastando em passos lentos seu corpo franzino.

Considerações adicionais: o surgimento de um Zaorí permanece um enigma. Sabemos que ele nasce no mesmo dia que o Saludador e o Estigmata, mas certamente não no mesmo horário, tampouco no mesmo dia do ano. Talvez não seja a benção que forme a personalidade, mas o oposto. Tampouco se sabe em que idade ou circunstância seu poder se manifesta, pois um Zaorí nunca fala de si ou de seus sentimentos.

DAS PESSOAS LONGEVAS

Pelos quatro cantos do mundo nos deparamos com histórias de pessoas que viveram muito além de um homem normal, ou que caminha pela Terra há eras. Pessoas que que, aparentemente, possuem o dom da vida eterna. No próprio Livro Sagrado temos vários exemplos, como Seth, Metusalah, Mahalaleel, Enoch.

Mas a origem da maioria dessas lendas é desconhecida, e muitas vezes sua presença. Sua própria existência é envolta em mistérios insondáveis. Tampouco é possível dizer se há alguma ligação entre eles ou se trata de fenômenos isolados. Seriam eles parte de uma raça de imortais? Ou pessoas que receberam a graça da longevidade ou da vida eterna? Alguns relatos parecem mesmo retratar um ser indestrutível, capaz de retornar da morte como quem acorda após uma longa noite de sono.

As andanças pela Terra de Santa Cruz revelam ao menos três personagens que parecem se enquadrar nesse seleto e intrigante grupo.

Bacharel

Na segunda expedição lusitana à Terra de Santa Cruz, em 1502, um pequeno grupo de degredados foi deixado na ilha onde hoje se encontram as vilas de São Vicente e Todos os Santos. Na verdade, esse mesmo grupo foi responsável pelo levantamento de um povoado chamado São Vicente. Entre eles estava um personagem polêmico chamado Cosme Fernandes, de cuja origem nada se sabe. Conta-se que Fernandes teria se juntado a castelhanos para atacar São Vicente e que seria o responsável pela origem da vila de Cananéia. Entrou para a história com a alcunha de Bacharel.

A história desse personagem já seria por si só interessante, não fosse o fato de que, no auge do comércio e contrabando dos lusitanos no rio da Prata, um tal de Bacharel não fosse responsável pelo serviço de reparos a embarcações estrangeiras no porto de Cananeia. E, poucas décadas mais tarde, Bacharel também era a pessoa encarregada da casa de fundição erguida em 1653 na vila de Iguape.

Considerações adicionais: em 1650, o comandante do Forte Albuquerque se chamava Ruy Garcia. Ora, este nada mais é do que o mesmo nome do castelhano que, oficialmente, comandou o ataque a São Vicente, supostamente acompanhado do Bacharel. Ruy Garcia era uma figura misteriosa e mostrava um conhecimento anormal da região, da Terra de Santa Cruz e seus mistérios.

Recentemente, detalhes sobre a vida de João Ramalho, pivô da ocupação dos Campos de Piratininga e da aliança construída entre Lusitanos e Tupiniquins, chegaram ao conhecimento da Companhia de Jesus. A fonte de tais relatos não foi identificada, mas a precisão e a riqueza de pormenores indica sua veracidade. João Ramalho chegara a São Vicente junto com Cosme Fernandes.

Há indícios de que o conhecido comerciante de escravos Damião Hernandes seja o Bacharel. Mas ele desfila com a segurança de que qualquer menção a esse fato seria tratado como loucura.

Sumé

Os nativos relatam a presença de um homem branco no continente muito antes da chegada dos Castelhanos. Conhecido por Sumé entre os Tupis, esse homem, em diferentes idades, caminhou por todo o Novo Mundo ensinando técnicas e artes, e ditando regras morais para os habitantes.

Conforme a lenda, Sumé foi amado, aceito, odiado e atraiçoado. Muitas vezes foi perseguido por pajés que não aceitavam sua intromissão nos assuntos espirituais da tribo. Sumé haveria caminhado sobre as águas do mar, dando as costas a uma chuva de flechas que vinham em sua direção, mas que subitamente retornaram na direção dos flecheiros. Quatro pegadas suas, com a marca dos dedos bem definidas, estão registradas nas pedras da barra do rio.

Expulso da região, Sumé reapareceu no altiplano, sendo conhecido por lá com o nome de Tonapa. Com barba, magro, andando com um bastão, expulsou os demônios da região e pregou o amor ao próximo numa época entre a queda de Tiahuanaco e o surgimento dos irmãos Ayar. Da mesma forma, encontrou a resistência dos sacerdotes locais, que o amarraram em três grandes pedras a fim de lança-lo no lago. Mas três águias baixaram do céu e o libertaram. Tonapa, então, dirigiu-se a Copacabana, navegando sobre seu manto. As plantas aquáticas, as totoras, abriam a sua passagem.  Onde pousava os pés, deixava pegadas impressas na rocha. Onde repousava, esculpia a forma de um corpo. Na Ilha do Sol fez brotar uma fonte de água santificada. Foi, então, novamente aprisionado por sacerdotes e expulso pelos mesmos motivos de sempre. Partiu andando sobre as águas do Titicaca.

Considerações adicionais: mais do que um sábio, Sumé possui um vasto poder mágico, dominando uma variedade de encantos. Tais características fizeram os primeiros Jesuítas a aqui chegarem supor tratar-se do apóstolo São Tomé. Ao ouvir tal hipótese, o caraí dos Tavyterã apenas sorriu e soltou uma frase enigmática: “Sumé já caminhava por estas terras quando os Guajáras aqui estavam. Pelo menos foi o que ele me disse, e não tenho motivos para duvidar.” Então, culpando o cauim, nada mais disse.

Vaqueiro Misterioso

Em diversas partes do continente onde há uma grande criação de gado, o viajante certamente ouvirá uma mesma história: um belo dia, montado em um cavalo velho e cansado, chegou à região um vaqueiro mal vestido, humilde, oferecendo seus préstimos em troca de abrigo e um pouco de comida. Sobre ele, ninguém sabe quem é ou de onde vem, e nem interessou perguntar, pois é mais alvo de zombaria do que de curiosidade.

Mas, assim que começa a trabalhar, cerca e encaminha para o curral, sozinho, quase todo o gado. Galopa léguas em minutos, tão rápido é seu cavalo. Mostra-se capaz de imobilizar um touro tão facilmente quanto se prende um novilho antes da ordenha.

Logo se mostra sabedor de segredos infalíveis, além de ser o mais destro e mais hábil cavaleiro de toda a região. É aclamado como herói, desejado pelas mulheres, mas recusa todas as seduções, recebe o pagamento e desaparece, para surgir longe dali em outra fazenda.

Considerações adicionais: o vaqueiro misterioso é conhecido por muitos nomes. Nos currais próximos à capital da província, é conhecido como Vaqueiro Borges.

*Compilação extraída do bestiário de Padre Maurício.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 12:12  Deixe um comentário  

OS CAMINHOS DE SANTA CRUZ

O governo colonial não se preocupa em construir estradas para carroças ligando as vilas ou realizar grandes obras de infraestrutura. A viagem para o interior, particularmente às regiões montanhosas. representa um enorme sacrifício físico, de tempo, de recursos e dos animais utilizados. A Província de Santa Cruz é praticamente uma terra sem pontes.

Em Santa Cruz há dois tipos de caminhos: aqueles que se originaram a partir dos velhos caminhos nativos, os Peabiru, chamados simplesmente de “caminhos”; e aqueles abertos por colonos, os Caminhos Reais.

Os Peabiru formam uma intricada rede de caminhos por boa parte do continente. Muitos desses caminhos são muito antigos, e nem os nativos têm alguma lembrança de quando e por quem alguns foram construídos. A maioria procura contornar com suavidade os acidentes do terreno, evitando subidas e descidas abruptas. Seguem sempre próximos de rios e áreas de caça abundante. Não possuem nenhum tipo de pavimentação, marcados pelo pisoteio intenso. Têm em média 1,8 m de largura, parcialmente recoberto por uma grama miúda, pálida, macia e farta em sementes pegajosas, chamada de puxa-tripa. Onde essa grama é bem fechada, ela impede o crescimento de outras espécies.

Muitos caminhos, reais ou nativos, não são compostos apenas por trilhas terrestres, mas também por lagos e, principalmente, rios. Essas conexões são marcadas pelas peaçabas, o lugar de desembarque das canoas.

Caminho de São Tomé

Peabiru muito antigo, de oito palmos de largura, com rebaixamento do solo em 40 cm. Em ambos os lados do caminho cresce uma erva que chega até a altura de 1,5 m. Esta erva, mesmo quando queimada, renasce e cresce. Nos seus trechos mais difíceis, o caminho é pavimentado com pedras. Em alguns pontos é possível encontrar inscrições rupestres, mapas e símbolos astronômicos.

Aparentemente, o Peabiru percorre toda a Terra de Santa Cruz de leste a oeste, ligando os dois oceanos. Passa por Santa Maria de Assunção, Piratininga e segue adiante pelo vale do rio Paraitinga. Em seu extremo leste, chega às praias da Capitania da Bahia de Todos os Santos. Para oeste, entrelaça-se com os caminhos incas. A esse Peabiru convergem muitos outros, como aquele que conduz às minas, os que vêm de Paraty e São Vicente atravessando a Serra de Paranapiacaba, e o caminho que segue para Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.

Até a União das Coroas, a trilha além do Planalto de Piratininga foi proibida devido a sua ligação com terras castelhanas. O Governador-Geral temia o contrabando entre as duas colônias. A partir da Vila Nossa Senhora da Ponte de Sorocaba, o caminho se bifurca. Um segue em direção a La Piñeria e, de lá, rumo a Santa Maria de Assunção, que foi usado pelos bandeirantes no passado para atacar as missões jesuíticas e as vilas castelhanas da Província do Guayrá. O outro segue na direção do Forte Albuquerque, conhecido pelos nativos como Caminho da Terra Sem Mal. Ambos se reencontram mais adiante rumo ao Altiplano.

O nome “Caminho de São Tomé”, atribuído aos Jesuítas, deriva do nome dado pelos nativos: Caminho de Sumé. É possível encontrar pegadas gravadas em pedra, às vezes descalças, às vezes de sandálias, que as lendas dizem ser os rastros de Sumé. Impressionados com esse mito, os Jesuítas trataram de aproximá-lo a São Tomé. E muitos padres acreditam mesmo que o Apóstolo tenha chegado de alguma forma ao Novo Mundo e tentado trazer a civilização aos nativos. O que, aos olhos da Igreja, explicaria algumas grandes realizações dos nativos de Santa Cruz, sendo os Peabiru um bom exemplo.

Caminho Geral do Sertão

Esse é o caminho preferencial que os bandeirantes seguem para chegar às minas dos Campos dos Cataguás. O primeiro trecho dele, que segue de Vila de Nossa Senhora do Desterro de Jundiahy até Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, passando por Piratininga, é parte do Caminho de São Tomé. De Vila de Nossa Senhora da Conceição de Paraitinga em diante, o caminho pode ser percorrido pelo rio Paraitinga. Em Guaratinguetá, o caminho segue rumo norte, cortando a Serra da Amanatykyra através da Garganta do Embaú, até chegar à Vila Rica de Albuquerque.

Caminho do Facão

O caminho para os Campos dos Cataguás que parte de Nossa Senhora dos Remédios de Paratiy foi aproveitado de um antigo Peabiru. A primeira vez que os Lusitanos o usaram foi durante a guerra contra os Tupinambás. O primeiro Visconde de Asseca, filho do então governador de São Sebastião, atravessou a serra com 700 lusitanos e 2 mil Tupiniquim. Em 1660, seu filho, também governador, mandou abrir a estrada oficialmente quando Paratiy foi elevada à vila. Apesar da distância até a Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá ser quase a metade da trilha vinda de Piratininga, o caminho é bem mais árduo, e todo feito por terra.

A serra que corta região é a mesma Paranapiacaba que segue junto ao litoral desde as proximidades de Santo Antônio dos Anjos de Laguna até os Campos dos Goitacás. Íngreme e estreito, o caminho leva a um planalto entrecortado de colinas até chegar ao vale. No meio do caminho está o Rancho do Facão, um pequeno ponto de pouso para os viajantes. O vale é apenas um momento de descanso antes de enfrentar a travessia da Serra da Amanatykyra. O percurso total do litoral até as lavras de ouro pode durar cerca de três meses, considerando as necessidades de parada. Em marcha acelerada, sem descansos além do pernoite, pouco mais de 40 dias.

Caminho de Paranapiacaba

Para se chegar do litoral até Piratininga há dois caminhos. O mais antigo é o Caminho de Paranapiacaba. Tendo como origem uma velha trilha tupiniquim, o caminho parte da Vila de São Vicente, atravessa o alagadiço da Fazenda dos Jesuítas e sobe a Serra de Paranapiacaba por uma trilha cheia de curvas. Uma vez no topo, o viajante alcança o rio Tamanduateí e daí o córrego Anhangabaú, que leva a Piratininga. Em circunstâncias normais, o viajante leva dois dias para subir e um para descer. Durante a guerra contra os Tupinambás, este caminho chegou a ser proibido para evitar o ataque dos nativos. Atualmente, é preferido por aqueles que levam muita carga para o planalto, pois seu traçado proporciona uma subida menos íngreme.

O principal inconveniente são os obstáculos que podem aparecer na travessia. É corriqueiro o relato de criaturas que atacam os viajantes, particularmente aqueles que viajam em pequenos grupos. O alto da serra também serve de abrigo para Tupinambás que não querem viver sob o jugo colonial. Não querem mais guerrear, mas atacam as caravanas à procura de ferramentas e alimentos.

Caminho do Padre José

O segundo caminho para atravessar a Serra de Paranapiacaba rumo a Piratininga foi aberto pelo Padre Anchieta em 1554. São duas léguas por água e uma por terra, que podem ser percorridas em três dias, quando em boas condições. O viajante segue de canoa do porto da Vila de Todos os Santos até o pé da serra, onde dorme num tijupar, uma cabana feita de palha. Os Jesuítas não perdem a oportunidade de cobrar pela travessia em suas terras. No dia seguinte, em meio-dia de caminhada chega-se ao cume. O caminho é tão íngreme que às vezes é preciso usar as mãos. Lá do alto é possível contemplar o mar a perder de vista, as enseadas e braços de rio.

Chegar ao alto da serra não melhora muito a situação do viajante. O resto da travessia é marcado por muita lama, e ainda é preciso subir e descer colinas, passando por rios caudalosos de águas gélidas. No terceiro dia, a viagem segue descendo o rio de canoa de casca de árvore com cerca de 20 pessoas, bem próximo da margem, até chegar a Piratininga.

O Caminho do Padre José tem cerca de 65 km. Apesar de mais íngreme e difícil, o governo recomenda este caminho, pois raramente ocorre ataque de nativos ou criaturas. O perigo, no entanto, está oculto. Nativos e criaturas o evitam, e têm motivos para isso, pois lá é o lar de uma criatura sombria, vulnerável apenas aos poderes divinos.

Caminho de Itupava

Até meados do século XVII, o caminho mais fácil para chegar à Nossa Senhora da Luz dos Pinhais era seguir uma trilha a partir de Iguape, seguindo rio Ribeira, aproveitando um antigo Peabiru. Este caminho se conecta mais adiante com o Caminho de São Tomé que atravessa La Piñeria.

É a partir de Iguape que se teve início a ocupação do planalto das araucárias, com o surgimento da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. O imposto do quinto sobre o ouro extraído na região era pago em Iguape, e não em Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá.

Mais ao sul, a partir de Nossa Senhora do Desterro, um outro Peabiru sobe pelo rio Itapocu por uma rota utilizada pelos Castelhanos para chegar até Santa Maria de Assunção.

Entretanto, em 1654 foi finalizado o Caminho de Itupava, que liga diretamente Rosário de Paranaguá à Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. O caminho cruza rios, corta a mata e sobe a Serra de Paranapiacaba. Os bandeirantes, com a ajuda dos Cariós, aproveitaram um antigo e esquecido Peabiru, muito difícil de ser transposto, com trechos íngremes e escorregadios, e o transformaram na principal ligação do planalto com o porto. Liga também as duas principais lavras da região: as lavras do rio Cubatão, na planície, e as lavras do rio Arraial, no planalto. Por ter sido construído com recursos dos próprios mineiros, é cobrado um pequeno pedágio para cuidar da manutenção da via.

Caminho dos Currais do Sertão

O vale do rio São Francisco encontra-se ocupado até seu médio curso, prevalecendo em suas margens a criação de gado. O objetivo inicial desses colonos era abastecer as cidades do litoral, uma vez que os engenhos do nordeste não produzem alimentos. Para isso contam com o incentivo do Governador-Geral. Com a descoberta das minas, um novo mercado se abre para os criadores. Eles sobem o rio até encontrar a barra do rio Guaimií, por onde sobem até chegar às minas. Por esta rota, além do gado, passam mercadorias, produtos importados, escravos e aventureiros.

Apesar do caminho ser menos acidentado que aqueles do sul, favorecendo a passagem de bois e cavalos, não é uma rota tão fácil. Uma boa parte da travessia é pelo cerrado, com pouca proteção das árvores, o que é amenizado pela proximidade do rio. Por não ser um caminho oficial, e distante de vilas e arraiais, o viajante encontra-se a mercê de ataques de nativos, quilombolas e criaturas das mais variadas. Perto da capital, ao retornarem das minas, estão também sujeitos à ação de bandoleiros. A forma mais segura de percorrê-lo é com a ajuda dos tropeiros.

O Caminho dos Currais não foi aberto a partir de um Peabiru, mas por bandeirantes que desceram o rio São Francisco até a Capitania de Pernambuco. Foi recentemente muito útil no combate à Confederação dos Cariris. Por esse caminho também chegaram os mineiros da capital e de Olinda.

O governo tenta controlar o acesso para evitar o crescente contrabando de ouro. Os caminhos do sul são fortemente fiscalizados, e a rota pelo São Francisco, apesar de mais demorada, permite escapar do peso da tributação. Para evitar o descaminho do ouro, a Coroa procura coibir a sua utilização, limitando-a ao transporte de gado para as minas. Porém, a dificuldade de transportar carga pelas rotas oficiais acaba estimulando o contrabando na área.

O ouro sai dos Campos dos Cataguás ainda em pó, pois a única casa de fundição fica em Tabaybaté. Isso facilita que o ouro seja levado diretamente à capital. Os próprios mineradores usam esse caminho para adquirir cabeças de gado para revendê-las nos arraiais mineiros a preços exorbitantes.

Passos de Anchieta

Na Capitania do Espírito Santo, o Padre Anchieta utilizava um Peabiru de 100 km até a Vila do Espírito Santo. Ele caminhava por quatro dias, percorrendo em média 25 km por dia, boa parte pela areia da praia. É possível encontrar vários poços de água potável abertos pelo próprio padre. Atualmente, o caminho é usado como via de peregrinação até Reritiba, onde se encontram os pertences e os ossos do padre, considerado por muitos como um santo.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:56  Deixe um comentário  

Das Minas e da Mineração

EM BUSCA DO OURO

“Desde as primeiras viagens à Terra de Santa Cruz, nossa gente escutou histórias sobre cidades e montanhas de ouro e prata no interior do continente, mesmo antes de Pizarro chegar ao litoral do Império do Sol. Um ano antes, três degredados de São Vicente partiram rumo às cordilheiras escoltados por um exército tupi. Entretanto, ao retornarem, encontraram seu fim nas mãos dos Guaranis. Após a descoberta das minas de Potosí, nossos colonos se embrenharam nas matas, subiram montanhas e atravessaram rios à procura do El Dourado. Até encontrarmos nosso final feliz nos Campos dos Guatacás, essa busca pelas riquezas minerais foi repleta de altos e baixos, muita expectativa e ainda mais desapontamentos.

Das Minas de São Vicente

Pouco se fala, na província e no Reino, ou mesmo no estrangeiro, sobre as descobertas de minas aqui no planato piratiningano. Após revirarem as terras do litoral de São Vicente, os vicentinos partiram para o interior. Em 1561, enviaram à Coroa mostras dos metais encontrados, supostamente um ouro tão bom quanto os da Costa do Ouro, no Continente Negro. Nunca entendi porque o achado despertou tão pouco interesse da Coroa. Mas a exploração do ouro de lavagem foi sendo feita esparsamente pelos vicentinos. Posteriormente, outros achados foram feitos no litoral, em área próxima das terras castelhanas.

Foi em 1589, já em tempos da União das Coroas, que o minério de ferro de Araçoiaba foi encontrado. O amigo há de se recordar das duas fundições que visitou no local. Em seguida, encontramos ouro no rio Tietê e também próximo à serra de Amanatykyra, que separa o planalto dos Campos dos Cataguás. Na época, houve quem levantasse suspeitas de que tais minas eram sobrevalorizadas pelos vereadores de Piratininga para ganhar benesses da Metrópole. Já em São Sebastião diziam que havia em nossas terras muitas minas e muito ouro, e que os bandeirantes as escondiam para evitar a taxação e não permitir que o ouro chegasse a Castela. Talvez a verdade se encontre em algum lugar no meio do caminho.

As riquezas da capitania eram reais, mas não abundantes. Para a gente daqui, o que havia dava pra tocar a vida. E era fácil obtê-las, mas só se recorria a elas quando necessário. Até o Tratado de Santa Luzia, que tanto custou ao amigo implementar, os escravos nativos rendiam mais do que o ouro em uma economia na qual quase tudo era obtido por meio de troca. Agora, com o ouro mais abundante, as coisas começam a mudar. Sinto que Piratininga se transformará de forma irreversível.

As notícias desencontradas sobre minas de ouro e prata na nossa região acabaram sendo prejudiciais à Vila de São Vicente, que passou a ser alvo de piratas antes da virada do século. Outro desdobramento foi quando o Rei designou o Governador-Geral para examinar pessoalmente o que havia de verdadeiro ou falso sobre os tais achados. Ele, pessoalmente, só percorreu mesmo o curso do Tietê. O resto foi realizado por alguém sob suas ordens, que atravessou a Amanatykyra rumo aos Campos dos Cataguás e chegou às cabeceiras do rio São Francisco, pensando equivocadamente ter chegado a Sabarabuçu. A viagem de nove meses, entretanto, teve resultado nulo.

O povo daqui afirma que as riquezas eram reais, mas mal exploradas e mal beneficiadas na época. Algum ouro certamente havia nas redondezas, mas o Governador-Geral acabou concluindo que os vicentinos exageravam sobre suas riquezas para promover a capitania. Na verdade, ele pouco se dedicou a fazer o que o Rei havia lhe determinado.

Em 1603, a Coroa decidiu expedir o Regimento das Terras Minerais para a Província de Santa Cruz, criando uma provedoria específica para tais assuntos, independente do Governo-Geral. E adivinha quem primeiro assumiu o cargo? O mesmo “diligente” governador! Este logo incorporou a lógica dos vicentinos, mais interessado no descimento dos nativos do que na descoberta de novas jazidas. Duros tempos para o nosso gentio…

Em 1616, uma grande tropa partiu para o norte da capitania, sem nenhuma participação do governo, uma iniciativa inteiramente particular de nossos bandeirantes. Eles percorreram os caudalosos cursos d’água que riscam o coração do continente até chegar à Capitania do Maranhão. Outra entrada, que durou de 1618 a 1620, partiu para o lado oposto, chegando a Nova Castela. Ambas fracassaram em atingir seu objetivo. Desencantada, Castela fez novo regimento e decidiu conceder aos descobridores as jazidas encontradas, cobrando apenas o pagamento do Quinto. O próprio texto do regimento faz referência às missões inúteis dos enviados especiais da Coroa.

Das Minas de Paranaguá

Curiosamente, mais sucesso tiveram as entradas que desceram a nossa costa, ainda no século passado. Como era comum naqueles tempos, o objetivo era capturar os Cariós, mas os bandeirantes acabaram encontrando ouro de lavagem na ilha da Cotinga. Apesar disso, o povoamento regular da região só ocorreu décadas depois, o que não é difícil de explicar. Por muito tempo houve dúvidas a quem pertenciam aquelas terras. A Vila de Yguape, por exemplo, havia sido ocupada antes por Castelhanos, os mesmos que atacaram a Vila de São Vicente após a partida de Martim Afonso. E Yguape também virou região de lavra rio acima. Ali foi autorizada uma casa de fundição para marcar o ouro. À época de sua chegada, em 1649, a extração do ouro de lavagem ocupava toda a costa de Yguape a Paranaguá.

A Serra de Paranapiacaba foi vencida na altura de Paranaguá, primeiramente por um caminho a partir de Cananeia, dando origem a um novo arraial: Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. As novas lavras, estranhamente, continuaram sem animar a Coroa lusitana da mesma forma que havia desinteressado Castela. Sequer provocaram uma corrida de aventureiros para a região. A dificuldade na extração de ouro em quantidade razoável não parece compensar grandes investimentos, particularmente o uso de escravos africanos. O Provedor prometeu renda anual de 4 mil cruzados anuais a quem primeiro obtivesse 400 mil cruzados, e o título de Conde caso chegasse a 500 mil. Devo dizer que não conheci nenhum conde por essas paragens, nem o Padre Belchior, que lá esteve. Em 1680 foi elaborado o Regimento agora em vigor nas minas das capitanias de São Vicente, Itanhaém e Paranaguá.

Foi com certo aperto no coração que ouvi do Padre Belchior que muitos mineiros usavam clandestinamente o trabalho dos nativos, aproveitando-se da distância e do pouco caso da Coroa. Se, de fato, nem o brilho dourado faz com que as autoridades coloniais ponham os olhos naquela província esquecida, o que dizer do sofrimento de alguns nativos.

Devo frisar que, mais uma vez, todas as minas da região foram descobertas por meio da audácia e destemor de nossa gente, sem nenhuma ajuda da Fazenda Real.

Das Minas dos Campos dos Cataguás

No início dos anos 40, o Provedor das Minas determinou nova expedição em busca de Sabarabuçu. Mais uma vez, a administração colocava sua atenção em direção contrária a onde o ouro estava. Tal iniciativa deu origem à mal fadada experiência da Vila da Boa Sorte, que durou menos de dez anos. O amigo já havia deixado Piratininga quando chegaram os poucos sobreviventes dessa empreitada. Nenhum deles se mostrou animado a contar o ocorrido. É pouco provável que, atualmente, haja alguma testemunha viva a quem perguntar a respeito. O lugar exato da vila, assim como as razões de seu abandono, perdeu-se na bruma do tempo. Talvez sua vivência tenha algo a acrescentar sobre este sombrio capítulo de nossa história. Quanto a mim, junto-me à ignorância dos demais.

Vinte anos depois, o ânimo dos bandeirantes foi renovado com a iniciativa da Coroa em oferecer títulos de nobreza e outras recompensas àqueles que descobrissem tesouros minerais. Uma carta circular do Rei foi dirigida diretamente aos capitães bandeirantes, por serem estes considerados os mais aptos para a tarefa. Assim, a partir de 1672, eles retornaram aos Campos dos Cataguás saídos de Piratininga e Tabaybaté, dessa vez se fazendo acompanhar por um exército Tupiniquim. As tribos Tapuias foram empurradas para o norte e para o vale do São Francisco. Os Puris da Serra da Amanatykyra se espremeram para os lados do vale do Paraitinga.

A primeira bandeira varou os sertões do São Francisco e foi parar nas cabeceiras do rio Tocantins. A Metrópole foi informada de que a expedição havia encontrado ouro em abundância, mas sem nenhuma prova material do fato, pois poucos sobreviveram aos ataques dos nativos. Assim, uma outra partiu com a missão de confirmar tais notícias.

Essa segunda bandeira teve mais sucesso no combate aos nativos do que em sua missão original. Paralelamente, em 1675, uma nova expedição rumo ao sul descobriu as maiores minas de ouro de lavagem até então descobertas entre Yguape e Paranaguá. Contudo, todas as atenções estavam voltadas para a grande expedição organizada por Fernão Dias Paes, que anunciava a quem quisesse ouvir que era capaz de encontrar a Serra das Esmeraldas. Foi nessa época que assumi minhas funções no Colégio de São Paulo.

Dias Paes passou sete anos varando os Campos dos Cataguás. Ao contrário das expedições anteriores, ele não tinha pressa. Tratou de preparar o plantio de roças em forçados e longos períodos de repouso. Com isso, estabeleceu a rota que passou a ser seguida por todos os aventureiros depois dele e pelos atuais viajantes e tropeiros que seguem rumo às minas. A expedição seguiu até o rio Jequitinhonha e chegou até o local agora conhecido como arraial do Serro Frio. O grande capitão faleceu antes de retornar a Piratininga, acreditando que as pedras verdes que carregava eram as tão cobiçadas esmeraldas. Mas eram turmalinas, pedras de pouco valor.

Dessa expedição de Dias Paes saíram alguns capitães que fizeram sua fama em anos recentes. Acredito que esta década foi o auge dos bandeirantes vicentinos. Ao mesmo tempo em que Matias Cardoso enfrentava e vencia a Confederação dos Cariris, Domingos Jorge Velho derrotava o exército do negro Zumbi.  Enquanto isso, no interior, os bandeirantes finalmente encontraram as riquezas de Sabarabuçu. Todos eles saídos do planalto de Piratininga, com sacrifícios de suas vidas, privando-se do conforto do lar e da família.

O Provedor das Minas, o castelhano Dom Castel-Blanco, acompanhava com interesse essas entradas e decidiu partir para os Campos dos Cataguás para saber como estavam os achados. E não mais retornou, sendo assassinado em circunstâncias misteriosas em 1682. Sabemos apenas que, ao chegar à região, foi logo informado da morte de Dias Paes. É praticamente certo que Castel-Blanco, um sujeito realmente bastante empertigado e consciente de sua autoridade, encrespou-se com Borba Gato a respeito de equipamentos de mineração. As suspeitas recaíram sobre o bandeirante, mas não há certeza sobre quem disparou o tiro, e se a mando ou consentimento do genro de Dias Paes. Desde então Borba Gato anda sumido, e nossa tropa pouco ânimo tem para vasculhar aquelas serras atrás dele e de seus homens. E pouca competência, devo acrescentar.

Ouvi rumores de que Borba Gato teria trocado a liberdade pela revelação das minas ao governador de São Sebastião, Artur de Sá. Talvez o nosso caríssimo Padre Antônio possa confirmar tais histórias. Estive recentemente com o governador Artur de Sá aqui em Piratininga. Ele foi o responsável por comunicar à Coroa o achado do “ouro preto”, as pedras acinzentadas que escondem um ouro puríssimo. Provavelmente por essa razão, o Rei o incumbiu de verificar pessoalmente as minas. Mas, antes, houve por bem realizar uma missão diplomática no berço bandeirante. Mostrou sincero entusiasmo com meus relatos sobre a minha rápida passagem pela região. Partiu em março de volta para São Sebastião, a fim de preparar a sua viagem. Será, portanto, a primeira autoridade a visitar as minas.

De 1693 para cá, os bandeirantes encontraram duas dezenas de rios com ouro de boa qualidade. Ouro de aluvião, que se cata nas águas do rio, mas em abundância. Um pouco antes das notícias chegarem ao litoral, o governador anterior de São Sebastião especulava que os bandeirantes escondiam informações sobre as minas. Mesmo hoje, há quem afirme que as minas já existem desde a época do assassinato de Castel-Blanco, e que foram divulgadas porque já era impossível escondê-las.

Da minha visita às minas

Enfim chego ao motivo que fez o amigo solicitar-me esse relato. Quando Padre Belchior me pediu para visitar a região das minas, estranhei. Mas, acostumado que estou com suas profecias, não hesitei em procurar alguém que estivesse de partida para aquelas bandas, o que se tornou bastante comum nos dias de hoje.

Aqueles pouco acostumados a viagens pela mata optam por passar menos tempo nela, viajando de sol a sol. Pernoitam nas roças particulares ou nos ranchos. A hospedagem de autoridades e padres em viagem é praticamente uma obrigação. Apesar de mais cansativa, leva menos de 30 dias para chegar às minas.

Os bandeirantes preferem sua marcha peculiar, levando dois meses de Piratininga à região. Sempre evitam marchar de sol a sol, parando por volta de meio-dia. Viajam sem pressa, acampando, procurando o melhor lugar para caçar e pescar. Entram na mata atrás de mel e frutos, plantavam roças de milho, abóbora, feijão e batata nos caminhos.

Por sorte, meus companheiros de viagem tinham pressa. Por sermos um grupo pequeno, alcançávamos mais rapidamente os pousos já estabelecidos pelo caminho. Caminhávamos até o sol se inclinar. À medida que se penetra a região, as montanhas se tornam mais ásperas, os vales mais fundos, a natureza mais hostil. Quando nos sentimos aliviado por ter deixado pra trás a serra íngreme, vem outra, mais escarpada. Ambas cobertas por mata virgem, cortadas por desfiladeiros e precipícios, onde só é possível atravessar a pé. A região também é cortada por rios, os quais só são possíveis transpor em pequenas canoas, onde não cabem mais que dez homens. Fico imaginando aqueles que partem de Paratiy, tendo ainda que atravessar a Serra de Paranapiacaba. Não há, portanto, como chegar às minas com gado ou cavalos vindo de São Sebastião ou Piratininga.

Um dos acessos aos Campos dos Cataguás é um Peabiru que desce o rio Paraopeba. A margem oeste é habitada por aldeias Guaranis que não costumam nos oferecer problemas. Já do outro lado, as serras nos separam dos temidos Aimorés, que criam dor-de-cabeça aos colonos desde o litoral da Capitania do Espírito Santo. Assim, a margem oeste é a garantia de um caminho mais seguro para os bandeirantes.

Dias Paes criou nessa rota diversos pontos de apoio, com roças e criações de animais. Portanto, os primeiros arraiais da região não são mineiros, mas ranchos para servir de pouso às expedições. O mais antigo é Ibituruna, criado em 1674. No ano seguinte foi erguido o arraial de São Pedro do Paraopeba e, em seguida, Piedade do Paraopeba, nas fraldas da mencionadas serras. Esses povoados começam a crescer com as descobertas auríferas, ainda que eles mesmos ainda não tenham encontrado suas lavras. Mas são pontos de pouso essenciais para aqueles que, como nós, chegam do sul. Servem também como fonte de abastecimento dos arraiais de exploração.

Os arraiais mineiros são improvisados, não há terreiros ou praças. Eles são formados por uma rede de ruas irregulares e íngremes, um emaranhado de vielas, travessas e becos, nos quais se encravam pequenos pátios. As casas são de pau a pique, cobertas de telhas de barro. A criminalidade na região aumentou muito, pois é impossível manter a lei em uma área tão grande e tão movimentada.

Os Campos dos Cataguás se estendem por uma área maior do que a do Reino. Cheguei a caminhar por oito dias de uma lavra a outra. Os recém-chegados não fazem ideia do que vão encontrar por lá. Conheci homens que venderam todas as suas posses, mas que ainda não haviam encontrado a fortuna que tanto buscavam. Um homem sem lavra, sem um ofício, lá é visto pelos demais como peso inútil, um delinquente. Muitos viajantes são vítimas das febres do sertão, da cobiça, da fome e da indiferença. A liberdade de nada serve a essa gente.

Nos últimos cinco anos, 50 mil homens livres chegaram à região. Os bandeirantes chamam esses migrantes de mboabas, termo que os Tupis usam pejorativamente para se referir aos forasteiros. Só nos últimos dois anos, foram enviados mais de 200 mil escravos para as lavras. Dom João de Lencastre anda preocupado com o esvaziamento dos engenhos do litoral e faz de tudo para conter o êxodo. Apesar das boas intenções e competência do nosso governador-geral, não será tarefa fácil.

Essa migração não é um problema apenas para o litoral. Nos arraiais mineiros há pouca ou nenhuma preocupação com plantações e criações. Aqueles destinados a este fim não têm condições de sustentar tanta gente. A caça, a pesca, os frutos e o mel não sustentam os mineiros, os escravos e os aventureiros por muito tempo. Após o meu retorno, chegaram notícias de que o povo de lá vem enfrentando uma terrível fome. Mas Piratininga, com apenas 18 mil colonos ocupando o planalto, não tem condições de acompanhar a demanda das minas. Nossa produção sempre foi calcada na subsistência e trocas locais. Não se muda isso de uma hora para outra.

São Sebastião é que vem se esforçando para cumprir esse papel. Há algum tempo, inclusive, vem abastecendo São Vicente. Contudo, é complicado ter de passar por Paratiy antes de subir a serra, cujo caminho é difícil e pouco indicado ao transporte de carga. O bandeirante Garcia Rodrigues foi incumbido pela Coroa a abrir o novo caminho que ligue as minas a São Sebastião. Começou os trabalhos no ano passado, a partir de Vila Rica. O trecho já construído, pelo que me disseram, também não permite a passagem de gado ou cavalos.

Até a rota ser concluída, acredito que muitos mineiros irão morrer de fome com ouro na mão, pois os preços nos arraiais são exorbitantes, chegando a ser de 10 a 40 vezes superior aos praticados nas capitanias. Com isso, muitos mercadores não querem negociar no porto, para lucrarem mais no interior. O problema atinge também o mercado de escravos. Soube pelo Padre Antônio que os plantadores de São Sebastião exigem preços mais baixos aos comerciantes, provocando muitos atritos. Imagino que não deva ser diferente aí na capital.

Os caminhos são de grande preocupação para o governo da província. Sem eles, a região fica isolada, com fome e na atual desordem em que se encontra, à margem da lei e do controle da Metrópole. Com os caminhos, facilita-se o contrabando, a saída ilegal de ouro e a entrada de criminosos e espiões estrangeiros. São Sebastião e São Vicente, que tanto sofreram com ataques piratas no passado, voltam a se inquietar. É certo que, com a descoberta de ouro em abundância, a Província de Santa Cruz volte a ser alvo de interesse dos corsários franceses e neerlandeses.

Quando estive recentemente no porto de Todos os Santos, encontrei um irmão que voltava de Córdoba. Parece que os Castelhanos conjecturam que as minas encontradas são mais extensas que o até então anunciado. Consideram que a Metrópole não divulga as informações para evitar que ocorra uma corrida desenfreada para as minas antes que a administração colonial esteja devidamente preparada. O que seria um cuidado louvável. Eles esperam que a exploração do ouro no interior da colônia lusitana possa representar um refluxo do contrabando e da ocupação lusitana no rio da Prata.

O Governador-Geral de fato decidiu controlar as rotas para a região, preocupado tanto com o controle fiscal quanto com o esvaziamento de escravos no litoral. Determinou que todo o acesso às minas deve ser feito a partir do caminho que segue a partir de Tabaybaté, onde fica a Casa de Fundição. Até esta vila é possível chegar de Piratininga e pelo Peabiru vindo de Paratiy, pelo menos enquanto o caminho até São Sebastião não ficar pronto. A Capitania do Espírito Santo foi proibida de abrir caminhos diretos para as minas. E aqueles que sobem os vales do São Francisco e do Jequitinhonha deveriam seguir para o vale do Paraitinga até alcançar Tabaybaté. Tal desvio, no entanto, é impraticável. Claro que a rota que sobe o rio São Francisco continua sendo muito utilizada. A distância da capital é bem maior, cerca de 237 léguas, mas o terreno é mais plano, sem mata fechada, sendo possível atravessar o gado e percorrer a cavalo. Assim, tropeiros e mascates continuam a subir o vale com sua mercadoria.

Dos conflitos nas minas

O Governo-Geral pretende ir além de controlar os acessos à região, e começa a elaborar medidas para dar fim à desordem nos arraiais. Os bandeirantes de São Vicente e Itanhaém, por serem descobridores das lavras, e sem ter tido nenhum auxílio da Coroa na empreitada, julgam-se proprietários daquelas terras e com o direito de administrá-las. No entanto, os dois grupos são rivais desde o desmembramento da Capitania de São Vicente, e precisam aparar arestas pra se unirem pela causa em comum.

Em episódios recentíssimos e vitais para a integridade da província, os bandeirantes formaram a principal força militar da colônia, de forma que não julgam haver em Santa Cruz quem lhes seja páreo em combate. Para eles, só deve ter acesso às lavras aqueles que lutaram e arriscaram a vida para encontrá-las. Nos arraiais, bandeirantes e mboabas formam partidos rivais, e não gostam das intromissões da Coroa. Ambos lutam pelo controle das minas e do aparato administrativo que vem sendo rascunhado pela Metrópole. As diferenças entre os grupos são visíveis. O bandeirante é o homem descalço, o mestiço. O mboaba é o lusitano de botas altas.

Os preços abusivos dos produtos vendidos na região afetam a todos, mas os bandeirantes, acostumados a uma economia de troca, são mais hostis aos comerciantes. Os recém-chegados são mais diplomáticos e se relacionam melhor com os mercadores, e também com o governo da capital.

Outra diferença entre os dois grupos é que, em São Vicente, o trabalho de negros escravos é pouco usado por causa dos altos custos. Os vicentinos chegaram às minas acompanhados pelos velhos companheiros tupis. Já os mboabas chegaram com mais escravos, novas técnicas de mineração e ligações comerciais.

Não há ordem na região ou qualquer autoridade judiciária, militar ou administrativa. Os padres que lá encontrei envergonham a nossa fé. Muitos, acredito, são desertores de suas Ordens. Naquelas terras reina a anarquia e a lei é imposta pelo bacamarte.

Ao se despedir de mim, Padre Belchior disse que todo homem, ao atravessar a Serra de Amanatykyra, deixa ali pendurada sua consciência. Para o nosso irmão, as minas só servem para fazer as almas rolarem pelo barranco do inferno. Talvez tenha me enviado para lá na esperança de que compartilhasse de sua visão, que ainda me soa exageradamente sombria. Ou talvez o tenha feito só para que eu pudesse escrever esse relato ao nobre amigo.” – extraído das cartas do Padre João Pires Camargo ao Padre Maurício.

A MINERAÇÃO

Há duas modalidades de jazida: a lavra e a faisqueira. Lavras são as jazidas mais importantes, que necessitam de uma grande quantidade de mão de obra e de investimento. Faisqueiras são jazidas menores, cujo ouro pode ser extraído por um garimpeiro solitário ou com um pequeno grupo de escravos. O trabalho numa faisqueira pode ser tão pouco recompensador que alguns proprietários preferem enviar seus escravos e dar a ele um percentual do ouro encontrado.

Mineração exige trabalho duro. Se os bandeirantes fizeram a sua parte abrindo os caminhos, enfrentando os nativos e encontrando o ouro, os escravos fazem a sua passando o dia dentro d’água, batendo e transportando cascalho dos rios até as margens para ser lavado.

O regime de trabalho exige mão de obra especializada, o que faz aumentar o preço dos escravos oriundo da Costa do Ouro, no Continente Negro. Muitas técnicas de lavra foram introduzidas por eles. A dureza das condições e o espírito de desafio e aventura permitem a esses escravos relativa liberdade de ação e maior oportunidade de comprar a alforria. Além do ouro escondido, eles têm licença para batear nos dias santos e ao cair da tarde, quando as condições de trabalho se tornam mais árduas e pouco produtivas devido ao frio e à pouca luminosidade.

No início, era possível pegar ouro com as mãos. Utilizavam-se pratos de pau ou estanho.  A bateia, ferramenta introduzida pelos negros, mede meio metro de diâmetro e é feita de pau-cedro. Esses escravos se revelaram excelentes mineradores e metalurgistas, e conhecem o fabrico de enxadas, alavancas e cavadores. São obrigados a enfrentar as águas geladas das serras, nas quais entram às 10 da manhã, para buscar o cascalho em águas profundas, e saem por volta das 15h, por causa do frio. Submergem levando uma haste com anel de ferro e um saco na ponta no qual recolhem a areia. O conteúdo é colocado em canoas e levado para as margens, onde é beneficiado. Em algumas lavras já são utilizadas colheres de ferro.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:52  Deixe um comentário