Apresentação

Após 10 anos mestrando ininterruptamente O Desafio dos Bandeirantes, é natural que, sendo um dos autores, muitas alterações fossem feitas para satisfazer tanto jogadores quanto mestres.

Houve mudanças tanto nas regras quanto na ambientação. A própria Terra de Santa Cruz foi ficando cada vez mais parecida com a América do Sul real, geográfica e historicamente.

Esse blog foi inicialmente dedicado a essas modificações pessoais e, principalmente, à publicação da ambientação de O Império do Sol, relativo aos incas e à colonização espanhola no Peru. O livro original foi escrito para ser publicado na sequência de O Vale dos Acritós, ainda em 1995, o que acabou não acontecendo.

Voltando recentemente à ativa, novas modificações são feitas constantemente. Muitas mudanças referentes ao Sacerdote Negro, Feiticeiro Negro, Jesuítas, atributos, novas classes, novas magias etc.

Na medida do possível, novas ambientações serão acrescentadas para compor o mosaico de histórias e culturas da Terra de Santa Cruz. Portanto, trata-se de uma obra em eterna construção.

Espero que gostem.

Flávio Andrade

O Bandeirante

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Published in: on 23 de fevereiro de 2010 at 4:21  Comments (11)  

#RPGaDay2019

RPGaDay2019

A brincadeira/desafio ocorreu ao longo do mês de agosto. Este post reúne toda a minha participação.

#RPGaDay2019 – First (Dia 1)

Essa é fácil. Foi o famigerado AD&D (Advanced Dungeons & Dragons), provavelmente no ano de 1991. O mestre de cerimônia foi o Julio Cezar, então futuro coautor de Tagmar.

O Julio estudava Engenharia com a Fernanda, uma amiga de escola que queria muito jogar. Então ela chamou outros dois amigos (Carlos Klimick e Luiz Eduardo Ricon) para compor o grupo. Eles gostaram muito e me chamaram para a sessão seguinte.

Eu já vinha esbarrando no jogo havia algum tempo, mas ninguém parecia com tempo ou interesse em explicar (o Ygor, outro coautor de Tagmar, que estudava Comunicação comigo, chegou a passar por mim com uma sacola cheia de suplementos do jogo).

Fiquei um tanto frustrado com a sessão em si. Meu mago não fazia nada e a motivação (ou falta de) do grupo não fez sentido pra mim. Era uma aventura pronta de AD&D, do tipo de explorar “dungeon”.

#RPGaDay2019 – Unique (Dia 2)

Muitas coisas na minha vivência de RPG podem ser consideradas “únicas”, seja como jogador, autor, editor, divulgador etc.

Bem, sou autor de duas séries de jogos, “Era do Caos” e “O Desafio dos Bandeirantes”. Mais do que publicar, ouvir um elogio ou ler uma resenha positiva, ver alguém se divertindo com seu jogo, sem que você tenha contribuído em nada para isso (exceto escrevê-lo), é certamente uma experiência única.

#RPGaDay2019 – Engage (Dia 3)

Para esse dia, vi as pessoas usando envolvimento, engajamento, seja o pessoal ou provocar isso nos outros.
Sem dúvida, o principal desafio do mestre/narrador é garantir o envolvimento dos jogadores em sua história. Só assim a magia acontece. Mais difícil ainda é conseguir transformar isso numa campanha longa.

Como jogador, meu maior envolvimento foi numa campanha de World of Darkness narrada pelo Carlos Klimick, na qual eu fiz um werewolf.

Como narrador/mestre, foi O Desafio dos Bandeirantes. Sempre disse que eu virei autor de RPG pra poder escrever o DdB. Se fosse outra a proposta, tipo Mitologia Grega, teria ficado de fora.

E foi com esse envolvimento que mestrei direto de 1992 até 2000 ou 2001, mesmo enquanto escrevia o Era do Caos e seus suplementos e tocava outros projetos da Akritó e paralelos. Voltei ao Bandeirantes por volta de 2008, e parei novamente devido à paternidade.

Pretendo voltar, mas, a essa altura do campeonato, talvez precise esperar meus filhos crescerem para poder formar um grupo.

#RPGaDay2019 – Share (Dia 4)

Esse dia acho que a imensa maioria tem interpretado da mesma forma: compartilhar.

Há duas formas de compartilhar bem fortes no RPG: uma referente ao que acontece em uma sessão de jogo e outra ao que acontece fora dela.

O RPG extrapola o jogo em si da mesma forma que a música e o futebol. Mesmo quando vc não está jogando, você sente a necessidade de falar sobre o jogo, trocar experiência, criticar, encontrar alguém que goste das mesmas coisas, ler ou escrever sobre o assunto (como agora).

O palco mais evidente para isso são os eventos e as lojas. No caso do Rio de Janeiro, a RPG Rio talvez tenha sido a maior confraternização da história carioca. Quanto às lojas, meus companheiros de geração rpgística provavelmente citarão a saudosa Bárbaras Magias ou a Point HQ do saudoso Tassius, mas a loja que me remete tais sentimentos é a Metrópolis da Taquara, do irmão do Tassius, Thales. Thales e Laurinha sempre nos receberam muito bem na época da Akritó, e o pessoal que frequentava a loja sempre proporcionou uma rica troca de experiências. Até hoje tenho (e uso) a camisa da loja.

Já em uma sessão de RPG, chamo a atenção para o compartilhamento de narrativas. No RPG, não só o mestre é o narrador. Cada jogador é, de alguma forma, co-narrador da história. Cada jogador tem sua referência cultural, seu estilo, sua forma de ver a vida e o jogo, sua vivência, e tudo isso se amalgama numa única narrativa. Quando isso ocorre é que a mágica acontece.

#RPGaDay2019 – Space (Dia 5)

Encontrei três abordagens para o tema: espaço individual, espaço físico e RPGs espaciais. O último não é muito a minha praia, pois só joguei aqueles atrelados a outras mídias: Star Wars e Star Trek. O primeiro seria um tópico que poderia se aplicar a qualquer coisa, fugindo da especificidade do RPG. Vou ficar então com o físico, pois mudei muito a minha opinião a respeito.

Costumava dizer que o RPG tinha como vantagem o fato de poder ser jogado em qualquer lugar. No aperto, você pode até prescindir do livro, das fichas e dos dados. Só não dá pra abrir mão das pessoas.

De fato, difícil mesmo é conseguir espaço pra jogar boardgame. Compramos animados o Game of Thrones pra só então descobrir que não tínhamos mesa para jogar. E depois de uma certa idade jogar no chão se transforma numa experiência dolorosa.

Sobre o RPG, nada mudou, exceto o fato de que hoje é possível jogar também no espaço virtual. Ou seja, a flexibilidade só aumentou. Mas eu mudei. Ou melhor, descobri o que me incomodava e o que me deixava à vontade.

Então, pra mim, o espaço é importante. Jogar pra mim é uma experiência bastante íntima, então requer algum nível de privacidade. O envolvimento no jogo requer relaxamento, desprendimento, então o espaço deve proporcionar condições para isso. E tem a questão do foco: difícil manter os jogadores envolvidos se houver outras fontes de distração, como TV ligada, alguém jogando videogame, conversas paralelas… imagino então com vários celulares ligados sobre a mesa…

Assim exposto, o lugar onde me sinto mais à vontade para mestrar é o alpendre da casa dos meus pais, cercado (ainda) de muita natureza. Perfeito para mestrar O Desafio dos Bandeirantes.

Como jogador, só me senti igualmente confortável no quarto-estúdio da Eliane Bettocchi, que era também o QG criativo da Akritó. Nos acomodávamos sobre o carpete, abríamos uma garrafa de vinho e a noite fluía.

Então, qualquer espaço pode servir, mas você precisa encontrar o seu, como um bruxo encontra sua varinha.

#RPGaDay2019 – Ancient (Dia 6)

O tema do sexto dia não apresenta muitas divergências. O “antigo” aqui se confunde ao arcano, algo que existe antes do tempo, criaturas cthulhescas, antediluvianos… Bem, acho que posso incluir um novo entendimento: eu sou antigo.

Meio século de vida, quase 30 de RPG, e O Desafio dos Bandeirantes já vai completar 27 anos de existência. Apesar de pouco ou nada ter mudado na essência do jogo, creio que os jogadores mais jovens já esperam algo diferente de sistema, visual, abordagem. Portanto, nem tento me passar por um “tiozão do RPG”. Assumo a antiguidade e tento fazer disso um diferencial, pro bem ou pro mal. Melhor do que tentar agradar sendo aquilo o que não é.

Mas, na acepção mais comum, O Desafio dos Bandeirantes também diz “presente” ao tema. A própria natureza do Novo Mundo se mostra como uma força arcana, gênese das criaturas que nela habitam (as lendas). Criei uma narrativa que, nesse sentido, conectaria Era do Caos como o futuro do Bandeirantes, onde as próprias criaturas e a magia se transformariam à medida que o homem fosse transformando a natureza e ocupando o território.

Além disso, o mistério sobre os Guajaras seria a própria síntese disso tudo. Mas isso é história pra outra hora…

#RPGaDay2019 – Familiar (Dia 7)

O termo do sétimo dia deu margem a abordagens bem distintas. Familiar no sentido de formar uma família, familiarizar-se com as regras, uma ambientação familiar, e até mesmo o espírito “familiar” em forma de animal (ou não) da bruxaria.

No caso, vou falar de uma concepção particular de como eu vejo uma boa ambientação: é preciso haver ao menos um elemento familiar ao jogador, a fim de permitir uma conexão e se contrapor àquilo que lhe é estranho ou diferente.

Esse conceito esteve presente nos dois RPGs dos quais participei. Em “O Desafio dos Bandeirantes”, o familiar era o próprio cenário histórico, ainda que não fosse geográfica e historicamente o Brasil, mas todos os elementos estavam lá. O “diferente” eram as lendas brasileiras, com as quais somos, na verdade, pouco familiarizados. Naquela época talvez menos do que hoje. Quando escrevemos o jogo, os mitos brasileiros eram crendices da roça, elementos de livros e programas infantis. Bem distantes daqueles que realmente infligiam medo nas pessoas. É esse respeito que buscávamos, a duras penas, resgatar.

Em “Era do Caos”, tínhamos personagens à procura de uma ambientação. Alguns personagens de “Noturnos” e “Lendas” foram criados inicialmente por Carlos Klimick para um cenário “pós-apocalíptico” de um Rio de Janeiro semi-submerso. Achei que a concepção não traria grande interesse para os jogadores de São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte.

Enfim, ou vc faz personagens exóticos em um mundo familiar ou personagens familiares em um mundo exóticos. Se fizer personagens exóticos em um mundo exótico, a conexão com o público dependerá de um golpe de sorte. E assim surgiu a ideia da “Era do Caos”, uma projeção da nossa realidade para 15 anos no futuro.

#RPGaDay2019 – Obscure (Dia 8)

Obscuro, para mim, é aquele jogo que pouca gente conhece ou joga. Nos anos 90 havia muitos jogos até muito falados, mas que quase ninguém na verdade havia jogado.

O mais desconhecido que eu joguei provavelmente deve ser conhecido pelos fãs de sci-fi e certamente pelos trekkers: Prime Directive

A gente havia tido uma experiência desastrosa jogando o RPG de Star Trek da FASA, quando a inexperiência do mestre nos fez cruzar todo o universo conhecido mandando um pedido de socorro e não sendo atendido. A criação do personagem empolgava, mas o sistema praticamente fazia você rolar os dados pra registrar o diário de bordo.

Então, certo dia, o Carlos Klimick apareceu com o “Prime Directive”, jogo da Task Force Games, que era uma espécie de genérico pirata de Star Trek. Com ele eu pude finalmente ter a sensação de jogar um episódio de Jornada nas Estrelas.

#RPGaDay2019 – Critical (Dia 9)

Critical hit, critical role… o termo estrangeiro logo virou por aqui “dano crítico”, “rolamento crítico”, “sucesso crítico”, um bordão irresistível no meio rpgístico. Em “O Desafio dos Bandeirantes”, transformamos o “crítico” em “golpe de mestre”.

O meu “crítico” favorito foi quando o Rocha (interpretado pelo Guiga) queria acertar um pássaro voando à noite com um tiro de mosquete.

Na verdade o pássaro era um bruxo com pacto com o Demo. Era a segunda vez que eu mestrava essa aventura (e ele também havia jogado a primeira com o mesmo personagem). No final, o bruxo virava um pássaro e escapava voando. Mas, dessa vez, o Rocha resolveu arriscar.

– Mas tá de noite, e ele já se distanciou.

– Eu rolo Percepção.

– Ok, passou. Vc identificou o pássaro. Ainda assim, o tiro é difícil.

– Vou ficar uma rodada mirando.

– Ok, mas nesse tempo ele se afasta mais e está quase fora do alcance da arma. Só se tirar um golpe de mestre.

Tirou 02.

E do bruxo-pássaro só restaram as penas…

#RPGaDay2019 – Focus (Dia 10)

Vejo a questão do foco sendo abordado basicamente do ponto de vista do mestre/narrador: foco para narrar uma sessão. Mas pode ser também foco do jogador, foco de uma ambientação etc.

O foco está muito relacionado com o tema do segundo dia (engage) e pode sofrer influência do tema do quarto (space).

Pensando numa aventura one shot, foco e engajamento se confundem. Mas, numa campanha, o jogador pode estar totalmente engajado nela, mas, naquele dia em particular, estar com a cabeça em outro lugar.

Nos últimos dois ou três anos de minha longa campanha de Bandeirantes, eu tinha tantos problemas pra resolver que não tinha cabeça sequer pra montar a sessão direito. Minha mestragem decaiu muito. E se o mestre não estiver focado, isso certamente afeta os jogadores.

Elementos mais diretos de distração, como amigos conversando ao redor, interrupção não programada da sessão, TV ligada etc, tiram muito o foco de quem joga.

Nos anos 90, havia uma lei seca nas sessões: ninguém bebia álcool. Por incrível que pareça, um grupo formado por uma maioria de adolescentes pinguços seguiu religiosamente a regra sem reclamar.

Fui desvirtuado num grupo de marmanjos, onde o Carlos Klimick mestrava Imortais. O Mario sempre aparecia com seu indefectível vinhozinho. E quem reclamaria?

Hoje em dia, meu problema de foco está mais em conseguir ler a ficha do personagem. Um dia a vista cansa…

#RPGaDay2019 – Examine (Dia 11)

“Examinar”. O termo pode ter diversas abordagens, mas no RPG tem um ponto que se destaca, e que me remete à minha primeira sessão.

Como eu disse no primeiro dia, era uma típica aventura de AD&D de explorar dungeon. O Ladrão verificava se tinha armadilha na porta, a maga lançava um Detect Magic, e depois o Ladrão voltava a verificar as armadilhas em baús e gavetas. Se houvesse ouro ou jóias, ficava com ele. Se houvesse algum pergaminho ou recipiente com líquido estranho, ficava com a maga. Se tivesse algum artefato mágico, era distribuído conforme sua origem e poder. De vez em quando aparecia alguma criatura. E era assim a cada porta, cada sala… E eu achando aquilo tudo muito frustrante e sem sentido.

Talvez por isso, sempre impliquei com essa “mecanicidade” do RPG, que me incomoda também em alguns videogames, quando pra você fazer tal coisa, passar de fase ou vencer um desafio é preciso clicar naquele ponto x, dá três golpes assim assado, girar pra direita, dar um pulo, depois voltar… e por aí vai. Enfim, ainda que você possa fazer, em tese, o que quiser em um RPG, a mecânica do jogo acaba levando o grupo a reproduzir ações como se tivesse num game.

#RPGaDay2019 – Friendship (Dia 12)

Amizade… Creio que é disso que tudo se trata, não? Como passar horas em volta de uma mesa jogando com quem você não gosta ou com quem lhe é indiferente? Só pelo prazer de rolar um dados?

Para mim a essência última dos jogos de mesa – seja RPG, boardgame ou um carteado – é passar o tempo com amigos e familiares. Ou fazer novos amigos.

No meu caso, foi a amizade que me fez jogar RPG. Como eu disse antes, minha primeira sessão foi bastante frustrante, pois não entregou o que prometia. Mas o pessoal tentou me convencer que o jogo era aquilo que eu queria que fosse, apenas a sessão não tinha sido muito feliz.

Eram todos amigos da escola, e na época estávamos na faculdade, cada um num curso diferente, ainda que na mesma universidade. Aquela época da vida que os interesses vão levando cada um para um lado e a tendência era nos vermos nos aniversários.

Eu, particularmente, estava em plena efervescência da boemia universitária. Então a possibilidade de ter uma desculpa para me encontrar com aquelas pessoas de vez em quando foi uma motivação maior que o jogo em si.

Enfim, os pais acabam tendo razão: as “companhias” me levaram para o mau caminho…

#RPGaDay2019 – Mystery (Dia 13)

Por algum tempo, o grande mistério foi o próprio RPG.

A rigor, meu primeiro contato com o jogo (e da maioria, mas, assim como eu, sem saber) foi no filme “ET”. Mas pra mim era apenas um jogo de tabuleiro com miniaturas. Diferentemente de Stranger Things, o entendimento (ou não) do que era o jogo não interfere na narrativa (ainda que, posteriormente, eu pude fazer uma leitura melhior a respeito).

Tampouco via “Caverna do Dragão” (sequer sabia da existência do desenho em 1986) ou vi o chato “Labirintos e Monstros” com Tom Hanks, que se tornou conhecido no Brasil com o filme “A Última Festa de Solteiro” (esse eu vi!).

Então, a primeira luz a se acender na minha cabeça sobre o jogo foi numa reportagem na revista de Domingo do finado Jornal do Brasil. Eu já estava na faculdade, e a reportagem falava de um jogo diferente, que durava horas ou dias. Mostrava uma mapa imenso e colorido, miniaturas, e só marmanjo jogando. Um deles era até capitão do Exército. Não registrei o nome do jogo. Fiquei pensando: isso tem cara de ser muito legal! O que mais me chamou a atenção foi fato de, na foto, aparecer uma colega de escola, Claudia Magioli, que era então estudante de Biologia. Cheguei a encontrá-la depois, mas ela disse que só estava junto com uns amigos e que acabou entrando na foto.

O segundo contato foi casual. Estava com amigos pelas ruas do Flamengo e subimos na casa do Paulinho (hoje advogado) para chamá-lo. Assim que chegamos, o irmão mais novo dele colou num sujeito lourinho que estava no grupo (mas que eu não conhecia direito) e começaram a falar sobre o uso de “dado de calculadora”. Um deles falou que não gostava, que preferia rolar o dado físico. Curioso, perguntei a eles do que se tratava e o lourinho me respondeu rispidamente: “é um jogo aí”. E aí o Paulinho chegou e disse que o jogo era uma doideira, que o irmão dele ficava horas jogando com os amigos, que ele até então não havia entendido.

Por fim, estava nos pilotis batendo papo com amigos quando o Ygor (Tagmar) parou pra falar alguma coisa com alguém do grupo. Segurava uma bolsa com diversas revistas ou livros que, no que eu podia ver da capa, me fazia lembrar Conan. Perguntei o que era. O Ygor olhou pra mim, hesitou, soltou um suspiro e respondeu: “Cara, isso vai levar tempo e estou realmente com pressa. Depois eu te explico.”

Eita joguinho misterioso…

#RPGaDay2019 – Guide (Dia 14)

Guide é um termo que remete imediadamente para os Player’s Guide e Master’s Guide. Um dos obstáculos para a popularização do RPG, aliás. Se já temos preguiça pra ler as regras do War ou o manual do microondas…

Mas li um depoimento curioso: o guia do mestre no jogo, algo tipo “Mestre dos Magos”, aquele NPC usado para dar dicas ao grupo.

Lendo o relato, percebi que eu também tinha os meus guias. Mas às vezes não adianta nada. Você aponta a direção certa com uma seta gigante de neon da Broadway piscando, mas o jogador coça a cabeça, faz beiço e conclui: “se o mestre quer que a gente vá para aquela direção, então é porque temos de ir para a outra”.

#RPGaDay2019 – Door (Dia 15)

Dá pra viajar com o tema, mas vou ser o mais literal possível. Jogando RPG você aprende que nenhuma porta é aberta impunemente, ainda mais se for Fantasia Medieval. É um tal de checar se tem armadilha, física ou mágica, abrir com muito cuidado pois sabe-se lá o que vai ter dentro… RPGista é acima de tudo um paranoico.

– Vocês passam por uma pedra…

– Espera aí! O que tem essa pedra?

– Ora, é só uma pedra…

– Ah, nada disso. Se você disse que tem uma pedra é porque tem alguma coisa nisso aí!

Às vezes uma pedra é uma pedra e uma porta abre pra uma sala comum e sem graça. Mas como saber o que é o que? Às vezes, pra não perder tempo com rolamentos inúteis, o mestre tem de sair um pouco do jogo e dizer: “olha, isso é só uma porta, ok?”

As minhas portas preferidas são aquelas de entrada de castelo ou vila amuralhada, que o guarda abre aquela janelinha de ferro pra falar com você.

Numa dessas, sei lá por qual razão, o personagem do Guiga se aproximou do portão enquanto o resto do grupo ficava escondido atrás de uma moita. O vigia abre a tal janelinha e pergunta: “Você está sozinho?” E ele responde: “Não.”

Imediatamente a gente protesta: Guiga, é pra você dizer que está sozinho! “Mas a gente não combinou o que eu ia dizer, fiquei sem ação”.

Então, clamando pela inexperiência do jogador, conseguimos convencer o mestre a refazer a cena. “Então já sabe, hein Guiga… Quando ele perguntar se você está sozinho é pra responder ‘sim’, SIM!”

E lá vai o guerreiro outra vez para o portão. A portinhola se abre e o vigia pergunta: “Tem alguém com você?”

“Sim!”

#RPGaDay2019 – Dream (Dia 16)

Com este post, conseguirei finalmente emparelhar com a brincadeira. O tema da vez é “sonho”.

Vejo a maioria falando do sonho nos jogos (e teve um que falou do feitiço “Dream” do D&D). De fato, uma das sessões que mais me diverti fazendo foi um sonho coletivo num pernoite no deserto de Nazca, onde o grupo se vê perdendo uma grande batalha tipo 300 de Esparta. Todos morrem, menos os imortais do grupo. O pessoal ficou boladíssimo!

Porém, sonho no RPG, para mim, transcende as sessões de jogo. Escrever RPG foi o mais próximo que cheguei do Cinema (na época eu era um cinéfilo inveterado), um sonho que não persegui.

E, ao publicar “O Desafio dos Bandeirantes”, outro sonho nasceu: terminar a Terra de Santa Cruz.

Quem leu o livro, e não apenas o jogou, talvez se lembre de um capítulo que escrevi falando brevemente de cada região. Cerca de 10, salvo engano. Ali já era eu mapeando e rascunhando futuros módulos que gostaria de escrever.

Minha primeira tentativa, “O Império do Sol”, foi rejeitada pela GSA. Dois anos depois a GSA fechou e o sonho foi arquivado.

Em 1998, eu, o Carlos Klimick e a Eliane pensamos em relançar o Bandeirantes pela Akritó, mas o Ricon vetou o projeto. E também fez a gente recusar várias propostas que começaram a pipocar a partir de 2013 (Pensamento Coletivo, Retropunk, New Order, Avec)

Em 2016, resolvi retomar esse sonho de completar o “álbum de figurinha” no meu blog, sem pressa.

Em 2017, o Ricon quis fazer o Bandeirantes sem mim pela New Order, mas eu dei um jeito de pular dentro do projeto. O final trágico, muitos já sabem: depois de ter passado um ano me esfalfando em pesquisas e escrevendo textos, o dito cujo pensou que poderia terminar o livro sem mim, me alijando de todas as reuniões, e mentindo para as pessoas dizendo que eu havia me afastado por não ter gostado de algumas coisas (como, se eu fiz quase tudo e o que não fiz, as regras, eu havia adorado?), e ainda dizendo que, por ele, eu continuaria no projeto.

O sonho ainda não morreu, pois além do blog tenho agora uma fanpage, mas agora ele convive em paralelo com um pesadelo. E não são assim os sonhos?

#RPGaDay2019 – One (Dia 17)

O tema de hoje me remete imediatamente à canção do U2, mas isso nada tem a ver com RPG. Então, fazendo um esforço, outros temas me vem à mente: one shot, aventura solo e a máxima rpgista “grupos separados leva a mortes simultâneas”.

Simplesmente não gosto de mestrar one shot. Jogar, tudo bem, mas mestrar, nunca me adaptei. Uma das inúmeras razões pra não querer mais mestrar em evento de qualquer tipo.

Da mesma forma, aventura solo pra mim é livro-jogo. Não curti mestrar apenas pra um jogador. Fiz uma vez, mas achei estranho. Pra mim RPG sempre foi uma atividade de grupo, o que me remete à máxima supracitada. Quando mestro pra uma única pessoa, eu tenho de satisfazer às expectativas de um único indivíduo. Esse alacartismo criativo me tolhe um pouco. Para um grupo, sinto-me mais à vontade pra fazer a coisa do meu jeito. E acho que cada integrante se vê na posição de ir se ajustando às coisas pois apenas a vontade ou o gosto dele não basta.

Para esse dia, vi uma abordagem curiosa: se vc pudesse jogar apenas um RPG, qual seria? “O Desafio dos Bandeirantes”, é claro!

#RPGaDay2019 – Plenty (Dia 18)

Abundância, profusão, muito, bastante… Acho que todas as acepções definem bem o mercado de RPG hoje em dia. Com a facilidade do “on demand”, PDFs, financiamento coletivo, redes sociais… Só posso invejar quem produz RPG nos dias de hoje. Era tudo o que a gente precisava nos anos 90, quando tudo era custoso, pesado, volumoso.

A variedade de jogos atualmente, tanto de conteúdo quanto de formato, é avassaladora. O sucesso do financiamento do Tormenta 20 pode ter levado o mercado a um outro patamar, que já pode ser sentido no outro arrasa-quarteirão que foi o financiamento a 2ª edição do Pathfinder.

E podemos esperar mais, pois a cabeça de um rpgista é cheia de ideias…

#RPGaDay2019 – Scary (Dia 19)

Terror não é a minha praia. Não me animo a jogar um RPG do gênero, nem mesmo o simpático “Call of Cthulhu”, pois não vejo muito graça em ver meu personagem perdendo a sanidade. Não sei se entraria no clima, seja como jogador, seja como narrador.

O mais perto de algo assustador que eu cheguei jogando foi a Umbra do Werewolf e a aventura do Engenho para “O Desafio dos Bandeirantes”, ainda na época dos playtestes. Ambas mestradas pelo Carlos Klimick.

“O Engenho” é uma aventura que realmente fez muito sucesso. E conheço relatos de grupo que jogou com luz de velas e teve uma experiência digna de filme de terror.

Eu mesmo, mestrando Bandeirantes (mas não Era do Caos), consegui algumas vezes criar um clima de terror no grupo, particularmente com o “pés descalços” e com o Nacaj.

Não sou muito bom em descrição, minha narrativa fica mais pra pinceladas impressionistas. Acho que só consigo provocar esse efeito casualmente. Acho que não teria sucesso se essa fosse a minha intenção desde o início.

#RPGaDay2019 – Noble (Dia 20)

Se pensamos em um cenário medieval, logo vem à mente a nobreza, o cavaleiro, o paladino, os ideais nobres.

Se pensamos em “O Desafio dos Bandeirantes”, a ideia de nobreza virá quase certamente em oposição a ideais nobres.

Se pensamos no universo de super-heróis, vem logo à mente Super-Homem e Capitão América, aqueles que representam em suas respectivas editoras o que há de mais nobre, puro e ético no ser humano.

O RPG chegou ao Brasil nos anos 90, a década do politicamente incorreto. Pra ser uma ideia, no final desse período, eu fui “xingado” de “Capitão América” por defender a ética no mercado editorial de RPG. Sério, era pra ter sido uma ofensa, uma lacração típica daqueles tempos.

No mesmo período, também fui “acusado” de escrever bem. Sim, também foi uma ofensa, pois a boa escrita era (e parece ainda ser) sinônimo de careta, pedante etc.

Lembro que o Carlos Klimick gostava de fazer personagens com ideais nobres, fosse ele um paladino ou um feiticeiro de ferro e fogo. Mas era uma exceção. O nosso grupo de Star Wars, por exemplo, era composto de um contrabandista (eu), um caçador de recompensas e um “fail jedi”. O RPG mais vendido e jogado passou a ser o “Mundo das Trevas”, com destaque para os Vampiros.

De lá pra cá as coisas diversificaram mais e todo mundo consegue encontrar seu nicho, mas me parece que o termo “nobre” continua mais associado ao título ou à ironia do “nobre colega”.

Pelo menos “Capitão América” deixou de ser um xingamento…

#RPGaDay2019 – Vast (Dia 21)

Poderia falar do vasto universo de jogos e suas variedades, ou dos jogos nos quais um único cenário abriga uma vastidão de possibilidade. Mas vou falar da vastidão física, geográfica. Não aquela do espaço, que prefiro nas séries e filmes do que em RPG e HQs, mas as terrenas.

Mestrando “Era do Caos”, descobri onde me sinto mais confortável até mesmo para jogar: os locais ermos, vastos, a floresta sem fim. Não tanto pela natureza, diga-se de passagem, mas por esta característica: a vastidão.

Como disse outro dia, não sou muito bom para descrições detalhadas, o que complica num cenário urbano. Fora dele, me desobrigo desse fardo e posso partir para uma narração mais climática (com duplo sentido) sem ser cravejado por perguntas sobre detalhes da cena. “Era do Caos”, de início, oferece-se como cenário urbano, então não conseguia me sentir confortável mestrando. Mas então, no lançamento de “Caídos” na Forbidden Planet de São Paulo, fiz uma aventura no sertão, um Canudos Revisited, que fluiu bem. Então me deu um click. Na próxima aventura que mestrei, para amigos, joguei o grupo no Pantanal, e tudo funcionou.

Essa oposição campo-cidade também interfere na minha performance como jogador. Meu personagem em Werewolf parecia bipolar: expansivo e voluntarioso quando em área rural; reservado e escorregadio na cidade.

Deve ser por isso que gosto tanto de “Where the streets have no name”…

#RPGaDay2019 – Lost (Dia 22)

O tema pode ser sobre ilhas perdidas, civilizações perdidas, templos perdidos, grupo perdido na floresta/deserto/mar/montanhas… Amo todos esses plots!

Mas nada melhor do que deixar o jogador perdido. Pouco importa o nível do personagem, seu poder ou powergamice se ele não faz a menor ideia do que está acontecendo. Por isso, se eu mestrasse Mundo das Trevas, não teria problema de deixar o jogador fazer um lobisomem que foi mordido por vampiro e aprendeu magia.

Aprendi isso com meu grupo de Bandeirantes. Depois de três anos mestrando direto, o grupo retalhava um Touro Negro em três rodadas com requintes de crueldade. Então comecei a apostar na inteligência dos vilões e no mistério.

#RPGaDay2019 – Surprise (Dia 23)

Surpresa é essencial a uma sessão de RPG. Quando você começa a jogar, tudo é novo e surpreendente. Mas, com o passar do tempo, você vai pegando as manhas, os macetes, os clichês, e as coisas começam a ficar previsíveis.

Jogar outros jogos funciona por pouco tempo, pois RPGs e mestres são como séries de TV e showrunners: tudo acaba seguindo a um determinado padrão e se tornando um pouco repetitivo. Mas o RPG tem uma vantagem em relação ao pessoal da TV: o baixíssimo orçamentos e… jogadores.

Pra evitar um sessão previsível, o mestre deve testar novas abordagens. Não precisa nem de plot twist, basta surpreender com uma criatura que age de forma pouco usual, um vilão com ambiguidades, um mistério… os jogadores agradecem.

Mas pode acontecer também do jogador surpreender o mestre com uma ideia inusitada. Nem todo mestre gosta disso e tenta “revidar”, mas na verdade é ótimo! Os jogadores ficam mais animados, pois se sentem com as rédeas na mão, e o mestre se sente um pouco como jogador (não jogar talvez seja a maior frustração de um mestre), tendo que se virar para “superar” a situação que o jogador lhe impôs. Nesse momento há uma inversão de papeis.

#RPGaDay2019 – Triumph (Dia 24)

Triunfo para um mestre/narrador é quando, ao final de uma sessão ou campanha, ele percebe que todos os jogadores estão satisfeitos.

A satisfação de um jogador é individual. Já um mestre não pode se dar a esse luxo.

Há jogadores de todos os tipos. Há aqueles que triunfar significa o seu personagem terminar a sessão vivo. Para outros, alcançar o objetivo almejado dentro da história. E há ainda quem se sinta satisfeito por ter participado de uma grande narrativa, mesmo que tudo tenha dado errado para o grupo e todos tenham morrido.

Porém, acredito que triunfar dentro da história seja importante de vez em quando. Acho que ninguém vai gostar de sempre levar porrada e fracassar. Para isso já basta a vida real. E, assim como nesta, é importante o jogador experimentar momentos de triunfo que o motive a seguir em frente, e aguentar os percalços e retrocessos até o próximo triunfo.

#RPGaDay2019 – Calamity (Dia 25)

Postar atrasado o tema de ontem não chega a ser uma calamidade, mas já dá uma ideia do que vem pela frente.

Há três formas de abordar o tema: do ponto de vista da história, dos jogadores e do mestre.

Enredos que envolvem calamidades como incêndios, pragas, terremotos, meteoros, secas etc. prometem ser épicos, seja com o grupo sobrevivendo, escapando, ajudando ou resolvendo o problema.

Se uma calamidade na história pode ser uma boa notícia para os jogadores, uma calamidade para os jogadores é quando tudo dá errado. Seja pelo azar absurdo nos dados ou por uma estratégia ruim ou mal executada.

Quando tudo dá errado para os jogadores, o mestre não fica também muito satisfeito, mas não chega a ser uma calamidade para ele. Para mim, calamidade é quando o grupo simplesmente não topa o grande desafio proposto, particularmente quando é o clímax, o encerramento da história.

Já aconteceu comigo duas vezes. Na primeira, o personagem que liderava o grupo (sem citar nomes) achou que a missão de invadir o palácio de governo para resgatar o seu tesouro e pertences era impossível e convenceu o grupo a sair de mãos abanando. Não me restou outra coisa se não fazê-los voltar para casa e encerrar a campanha. Mas, apesar de todas as dicas, o mesmo jogador concluiu: “se o mestre quer que a gente vá por ali, então a gente deve ir para o outro lado”. E teve o suporte de outro jogador experiente do grupo. E assim eles se embrenharam cada vez mais em território inimigo sendo perseguidos pelos castelhanos. E eu tive que improvisar em curtíssimo prazo toda uma continuação para uma longa campanha.

Na segunda vez, um personagem chave pra por em prática o evento-clímax decidiu que era perigoso demais e desistiu. Com isso, eu teria que bolar toda uma nova situação, com novos NPCs, nova locação, para dar um fim à história. Dessa vez, como estava enrolado com outros problemas, a mini-campanha acabou não tendo desfecho. Isso sim é uma calamidade.

#RPGaDay2019 – Idea (Dia 26)

Tudo começa com uma ideia, como os planos infalíveis do Cebolinha. O jogador tem uma ideia pro personagem, o mestre tem uma ideia para uma aventura, o jogador tem uma ideia de como resolver uma determinada situação de jogo, o mestre tem uma ideia para surpreender o grupo.

Claro, há jogadores que preferem pegar um personagem pronto e sair jogando. O mestre pode pegar uma aventura pronta para mestrar. Mas se não houver uma ideia que dê vida ao personagem ou uma que dê ritmo e clima à aventura, a sessão ficará sem alma.

Como disse uma vez Bono, sem alma, Bruce Springsteen seria apenas um contador de histórias. Qualquer um pode pegar um texto e lê-lo em voz alta, mas poucos serão capazes de dar-lhe vida.

Para os religiosos, alma tem outras leituras, mas, no sentido estrito, significa “vida”, “ser”, “o que anima”. Para mim, como ateu, “soul is the big idea”.

#RPGaDay2019 – Suspense (Dia 27)

Para o tema de hoje, vou contar uma historinha ocorrida no início dos anos 90.

Era uma noite comum no Rio de Janeiro. Voltávamos eu, Carlos Klimick e Ricon de algum programa rpgístico na Zona Sul. K ao volante, pois os caronas não tínhamos carteira de motorista.

Não sei por que cargas d’água o K preferia voltar dirigindo pela Niemeyer. E eis que, em frente ao Sheraton, havia uma blitz. E nós fomos parados.

Ninguém havia bebido (e o K não bebe álcool mesmo), e os policiais não poderiam ter parado um grupo mais careta. Documentos em ordem, carro em ordem, a preocupação era o policial plantar alguma coisa, e o K ficou o tempo todo atento aos movimentos e às mãos do policial.

Eis que ele manda abrir o porta-malas.

Lá dentro, uma pasta com o material de RPG. O policial manda abrir a pasta. Dentro dela, um saquinho, daqueles de jóias. O policial faz aquela expressão: ahá!

Pega o saquinho, sente o peso com a mão, pede pra abrir. Então abrimos o saco e despejamos o conteúdo sobre os papéis dentro da pasta. D20s, D10s etc.

– O que é isso?

– São dados, de um jogo.

– Não é contravenção, é?

– Não, nada disso.

– Ah, já sei… tipo búzios?

Suspense!

A gente se entreolha e nos imaginamos, às 2 horas da madrugada, parados na rua explicando aos policiais: “RPG é um jogo onde você interpreta um personagem e…”

– Isso mesmo!!!

#RPGaDay2019 – Love (Dia 28)

Amor em RPG. Bem, foi jogando RPG que eu conheci minha esposa. E conheço outros casais que se conheceram por causa do jogo.

Por outro lado, há também o problema contrário: casais de jogadores que se separam ou a porta giratória de namorados/namoradas que os jogadores convidam para jogar.

Há também o fato de que RPG é um jogo do tipo ame ou odeie. Pode não ser uma grande paixão, mas não é o tipo de jogo como War ou Buraco, que alguém joga pra fazer número ou para não ficar sem fazer nada.

Mas complicado mesmo é o amor dentro do jogo. Quando a relação é entre personagens de jogadores, tudo bem, o problema não é do mestre. Mas de jogador com NPC… É preciso uma certa intimidade para que não haja mal entendido de parte a parte. Prefiro rolar a situação da forma mais distanciada possível.

#RPGaDay2019 – Evolve (Dia 29)

Jogadores, mestres, personagens e o próprio RPG evoluem.

No caso da evolução dos jogos, não acredito propriamente numa evolução qualitativa, mas numa transformação adaptativa em relação às mudanças inevitáveis do próprio público. Mudanças de estilo são como mudanças da moda. Até mesmo a pochete tem seu direito a revival.

Jogadores evoluem na medida que vão conhecendo mais a mecânica de jogo, o sistema, a ambientação. Podem se tornar jogadores mais eficientes, não necessariamente melhores. Essa é uma questão muito relativa.

A evolução de personagem é uma questão muito relevante para o jogo. Logo de cara não gostei do sistema de níveis, mas o AD&D era o modelo a ser seguido e assim foi replicado em “O Desafio dos Bandeirantes”. Simplesmente adorei o sistema de distribuição de pontos e evolução do personagem do World of Darkness e tratei de replicá-lo nas minhas sessões de Bandeirantes. O jogo fluiu muito melhor e os jogadores ficaram mais felizes.

A evolução ponto a ponto, sessão a sessão reflete muito melhor o que acontece no jogo do que a evolução por saltos episódicos e repentinos.

Minha evolução como mestre passa por essa modificação gradual das regras à dinâmica de jogo e necessidade dos jogadores. Também parei de matar os personagens; passei a ficar mais atento às expectativas dos jogadores; mas não aprendi a mestrar grandes batalhas até hoje.

Aos poucos a gente aprende o que é o nosso forte e o nosso fraco. Como já disse outro dia, meu forte não é a descrição física, de pessoas ou cenário urbano, e cenas de luta demoradas me deixam impaciente, assim como nos filmes e séries.

Só não consegui superar minha aversão a falar em público, o que me fez fugir das mesas de eventos. Quando voltei à faculdade e, inevitavelmente, a ter de apresentar trabalhos lá na frente, tive que criar um método para me tornar ao menos funcional. Mas um narrador não pode ser meramente funcional.

#RPGaDay2019 – Connection (Dia 30)

O penúltimo tema dessa corrente tem tudo a ver com o quarto dia (share) e com o 12º (friendship). Jogar RPG é mais uma forma de se conectar com as pessoas: conhecidos, amigos, estranhos, não importa, o ato de jogar envolve conexão.

O próprio espírito dessas rashtag é conectar-se com outros jogadores.

É possível ir um pouco mais a fundo nisso. O ato de jogar, construir um personagem, interpretá-lo, dar-lhe vida e sequência, leva a conectar-se a aspectos individuais conscientes ou não, declarados ou não.

#RPGaDay2019 – Last (Dia 31)

Hoje é o último dia da brincadeira. Então vou considerar a palavra como deixa pra “tema livre”.

Costumava comparar RPG com futebol. A gente assiste a uma penca de jogos pavorosos, aquela uma hora de bola rolando onde nada acontece, e no próximo jogo estamos lá novamente assistindo. Até que um dia aparece uma semifinal Alemanha x França na Copa de 82 e você entende porque aturou tanta pernice de pau. Tipo… de sete em sete em jogo a gente dá de cara com um que compensa os outros seis. E aí você continua a assistir na expectativa do próximo. E, como você não sabe qual será, melhor não perder nenhum, ou periga perder a antológica virada do Fluminense sobre o Grêmio.

RPG é um pouco assim. Há muitas sessões onde o melhor da história é o encontro com os amigos ou o pão de queijo. O jogo poderia ter sido qualquer outro: um War, uma Sueca, um Pula-Macaco… Mas então vem aquela sessão onde tudo acontece: todos inspirados, focados, a eletricidade no ar, a química rolando. E você volta pra casa doido pela próxima vez. Não conheço outro jogo que proporcione essa sensação coletiva.

Além desses momentos, o RPG, pelo menos para mim, me fez desenvolver algumas habilidades: (1) a habilidade em pensar sempre em possibilidades e desdobramentos em cada situação; (2) a capacidade de improvisar histórias (já tive de contar 10 histórias originais pro Michel num mesmo dia); (3) escrever roteiros (o fato de ter feito Comunicação e sido cinéfilo antes mesmo de conhecer RPG também ajudou bastante, mas eu nunca trabalhei com isso fora do RPG).

Por fim, como eu disse lá pelo dia 16, minha meta principal é terminar a Terra de Santa Cruz (seja com esse ou outro nome). A região da Colômbia, Venezuela e caribe era pra sair esse ano, mas a fanpage me desviou da rota, mas eu sigo devagar e quase parando. Depois tem a Amazônia e o Nordeste, que já tem bastante material de pesquisa separado. E não descarto a ideia de partir pro México, resto da América do Norte e Continente Negro. Se farei isso pro blog, pra publicar ou pra enfiar na gaveta, pouco importa. E, como sonhar não custa nada, ainda há possibilidade retroagir ou avançar (mais provável) no tempo.

Published in: on 1 de setembro de 2019 at 4:43  Deixe um comentário  

Dragão Dourado Nº 6

DD6

Se a Dragão Dourado tivesse acabado no quinto número, ninguém teria estranhado. Mas ter acabado após o sexto foi uma surpresa.

O Attila nos chamou dizendo que faria uma reformulação total na revista. Editorialmente e visualmente. Como já nem contávamos com a continuação da revista, qualquer coisa já seria uma boa notícia.

O Caderno RPG não existiria mais, pois os textos seriam distribuídos ao longo da revista, misturando-se às HQs. Assim, a revista abriria com algumas matérias, depois viria a história do Diucênio, mais matérias, a história do Antonio Lobo, e fecharia com a seção de cartas. Colocar a seção de cartas no final, achei legal. Afinal, as cartas também diziam respeito às histórias. Mas quebrar a parte de texto não me pareceu favorecer a revista. Pelo contrário, achei que prejudicou o impacto inicial da HQ e a leitura de quem estava interessado no Caderno.

Assim, o Attila escreveu o editorial da primeira página anunciando as mudanças, e apresentando também as desculpas para o novo atraso: a edição saiu apenas em julho. As mudanças foram capitaneadas pelo Daniel Morena, que deu um ar mais profissional à diagramação e mudou a logomarca da revista. Até o papel mudou, e pra melhor. E dessa vez não viria a miniatura de brinde.

Lembro apenas de ter sido agradável o trabalho com o Daniel, mas creio que a abordagem dele, dando às matérias um visual mais sisudo, teria ficado melhor numa revista colorida. Em P&B, a revista ficou soturna, com um fundo muito escuro, atrapalhando a leitura. Como a paginação útil do ex-Caderno caiu ainda mais, para 14 páginas, ele compensou isso com um corpo de letra menor, o que não ajudou muito. A formatação de texto também ficou embolada em alguns pontos. Tudo um aprendizado a ser corrigido para o próximo número, que nunca veio.

Não lembro bem o que aconteceu. Só resta o estranhamento de um impulso de retomada acabar na primeira tentativa. Como disse acima, teria feito mais sentido ter acabado no 5.

O “Caderno” abordou a onda do momento, Vampire, as seções de praxe, e uma reportagem minha com os dois eventos do 1º semestre: um evento no Barrashopping, bancado pela Ediouro, que marcava a publicação de Shadowrun e as revistas The Universe of RPG (feita pelo pessoal da finada RPG Magazine) e Animação (feita pelo pessoal da Japanimation). O outro evento foi o ciclo de palestras RPG & Arte, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil. Nenhum dos eventos se notabilizou pelas mesas de jogos. Mas as palestras foram excelentes!

Eis o PDF: DD6

Published in: on 10 de abril de 2019 at 19:31  Deixe um comentário  

Dragão Dourado Nº 5

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A quinta edição da Dragão Dourado extrapolou todos os atrasos, sendo publicada apenas em abril de 1995. Quatro meses! Sinal de que as coisas não iam bem. Uma alteração significativa foi que o Caderno RPG perdeu espaço para os anúncios. Reduzimos de 24 para 19 páginas úteis.

Tinha muita gente pedindo para que falássemos de GURPS. Talvez este tenha sido o último suspiro do sistema como carro-chefe do cenário nacional de RPG. Até o final da década, o Mundo das Trevas não deixaria espaço para a concorrência. Publicamos duas resenhas sobre o sistema.

O resto da revista foi tomado pelas seções fixas: Correio RPG, Quando os dados rolam…, Arquivo do Mestre, Nova Geração e a aventura pronta. Esta última também sofreu com a necessidades comerciais da editora: uma aventura para Hero Quest.

Eis o PDF: DD5

 

Published in: on 10 de abril de 2019 at 17:39  Deixe um comentário  

Dragão Dourado Nº 4

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O quarto número da Dragão Dourado saiu apenas em dezembro. Apesar de se dizer bimestral, seria mais honesto ela se assumir trimestral. Em todo seu curto período de vida, apenas entre o 2º e o 3º números o período foi de dois meses.

Para esta edição, criamos mais duas seções: Arquivo do Mestre, com o objetivo de fornecer ferramentas para aventuras, como NPCs, tavernas, navios, vilas etc. E Nova Geração, dirigida a jogadores iniciantes que queriam se tornar mestre de jogo. Esta seção eu entreguei ao Mauro Lima de porteira fechada, para que ele escrevesse o que bem entendesse.

Desde o número 2 nós publicávamos ilustrações dos leitores na seção de cartas. E passamos a fazer o mesmo na seção do Mauro, desde que houvesse material para tanto.

Por falar em seção de cartas, nesta eu destilei um pouco o meu descontentamento com termos que começam a surgir na época, como RPGista (achava muito feio!) e RPG de mesa (em 94, era surreal chamar os games de jogos de interpretação).

A aventura pronta foi o primeiro texto publicado enviado por um leitor, Maurício Santoro Rocha.

Na falta de um bom assunto pra reportagem, publicamos três resenhas de jogos: Tagmar, Hero System e Indiana Jones, da mesma editora do RPG do Star Wars, a West End Games.

No segundo semestre de 1994, a Dragão Dourado experimentou a concorrência. Apesar de mantermos o discurso amistoso e solidário, a recíproca não ocorreu. Uma outra revista (ou mais de uma) acusou a IDD de envenenar as crianças com suas miniaturas de chumbo que vinham de brinde com a Dragão Dourado. Em resposta, o Attila escreveu o artigo que abre esta edição.

O PDF do Caderno RPG: DD4.

 

Published in: on 10 de abril de 2019 at 17:23  Deixe um comentário  

Dragão Dourado Nº 3

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A terceira edição da Dragão Dourado, junto com a anterior, é a minha favorita. Pra início de conversa, voltamos a aumentar o tamanho do Caderno RPG de 16 para 24 páginas. Tudo graças às cartas. Portanto, nada mais justo que a gente reservasse três páginas para a seção de correio. O caderno ficou com esse tamanho até o número 5.

Nesta edição, publicada em setembro de 1994, tivemos:

1- Um artigo sobre livro-jogos. Afinal, a GSA estava lançando o livro-jogo Era uma vez… A Vingança de Mag-Mor.

2- Um artigo sobre cardgames, a nova mania do momento.

3- Uma resenha de O Desafio dos Bandeirantes, escrita por Paulo José Resende.

4- Quando os dados rolam…, a primeira seção de causos de jogo. Uma criação da qual me orgulho, a começar pelo título. Mas tarde, aproveitei o nome para o fanzine que tínhamos na Akritó.

5- Mulheres no RPG, uma reportagem que fiz na época entrevistando várias jogadoras. Quem viveu a época sabe o quão raro isso era.

6- Correio RPG.

7- Uma aventura pronta pra Fantasia Medieval, também genérica.

Eis o PDF: DD3

 

Published in: on 2 de abril de 2019 at 21:07  Deixe um comentário  

Pirâmides e Geoglifos em Rondônia

O texto a seguir é parte da matéria publicada no site Rondoniaovivo, em 16 de março de 2019. Trata-se de ótima fonte de aventura para O Desafio dos Bandeirantes e O Império do Sol. O link para a matéria na íntegra encontra-se no final.

Piramide rondonia 4

A Descoberta dos Geoglifos

Sobrevoo e expedições terrestres permitiram ao pesquisador chegar aos geoglifos por ele descritos, dentro da tese de serem evidências de que o local foi parte do Eldorado-Paititi, o lendário Reino do Gran Moxo, do povo inca.

Cunha estava acompanhado por um grupo de proprietários rurais e percorreu toda área a pé, documentando e fotografando cada uma das evidências arqueológicas, explicando que, além da pesquisa de campo e sobrevôos, suas descobertas também se basearam em imagens do satélite CBER2 e do Google Earth.

Em todas as suas pesquisas se confirmou a existência de evidências da cultura inca, porém, dentre suas descobertas a que mais se destaca são os geoglifos, que ao contrário dos encontrados em outros locais, como Acre, Rio Grande do Sul e até em outros países, que foram construídos com pedras ou através de sulcos no terreno, em Rondônia os geoglifos possuem característica ímpar, pois foram elaborados utilizando-se da técnica de paisagismo vegetal, dando origem a grandes desenhos, normalmente de animais com centenas de metros, resultante do contraste provocado pela utilização de diferentes tipos de vegetação, sobre relevo (levantamento de terra ou ilha artificial), existentes no meio da mata, o que faz com que só sejam perceptíveis do alto. Baleia e gato, supostamente é uma das marcas dos sobreviventes incas que teriam habitado a região, procedentes da Amazônia Peruana. A Baleia mede um km.

Piramide rondonia 1

O Paititi ou El Dorado é aqui

A crença de Joaquim Cunha de que o Paititi existiu em Rondônia muito antes de ser Rondônia é a cópia de um mapa do século XVII, encontrado no Museu Eclesiástico de Cuzco. Nele está descrito o “país do Paititi”, possivelmente identificado como o Paraíso.

Mas esse mapa é puramente simbólico, ele reconhece. Porque não indica nomes reais de acidentes geográficos. Aponta apenas ‘monte’ e ‘rio’. Algumas expedições em terras de Rolim de Moura, Izidrolândia, Alta Floresta do Oeste, Alto Parecis e Porto Rolim permitiram-lhe examinar os vestígios de uma parte da civilização Inca na região. “Todos os pesquisadores iam o Peru, quando a história me levou a pensar que as localidades de Paititi e Moxos estavam juntas, no Reino Gran Moxos”, explica.

Se o Paititi existiu mesmo em Rondônia, já está no Google e nas centenas de fotos feitas por ele, com explicações minuciosas a respeito de coincidências com relatos feitos por pesquisadores internacionais, que já estiveram na Amazônia Peruana e talvez, também por aqui.

Uma das várias evidências do Paititi, segundo seus estudos, está no geoglifo Cabeça do Condor, inédito e nunca anteriormente fotografado ou relatado. “Na imagem da cabeça, a lhama mãe está bem visível. No contorno há o capim Peabiru. Fazem parte do conjunto de geoglifos da Via Láctea a lhama mãe, que mede cerca de um quilômetro; a cabeça do Condor, de 300 metros. Isso existe há séculos”, ele explica.

Sobrevôo próximo à Ilha de Porto Rolim permite ver o geoglifo com a serpente, o jaguar e o condor, tal qual mencionam alguns pesquisadores da história inca.

Piramide rondonia 2

Piramide rondonia 3

Origem da Lenda do Paititi ou El Dorado

Em 2001, o arqueólogo italiano Mario Polia descobriu o relatório do padre Andrea Lopez nos arquivos dos jesuítas em Roma. Este relatório falava acerca da misteriosa cidade de Paititi, ou talvez Eldorado – um reino perdido situado nos lados inexplorados das florestas peruanas, na região abrangida pelas densas e hostis selvas amazônicas.

Segundo esse relatório, os missionários Jesuítas daqueles tempos, liderados pelo Padre Andrea Lopez, teriam encontrado Paititi, ou Eldorado (segundo descreveram uma cidade adornado pelo ouro, prata e pedras preciosas) e pediram, então, a devida permissão ao Papa para evangelizar os seus habitantes, o que foi de pronto negado e abafado pela Igreja Católica, escondendo ainda a sua localização, de modo a “evitar uma corrida do ouro ao local, e ainda, a eventual ocorrência de uma histeria em massa”.

Paitíti (em castelhano, Paytiti ou Paititi) ou Candire é uma cidade lendária supostamente oculta a leste dos Andes, em alguma parte da selva tropical do sudeste do Peru (Madre de Dios), nordeste da Bolivia (Beni ou Pando) ou noroeste do Brasil (Acre, Rondônia ou Mato Grosso), capital de um reino chamado Moxos (em castelhano, Mojos) ou Grande Paitíti (em castelhano, Gran Paititi), governado por um soberano conhecido como Gran Moxo, descendente de um irmão mais novo de Huáscar e Atahuallpa.

Outros nomes dados à cidade oculta em alguma parte do sul da Amazônia ou norte do Prata incluem Waipite, Mairubi, Enim, Ambaya, Telan, Yunculo, Conlara, Ruparupa, Picora, Linlín, Tierra dos Musus, Los Caracaraes, Tierra de los Chunchos, Chunguri, Zenú, Meta, Macatoa, Candiré, Niawa, Dodoiba e Supayurca.

O mito é semelhante ao de Manoa ou Eldorado, que também seria uma cidade cheia de riquezas que teria servido de refúgio a incas que escaparam da conquista espanhola, mas costuma ser localizada muito mais ao norte, entre a Colômbia e as Guianas. Os dois mitos têm origem comum no sonho de conquistadores de enriquecer repetindo a façanha de Francisco Pizarro, o conquistador dos incas, e influenciaram-se mutuamente, mas o de Paitíti associou-se, em tempos mais recentes, com a nostalgia de povos andinos pelo antigo Império Inca, ganhando conotações nativistas e associando-se ao mito de Inkarri.

Link da matéria: http://www.rondoniaovivo.com/geral/noticia/2019/03/16/descoberta-grupo-de-pesquisadores-diz-ter-encontrado-piramides-em-rondonia.html?fbclid=IwAR2eSuQJ_jCbDfs8S5zpECScvmZ4y62jnch-zQQrXb68aVB0MY6TsA42Ups

 

Published in: on 1 de abril de 2019 at 16:54  Deixe um comentário  

Dragão Dourado Nº 2

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O Caderno RPG da segunda edição da Dragão Dourado foi uma das mais prazerosas de fazer. Primeiro, a IDD foi inundada por cartas de jogadores pedindo mais espaço pra gente. E conseguimos! No nº 2, o Caderno dobrou de tamanho, ficando com 16 páginas. Estranha foi a opção de fazer a numeração do Caderno independente das HQS.

Quanto às HQs, a revista passou a publicar duas histórias, com o Caderno RPG no meio as separando. A primeira dava sequência à história do Attila e Diucênio; a segunda era de um argumento da dupla Attila e Diucênio desenvolvido pelo trio Antonio ‘Lobo’, Lucas e Renato, com uma proposta ainda mais próxima ao clima de uma sessão de RPG.

Apesar da prometida bimestralidade, o segundo número saiu em julho de 1994, três meses depois do primeiro.

Nesta segunda edição do Caderno RPG, os artigos já vêm assinados.

O primeiro foi uma delícia escrever e vivenciar o que escrevi: uma matéria sobre os eventos de RPG que fomos em 1994. Falo sobre o I Encontro de RPG de Vitória; o II Encontro Internacional de RPG, na marquise do Ibirapuera, com presença do Mark Rein Hagen; a I Comic Mania, no Castelinho do Flamengo (Rio de Janeiro); e a V RPG Rio, na UERJ, com palestra do criador do Vampire. E tudo isso em seis meses! E a matéria ainda é ilustrada por cartoons do Mário Proença.

Na sequência, uma entrevista que eu e o Ricon fizemos com o Mark Rein Hagen. Só não foi possível incluir uma cena dele dançando Mamushka numa festa em Copacabana.

Segue com a segunda parte da matéria sobre a Terra Média, escrita pelo Ygor Morais.

O livro resenhado foi Rolemaster, por Raphael Magalhães, fã do jogo e um dos organizadores da Comic Mania do Castelinho.

Inauguramos com orgulho o nosso Correio RPG.

Encerrando o Caderno, uma aventura pronta para fantasia medieval, Os Magos de Keldarand, escrita pelo Ygor e Martin Freire. O texto não entra em pormenores de sistema, podendo ser usada para qualquer RPG sobre o tema.

Eis o PDF: DD2

Published in: on 1 de abril de 2019 at 14:38  Deixe um comentário  

Dragão Dourado Nº 1

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No primeiro número da Dragão Dourado, o espaço do Caderno RPG se resumia a 8 páginas. O objetivo da revista, inicialmente, era publicar as histórias do Attila Binari, sócio-diretor da IDD, roteirizada e ilustrada pelo Diucênio Rangel. A HQ deles tomava toda a revista de 76 páginas, exceto as páginas de propaganda e as do Caderno RPG. O Caderno surgiu para dar lastro à revista, para que ela fosse mais do que uma revista de HQ.

Portanto, nesse pequeno espaço, a gente ficou entre escrever para iniciante ou escrever para jogadores. Difícil achar um meio termo. Optamos por matérias introdutórias que pudessem também interessar ao jogador experiente.

As matérias nessa primeira edição não foram assinadas, mas o corpo de redatores era composto pelos três autores de O Desafio dos Bandeirantes e dois do Tagmar, Ygor Morais e Julio Cezar.

Assim, neste primeiro número você encontrará:

  • Um breve histórico do RPG, com um box explicativo sobre o jogo na prática.
  • Histórico sobre o RPG no Brasil.
  • Artigo sobre a obra de Tolkien e a Terra Média. Devido ao pouco espaço, dividimos a matéria em duas parte, a segunda a ser publicada na edição seguinte.
  • Resenha sobre o MERP – Middle-Earth Role-Playing, publicado pela ICE. O espaço era tão curto que não deu pra encaixar nem a capa do livro.

Eis o PDF: DD1

Published in: on 1 de abril de 2019 at 13:39  Deixe um comentário  

Revista Dragão Dourado

Pouquíssima gente sabe, mas a primeira revista de RPG publicada no Brasil foi a Dragão Dourado, lançada em maio de 1994 (a segunda seria a RPG Magazine, lançada em agosto). A revista era composta por duas HQs inspiradas em campanhas de AD&D, e, no meio, o Caderno RPG, sob responsabilidade da GSA, que me colocou como editor. O Caderno RPG era um terço da revista, que era em preto e branco (como todas as revistas lançadas nesse ano), bimestral, e vinha sempre com uma miniatura de chumbo de brinde. Isso era devido ao fato de que a revista era publicada pela IDD, uma fábrica de miniaturas.

Os editores do Caderno RPG não tinham nenhuma ingerência na revista como um todo. Éramos responsáveis apenas por fazer o material de RPG a ser publicado, e dentro do espaço que nos era disponibilizado. E fazíamos isso com bastante liberdade, desde que obedecendo à temática principal da revista, que era de Fantasia Medieval. Por isso, a única matéria que saiu sobre O Desafio dos Bandeirantes foi uma resenha do livro. O Atilla Binari, sócio-diretor da IDD, raramente interferia na linha editorial do Caderno.

Vou disponibilizar em PDF apenas as capas e o Caderno RPG. E revista só teve seis edições.

Published in: on 1 de abril de 2019 at 13:21  Deixe um comentário  

DIÁRIO BANDEIRANTES 25 ANOS

Introdução

Eu já tinha a ideia de fazer uma bibliografia comentada do Desafio dos Bandeirantes, mas aí o Carlos Klimick sugeriu uma espécie de making of. Então resolvi fazer algo no meio do caminho. Não vou fazer um relato de bastidores pois isso envolve outras pessoas. Tampouco farei um adiantamento da nova edição, pois as decisões editoriais que serão tomadas de agora em diante não me envolvem. Portanto, minha exposição nesses diários é particular e não oficial.

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Capítulo 1

O projeto do “Desafio dos Bandeirantes 25 anos” com regras do D&D 5ª edição me pegou no sofá comendo pipoca como todo mundo. As pessoas me perguntavam “o que vai ser?” e eu só podia responder “sei lá”.

Estávamos em fins de 2017. Haveria uma celebração dos 25 anos no Rio Shopping, em Jacarepaguá, no início de dezembro. Logo em seguida teria o lançamento carioca do RPG A Bandeira do Elefante e da Arara na finada Livraria Cultura do Centro. A notícia me pegou justamente lendo a novela do Christopher, que achei muito foda e cuja resenha publiquei aqui.

Em 2016 eu havia feito em meu blog os módulos O Sul e As Missões para Desafio dos Bandeirantes, e também mini-suplementos para Ilha da Páscoa e Colônia do Sacramento. Também transcrevi as anotações da épica bandeira que mestrei entre 1994 e 2000.

Em meados de 2017, após dar de cara com o excelente O Rio antes do Rio, resolvi pesquisar, sem pressa, material para um futuro módulo da Capitania de São Sebastião. Nesse sentido também li o igualmente ótimo 1499 – O Brasil antes de Cabral. Ambos receberam resenha minha na época. E, sem saber o quão inspirador me seria, dei início à leitura dos livros de Alberto Mussa, A Primeira História do Mundo e O Trono da Rainha Jinga, também resenhados. O livro do Christopher parecia uma campanha de RPG romanceada, o que fazia tudo convergir para um fim de ano inesperado.

Paralelamente a isso tudo, resolvi baixar os oito volumes da História da África publicada pela Unesco. Botei na cabeça que deveria conhecer mais sobre a África, pois hoje em dia há tantas narrativas que o desconhecimento nos deixa à mercê de verdadeiras ficções históricas. Já tinha lido o 1º volume (basicamente aspectos metodológicos da obra) e avançava pelo Egito do 2º volume, já fazendo anotações para um longínquo módulo de Continente Negro (vai que eu dure até os 70, né?), quando veio o convite para eu integrar o projeto do “Bandeirantes 25 Anos” em dezembro.

Larguei minhas leituras, larguei minhas séries, sofri por adiar a leitura do segundo volume da série napolitana da Elena Ferrante, virei um estranho para minha própria cama e mergulhei de cabeça no Brasil do século XVII.

A primeira grande questão foi definir se seria um Brasil histórico com fantasia ou se seria a fantástica Terra de Santa Cruz do livro de 1992. Tanto na minha campanha dos anos 90 como em meu blog, já havia optado há muito pela geografia real. A decisão foi manter o cenário fantástico e aproximá-lo mais do cenário e cronologia histórica. Outra decisão foi usar os nomes reais das tribos nativas e dar mais diversidade à cultura negra.

E foi com essas diretrizes que dei início aos trabalhos. Sobre os índios, já havia pesquisado bastante para escrever a parte dos Guaranis para As Missões, e também lido os livros acima citados. Então resolvi partir para preencher a minha principal lacuna: África e as culturas negras.

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Capítulo 2

Em minha missão de desbravar o Continente Negro e sua cultura, sabia que não teria tempo para seguir cronologicamente a minha leitura da coleção de História da África da Unesco, e teria de pular direto do volume 2 para o volume 5. Com medo de perder o rumo nesse salto, senti que era necessário adquirir primeiro uma visão mais geral e sintética do continente.

Foi então que me deparei com A África explicada a meus filhos, de Alberto da Costa e Silva, um livreto curto e fácil de ler. Uma delícia sobre a qual comentei aqui na época. A partir daí, segui em frente.

A facilidade em obter a versão traduzida dos oito volumes da História da África entusiasma o leitor. Já o texto, são outros quinhentos. Escrito em sua maioria nos anos 70, o texto é bastante árido, diferente dos livros de História atuais. É preciso fôlego e paciência. E a própria África também não ajuda: são tantos reinos, etnias, subgrupos, conquistas, migrações… Acompanhar as mudanças em um período de 100 anos é como tentar desenhar a forma das nuvens. Quando você acha que já tá se achando na geografia política e humana, muda tudo. Para 2019, está em meus planos retomar essa leitura de onde parei: lá atrás, do Antigo Egito, dessa vez acompanhado das duas bíblias do Alberto Costa e Silva sobre o assunto.

A princípio, os negros serão representados no livro por três culturas: Banto, Iorubá e Fon. Mas, naquele início de trabalhos, estudávamos a possibilidade de incluir os Malês. Então, de início, usei muito Wikipedia e sites. E me deparei com alguns problemas sérios para a pesquisa.

Primeiro, que os Iorubás, principal referência do jogo anterior e principal referência de religião negra nos dias de hoje, só chegaram pra valer no final do século XVIII. Então, como fazer um jogo de Brasil histórico sem Orixás? Impensável! Essa foi a primeira de outras vezes que o rigor cronológico teve de ser deixado de lado. Os próprios Fon só foram marcantes a partir do século XVIII. Quem dominava na época eram os Bantos. No Rio de Janeiro, eram cerca de 99%.

Segundo, que o domínio do Culto dos Orixás no século XIX foi tão grande que contaminou todas as demais religiões africanas. Pra não falar na influência do próprio Cristianismo em todas elas. Assim sendo, a maioria dos textos falam da atualidade, ou no máximo como era no século XIX e XX. E a única certeza que eu poderia ter é que tudo era diferente, mas muito diferente mesmo no século XVII. Ao mesmo em tempo que isso era um complicador, era também libertador. Os historiadores e antropólogos que eu lia assinalavam esse fato e constatavam que dificilmente haveria como preencher essas lacunas. Sendo o jogo uma fantasia, a possibilidade de recriar essas raízes me pareceu ser a melhor saída. Como essas religiões teriam sobrevivido nos primeiros anos de cativeiro na colônia lusitana?

Primeiro mirei naquilo que mais me oferecia desafio: meu desconhecimento sobre a religião vodum dos Fon. O que mais me incomodava no nosso livro de 1992 era o Feiticeiro Negro. O Feiticeiro de Ferro e Fogo foi uma invenção nossa, pois alguém achou que faltava um personagem de magia mais porrador. O Sacerdote Negro, representando o Culto os Orixás, estava ok. Mas, de última hora, resolvemos retratar uma outra realidade africana, pra dar maior diversidade aos personagens negros, algo que estivesse para o Sacerdote Negro o que o Bruxo estava para o Jesuíta. Um antagonista com magia.

Numa época pré-internet, as possibilidades de pesquisa eram livrarias e bibliotecas. Mas havia também um problema grave: o Carlos Klimick estava indo para os Estados Unidos estudar e não queríamos escrever nenhuma linha do livro sem ele. Então, ainda que a parte sistêmica do Feiticeiro Negro seja a minha preferida (adoro mestrar para esse personagem!), a parte de pesquisa foi nas coxas. Pegamos alguns espíritos de um dicionário de mitologia e inventamos uns dois (salvo engano, Nohrum e Myila). Não que faltasses mais espíritos para usar, mas eles precisavam englobar um determinado leque de poderes pro personagem não ficar desequilibrado em relação aos demais.

Há cerca de dez anos, tirei essa pedra do meu sapato no blog. Ainda assim, estava insatisfeito, pois o personagem, tanto o antigo quanto a minha nova versão, era baseado no vodu haitiano e nos bush negroes das Guianas. Nada a ver com a colônia brasileira. Para a Terra de Santa Cruz, até dava pra passar, mas para o meu cenário mais histórico, tal constatação era um incômodo. Pra se ter uma ideia, o único vodum que sobreviveu do livro original para a nova versão foi Heviosso. Mas, caso cheguemos a desenvolver o norte da Terra de Santa Cruz, velhos conhecidos darão as caras.

O livro que me acendeu a luz de como deveria abordar o tema das religiões africanas foi O Rei, o Pai e a Morte, do antropólogo catalão radicado no Brasil Luis Nicolau Parés. Seu objetivo era justamente buscar as raízes do Vodum na Costa do Ouro, com base na tradição oral e registros históricos. E mesmo assim, o que surge ali é o Vodum do século XVIII (o mais perto que consegui chegar do meu objetivo), e termina com uma esclarecedora comparação deste com o Vodum praticado no Brasil, sendo o mais próximo ao original o da Casa das Minas, em São Luís do Maranhão. Leitura mais do que recomendada.

O rigor da pesquisa e honestidade do trabalho me serviram de norte ao longo de todo o ano de 2018. A partir do texto de Parés fui interpretando tudo o que encontrava na internet sobre o tema, e reformulando para o jogo. Pois, claro, estamos falando de um cenário de fantasia para RPG, acima de tudo.

Resolvido meu carma com os Fon, chegava a hora de encarar os Bantos e, de quebra, os Malês. Ingenuamente, escolhi deixar os Iorubás e seus Orixás para o final, achando que seria mais fácil.

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Capítulo 3

Encaminhada minha pesquisa sobre Vodum, chegara a hora de encontrar meu “carro-chefe” sobre os Bantos. Dei de cara na livraria com um livro que parecia capaz de matar dois coelhos com usa só cajadada: Bantos, Malês e identidade negra, do Nei Lopes, um autor bastante badalado. Mas a leitura me decepcionou um pouco.

Nei Lopes é antes de tudo um artista, e, como tal, a parte do livro que fala da cultura dos Bantos foi bastante inspiradora. Entretanto, no que diz respeito ao conteúdo histórico, achei o texto muito truncado e jogado de qualquer jeito. Talvez o fato de não ser historiador ou antropólogo tenha pesado.

Vou começar pelo mais fácil, os Malês.

Nei Lopes é tão comprometido em sua luta pela valorização da identidade negra que chegou ao ponto de desmerecer a participação dos Malês nas revoltas do início do século XIX. Ele implica com a influência islâmica na cultura negra, o que considera parte do branqueamento cultural. Assim, deixou de citar autores importantes e desprezar documentos essenciais para sustentar sua narrativa.

O texto que me salvou foi Negros islâmicos no Brasil escravocrata, artigo de Lídice Meyer Pinto Ribeiro, publicado na Revista USP n° 91, em 2011. Valeu a pena pesquisar os Malês só por ter lido a história dos sobreviventes da revolta refugiados no Rio de Janeiro.

No final das contas, chegamos à conclusão que os Malês eram um fenômeno muito próprio do século XIX. Além disso, se fossemos usá-los, teríamos também de abordar a religião muçulmana no livro. Ambientar um jogo no século XVII nos dias de hoje já é confuso o bastante pra gente ainda mexer nisso. Por razões semelhantes, apesar de tratarmos dos Cristãos Novos e a perseguição por eles sofridos pela Inquisição, também descartamos o Judaísmo e o Protestantismo como religiões “jogáveis”.

No que diz respeito aos Bantos, o livro foi importante para captar a alma dessa cultura. Quando a gente entra numa pesquisa dessas meio que no escuro, é bom termos um farol, uma luz guia a nos conduzir por outras leituras.

Nei força um pouco a barra ao exaltar a influência dos Bantos em tudo, além do que as fontes primárias permitem. Mas numa coisa ele tem razão: se os Bantos perderam a batalha religiosa para os Iorubás, na cultura eles estão presentes em tudo. Eles são a base da cultura afro-brasileira. Fato que, para mim, apresentou-se um grande desafio: no século XVII, os Bantos eram a maioria esmagadora de negros no Brasil. Eu teria de fazer um trabalho impossível de palimpsesto cultural para restituir aos Bantos o peso que eles tiveram no passado.

Há a teoria que a prevalência do Vodum e dos Orixás sobre as religiões dos Bantos se deveu por elas serem mais estruturadas, pois eram religiões de Estado, enquanto a dos Bantos que para cá vieram refletiam uma estrutura mais tribal, comunitária.

Outros obstáculos se colocavam em meu caminho. Os Bantos que aqui estavam no século XVII vieram em sua maioria do Congo e de Angola. O Reino do Congo aderiu ao Cristianismo assim que os Portugueses por lá chegaram. Angola, na verdade, eram vários reinos. Impossível traduzir essa realidade para o jogo. A solução óbvia era eleger uma corrente e tentar dar um corpo representativo a ela. Mas isso também não foi fácil.

A expressão mais conhecida é o Calundu, devido a um processo inquisitorial. Mas este relato já é muito contaminado pelo Cristianismo. E os Inquisidores não estavam nem um pouco interessados em descrever a estrutura dessa prática religiosa. Alguns artigos acadêmicos foram importantes na montagem desse quebra-cabeça.

A religião dos bantos: novas leituras sobre o calundu no Brasil colonial, artigo de Robert Daibert, publicado na revista Estudos Históricos, vol. 28, nº 55, em 2015.

Revisando o calundu, de Laura de Mello e Souza, a autora de O Diabo na Terra de Santa Cruz, publicado pela USP em 2002.

Filosofia Ubuntu, de Francisco Antonio de Vasconcelos, publicado na Logeion: Filosofia da Informação, v. 3, n. 2, em 2017.

E também o site da Cultura Bantu Afro Brasileira.

De todos essas leituras extraí uma pequena lista de Minkisi, a descrição do mundo espiritual a partir de Nzambi, o Ntu (energia vital) e a importância da ancestralidade.

E então chegou a vez de lidar com os Orixás.

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Capítulo 4

Como escrever sobre um assunto do qual todo mundo parece entender alguma coisa e que tem tantas variantes? Como traduzir essa complexidade para uma forma simples e jogável sem desagradar a gregos e troianos? Esse foi o desafio na hora de pesquisar a principal religião afro da atualidade.

De cara, dei-me conta que o Culto aos Orixás, na época, era um culto reduzido, de caráter local. Tem a dimensão atual porque se tornou dominante em Cuba e no Brasil. No século XIX, negros brasileiros cruzavam o Atlântico para fazer “intercâmbio” em Lagos, na atual Nigéria. Mas, no século XVII, a presença iorubá no Brasil era ínfima. Claro que o preciosismo histórico teve de ser deixado de lado nesse pormenor. Contudo, o problema para a pesquisa se mantinha: caracterizar uma religião sedimentada no século XIX em uma versão factível no século XVII.

Listar os Orixás mais conhecidos foi a parte mais fácil. As fontes virtuais são abundantes. A escolha dos nomes (alguns mudaram de nome no Brasil) foi debatida e votada dentro do grupo de trabalho.

Para driblar o gap de dois séculos, imaginei o desafio que negros recém-chegados do Império Oyo teriam enfrentado para fazer sobreviver sua cultura e sua religião não só em outras terras, mas em meio a uma comunidade negro composta, em sua maioria, por membros de outra cultura. Ou seja, mais do que se preocupar com estruturas, protocolos e códigos, o mais importante seria manter a ligação com seus Orixás.

Um artigo e um livro foram particularmente úteis para estruturar essa parte:

Culto aos Orixás, Voduns e Ancestrais nas Religiões Afro-brasileiras, livro de artigos selecionados pelo sociólogo e historiador Carlos Eugênio Marcondes de Moura. Em um deles, a autora descreve todo o seu processo de iniciação como Iaô.

O objeto do desejo. A identificação do dono da cabeça no candomblé, artigo de Monique Augras e Ângela Maria Correa, publicado na Revista de Psicología General y Aplicada nº 31, em 1979.

A pesquisa rendeu uma espécie de spin-off, que de tão complexo e detalhado deverá ficar para algum suplemento: as sociedades secretas. São elas o Culto dos Eguns, a Sociedade Ogboni e Ìyàmí Oxorongá.

Foi interessante constatar o quão recentes essas religiões podem ser em relação às monoteístas em certos aspectos. Xangô, por exemplo, era um rei possivelmente do século XIII. Voduns cultuados no final do século XVIII haviam vivido no início do mesmo século. A ausência de um registro escrito torna a percepção de uma cultura bem diferente da nossa. Algo ocorrido há 200 anos atrás pode ganhar o peso de algo ocorrido no início dos tempos. E a gente simplesmente não tem como rastrear isso.

Após destrinchar as três etnias africanas e suas respectivas religiões, percebi que estava faltando algo super importante: uma base bibliográfica para a realidade dos negros na colônia. Seria temerário contar apenas com o senso comum e o conhecimento adquirido ao longo dos anos. E aqui entra uma questão de percepção histórica. Como a documentação e iconografia são mais fartas a partir do século XVIII, quase tudo que vem a nossa mente sobre vilas, Brasil colonial e escravos são dos séculos XVIII e XIX. Acontece que no século XVI e XVII o Brasil era outra coisa. A descoberta do ouro mudou tudo, tanto para melhor quanto para pior. O Brasil foi um até 1700 e outro a partir dessa data.

Haveria escravo de ganho no século XVII? Qual o percentual de negros livres? Como era seu cotidiano nas cidades? Quais eram as leis que regiam a escravidão e os negros livres? Teriam os escravos direitos? Quais as perspectivas sociais de um ex-escravo? Nesse sentido, o livro “Escravismo no Brasil”, de Francisco Vidal Luna e Herbert S. Klein, foi bastante elucidativo e didático. Ancorado em fontes primárias, tabelas e estatísticas, ele mostra a presença do negro no Brasil passo a passo ao longo do tempo e apresentando seus desdobramentos sociais, econômicos e jurídicos. Infelizmente, tive de suspender minha leitura antes de chegar ao século XIX, pois não podia me dar ao luxo de sair do foco da pesquisa.

Várias outras leituras contribuíram para o tema, mas com informações dispersas. Livros sobre os quais falarei mais adiante, tendo como escopo a colônia em termos gerais.

Da mesma forma, por meio desses registros eventuais, foram colhidas informações sobre as outras culturas europeias presentes na ambientação: Espanhóis, Alemães, Ingleses, Franceses e Holandeses. Aqui também lancei mão do conhecimento adquirido na pesquisa para o módulo “O Sul” (que pega toda a colonização hispânica do Uruguai, Paraguai, Argentina, Chile e Bolívia).

Sobre os franceses, foi muito oportuno já ter lido sobre as incursões deles no século XVI, tanto no livro O Rio antes do Rio quanto em Os Franceses na Guanabara – Villegagnon e a França Antártica, de Vasco Mariz e Lucien Provençal, também já comentado no Facebook.

O material sobre Cristãos Novos veio da bibliografia relacionada à Inquisição, sobre a qual falarei mais adiante. Só os Ciganos mereceram a leitura de textos específicos:

O Povo Cigano e o Degredo: contributo povoador para o Brasil colônia, artigo de Elisa Maria Lopes da Costa publicado em Textos de História, vol. 6, nº 1 e 2, da UnB, em 1998.

História dos Ciganos no Brasil, artigo de Rodrigo Corrêa Teixeira publicado pelo Núcleo de Estudos Ciganos em 2008.

Como a pesquisa sobre os nativos já estava bem adiantada, o passo seguinte foi dedicado às vilas e ao cotidiano da colônia.

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Capítulo 5

Depois que fiz O Império do Sol, percebi que O Desafio dos Bandeirantes era um jogo sem cidades. Mencionávamos as vilas, elas eram indicadas nos mapas, mas não falávamos nada sobre elas. O jogo em 1992 foi mesmo pensado para reunir um grupo e se mandar pro meio do mato. Creio que isso retrata um pouco a preferência minha e do Klimick por histórias mais aventurescas, enquanto o Ricon tende mais para as intrigas e cenários urbanos. Tanto que realçar o cenário urbano foi uma demanda forte dele para a nova edição.

Eu só fui me dar conta desse meu lado ‘mateiro’ em Era do Caos. Não conseguia me sentir bem mestrando, até que fiz uma aventura inspirada em Antônio Conselheiro e outra em que o grupo produzia uma novela no Pantanal. Essas me deixaram satisfeito, e entendi a razão: eram aventuras rurais.

De fato, o jogo precisa dar azo aos dois estilos. Isso claro, exigiria de mim o mesmo cuidado que tive em O Império do Sol, ao buscar descrever as características mais marcantes daquela sociedade e dar pistas do seu cotidiano, mas dessa vez com o cuidado de não incorrer no mesmo erro.

Eu me senti tão agradecido pelos meses de acolhimento no Consulado Geral do Peru durante a minha pesquisa para O Império do Sol (eu tinha livre acesso à biblioteca, mas não podia levar os livros pra casa – um dia eu conto essa história), que me senti devedor, na obrigação moral de tratar aquela cultura da forma mais fiel e respeitosa possível. E foi então que me senti mal em usar nomes fictícios, cronologia diferente e até mesmo outra geografia. Uma coisa é mexer com a nossa própria história, outra é mexer com a história dos outros. Será que eles entenderiam a proposta? Será que eles se sentiriam ofendidos?

Enfim, quando estamos lidando com uma ambientação de fantasia, excesso de respeito também atrapalha. Em O Império do Sol, na hora de dar aquela apimentada criativa, creio que segurei um pouco a mão. Porém, uma primeira versão mais pé no chão é necessária antes de extrapolar.

E, para chegar nessa primeira versão, seria necessária uma ampla leitura que reunisse aspectos políticos, sociais, econômicos, administrativos, militares, religiosos, cronológicos e geográficos. Fácil, não?

Claro, basta pegar uma pilha de livros sobre a época e ler, anotar, compilar etc. Mais ou menos…

Da mesma forma que, em um filme, não pode haver cena sobrando, um take ou um diálogo que não acrescente nada à trama, em um RPG não deve haver uma informação que não sirva para a criação de uma aventura ou para a construção de um personagem. Reduzir uma ambientação vasta a um número limitado de linhas e páginas já exige muito suor e lágrimas editoriais para perder tempo com o que não vai interessar aos jogadores, só ao entusiasmado autor. Mas não há uma receita pronta pra isso. É preciso saber escolher, e sem jamais poder ter certeza se escolheu certo.

Duas decisões foram importantes para não tornar essa pesquisa uma insanidade: tempo e espaço. No que diz respeito à geografia, ainda que seja a fantástica Terra de Santa Cruz, o recorte seria limitado ao equivalente do sudeste brasileiro (Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo), acrescido do início da colonização do Sul.

Sobre a questão temporal, havia a opção de pegar uma faixa de tempo ou uma data específica. Acho que até hoje isso não ficou muito claro. Há uma data, mas ao mesmo tempo ela pode ser apenas o limite para um período de tempo.

Por quase todo o 1º semestre, prevaleceu que o “Bandeirantes 25 anos” seria em 1675, uma vez que o ano de referência do original era 1650. Apesar da cronologia anterior ser ficcional, a data não foi aleatória: a intenção era pegar uma época em que tanto a presença do negro quanto a do índio tivessem equivalência na colonização. Só que o ano de 1675, dentro de uma perspectiva histórica, não tem nenhum significado particular, mas demoramos a nos dar conta disso. E, ainda por cima, nos obrigava a antecipar dois fatos históricos que queríamos abordar na nova edição: o início da mineração e a Colônia do Sacramento.

Enfim, quando já tinha encerrado praticamente toda a pesquisa com essa data em mente, chamei a atenção para o fato que, se o jogo se passasse nos anos 90, a cronologia ficaria toda redonda. Não me dei conta de que estava arrumando sarna pra me coçar: a concordância foi imediata e ganhei de presente a missão de retocar toda a pesquisa para a nova data.

A nova data escolhida foi 1699. Mais do que uma data de tempo presente, ela serve mais como uma data símbolo, como no livro 1499 – O Brasil antes de Cabral. Como eu disse antes, a partir de 1700 tudo muda. Então a nova edição deveria retratar o crepúsculo de uma época, a Era dos Bandeirantes.

E, não coincidentemente, naqueles anos 90 do século XVII, os bandeirantes foram os principais protagonistas nos três maiores eventos da colônia: a descoberta do ouro mineiro; a guerra contra a Confederação dos Cariris; e a destruição do Quilombo dos Palmares. E tudo ocorrendo ao mesmo tempo!

Dessa forma, os desdobramentos dessas ações, ou seja, a entrada no novo século, ficariam reservados para o desenvolvimento futuro do jogo: o crescimento das cidades mineiras, a descoberta das minas em Goiás e Mato Grosso, o aumento da ocupação no Sul, maior interesse da Coroa nas coisas da terra etc., pra ficarmos apenas nos 50 anos seguintes.

Já deve ter dado pra perceber que dar conta de bibliografia pra tudo isso em e com tão pouco tempo não foi moleza, né?

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Capítulo 6

Minha pesquisa de ambientação sobre o Brasil colonial do século XVII começou com um livro que eu já havia adquirido tendo em vista o desenvolvimento de O Desafio dos Bandeirantes para o meu blog: Histórias da Gente Brasileira Volume 1: Colônia, de Mary Del Priore, uma autora bastante conhecida. Entretanto, o livro me incomodou.

Além de ser uma compilação por vezes desordenada de vários textos sobre o assunto, incapaz de fazer sobressair uma narrativa própria, mistura épocas de forma descuidada. Então, não era uma fonte na qual eu podia confiar totalmente para esse trabalho. Por outro lado, foi essencial para que eu percebesse que tipo de livro eu deveria evitar.

Dentro da proposta enciclopédica do livro da Del Priori, adquiri a História Social do Brasil Volume 1 – Espírito da Sociedade Colonial, de Pedro Calmon, antigo reitor da UFRJ, publicado originalmente em 1935, que me foi muito mais útil. Calmon possui uma escrita empolgada e empolada, o que me divertiu um pouco.

Eventualmente, deparei-me com três preciosas fontes virtuais de pesquisa.

Primeiro, o acervo gratuito de obras que caíram em domínio público.

Segundo, o acervo digital da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, um verdadeiro tesouro para os amantes de História.

Por fim, a Brasiliana Eletrônica da UFRJ, site que disponibiliza o acervo da coleção Biblioteca Pedagógica Brasileira, de publicações históricas dos anos 30 e 40. Esse site não permite download, e o texto aparece todo em caixa alta.

Com isso, a perspectiva de terminar a pesquisa histórica em maio acabou se tornando uma miragem no deserto. Imprimi a lista de obras obtidas e discuti cada título com a equipe para definir quais seriam lidas.

Ler estes livros da primeira metade do século XX é bastante revelador não só quanto à mentalidade da época (há, sim, muito preconceito), mas também para entender como determinadas narrativas entranharam na nossa cultura. Mal comparando, são como os Westerns daqueles tempos, muito mais preocupados em retratar a visão dos vencedores, pois aquele passado ainda era muito vivo para eles. No caso brasileiro, havia na época uma necessidade de consolidar uma identidade nacional e validar diversas mudanças ocorridas no país. Ver o passado por esses autores me deixou muito mais próximo do espírito do jogo do que as obras contemporâneas mais acuradas. É como se os autores antigos vissem a História do ponto de vista dos brancos e os modernos pelo ponto de vista dos negros e índios. Algumas obras contemporâneas, mais fiéis às fontes primárias, conseguem atingir um equilíbrio, tendência que vêm fazendo um bem enorme à historiografia.

Ter a oportunidade de dialogar ao mesmo tempo com essas escolas e construir pontes entre elas como base para uma obra ficcional, podem ter certeza, foi um imenso prazer. Não tem preço!

Sobre o período colonial como um todo, foram particularmente relevantes:

Capítulos de História Colonial (1500-1800), de João Capistrano de Abreu, publicado em 1907.

Expansão Geographica do Brasil Colonial (2ª edição), de Basílio de Magalhães, publicado em 1935.

Sobre a administração colonial do período, sobre a qual eu encontrava dados insatisfatórios, fui agraciado com a Organização Política e Administrativa do Brasil (Colônia, Império e República), de Augusto Tavares de Lyra, publicado em 1941. E, de quebra, o site Memória da Administração Pública Brasileira.

Da mesma forma, sobre a organização militar, fui salvo pelo livro História Militar do Brasil, do polêmico Gustavo Barroso, publicado em 1938. Polêmico atualmente, pois na época ele era considerado um grande luminar, de saber enciclopédico e inquestionável.

Sobre a estrutura militar do século XVII, também foram importantes os seguintes artigos:

Os Corpos de Ordenanças e Auxiliares. Sobre as relações militares e políticas na América Portuguesa., de Cristiane Figueiredo Pagano de Mello, publicado na revista História: Questões & Debates n° 45, da UFPR, em 2006.

Organização militar, poder de mando e mobilização de escravos armados nas conquistas: a atuação dos Corpos de Ordenanças em Minas colonial., de Ana Paula Pereira Costa, publicado na Revista de História Regional, vol 11, n. 2, da Universidade Estadual de Ponta Grossa, em 2007.

Gênese das milícias de pardos e pretos na América portuguesa: Pernambuco e Minas Gerais, séculos XVII e XVIII, de Luiz Geraldo Silva, publicado na Revista de História nº 169, da USP, em 2013.

O universo do bandeirantismo foi explorado a partir de dois livros que nos serviram de base para o livro original, em 1992:

No Tempo dos Bandeirantes, de Belmonte, publicado nos anos 40. Um livro delicioso, que merece ser lido, publicado originalmente em capítulos de jornal.

Vida e Morte Bandeirante, de Alcântara Machado, publicado em 1929, faz uma análise sobre os inventários da época.

Além desses, oriundo dos sites acima referidos, mais duas obras:

História das Bandeiras Paulistas (Leitura Básica), de Afonso d’Escragnolle Taunay, selecionado por Antonio Paim. Baixei dos sites também a obra completa, em dois volumes. Mas a pressão do tempo me fez optar pela versão compacta. O texto original foi escrito entre 1924 e 1936. Para entender o período, é bibliografia essencial.

Bandeiras e Bandeirantes de São Paulo, de Francisco de Assis Carvalho Franco, publicado em 1940.

Enfim, numa orelha de livro que lia sobre a Inquisição, descobri um livro que representava a essência do momento histórico escolhido: 1680-1720: O Império deste mundo, de Laura de Mello e Souza e Maria Fernanda Baptista Bicalho. Laura é autora de O Diabo na Terra de Santa Cruz, e a obra fazia parte da Coleção Virando Séculos, da Companhia das Letras, publicada em 2000. Não tinha como não ler esse livro! E trata-se de um livro curto, rápido de ler, que começa com a morte do Padre Antônio Vieira. Uma grande aquisição para o jogo e para minha biblioteca particular, adquirido no site Estante Virtual.

Para a Capitania de São Sebastião, tive a felicidade de ter na casa dos meus pais uma obra-prima em dois volumes monstruosos, daquela que as pessoas deixam na mesa da sala-de-estar como decoração mas nunca abrem pra ler: Geografia Histórica do Rio de Janeiro (1502 – 1700), de Maurício de Almeida Abreu, publicado em 2010.

Não tenho palavras para descrever o que foi a experiência de ler esse livro. Com base nele, simplesmente sou capaz de reproduzir rua por rua, esquina por esquina, o Rio de Janeiro do século XVII. Sou capaz até de dizer que vivi lá por algumas horas da minha vida. Sensacional é uma ofensa para a excelência alcançada pela obra. Valeu todos os aborrecimentos enfrentados nos últimos meses só por ter tido a motivação de encarar esses dois tomos!

Tendo uma obra tão magnífica para São Sebastião, senti que estava devendo para São Vicente. Afinal, era a terra dos bandeirantes! Então, nos estertores da pesquisa, descobri A Casa da Moeda de São Paulo – a primeira do Brasil e os meios de pagamento emitidos nessa cidade, de Alfredo e Fernanda Gallas, publicado em 2008. Além de ter como foco um período obscuro da história de São Paulo (sobre o qual falarei mais adiante) o livro tapa todos os buracos históricos que eu tinha em minha pesquisa sobre a Capitania de São Vicente.

Hora de tomar um fôlego antes de falar sobre a região mineira e a ocupação dos lusitanos no Sul.

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Capítulo 7

Inicialmente, a proposta da nova edição era antecipar a descoberta do ouro para 1675. Mas até qual momento? Optamos pelo limiar da Guerra dos Emboabas. Quando a data passou a ser 1699 (a guerra foi entre 1707 e 1709), tornou-se algo ainda mais raiz e de acordo com a cronologia histórica: o momento antes do big bang. O governador do Rio de Janeiro havia sido designado pela Coroa para ir até a região e se certificar da veracidade de todos os relatos que chegavam à Metrópole.

O desafio era mapear os arraiais já existentes no período. Nesse sentido, foi primorosa a contribuição o artigo Dilatação dos confins: caminhos, vilas e cidades na formação da Capitania de São Paulo (1532 – 1822), de Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, publicado nos Anais do Museu Paulista, v. 17, n. 2, em 2009, que me serviu de pontapé inicial. Dessa vez, um artigo me serviu de guia.

Pegar referências dessa mineração incipiente não era tão simples, pois a grandiosidade do século XVIII exercia uma força irresistível sobre qualquer relato. Então, nada de livros sobre Minas Gerais, Ouro Preto etc. o Melhor caminho foram os livros sobre bandeirantismo. E um artigo foi particularmente útil: Entradas e Bandeiras nas Minas dos Cataguases, de Maria Leônia Chaves de Resende, apresentado no XXIII Simpósio Nacional de História em Londrina.

Parte importante para o jogo era delimitar e descrever as formas de acesso à região, pois isso certamente era um desafio naqueles anos 1690, e certamente será ainda maior numa ambientação de fantasia.

A pesquisa me apresentou a fatos aos quais nunca havia dado muita importância: já havia sido descoberto ouro no Brasil, e um século antes. Cem anos antes de Ouro Preto, os paulistas já extraíam ouro de diversos pontos da capitania. Uma casa de fundição havia sido instalada em meados do século XVII em Iguape, litoral sul do atual Estado de São Paulo. Muito antes disso havia sido descoberto ouro em Paranaguá e, posteriormente, em Curitiba.

Fala-se muito pouco sobre esse ouro nos livros. Mas, para desenvolver um bom jogo, eu não podia deixar passar essa em branco. Mais uma vez me salvaram os artigos acadêmicos.

As controvertidas minas de São Paulo (1550-1650), de José Carlos Vilardaga, publicado na revista Varia Historia, vol. 29, nº 51, em 2013.

A Cartografia Primitiva da Baía de Paranaguá (Séculos XVI-XVII) e os Limites da América Portuguesa e A mineração aurífera na ocupação do planalto curitibano e litoral paranaense (séculos XVI-XVIII), de Jefferson de Lima Picanço e Maria José Mesquita, publicados respectivamente na Revista Brasileira de Cartografia n. 67/4, em 2015, e na revista Geosul, v. 27, n. 54, em 2012.

O Paraná na História da Mineração no Brasil do Século XVII, de Antonio Liccardo, Arnoldo Sobanski II e Nelson Luiz Chodur, publicado no Boletim Paranaense de Geociências n° 54, da UFPR, em 2004.

E foi nessa luta que cheguei ao já citado livro A Casa da Moeda de São Paulo, que fala sobre a controversa existência de moedas vicentinas cunhadas na capitania.

Esses textos também foram muito úteis na pesquisa da ocupação do litoral sul. As cidades de Paranaguá, São Francisco do Sul, Florianópolis e Laguna surgiram no período.

Reaproveitei também a pesquisa que já havia feito para o meu mini suplemento de Colônia do Sacramento. Para as relações entre Lusitanos e Castelhanos no Rio da Prata, foi inspiradora a leitura de O Comércio Português no Rio da Prata (1580-1640), de Alice Piffer Canabrava, publicado originalmente em 1842.

Para desafogar a minha carga de leitura, alguns tópicos ficaram a cargo do Ricon: pirataria, moedas, pesos e medidas, tipos de luta, armas e embarcações.

E havia chegado a hora de entrar na Igreja…

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Capítulo 8

Se hoje saúde e educação são questões problemáticas no Brasil, imagina no período colonial. Claro que esse não é um tema central para o jogo, mais são detalhes que dão mais densidade ao cenário. E não há como falar em saúde e educação na colônia sem falar nos Jesuítas.

Sobre saúde, tive a felicidade de encontrar os três artigos abaixo:

Doenças entre Indígenas do Brasil nos Séculos XVI e XVII, de Rosangela Baida, publicado na Revista História em Reflexão, vol. 5, n. 9, da Universidade Federal da Grande Dourados, em 2011. Esse artigo lista as doenças já existentes no continente quando os portugueses aqui chegaram, e as doenças epidêmicas trazidas por europeus e africanos. E ainda faz o favor de usar a terminologia da época!

Saúde e Doença no Brasil Colonial: Prática de cura e uso de plantas medicinais no Tratado Erário Mineral de Luís Gomes Ferreira (1735), de Isaac Facchini Badinelli, é um trabalho de conclusão do curso de História da UFSC, de 2014. Este trabalho analisa um livro escrito por um cirurgião-barbeiro que curava e minerava na região mineira. Só fui ter acesso ao original muito depois, mas o artigo já era suficientemente extenso e detalhado pra precisar consultá-lo. Apesar de se referir a experiências do início do século XVIII, pude tirar muito proveito do texto.

As práticas e os saberes médicos no Brasil Colonial (1677-1808), de Ana Carolina de Carvalho Viotti, é uma dissertação de mestrado em História, da Universidade Estadual Paulista, de 2012. Esse texto me deu a visão geral da prática da medicina da época.

Por fim, o livro que destrincha o papel dos Jesuítas na farmacologia colonial: As plantas brasileiras, os jesuítas e os indígenas do Brasil: história e ciência na Triaga Brasílica (séc. XVII-XVIII), de Fernando Santiago dos Santos, publicado pela Casa do Novo Autor em 2009.

A educação da colônia estava inteiramente na mão da Igreja. Sobre o tema, li o artigo O ensino jesuítico no período colonial brasileiro: algumas discussões, de Alexandre Shigunov Neto e Lizete Shizue Bomura Maciel, publicado na Educar n° 31 em 2008, revista da UFPR.

Já a pesquisa sobre a Igreja e as ordens religiosas foi dividida em duas frentes: sobre os Jesuítas e sobre as demais ordens presentes no Brasil do século XVIII.

Já em O Império do Sol vi o erro em ignorar a existência de outras ordens na ambientação, como se por aqui só houvesse os Jesuítas. Perde-se a possibilidade de elaborar tramas muito ricas. E, se fizesse apenas referências a essas ordens, os demais padres ficariam apenas como figurantes sem profundidade, assim como qualquer trama que os envolvesse.

Então, já na época, incluí Agostinianos, Dominicanos e Franciscanos. Dessa vez, fui mais a fundo e só deixei de fora a ordem dos Oratorianos. Agostinianos e Dominicanos não vieram ao Brasil na época, mas havia Franciscanos, Mercedários, Carmelitas e Beneditinos, pra não falar das subdivisões entre Carmelitas e Franciscanos, também incluídos na pesquisa. Pela primeira vez, decidi distinguir também os padres seculares e os padres conventuais.

Para isso, baseei-me principalmente na Internet, começando sempre no Wikipedia e terminando nos sites relativos às ordens. Também não faltou referência às irmandades, particularmente às irmandades dos homens pretos.

Para a estrutura administrativa e hierárquica da Igreja, além da Internet, foi útil o artigo Os Bispos do Brasil e a formação da sociedade colonial (1551-1706), de José Pedro Paiva, publicado no Texto de História, v. 14, n. 1/2, da Universidade de Coimbra, em 2006.

Como já havia feito o módulo As Missões para o blog, essa foi a minha linha mestra. O livro fundamental na ocasião foi Índios e Jesuítas no Tempo das Missões, de Maxime Haubert. Curioso que comprei esse livro antes mesmo da GSA fechar, aguardando o dia em que fosse escrever sobre o assunto.

Mas As Missões fala essencialmente das missões castelhanas. Já ali eu menciono as diferenças com as missões lusitanas. Para me aprofundar nisso (pois a diferença é relevante), a bibliografia foi a seguinte:

Antigos Aldeamentos Jesuíticos, organizado pelo filósofo e teólogo Gabriel Frade, que fala principalmente dos aldeamentos paulistas.

A Grande Aventura dos Jesuítas no Brasil, do jornalista Tiago Cordeiro, que narra a história da Companhia de Jesus através de seus principais expoentes, seguindo até o Papa Francisco. Na verdade, o “no Brasil” do título é enganoso, pois ele não se limita ao país. Assim, fiquei conhecendo detalhes também das missões no Oriente.

Instruções Secretas dos Jesuítas, de Charles Sauvestre, publicado na França em 1862. Esse texto ecoa outro publicado no início do século XVII, Monita Secreta. Trata-se de uma campanha ferrenha contra os Jesuítas devido ao retorno da ordem à França. Na mesma linha tem o Código dos Jesuítas, de Jules Michelet e Edgar Quinet, publicado também no século XIX. A julgar por estes textos, o nome da ordem deveria ser a Companhia de Lúcifer.

Estrutura e organização das Constituições dos Jesuítas (1539-1540), artigo de Cézar Arnaut e Flávio Massami Martins Ruckstadter, publicado na Acta Scientiarum, v. 24, n. 1, da Universidade Estadual de Maringá, em 2002.

Os Tesouros do Morro do Castelo: Ouro dos Jesuítas no Imaginário do Rio de Janeiro, de Carlos Kessel, publicado na Revista de História Regional, v. 2, nº 2, da Universidade Estadual de Ponta Grossa, em 1997. Uma interessante leitura complementar sobre o assunto certamente é O Subterrâneo do Morro do Castelo, de Lima Barreto.

Controvérsias sobre a pobreza: franciscanos e jesuítas e as estratégias de financiamento das missões no Brasil colonial, de Luiz Fernando Conde Sangenis, publicado em Estudos Históricos, vol. 27, n° 53, da UERJ, em 2014. Jesuítas e Franciscanos viviam às turras.

A disputa entre o Bispo franciscano de Assunção, Bernardino de Cárdenas, e as missões jesuíticas do rio da Prata é célebre. Sobre o tema, recomendo a leitura de Legenda Domino Tesorum Ourum, de Sérgio Conde de Albite Silva, e Jesuítas contra Franciscanos, religião e política na Revolução dos Comuneros do século XVII, artigo de Luís Alexandre Cerveira, publicado na Revista Brasileira de História das Religiões, da Universidade Estadual de Maringá, em 2013.

Muitas biografias sobre jesuítas famosos, escrito ainda na colônia, estão disponíveis nas bibliotecas virtuais já citadas. Por ser um jesuítas que viveu na época abordada, dei uma olhada na Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil, escrita por Padre Manoel da Fonseca em 1752.

Uma leitura que certamente há de ser interessante, mas que ficou de fora da pesquisa, é a Vida do Padre José de Anchieta, escrita pelo Padre Pedro Rodrigues em 1607.

Um que ficou de fora da bibliografia, mas que poderia servir a um eventual módulo nordestino, é o surpreendente Relação de uma missão no rio São Francisco, publicado em 1706 e escrito pelo Padre Martinho de Nantes em forma de diário.

Outra novidade em relação jogo original é a inclusão das Ordens Militares, ligadas à Igreja, como a famosa Ordem de Malta, da qual fazia Villegagnon. No Brasil, a principal era a Ordem de Cristo. Mas em Portugal também havia a Ordem de Santiago e a Ordem de Avis. A pesquisa foi feita basicamente por Internet e pelo artigo Em busca da honra: os pedidos de hábitos da Ordem de Cristo na Bahia e em Pernambuco, 1644-76, de Thiago Nascimento Krause, apresentado no XIII Encontro de História Anpuh-Rio, em 2008. Se você quiser travar contato com o que há de mais conspiratório em termos de história colonial, há o livro A Ordem de Cristo e o Brasil, de Tito Lívio Ferreira.

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Capítulo 9

A Inquisição ficou de fora do livro original porque não havia um Tribunal do Santo Ofício no Brasil. Na verdade, um bom pretexto para não avançar nessa discussão na ocasião. Certamente, num mundo onde a magia indubitavelmente existe, a Inquisição operaria de forma bastante diferente, inclusive em seus objetivos. Outra dificuldade é imaginar como alguém capaz de perpetrar tais horrores fosse também capaz de realizar encantos divinos: ou seja, milagres.

Só fui enfrentá-la em O Império do Sol, pois em Lima havia um Tribunal da Inquisição. Não é um malabarismo retórico fácil. Mas, num cenário onde Deus efetivamente existe e ateu não tem lugar, a hipocrisia também deve ser tratada em outro nível. Mas como abordar isso sem ser incoerente com a ambientação ou “passar pano”, tipo: a Inquisição só persegue aqueles que atuam junto às forças demoníacas?

De qualquer forma, no que diz respeito à pesquisa histórica, o foco foi a estrutura do Tribunal, sua hierarquia e funções, modo de operação, abrangência e ramificações políticas. Eu nunca tinha ouvido falar dos Familiares do Santo Ofício até fazer minha pesquisa sobre Colônia do Sacramento. Acredito que eles são as melhores fontes para as tramas, mais do que os padres inquisidores.

O pontapé inicial começou na pesquisa sobre os Ciganos. Vadios, Heréticos e Bruxas: os degredados portugueses no Brasil-Colônia é uma magistral tese de mestrado em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia, elaborada por Geraldo Pieroni em 1991.

O segundo passo foi encarar A Inquisição Portuguesa e a Sociedade Colonial, de Sonia A. Siqueira. A republicação da Fonte Editorial do original de 1978 foi uma das coisas mais toscas que eu já vi no mercado editorial, a ponto de tornar a leitura um desafio. Mas valeu a pena, pois há uma descrição bastante detalhada de toda a estrutura da inquisição portuguesa e a função de cada membro.

Em seguida, o óbvio O Diabo e a Terra de Santa Cruz, de Laura de Mello e Souza, que fez sucesso nos anos 80. Interessante observar que Laura ataca abertamente o livro de Sonia no texto.

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Capítulo 10

No que diz respeito ao livro original, sempre tive uma predileção pelos personagens indígenas. Mas eles tinham nomes de tribos fictícias e, ao contrário dos nomes dos povos do Velho Mundo, sequer eram nomes que remetiam aos povos nos quais se inspiravam (Tupis, Guaranis, Aimorés, Carijós etc.).

Ao falar sobre o resto do continente, chamamos os Incas de Illimanis. E, ao fazer O império do Sol, comecei a me perguntar se essa havia sido uma decisão acertada. Mesmo sendo uma terra fictícia como Westeros ou Terra Média, o paralelismo histórico (e até mesmo geográfico) era óbvio e escancarado. Então, em vez de preservar, não estaríamos ofendendo? Talvez não tanto ao mar, nem tanto a terra, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Realmente não sei dar uma resposta a isso, mas optei em passar a dar o nome certo aos bois.

E, assim, quando desenvolvi O Sul para o blog, desenvolvi 17 tribos distintas. Claro que, num trabalho assim, não dá para dar protagonismo a todas. Mas até para você fazer um NPC decente e crível, é necessária alguma informação. E desse trabalho anterior eu extraí o formato para essa pesquisa.

Os protagonistas de As Missões, os Guaranis, tem uma importância mais marginal no Desafio dos Bandeirantes, mas eles serviram de espelho para os Tupis, inclusive quanto à densidade. A própria pesquisa anteriormente feita sobre os Guaranis recebeu acréscimos.

Os Tupis certamente são os protagonistas entre os nativos da região dos bandeirantes, divididos entre os três subgrupos ali presentes: Tupiniquins, Tupinambás e Temiminós. Para eles, o pontapé inicial já havia sido dado muito antes, na leitura de O Rio antes do Rio, do jornalista esportivo Rafael Freitas da Silva; seguido pelo 1499 – O Brasil antes de Cabral, de Reinaldo José Lopes, editor de Ciências da Folha de São Paulo; e o romance de Alberto Mussa, A Primeira História do Mundo.

Contribuiu também a leitura dos livros A Religião dos Tupinambás e suas relações com a das demais tribus Tupi-Guaranis, de Alfred Métraux, publicado originalmente na França em 1928; e Tratados da Terra e Gente do Brasil, do padre jesuíta Fernão Cardim, escrito entre 1583 e 1606. E também o ótimo artigo A Terra Sem Mal, o Paraíso Tupi-Guarani, de Eduardo de Almeida Navarro, publicado na Revista de Cultura Vozes nº 2, em 1995.

Assim como em O Sul, não seria possível dar protagonismo a todas as tribos da região, ou sequer retratá-las todas. Mais difícil ainda foi dar a cada uma o mesmo grau de profundidade. Impossível, na verdade. Ainda mais considerando que o foco é retratar a tribo como ela seria no século XVII.

Outro problema foi a denominação, pois muitos nomes eram dados pelos colonos ou eram nomes pejorativos dados pela tribo rival. Sempre tentei evita-los, quando possível.

Tive de garimpar muito pela Internet para achar informações sobre as tribos, e até mesmo saber qual tribo vivia onde na época. Muito me auxiliaram os sites dos Povos Indígenas no Brasil, da Comissão Pró-Índio de São Paulo, e Instituto Antropos.

Os Cainguangues deram uma particular dor de cabeça. O nome atualmente adotado foi cunhado por um fazendeiro paranaense (no século XIX, salvo engano). Sobre eles pude recorrer diretamente ao Portal Kaingang.

Também complicado foi ocupar a região dos Campos dos Cataguazes. Até mesmo a existência dos índios Cataguazes não é muito certa. Para isso, foi muito útil o artigo Indígenas na historiografia mineira: estudo de caso, apresentado por Renata Silva Fernandes no XX Encontro Regional de História: História e Liberdade, em 2010.

Se para os Cataguazes eu pude contar com um pouco de liberdade, para os Xacriabás e Maxacalis, demorou mas achei os seguintes artigos:

O Yãmiyxop como forma de conhecimento: formas do imaginário Maxakali, publicado por Rodrigo Barbosa Ribeiro na Avá – Revista de Antropologia, n. 19, da Universidad Nacional de Misiones, em 2011.

Metamorfose na Literatura Maxacali, publicado por Charles Bicalho na Em Tese, v. 19, n. 3, da UFMG, em 2013.

A produção do espaço no território Xacriabá: aldeias Imbaúbas e Caatinguinha, dissertação em 2014 da Escola de Arquitetura da UFMG, escrita por Déborah Cimini Cancela Sanches.

Os Maxacalis revelaram ter um mundo espiritual bastante rico, e para melhor entendê-lo seria necessária uma pesquisa mais aprofundada. Pra piorar, os nomes dos espíritos são impronunciáveis sem um conhecimento e sua língua, gerando dúvidas se seria sensato usá-los dessa forma ou não.

Dois importantes rivais dos Tupis, os Goytacazes e os Aimorés, foram construídos por pesquisa virtual. E adotei a interpretação do Mussa que os Puris e os Coropós são parentes dos Goytacazes. E alguma ligação é sugerida com os Acritós, que entram como mais uma das tribos, conforme a fórmula adotada em O Vale dos Acritós.

Sobre os Puris, em particular, encontrei o artigo Os ìndios Puris do Vale do Vale da Paraíba Paulista e Fluminense, apresentado pelo Coronel Cláudio Moreira Bento no XII Simpósio de História do Vale do Paraíba, em 1995.

Por fim, como a ambientação chegava à Colônia do Sacramento, tive de reaproveitar os Charruas de O Sul. Mas dessa vez pude contar com um reforço de peso, um livro comprado em Montevideo: Nuestro Pasado Indígena, de Fernando Klein.

Chamar o líder espiritual da tribo de Pajé até faz sentido quando estamos no Brasil. Do outro lado da fronteira, não faz sentido algum. Pajé é para Tupis e Guaranis (e mesmo entre estes, há controvérsias). Então busquei o nome específico para cada tribo. Quando não consegui, usei o nome genérico, Xamã. Ainda que, bem sabemos, a origem do termo é longínqua, esse é o termo oficialmente utilizado pelos antropólogos e profissionais do ramo.

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Capítulo 11

Por fim, a cereja do bolo: os mitos e lendas. Acredito que a parte de magia e as criaturas sejam os elementos mais chamativos da ambientação.

No livro original, a nossa bíblia foi o Dicionário de Mitologia de Hernâni Donato, publicado em 1973, que faz um apanhado meio aleatório da mitologia de determinados povos africanos e das três Américas, indo da Terra do Fogo aos Esquimós. O livro era do Carlos Klimick, e consegui adquirir um volume via Estante Virtual.

Como ele é pouco conhecido, alguém passou a dizer que inventamos o Kanaíma. Na verdade, trata-se de uma lenda interessantíssima da Venezuela e Guianas que simplificamos para o jogo. Algumas de fato inventamos.

Touro Negro foi 100% criação nossa. Mas, pesquisando sobre mitos da América Espanhola, descobri uma lenda muito similar. Então nos safamos.

Escorpião Gigante foi uma criatura usada de improviso em um playteste. Como gostamos do resultado, incorporamos.

Cão da Meia-Noite é uma lenda que existe, mas não tem nada a ver com o que está no jogo e sequer é interessante. Já o nome é bem sugestivo, e o usamos para incrementar o rol de criaturas demoníacos.

Ahor existe, é o Ahó-Ahó. Como na época vivíamos preocupados com o preconceito com o qual o jogo poderia ser recebido, acabamos nós mesmos sendo vítimas de uma auto censura. Assim, jogamos um raio gourmetizador na lenda e a rebatizamos de Ahor.

Marajigoana e Jurupari são duas criaturas do livro que nada refletem suas lendas originais. Baseadas em uma e outra frase solta que serviu de inspiração para montar uma essas criaturas. Como a criatura nomeada de Jurupari ficou muito maneira, penei para achar um outro nome que tivesse algum sentido dentro da cultura indígena. Mas achei!

Dessa vez, recorri mais ao Câmara Cascudo: o excelente Geografia dos Mitos Brasileiros, o meu livro favorito sobre o tema, que devorei para fazer o suplemento Lendas, para Era do Caos; e o Dicionário do Folclore Brasileiro, um tijolo considerável, que me lembro de ter consultado na biblioteca da PUC nos anos 90, mas não lembro para qual trabalho.

Também lancei mão da minha bíblia usada em O Sul: Seres Mitológicos Argentinos, de Adolfo Colombres. Muitos mitos da região do Prata são também citados em livros do folclore brasileiro, ou com outro nome ou com uma descrição alternativa.

No livro original, não houve muita preocupação sobre a origem cultural e territorial das lendas. Afinal, não se tratava do Brasil. Então na região dos bandeirantes havia lendas da Amazônia, do Nordeste, do Rio da Prata, indiscriminadamente. Só evitamos as regiões mais diferentes, como Patagônia, Chile, Andes. Dessa vez, a orientação foi para sermos mais regionais.

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Capítulo 12

Quando só faltava entregar a parte de mitos e lendas, o Ricon me disse que pretendia pegar todo o meu material e reescrevê-lo, a fim de dar uma homogeneidade ao texto. Até aí, tudo tranquilo, pois esse era um trabalho que precisava mesmo ser feito em algum momento, pois cada parte foi escrita em épocas diferentes, e algumas estão mais atreladas à pesquisa histórica do que convinha ao jogo. Achei o momento prematuro, mas entendi (ou achei ter entendido) a necessidade da pressa. Mas não supunha o que viria a acontecer, ou melhor, o que já estava acontecendo sem eu saber.

Por mais de nove meses, tivemos reuniões quinzenais que, no meio do ano, passaram a ser semanais, com o início do trabalho nas novas regras. Então um integrante importante do grupo de trabalhos saiu e, de repente, não havia mais reuniões. Ou melhor, as poucas que havia eu não era comunicado, chamado, ou sequer era inteirado do que havia ocorrido. Fossem reuniões com parceiros de trabalho ou com o pessoal da New Order, que eu havia manifestado questão de conhecer melhor e trocar ideias. O meu único contato com a New Order ocorreu no evento comemorativo dos 25 anos do livro, em dezembro de 2017, quando eu nem era parte do projeto, mas fui cumprimentado pelo Anésio e pelo Manjuba como se fosse. Viria a ser, mas ainda não era. Senti-me ligeiramente constrangido por isso.

Fiquei bastante chateado com essa atitude do Ricon. Meu amigo Daniel Og, que trabalhou comigo na Akritó, foi chamado pra fazer a “concept art” e eu nem fiquei sabendo. Soube porque ele se esbarrou por acaso com a minha esposa no CCBB. Aliás, não sabia sequer que já estava sendo feita arte para o livro. Aquela coisa que todo mundo quer ver, imagina então quem participa do projeto, né?

Playteste? Tampouco! Fiquei sabendo que estava rolando pelas redes sociais. E, ainda assim, fiquei na minha.

Foi nesse clima que comecei meu diário. O tom era mesmo de despedida, pois, em um climão desses, não vislumbrava meu futuro trabalhando com o Ricon na franquia, mesmo que isso significasse nunca publicar oficialmente meu material do “Império do Sol” e “O Sul”. Esse tipo de conduta não dá a menor segurança de nada. Aceitei a contragosto o fato de ser rebaixado de autor para pesquisador por meu “parceiro” de trabalho.

Mas, quando estava no meio desse diário, o caldo entornou de vez quando soube que o Ricon estava dando a entender às pessoas que a minha ausência se devia a uma vontade minha, que eu teria me afastado supostamente por ter encrencado com as novas regras (oi?). E, pior, segundo o Ricon, por ele não havia nenhum problema, que ele estava “de boa”.

Aí eu resolvi me incomodar. E pude apurar, com dificuldade, que a ideia era essa mesma: manter-me afastado de todo o projeto até o fechamento do texto e das regras. Que ele ia escrever do jeito dele, da forma que ele achasse melhor, mais adequado ao mercado (seja lá o que ele quis dizer com isso). Que, ou eu confiava nele e aceitava a situação, ou não aceitava e paciência. As coisas iam ser desse jeito porque ele assim havia decidido e ponto final.

Não vou ficar me perdendo em detalhes, que seriam pouco esclarecedores. Com certeza cada um de nós tem sua versão, e, ao ouvir uma, a pessoa pensará ter escutado a história de King Kong. Ao escutar a outra, terá a impressão de tratar-se de Jurassic Park. Em comum, apenas o fato de se passar numa ilha, envolver criaturas gigantescas e pessoas sonhadoras e ambiciosas.

O que me interessa nessa história toda é entender o que faz uma pessoa, em um trabalho em equipe, arvorar-se no direito de fazer e decidir tudo sozinha, sem consultar ou mesmo compartilhar o que está sendo feito. Mesmo havendo diferenças, seja quanto à condução dos trabalhos ou na parte criativa, o que faz um lado se julgar dono de tudo e alijar a outra de todo o processo?

A única explicação plausível que eu encontrei é o fato do Ricon, em agosto de 2014, sem avisar a mim ou ao Klimick, ter registrado a marca “O Desafio dos Bandeirantes” em nome dele, utilizando a arte da Eliane Bettocchi, dando-lhe uma sensação de segurança sobre qualquer projeto futuro. Ele só “lembrou” de nos contar isso no ano passado, dando a entender que tudo havia sido feito recentemente, em 2017. E a justificativa para não ter nos avisado já seria pouco aceitável se vivêssemos numa época em que, para falar com outra pessoa, era preciso esperar mais de uma hora na linha para que a telefonista completasse a ligação. Sendo uma realidade com celular, facebook, whatsapp, sinceramente…

Analisando retrospectivamente, o Ricon sempre agiu se sentindo como detentor da marca. O perfil de “O Desafio dos Bandeirantes” no Facebook é dele, e só dele. E ele o usa como se fosse uma página oficial.

Desde que eu coloquei o meu blog no ar, senti falta de um veículo apropriado para divulgar seu conteúdo e atualizações, mas tive o pudor de não fazer uma página no Facebook com medo que fosse tomado como oficial. Por isso sempre falo “meu” blog, “minhas” regras, “meu” material. Não se trata de arroubo narcisista, mas para deixar claro que não se trata de material oficial. Nem mesmo quando se trata de “O Império do Sol”, que recebeu autorização dos outros autores para ser escrito.

O fato é que, desde o fim da GSA, em meados dos anos 90, o Ricon embarreirou qualquer tentativa de retorno do jogo.

Na época da Akritó Editora, a Eliane Bettocchi, o Carlos Klimick e eu tivemos a ideia de fazer uma nova edição de “O Desafio dos Bandeirantes” com uma abordagem mais histórica e utilizando o sistema de “Era do Caos”. O Ricon vetou o projeto, temendo que isso lhe trouxesse complicações na Devir, onde ele trabalhava (ele encrencou até com o nome da editora, reclamando que a gente devia tê-lo consultado, pois isso poderia prejudicá-lo na Devir). Ficamos tristes e frustrados, mas acatamos o veto, pois o acordo sempre foi “quando um não quer, dois não publicam”.

Esse projeto natimorto, a Eliane e o Klimick desenvolveram e virou “Brasil Barroco, um jogo de Luz e Sombras”, fazendo parte do projeto deles chamado “Incorporais”.

Enfim, “O Desafio dos Bandeirantes” sempre foi uma obra de três pessoas, e nada seria feito oficialmente sem o aval dos três. E, assim, poucos anos depois, o Ricon nos procurou para o projeto “Desafio d20”, que envolvia até autores do Tagmar. Não nos interessamos, mas demos nossa benção. O projeto não engrenou por razões que eu desconheço (ou saiba mais de uma versão, o que dá no mesmo).

Em 2013, Filipe Cunha, do Pensamento Coletivo, me procurou perguntando sobre a possibilidade de relançarmos “O Desafio dos Bandeirantes”. Antes de responder qualquer coisa, claro, repassei para os outros dois autores. O Ricon imediatamente brecou, orientando: “diz pro cara que estamos pensando em reeditar mas que não tomamos a decisão ainda sobre a melhor forma de fazer isso. Agradece o interesse.” Ricon nos disse que vinha recebendo diversas propostas do tipo, mas que ele e a esposa, Maya, estavam pensando num projeto nesse sentido. Chegamos os três a trocar algumas ideias, ficar de nos reunirmos, mas o assunto morreu aí.

No final de 2014, dois eventos simultâneos. Primeiro, o João Pedro Torres me mandou um e-mail pra falar do seu “Sertão Bravio”, pedindo autorização para incorporar elementos de “O Desafio dos Bandeirantes” no jogo. Eu e o Klimick achamos legal, mas o Ricon mais uma vez foi a voz discordante, temendo que isso pudesse nos atrapalhar no futuro.

Nessa discussão, o Klimick contou que foi abordado pelo Anésio sobre a possibilidade de uma edição de luxo de “O Desafio dos Bandeirantes”. E o Ricon, da mesma forma que em 2013, disse que estava trabalhando numa ideia com a esposa, que havia outros parceiros possíveis, como a Retropunk, e deu a resposta padrão dele. Mais uma vez, trocamos algumas ideias, ficamos de nos encontrar… e o assunto morreu. Mais uma oportunidade perdida. Detalhe: na época, ele já tinha feito o registro da marca em nome dele e não nos contou.

Claro que não havia da minha parte e do Klimick nenhum interessante de continuar as tratativas sabendo que o Ricon não toparia. Afinal, “quando um não quer, dois não publicam”.

Em março de 2017, foi a vez da Retropunk nos procurar (uma segunda vez, salvo engano), e mais uma vez o Ricon interviu, dizendo que estava em tratativas com a New Order. Detalhe: no início do mesmo mês, ele havia pagado o primeiro decênio do registro da marca.

Em agosto, o Anésio voltou a procurar o Klimick, e o Ricon mais uma vez pediu pra gente segurar. Então falou da ideia de lançar o livro com regras do D&D 5ª edição, à qual não nos opusemos.

Como eu vinha embalado com o trabalho de “O Sul”, publicado no blog no 2° semestre de 2016, e em meados de 2017 começava a esboçar um suplemento para São Sebastião, pois queria dar à região dos Bandeirantes a mesma qualidade de pesquisa que eu dera às outras regiões, comentei com o Ricon o quanto eu queria trabalhar na ambientação da nova versão.

Em novembro, fomos surpreendidos com tudo já acertado com a New Order, sem nos consultar previamente e sem a nossa participação. Ou seja, poderíamos ter acertado com a New Order no início de 2015, e agora ele dizia que isso ocorria “graças aos seus contatos e tratativas”…

Por cinco anos declinamos de todos os convites porque o Ricon sempre tinha um plano mais ambicioso, e respeitamos a vontade dele. Ele só aparecia para falar desse plano o suficiente para travar qualquer negociação com uma editora que nos houvesse procurado diretamente, e depois sumia (fiquei sabendo esse ano que a AVEC também o procurou e ele recusou a proposta sem nos consultar). E tudo isso para, no final, ser tudo planejado sem a gente.

Enfim, acabei entrando no projeto no final de 2017, sendo necessária até uma espécie de “entrevista de emprego”. Esse início serve como pista para o fim que teve isso tudo.

Eu não tenho pretensão de saber qual é a melhor estratégia para uma nova edição do Bandeirantes, pois não tenho bola de cristal. Mas eu sei o que é “O Desafio dos Bandeirantes”.

O Bandeirantes, para mim, sempre significou o prazer de fazer, de trabalhar com esse tema (creio que para mim e para todos que se sentem ligados ao jogo de alguma forma). E, mais do que tudo, a amizade entre três amigos de escola. Sem esses elementos, é um texto feito para um blog ou mais um genérico na prateleira. Pouco me importa se minha pesquisa está sendo usada, se minhas ideias serão aproveitadas ou não, ou se vou deixar de ganhar dinheiro em um site caça-níquel. Não é isso o que me importa. Bandeirantes não é jogo de intriga, de conspiração ou de facada nas costas. Isso é outro jogo, do tipo que eu não curto.

O Ricon é um cara muito inteligente (ninguém faz o que ele fez sem sê-lo) e muito capaz. Ao lado dele, nas regras, está trabalhando o Arthur Werneck, indicado por mim, um fã do jogo. Não tenho duvidas de que a New Order terá um bom livro nas mãos. Mas não será “O Desafio dos Bandeirantes”.

“O Desafio dos Bandeirantes está voltando…” pra mim soa como propaganda enganosa. Sei que para o público não fará diferença (ninguém quer saber como são feitas as salsichas), mas não gostaria que o livro fosse publicado dessa forma, quebrando um acordo de mais de 20 anos: “quando um não quer, dois não publicam”. Infelizmente, compromisso ético não é para todos. Melhor teria sido deixar o livro quieto em 1992, a forma mais digna de preservar esse marco do RPG nacional.

Anexo 1 – O Império do Sol

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Muitas coisas poderiam ter sido feitos na esteira do livro básico de O Desafio dos Bandeirantes: livro de aventuras, módulo de expansão, suplementos à ambientação. E, de tantas opções para expansão, por que eu fui escolher O Império do Sol?

Certamente, não foi por fins comerciais. Essa é uma falha minha. Não consigo fazer nada inspirado por interesses comerciais. Nem mesmo amizade. Se fico amigo de alguém que pode me abrir portas, para mim é como se uma porta se fechasse.

Quando eu era criança, ganhei da minha mãe uma enciclopédia juvenil. Em um dos volumes, havia uma foto de duas páginas de Machu Picchu. Aquela foto me deixou chapado, e jurei que um dia ia conhecer aquele lugar. Depois meus pais compraram uma nova edição da coleção histórica da Life, e nela havia um volume sobre Civilizações Pré-Colombianas, o que fez eu me inteirar mais sobre o tema. E não preciso dizer que minha revista predileta do Tintim na época era O Templo do Sol.

Enfim, levei 30 anos para conhecer Machu Picchu ao vivo e a cores, mas posso dizer que, uns 13 anos antes, conheci-a muito bem à distância, antes da Internet e dos Google Maps da vida. Ao chegar nas ruínas, tinha uma boa noção para onde ir.

Tudo aconteceu no primeiro semestre de 1994. Nem sei se cheguei a buscar alguma coisa em biblioteca ou quem me sugeriu buscar o consulado do Peru, que fica na avenida Rui Barbosa, no bairro do Flamengo, em um apartamento de andar inteiro. Inicialmente fui atendido com frieza. A secretária me mostrou um quartinho logo ao lado da entrada, que devia ser a antiga chapelaria do apartamento. Estreito, sem janelas (no máximo um basculante alto para o hall) e nem muito profundo. Havia estantes tomando as duas paredes laterais, e, ao fundo, uma mesinha e uma cadeira. Fiquei horas ali folheando todos os livros e analisando minhas possibilidades. Tive certeza que, com aquele material, meu livro estava garantido. Só tinha um problema: nenhum livro poderia ser tirado de lá.

Do segundo dia em diante, o tratamento passou a ser outro. Passei a ser recebido com sorrisos e regalias crescentes. Minha rotina era pegar carona com meu pai, que me deixava por ali por volta das 11 da manhã. E saía, inicialmente, no final da tarde. Posteriormente, tarde da noite. Chegou ao ponto do Vice-Cônsul se despedir de mim, me deixando sozinho com a copeira, uma negra peruana chamada Tereza, que ficava fazendo a limpeza. Então ela vinha me servir misto quente e Coca-Cola. E eu, que não queria deixar uma migalha sequer na minibiblioteca, não levava sequer um biscoito. Minha única refeição era uma barrinha de chocolate branco que ia consumindo ao longo do dia com muita parcimônia, deixando derreter na boca. E era branco pra não correr o risco de borrar algum livro. Isso durou de três a quatro meses.

Abaixo a lista do material consultado in loco:

Artesanatos, transaciones, monedas y formas de pago en el mundo andino: siglos XV y XVI – Tomo I, do etno-historiador Waldemar Espinoza Soriano. Esse livro me deu informações sobre toda a estrutura financeira do Vice-Reino.

Documental del Perú – Enciclopedia Nacional Básica. 25 volumes. Cada volume era um livreto sobre um departamento peruano (o equivalente ao nosso estado). Incluía detalhes sobre cultura, geografia, história e lendas. Só estava faltando um volume, já não me lembro de qual departamento.

El mundo andino en la época del descubrimiento, elaborado pela Comissão Nacional Peruana do V Centenário do descobrimento.

Gran Geografia del Perú – Naturaleza y Hombre. Trata-se de uma obra em três volumes. Utilizei o Volume 1, Geografia física / Geologia, e o Volume 3, Fauna, de onde eu pude extrair todas as informações possíveis sobre a fauna peruana e sua distribuição territorial, bem como sobre os diversos ecossistemas do país, que é bem diversificado.

Historia del Tahuantinsuyo, da renomada historiadora Maria Rostworowski de Diez Canseco. Uma grande fonte sobre a época incaica.

Tradiciones Peruanas Volumes 1 e 10, e Tradiciones Peruanas (Selección), do escritor e político Ricardo Palma. Essa é uma obra clássica, de contos históricos. Comprei o original muitos e muitos anos depois.

Teatro Quechua Colonial – Antologia, uma compilação da dramaturgia quéchua na época colonial.

Pequeña Antologia de Lima (1535 – 1935), do historiador, diplomata e senador Raúl Porras Barrenechea, publicada em 1935. Trata-se de uma compilação de ensaios, crônicas e tradições limenhas publicadas ao longo de quatro séculos.

Por fim, os volumes 1 e 2 de Historia general de los peruanos (11ª edição), que balizou historicamente toda a minha pesquisa.

O primeiro volume era El Perú Antiguo, escrito pelo antropólogo, arqueólogo e historiador Federico Kauffmann Doig. O segundo volume, El Perú Virreinal, foi escrito por Raúl Porras Barrenechea (já devidamente apresentado), pelo historiador e sacerdote jesuíta Rubén Vargas Ugarte, e pelos historiadores Luís A. Pardo, Enrique Docafe e J. M. Valega.

Pois bem, na época não tinha tablet, notebook, nenhuma dessas facilidades. Era tudo anotado em caderno mesmo. Certa noite, estiquei do consulado direto pro Baixo Gávea. Carregava comigo uma pasta azul com meu caderno de anotações, uma agenda com um marcador de livros do Spock, que o Klimick havia me dado de presente, e um rolo de papel higiênico para “eventualidades” (item necessário para quem mora em Jacarepaguá e passa o dia inteiro fora de casa).

Pois bem… Àquela altura eu já havia devorado todos os dois volumes da Historia general de los peruanos e já estava em outras publicações. Provavelmente já com um mês de pesquisas nas costas. Estava sentado com amigos em um daqueles bancos do BG. Saímos andando e, a certa altura, dei falta da pasta. Voltei correndo, mas a pasta não estava mais lá. Desespero!

Quando voltei ao consulado, contei a minha história triste e eles ficaram penalizados, a ponto de liberarem os dois volumes da Historia general de los peruanos para eu tirar xerox. Não me lembro quanto tempo se passou (no mínimo duas semanas) para alguém entrar em contato dizendo que havia encontrado minha pasta. Ela morava na Gávea mesmo, rua Major Rubens Vaz. Justificou a demora por ter viajado logo depois de ter encontrado a pasta.

Provavelmente alguém a afanou pra procurar algo de útil e a deixou largada em outro banco. Mas a razão dos dois itens faltantes permanece um mistério: o marcador do Spock e o papel higiênico.

Enfim, terminei a pesquisa e me despedi emocionado do pessoal do consulado. Finalizei o trabalho com o material que tinha em casa, compilei tudo como um “Dossiê Peru” e imprimi duas cópias para, junto com os outros autores de O Desafio dos Bandeirantes, transformá-lo em um módulo do jogo. Para minha frustração, nenhum deles se interessou. Então tive de me virar sozinho. Coisa que nunca havia feito ou gostado. E continuo sem gostar.

Terminado o trabalho, imprimi, de novo, duas cópias para os dois, aguardando algum retorno crítico, sugestão de mudança etc. Nada. Nenhum feedback. Só me restou, então, entregar pra GSA do jeito que estava, no aguardo de alguma orientação editorial. A resposta da editora foi no sentido de que o material parecia ser um novo livro-básico, e que eles haviam decidido não publicar mais nenhum jogo novo, que Millenia seria o último.

Assim, todo esse material serviu apenas para apimentar minha campanha de sete anos de Bandeirantes. Quando terminei minha campanha (inacabada), por volta de 2001, nunca mais mestrei. Até que, em fins de 2007, a minha esposa me convenceu a montar um grupo pra apresentar RPG a uma amiga minha do trabalho, cujo irmão jogava quando garoto, mas sempre a deixava de fora.

Com esse retorno ao jogo, me empolguei e decidi disponibilizar todo o material de O Império do Sol em um blog, junto com todas as alterações nas regras que eu havia feito ao longo de todos esses anos. Algumas, inclusive, para serem publicadas em O Império do Sol, e que foram divulgadas em 94/95 no site do Emerson Costa, um antigo entusiasta paraense do Bandeirantes.

O que eu fiz para essa nova edição de O Desafio dos Bandeirantes pode ser mais do mesmo na vida de um acadêmico, mas pra mim foi uma conquista. Ainda mais considerando que eu tenho de dar conta de um trabalho regular e ter casa e família pra cuidar. Pra não falar que a idade já não me permite mais varar noites insones (para cumprir um deadline na época da Akritó, trabalhei direto de quarta a sexta-feira, só parando para comer e ir ao banheiro). Eu realmente não me sentia capaz de fazer o que eu fiz. E nem me dei conta do que eu estava fazendo. Isso teve um impacto positivo na minha vida. Afinal, sempre me considerei um leitor lento e preguiçoso, excessivamente distraído.

E o que mais me surpreendeu foi que, por um momento, eu cheguei a acreditar que havia sido a primeira vez que tivesse feito algo do gênero. Mas, não. Foi naquele semestre de 1994, no Flamengo, naquele quartinho do Consulado Geral do Peru. Por que, então, em todos esses anos, eu não fui capaz de perceber aquele período da mesma forma, como uma conquista? Talvez a indiferença e a não publicação do material me tivessem feito vivenciar tudo como um fracasso. E, ainda que posteriormente tivesse me reconciliado com esse passado, sequer cogitei em tirar disso alguma lição de vida ou incentivo.

Anexo 2 – O Sul

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Por volta de 2015/2016, quando vi que algumas pessoas tinham se dado ao trabalho de organizar o material de O Império do Sol para pdf, tive a ideia de continuar o trabalho. Meu sonho, desde o início, lá em 1992, era completar todas as regiões da Terra de Santa Cruz descritas no livro básico, e, quem sabe, partir para o Continente Negro. Mas essa ideia de avançar não veio assim do nada.

Eu tinha aquele ótimo livro sobre as Missões mofando na estante. Havia, de impulso, comprado um livro sobre mitologia argentina em uma das minhas viagens a Montevideo (a família da minha esposa é de lá). Por fim, na minha campanha dos anos 90, eu havia pesquisado lendas da Patagônia para um trecho dela. Percebi que já tinha material para alguma coisa.

Logo me dei conta que toda aquela região – Chile, Bolívia, Argentina e Paraguai – era indissociável, e acabei abarcando tudo. Mas como não havia, dessa vez, nenhuma expectativa de publicação, a pesquisa foi menos rigorosa e quase toda feita por Internet.

De material específico, encontrei em pdf:

Los Aónikenk – Historia y Cultura, de Mateo Martinic, publicado em Punta Arenas.

Los Brujos de Chiloé. Célebre Proceso del Juzgado de Ancud. Declaraciones e los reos é o registro histórico de um julgamento ocorrido em 1880, publicado em Santiago do Chile em 1908.

Los Chono y los Veliche de Chiloé, investigação histórico-etnográfica realizada pelos professores Renato Cárdenas, Dante Montiel Vera e Catherine Grace Hall, publicada em Santiago do Chile. O estudo analisa os povos de Chiloé e demais ilhas da região.

El Mundo Espiritual de los Selk’nam – Volumen 1, publicado originalmente em Viena, em 1931, foi escrito por Martin Gusinde, padre austríaco e etnologista. Seu trabalho destrincha a cultura dos nativos da Terra do Fogo.

Os Chiquitano de Mato Grosso: estudo das classificações sociais em um grupo indígena da fronteira Brasil-Bolívia, artigo de Renata Bortoletto Silva, da USP. Os Chiquitanos são protagonistas da maior experiência missionária depois das missões do Sul. E foram as únicas que se mantiveram prósperas após as expulsões dos Jesuítas.

Também foram bastante úteis os sites Diccionario de Historia Cultural de la Iglesia en América Latina, Voces de la Tierra e Tempo Ameríndio, além do que já foi mencionado sobre os Guaranis e as Missões.

Às vezes me perguntam por que eu não publico todo esse material, por que não faço print on demand… Talvez eu faça um dia. Quem sabe quando eu terminar toooooda a Terra de Santa Cruz. Por enquanto, encaro tudo isso como um trabalho eternamente em andamento. E sem fins lucrativos.

Além do mais, toda vez que penso em tentar ganhar algum dinheiro com isso, mais atrapalha do que ajuda. Por mim, qualquer publicação ou iniciativa relacionada a O Desafio dos Bandeirantes poderia ter sua renda revertida a alguma causa nobre confiável. Sinceramente, trabalharia (e pesquisaria) feliz assim, pois, para mim O Desafio dos Bandeirantes sempre teve a ver com o prazer de fazer.

Quando o dinheiro entra em campo, as pessoas começam a se tornar mesquinhas, preocupadas em agradar, pensando no que “o mercado está pedindo”. Creio que um trabalho que mira o público, o mercado, tende a ficar datado. Não creio que, se o livro de 1992 tivesse sido escrito com essas preocupações, ele teria virado um cult. Aliás, nem teria sido sobre folclore brasileiro.

Na proposta imaginada para o financiamento coletivo dessa edição de 25 anos, a ideia era alternar um relançamento com um material novo. Ou seja, alternadamente com O Império do Sol, O Sul e As Missões, viriam um novo Quilombos da Lua e um novo Vale dos Acritós, levando também em consideração a passagem do tempo. Haveria também uma nova versão para A Floresta do Medo / O Engenho. E as ideias não param por aí: “O Desafio do Sertão”, “A Grande Floresta”, vilas, piratas etc.

Published in: on 2 de fevereiro de 2019 at 2:32  Comments (2)