BANTO

No Continente Negro, os Banto formam uma etnia composta por 400 subgrupos étnicos. Entretanto, no que diz respeito à língua, o Bantu, eles apresentam uma forte unidade cultural.

Os Lusitanos aportaram em duas áreas dominadas pelos Banto, uma na costa oeste e outra na costa leste. Nesta última, em Mosambik, além do obstáculo da distância, o domínio sobre ela ainda é muito precário, pois a região é disputada com os Árabes, que chegaram naquela costa séculos antes. Então o povo de lá ainda não foi incluído no comércio de escravos.

Na costa oeste, o primeiro reino com o qual os Lusitanos travaram contato foi o Reino do Kongo. Seu rei, impressionado com o poderio militar dos Lusitanos, decidiu adotar voluntariamente o Cristianismo como religião oficial do reino, requisitando à Coroa o envio de missionários.

Após a emancipação do Reino Ndongo, que fazia parte do Kongo, os Lusitanos conseguiram travar uma boa relação com a aristocracia local e fundaram São Paulo da Assunção de Loanda, em uma região que formava um excelente porto natural. Após ser tomada pelos Neerlandeses na época da invasão de Olinda, forças coloniais comandadas pelo Visconde de Asseca recuperaram Loanda para os Lusitanos em 1648. Com isso, a colônia passou a comercializar diretamente com o Reino Ndongo, dando um novo impulso ao fluxo de escravos da região.

Os Banto são a grande maioria dos negros na colônia. Nas capitanias de São Sebastião e de Cabo Frio chegam a compor mais de 90% do total, incluindo seus descendentes nascidos em Santa Cruz. A religião principal dos Banto trazidos para a colônia lusitana é o Calundu.

O MUNDO ESPIRITUAL

Todos os povos que compartilham a cosmovisão banta acreditam em um deus único, supremo e criador, cujo nome varia, pois eles ocupam uma imensa extensão territorial. Segundo essa crença geral, após a criação do mundo, esse ser supremo se distanciou dele, entregando sua administração a seus filhos divinizados.

Os Banto creem em uma divisão entre o mundo invisível e o mundo visível. No mundo invisível, acima de tudo está Nzambi Mpungu. Ele reina sobre o universo e sobre os homens de modo distante, porém benéfico.

O culto a Nzambi não tem forma nem altar próprio. O altar de Nzambi é a sua própria essência, o próprio universo. Em cada local ele se faz presente e está ciente de tudo o que se passa. Assim, em qualquer lugar é possível cultuá-lo. Só em situações extremas ele é invocado.

Nzambi não tem representação física, pois os Banto o concebem como o incriado. Representá-lo seria um sacrilégio, uma vez que ele não tem forma. No final de todo ritual, Nzambi é louvado, pois Nzambi é o princípio e o fim de tudo.

Abaixo de Nzambi estão os Minkisi, plural de Nkisi. Os Minkisi são divindades criadas pelo ser supremo. Eles governam a terra e garantem o seu equilíbrio. Os Minkisi são os intermediários entre Nzambi e os homens.

Abaixo dos Minkisi estão os espíritos da natureza: animais, vegetais e minerais. Habitam lagos, rios, pedras, ventos, florestas ou objetos. Esses seres, embora não possuam forma humana, exercem grande influência sobre os homens, notadamente sobre as atividades da caça, pesca e agricultura. Além disso, eles atuam sobre os fenômenos naturais.

Abaixo desses espíritos da natureza, encontram-se os ancestrais, espíritos fundadores das linhagens, venerados por terem deixado uma herança espiritual favorável à evolução de sua comunidade. Os ancestrais estão mais longe de Nzambi do que as forças da natureza, mas são mais eficazes como intermediários entre os homens e a divindade suprema. São eles os responsáveis por garantir a solidariedade e a estabilidade do grupo ao longo do tempo. Eles receberam de Nzambi o ntu, a energia vital, e atuam como elo entre os homens e a divindade suprema. Um antepassado pode alcançar um alto grau de sacralização e se tornar um Nkisi.

Abaixo dos ancestrais, estão os antepassados, mais próximos dos seres humanos. Mortos recentes, personalizados. Para que o espírito de uma pessoa falecida se torne um antepassado, é preciso considerar a forma como ele morreu e a conduta que teve em vida. É preciso que ele tenha deixado as marcas de uma boa conduta moral, ter vivido até a velhice e não ter se suicidado, além de ter deixado grande descendência.

O antepassado se manifesta em uma pessoa viva por meio de possessão, enviando mensagens aos seus familiares, com os quais passa a desenvolver uma relação de muita proximidade. Assim como os ancestrais, o antepassado passa a ser cultuado e assume a função de intermediário entre Nzambi e a comunidade. Mesmo depois de morto, o antepassado se mantém como membro ativo do grupo familiar ao qual pertenceu em vida. Ele se torna o guardião e o protetor de seus parentes vivos. O antepassado se empenha em aumentar o ntu de seus familiares. Em contrapartida, o grupo precisa alimentá-lo e cultuá-lo. Caso contrário, ele pode acabar esquecido e esvanecer com o tempo.

Já no mundo visível, estão as forças pessoais: os reis, os chefes, os clãs, os sacerdotes, os anciãos, os homens. A realeza é sagrada. Os súditos chamam o rei de Nzambi Mpungu. É o próprio rei quem representa o Nkisi do reino. Aos anciões, cabe a responsabilidade de manter a comunidade unida.

Logo abaixo das forças pessoais, encontram-se as forças impessoais: animais, plantas e minerais. Todas elas proporcionam energia e vitalidade ao homem. Enquanto os animais emprestam suas características, os vegetais e minerais, conforme sua utilização em rituais, guardam propriedades ocultas e podem proporcionar benefícios ou malefícios.

Por fim, os fenômenos naturais e os astros. Estes estão a serviço da comunidade, passíveis de serem dominados pelos homens. Particularmente pelos sacerdotes e feiticeiros.

NTU

O ntu, a força vital, é um valor supremo para os Banto. O mundo é feito de energia. Todo ser é uma força. O ntu não se limita aos vivos, ele está presente na natureza, nos seres inanimados, no espaço e no tempo. Nzambi é único e não se confunde com o ntu, mas os demais espíritos são parte dessa força vital.

Muntu é o indivíduo, o ser humano. Bantu é a coletividade, o povo, significa “pessoas”. Kintu são os seres da natureza, animados ou inanimados. Kuntu é a expressão, que possui natureza própria, independente do ser que a expresse. É a inteligência, o sorriso, a beleza etc. Hantu é um lugar definido no tempo e no espaço. Ubuntu é a existência definida pela existência de outras existências.

O ntu pode aumentar ou diminuir por meio da interação das forças, de modo que um ser pode fortalecer ou enfraquecer outro ser. O homem, vivo ou morto, pode diretamente reforçar ou diminuir a força de alguém. Para se proteger contra a perda ou diminuição de energia vital por ação direta ou indireta de outros seres, a pessoa só pode resistir usando a sua própria força. Assim, é importante obter reforço da energia vital. Como o ntu também chega aos seres inanimados, é possível transmitir essa força a um barco, uma arma, uma casa.

Entre os Banto não há oposição entre o bem e o mal. O mal é o que prejudica o outro, o que ameaça a paz e a sobrevivência do grupo. Ele não possui um status sobrenatural, sendo um efeito circunstancial derivado da intenção dos seres. O ódio, o despeito, a vingança e até mesmo o esquecimento podem provocar distúrbios na interação dessas energias, gerando uma força vital distorcida que pode afetar o equilíbrio entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos.

O CALUNDU

Uma vez que o universo é constituído originalmente pela harmonia, bem-estar, saúde, segurança, poder e fecundidade, as forças malévolas podem, por meio de pensamentos e sentimentos malignos, causar danos como doença, morte, brigas e toda sorte de experiências negativas. Assim, a ordem natural original pode ser quebrada pela ação de espíritos ou por feitiçaria. Nos acontecimentos positivos há o aumento do ntu; e quando há sofrimento, dor ou infelicidade, há a diminuição do ntu. Os Banto atribuem as doenças e desgraças aos feiticeiros, os Ndoki.

Entre os Banto, mortos e vivos formam uma só comunidade. Os vivos obedecem aos seus mortos, prestando-lhes oferendas e sacrifícios. Caso contrário, um antepassado pode possuir um descendente para cobrar maior comprometimento com as obrigações rituais. Quando o descendente assume a condição de mediador entre os dois mundos, ele se torna o oficiante do culto desse espírito. Essa liderança é exercida por sacerdotes, que agem como adivinhos e curandeiros, capazes de captar e dirigir o ntu por meio de rituais. Tata é o sacerdote; Mametu é a sacerdotisa.

A relação entre a pessoa e o antepassado é marcada por obrigações recíprocas. Se a pessoa não cumprir seus compromissos, pode ser castigada com doenças ou outras formas que diminuam o seu ntu. Porém, essa perda de ntu pode ser também a ação de maus espíritos ou de feiticeiros. O sacerdote investiga o ocorrido para descobrir a verdadeira razão do enfraquecimento.

A magia no Calundu deriva da manipulação dessa relação entre vivos e mortos. Quando utilizada para o mal, a magia ameaça a ordem social e profana a vontade de Nzambi. É como agem os feiticeiros. Por outro lado, quando usada para o bem, a magia procura restabelecer e reforçar a harmonia e o equilíbrio, desencadeando energias capazes de neutralizar e proteger contra as forças maléficas. É a função dos sacerdotes.

O Calundu não é realizado em templos nem em terreiros específicos para fins religiosos. Seus rituais acontecem nas casas e fazendas. A música e a dança estimulam o transe. A possessão permite ao sacerdote incorporar as energias de seus antepassados, compartilhar seu conhecimento e promover a cura. A Adivinhação é parte inerente ao ritual. A possessão é um meio privilegiado para adivinhar as causas da perda do equilíbrio ou os desejos e necessidades dos antepassados.

O ritual mais comum é composto basicamente de invocação (com o auxílio da música), possessão (seguida de oferendas), adivinhação (dos males físicos ou espirituais) e cura (por meio de poção de ervas e raízes).

Ao incorporar um antepassado, o sacerdote tem um súbito aumento de sua força vital, agregando temporariamente atributos, habilidades e conhecimentos que antes não possuía. Ao incorporar um espírito da natureza, ele incorpora também algumas características sobre-humanas, de acordo com o espírito incorporado.

Ao incorporar um Nkisi, ele compartilha a plenitude de seu poder. No caso da invocação, sem incorporação, o sacerdote e o Nkisi estabelecem acordos breves ou de maior complexidade em troca de favores. Neste caso, o mais comum é o uso temporário de parte de suas habilidades místicas.

ANCESTRALIDADE

Entre os Banto, nada é feito sem que estejam em contato com os mortos, que, ao passarem pela agonia da morte, adquirem um conhecimento mais profundo do universo. Os descendentes prestam-lhe oferendas em suas sepulturas. Assim, os antepassados permanecem ligados ao cotidiano de seus familiares, atuando de modo influente sobre seus destinos e contribuindo com seu ntu. A interação entre eles é marcada por sentimentos de admiração, medo e respeito profundo.

Os antepassados se comunicam com seus descendentes por meio de uma possessão maléfica ou benéfica. No primeiro caso, cabe ao sacerdote procurar um ajuste na relação entre o antepassado e o corpo no qual ele se manifesta. Em último caso, faz o exorcismo. No caso da possessão benéfica, a pessoa possuída passa a ser vista como uma privilegiada e pode até se transformar, pelo transe, em um sacerdote, assumindo função de oráculo, de modo que suas palavras se tornam palavras do antepassado.

ALÉM DA KALUNGA GRANDE

Os Banto só entendem a vida como parte de uma comunidade. Viver não é simplesmente existir, mas interagir com a comunidade. Quanto mais perto de seus antepassados, maior o nível de força vital; quanto mais afastado, maior a debilidade.

Assim, a travessia da Kalunga Grande (o Mar Oceano para os Banto) representa mais do que uma mudança social ou geográfica, mas a ruptura radical de tudo aquilo que dá sentido à vida dos Banto. Um silêncio espiritual, uma fratura no ntu, uma experiência inédita e traumática.

Os negros vieram sem nada, foram obrigados a deixar tudo o que havia de material para trás. Os Lusitanos queriam que os negros renascessem em uma nova terra, com novo nome, catequizados nos ritos da Igreja. Os escravos embarcados em São Paulo de Loanda são batizados antes de subirem no navio.

Vieram, também, sem seus mortos. Os cemitérios, seus antepassados, seus ancestrais, haviam todos ficado do outro lado da Kalunga Grande. E também os seus sacerdotes e anciãos. A grande maioria dos escravos era mais jovem, prisioneiros ou escravos já existentes no Reino do Kongo.

Levados pelo desespero, pela solidão espiritual, alguns escravos se mataram ou se deixaram definhar na esperança que seus espíritos retornassem ao Continente Negro, a fim de voltar para junto de seu clã. Mas logo perceberam seu equívoco. Mesmo mortos, eles permaneceram no Novo Mundo, em um mundo astral desconhecido, repleto de criaturas e espíritos que não conseguiam compreender.

Pela forma como morreram, esses espíritos não puderam se tornar os novos antepassados, mas conseguiram de alguma forma se comunicar com os vivos e alertá-los sobre sua nova realidade. Aqueles que já estavam em Santa Cruz trataram de alertar os recém-chegados.

Os Banto se deram conta de que deveriam construir uma nova linhagem a partir do Novo Mundo. Novos antepassados, novos ancestrais. E novos sacerdotes. Estes, na verdade, não passaram por iniciação alguma. São pessoas com abertura natural para o mundo invisível, que se educaram no Calundu por conta própria.

O ambiente novo e estranho, tanto para o banto morto quanto para o banto vivo, fez com que se conectasse a uma ancestralidade própria dessa terra. Os Banto foram os primeiros negros a chegarem em massa na colônia. Foram contemporâneos de uma época em que a presença de nativos no cotidiano das vilas era bem mais intensa. Essa proximidade, ainda que desprovida de maior integração física e social devido às circunstâncias do cativeiro, contribuiu para que os sacerdotes incorporassem espíritos de nativos e caboclos. E, com o tempo, também de espíritos locais da natureza. Esses novos sacerdotes eram verdadeiros para-raios espirituais aleatórios, sem muito controle sobre as possessões.

Só quando eclodiu uma guerra civil no Reino Ndongo que chegaram os primeiros sacerdotes experientes a Santa Cruz. Com o fortalecimento dos novos antepassados e de sua força vital, os mais experientes conseguiram acessar os Minkisi. Mas nem todo Nkisi se dignou a atravessar a Kalunga Grande para atender a seus chamados.

Quando a primeiras levas de Fon começaram a chegar nas vilas e senzalas, os Banto se surpreenderam com o grau de articulação de seu culto, e passaram a tê-los como referência de organização religiosa.

MINKISI

Esses são os principais Minkisi que cruzaram o oceano em resposta ao chamado de seu povo:

Lembá Dilê: foi o primeiro Nkisi criado por Nzambi. Lembá Dilê foi encarregado de criar não só o Universo, mas também todos os seres. Ele é o equilíbrio positivo do universo, o fim pacífico de todos os seres. Nkisi da ventura, da compreensão, do entendimento e da morte, Lembá vai determinar o fim da estrada do ser humano. Atua como mediador para acalmar discórdias e definir uma solução.

Kindembu: senhor do tempo e das estações, Nkisi das transformações. Ele guia o seu povo nômade com sua bandeira branca, cujo mastro é tão alto que pode ser visto de qualquer lugar, não deixando ninguém perdido.

Kaiango: é a energia do vento, que tem o domínio sobre o fogo. Comanda os Nvumbe (espíritos dos mortos) através de seus ventos, guiando-os para o lugar apropriado.

Nkosi: Nkisi da guerra, do ferro e da forja, senhor dos metais. O leão, o guerreiro, o lutador. O devorador de almas. É um Nkisi de caráter agressivo e bastante temido. Nkosi é procurado para resolver conflitos nas aldeias ou na vida particular, mas muitas pessoas preferem distância dele devido ao seu poder de causar tanto ordem quanto desordem.

Kaviungo: Nkisi das doenças de pele, da saúde e da morte.

Katendê: Nkisi das ervas medicinais. Senhor do retiro e da vida ermitã nas florestas. Guardião das folhas sagradas. Só tem uma perna e é de baixa estatura. Nunca teve vida terrena, sendo criado diretamente por Nzambi.

Mutalambô: Nkisi caçador, que vive em florestas e montanhas. Domina as parte mais profundas das matas, onde o sol não chega.

Kisimbi: Nkisi da fertilidade, da maternidade, da riqueza, da família, representada como a sereia da água doce. Dotada de uma beleza sem igual, feiticeira, mestre da artimanha, dona do ouro e do cobre.

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Published in: on 8 de janeiro de 2019 at 18:11  Deixe um comentário  

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