OS BRANCOS

A Terra de Santa Cruz foi dividida pela maior autoridade religiosa do Velho Mundo, o Papa, entre as Coroas lusitana e hispânica.

A Espanha, sob a liderança de Castela, é formada por diversos reinos ibéricos. Ainda que o idioma castelhano tenha se tornado o oficial, em muitas regiões ainda se fala o dialeto original. Já Portugal, bem menor, e unificada 300 anos antes, possui maior coesão política.

Outros reinos questionaram a decisão do Papa e tentaram causar problemas à ocupação ibérica do Novo Mundo. Os mais assíduos foram os Franceses, os Neerlandeses e os corsários que atuam em nome da Coroa Britânica. Devido a intercâmbios constantes entre si e com povos do Oriente e da África, os europeus adquiriram uma superioridade tecnológica e militar difícil de ser igualada.

Inicialmente, os Lusitanos não se interessaram muito pelas novas terras, mais atraídos pelas vantagens econômicas das ativas rotas econômicas do Oriente, ou pelo ouro e marfim do Continente Negro. A Coroa lusitana, nas primeiras décadas, acreditou que iniciativas particulares bastariam para ocupar a região, mas o interesse dos Franceses e a resistência oferecida pelos nativos revelaram que não seria assim tão fácil. Correndo o risco de perder a primazia da colônia, a Coroa criou um governo-geral e estabeleceu uma estratégia agressiva de ocupação de seu litoral.

No nordeste do continente, as vantagens imediatas das grandes plantações de cana-de-açúcar no litoral satisfizeram as ambições da Metrópole. No distante sudeste, a ocupação se deu mais para conter as incursões de Franceses e Castelhanos na área. Sentindo-se negligenciados pela Metrópole, a população lusitana no planalto de Piratininga desenvolveu uma cultura exploratória à procura de riquezas e, inicialmente, de escravos nativos: as Bandeiras. Para não criar problemas com as tribos aliadas nos lugares onde se estabeleciam, cuja cooperação era vital para a sua sobrevivência, os Lusitanos tinham que ir para bem longe de suas vilas capturar os inimigos de seus aliados.

Quando a Igreja forçou a Coroa a proibir o apresamento dos nativos, por meio do Tratado de Santa Luzia, as Bandeiras se voltaram para a busca por metais preciosos, exploração do território e combate às estranhas criaturas que habitam o continente.

Os povos do Velho Mundo veem sua cultura como superior e mais avançada do que a dos povos negros e nativos. Essa superioridade pode ser exercida com benevolência, descaso, arrogância ou violência, mas sempre estará presente. Consideram a sua religião como a única verdadeira, e todos os outros deuses são vistos como falsos ou obra do demônio. Assim, enviam seus sacerdotes para os quatros cantos da Terra de Santa Cruz a fim de espalhar o Evangelho e trazer os nativos para a Igreja Católica. Ambas as Coroas Ibéricas encontram-se em sintonia nessa missão, sendo Castela um pouco mais determinada nesse sentido.

Porém, sob o manto do Cristianismo, alguns brancos compartilham outras crenças. Uns professam a religião judaica, mas se viram forçados a se converteram, tornando-se Cristãos Novos. Outros seguem crenças muito mais antigas do Novo Mundo, ligadas à natureza e até mesmo a poderes considerados demoníacos. Assim como os Cristãos Novos, precisam tomar muito cuidado para não revelar sua verdadeira crença. Há ainda aqueles oriundos de outros reinos que seguem uma dissidência do Cristianismo, os Protestantes, que são tolerados na colônia apenas quando se trata de viajantes.

Entre os brancos há uma outra divisão mais sutil, imperceptível aos nativos e negros, mas fundamental na dinâmica da sociedade colonial: os brancos nascidos na colônia e os brancos nascidos no Velho Mundo. A estes são reservados os melhores postos na burocracia colonial, os títulos de nobreza e comando militar. Entre os Lusitanos, essa diferença é diluída se o nascido na colônia for estudar na Metrópole. Ao contrário do que ocorre nas colônias hispânicas, na colônia lusitana não há universidades, apenas colégios religiosos, que, ainda assim, não são muitos. A educação colonial é a última preocupação da Coroa lusitana.

Após o fracasso inicial das capitanias privadas, a Coroa esvaziou as prisões da Metrópole para povoar sua colônia no Novo Mundo. Sendo esta uma verdadeira terra de oportunidades, ainda que perversas, criou-se a curiosa situação que tanto um degredado quanto um nobre poderia encontrar na Terra de Santa Cruz o sucesso ou a perdição.

Na verdade, mesmo em posição hierárquica superior, até o século XVII a vida dos colonos não era nenhum mar de rosas. O risco de sublevações nativas ainda é alto na região das bandeiras; as criaturas representam ameaça constante; as condições materiais de vida em muitas vilas, com raras exceções, são precárias e demandam muita determinação e trabalho. Imagine, então, a vida dos menos afortunados.

No início da colonização não havia mulheres. Atualmente elas são maioria em algumas cidades, como em São Sebastião. Inicialmente elas foram enviadas com o propósito exclusivo de se casarem, o que reflete na pouca oportunidade de destaque das mulheres na sociedade colonial. Ainda assim, há oportunidades, particularmente para viúvas e herdeiras. A cada dez engenhos de cana-de-açúcar, um tem como proprietário uma mulher. Claro que, além de propostas de um segundo matrimônio, pode haver tentativas de lhe tirar o domínio da terra, como falsas acusações de Judaísmo encaminhadas ao Santo Ofício. Algumas mulheres se destacam no comércio ou na lavoura, entre os arrendatários que trabalham junto aos engenhos, inclusive sendo proprietárias de escravos.

Published in: on 8 de janeiro de 2019 at 17:22  Deixe um comentário  

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