OS NEGROS

Em dois séculos de colonização, os Lusitanos trouxeram escravos africanos de três regiões diferentes do Continente Negro, todas banhadas pelo Mar Oceano: Guiné, Costa do Ouro e os Reinos Bantos. Nas duas primeiras convivem diversas etnias, cada uma com sua religião. Os Banto ocupam a região central do continente, de costa a costa, descendo pelo sudoeste, subdividindo-se em diversos subgrupos e reinos. Esta é a etnia com maior presença na colônia lusitana. Além dela, os Fon e os Iorubá, ambos da Costa do Ouro, são as outras duas etnias que conseguem, às duras penas, preservar e reproduzir parte de sua cultura no Novo Mundo. Escravos de vários outros povos são pegos nessa rede, mas, em pouca quantidade, seu desenraizamento é total, sendo diluídos pelas três culturas mais presentes.

Os negros trazidos para a Terra de Santa Cruz como escravos perderam sua condição de liberdade já em sua terra de origem. Seja por serem inimigos políticos em seus reinos; por serem membros de um reino rival; ou por terem sido condenados por um crime passível de ser punido com a escravidão. Nem todos os negros nessas condições são vendidos aos Lusitanos ou a outros europeus, sendo mantidos como escravos por aqueles que os capturaram, para serem aproveitados nos campos, na atividade religiosa, como soldados ou em casamentos. Escapam, assim, das condições miseráveis e ultrajantes no interior dos navios negreiros, tão insalubres que muitos morrem ainda na viagem. Ao chegarem nos portos coloniais, sua vida pregressa já não conta mais. Tudo o que foi, sente, acredita, depende única e exclusivamente da sua força de vontade e fé interior para manter o passado vivo.

A escravização de sacerdotes é fato raro, ocorrendo apenas em circunstâncias excepcionais, como brigas de sucessão. Contudo, por mais difícil que seja, os negros conseguem preservar muito de sua religião. Amontoados nas senzalas, desde que não criem confusão ou fujam, aos senhores pouco importa o que fazem durante a noite, nos e nos dias de descanso semanal. Assim, certos hábitos tradicionais são mantidos. O tempo, a distância, a mistura de culturas distintas nas senzalas promovem o sincretismo e a formação de uma cultura original.  A religião é o espaço que os negros  encontram para reivindicar sua identidade, criar laços e ganhar forças para superar os momentos difíceis.

Na busca para restabelecer essas religiões, há rupturas, perdas, caminhos truncados, possibilidades mutiladas. O culto dos ancestrais, presente em todas as etnias, perde visibilidade com a ruptura familiar. Algumas divindades conseguem atravessar o Mar Oceano, mas não há estrutura formal de culto. Elas sobrevivem pela fé particular de indivíduos dispersos pela escravização.

Os negros buscam se identificar por sinais de seu reino de origem, com talhos no corpo, penteados, amuletos, peças de roupa. O que para os brancos pode parecer uma massa indistinta de trabalhadores e escravos, é, na verdade, um conjunto de grupos heterogêneos vivendo os mesmos desafios.

Com o passar do tempo, ainda que como exceção, alguns negros logram obter a liberdade. A maioria pouco pode fazer com ela, pois nenhum bem possui para se estabelecer. Há mesmo casos de quem um forro se vende novamente como escravo para sobreviver. Mas alguns conseguem aprender um ofício e tocar a vida.

Há ainda aqueles que conquistam um lugar de destaque na sociedade colonial, inclusive sendo proprietário de escravos. Muitos negros que chegam a Santa Cruz não foram arrancados do meio do mato. Em sua terra natal, eram artesãos, mestres de ofícios. Alguns, bastante capacitados em forjas, mineração e outras técnicas. Estes passam a valer mais quando reconhecida a sua competência, são melhor tratados, são remunerados e têm boas chances de comprar a sua alforria.

Entretanto, ser livre, ter dinheiro, ser influente e reconhecido na sua área de atuação não significa portas abertas em todos os setores da sociedade. Uma negra comerciante pode ser respeitada como comerciante. Um negro caldeireiro pode ser respeitado como caldeireiro. Mas eles terão as mesmas limitações sociais que um branco nascido na colônia, sem nenhuma possibilidade de influência na política e administração colonial. Fora de sua área de atuação e do meio social no qual fez sua fama e ganhou reconhecimento, ainda corre riscos. Despojado de seus adereços sociais, a cor fala mais alto. Mais alto do que a cor, somente o dinheiro.

A maioria dos escravos, obviamente, não obtém a alforria. A alternativa, então, é fugir. Muitos são capturados ou mortos pelos capitães-do-mato, ou encontram a morte nos perigos da mata. Outros, contudo, conseguem sucesso e se perdem pelo mundo ou se organizam em pequenas comunidades afastadas, os Quilombos, na qual procura, à sua maneira, reproduzir a cultura de seu continente de origem (ou o que se lembra dela).

Published in: on 8 de janeiro de 2019 at 17:50  Deixe um comentário  

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