Das Famílias e dos Costumes

A família colonial se levanta com a aurora. Almoça antes das 10h e janta no meio da tarde. Outras refeições podem ser incluídas entre uma e outra. O colono gosta de se alimentar bem. O hábito de comer junto ainda não se instalou por completo, salvo nos conventos. À noite, a família fica uma hora rezando o terço, depois come a ceia, tomam banho e vão pra cama.

O colono pegou gosto do hábito do banho dos nativos, longe de ser a prática no Velho Mundo. O mais comum são os banhos de rio, um programa familiar, até mesmo o banho ao luar. Em outras horas do dia, principalmente nos dias de calor, as mulheres vão em grupo. Nas cidades, o banho com pedaço de sabão é inestimável. Banho de mar, só por recomendação médica, dentro de caixas com furos laterais, com a finalidade de cicatrizar feridas com o iodo marinho.

Os penicos são esvaziados nas ruas, muitas vezes pela janela, sem aviso prévio. As tinas com os dejetos ficam num compartimento chamado “secreta”. Quando chove, eles são esvaziados nas ruas. Depois, os dejetos secam ao sol, sendo que, salvo em Piratininga, não há quem limpe as vias. Os colonos defecam e urinam em público, para choque dos estrangeiros. Aqueles que possuem escravos domésticos os colocam para levar os dejetos até a praia ou o rio.

Os senhores da cidade são carregados em redes. Quanto mais numerosa a escravatura, mais respeitável é o porte da guarda, fardados com cores aberrantes.

A roupa simboliza o status. As naus aportam com fazendas para todos os bolsos. A disputa de vaidades faz aumentar o preço, levando famílias a se endividarem pela aparência. Na rua, as mulheres andam muito bem vestidas com suas rendas e joias, incluindo as escravas. As moças menos abastadas se sentem humilhadas ao verem negras escravas vestindo seda, o que tem gerado algum alvoroço.

Em casa, no entanto, as mulheres vestem o velho camisolão. Os homens ficam de camiseta e ceroulas. O luxo é voltado apenas para o exterior. Na hora das refeições, as famílias ficam semivestidas por causa do calor.

Em São Sebastião, tamancos, camisas abertas, calças frouxas. Em Piratininga, o gibão surrado, com várias cores. Nas minas, calças leves e folgadas, camisas de algodão com fraldas para fora, jaquetas de couro e colete de lã no frio.

Os tintureiros usam vinagre com urina para fixar as cores. Para tirar manchas, usam cebola, sabão importado do Continente Negro, mistura de gordura animal e vegetal com soda cáustica.

As mulheres usam perfumes para realçar os odores naturais, não para mascará-los, embora esse hábito já esteja caindo em desuso no Velho Mundo. Morenice e robustez são o padrão de beleza (quando as moças são consideradas “bem parecidas”), com cabelos muito compridos e dentes bem cuidados.

Nas casas mais abastadas, são populares os livros de receita de beleza. A maquiagem é focada no rosto, havendo uma linha tênue entre a cosmética saudável e aquela para embelezar, condenada pela Igreja. Mas, na maior parte do tempo, as mulheres usam os cabelos desgrenhados, evidenciando a pobreza de Santa Cruz.

Em uma sociedade voltada ao trabalho, e com tanto por fazer, o lazer é um conceito um tanto vago. Bilhar, dados, baralhos de madeira, xadrez, gamão e damas são os jogos mais habituais.

Do matrimônio

Os casamentos são realizados mais por interesse econômico ou familiar, sendo a afeição física uma raridade. Estimula-se o casamento entre pessoas de mesmo status social. Não é incomum o casamento precoce de meninas entre 11 e 14 anos. Também é normal uma grande diferença de idade entre os esposos.

A Igreja procura regular a prática sexual e a libido entre os casais, que sequer têm o hábito de tirar a roupa quando estão no leito matrimonial.

Como as cidades e as paróquias são muito distantes, as pessoas que moram nos sertões vivem juntas antes de casar. Assim, entre os roceiros, a ligação consensual é a regra, uma forma de organização do trabalho. Engravidar é importante, pois significa mais mão de obra na lavoura.

O controle dos casamentos oficiais é rigoroso, pois bigamia é algo comum. O concubinato, porém, não recebe qualquer sanção grave, no máximo a recusa dos sacramentos e proibição de assistir à missa.

Os mineiros raramente levam suas famílias para os Campos dos Cataguás. Eles veem o seu lar naquelas serras como transitório, e se unem a concubinas escravas e nativas. Nas minas, o adultério é resolvido na espada. O marido pode matar a esposa e o amante para lavar a honra, desde que o amante não seja de uma classe mais elevada.

A mulher não desfruta do mesmo direito de vingança. Bigamias e assassinatos de maridos, muitas vezes por vidro moído misturado à comida, são punidos com o enclausuramento das mulheres no convento, desde que haja permissão das autoridades. Tal condição pode durar para sempre, desde que a clausura seja sustentada pela família.

Há muita violência contra a mulher. Quando ocorre, ela pode deixar o marido e voltar para a casa da família. O julgamento é apenas social. Muitas vezes a comunidade a apoia, desde que ela se comporte de acordo com os bons costumes. O apoio da família e dos vizinhos é essencial para ela se restabelecer.

Do cotidiano das mulheres nas vilas

As mulheres das vilas pouco saem de casa, fazendo bordados ou doces, havendo muitas chances para o homem manter relações extraconjugais.

A mulher que exerce atividade comercial conquista muita independência. Elas cuidam do pequeno comércio, da lavoura, da plantação e dos animais domésticos. Algumas são fazendeiras e comerciantes de escravos. Trabalhando em casa ou na rua, ajudam na sobrevivência da família.

Em Piratininga as mulheres são mais soltas, muito por influência dos nativos e dos longos períodos de ausência dos esposos. A piratiningana gosta de dançar e de passear, é mais dura e corajosa. Acostumada a ficar muito tempo à frente dos negócios, a mandar nos trabalhadores, ela não tem qualquer acanhamento diante de um desconhecido. E quando o esposo retorna da mata, cobra-lhe logo o bom resultado que justifique a longa ausência. E ai daquele que tenha voltada com o rabo entre as pernas.

Da criação dos filhos

Os filhos pertencem aos pais. O castigo físico das crianças é comum e recomendado pela Igreja, para horror dos nativos, que desconheciam tal prática. A correção é vista como um ato de amor. O mimo é muito mal visto pelos europeus, que consideram o trato infantil pelos colonos muito liberal, temendo os visitantes pelo futuro de uma geração estragada.

A formação básica da criança é ler, escrever e conhecer a doutrina cristã. As moças não são incentivadas a continuar os estudos. Aos moços, depois de determinado nível, só resta o estudo na Metrópole: não há universidades na colônia lusitana. A quem não pode estudar, só resta trabalhar.

Passa-se diretamente da infância para a vida adulta, pulando a adolescência. A atividade econômica rural exige braços no batente desde cedo. Não são apenas os escravos que trabalham na roça. O precoce trabalho infantil é cadenciado pelo sofrimento e iniciação compulsória à sobrevivência. Em São Sebastião, Um rapaz de 13 anos lutou contra os Goitacás e foi premiado com uma sesmaria.

A mortalidade infantil é bastante alta. Um aterrorizante caso de crianças mortas por uma feiticeira levou a um surto de caça às bruxas em Santa Cruz. Desde então, os pais se preocupam em resguardar os filhos do assédio das bruxas, não sabendo diferenciar as doenças dos sortilégios.

Das Procissões de El-Rei

Há muitos dias santos com procissões no Reino e nas colônias. Na Metrópole, são 31 dias de grande guarda e outras festas menores.

A mais badalada festa da colônia é a de Corpus Christi. As duas outras são a Visitação de Maria a Santa Isabel, em 2 de julho, e a do Anjo Custódio, ou Anjo da Guarda, realizada no 3° domingo de julho. Em São Sebastião, há também a  procissão de São Sebastião, o padroeiro da cidade, em 20 de janeiro, precedida de três noites de luminárias.

Nessas datas, a presença do bispo, do governador e dos membros da Câmara é obrigatória. As autoridades devem se apresentar bem vestidas, e a não participação nessas celebrações, feitas com desfiles organizados, implica sanções severas. Todos os cavaleiros das Ordens Militares têm de estar presentes. Os oficiais mecânicos também têm de participar da festa, oferecendo carros alegóricos, castelos, invenções e danças.

O cortejo deve desfilar pela rua mais pública da cidade, previamente varrida e coberta com folhas aromáticas. Os moradores devem contribuir para a suntuosidade da celebração, pendendo tecidos nas janelas. Há salvas de canhões das fortalezas e dos navios ancorados.

Tais eventos não são apenas religiosos, mas da própria Monarquia. Todas as vilas e cidades estão obrigadas a celebrá-los.

Da tatuagem e das escarificações

Os nativos têm por hábito rasgar a própria pele com os dentes de bichos, derramando nas ranhuras sumo de uma erva que tinge indelevelmente. O objetivo é marcar a coragem e valentia do guerreiro. Os caboclos que seguem nas bandeiras fazem o mesmo. E alguns brancos, seduzidos pelo simbolismo dessas cicatrizes, incorporam esse costume, apesar da reprovação dos padres.

Algumas culturas africanas também fazem uso de escarificações como forma de distinção social e étnica. O costume se mantém precariamente na colônia, sendo uma das formas de  membros da mesma cultura se reconhecerem nas vilas.

Dos Comes e Bebes

Os senhores de engenho não querem ter animais em suas terras para que não ataquem a lavoura, o que leva a eventuais falta de comida nas vilas. Recentemente, na capital, vive-se um período terrível de escassez, obrigando o Almotacé a intervir na distribuição de víveres. O Governador Lencastre determinou aos senhores de terra um plano de abastecimento. Com o tempo, a situação vem melhorando.

Na falta de carne, as vilas litorâneas podem lançar mão dos peixes, animando a vida dos caiçaras. Na pesca, o trabalho de oito dias dá pra metade do ano. Os  camarões, aliás, são o sustento dos escravos. Frutas da mata e a caça são alimentos dos homens livres e pobres. A farinha de mandioca sempre foi a base nutricional de Santa Cruz, algo que os colonos herdaram dos nativos.

Em seguida, na preferência do povo, vem o feijão e as frutas. Nisso há abundância: laranja, limão, cacau, cajá, figo, fruta-pão etc. Nem todas são originais da terra, mas, em Santa Cruz, onde se plantando tudo dá, o que não é nativo logo se alastra como se estivesse aqui desde o início dos tempos.

O milho é o único grão encontrado em abundância na colônia. A carne-seca é usada para conservar. Manteiga é pouca e importada, sendo feito em seu lugar o requeijão, que não é de todo mal. O azeite de oliva, também importado, é substituído por azeite de açaí, coco ou dendê.

Com os engenhos de açúcar, não nos falta doce. Doces dos mais diversos, nas casas nobres e nas festas religiosas. As frutas cristalizadas são valorizadas. E também há fartura de mel.

Para beber, acima de tudo, água. E também água de coco, limonada e caldo de cana. Nos engenhos, ainda tem a cachaça e a garapa de cana, tomadas pelos escravos, que também produzem o vinho de palma. A popularidade da cachaça entre os escravos e os roceiros levou o governo a adotar medidas para controlar o seu consumo. Quando há quilombos por perto, a repressão é ainda maior. Entretanto, a bebida tornou-se um elemento importante no comércio direto da colônia com São Paulo de Loanda, no Continente Negro. Os navios negreiros levam barris de cachaça e voltam com os escravos. Além disso, há quem considere a cachaça uma bebida medicinal. Assim, tais medidas de controle há muito não são seguidas.

O milho é usado na cerveja, assim como a mandioca no cauim dos nativos. Mas, entre os brancos de mais posses, e também no Colégio dos Jesuítas, o vinho lusitano reina absoluto.

Nas cozinhas de Santa Cruz, usa-se frigideiras de barro ou de ferro, vasos onde são cozidos os alimentos, pilões de todos os tamanhos, moringas de louça, bandejas, saleiros, pratos, tachos, caldeirões de ferro e alambiques de cobre. Pratos, colheres e tigelas de estanho. Rodas de ralar mandioca, moinhos de água de moer trigo, prensa de farinha, alambiques de destilar cana, fôrmas de queijo. O que for possível ter, claro. Há algum tempo começaram a usar garfos e facas nas refeições, hábito outrora limitado às cortes europeias. Mas guardanapos ainda são raros.

Do Casario

Na colônia predominam ainda as casas com teto de sapé ou palha de coqueiro, as adoráveis redes de algodão, cipós para amarrar paus, paredes em trançados de carnaúba revestida de barro socado e coberta com folhas de babaçu. A bosta de vaca é misturada no barro da parede para ajudar a combater os insetos. O óleo de baleia é usado para ligar a argamassa.

As casas possuem portas e janelas estreitas, feitas de muxarabiês, que garante sombra, ventilação e descrição. O muxarabiê pode ser feito com treliças de madeira ou, em sua falta, com fibra vegetal. Não há vidros.

Em muitos povoados e vilas ainda se usa esteiras para comer, sentar e dormir. Demorou para o catre,  coberto com colchão de lã ou paina, substituir a rede. Gente pobre e escravos dormem em esteiras, couro de boi ou colchões de palha.

Em muitos lugares o piso é de chão batido. As casas são, em regra, imundas, com chão lamacento e desnivelado. Às vezes se varre com vassoura de bambu, mas não se passa água no chão.

O fogão à lenha costuma ficar do lado de fora. Quando isso não é possível, principalmente no centro das vilas, a fumaça, com a ausência de chaminés, enegrece as paredes. As paredes caiadas ficam amareladas. O uso de incenso deixa os quartos mais respiráveis.

Há poucos móveis nas casas, e somente na casa dos ricos fazendeiros e autoridades. As casas de família de melhor posição possuem sala ampla rodeada de quartos. Na frente, um alpendre com dois cômodos de cada lado. Também podem contar com uma capela e quarto de hóspedes. O alpendre ajuda a afastar o calor e serve para manter a privacidade do lar. O que interessa à família fica dentro de casa. No alpendre são recebidos os visitantes, escravos e desconhecidos.

No interior das casas, é possível encontrar camas com dosséis e cadeiras com espaldas para as autoridades. Em regra, são usadas cadeiras rasas, bancos e tamboretes. Os móveis variam de acordo com a posição social. Arcas existem aos montes, com sete ou oito palmos de profundidade. Guardam de tudo: roupas, armas, ferramentas, louças. Fechadas, servem de mesa ou banco. Os tapetes são de lã, seda ou rede vegetal. As toalhas de mesa, de algodão ou linho.

No litoral, a moda atual são os móveis vindos do Oriente, as pinturas europeias, os contadores de jacarandá e os azulejos, que deixam as casas mais bonitas. Já no interior, o enriquecimento gradual do bandeirante transporta pra Piratininga o luxo lusitano, como tecidos do Oriente e baixelas de Nova Castela. Mas em geral a vida no por lá é modesta, com as casas decoradas com pratos de cobre, imagens sacras e móveis rudimentares.

A iluminação é fornecida por castiçais, candeeiros com bicos de onde sai a mecha, lanternas de folha de flandres ou prata, acesos com diversos óleos fabricados em casa.

A maioria das habitações da capital é de adobe ou tijolo, com os telhados achatados. Em São Sebastião, nos deparamos com todos os tipos de combinação, da taipa à pedra e cal. Como a cidade é bem fornida de olarias, quase todas as construções possuem telhas.

As construções militares e religiosas foram as primeiras a ganharem maior consistência, utilizando pedra e cal de ostra, com cubículos grandes e lindos portais de pedra. A porta ostenta nobreza, o pátio interno é arejado e circundado por alas. Algumas casas, em vez do pátio, possui um terreiro nos fundos.

Dos Estrangeiros

Ao longo do século, o estrangeiro na colônia significou apenas alguém que pertencia a reinos de pouca ou de outra fé, com exceção dos Castelhanos, vistos com um misto de rivalidade e familiaridade. Mesmo os Franceses presentes na colônia em comunidades religiosas, como os Capuchinhos em São Sebastião, são vistos com desconfiança.

Ao estranhamento religioso se soma, para as autoridades, a ameaça econômica. O contrabando está presente tanto nas mercadorias vindas do Velho Mundo quanto naquelas vindas das colônias castelhanas. O estrangeiro é visto como um traficante, um renegado.

No entanto, nada disso impediu que viajantes continuassem a visitar a Província de Santa Cruz, por curiosidade ou em busca de oportunidades. Ou mesmo morar na colônia, desde que fossem bons católicos.

Esses viajantes se impressionam com a reclusão feminina em Santa Cruz, como se esta fosse uma colônia sem mulheres. Mas é uma reclusão para estrangeiro ver. Em uma sociedade carente de moças casadoiras, o estrangeiro é um rival inoportuno. Contudo, a hospitalidade tradicional da família colonial impede os senhores de não receberem um viajante de aparente boa fé em sua casa. Mas do que uma tradição, é uma questão de honra: saber e poder receber. As filhas, porém, permanecem devidamente escondidas. O senhor não mostra o interior da casa, nem a família. Mesmo a esposa se mantém reservadas, limitando-se ao mínimo contato exigido pelas boas maneiras.

Com a descoberta das minas nos Campos dos Cataguás, o status do estrangeiro sofre uma importante mudança: o visitante indesejável passa a ser visto como um perigoso espião, possivelmente a serviço de reinos inimigos e de piratas.

A localização das minas e os caminhos até elas ainda são mantidos em certo segredo. O Governo-Geral teme que, ao descobrirem os caminhos, a colônia não tenha meios de cobrir todo o litoral para evitar incursões de estrangeiros por terra, particularmente de Castelhanos.

No século XVI, Santa Cruz havia sofrido muito com a incursão de piratas britânicos, invasões dos Francos e, posteriormente, dos Neerlandeses. A Vila de São Vicente foi arrasada. De lá pra cá, a colônia pouco teve a oferecer a corsários e piratas. Após décadas de calmaria, os moradores de São Sebastião praticamente abandonaram o Morro do Castelo e desceram para o vulnerável litoral.

Quando o ouro começa a descer para o litoral, e há o incremento da rota entre Paratiy e São Sebastião, o medo de ataques piratas volta a tirar o sono das autoridades e da população. A rota passa por uma infinidade de ilhas, restingas e enseadas do litoral de São Sebastião que servem de abrigo a qualquer nau mal intencionada, o que deixa as embarcações lusitanas bastante vulneráveis a ataques.

Além disso, São Sebastião é porto preferencial para escalas de navios vindos do Velho Mundo rumo ao sul da Terra de Santa Cruz. Ainda que o comércio com estrangeiros seja oficialmente proibido, não é possível negar o recebimento dessas naus devido à Lei de Hospitalidade, que obriga qualquer porto a oferecer abrigo a qualquer navio estrangeiro em tempos de paz.

Desde o início do ano, após uma forte tempestade, um navio bretão encontra-se ancorado na Ilha Grande a espera de dois barcos do comboio que se perderam. Como, após um mês de espera, nenhum deles apareceu, o capitão bretão resolveu esperar o inverno passar pra prosseguir viagem para o sul. Essa estadia tem provocado intranquilidade na Vila de Ilha Grande, onde, periodicamente, os bretões vão comprar mantimentos. A rotina da vila foi completamente alterada, pois a população é obrigada a fazer rondas permanentes na região, dia e noite. O governador de São Sebastião suspeita da ação de espiões no navio, com a finalidade de encontrar fraquezas defensivas na capitania para uma futura invasão.

Os senhores de engenho de São Sebastião, em sua maioria, encontram-se endividados com comerciantes cristãos-novos. Não seria improvável que, caso haja uma invasão bem sucedida, o cancelamento das dívidas e manutenção das propriedades pudesse ser usado pelos invasores como forma de obter apoio local.

A Coroa encontra-se tão alarmada com a possível ação de espiões que cogita a possibilidade de retirar da colônia todos os religiosos estrangeiros.

Das notícias vindas do Reino

Desde que o atual Rei da Espanha assumiu o trono, em 1665, aguarda-se a sua morte, uma vez que ele é acometido de grave doença física congênita. Contudo, mostrou-se resistente, mas sem deixar herdeiros. Atualmente, sua condição de saúde piorou, e os dois pretendentes mais fortes são o neto do Rei da França e o segundo filho do Arquiduque da Áustria.

Considerando as disputas recentes entre Britânicos e Franceses, e as boas relações entre Neerlandeses e Austríacos, o Rei de Portugal prevê fortes conflitos em breve entre os reinos vizinhos.

Desejoso da neutralidade, mas pouco confiante em ser possível mantê-la, o Rei envia uma carta ao Governador Lencastre, dando-lhe ciência da situação no continente e de sua preocupação a respeito de uma nova onda de pirataria e ataques corsários, aconselhando-o a, preventivamente, preparar as defesas da colônia.

Os livros de gastronomia que chegam pelos navios já incorporam receitas da colônia.

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Published in: on 10 de janeiro de 2019 at 19:03  Deixe um comentário