Dos Engenhos e das Lavouras

O ENGENHO

“Os engenhos de cana-de-açúcar da Província de Santa Cruz precisam ser autossuficientes devido às distâncias, aos caminhos difíceis e a irregularidade do abastecimento. Os engenhos que visitei são muito mais do do que uma fazenda cercada de canaviais e escravos. Ele são compostos por diversas edificações, ao redor das quais há uma dinâmica social e econômica própria, com arraiais, colonos e pequenas lavouras familiares. Apresento a seguir uma breve descrição de cada uma dessas edificações.

Das edificações

Casa Grande: onde reside o senhor de terra com sua família. Nos engenhos mais modestos, é uma edificação térrea, feita de taipa e coberta de telhas. Costuma ser rodeada por uma varanda tipo alpendre, que evita que o calor do sol se acumule nas paredes, refrescando o seu interior. Pelo alpendre se chega aos aposentos dos hóspedes, pois a hospitalidade é uma regra na colônia, onde não há estalagens. Em algumas propriedades, estes aposentos são apartados. Nos engenhos próximos da capital e de Olinda, as construções são mais robustas, algumas ostentando torres de granito que vigiam o litoral. Nos mais abastados, a Casa Grande possui dois andares: na parte inferior fica o depósito; na superior, a residência.

Capela: todo engenho tem seu santo protetor, e para ele é construída uma capela, que pode ser acoplada à casa grande ou ser isolada. Em alguns engenhos, elas são ornamentadas e chamadas de igreja.

Casas dos oficiais: casas bastante simples onde residem alguns trabalhadores livres, como mestres de açúcar e seus auxiliares, feitores, oficiais mecânicos. Estes trabalhadores podem também residir nos arraiais ou ter sua própria roça.

Senzala: é a casa que abriga os escravos. Pode ser erguida ao redor da casa grande ou afastada. Esse nome foi dado pelos próprios negros. Acredito que seja palavra bantu. Foi-me dito que significa ‘morada’.

Casa de Engenho: é o edifício mais importante do engenho, onde o açúcar é refinado. Cercada de varandas, é subdividida em dois compartimentos: a casa da moenda e a casa das caldeiras. A casa da moenda é onde se extrai o sumo da cana. Os tambores verticais, que espremem a cana, podem ser movidos por força humana, animal ou por força hidráulica, o que exige a construção de um açude e de uma roda d’água. Os primeiros tipos dão origem ao engenho de trapiche. O segundo, ao engenho real. A casa das caldeiras é onde o caldo da cana é aquecido por longo tempo e passa por sucessivas operações de limpeza e de decantação, sendo purificado e engrossado, e postos em fôrmas cônicas de barro chamadas ‘pão de açúcar’. As fornalhas das caldeiras demandam muita lenha e precisam funcionar de dia e de noite, de 6 a 9 meses por ano.

Casa de Purgar: é onde o caldo é deixado por algum tempo para cristalizar. O mesmo processo pode ser feito nas varandas da casa de engenho.

Casa de Encaixar: depois de cristalizado, o açúcar seco é retirado da fôrma, classificado conforme a sua qualidade e colocado em caixões de madeira no qual é transportado para o destino final.

Casa de Farinha: onde é produzida a farinha de mandioca, principal alimento dos escravos.

Olaria: alguns engenhos produzem seus próprios tijolos, telhas, formas e utensílios.

Casa de Aguardente: onde ficam os alambiques que fabricam a cachaça.

Oficinas de Manutenção: onde são executadas as demais atividades necessárias ao bom funcionamento do engenho, como ferraria, serraria, carpintaria etc.

Armazéns: onde o açúcar é estocado para ser transportado e vendido. Quando é utilizado o meio fluvial, às margens dos rios são construídos telheiros que protegem o açúcar a ser embarcado para o porto. Na cidade fica o armazém que abriga as caixas a serem exportadas. O armazém pode pertencer ao próprio senhor de engenho ou a um mercador. Mas, antes de embarcar, as caixas de açúcar precisam ser pesadas no Trapiche da Cidade.

Do crescimento da lavoura canavieira

A expansão dos canaviais na colônia provocou muitos conflitos com os nativos, de norte a sul da província. Alguns particularmente sangrentos. Primeiro, por causa do desmatamento. Não só pela extensão das plantações, mas também pela quantidade de lenha necessária para alimentar as caldeiras.

Segundo, pelo tipo de trabalho, intensivo, que acabou levando primeiramente à escravização de dezenas de milhares de nativos que tanto combatemos. Esse tipo de atividade na lavoura, representou para os nativos uma mudança muito radical no estilo de vida de todas as tribos de Santa Cruz. Os Tupiniquins, que participavam sem problemas da plantação do trigo em Piratininga, não quiseram saber da cana-de-açúcar.

Alguns nativos se deslocaram para áreas não ocupadas, outros se integraram à fazenda prestando algum tipo serviço. Em São Sebastião, até o Tratado de Santa Luzia, os nativos foram a principal mão-de-obra no campo.

Em São Vicente, apesar de terem sido pioneiros nesse tipo de plantação, os engenhos canavieiros não renderam tão bem e logo perderam terreno para a concorrência das capitanias daqui do Nordeste.

Creio que a forma como os Lusitanos exploram a terra é precária. As plantações não são devidamente estudadas, mas feitas na sorte, na base da tentativa e erro, provocando um estado de guerra entre o homem e a mata. Uma lavoura, após desgastada, é imediatamente substituída por outra, sem nenhum sistema de recuperação da terra.

É possível que a concessão fácil de sesmarias deva estimular essa exploração pouco cuidadosa. Isso chega a gerar falta de alimentos nas vilas, pois tudo nos engenhos é açúcar e tabaco. A nossa capital vem enfrentando sérios problemas de abastecimento, com os moradores chegando a não ter o que comer. O Governador-Geral tem feito esforços sinceros para direcionar o plantio e resolver a crise.

Tal problema já não ocorre em São Sebastião, pois lá a plantação é mais diversificada. Nos campos são cultivados também mandioca, legumes e banana, arroz e batatas.

Do trabalho nos engenhos

Os cativos madrugam para se apresentarem ao feitor, que lhe dá as ordens do dia. Em regra, os escravos são divididos em turmas de dez ou quinze trabalhadores. Às nove horas há uma pequena pausa para refeição, e três horas depois outra para o almoço. Depois continuam trabalhando até o fim da tarde.

Preparar o campo, abrir sulcos para o plantio, arrancar as ervas daninhas, fazer a colheita, cortar a cana, retirar as folhas, reunir as canas em feixes para transporte: esse é o trabalho no canavial. As crianças ajudam em algumas tarefas mais leves, particularmente na condução dos carros de boi, levando a cana para casa de engenho.

Com a chegada da safra na casa de engenho, a carga de trabalho aumenta, pois a moenda não pode parar, funcionando dia e noite por até 20 horas, pois a cana colhida estraga se não for logo processada. Na moagem, certas tarefas costumam ser exercidas por mulheres, como trazer a cana para ser moída e recolher o bagaço. O trabalho de enfiar a cana na moenda exige muito cuidado, pois um descuido pode custar a perda de uma mão ou braço. Esse ritmo intenso dura de agosto a maio.

Todas as etapas de produção do açúcar são supervisionadas. Nos canaviais, os escravos trabalham sob o olhar atento do feitor de partido, que muitas vezes é também um escravo. Na casa de engenho, o feitor da moenda é responsável por garantir a qualidade da prensagem. As mulheres também podem exercer a função de feitor, supervisionando o trabalho de outras mulheres. Todos eles estão submetidos ao feitor-mor, o administrador de todos os escravos.

É comum ver negros livres trabalhando nos engenhos, ganhando seu salário e substituindo trabalhadores brancos. Um mestre de açúcar chega a ganhar muito bem e a ser disputado pelos senhores de engenho. Afinal, é ele quem controla o beneficiamento do açúcar, o responsável por boa parte de sua qualidade final. Por isso ele prova o caldo a todo o momento. Um auxiliar de mestre de açúcar, mesmo sendo escravo, também ganha uma gratificação por seus serviços.

Outras funções ocupadas por negros libertos são as de feitor-mor, feitores de partido e de moenda. Há ainda o pescador, o pastor de gado e o fornecedor de lenha, entre outras atividades.

Da plantação de tabaco

A plantação de tabaco é uma atividade complementar em muitos engenhos. Assim como a cana, também requer trabalho especializado. Enquanto nosso açúcar é destinado à Europa, a maior parte do tabaco produzido no Nordeste é destinado ao Continente Negro, para ser trocado por escravos. Por isso o governo tem total controle sobre sua comercialização.

Soube que nas capitanias do sul, principalmente em São Sebastião, a cachaça é o produto preferencial de troca.” – extraída da carta do Padre Giovanni Antonio Andreoni, reitor do Colégio dos Jesuítas da Bahia, ao Padre Bernardo Paes Freire.

OS LAVRADORES

Nos engenhos, além de escravos, há os lavradores, rendeiros e meeiros, brancos, mestiços ou negros livres, que não têm dinheiro para ter seu próprio engenho. Arrendam a terra ou moem sua cana nos engenhos.

Os lavradores independentes são proprietários de suas terras e possuem escravos, mas não têm capital para a moenda. Dependem, assim, da moenda dos senhores de engenho, onde beneficiam sua produção. Para isso, pagam 50% do açúcar produzido.

Os lavradores de partido também possuem escravos, em média de 10 a 15, mas não são proprietários de suas terras. Eles plantam em parcelas das terras do engenho, chamadas partidos. Pelo uso do solo e pelo beneficiamento, pagam também 50% do açúcar produzido. Os partidistas têm prestígio social, participando do governo municipal, e alguns se tornam senhores de engenho.  As casas dos lavradores partidistas são feitas geralmente de taipa, mas bem telhadas.

Esses acordos são estipulados em contrato. No Nordeste, o partidista é obrigado a pagar, além do uso da casa de engenho, o arrendamento da terra, ficando apenas com 33,5% a 37,5% do açúcar produzido. Em São Sebastião, não há o custo do arrendamento.

No contrato, o lavrador explora o partido por um período de nove anos, renovável por mais nove. Esse modelo se deve ao fato de que, na primeira plantação, a terra demora a dar cana. Caso não renove, o lavrador pode ficar na terra pelo tempo necessário para tirar proveito de suas benfeitorias.

O senhor de engenho se obriga a moer a cana. Se não o fizer, deve ressarcir o lavrador pelo prejuízo. Em contrapartida, o lavrador tem de entregar um mínimo de cana estipulado. Dependendo do contrato, o transporte para a moenda podia ficar a cargo do senhor ou do partidista. Cabe ao lavrador fornecer parte da lenha usada na moenda. Fora a cana, ele pode plantar em seu partido o que for necessário para a sua subsistência e a de seus escravos. Os escravos que trabalham com os lavradores não trabalham menos que os do engenho, mas a interação entre eles é bem maior.

Se o senhor de engenho quiser vender suas terras, o novo proprietário deverá respeitar o contrato firmado. O lavrador também pode passar o seu contrário adiante, mas só com autorização do senhor de engenho, com exceção de herança ou dote de casamento.

Na condição de partidistas há nobres, viúvas, mercadores, padres e gente do povo, alguns com mais de 100 hectares e mais de 40 escravos. Outros, com poucos escravos e com agricultura familiar, produzindo milho, farinha de mandioca e açúcar. A relação com o senhor de engenho pode ser de conflito ou de cooperação. Não é incomum que o senhor de engenho queira explorar os lavradores. Estes podem reagir e se aliar aos mercadores.

A maioria dos grandes proprietários só foi capaz de ocupar suas terras com o auxílio de lavradores de subsistência. Quando essa parcela de terra se torna necessária a um empreendimento de vulto, os lavradores correm o risco de serem expulsos. Na Capitania de Cabo Frio, ocorre uma rebelião de lavradores contra os filhos do Visconde de Asseca. A líder é uma viúva, proprietária de terras, que havia sido prejudicada em disputa de demarcação de terras e pelo aumento de impostos.

As ordens religiosas também lançam mão de lavradores de partidos. As ordens eram muito assediadas nesse sentido porque os religiosos não pagam dízimo, e os partidistas acabavam se beneficiando disso. Mas agora tudo mudou. Uma Carta Régia acaba de ser enviada ao Governador-Geral, determinando que os lavradores que arrendam terras nas fazendas das ordens têm de pagar dízimo. E as ordens também devem pagar dízimos das terras que recebem por doação ou que são compradas de particulares. Apenas as terras cedidas pela municipalidade ou pelo governo da capitania estão livres do dízimo.

A ROÇA

Atualmente, de 80 a 90% dos colonos vivem da terra. O ritmo da colheita comanda a vida cotidiana, mas o solo é explorado sem muita técnica. Os nativos ajudam no trabalho da roça, pois as pequenas clareiras na mata não representam perigo a eles. Roceiros e nativos acabam desenvolvendo uma boa relação, com troca de conhecimento e até casamentos.

Brancos e negros forros transformados em roceiros também contribuem com tradições de seu continente de origem. Porém, a roça não é um mundo homogêneo. Há roceiros que investem na escravidão, bem como no comércio com as vilas. Com o início da mineração, alguns largam a roça familiar e começa a abastecer as vilas mais importantes, tornando possível o investimento em escravos.

O ARRAIAL

Nas bordas dos engenhos, muitos serviços se fazem necessários, fazendo surgir os arraiais. Vaqueiros, lenhadores, fornecedores de alimentos, pedreiros, carpinteiros, feitores, advogados e cirurgiões-barbeiros ganham altos salários dos senhores de engenho. O artesanato se desenvolveu na região canavieira: chapéu de palha, cachimbo de barro, redes, tamancos, faca de ponta. O açúcar abundante fez surgir geleias, compotas e doçaria.

AS PRAGAS

A vida no campo não é nada fácil, seja para os roceiros, para os senhores de engenho ou para os missionários. A lavoura é constante vítima do ataque de saúvas, gafanhotos, grilos e pragas de todos os tipos. O “verme negro” é o que ataca os canaviais, apodrecendo a cana por dentro. O tabaco, utilizado no comércio de escravos, também é frequentemente devastado por pragas.

Pragas de ratos podem acabar com os grãos armazenados. Os trabalhadores podem ser atacados por cobras venenosas a qualquer instante, bem como por enxames de vespas e marimbondos.

Os colonos desconhecem o perigo representado pelos mosquitos, particularmente o mosquito Aedes trazido do Continente Negro pelos navios negreiros. Eles acreditam que os pântanos e manguezais emitem vapores ou possuem seres não visíveis que causam as febres. Ou que animais peçonhentos, como sapos e répteis, contaminam as águas.

Outro perigo é a técnica das queimadas, herdada dos nativos, que muitas vezes saem do controle.

Somado a todos esses inconvenientes, há ainda o risco de ataques de criaturas e outras ocorrências sobrenaturais.

Published in: on 10 de janeiro de 2019 at 19:12  Deixe um comentário