Das Minas e da Mineração

EM BUSCA DO OURO

“Desde as primeiras viagens à Terra de Santa Cruz, nossa gente escutou histórias sobre cidades e montanhas de ouro e prata no interior do continente, mesmo antes de Pizarro chegar ao litoral do Império do Sol. Um ano antes, três degredados de São Vicente partiram rumo às cordilheiras escoltados por um exército tupi. Entretanto, ao retornarem, encontraram seu fim nas mãos dos Guaranis. Após a descoberta das minas de Potosí, nossos colonos se embrenharam nas matas, subiram montanhas e atravessaram rios à procura do El Dourado. Até encontrarmos nosso final feliz nos Campos dos Guatacás, essa busca pelas riquezas minerais foi repleta de altos e baixos, muita expectativa e ainda mais desapontamentos.

Das Minas de São Vicente

Pouco se fala, na província e no Reino, ou mesmo no estrangeiro, sobre as descobertas de minas aqui no planato piratiningano. Após revirarem as terras do litoral de São Vicente, os vicentinos partiram para o interior. Em 1561, enviaram à Coroa mostras dos metais encontrados, supostamente um ouro tão bom quanto os da Costa do Ouro, no Continente Negro. Nunca entendi porque o achado despertou tão pouco interesse da Coroa. Mas a exploração do ouro de lavagem foi sendo feita esparsamente pelos vicentinos. Posteriormente, outros achados foram feitos no litoral, em área próxima das terras castelhanas.

Foi em 1589, já em tempos da União das Coroas, que o minério de ferro de Araçoiaba foi encontrado. O amigo há de se recordar das duas fundições que visitou no local. Em seguida, encontramos ouro no rio Tietê e também próximo à serra de Amanatykyra, que separa o planalto dos Campos dos Cataguás. Na época, houve quem levantasse suspeitas de que tais minas eram sobrevalorizadas pelos vereadores de Piratininga para ganhar benesses da Metrópole. Já em São Sebastião diziam que havia em nossas terras muitas minas e muito ouro, e que os bandeirantes as escondiam para evitar a taxação e não permitir que o ouro chegasse a Castela. Talvez a verdade se encontre em algum lugar no meio do caminho.

As riquezas da capitania eram reais, mas não abundantes. Para a gente daqui, o que havia dava pra tocar a vida. E era fácil obtê-las, mas só se recorria a elas quando necessário. Até o Tratado de Santa Luzia, que tanto custou ao amigo implementar, os escravos nativos rendiam mais do que o ouro em uma economia na qual quase tudo era obtido por meio de troca. Agora, com o ouro mais abundante, as coisas começam a mudar. Sinto que Piratininga se transformará de forma irreversível.

As notícias desencontradas sobre minas de ouro e prata na nossa região acabaram sendo prejudiciais à Vila de São Vicente, que passou a ser alvo de piratas antes da virada do século. Outro desdobramento foi quando o Rei designou o Governador-Geral para examinar pessoalmente o que havia de verdadeiro ou falso sobre os tais achados. Ele, pessoalmente, só percorreu mesmo o curso do Tietê. O resto foi realizado por alguém sob suas ordens, que atravessou a Amanatykyra rumo aos Campos dos Cataguás e chegou às cabeceiras do rio São Francisco, pensando equivocadamente ter chegado a Sabarabuçu. A viagem de nove meses, entretanto, teve resultado nulo.

O povo daqui afirma que as riquezas eram reais, mas mal exploradas e mal beneficiadas na época. Algum ouro certamente havia nas redondezas, mas o Governador-Geral acabou concluindo que os vicentinos exageravam sobre suas riquezas para promover a capitania. Na verdade, ele pouco se dedicou a fazer o que o Rei havia lhe determinado.

Em 1603, a Coroa decidiu expedir o Regimento das Terras Minerais para a Província de Santa Cruz, criando uma provedoria específica para tais assuntos, independente do Governo-Geral. E adivinha quem primeiro assumiu o cargo? O mesmo “diligente” governador! Este logo incorporou a lógica dos vicentinos, mais interessado no descimento dos nativos do que na descoberta de novas jazidas. Duros tempos para o nosso gentio…

Em 1616, uma grande tropa partiu para o norte da capitania, sem nenhuma participação do governo, uma iniciativa inteiramente particular de nossos bandeirantes. Eles percorreram os caudalosos cursos d’água que riscam o coração do continente até chegar à Capitania do Maranhão. Outra entrada, que durou de 1618 a 1620, partiu para o lado oposto, chegando a Nova Castela. Ambas fracassaram em atingir seu objetivo. Desencantada, Castela fez novo regimento e decidiu conceder aos descobridores as jazidas encontradas, cobrando apenas o pagamento do Quinto. O próprio texto do regimento faz referência às missões inúteis dos enviados especiais da Coroa.

Das Minas de Paranaguá

Curiosamente, mais sucesso tiveram as entradas que desceram a nossa costa, ainda no século passado. Como era comum naqueles tempos, o objetivo era capturar os Cariós, mas os bandeirantes acabaram encontrando ouro de lavagem na ilha da Cotinga. Apesar disso, o povoamento regular da região só ocorreu décadas depois, o que não é difícil de explicar. Por muito tempo houve dúvidas a quem pertenciam aquelas terras. A Vila de Yguape, por exemplo, havia sido ocupada antes por Castelhanos, os mesmos que atacaram a Vila de São Vicente após a partida de Martim Afonso. E Yguape também virou região de lavra rio acima. Ali foi autorizada uma casa de fundição para marcar o ouro. À época de sua chegada, em 1649, a extração do ouro de lavagem ocupava toda a costa de Yguape a Paranaguá.

A Serra de Paranapiacaba foi vencida na altura de Paranaguá, primeiramente por um caminho a partir de Cananeia, dando origem a um novo arraial: Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. As novas lavras, estranhamente, continuaram sem animar a Coroa lusitana da mesma forma que havia desinteressado Castela. Sequer provocaram uma corrida de aventureiros para a região. A dificuldade na extração de ouro em quantidade razoável não parece compensar grandes investimentos, particularmente o uso de escravos africanos. O Provedor prometeu renda anual de 4 mil cruzados anuais a quem primeiro obtivesse 400 mil cruzados, e o título de Conde caso chegasse a 500 mil. Devo dizer que não conheci nenhum conde por essas paragens, nem o Padre Belchior, que lá esteve. Em 1680 foi elaborado o Regimento agora em vigor nas minas das capitanias de São Vicente, Itanhaém e Paranaguá.

Foi com certo aperto no coração que ouvi do Padre Belchior que muitos mineiros usavam clandestinamente o trabalho dos nativos, aproveitando-se da distância e do pouco caso da Coroa. Se, de fato, nem o brilho dourado faz com que as autoridades coloniais ponham os olhos naquela província esquecida, o que dizer do sofrimento de alguns nativos.

Devo frisar que, mais uma vez, todas as minas da região foram descobertas por meio da audácia e destemor de nossa gente, sem nenhuma ajuda da Fazenda Real.

Das Minas dos Campos dos Cataguás

No início dos anos 40, o Provedor das Minas determinou nova expedição em busca de Sabarabuçu. Mais uma vez, a administração colocava sua atenção em direção contrária a onde o ouro estava. Tal iniciativa deu origem à mal fadada experiência da Vila da Boa Sorte, que durou menos de dez anos. O amigo já havia deixado Piratininga quando chegaram os poucos sobreviventes dessa empreitada. Nenhum deles se mostrou animado a contar o ocorrido. É pouco provável que, atualmente, haja alguma testemunha viva a quem perguntar a respeito. O lugar exato da vila, assim como as razões de seu abandono, perdeu-se na bruma do tempo. Talvez sua vivência tenha algo a acrescentar sobre este sombrio capítulo de nossa história. Quanto a mim, junto-me à ignorância dos demais.

Vinte anos depois, o ânimo dos bandeirantes foi renovado com a iniciativa da Coroa em oferecer títulos de nobreza e outras recompensas àqueles que descobrissem tesouros minerais. Uma carta circular do Rei foi dirigida diretamente aos capitães bandeirantes, por serem estes considerados os mais aptos para a tarefa. Assim, a partir de 1672, eles retornaram aos Campos dos Cataguás saídos de Piratininga e Tabaybaté, dessa vez se fazendo acompanhar por um exército Tupiniquim. As tribos Tapuias foram empurradas para o norte e para o vale do São Francisco. Os Puris da Serra da Amanatykyra se espremeram para os lados do vale do Paraitinga.

A primeira bandeira varou os sertões do São Francisco e foi parar nas cabeceiras do rio Tocantins. A Metrópole foi informada de que a expedição havia encontrado ouro em abundância, mas sem nenhuma prova material do fato, pois poucos sobreviveram aos ataques dos nativos. Assim, uma outra partiu com a missão de confirmar tais notícias.

Essa segunda bandeira teve mais sucesso no combate aos nativos do que em sua missão original. Paralelamente, em 1675, uma nova expedição rumo ao sul descobriu as maiores minas de ouro de lavagem até então descobertas entre Yguape e Paranaguá. Contudo, todas as atenções estavam voltadas para a grande expedição organizada por Fernão Dias Paes, que anunciava a quem quisesse ouvir que era capaz de encontrar a Serra das Esmeraldas. Foi nessa época que assumi minhas funções no Colégio de São Paulo.

Dias Paes passou sete anos varando os Campos dos Cataguás. Ao contrário das expedições anteriores, ele não tinha pressa. Tratou de preparar o plantio de roças em forçados e longos períodos de repouso. Com isso, estabeleceu a rota que passou a ser seguida por todos os aventureiros depois dele e pelos atuais viajantes e tropeiros que seguem rumo às minas. A expedição seguiu até o rio Jequitinhonha e chegou até o local agora conhecido como arraial do Serro Frio. O grande capitão faleceu antes de retornar a Piratininga, acreditando que as pedras verdes que carregava eram as tão cobiçadas esmeraldas. Mas eram turmalinas, pedras de pouco valor.

Dessa expedição de Dias Paes saíram alguns capitães que fizeram sua fama em anos recentes. Acredito que esta década foi o auge dos bandeirantes vicentinos. Ao mesmo tempo em que Matias Cardoso enfrentava e vencia a Confederação dos Cariris, Domingos Jorge Velho derrotava o exército do negro Zumbi.  Enquanto isso, no interior, os bandeirantes finalmente encontraram as riquezas de Sabarabuçu. Todos eles saídos do planalto de Piratininga, com sacrifícios de suas vidas, privando-se do conforto do lar e da família.

O Provedor das Minas, o castelhano Dom Castel-Blanco, acompanhava com interesse essas entradas e decidiu partir para os Campos dos Cataguás para saber como estavam os achados. E não mais retornou, sendo assassinado em circunstâncias misteriosas em 1682. Sabemos apenas que, ao chegar à região, foi logo informado da morte de Dias Paes. É praticamente certo que Castel-Blanco, um sujeito realmente bastante empertigado e consciente de sua autoridade, encrespou-se com Borba Gato a respeito de equipamentos de mineração. As suspeitas recaíram sobre o bandeirante, mas não há certeza sobre quem disparou o tiro, e se a mando ou consentimento do genro de Dias Paes. Desde então Borba Gato anda sumido, e nossa tropa pouco ânimo tem para vasculhar aquelas serras atrás dele e de seus homens. E pouca competência, devo acrescentar.

Ouvi rumores de que Borba Gato teria trocado a liberdade pela revelação das minas ao governador de São Sebastião, Artur de Sá. Talvez o nosso caríssimo Padre Antônio possa confirmar tais histórias. Estive recentemente com o governador Artur de Sá aqui em Piratininga. Ele foi o responsável por comunicar à Coroa o achado do “ouro preto”, as pedras acinzentadas que escondem um ouro puríssimo. Provavelmente por essa razão, o Rei o incumbiu de verificar pessoalmente as minas. Mas, antes, houve por bem realizar uma missão diplomática no berço bandeirante. Mostrou sincero entusiasmo com meus relatos sobre a minha rápida passagem pela região. Partiu em março de volta para São Sebastião, a fim de preparar a sua viagem. Será, portanto, a primeira autoridade a visitar as minas.

De 1693 para cá, os bandeirantes encontraram duas dezenas de rios com ouro de boa qualidade. Ouro de aluvião, que se cata nas águas do rio, mas em abundância. Um pouco antes das notícias chegarem ao litoral, o governador anterior de São Sebastião especulava que os bandeirantes escondiam informações sobre as minas. Mesmo hoje, há quem afirme que as minas já existem desde a época do assassinato de Castel-Blanco, e que foram divulgadas porque já era impossível escondê-las.

Da minha visita às minas

Enfim chego ao motivo que fez o amigo solicitar-me esse relato. Quando Padre Belchior me pediu para visitar a região das minas, estranhei. Mas, acostumado que estou com suas profecias, não hesitei em procurar alguém que estivesse de partida para aquelas bandas, o que se tornou bastante comum nos dias de hoje.

Aqueles pouco acostumados a viagens pela mata optam por passar menos tempo nela, viajando de sol a sol. Pernoitam nas roças particulares ou nos ranchos. A hospedagem de autoridades e padres em viagem é praticamente uma obrigação. Apesar de mais cansativa, leva menos de 30 dias para chegar às minas.

Os bandeirantes preferem sua marcha peculiar, levando dois meses de Piratininga à região. Sempre evitam marchar de sol a sol, parando por volta de meio-dia. Viajam sem pressa, acampando, procurando o melhor lugar para caçar e pescar. Entram na mata atrás de mel e frutos, plantavam roças de milho, abóbora, feijão e batata nos caminhos.

Por sorte, meus companheiros de viagem tinham pressa. Por sermos um grupo pequeno, alcançávamos mais rapidamente os pousos já estabelecidos pelo caminho. Caminhávamos até o sol se inclinar. À medida que se penetra a região, as montanhas se tornam mais ásperas, os vales mais fundos, a natureza mais hostil. Quando nos sentimos aliviado por ter deixado pra trás a serra íngreme, vem outra, mais escarpada. Ambas cobertas por mata virgem, cortadas por desfiladeiros e precipícios, onde só é possível atravessar a pé. A região também é cortada por rios, os quais só são possíveis transpor em pequenas canoas, onde não cabem mais que dez homens. Fico imaginando aqueles que partem de Paratiy, tendo ainda que atravessar a Serra de Paranapiacaba. Não há, portanto, como chegar às minas com gado ou cavalos vindo de São Sebastião ou Piratininga.

Um dos acessos aos Campos dos Cataguás é um Peabiru que desce o rio Paraopeba. A margem oeste é habitada por aldeias Guaranis que não costumam nos oferecer problemas. Já do outro lado, as serras nos separam dos temidos Aimorés, que criam dor-de-cabeça aos colonos desde o litoral da Capitania do Espírito Santo. Assim, a margem oeste é a garantia de um caminho mais seguro para os bandeirantes.

Dias Paes criou nessa rota diversos pontos de apoio, com roças e criações de animais. Portanto, os primeiros arraiais da região não são mineiros, mas ranchos para servir de pouso às expedições. O mais antigo é Ibituruna, criado em 1674. No ano seguinte foi erguido o arraial de São Pedro do Paraopeba e, em seguida, Piedade do Paraopeba, nas fraldas da mencionadas serras. Esses povoados começam a crescer com as descobertas auríferas, ainda que eles mesmos ainda não tenham encontrado suas lavras. Mas são pontos de pouso essenciais para aqueles que, como nós, chegam do sul. Servem também como fonte de abastecimento dos arraiais de exploração.

Os arraiais mineiros são improvisados, não há terreiros ou praças. Eles são formados por uma rede de ruas irregulares e íngremes, um emaranhado de vielas, travessas e becos, nos quais se encravam pequenos pátios. As casas são de pau a pique, cobertas de telhas de barro. A criminalidade na região aumentou muito, pois é impossível manter a lei em uma área tão grande e tão movimentada.

Os Campos dos Cataguás se estendem por uma área maior do que a do Reino. Cheguei a caminhar por oito dias de uma lavra a outra. Os recém-chegados não fazem ideia do que vão encontrar por lá. Conheci homens que venderam todas as suas posses, mas que ainda não haviam encontrado a fortuna que tanto buscavam. Um homem sem lavra, sem um ofício, lá é visto pelos demais como peso inútil, um delinquente. Muitos viajantes são vítimas das febres do sertão, da cobiça, da fome e da indiferença. A liberdade de nada serve a essa gente.

Nos últimos cinco anos, 50 mil homens livres chegaram à região. Os bandeirantes chamam esses migrantes de mboabas, termo que os Tupis usam pejorativamente para se referir aos forasteiros. Só nos últimos dois anos, foram enviados mais de 200 mil escravos para as lavras. Dom João de Lencastre anda preocupado com o esvaziamento dos engenhos do litoral e faz de tudo para conter o êxodo. Apesar das boas intenções e competência do nosso governador-geral, não será tarefa fácil.

Essa migração não é um problema apenas para o litoral. Nos arraiais mineiros há pouca ou nenhuma preocupação com plantações e criações. Aqueles destinados a este fim não têm condições de sustentar tanta gente. A caça, a pesca, os frutos e o mel não sustentam os mineiros, os escravos e os aventureiros por muito tempo. Após o meu retorno, chegaram notícias de que o povo de lá vem enfrentando uma terrível fome. Mas Piratininga, com apenas 18 mil colonos ocupando o planalto, não tem condições de acompanhar a demanda das minas. Nossa produção sempre foi calcada na subsistência e trocas locais. Não se muda isso de uma hora para outra.

São Sebastião é que vem se esforçando para cumprir esse papel. Há algum tempo, inclusive, vem abastecendo São Vicente. Contudo, é complicado ter de passar por Paratiy antes de subir a serra, cujo caminho é difícil e pouco indicado ao transporte de carga. O bandeirante Garcia Rodrigues foi incumbido pela Coroa a abrir o novo caminho que ligue as minas a São Sebastião. Começou os trabalhos no ano passado, a partir de Vila Rica. O trecho já construído, pelo que me disseram, também não permite a passagem de gado ou cavalos.

Até a rota ser concluída, acredito que muitos mineiros irão morrer de fome com ouro na mão, pois os preços nos arraiais são exorbitantes, chegando a ser de 10 a 40 vezes superior aos praticados nas capitanias. Com isso, muitos mercadores não querem negociar no porto, para lucrarem mais no interior. O problema atinge também o mercado de escravos. Soube pelo Padre Antônio que os plantadores de São Sebastião exigem preços mais baixos aos comerciantes, provocando muitos atritos. Imagino que não deva ser diferente aí na capital.

Os caminhos são de grande preocupação para o governo da província. Sem eles, a região fica isolada, com fome e na atual desordem em que se encontra, à margem da lei e do controle da Metrópole. Com os caminhos, facilita-se o contrabando, a saída ilegal de ouro e a entrada de criminosos e espiões estrangeiros. São Sebastião e São Vicente, que tanto sofreram com ataques piratas no passado, voltam a se inquietar. É certo que, com a descoberta de ouro em abundância, a Província de Santa Cruz volte a ser alvo de interesse dos corsários franceses e neerlandeses.

Quando estive recentemente no porto de Todos os Santos, encontrei um irmão que voltava de Córdoba. Parece que os Castelhanos conjecturam que as minas encontradas são mais extensas que o até então anunciado. Consideram que a Metrópole não divulga as informações para evitar que ocorra uma corrida desenfreada para as minas antes que a administração colonial esteja devidamente preparada. O que seria um cuidado louvável. Eles esperam que a exploração do ouro no interior da colônia lusitana possa representar um refluxo do contrabando e da ocupação lusitana no rio da Prata.

O Governador-Geral de fato decidiu controlar as rotas para a região, preocupado tanto com o controle fiscal quanto com o esvaziamento de escravos no litoral. Determinou que todo o acesso às minas deve ser feito a partir do caminho que segue a partir de Tabaybaté, onde fica a Casa de Fundição. Até esta vila é possível chegar de Piratininga e pelo Peabiru vindo de Paratiy, pelo menos enquanto o caminho até São Sebastião não ficar pronto. A Capitania do Espírito Santo foi proibida de abrir caminhos diretos para as minas. E aqueles que sobem os vales do São Francisco e do Jequitinhonha deveriam seguir para o vale do Paraitinga até alcançar Tabaybaté. Tal desvio, no entanto, é impraticável. Claro que a rota que sobe o rio São Francisco continua sendo muito utilizada. A distância da capital é bem maior, cerca de 237 léguas, mas o terreno é mais plano, sem mata fechada, sendo possível atravessar o gado e percorrer a cavalo. Assim, tropeiros e mascates continuam a subir o vale com sua mercadoria.

Dos conflitos nas minas

O Governo-Geral pretende ir além de controlar os acessos à região, e começa a elaborar medidas para dar fim à desordem nos arraiais. Os bandeirantes de São Vicente e Itanhaém, por serem descobridores das lavras, e sem ter tido nenhum auxílio da Coroa na empreitada, julgam-se proprietários daquelas terras e com o direito de administrá-las. No entanto, os dois grupos são rivais desde o desmembramento da Capitania de São Vicente, e precisam aparar arestas pra se unirem pela causa em comum.

Em episódios recentíssimos e vitais para a integridade da província, os bandeirantes formaram a principal força militar da colônia, de forma que não julgam haver em Santa Cruz quem lhes seja páreo em combate. Para eles, só deve ter acesso às lavras aqueles que lutaram e arriscaram a vida para encontrá-las. Nos arraiais, bandeirantes e mboabas formam partidos rivais, e não gostam das intromissões da Coroa. Ambos lutam pelo controle das minas e do aparato administrativo que vem sendo rascunhado pela Metrópole. As diferenças entre os grupos são visíveis. O bandeirante é o homem descalço, o mestiço. O mboaba é o lusitano de botas altas.

Os preços abusivos dos produtos vendidos na região afetam a todos, mas os bandeirantes, acostumados a uma economia de troca, são mais hostis aos comerciantes. Os recém-chegados são mais diplomáticos e se relacionam melhor com os mercadores, e também com o governo da capital.

Outra diferença entre os dois grupos é que, em São Vicente, o trabalho de negros escravos é pouco usado por causa dos altos custos. Os vicentinos chegaram às minas acompanhados pelos velhos companheiros tupis. Já os mboabas chegaram com mais escravos, novas técnicas de mineração e ligações comerciais.

Não há ordem na região ou qualquer autoridade judiciária, militar ou administrativa. Os padres que lá encontrei envergonham a nossa fé. Muitos, acredito, são desertores de suas Ordens. Naquelas terras reina a anarquia e a lei é imposta pelo bacamarte.

Ao se despedir de mim, Padre Belchior disse que todo homem, ao atravessar a Serra de Amanatykyra, deixa ali pendurada sua consciência. Para o nosso irmão, as minas só servem para fazer as almas rolarem pelo barranco do inferno. Talvez tenha me enviado para lá na esperança de que compartilhasse de sua visão, que ainda me soa exageradamente sombria. Ou talvez o tenha feito só para que eu pudesse escrever esse relato ao nobre amigo.” – extraído das cartas do Padre João Pires Camargo ao Padre Maurício.

A MINERAÇÃO

Há duas modalidades de jazida: a lavra e a faisqueira. Lavras são as jazidas mais importantes, que necessitam de uma grande quantidade de mão de obra e de investimento. Faisqueiras são jazidas menores, cujo ouro pode ser extraído por um garimpeiro solitário ou com um pequeno grupo de escravos. O trabalho numa faisqueira pode ser tão pouco recompensador que alguns proprietários preferem enviar seus escravos e dar a ele um percentual do ouro encontrado.

Mineração exige trabalho duro. Se os bandeirantes fizeram a sua parte abrindo os caminhos, enfrentando os nativos e encontrando o ouro, os escravos fazem a sua passando o dia dentro d’água, batendo e transportando cascalho dos rios até as margens para ser lavado.

O regime de trabalho exige mão de obra especializada, o que faz aumentar o preço dos escravos oriundo da Costa do Ouro, no Continente Negro. Muitas técnicas de lavra foram introduzidas por eles. A dureza das condições e o espírito de desafio e aventura permitem a esses escravos relativa liberdade de ação e maior oportunidade de comprar a alforria. Além do ouro escondido, eles têm licença para batear nos dias santos e ao cair da tarde, quando as condições de trabalho se tornam mais árduas e pouco produtivas devido ao frio e à pouca luminosidade.

No início, era possível pegar ouro com as mãos. Utilizavam-se pratos de pau ou estanho.  A bateia, ferramenta introduzida pelos negros, mede meio metro de diâmetro e é feita de pau-cedro. Esses escravos se revelaram excelentes mineradores e metalurgistas, e conhecem o fabrico de enxadas, alavancas e cavadores. São obrigados a enfrentar as águas geladas das serras, nas quais entram às 10 da manhã, para buscar o cascalho em águas profundas, e saem por volta das 15h, por causa do frio. Submergem levando uma haste com anel de ferro e um saco na ponta no qual recolhem a areia. O conteúdo é colocado em canoas e levado para as margens, onde é beneficiado. Em algumas lavras já são utilizadas colheres de ferro.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:52  Deixe um comentário