Vida e Morte na Colônia

“Vossa Reverendíssima há de me perdoar pelo atraso em minha epístola. Sinto-me lisonjeado com a confiança depositada pelo Padre Antônio em minha pessoa. Infelizmente, quando o amigo padre me procurou a fim de comunicar-me de vossa intenção de reunir informações sobre os tratamentos em voga na província, eu já havia partido para as minas, de forma que demorou mais do que o razoável para ficar inteirado da proposta.

Apesar de todo o ouro, há muito carência de quase tudo pelos Campos dos Cataguás. Faltam plantações, falta gado, falta ordem e, claro, falta quem cuide dos enfermos. Em pouco tempo pude comprar para mim três negros e iniciar a minha própria lavra, ainda que bastante modesta. Trabalho não me falta, mas faltam recursos, o que me força a usar mais do que as teorias e regras gerais que aprendi em Coimbra. Foi preciso observar muito e entender a natureza ao nosso redor. Acredito que muito da minha exposição vos lhe será familiar e conhecida, mas as demais cousas não são fruto da imaginação, mas da experiência. A filosofia é que destila a experiência e remove o empirismo, produzindo as descobertas.

Não resta dúvida para nós que as doenças são uma advertência, uma punição divina, mas há outros dados a considerar. Na recente epidemia em Olinda, o físico enviado pela Coroa, em seu Tratado Único da Constituição Pestilencial, indicou como causa a ocorrência de um eclipse. Apesar de sabermos que estrelas e corpos celestes têm influência na ocorrência das pestes, não podemos nos conformar apenas com tais explicações quando há outros fatores envolvidos. As casas cheias de moribundos, as igrejas com seus cadáveres e as ruas repletas de tumbas sofreram também a ação do ar pestilento.

Como é de vosso conhecimento, os escravos são responsáveis por tirar das casas e das ruas todos os excrementos produzidos pelos moradores, carregando fezes e urinas em barris equilibrados na cabeça até a praia. As casas mais pobres recorrem ao mato ou ao quintal. Fossa é um artigo de luxo. O ar se torna irrespirável e propenso à propagação de doenças. Em São Sebastião, com suas ruas cheias de dejetos, iguala-se às condições insalubres da capital da província. Nos arraiais daqui, mal se dão ao trabalho de levar suas sujidades até o rio. Só em Piratininga tive a oportunidade de presenciar um asseio digno.

Nas minas, a extração de ouro é bastante rudimentar e pouco progrediu desde as primeiras lavras na capitania de São Vicente. O ouro depositado no fundo dos rios é extraído mais facilmente do que aquele que necessita de escavações profundas para ser retirado. Mesmo assim, a quantidade de acidentes com escravos é enorme. Os riscos à saúde aumentam na medida em que cresce a complexidade do trabalho. A estimativa de vida de um escravo mineiro é três vezes menor que a de um escravo de engenho. Devido à expectativa da riqueza, os mineiros obrigam seus escravos a um trabalho intenso, muitas vezes em circunstâncias precárias e com poucas pausas para alimentação. Só o frio das águas, lá pela metade da tarde, põe fim ao suplício. Contudo, é a hora que essa gente tem para, elas mesmas, procurarem o seu grão de liberdade. Muitos escravos caros de senhores pobres são vitimados por doenças.

Porém, as nossas condições não são muito melhores. A dureza do trabalho, a ambição e a falta de estrutura dos arraiais levam todos ao limite. Os barnabés, mascates, artesãos, feitores, soldados, mendigos e mineiros não vivem muito melhor que os escravos. Vivemos muito mais próximos destes do que dos fidalgos, comerciantes e senhores de engenho.

Não é possível enfrentar os desafios dessas terras sem recorrermos às práticas nativas, particularmente no que diz respeito aos medicamentos. Também temos na Europa ervas e substâncias curativas que usamos há séculos. Mas elas não conservam o seu potencial após a árdua travessia do Mar Oceano. Portanto, não nos é possível curar as doenças como as tratamos por lá. E ainda temos de enfrentar as novas doenças, por nós totalmente desconhecidas.

Em tais ambientes nossa Medicina é pouco efetiva. Não fosse o trabalho dos padres com suas bênçãos e curas, o esforço colonizador não teria o êxito que tivemos. Não é a toa que a população recorre aos sacerdotes sem pestanejar, pois são os Jesuítas os principais farmacêuticos, os responsáveis pelas maiores boticas de Santa Cruz.

Vejo com bons olhos a iniciativa da Coroa em estimular o cultivo de ervas medicinais, árvores frutíferas e alimentos de outras colônias por aqui. Soube que os Jesuítas do Grão-Pará são entusiastas desse projeto. Aos poucos, padres, médicos e naturalistas se debruçam sobre o vasto acervo de ervas e plantas do Novo Mundo para melhor conhecer suas propriedades curativas. Tais estudos já começam a sair em publicações no velho continente. Não quero dizer com isso que devemos abandonar os ensinamentos de Hipócrates. Os fundamentos de sua medicina, dos humores corporais, continuam sendo o nosso norte, nossa principal referência de uma saúde perfeita.

Dos Humores

Acredito que Vossa Reverendíssima esteja familiarizado com a teoria de que o corpo é composto por quatro grandes elementos naturais. Mas, em todo o caso, perdoe-me se o entedio com explicações desnecessárias. Os humores, em ordem de grandeza, são o sangue (ligado ao coração, quente e úmido), a fleuma (fria e úmida), a cólera (a bílis amarela, ligada ao fígado, quente e seca) e a melancolia (a bílis negra, ligada ao baço, fria e seca). A alteração em qualquer um desses elementos gera os males.

Cabe-nos, então, identificar o humor afetado através dos sintomas e, assim, purgar o excesso ou adicionar o que está em escassez. Isso é o que diferencia nossa medicina das práticas mágicas, pois as causas do fenômeno são desvendadas, seu funcionamento é compreendido através do conhecimento do corpo humano e, assim, chegamos a uma solução. A cura do corpo passa pela restituição do equilíbrio dos humores. Grande parte dos remédios ou tratamentos é elaborada com essa finalidade.

Contudo, a teoria humoral não nos permite concluir a forma como uma epidemia se espalha. Sabemos que o desequilíbrio dos humores é provocado por uma causa externa ao indivíduo, podendo ser o ar contaminado; as podridões em contato com o corpo; o ar demasiadamente seco, frio, quente ou úmido; o pecado dos corpos; os corpos celestes; o caráter da pessoa, o temperamento, a aparência e a afetividade. Mas não conseguimos desvendar como isso ocorre.

Nossa erudição é culminada com a experiência prática. Dessa prática é importante extrairmos conhecimento válido para o tratamento de casos semelhantes, ou o sucesso será mero acaso. Sangrar e purgar são os tratamentos mais difundidos, mas sem o olhar especializado não é possível conhecer com o que, quanto e como o doente deve ser medicado.

A sangria, por certo, é o tratamento mais simples, pois visa retirar o excesso de malignidade. O organismo é esvaziado do agente causador da desarmonia. Não é por outra razão que os barbeiros-cirurgiões se tornaram especialistas nisso, os afamados sangradores. A sangria pode ser ministrada até mesmo por escravos, seja por meio de incisões ou pelo uso de sanguessugas. Mas apenas o médico pode definir em que parte do corpo deve-se aplicar o tratamento. Se mal aplicada, o corpo do paciente pode enfraquecer excessivamente. Por isso há tantas queixas da prática de sangrias por pessoas sem o devido conhecimento teórico.

Já as purgas merecem ressalvas a sua aplicação. Seu objetivo também é colocar para fora os males que afligem o corpo, como quem purga os pecados. As formas que mais utilizamos são o vomitório ou a eliminação por baixo.

Já para recompor o que falta ao organismo, aplicamos drogas diversas. A via retal, os clisteres, é bastante usada, mas os novos medicamentos vêm ganhando maior vulto.

Das Doenças

Ainda que seja de vosso conhecimento a maioria das doenças que afligem a colônia, julgo pertinente organizar uma lista dos principais males que eu e meus colegas enfrentamos. Começarei com aquelas já existentes na Terra de Santa Cruz, com as quais nos deparamos quando aqui chegamos. Algumas não eram totalmente desconhecidas.

Lues – Não é exclusiva dessa região, sendo muito semelhante a nossa Lues Gálica. É uma doença contraída no pecado, também conhecida como mal-de-coito. Como toda doença venérea, uma obra do demônio. Infesta todo o corpo com tumores e úlceras virulentas. Porém, os remédios nativos a fazem sarar rapidamente.

Bouba – Manifesta-se como uma ferida na pele avermelhada, semelhante à framboesa. É transmissível e fácil de pegar, principalmente entre crianças. Tratamos com a aplicação de jenipapo na área afetada, secando as feridas. Ela atinge muitos negros escravos, causando enorme prejuízo econômico. Creio que se deve à alimentação deficiente, principalmente aqui nas minas, e à falta de higiene. Muitos classificam a doença como venérea, mas a forte incidência em crianças nativas demonstra o contrário. Além disso, a bouba só se manifesta apenas uma vez na pessoa.

Maculo – Essa verminose cria úlcera e inflamação no ânus, sendo comum entre os negros escravos. Talvez a conheça com o nome de “achaque do bicho“. Os Tupis chamam de Teicoaraíba. O maculo provoca forte dor de cabeça, fissuras no orifício do ânus, enfraquecimento corporal e pode levar à morte em pouco tempo. Já vi vários casos assim. A febre causada pela doença faz suar e desfalecer. Os vermes devoram o intestino. Essa doença é também conhecida nas terras quentes do Continente Negro e do Oriente. É normal a ocorrência de prisão de ventre, dores fortes seguidas de febres e insônias. Com os nativos aprendemos a aplicar a fumaça de tabaco a fim de evitar que insetos depositem larvas nas feridas, o que levaria à gangrena. Fazemos a lavagem intestinal pelo ânus dilatado, e também a introdução de ervas, fatias de limão, pimenta e pólvora para purgar. A erva em questão é a erva-de-bicho, que não pode faltar em nenhum arraial, vila ou engenho.

Suspeito que um mascate, que chegou às minas comigo, logrou desenvolver um método eficiente de cura. Ele havia comprado em São Sebastião escravos que logo se revelaram bichados. Poucas semanas depois, passou por mim escoltado pelos mesmos negros, todos sadios. Hoje ele procura negros achacados para comprar, o que é recebido como graça divina por seus senhores. Depois os revende pelo triplo do preço, todos bem dispostos, realizando um bom dinheiro.

Puru-puru – É uma dermatose contagiosa que provoca manchas brancas, mais comum nas capitanias da Bahia de Todos os Santos e de Pernambuco. Conheço apenas relatos. Não conheci ninguém que sofresse da doença.

Tétano – Essa nossa velha conhecida também já atormentava os nativos antes de nossa chegada. Aqui se dá proveniente de mordidas de cobra e outros animais venenosos, que, além das dores, pode provocar as infecções habituais. Começa com espasmos nas mandíbulas que depois se espalham pelo corpo, podendo quebrar os ossos. Provoca febre, dor de cabeça, dificuldade de engolir, taquicardia e rigidez muscular no abdômen. Uma forma horrível de se morrer.

Vista turva – Mais uma doença que não nos é desconhecida, mas que é muito frequente por aqui. Os males dos olhos acometem mais aqueles que têm as carnes quentes e secas. O mal causa dificuldade em perceber a luz escassa à noite ou no crepúsculo. Os recém-chegados à colônia são os mais suscetíveis à doença. Ela começa com uma dor de cabeça persistente e pode levar à cegueira.

Bicho-de-pé – Os nativos conhecem essa doença como Tunga. É uma pulga de areia que entra na pele e coloca seus ovos, causando vermelhidão, inflamação e ulcerações. Alguém pode perder os pés com isso.

Opilação – Doenças causadas por vermes causam cursos e podem matar pela violência com que atuam. É impressionante como essa doença ataca muito os cativos das minas. Eu mesmo fui acometido por ela assim que cheguei à região. Então tomei um sumo de erva-de-santa-maria com limões azedos, azeite-de-mamona, vinagre forte e pó de tabaco, mas se pode também usar açafrão. Tudo bem mexido e servido morno.

Espasmos – A pessoa perde a faculdade de respirar e deglutir, com a emissão de um horrível murmúrio, ao modo dos epilépticos. O primeiro sintoma é o ranger dos dentes. Em seguida, a boca se fecha de tal modo que é preciso abri-la com uma sonda de ferro. Corre-se o risco de asfixia durante o ataque. E a vítima também não consegue reter os excrementos. Não medicado a tempo, o doente sucumbe antes de vinte e quatro horas após a convulsão. O tratamento consiste de uma imediata incisão na veia, seguida de clisteres acres. Depois, devem ser dados sudoríferos. Persistindo a doença, ministrar uma cocção de ervas nativas, banhos úmidos e secos, fumigações de esterco de cavalo com aromáticos. Depois de enxugados os suores, passar um bálsamo de óleo de casca de laranja com suco de tabaco fresco no pescoço, na espinha dorsal e partes vizinhas.

Estupor – Doença crônica que ataca os nervos e causa profundo torpor nos membros, atingindo os tendões dos braços e dos pés. Decorre do resfriamento dos nervos, das veias, artérias, carne, membranas e pele. Como tratamento, sempre recomendo um bom banho de sol durante o dia. À noite, convém o ar aquecido das fumigações. Estas devem ser secas, da erva Ambiaembó ou de esterco de cavalo, queimados durante dez dias. A recuperação é lenda e os cuidados muitos: beber uma decocção de salsaparrilha e sassafrás; enxugar os suores; untar o pescoço, as espáduas e toda a medula espinhal ao calor do fogo; misturar gordura de cobra, vinho e pimenta. Os espíritos devem ser atraídos com sucção por meio de ventosas córneas. A parte afetada é livrada por meio de escarificações. Se tudo isso não bastar, devemos furar a pele com ferro em brasa e fortificar os membros enfraquecidos até que o muco dos nervos se dissolva.

Febres – Na língua nativa, febre é Akãngnundu, que significa cabeça latejante. Relacionamos geralmente ao humor da bílis e da cabeça. Elas vêm acompanhadam de vômitos e excreções. Algumas são próprias do tempo seco, ardentes e efêmeras. Cura-se borrifando água fria pelo corpo todo o tempo. Já as febres pútridas, associadas ao tempo chuvoso, são mais longas e muitas vezes fatais.

Envenenamentos – Os casos de envenenamento na colônia são comuns. As formas são bem variadas. A qualidade e a quantidade do veneno são fundamentais para o efeito pretendido. Há substâncias menos venenosas que outras, e aquelas bastante corrosivas não serão mortais se a quantidade for insuficiente. O mesmo ocorre no caso de tratamento. Se o veneno não for identificado corretamente, a cura é pouco provável. Médicos, botânicos e naturalistas se dedicam a identificar as substâncias venenosas do Novo Mundo e indicar os contravenenos para cada caso.

Os escravos guardam segredo das ervas fatais. Já ouvi falar de uma tal de amansa-senhor. Esta erva seria adicionada ao leite, vinho ou água, e servida ao senhor.

A mandioca, que aprendemos a plantar e comer com os nativos, é venenosíssima. É possível extrair dela o veneno para esse fim. Ele provoca cansaço, falta de ar, convulsão e pode ser fatal.

Agora discorrerei sobre as doenças que trouxemos ao Novo Mundo, inadvertidamente, através dos nossos corpos ou dos negros que aqui desembarcamos.

Bexigas – Foi a primeira grande epidemia que causamos. A varíola pestífera chegou junto com Cristoforo Colombo e destruiu várias populações nativas da Terra de Santa Cruz, matando mais do que os exércitos lusitanos e castelhanos juntos. Os Tupis a chamam de Mereba-ayba, a doença maligna. Eles são pouco resistentes à doença. Vossa Reverendíssima mesmo estava em São Vicente em 1662, quando ela dizimou tantos negros e índios que a lavoura chegou a estagnar por um período. A erupção cutânea se processa lenta e dolorosamente, atormentando a vítima com forte dor de cabeça e febre ardente. Provoca tosse, dificuldade de respirar e palpitações. Em casos avançados, apresenta delírios, espasmos e disenteria. Ao menos tem incidência única. Os doentes devem ser delatados para que seja possível conter a contaminação. A mortalidade é altíssima: de cada 10 contaminados, apenas um sobrevive, tornando muitas cidades desertas.

Sarampo – O sarampo atravessou cedo o Mar Oceano, trazido do nosso reino e também do Continente Negro. Assim como as bexigas, tem incidência única, provocando febre alta, manchas na pele, corrimento nasal, olhos inflamados, dor de cabeça e sono profundo. O sarampo já matou milhares de nativos, mas ainda assim é mais branda que as bexigas. As crianças parecem ser vítimas preferenciais da doença, que é mais comum antes da estação quente das chuvas.

Febre Amarela – Doença característica de regiões silvestres, florestas e cerrados, encontrada também no Continente Negro. Seus sintomas são febre alta, cursos, convulsões, delírio e hemorragias internas. Estas se manifestam com sangramento do nariz e gengivas ou manchas azuis ou verdes de sangue coagulado na pele. O sangramento generalizado acaba levando a pessoa à morte.

Febre hética – Ou ainda febre lenta, fraqueza no peito, sangue pela boca. São vários os nomes e vários os sintomas, mas suspeito estarem todos relacionados a uma só doença. Atinge todos os órgãos do corpo, principalmente os pulmões. Os nativos são vítimas indefesas, mas ela atinge a todos indiscriminadamente. Provoca tosse crônica, febre, suores noturnos, perda de peso e eliminação de sangue pela boca.

Difteria – Doença contagiosa bastante temida. Provoca fortes dores de garganta seguidas de morte.

Disenteria – Doença comum na colônia, que também chamamos de cãibras de sangue. Não podia ser diferente, considerando a falta de higiene pessoal. O sintoma principal são os cursos, mais frequentes em terras quentes, sendo derivados de problemas no fígado. Os Batavos, quando ocuparam Olinda, lograram desenvolver uma eficiente mezinha para a doença.

Malária – Doença infecciosa e crônica, que também chamamos de paludismo, comum na Europa e no Continente Negro. Os sintomas são febre, calafrio, cansaço, vômito e dor de cabeça.  As febres se manifestam com intensidade e frequência variáveis.

Banzo – Os senhores de escravos ficam exasperados com a melancolia sem fim que ataca seus escravos. Ela mata pela inanição e fastio, ou torna a pessoa apática, improdutiva. Não é difícil perceber que o mal deriva da saudade de sua terra de origem. Está diretamente relacionado ao aumento de casos de suicídio entre a escravaria.

Tifo – Essa doença é muito similar à malária, e às vezes a confundimos com aquela. Devemos ficar atentos às manchas vermelhas na pele para diferenciá-las.

Febre tifoide – Muito comum nas embarcações que atravessam o Mar Oceano, pois os meses confinados nos navios favorecem a contaminação. Produz febre altíssima, cursos intensos, tosse, dor de cabeça e de barriga. É possível a manifestação de manchas no corpo, sangramento no nariz, delírio, calafrios e fezes com sangue. Possui alto grau de mortalidade.

Escorbuto – O Mal de Loanda é mais comum nas viagens marítimas prolongadas. Ataca indistintamente todos a bordo, não importa se é a tripulação ou os escravos negros que viajam como carga. Acreditamos ser uma doença contagiosa que corrompe a massa do sangue, pois os primeiros sintomas são hemorragias nas gengivas, que logo ficam purulentas. Em seguida vem as dores nas articulações e as feridas não cicatrizam. A partir daí começam a cair os dentes. A doença torna as viagens pelo Mar Oceano uma aventura de grande risco. Cheguei a ter contato com a doença em São Sebastião, ao ser chamado para atender aos negros que haviam desembarcado com a doença.

Sobre essas duas últimas doenças, devo dizer que as condições das embarcações são desalentadoras. As viagens marítimas, além das tempestades e calmarias, têm as doenças como inimigas constantes. Apenas quando transportam membros da realeza e grandes autoridades costuma-se levar um médico a bordo. Mas, em regra, há no máximo um barbeiro-cirurgião atuando como sangrador, enquanto os padres auxiliam como enfermeiros. Azeite, vinagre e sal misturados com biscoito ou pão amolecido, ás vezes acrescido de pimenta, servem de sustento aos marinheiros e cativos. Pouca diferença faz se o destino da nau é a Terra de Santa Cruz ou as Índias, ambas são igualmente arriscadas no que diz respeito à saúde, apesar da discrepância entre as distâncias.

Das Curas

O conhecimento nativo tem propiciado muitas opções a serem usadas com eficácia como purgativos, laxantes, vomitivos e catárticos, limpando o organismo e restabelecendo o equilíbrio humoral.

Tenho apreciado bastante as qualidades estimulantes do tabaco, do café, do chá e do chocolate. Acredito que no futuro poderemos descobrir bons usos para essas substâncias.

Casos de loucura, delírios ou histeria, muito comum nas mulheres, por terem as paixões da alma mais afloradas e carregarem nervos mais frágeis e frouxos, nós temos tratado com emplastro de goma elemi.

Para as dores de dente mais agudas, recomendo pedra de sal embrulhada em teia de aranha.

No caso das bexigas e sarampos, o consumo de carnes, particularmente canja de galinha, produz bons resultados. É uma ocasião em que o escravo come esse tipo de alimento como se morasse na casa-grande. Isso não significa que sejam mal alimentados nas demais ocasiões. Os escravos vindos do Continente Negro, em regra, são robustos e aptos ao trabalho na lavoura.

Excrementos são normalmente usados nos tratamentos. Os enfermos são fumigados com fezes secas de animais, em geral vaca ou cavalo, particularmente no tratamento de maculo. Não devemos confundir com o uso de fezes e urinas, humanas ou de animais, nas chamadas curas ritualísticas. O uso de esterco como ingrediente tem base científica e é largamente utilizado na Metrópole: urina de touro para dores de estômago; fezes de rato em pó para cólicas; esterco humano, ingerido pela boca, para mordidas de cobra; xícara em jejum da própria urina para gonorreia, por dez dias.

Vinda da Europa, a Água da Bretanha tem se mostrado incrivelmente eficaz contra a malária e diversas febres. Soube que este medicamento foi desenvolvido a partir de estudos com a casca da Kina-kina, um arbusto da Terra de Santa Cruz. Vários boticários europeus passaram a testar a substância, uma vez que a doença ataca em muitos reinos. Não saberia dizer quem foi o pioneiro, pois são vários os fabricantes dessa receita milagrosa.

Lamento o fato de que as ervas identificadas como tendo efeitos afrodisíacos ou alucinógenos têm seu uso restringido, isso quando não são proibidas. Isso dificulta a pesquisa de tais plantas para fins mais nobres.

Não posso deixar de registrar o aborrecimento causado pelo empirismo dos barbeiros-cirurgiões. Eles aplicam erroneamente as sangrias, as purgas e os conhecimentos recém-adquiridos. Já os curandeiros nativos, reconheço que eles detém um saber especial que nos cabe desvendar, e estamos desvendando. Mas esses curandeiros não são capazes de compreender toda a extensão desse conhecimento. Da mesma forma, os barbeiros utilizam essas substâncias com o mesmo despreparo do nativo, diferenciando-se pouco das crendices e do curandeirismo.

E chego ao fim desse breve e sucinto relato sobre a medicina atual em Santa Cruz. Espero ter estado à altura da missão a mim confiada, e rezo para que a minha exposição chegue a vossas mãos em tempo útil.” – extraído da carta do Doutor Luís Gomes Camargo ao Padre Maurício.

DOS CURADORES

Há quatro tipos de profissionais dedicados ao tratamento de doentes na colônia: o médico, o cirurgião, o barbeiro e a parteira. O exercício dessas atividades, em regra, requer licença concedida pela Câmara Municipal. Exceções são os sacerdotes católicos, que também atuam oficialmente nessa atividade.

Cirurgiões e barbeiros são aqueles que fazem sangrias, extraem dentes, tratam de ossos quebrados e realizam pequenas cirurgias. Há pouca diferença nas atividades entre um e outro, sendo comum serem chamados de barbeiro- cirurgião. Os barbeiros-cirurgiões não podem aplicar remédios internos, que é exclusividade dos médicos, que, vindos da Europa, são em menor número.  Alguns povoados são tão pobres que só há um simples barbeiro-cirurgião para cuidar dos doentes. A Coroa não faz muita questão de sanar os problemas de saúde da colônia, então a remuneração de barbeiros-cirurgiões nas Câmaras é pífia. Quando há uma epidemia, paga-se caro por seus serviços.

Médicos são os profissionais formados, os eruditos. Já no século XVI, algumas colônias hispânicas já formavam seus próprios médicos, que estudavam sobre as terapias nativas. O mesmo não ocorre nas colônias lusitanas. A única formação possível é nas universidades do Velho Mundo: Coimbra, na Metrópole, e Montpellier, no Reino da França. O futuro médico deve aprender Latim, Filosofia e estudar Medicina por oito anos, passando por dez a doze exames públicos. E para começar tais estudos precisa ainda se enfronhar nas Letras, Física, Matemática, Ciências Naturais e Artes. A Universidade de Montpellier, mais antiga, conta com um jardim botânico que abriga plantas medicinais para a produção de remédios e pesquisas farmacêuticas. Mas seus altos custos só a torna acessível aos mais abastados.

Outra importante atividade ligada à Medicina é a de Boticário, aquele que fabrica os remédios. São geralmente de família humilde, com formação prática. Há muita desconfiança em torno dos boticários, pois é comum a venda de medicamento estragado ou inútil. Seu reconhecimento, sucesso e riqueza dependem totalmente da clientela. Por isso, é comum que as receitas dos remédios bem sucedidos sejam guardadas a sete chaves. Os Jesuítas relatam suas receitas quanto à elaboração e prescrição, porém escondem algumas informações teóricas.

A atividade de medicina é vetada para leigos, mas nem sempre é possível distinguir entre médico e barbeiro-cirurgião. A Junta do Protomedicato, na Metrópole, procura regular a atuação dos diversos agentes de saúde, com eficácia bastante limitada. O cirurgião é visto como um mero executor de práticas médicas pré-estabelecidas, enquanto o médico é um sábio que se baseia na ciência dos livros para analisar a saúde do paciente. Contudo, a realidade muitas vezes se impõe, particularmente nas colônias.

Para conseguir a licença, é necessária fazer algumas provas. A licença é concedida por dois oficiais da Coroa: o Físico-Mor e o Cirurgião-Mor. O Cirurgião-Mor aprova os cirurgiões, os barbeiros e as parteiras. São necessários quatro anos de experiência auxiliando um profissional reconhecido, além de um estágio de dois anos.  O Físico-Mor examina os médicos formados e licencia as boticas do Reino. Há forte presença de Cristãos-Novos entre os cirurgiões, médicos e boticários, alguns chegando ao cargo de Cirurgião-Mor e Físico-Mor.

Para as colônias, o Físico-Mor nomeia comissários para a fiscalização das atividades médicas e dos boticários. Esses comissários também devem ser médicos com formação universitária. Eles devem visitar as boticas a cada três anos, levando junto três boticários aprovados pelo Físico-mor, que servem como testemunha. Eles examinam se o boticário é licenciado, se pratica os preços ordenados por regimento e se as balanças e os pesos estão de acordo com o estabelecido. Devem ainda verificar, quando possível, se o medicamento produz o efeito desejado e se os ingredientes utilizados estão de acordo. Qualquer irregularidade é punida com a apreensão dos medicamentos e multa, exceto no caso de medicamentos fiscalizados nos navios ou nos portos, pois podem ter se estragado durante a travessia.

Na prática, há pouca diferença entre o conhecimento médico das universidades e o saber popular. Tal proximidade leva a persistente associação entre medicina e magia, ainda mais sendo a cura divina a forma mais efetiva de tratamento conhecida. Os curandeiros, como são chamados aqueles que praticam a arte da cura sem licença, são perseguidos oficialmente. Porém, quando necessário, a própria Câmara legaliza a situação deles se não houver um profissional disponível. O que, no caso da colônia, é mais regra do que exceção. Assim, a quantidade de curandeiros, particularmente de curandeiras, é bastante expressiva. Sendo as atividades licenciadas dominadas pelos homens, muitas mulheres, por pudor, não se deixam ser examinadas por eles, sendo requisitada a presença de uma curandeira para prestar auxílio.

Ao mesmo tempo, as autoridades coloniais e eclesiásticas tentam impedir o acesso da população àqueles cuja prática curativa escapa ao controle. Os curandeiros, mesmo quando reconhecida a sua eficácia, são considerados possuídos por demônios. Não são personagens originais da colônia, sendo muito populares nos reinos europeus. Com suas poções mágicas, oferecem não só a cura, mas também a localização de pessoas e objetos, a leitura da sorte e outras adivinhações. Quando são os escravos a realizarem a cura, estes são perseguidos pelas autoridades ligadas ao Santo Ofício.

DOS RELIGIOSOS

Mesmo aplicados na pesquisa da flora e na elaboração de medicamentos, os padres acreditam que a doença expressa uma doença da alma. Então, paralelamente à cura do corpo, é preciso sanar os vícios e a falta de fé, ou todo o esforço na recuperação do indivíduo será em vão. A confissão é considerada um remédio, pois aliviar a alma implica em aliviar o corpo.

Com a formação de médicos exclusiva à Metrópole, coube aos Jesuítas, e posteriormente às demais ordens, particularmente aos Franciscanos, a preocupação com a saúde dos colonos em Santa Cruz. Ao mesmo tempo em que estão atentos a absorver o conhecimento nativo, aplicam sanguessugas e torniquetes para amputação, fazem sangrias e purgas. A realização de sangrias era vedada aos religiosos, que não teriam o conhecimento necessário. Mas, devido à necessidade dos povos nas colônias, uma lei canônica permitiu aos padres tratar os doentes. Os colégios passaram, então, a ter enfermarias.

A especialidade mais cobiçada dos padres é a Cura Divina, capaz de curar ou apaziguar os efeitos das mais temíveis doenças. Entretanto, os padres santos não são muitos e, diante de uma epidemia, pouco podem fazer. Essa limitação gera críticas de favorecimentos na ação da Igreja, dando margem a teorias conspiratórias.

Ainda assim, a capacidade de cura dos sacerdotes católicos, o ardor com que alguns se lançavam ao trabalho nas enfermarias e o cuidado com os doentes fizeram com que os Jesuítas logo ganhassem proeminência no ensino médico da Universidade Coimbra.

Porém, ao serem eleitos pela Coroa para o trabalho missionário nas colônias, o Reino se viu subitamente desfalcado de eclesiásticos capazes de realizar Cura Divina. Nem mesmo as vilas coloniais se viram agraciadas com sua presença por muito tempo, pois eles logo se embrenharam pela mata a fim de expandir a fé cristã. Assim, o Reino se viu obrigado a investir na medicina do homem comum, pois não era mais sensato depender da proteção sacerdotal.

Com o desenvolvimento das técnicas medicinais e as leituras dos relatos sobre as propriedades magníficas das plantas do Novo Mundo, logo a predominância da Companhia de Jesus na Universidade começou a ser duramente criticada. O panfleto apócrifo Verdadeiro método de estudar defende a simplificação da escrita e uma reformulação pedagógica, acusando o isolamento cultural da Lusitânia e defendendo o racionalismo e os métodos mais modernos da Universidade de Montpellier. Não seria mais possível estudar anatomia dissecando o corpo de uma cabra, um dos obstáculos impostos pela moral religiosa.

DOS TRATAMENTOS

Na colônia lusitana, os nativos têm de se esconder dos colonos para usar seus métodos tradicionais de cura. Os negros, à noite na senzala, têm liberdade para tais práticas. Os brancos ficam entre a medicina colonial e os milagres da Igreja. Mas, em todos os casos, as plantas do Novo Mundo e suas inegáveis propriedades curativas acabam dominando as formas de tratamento. Tanto o empírico quanto o mágico.

Cirurgiões e médicos se dedicam a transformar a relação estreita entre colonos e nativos no interior em enciclopédias. Esses estudiosos não contam com o apoio da Coroa ou do governo colonial para juntar, registrar e divulgar todo esse conhecimento, nem isso faz parte da formação em medicina da Universidade de Coimbra, embora haja grande curiosidade acadêmica sobre o assunto. Muitos vêm ao Novo Mundo para pesquisar a fauna e a flora locais, seja pelo conhecimento ou pela busca de uma forma de ganhar dinheiro na Europa. O Boticário Real está reunindo informações para publicar a Pharmacopea Lusitana, a fim de ensinar as receitas mais usadas de forma bem acessível.

Os que mais se destacam nessas pesquisas são os padres da Companhia de Jesus, devido ao seu conato direto com os nativos, particularmente durante o século XVI, desenvolvendo uma invejável e rentável farmacopeia. Sem formação médica, os Jesuítas toma contato com as doenças e a arte de curar no dia a dia das aldeias e vilas.

Das plantas foram extraídos os benefícios da casca, raiz, folha, fruto e semente. Suas propriedades podem ser aproveitas in natura ou após fermentação, filtragem ou combinações com outros ingredientes. As fórmulas e tipos de remédios cobrem todo o repertório conhecido da medicina. Porém, há poucas indicações anestésicas. A criação dos remédios se dá pela experimentação, e os doentes servem como cobaias. Boticários e médicos anotam as observações da resposta ao tratamento, os detalhes do procedimento, os ingredientes e doses utilizadas até chegar ao melhor método curativo e à melhor receita.

As febres são um grande desafio para médicos e curandeiros, pois são sintomas de doenças muito diferentes. Entre os eruditos, discordâncias nos diagnósticos e classificações. Entre os curandeiros, dúvida quanto à dosagem, ao tempo de tratamento. Quando o sintoma é evidente e específico, a prática leva à repetição do tratamento com maior segurança.

Outro grande desafio é o contágio. Se não há certeza sobre como uma doença foi adquirida, ainda que se conheça seus sintomas e seus funcionamento, como impedir que ela se espalhe? As epidemias não conhecem cor nem status social. Podem ocorrer na terra ou no mar. Em um continente ou em outro, na costa ou nas montanhas, nas vilas ou nos campos.

Ainda que por motivação econômica, as epidemias entre os escravos são uma constante preocupação dos senhores, pois seu efeito é devastador. Então os senhores se empenham em cuidar dos seus escravos, assim como evitam que sejam presos, processados pela Inquisição ou que saiam a combater em nome da Coroa. Tampouco os mercadores de escravos são indiferentes às enormes perdas nas travessias. Em caso de contágio e proliferação da doença, a maioria dos tratamentos não é capaz de dar vazão. Mesmo os milagrosos.

Métodos preventivos passaram a ser aplicados para evitar determinados males. Recomenda-se manter a casa limpa. Em caso de óbito dentro da residência, abrir todas as janelas, limpar e defumar todo recinto e por cal branca nas paredes. Lavar as roupas do doente com frequência, usando sabão, vinagre e ervas aromáticas. Os colchões onde os enfermos deitaram devem ser queimados, e jamais vestir suas roupas, mesmo depois de lavadas.

As novas receitas despertam muita curiosidade na população, mas também receio por seu grau de experimentação. Por isso, o médico precisa ser muito convincente e aparentar muita seriedade para não ser difamado. Um importante trunfo são os relatos de curas bem sucedidas. O sucesso da prática, aliás, muitas vezes colocam barbeiros-cirurgiões em disputa contra médicos. A prática daqueles é, quantitativamente, superior a destes, não sendo incomum um cirurgião muito bem sucedido em seus tratamentos peitar a autoridade erudita de um médico. O juiz da disputa costuma ser o próprio paciente, um familiar ou o senhor do escravo doente.

Dos Medicamentos

Medicamentos simples são aqueles encontrados em forma pura na natureza, enquanto os compostos são preparados por misturas de plantas, às vezes envolvendo elementos minerais ou outros produtos, como cachaça, ouro em pó, esterco animal.

As farmácias da Companhia de Jesus muitas vezes são as únicas existentes nas vilas e cidades. A ordem possui boticas na capital, Olinda, Santo Antônio do Recife, São Sebastião, Vila de Todos os Santos e Piratininga, uma em cada capitania da província do norte. As boticas jesuíticas são instaladas nos colégios, anexas às enfermarias, e são as principais referência da colônia quando ocorre alguma epidemia. As demais boticas só foram autorizadas comercialmente em 1640. Antes disso, as drogas e medicamentos eram negociados nas lojas de secos e molhados. Mesmo havendo concorrência, a experiência e tradição dos padres garantem a preferência.

A botica mais importante da Província de Santa Cruz é a jesuítica na capital, elegante e provida de toda sorte de remédios. Ela serve como centro distribuidor para os demais colégios. O contato comercial privilegiado da cidade com a Metrópole garante o fornecimento de equipamentos e produtos importados mais frescos, importantes para a fabricação dos medicamentos.

Da Triaga Brasílica

Triagas são receitas à base de diversas substâncias com algum poder curativo, seja vegetal, animal ou mineral. Seu uso inicial era voltado ao tratamento de mordida de serpentes e venenos em geral. Posteriormente se tornaram remédios universais. Algumas triagas tornam-se populares, com muita aceitação e prestígio. No Velho Mundo, a mais conhecida é se a Triaga de Veneza.

Mais de um século de experiência dos Jesuítas em Santa Cruz levaram os padres da Companhia ao seu maior feito: a Triaga Brasílica. Sua origem deriva de uma gradual substituição das Triagas de Roma e de Veneza por substâncias nativas. Composta por 79 tipos diferentes de plantas, elaborada no Colégio da Bahia, é indicada contra mordida de cobra, cólicas intestinais, vermes, diarreia, melancolia, histeria, peste, malária, bexiga, sarampo, lues, anemia, doenças de pele, febres e convulsões. O sucesso em relação a qualquer tipo de envenenamento animal é particularmente prodigioso. Mostra também grande eficácia contra bexigas e sarampo.

O medicamento vem ganhando rápida fama internacional, considerado superior à Triaga de Veneza. Os Jesuítas, contudo, fazem questão de guardar o segredo da receita a sete chaves, desagradando às demais Ordens e até mesmo a alguns membros do Conselho Ultramarino.

A Triaga Brasílica possui substâncias de diferentes origens: raízes, sementes, extratos, gomas, óleos químicos, sais químicos, cipós, cascas, pós e outras formas vegetais. Ela é fervida como uma poção e exposta ao sol por seis meses. Nesse período, é mexida todos os dias, de manhã e à tarde. Porém, não deve ficar ao relento durante a noite. Há a recomendação expressa de não ser utilizada antes de passados seis meses.

DOS HOSPITAIS

A Irmandade da Santa Casa de Misericórdia, fundada em 1498, tem como missão o tratamento dos doentes e dos inválidos. Na Província de Santa Cruz, há sete Santas Casas: em Olinda, na Vila de Todos Santos, na capital, em São Sebastião, na Vila do Espírito Santo, em Piratininga e na Cidade Real de Nossa Senhora das Neves.

Os edifícios, no entanto, são bem insalubres, e por vezes são responsáveis por propagar o contágio. Por isso, não são usados para nenhum outro fim. Os próprios médicos os evitam, sendo a maior parte do trabalho realizado por religiosos e barbeiros-cirurgiões, em geral pretos e mulatos, que aprendem no local todos os cuidados e práticas da atividade antes mesmo de obter a licença municipal.

As Santas Casas estão mais associadas à morte do que à recuperação da saúde. Seus recursos são escassos, quando não inexistentes. Servem mais para garantir o isolamento do doente que não pode pagar um médico ou recorrer a um curandeiro.

As irmandades garantem aos associados assistência médica, jurídica e funeral. As irmandades de negros, além de prestar o mesmo tipo de auxílio, também ajudam na compra de alforria. Na colônia, a riqueza não tem cor.

DA MORTE

Os testamentos geralmente são declarados quando há o temor de não sobreviver a determinado acontecimento. No Nordeste, um mestiço só herda se a mãe for branca. Já em Piratininga, tal herança é vista como normal. Os escravos de engenho não são partilhados em testamento, para não quebrar a produtividade, ficando vinculados à propriedade. Quem dispõe de seus bens sem contemplar a Igreja corre o risco de não receber a extrema-unção ou não ser enterrado em solo sagrado. O enterro dentro da igreja era mais caro. Os negros são enterrados em pequenos cemitérios a eles destinados.

Os colonos temem morrer em pecado e ir para o Inferno, onde acreditam ter de andar em rios de lava, ter seus corpos invadidos por serpentes, os orifícios penetrados por animais repugnantes, e serem obrigados a comer de um cálice de fezes. O Diabo nunca se preocupou em desmentir tais histórias. Há ainda a possibilidade de passar pelo Purgatório, o árduo rito de passagem para a elevação da alma.

A morte por doença é aceita com resignação. Ela permite a preparação do indivíduo. As mortes repentinas é que deixam para trás revolta e indignação. Os rituais de purificação não dão conta. O morto poderia voltar para cobrar providência, como um fantasma.

A viagem para o além poderia ser atrapalhada por espíritos malignos capazes de fazer ciladas aos mortos. O morto, assim, seguiria vivo no túmulo, tendo a sepultura como outra residência. Sua interferência no cotidiano passaria a ser possível, fazendo justiça, arrancando línguas, fazendo vingança, punindo mentiras. O morto como fantasma poderia se manifestar. Para evitar isso, uma poção precisaria ser enterrada por um tempo no “mundo de baixo”.

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Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 0:38  Deixe um comentário