A INQUISIÇÃO

“Muito do que relato a seguir, se o faço, é devido ao recente falecimento do nosso grande mestre Padre Antônio Vieira. Talvez haja um inapropriado rancor em minhas palavras, por nunca ter perdoado, como um verdadeiro cristão deveria perdoar, a perseguição que o Santo Ofício fez contra ele.

Como bem o sabe, há muito não tenho laços com a Inquisição. Meu tempo de Visitador de Naus é passado, um passado do qual não me orgulho, mas tampouco me arrependo. Agimos com extrema violência contra os bruxos porque acreditamos que, dessa forma, seus feitiços perderiam o efeito. Cremos no poder redentor e purificador da penitência, do castigo físico que purga os pecados, a heresia, a falta de fé. Porém, não é possível construir um jardim limitando-se a arrancar as ervas daninhas. Por isso, nós Jesuítas buscamos formas alternativas de propagar a fé, mais inclusiva, mais acessível, menos burocrático, a despeito do rigor de nossa organização interna.

Compreendo que tenha recorrido a mim para escrever-lhe a respeito, pois não é sempre que se vê um jesuíta a serviço do Santo Ofício. Vou contar o que sei, do que soube, do que vi, e isso é tudo o que sei. Mas já é mais do que deveria saber, e muito mais do que deveria passar adiante. Saber de tais coisas é viver com uma espada de Dâmocles sobre a cabeça. Não temo por mim, mas pelo amigo, embora saiba que, se pouco temia o perigo há 30 anos, quando nos conhecemos, não será agora, no entardecer da vida, que a perspectiva da morte há de lhe perturbar o sono.

Da Inquisição no Reino de Portugal

A Inquisição lusitana é mais rigorosa na Metrópole do que nas colônias, e é natural que assim seja. Ao contrário do que fez nosso vizinho, a Coroa não instalou um tribunal na Terra de Santa Cruz. E tampouco autorizou aos Dominicanos para aqui se instalarem. O amigo nunca estranhou essa ausência? Pois a mim sempre trouxe comichões.

É bem verdade que, apesar da Ordem dos Pregadores ter estruturado o Tribunal do Santo Ofício, membros de outras ordens podem fazer parte deles. A falta de Dominicanos na província não seria óbice para a atuação do Santo Ofício. Eu mesmo sou prova disso.

No Reino de Portugal, Judeus e Cristãos conviviam bem durante o desenvolvimento das navegações, até que a Coroa se viu pressionada por Roma e Castela a instalar o Santo Ofício no reino. O estabelecimento do Tribunal, em 1536, provocou a migração em massa para Amsterdam e para o Oriente, onde o comércio sempre foi bastante lucrativo. O êxodo se intensificou em 1541, quando foram criados mais dois tribunais no Reino, um em Coimbra e outro em Évora. Em 1560, com a criação do tribunal em Goa, nas índias, os Cristãos-Novos que lá se fixaram vieram para Santa Cruz.

O Tribunal de Goa é o único tribunal colonial de Portugal. Já a Hispânia possui três, sendo um deles em Lima, capital do Vice-Reino de Nova Castela. O Tribunal de Goa tem jurisdição sobre todos os domínios lusitanos além do Cabo das Tormentas, incluindo Mussambiki, na costa oriental do Continente Negro. Dentre as terras ocupadas pelos Lusitanos, apenas as terras do Oriente ofereciam uma cultura nativa definida e consolidada que constituía ameaça ao Cristianismo.

Em 1620, durante a União das Coroas, o rei de Castela decidiu colocar um tribunal na Província de Santa Cruz. A população de Cristãos-Novos crescia na colônia, e muitos migravam para a Província do Rio da Prata, provocando protestos de Nova Castela. Concomitantemente com os avanços neerlandeses, os Cristãos-Novos eram percebidos como uma potencial ameaça. Entretanto, o Tribunal de Portugal resistia a qualquer tentativa de absorção por Castela, e viu a proposta como uma ameaça a sua influência na colônia. Os inquisidores lusitanos simplesmente ignoraram a determinação, mesmo quando cobrados poucos anos mais tarde. Por fim, o próprio Rei de Castela acabou se esquecendo da questão. Após a restauração do nosso reino, ninguém falou mais sobre o assunto, pois então era ao nosso Rei que não interessava estabelecer um tribunal do Santo Ofício em Santa Cruz.

Empobrecida por causa da União das Coroas e das perdas territoriais para os Neerlandeses, a Coroa lusitana dependia muito do investimento dos Cristãos-Novos. Assim, interessava a ela que Santa Cruz continuasse sendo uma espécie de porto seguro para Judeus e convertidos. Mas não se trata de um ambiente tão seguro assim, como bem sabe.

Mesmo à distância, o Tribunal atua diretamente na colônia através dos bispos e dos oficiais da Inquisição enviados à colônia. Posso afirmar que a nossa estrutura no continente era bastante satisfatória. A falta de autonomia nas decisões é que atrasava tudo.” – extraído da carta do Padre Estevão ao Padre Maurício.

O Tribunal do Santo Ofício

O Tribunal do Santo Ofício lusitano é formado por um tribunal central, sediado na Metrópole, chefiado pelo Inquisidor-Geral e um Conselho que funciona como órgão assessor; dois tribunais distritais, um em Coimbra e outro em Évora; e um tribunal colonial, em Goa. A autoridade maior é o Papa, mas, no regime do Padroado, há também a autoridade do Rei.

A hierarquia desse tribunal segue paralela a dos tribunais judiciais, mas as execuções são feitas pela justiça secular. As condenações, às vezes, podem ser revista pelo Rei. Tanto o Clero quanto a Coroa podem influir em um processo inquisitorial conforme seus interesses.

Dos Oficiais do Santo Ofício

Quadro de oficiais da Inquisição: Inquisidor-Geral, Inquisidores, Deputados, Comissários, Visitadores das naus, Qualificadores, Promotores, Procuradores das partes, Notários, Meirinhos, Solicitadores, Tesoureiros, Alcaides dos Cárceres, Guardas e pessoal a serviço do Inquisidor-Geral, do Conselho e dos Tribunais, tais como Capelão, Médico, Cirurgiões-Barbeiros, Despenseiros, Cozinheiros, Porteiros e Familiares do Santo Ofício.

São todos homens rigorosamente selecionados, de quem se exige rígidos requisitos morais, virtudes reconhecíveis pela sociedade, limpeza de sangue e conhecimento das letras. Suas vidas são completamente devassadas, seus antepassados são avaliados, sua imagem pública é verificada no lugar onde vive e onde nasceu. Raramente o ofício é temporário, pois a continuidade serve de segurança para o Tribunal.

Deles é exigida fidelidade ao Rei, a Deus, ao Santo Ofício e à causa da Fé. Todas as ordens devem ser acatadas. E, acima de tudo, devem ser capazes do segredo. O segredo envolve tudo relacionado às atividades do Santo Ofício. Nada deve ser dito fora das paredes do Tribunal. E nada deve ser mostrado aos de fora.

Os oficiais ganham, em contrapartida, status social. Os cargos inquisitoriais abrem portas em dioceses e altos cargos eclesiásticos e civis. A Inquisição é um meio garantido de ascensão social.

Os postos mais importantes são ocupados exclusivamente por oficiais eclesiásticos: Inquisidores, Deputados, Qualificadores, Comissários e Notários.

Promotores, Procuradores e Meirinhos são oficiais civis. Os Alcaides são oficiais militares. Outros ofícios leigos são os Porteiros, Solicitadores e Familiares.

Aos Inquisidores, Deputados, Qualificadores, Promotores e Procuradores das Partes são exigidos formação universitária e conhecimento jurídico.

Aos Familiares é requerido o domínio das letras, leitura e escrita. Leigos por excelência, eles podem vir de todas as ocupações existentes, exceto a de artesão, pois os trabalhadores de ofícios manuais eram mal vistos.

O Inquisidor Geral

O Inquisidor Geral é indicado pelo Rei entre as figuras da nobreza pertencentes ao Clero. A nomeação pelo Papa constitui mera formalidade. Mas, enquanto o Rei é quem na prática escolhe o ocupante do cargo, só quem pode destituí-lo é o Papa.

Suas atribuições são determinar os regimentos; presidir o Conselho Geral; dar provisões a todos os oficiais e membros do Tribunal; fiscalizar os tribunais distritais e coloniais; determinar visitas às livrarias, aos navios e às comarcas; conceder licenças para impressão e reimpressão de livros; avocar processos dos outros tribunais; receber denúncias contra inquisidores; receber apelações antes das sentenças finais; resolver discórdias internas do Santo Ofício.

Atualmente, encontra-se no cargo o bispo dominicano José de Lencastre, desde 1693. Foi antecedido pelos arcebispos Dom Veríssimo de Lencastre e Dom Pedro de Lencastre.

O Conselho Geral

O Conselho Geral é escolhido pelo Inquisidor Geral e formado por três deputados, um secretário, um solicitador e um porteiro. Um de seus deputados deve ser inquisidor, zelando exclusivamente pelos crimes de heresia e apostasia.

Chega-se ao posto após ascensão nos degraus hierárquicos como oficial do Santo Ofício. A divisão entre 1ª, 2ª e 3ª cadeiras é por antiguidade, tendo todos o mesmo poder.

O Conselho Geral é responsável por fiscalizar todo o trabalho dos tribunais distritais, incluindo as instalações. O Inquisidor de Goa precisa prestar contas anualmente ao Conselho, que atua como Tribunal de Recurso para apelações das decisões dos tribunais da Inquisição. Revisa os perdões concedidos pelos inquisidores e decide sobre a comutação de pena. Revisam também os processos contra pessoas que só podem ser presas com a autorização do Inquisidor Geral, como os nobres, membros do clero e pessoas de elevada categoria social. O Conselho também é responsável por autorizar a entrega de presos sob fiança. Os inquisidores não podem remeter presos de um tribunal para o outro sem mandado do Conselho.

O Conselho expede as ordens para realizar as Visitações, visitas às livrarias, rol de obras proibidas, licença de impressão de livros novos e reimpressão, e prover os funcionários em seus cargos. Por fim, avalia as inscrições dos Familiares do Santo Ofício e a censura aos livros heréticos.

A Mesa

A justiça é ministrada na Mesa, que funciona diariamente, manhã e tarde, menos aos domingos e dias de guarda. Em regra, a Mesa é composta por três Inquisidores, um Promotor, dois Procuradores para defesa dos presos, três Notários, três Deputados, um Meirinho, um Alcaide do Cárcere, dois Solicitadores, Qualificadores e os guardas que julgarem necessários.

Os Inquisidores

Os padres inquisidores são as principais autoridades nos tribunais distritais e nas visitações. Ainda que os Dominicanos dominem a função, qualquer Ordem, regular ou secular, pode ocupar o cargo. Os inquisidores aprendem habilidades inquisitoriais específicas, independentemente da origem.

Os Deputados dos Tribunais

Os Deputados assistem os Inquisidores com seu conhecimento. Votam nas sentenças e podem fazer perguntas ao réu na Mesa. Cada Tribunal deve ter três deputados assalariados. Pode ocorrer de haver mais, mas sem salário, ao arbítrio do Inquisidor Geral. Só podem exercer funções previamente determinadas pelo Inquisidor Geral.

Os Notários

Os Notários escrevem todos os autos que passam pelos Inquisidores. Devem ser clérigos, e muitos deles são ligados à família real. A limpeza de sangue deve ser absoluta. A investigação sobre a vida prévia de um Notário é profunda, pois ele compartilha da intimidade dos Inquisidores e é responsável pelos livros da Mesa.

Sua função principal é escrever as perguntas feitas pelos Inquisidores e as respostas dadas. A fidelidade na redação dos depoimentos é essencial, pois essa é a base das sentenças. Segundo o regimento dos tribunais do Santo Ofício, qualquer ação processual deve ser registrada imediatamente em livro, por isso eles assistem a todas as fases do processo. O Notário é, portanto, ciente de muitas informações reservadas, com conhecimento quase integral da vida do Santo Ofício. Os Notários fazem também o inventário dos pertences dos presos entregues aos carcereiros. Não há nenhum Notário na colônia.

Os Qualificadores

Inquisidores responsáveis pela revisão dos livros e pela censura, os Qualificadores estão diretamente ligados à Mesa ou ao Conselho. O cargo é ocupado por teólogos e guardiães da ortodoxia. Precisa ser um eclesiástico, de letras e virtudes conhecidas, egresso da Universidade.

Os Qualificadores policiam a integridade da ortodoxia religiosa na literatura e na arte. Além de censurar, qualificam as proposições e reveem livros, tratados e papéis impressos. Em seus relatórios, não podem louvar as obras que analisam, apenas fazer anotações objetivas e impessoais. Devem visitar periodicamente as livrarias e inspecionar bibliotecas. Em Santa Cruz, há apenas um Qualificador, o Padre Roberto de Jesus, em Santo Antônio do Recife, exercendo essa função desde 1697.

O Visitador das Naus

A Inquisição vê o contato com o estrangeiro como um perigo para a integridade da fé. Quando um navio aporta, o Visitador se apresenta ao capitão, acompanhado de um Escrivão e um Familiar do Santo Ofício, e solicita a entrega de livros para a censura do Qualificador. O seu proprietário não pode vendê-los ou emprestá-los antes disso. O Visitador, então, indaga sobre a presença de estrangeiros não católicos que pudessem semear discórdia. Nas colônias lusitanas, houve um Visitador de Naus em meados do século XVII, sediado na Capitania do Maranhão. Atualmente, a função se encontra vaga, não havendo nenhum controle sobre os livros que chegam aos portos de Santa Cruz.

Os Comissários

Os Comissários são os auxiliares que atuam longe dos tribunais da Inquisição, uma função reservada a eclesiásticos de prudência e virtude conhecidas. Eles estão subordinados diretamente aos inquisidores, sendo a maior autoridade do Santo Ofício em sua região, aquele a quem devem se dirigir os outros oficiais e os Familiares do Santo Ofício. Não deve pairar nenhuma dúvida sobre a limpeza de sangue. Certa vez, um padre de São Sebastião foi recusado como Comissário porque a sua avó materna descendia dos nativos.

Os Comissários mantêm comunicação constante com os inquisidores e não agem sem receber ordens do Tribunal, pois só assim possuem legitimidade para procurar, arregimentar e ouvir testemunhas ou mandar efetuar prisões. Atualmente, há sete Comissários em Santa Cruz, todos eles sediados nas capitanias do Nordeste.

Os Comissários são auxiliados por um Escrivão, que, preferivelmente, deve ser também um eclesiástico. É obrigação de um Escrivão atender pronta e fielmente às ordens do Comissário. Sua função é escrever tudo o que as testemunhas disserem, sem acrescentar ou diminuir palavra. Na falta de um Escrivão, o Comissário pode recorrer a um padre que julgue idôneo ou a um familiar. O Escrivão pode ser substituído por ordens superiores.

Os Solicitadores

Os Solicitadores são responsáveis, no lugar onde residem, a chamar qualquer pessoa determinada pelo Inquisidor. Nessa missão, estão incumbidos também de levantar informações sobre a pessoa chamada. Fiscalizam o devido cumprimento das penitências e se alguma testemunha ou penitenciado deseja se ausentar da vila ou do Reino.

Os Familiares do Santo Ofício

Os Familiares são funcionários inquisitoriais leigos, ou seja, não necessitam pertencer ao quadro eclesiástico para fazerem parte da Inquisição. Têm como responsabilidade encaminhar denúncias de heresias e realizar prisões sob as ordens do Tribunal do Santo Ofício.

Os Familiares são uma via de contato direto do Tribunal com o povo. Diferentemente dos Comissários, eles estão completamente inseridos na sociedade colonial, tendo ampla circulação no meio em que vivem, e são reconhecidos pelos moradores da região como ocupantes do referido cargo. Ou seja, é notória a presença destes agentes na sociedade.

A admissão de um Familiar começa com um pedido de habilitação. Se a Mesa concordar com a abertura da vaga, pois nem sempre é necessário ter mais um Familiar no local, tem início a investigação sobre o candidato em sua terra natal. A Inquisição investiga a família, esmiúça a vida da pessoa, seus hábitos; analisa sua capacidade e aptidão para o cargo. O que mais importa é a fama pública e notória. Para o Santo Ofício, a fama confunde-se com a realidade. As fraquezas da intimidade, que qualquer pessoa pode ter, são deixadas de lado desde que permaneçam secretas.

A escolha de um Familiar deve ser cuidadosa, pois a boa fama do Tribunal depende da integridade de seus membros. A patente também dá status e abre portas ao Familiar, de forma que o Tribunal se torna responsável por qualquer transtorno que o oficial venha a provocar. O Familiar deve ser de confiança, agir com desenvoltura na sociedade, saber ler e escrever, ter cultura, genealogia, bom caráter e reconhecida capacidade de segredo.

A função é completamente vedada a quem tiver ascendentes Mouros ou Judeus, pois se receia que eventuais laços de parentesco com réus em potencial interfiram na ação do Familiar. Até a família da noiva ou da esposa é investigada. Recentemente, os mulatos também foram vetados.

Passando com louvor em todas essas etapas de avaliação, o candidato recebe a Carta de Familiar, que permite à pessoa agir em nome da Inquisição. O Familiar é habilitado para atuar na região onde reside, e não deve nunca servir em outro local. A sua importância para o Tribunal deriva justamente do seu conhecimento das pessoas no lugar onde vive. A quantidade de Familiares é bastante variável, pois depende muito da avaliação de risco de heresia em determinada área. Eles são autorizados a portar armas defensivas e ofensivas, mas somente espada, punhal ou adaga.

Os Familiares obedecem a uma rigorosa hierarquia. Nas inquisições e prisões, eles são meros executores das ordens recebidas.  Devem estar à disposição do Comissário, sempre que forem chamados. Também auxiliam os Visitadores das Naus.

O Familiar só pode entrar na Mesa quando solicitado. Caso isso não ocorra, deverá aguardar do lado de fora. Pode também receber a incumbência de guardar os presos ou reter os bens sequestrados até poder entregá-los ao Alcaide.

Sua função principal, na qual possui autonomia, é a vigilância da região onde vive, devendo comunicar ao Comissário, ao Bispo, ou diretamente ao Tribunal do Santo Ofício, qualquer desconfiança. Portanto, para os criptojudeus, um Familiar na vila é sinônimo de insegurança. As paredes passam a ter olhos e ouvidos.

Na capital da província, há mais de cem familiares, e outros 45 entre Olinda e Santo Antônio do Recife. Em Colônia do Sacramento são oito; cinco entre São Vicente e Vila de Todos os Santos; dois em Piratininga, um em Tabaybaté e dez em São Sebastião.

Confraria de São Pedro Mártir: irmandade formada exclusivamente por Familiares. Quando um Familiar perde a patente, o que é raro, ele é excluído da confraria. Os demais oficiais do Santo Ofício são membros honorários.

Os Visitadores

O Santo Ofício, de tempos em tempos, faz seus oficiais visitarem cidades e lugares. Os rumores de heresia apontam o destino dos Visitadores, que cuidam dessa justiça itinerante.

Os Visitadores viajam para cumprir suas missões, submetendo-se a todo o tipo de desconforto. Nem sempre há no destino uma casa religiosa para abrigá-los. Sua segurança pessoal encontra-se sempre em risco.

Para ser Visitador é necessária formação universitária, conhecer leis, cânones e teologia. A sua competência é limitada aos casos mais simples, como blasfêmia e bigamia. Os mais graves, nos quais sejam necessários métodos de interrogatório mais duros, são levados ao Tribunal da Metrópole.

A autonomia também é relativa, pois as ações são controladas pelo Tribunal por correspondência. O Tribunal pode até suspender as ordens dadas pelo Visitador. No entanto, nos casos que fogem ao comum, o Visitador recorre a seus assessores. A colônia propõe novos problemas, particularmente oriundos da cultura nativa, que exigem a flexibilidade dos inquisidores. As dificuldades da vida na colônia também tornam certos valores menos importantes, não sendo possível aplicar os mesmos critérios da Metrópole.

Das Visitações

A Visitação é uma inspeção periódica, determinada pelo Conselho Geral e realizada por um oficial, não obrigatoriamente um inquisidor. Na Província de Santa Cruz, durante a União das Coroas, houve visitação em 1591 e 1618, ambas no Nordeste; em 1605 no Sudeste; e em 1627 nas duas regiões. Em 1645 foi enviado um Comissário jesuíta à capital. As visitas não possuem periodicidade determinada, não se tratando de uma rotina do Santo Ofício.

As Visitações têm como principal objetivo não permitir que a distância entre as colônias e a Metrópole esgarce a fé dos colonos.  Mais do que punir heresias, o importante é prevenir a contaminação dos espíritos e garantir o compromisso religioso dos cristãos.

Assim que possível, o Visitador faz anunciar sua chegada e passa a ser a maior autoridade eclesiástica do lugar. Os funcionários da Coroa, os reinóis, juram-lhe colaboração e obediência. Ele deve apresentar a sua dupla credencial: a patente real e a delegação do Santo Ofício, pois se fazer passar por um oficial do Santo Ofício é uma grave heresia.

Depois que o Visitador se instala na vila, são publicados os Éditos da Fé e da Graça conclamando a confissões e denúncias de todos os cidadãos. Do alto do púlpito ou nos confessionários é informada a sanção para os omissos. O Édito é fixado na porta das igrejas e lido semanalmente. Nele estão elencados os desvios a serem investigados e determina o prazo para as confissões espontâneas, que garante a isenção de tormentos, morte e confisco dos bens, desde que a sinceridade prevaleça.

Na instalação do Santo Ofício, são convocadas todas as autoridades, o clero e o povo. Qualquer omissão pessoal a um ato do Santo Ofício pode ser vista pelo Visitador com suspeição e acarretar um processo.

Durante as Visitações, ocorrem confissões, denúncias, inquirições e ratificações.

Das confissões

O Santo Ofício exige a confissão, pois é através da confissão que o culpado é reintegrado à Igreja, restabelecendo o equilíbrio espiritual rompido no momento do delito.

No confessionário comum, o fiel conta ao padre seus pecados e as ofensas feitas a Deus. Na Mesa, ele deverá contar as heresias e apostasias, pois o Visitador possui uma autoridade superior a dos confessionários. Portanto, a Inquisição está acima do sigilo dos confessionários. Caso necessário, o Tribunal pode romper o sigilo da confissão.

A confissão põe frente a frente o Inquisidor e o confitente. Como todo padre, o Inquisidor deve encorajar a confissão, saber discernir a heresia das faltas banais, perceber os males do espírito e saber guiar o confitente. Porém, ele também é o juiz que deverá descobrir a verdade e pronunciar a sentença.

As confissões devem ser feitas no Tempo da Graça, o prazo previsto no Édito. Neste período, a pessoa é recebida com misericórdia. Findo o prazo, a iniciativa ainda é bem vinda, mas o confitente fica sujeito a penas mais duras e a um tratamento mais rigoroso.

Das denúncias

Durante as Visitações, a Mesa fica assentada geralmente no Colégio dos Jesuítas. As audiências são de manhã e à tarde. Nesse período, qualquer um pode correr à Mesa e denunciar o que foi presenciado, sabido ou compartilhado. As pessoas estão sempre prontas a registrar as faltas alheias. Eventualmente alguém acaba sendo processado devido a uma falsa denúncia. Se a falsidade for descoberta, o autor da denúncia vira réu.

Os inquisidores estimulam as pessoas mais humildes a denunciarem aqueles em posição mais prestigiosa na sociedade. Essa é uma forma dos trabalhadores atingirem seus senhores. A Inquisição, ao colocar a religião acima de todas as coisas, dá uma pitada de igualitarismo que a lei, por sua vez, trata de atenuar. É possível denunciar até mesmo os mortos, pois o seu exemplo não pode ficar impune, servindo de incentivo aos vivos.

O material colhido na denúncia é, então, confrontado com o que foi dito na confissão. Bastam duas denúncias para que se inicie um processo, desde que plausíveis e de certa gravidade.

A próxima etapa consiste em verificar a veracidade da denúncia. São ouvidas as testemunhas, os confitentes e os denunciantes são chamados para repetir suas declarações. Tudo isso em um intervalo de tempo que pode levar dias ou meses.

Das heresias e da apostasia

Heresias são todas as doutrinas opostas ao Cristianismo. Apostasia é a renegação da fé. Heresias e apostasias são vistas como ameaças ao bem comum, uma vez que ameaçam a integridade religiosa do Reino e das colônias.

As heresias são os ritos e cerimônias protestantes, maometanas e judaicas; práticas de feitiçarias; culto ao Diabo; superstições; adivinhações; bigamia; sodomia; bestialidade; solicitação; blasfêmias; desrespeito ao crucifixo; leitura e posse de livros proibidos. São considerados culpados também aqueles que prestam auxílio, conselho ou favores a hereges. Apenas os nativos não batizados são considerados inimputáveis.

As Adivinhações são frequentemente associadas ao Diabo. Qualquer ação pessoal que vá além das potencialidades da razão humana, sem intermédio da providência divina, é considerada pecado grave, fruto de pacto demoníaco.

Do Processo

O processo pode ser iniciado com uma denúncia ou com uma confissão. As testemunhas são chamadas para esclarecer casos sérios ou para apurar cumplicidades. Configurada a heresia, avalia-se a sua gravidade. A Mesa, então, vota sobre a prisão. Quando o caso é duvidoso ou muito grave, os deputados são consultados e a decisão deve ser aprovada pelo Conselho Geral.

Em Santa Cruz, os colonos temem pela chegada dos navios, que frequentemente trazem a papelada inquisitorial determinando prisões ou novos interrogatórios. Todo o processo deve seguir em absoluto sigilo.

No combate à heresia e à apostasia, os bispos agem com autoridade e remetem autos e presos ao Tribunal da Metrópole. Os bispos ouvem as denúncias e procedem à investigação, mas eles não fazem parte do corpo inquisitorial. A Inquisição teme delegar maiores poderes aos eclesiásticos de Santa Cruz, temendo a influência da Companhia de Jesus na colônia.

A ação do Tribunal do Santo Ofício na Metrópole em casos ocorridos na colônia é bastante lenta. Os oficiais na colônia não podem iniciar por determinação própria as averiguações, tudo depende das ordens da Metrópole. Eles encaminham as denúncias e suspeitas recebidas ao Tribunal e aguardam as ordens, que podem demorar quase um ano.

Uma vez autorizadas e realizadas as investigações na colônia, o resultado é enviado de volta à Metrópole. Em casos de maior complexidade, as testemunhas podem ser interrogadas novamente, e só então o Santo Ofício avalia a possibilidade de abrir um processo.

Após o material ser analisado pelos Inquisidores, a ordem de prisão chega por navio e o culpado é remetido ao Tribunal. Devido à distância e ao tempo de viagem, o segredo do processo também corre riscos. Além disso, aumentam também as chances de fuga do investigado.

As regras processuais são estabelecidas por lei, que são seguidas com alguma flexibilidade. São necessários sinais graves de culpabilidade para iniciar um processo. A fama pública conta muito contra o investigado. A investigação deve ser precisa e clara, não sendo permitida condenação por suspeita.

Das prisões

As prisões são feitas com ordem judicial. Em regra, o Meirinho é encarregado das prisões. Na Colônia, geralmente a prisão é conduzida pelo Comissário, com a ajuda dos Familiares. O réu é entregue ao primeiro navio que esteja de partida para a Metrópole. O capitão se compromete a entregar o preso na porta do Tribunal. Nesses casos, é comum que o preso negocie sua entrega e passe alguns dias livres na Metrópole. No Tribunal, o preso é entregue ao Alcaide do Cárcere juntamente com o respectivo mandado de prisão.

Os senhores de terra vivem em atrito com os oficiais do Santo Ofício, pois os cativos acusados permanecem presos por anos a fio, dando prejuízo a seu proprietário.

Assim que entram na prisão, o réu é advertido para falar em voz baixa e não se comunicar com presos das celas vizinhas. Em nenhum momento é informado ao preso o motivo de sua prisão.

Se o réu é um menor de idade, em vez do cárcere, ele fica sob a custódia de um dos oficiais do Santo Ofício, proibido de sair da cidade.

Do sequestro de bens

Quando o réu é levado ao cárcere, a primeira coisa a ser feita é o arrolamento e sequestro de bens. Sob juramento, a pessoa declara tudo o que possui, inclusive dívidas a cobrar ou a pagar. Mas não só a palavra dele basta. O juiz é notificado para fazer o inventário desses bens. O sequestro de bens é feito com minúcia e exatidão. Mesmo que o réu venha a ser absolvido no futuro, não havia nenhum tipo de indenização e ainda era descontado do montante as despesas com a alimentação e a carceragem. Isso quando os bens são restituídos. Os valores definitivamente confiscados não ficam com o Tribunal, mas com a Coroa.

Da fiança

O Santo Ofício admite fiança, embora entregue seus presos apenas em casos especiais, após ouvido o Inquisidor Geral ou o Conselho, geralmente em caso de doença grave. Quando sentenciado ao degredo, o réu é entregue sob fiança a um familiar para o cumprimento da pena.

Do interrogatório

Uma vez à disposição do tribunal, o réu é interrogado em três oportunidades. Na primeira, ele é indagado sobre suas origens. Na segunda, sobre suas culpas. Depois da terceira, o Promotor apresenta a acusação, quando o réu finalmente deve recorrer a um advogado de defesa. Para este fim, o tribunal oferece um Procurador. Antes das testemunhas serem chamadas, é dado ao réu mais uma chance para se confessar.

Ao longo desses interrogatórios, o réu permanece preso todo o tempo, sem comunicação com o exterior. E essa fase pode levar longos meses, principalmente quando as testemunhas não vivem próximas.

Devido a esse tempo e aos rigores do cárcere, não é incomum que o réu venha a falecer na prisão. Mesmo assim, o processo não é interrompido. Caso venham a ser condenados, seus ossos são entregues à justiça secular.

Do tormento

Se o réu não confessar e suas declarações não estiverem de acordo com aquilo que foi apurado pelo Tribunal, ele é levado ao tormento nos porões do tribunal, para que os gritos não atrapalhem o silêncio reinante e não incomodem a vizinhança. A lei isenta dos tormentos fidalgos, cavaleiros, doutores, juízes e vereadores.

São três os tipos de tormento: a roldana, o fogo e o potro, sendo este último o mais utilizado pela Inquisição lusitana. Apenas o Inquisidor, o Notário e os guardas podem estar presentes.

Roldana: coloca-se uma roldana num teto bem alto. Por ela se passa uma corda grossa de cânhamo. No réu, em trajes menores, são colocados grilhões nos pés. Virando os braços às costas, atam as cordas nos pulsos e o puxam para cima. Içam o corpo ao máximo e depois o deixam cair, mas sem deixar que a cabeça ou os pés cheguem ao chão, a fim de que o corpo receba o maior impacto. Dependendo do caso, repetem o processo até doze vezes.

Fogo: colocam o réu com os pés nus sobre um braseiro e passam manteiga na planta dos pés. Quando o réu se queixar muito da dor, colocam uma tábua entre seus pés e o braseiro e fazem uma pergunta. Diante de nova negativa, tiram a tábua.

Potro: modalidade de tormento na qual o réu, deitado de barriga para cima sobre uma prancha, tem os quatro membros atados em oito pontos: coxas e pernas, braços e antebraços. Os pés, mãos e cabeças são também presos de forma que não possam se mexer. Assim imobilizado, fazem-no beber várias garrafas de água, colocando pouco a pouco sobre uma cinta que lhe metem até metade da boca, para que sinta as ânsias de um afogado.

O Notário registra tudo, até imprecações e suspiros. Durante o tormento, a Inquisição não prossegue com o interrogatório até a morte do réu, nem mutila seus presos. Trata-se de uma etapa eventual, não sendo aplicada como penalidade, e sim como meio de obtenção de provas.

Não há distinção de sexo para o tormento a ser usado. A duração não pode passar de uma hora. Quando o réu desmaia, há um médico para saber se é real ou fingimento. Caso seja confirmado que o réu chegou ao limite, ele é levado de volta para a cela e, no dia seguinte, terá nova oportunidade de confessar. Diante de nova negativa, retorna ao tormento.

Caso confesse, deverá ratificar a declaração posteriormente, diante da Mesa. Se o acusado, no tormento, negar a culpa, o tormento pode ser repetido. Após três sessões, com espaço de dois dias entre elas, o réu é sentenciado.

Da sentença

Reunidas todas as provas, a confissão inteira ou parcial, a Mesa examina esses elementos para pronunciar sua sentença.

As sentenças classificam os réus condenados em diferentes níveis:

– Aqueles que fazem confissão insuficiente ou incompleta.

– Aqueles que fugiram da Inquisição ou já morreram.

– Aqueles que fingem arrependimento.

– Aqueles que insistem no erro.

– Aqueles que confessam, mas depois desdizem.

– Os reincidentes.

– Os bruxos.

O Santo Ofício aplica castigos morais, pecuniárias, corporais e espirituais, às vezes de forma combinada. A mais branda e mais comum é a penitência espiritual. A mais severa é a morte pela Justiça secular.

Penas físicas: açoites, cárcere, degredo, galés, morte na fogueira.

Penas pecuniárias: contribuições para o Santo Ofício e confisco de bens.

Penitências espirituais: confissões regulares, rezas, rosário.

Todo réu deve pagar as custas do processo, e todo réu tem seus bens confiscados. Se a mulher estiver grávida, a sentença só será cumprida após o parto.

Apenas aqueles envolvidos diretamente com práticas demoníacas são condenados à fogueira. Aqueles envolvidos com heresias e práticas religiosas proibidas, como o judaísmo, são punidos com o confisco, degredo ou trabalho forçado nas galés. Em caso de reincidência ou mau comportamento durante o processo, podem ter o mesmo fim que os bruxos.

O degredo também costuma ser o destino daqueles envolvidos em curandeirismo, adivinhações ou uso de ervas, que também recebem açoites. Os sacerdotes católicos estão cientes das propriedades mágicas de algumas plantas e, portanto, não consideram o seu uso, por si só, uma atividade demoníaca.

Uma vez absolvido ou perdoado, o réu está livre para voltar à vida normal, mas dificilmente se livrará da pecha de ter sido réu do Santo Ofício.

O Tribunal não tem jurisdiç ão sobre os nativos. Portanto, os pajés e a feitiçaria nativa estão livres das garras da Inquisição.

Autos de Fé

Os autos de fé são anunciados com um mês de antecedência através de pregões, trombetas e tambores. Levanta-se um tablado na praça principal e os condenados são levados para lá pelo meio do povo em procissão.

Os condenados marcham com velas verdes apagadas. Os reconciliados, com as velas acesas. Um chapéu cônico de papel, com quase um metro de altura, identifica o delito cometido. Os blasfemadores têm a boca amordaçada; os feiticeiros, além da mordaça, têm os olhos vendados e as mãos atadas, para que não possam usar seus poderes. Para os demais, é colocada uma corda no pescoço.

Quando a procissão chega ao tablado, um orador faz o sermão da fé e os réus avançam para escutar suas sentenças. Os impenitentes que não se arrependeram de seus crimes marcham para a fogueira. Aqueles que se arrependeram, geralmente condenados ao açoite, ao degredo ou às galés, retornarão ao cárcere para aguardar o cumprimento da pena. Os reconciliados são absolvidos pelo Inquisidor.

Da comutação da pena

“Apesar do horror que provocamos nas pessoas, o nosso Tribunal difere bastante do Tribunal castelhano. A maioria dos sentenciados tem sua pena comutada para uma mais branda. O condenado à morte acaba indo pro degredo ou para as galés. Algumas penas de degredo são comutadas para penas espirituais.

Lembro-me do caso da mulata Maria Barbosa, condenada na Metrópole ao degredo em São Paulo de Loanda pelo mau uso de ervas mágicas. Uma vez lá, envolveu-se com todo tipo de gente e atividades ilícitas, incluindo a prostituição. Foi então mandada pela justiça secular para Olinda, onde foi novamente presa e acusada de feitiçaria. O bispo de Santa Cruz a remeteu de volta à Metrópole para ser julgada pelo Tribunal. No caminho, seu barco foi assaltado por piratas e ela foi abandonada em Gibraltar. Depois de mendigar pela Andaluzia, conseguiu chegar a Portugal, apresentando-se ao Santo Ofício. Recebeu pena leve e foi apenas proibida de voltar à colônia.

O amigo há de se lembrar do Frei Luís, figura célebre no Nordeste. Mas poucos sabem do seu fim. Quando seus exorcismos não faziam efeito, o bom frei encaminhava a pessoa aos negros do Calundu. Ele sabia que os demônios contra os quais luta a Igreja nem sempre são os mesmos enfrentados pelos cultos negros. Então ele decidiu conhecer o Calundu de perto, chegando a frequentar os rituais. Essa curiosidade lhe foi fatal. O Tribunal não ficou totalmente convencido de suas boas intenções.

Condenado inicialmente às galés, sua pena foi revista e transformada em prestação de serviços ao Santo Ofício. Ao retornar a Santa Cruz, Frei Luís não demorou a partir para os confins do Novo Mundo. Muitos acreditaram que ele desapareceu tomado pela culpa, mas a verdade é que se encontrava, e talvez ainda se encontre, em missão inquisitorial.

Dos Judeus

Se em Nova Castela a investida contra os Judeus foi implacável, particularmente com os lusitanos que comerciavam no rio da Prata e se radicaram na colônia castelhana, a perseguição aos Judeus pela nossa Inquisição parece ter se limitado ao Reino após o fim da União das Coroas. Até mesmo as práticas mágicas são tratadas com certa brandura. Mas nada disso diminuiu o horror e o pânico que a simples menção à Inquisição provoca em suas vítimas em potencial. Primeiro, porque o confisco de bens é um dano certo e irreparável. Segundo, porque mesmo o réu inocentado está destinado a alguns anos de suplício nos cárceres do Tribunal do Santo Ofício. Por fim, não é possível antever quais são as pretensões da Inquisição e qual será sua posição ante a falta cometida. Nenhum Cristão-Novo se esquece do fato de que, primeiramente, o Tribunal foi criado para persegui-los.

Do Segredo

Assim exposto, é impossível não sentir certa contradição entre a pregação religiosa de paz e amor ao próximo e a dureza inquisitorial. Os Jesuítas sempre foram bem críticos a ela, ainda que adotemos, por nosso lado, a prática de açoites públicos. Mas a Inquisição sacrifica a poucos para salvar a todos. Ela é um mal necessário e, através dela, ajudamos a livrar o mundo de uma terrível ameaça. Contudo, o Santo Ofício perdeu o foco. Os inquisidores perdem muito tempo com questões menores. Talvez porque há mais de trezentos anos que o Velho Mundo não se vê verdadeiramente ameaçado pelo Mal. Nossos irmãos não fazem ideia do quanto dependem da Companhia.

O Clero sempre rechaçou a cultura popular e iletrada. Mas a cultura erudita é exclusiva a um número restrito de intelectuais, religiosos e fidalgos. Em decorrência dessa postura, nós encontramos dificuldades de incutir no povo, com profundidade e solidez, as bases da fé cristã.

O Santo Ofício busca reparar isso extirpando da sociedade qualquer elemento que ameace a fé, sem perceber que o que a coloca sob constante perigo é essa ausência de enraizamento. Os fiéis se nutrem ao mesmo tempo das palavras dos padres e dos costumes pagãos que sobreviveram aos novos tempos. Rezam mais por temor do que por devoção.

A Companhia de Jesus está convicta de que a fé cristã impede a insurgência de um grande mal no mundo. Acreditamos que a força da comunidade cristã, quando convocada, será capaz de impedir o Grande Mal ressurgir. As demais Ordens fazem pouco caso disso, mas não o Papa. E já tivemos também reis mais receptivos à nossa causa. Infelizmente, não parece ser o caso no presente momento.

Os Dominicanos até entenderam a urgência dessa luta, mas não têm a real compreensão do mal contra o qual lutam. Eles consideram os Judeus e os Mouros como o mal em si. Julgam que a ampliação do espectro de ação do Santo Ofício já é suficiente para prevenir qualquer ameaça à Igreja. Mas a ameaça não é à Igreja, mas a todos. A Igreja é apenas a trava de segurança, aquela que mantém fechados os portões do Inferno.

A cisão em nossas hostes, liderada por Martin Luther e Jehan Cauvin, tornou o Papa receptivo às ideias do nosso fundador. Se ainda contamos com o apoio de Roma, apesar de todos os ataques que sofremos, devemos certamente ao Espírito Santo, que indica como sucessor do Santo Padre alguém à altura do desafio que enfrentamos.

Enfim, a Companhia de Jesus e o Tribunal do Santo Ofício lutam a mesma batalha, mas raramente juntos. Desenvolvemos uma rivalidade silenciosa e dissimulada em torno da Santa Sé, o que não nos impede de colaborações eventuais. Mas a desconfiança estará sempre presente. Talvez o auge dessa batalha tenha sido a suspensão das atividades do Santo Ofício em Portugal entre 1675 e 1681, uma vitória temporária do saudoso Padre Vieira.

Há momentos em que as forças envolvidas nessa luta transformam o Santo Ofício em um poder acima da Coroa. Momentos em que os próprios Reis sentem o chão sob seus pés tremer, e já não se sentem mais os escolhidos divinos, mas iguais ao homem comum. Nesses momentos, precisamos agir com cautela. Ajuda bastante a ausência do Tribunal e dos Dominicanos na província. Entretanto, soube que o Santo Ofício tem enviado secretamente investigadores a Santa Cruz em busca de evidências que tornariam o Santo Ofício essencial para a Coroa, e, assim, mais importante que as missões jesuíticas.

A Companhia, por sua vez, percebe o cerco se fechando, o tempo se esgotando e sua influência sendo minada pela febre do ouro e a desvalorização dos aldeamentos. Sabemos que os nativos são a última força disponível capaz de servir de barreira contra a insurgência do Grande Mal, e nos desesperamos em ver essas boas almas escorrendo por nossos dedos. Conseguimos reter os Tupis e os Guaranis. A crença desses povos na Terra Sem Mal é mais do que uma coincidência, mas uma predestinação.

Não tenha dúvida meu amigo, com o mestre Padre Vieira morreu também uma era. Meu pessimismo não se trata de forma alguma de falta de fé. Sabemos que não será com a fé capenga desses bandeirantes sanguinários e seus bacamartes que venceremos a guerra que está por vir.

Antes de me despedir, devo mais uma vez ressaltar que a publicação do conteúdo desta carta fica a critério do amigo. O mais sensato certamente é queimá-la logo após a sua leitura e jogar as cinzas nas águas da baía. Eu sei que não fará nada disso, mas não poderia deixar de dizê-lo.” – extraído da carta do Padre Estevão ao Padre Maurício.

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Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:11  Deixe um comentário  

Das Ordens Militares

As Ordens Militares são instituições religioso-militares criadas durante as Cruzadas. Inicialmente formada por cavaleiros cristãos para defender os locais santos, e posteriormente para propagação e defesa da fé cristã, combatendo a heresia e o paganismo. Seus membros usam hábitos e cruzes características. Três ordens possuem sede na Lusitânia.

ORDEM DE CRISTO

A Ordem de Cristo, fundada pelo Rei de Portugal no século XIV, herdou em sua criação as propriedades da Ordem do Templo, extinta anos antes. Castelos, vilas e terras, tudo foi entregue pelo Papa à Coroa lusitana, com o compromisso de nunca diminuir, mas só aumentar o patrimônio adquirido. O hábito e a insígnia são semelhantes aos dos Templários. O Grão-Mestre da Ordem deve pertencer à Casa Real e ser nomeado pelo Papa.

Poucos anos antes da expedição lusitana que chegaria ao Novo Mundo, as terras a serem descobertas já constavam como patrimônio da Ordem de Cristo, pois a expedição seria patrocinada por ela. Por este motivo, as velas das caravelas que desbravaram o Mar Oceano ostentavam sua cruz.

Um Cavaleiro de Cristo, além da honraria nobilitante, recebe um pequeno rendimento da Coroa e alguns privilégios fiscais e jurídicos. A rigor, seus membros deveriam pertencer à nobreza, mas o desempenho heroico levou até caboclos a serem aceitos como cavaleiros.

Sendo a Ordem mais presente em Santa Cruz, o título de cavaleiro serviu como moeda de troca pela Coroa para garantir dedicação e fidelidade na colônia, particularmente na guerra contra os Neerlandeses. Entretanto, o veto a cristãos-novos é absoluto. Esse uso da Ordem na colônia fez cair as regras disciplinares tradicionais de castidade e pobreza, restando apenas a da obediência.

Artefato da Ordem: os Cavaleiros de Cristo recebem uma adaga abençoada que os permite enfrentar seres demoníacos em condições de igualdade.

Cruz da Ordem de Cristo: a antiga cruz dos Templários foi reformulada pela Ordem de Cristo e tornou-se a cruz do Reino de Portugal.

ORDEM DE SÃO BENTO DE AVIS

A Ordem de Avis foi criada em Portugal no século XII para defender a cidade de Évora dos Mouros. A Ordem foi sendo aos poucos integradas à Coroa, até ter sua incorporação formalizada em 1551.

Uma vez que reis haviam se tornado mestres dos Cavaleiros de Avis, o Papa dispensou-os do voto de castidade. Também foi permitido a seus membros dispor de seus bens, dando fim ao voto de pobreza. Para a admissão na Ordem, precisa apenas pertencer à nobreza de linhagem. Por essa razão, é raro ver um Cavaleiro de Avis em Santa Cruz.

A ordem possui forte hierarquia e organização interna. O cavaleiro em combate nunca pode fugir nem se render. Uma vez preso, não será resgatado.

Artefato da Ordem: os Cavaleiros de Avis vestem hábitos brancos com uma cruz verde no estilo flor-de-lis. Este hábito confere aos cavaleiros, mas apenas àqueles realmente pertencentes à ordem, proteção contra feitiços.

Cruz Florenciada: é o símbolo da Ordem de Avis, um misto da cruz latina com a flor-de-lis.

ORDEM DE SANTIAGO DA ESPADA

A Ordem de Santiago foi criada na Espanha, no século XII, com o objetivo de proteger o Caminho de Santiago de Compostela, na Galiza. Cem anos depois foi estabelecida também no reino vizinho e logo separadas. No Reino de Portugal, ganhou então o nome de Ordem de Santiago da Espada.

Os Espatários fazem votos de pobreza, obediência e castidade conjugal. Desde 1551 o Mestre da Ordem em Portugal é o próprio Rei. A exigência de que seus integrantes sejam apenas nobres de linhagem não é observada com o mesmo rigor que na sua versão hispânica. Mesmo assim, a presença de um cavaleiro da ordem na Província de Santa Cruz é bastante rara.

Artefato da Ordem: o distintivo da ordem foi elaborado de forma a permitir o Cavaleiro de Santiago a manter sua resistência física por todo o caminho percorrido pelos peregrinos em Compostela.

Cruz de Santiago: a cruz da Ordem de Santiago simula uma espada. Caracteriza-se por ter pontas bem distintas uma das outras.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:00  Deixe um comentário  

Das Irmandades

As irmandades são grupos de leigos que se associam para promover trabalhos de caridade. Elas fazem as pessoas se sentirem mais ativamente responsáveis pela vida religiosa. A forma mais comum são as ordens terceiras das ordens religiosas.

Os membros das irmandades trabalham em benefício da comunidade, atuam para além da família. Contudo, podem ser discriminatórias. Algumas exigem alta contribuição financeira; outras exigem limpeza de sangue; ou serem ex-escravos.

Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos

Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos é uma confraria criada para abrigar os negros devotos, muitas vezes impedidos de frequentar as demais irmandades. Ela é composta por negros escravos e livres. Os enterros de muitos negros são garantidos pelo suporte da Irmandade.

A irmandade mais antiga é a de Olinda, surgida ainda no século XVI. Os escravos colhem as sementes de capim e montam terços para rezar. Em meados do século XVII, foi criada a irmandade em São Sebastião e Santo Antônio do Recife. Em 1685 foi a vez da capital da província.

A Irmandade fundada em São Sebastião não possui igreja própria, realizando suas atividades na igreja dos Jesuítas, no Morro do Castelo. A tendência é que a irmandade se estenda para a região mineira.

O Rei do Kongo

A Irmandade da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos escolhe anualmente um rei negro, chamado de Rei do Kongo, em referência a um reino do Continente Negro, o primeiro daquele continente a adotar a religião cristã. Na festa anual dedicada à Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, o rei desfila em cortejo pela vila, seguido por músicos e dançarinos.

A tradição teve início na Capitania de Nova Lusitânia. Até os senhores de engenho emprestam joias e adereços para a festa. O rei negro é coroado pelo próprio vigário. As coreografias do cortejo procuram reproduzir as da terra natal.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 0:56  Deixe um comentário  

OS MERCEDÁRIOS

A Ordem de Nossa Senhora das Mercês surgiu no século XIII, na Catalunha. Assim como os Jesuítas, os frades mercedários possuem um quarto voto: morrer, se preciso for, por quem está em perigo de perder a sua fé. O objetivo inicial era ajudar os cristãos capturados pelos Mouros. Eles usam hábito religioso branco, com o símbolo da Santa Cruz. Os Mercedários se engajaram na Contrarreforma e passaram a seguir um estilo mais rigoroso. Instalaram-se na província do norte em 1640, contando com muita ajuda dos Mercedários de Nova Castela.

Hábito: túnica inteiramente branca. O escapulário mercedário é considerado peça santa, pois foi entregue pela Virgem Maria ao fundador da ordem, Pedro Nolasco, após comprar cativos cristãos no Oriente. Sobre o escapulário é colocado o escudo da Ordem.

A Cruz de Prata: os Mercedários não utilizam um crucifixo, mas um escudo à frente do hábito, sobre o peito, ostentando uma coroa e a Cruz de Prata, uma cruz branca sobre campo vermelho, que simboliza a caridade heróica.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 0:55  Deixe um comentário  

OS BENEDITINOS

A Ordem de São Bento é a mais antiga ordem religiosa, criada em 529. Prega a oração, o trabalho e a obrigação de hospedar viajantes e peregrinos em seus mosteiros. O lema da Ordo Sancti Benedicti é orar e trabalhar.

Dedicados a promover o ensino, ao lado de cada mosteiro há uma escola. Os mosteiros femininos são ocupados pela monjas de clausura. Sendo uma ordem tão antiga, sofreu várias reformas em mais de um milênio.

Chegaram à colônia em 1581, estabelecendo mosteiros nas principais cidades. Trata-se da segunda ordem mais poderosa na Capitania de São Sebastião, contemplados por diversas sesmarias. Chegaram em 1586 à cidade, instalando-se em extensas terras na Capitania Real do Cabo Frio, inclusive nos Campos dos Goitacás. Em 1695, metade da ilha de Paranapuã foi doada à ordem. A Cidade de São Sebastião é ornamentada por dois outeiros em suas extremidades. Em um deles ergue imponente o Colégio dois Jesuítas. No outro, um mosteiro beneditino. Em Piratininga, o mosteiro encontra-se no coração da vila, entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí.

Hábito: eles vestem túnica negra, uma capa escapular que vai até os pés, capuz e cinto de couro. Não utilizam rosário pendente.

Cruz de São Bento: a cruz dos Beneditinos também é conhecida como a Cruz do Exorcismo, capaz de livrar seu possuidor das ciladas do Demônio. Porém, sem fé verdadeira, de adiantará a cruz.

Cruz-Medalha de São Bento: a medalha parece proteger pessoas e lugares de feitiçaria. De um lado ela tem a imagem de São Bento, e no outro a cruz beneditina. Os demais eclesiásticos a chamam de “medalha da sorte”, pois a ela é creditada até proteção contra doenças e ataque de cobra.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 0:54  Deixe um comentário  

OS CARMELITAS

A Ordem do Carmo foi fundada em fins do século XI no Levante. Os primeiros Mercedários seguiam o estilo de vida do profeta Elias, que levou uma vida eremítica de oração e silêncio em uma gruta no Monte Carmelo. A partir de Jerusalém, migraram para o ocidente fugindo dos Sarracenos.

Chegaram à colônia em 1580, permanecendo em Olinda. Depois seguiram para a capital e para as capitanias de São Vicente e São Sebastião. No século XVII, chegaram ao Norte, onde estabeleceram uma forte atividade missionária.

Em 1640, a Ordem chegou a estabelecer a sua Província na colônia, mas, devido a pressões da Coroa, voltou atrás e criou três Vice-Província: uma abrangendo as capitanias de Pernambuco e Bahia de Todos os Santos; outra abrangendo as capitanias do sul, com sede em São Sebastião; e a terceira na Província do Grão-Pará.

Na região dos Bandeirantes, possuem conventos em Piratininga, Vila de Todos os Santos, Vila de Sant’Ana de Mogimirim, São Sebastião, Vila da Ilha Grande e Vila do Espírito Santo.

Assim como os Franciscanos, os Carmelitas possuem diferentes ramos.

Carmelitas da Antiga Observância: é a ordem original dos carmelitas.

Ordem Terceira do Carmo: formada por membros leigos dos Carmelitas, aos quais encontram-se sempre ligados em comunhão espiritual.

Ordem dos Carmelitas Descalços: ordem criada em 1560 pela freira Santa Teresa de Ávila, mas oficializada apenas em 1593.  Oriunda de uma reforma da ordem semelhante àquela feita pelos Capuchinhos, tornou-se bastante forte no Reino de Portugal. Os Carmelitas Descalças, frades e freiras, dedicam-se a seguir o caminho da perfeição. Mas, ao contrário dos frades Descalços, as Carmelitas não vieram para a colônia.

Para os Carmelitas Descalços, cada dia é marcado pelo silêncio, para que se possa atingir a profundidade adequada em cada oração. Pelo menos duas horas do dia ficam reservadas a uma oração silenciosa e ininterrupta. As comunidades devem ser pequenas para que a fraternidade e a partilha sejam genuínas. Ao contrário das freiras, os frades carmelitas não vivem em clausura. Ambos se dedicam a uma vida dedicada ao estudo e conhecimento da alma humana, desenvolvendo uma crescente sensibilidade pessoal e espiritual.

Assim como os Franciscanos Conventuais, os Carmelitas Descalços desenvolveram uma técnica de uso coletivo de Poder Divino. Seus encantos são sempre difusos, embora poderosos. Como são feitos em oração silenciosa, seus efeitos só são atingidos quando todos os integrantes entram em sintonia na oração, o que é mais fácil de ser alcançado em pequenas comunidades. Os frades, por manterem atividades apostólicas, conseguem realizar alguns encantos individuais.

Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares: os fundadores dos Carmelitas Descalços fundaram uma ordem para grupos leigos, a fim de que pudessem comungar dos mesmos bens espirituais dos frades e freiras.

Hábito: túnica de lã crua, sem ser tingida, de cor marrom escura, ajustada por um cinto de couro. O capuz e o escapulário completam a vestimenta básica. Por cima de tudo, veste-se uma capa de lã branca. O escapulário de Nossa Senhora do Carmo é composto por duas tiras de pano marrom atadas por uma corda, que os Carmelitas trazem no peito. Simboliza a devoção dos Carmelitas à Virgem Maria, que significa uma vida dedicada à oração e à prática da virtude. Entregue ao frade Simon Stock pela própria Nossa Senhora do Carmo, que apareceu-lhe em uma visão, o escapulário confere proteção especial da Virgem Maria em momentos especiais da vida, ou mesmo após a morte.

Cruz Carmelita: a cruz dos Carmelitas contém uma estrela em seu centro, que representa a Virgem Maria como símbolo da ternura com a qual a Ordem atua.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 0:52  Deixe um comentário  

OS FRANCISCANOS

A Ordem de São Francisco cultua a pobreza, a simplicidade da vida e defende os nativos contra a exploração dos colonos. Foi a primeira ordem a sair em busca do povo levando a palavra de Deus. Criada no início século XIII, os Franciscanos eram inicialmente itinerantes e v estiam hábito cinza. A Ordo Fratrum Minorum se dividiu, então, em cinco ramos.

Ordem dos Frades Menores Observantes: são os Franciscanos propriamente ditos, de hábito castanho e capuz curto, continuação direta da ordem original. Em sua origem, os Franciscanos eram a ordem com maior presença de sacerdotes com Poder Divino, mas isso foi mudando nos últimos trezentos anos. Hábito: túnica cinza, capuz destacado e curto.

Ordem dos Frades Menores Conventuais: são os Franciscanos que vivem em conventos construídos dentro das cidades ou próximos a elas. Seus membros vêm de todas as camadas da sociedade para viver em fraternidade. A vida itinerante havia colocado em risco a vida dos frades, de forma que a ordem decidiu se tornar mais estável. Estabelecendo-se nas cidades, os frades ficavam mais próximos do povo, dedicando-se à vida pastoral. Os conventos surgiram no final da vida de seu fundador, mas a divisão oficial em dois ramos ocorreu cerca de 25 anos depois. Os Franciscanos Conventuais desenvolveram uma técnica de uso coletivo do Poder Divino. Nenhum deles realiza encantos individualmente, apenas por meio dos ritos coletivos. Hábito: túnica cinza, com capuz destacado e arredondado.

Ordem dos Frades Menores Capuchinhos: criada no início do século XVI, são mais conhecidos como Capuchinhos. Eles são pregadores não enclausurados, vivem como eremitas e muitos usam barba. A começar pelas vestes, acreditam estar restaurando as regras originais de São Francisco de Assis, uma reforma dos Franciscanos Observantes. Hábito: vestem túnica castanha, capuz alongado, pontudo e costurado na gola da túnica, que dá origem ao nome da ordem.

De fato, a ordem original não demorou em se afastar da ideologia de seu fundador. Luxo e posses passaram a ter lugar entre os seus líderes. Os Capuchinhos, fiéis aos valores da pobreza, só não são incomodados pelos demais por possuir muitos frades com Poder Divino. Assim sendo, o Geral da Ordem se limita a afastá-los dos centros urbanos, enviando-os para o interior da Terra de Santa Cruz como missionários.

Os primeiros Capuchinhos chegaram com os Francos, mas depois se instalaram no Nordeste, em 1642. Muitos frades são de origem franca. Bastante ativos, ergueram várias missões ao longo do vale do rio Opará. Devido a essa ocupação missioneira, o Opará passou a ser chamado pelos colonos de rio São Francisco. Mas o início da mineração e a rota dos tropeiros começam a trazer instabilidade à região.

Ordem de Santa Clara: as Clarissas são uma ordem monástica de clausura, criada no século XIII a pedido de São Francisco de Assis. É a Segunda Ordem de São Francisco. O Mosteiro das Clarissas em Évora enviou as primeiras Clarissas à capital colônia, em 1677, instalando-se no Convento do Desterro. A escassez de mulheres brancas na província cria dificuldades para a instalação de outros conventos de freiras. Já também a Ordem das Irmãs Clarissas Capuchinhas, mas esta não chegou à colônia. Hábito: túnica marrom com véu preto

Ordem Franciscana Secular: a ordem tem a missão de reunir clérigos seculares, reavivando a honestidade, a paz e a caridade. Seus integrantes não precisam abrir mão de suas famílias e nem renunciar a suas posses. Foi criada pelo próprio São Francisco de Assis. É a Terceira Ordem de São Francisco. Hábito: túnica cinza, com manto longo e pontudo nas costas.

As fraternidades da ordem são abertas a qualquer cristão, homens e mulheres, que deseja viver segundo o Santo Evangelho. Dante Alighieri é o irmão mais conhecido da Ordem. As fraternidades não são centralizadas, tendo cada uma delas autonomia financeira, administrativa e econômica. Porém, todas seguem uma Regra estabelecida pelo Papa. Na colônia, elas se formaram no século XVII. São raríssimos os membros da Ordem Terceira com Poder Divino.

Além da pobreza, a Ordem herdou de seu fundador o amor pelos animais. Em um aldeamento franciscano na Capitania de Pernambuco, os frades se desesperaram com o ataque de formigas à plantação. Mas como sua crença os impedia de matá-las, recorreram à Câmara.

Os Franciscanos são os principais adversários dos Jesuítas dentro da Igreja. Condenam as empresas agrárias nas quais se transformaram as fazendas da Companhia e atacam os privilégios dados a eles. Mas os próprios mendicantes são alvos de críticas, ao sustentarem suas missões com o trabalho temporário dos nativos. O dinheiro arrecadados por eles é usado para o culto e conservação da capela, para o sustento dos missionários, e em roupas e medicamentos.

A Cruz de Tau: a cruz franciscana é inspirada em uma letra do alfabeto grego, semelhante à cruz. Para Giovanni di Pietro di Bernardone, fundador da ordem, o Tau rep resenta a conversão para uma vida dedicada a ajudar o próximo, o direcionamento da mente para o bem através da luz, da palavra, fa força, do poder e da verdade. Os Franciscanos sempre a usam talhada em madeira.

Cordão de três nós: no lugar do cinturão de couro presente em outras ordens, os Franciscanos usam na cintura um cordão branco com três nós, que representam os votos professados.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 0:51  Deixe um comentário  

OS JESUÍTAS

A Companhia de Jesus foi criada em 1534, em Paris, por sete amigos reunidos em uma capela de Montmartre. Iñigo López de Loyola, seu fundador, selecionou Francisco de Jasso Azpilicueta Atondo y Aznáres, Diogo Laínez Gómez de León, Alfonso Salmerón, Simão Rodrigues de Azevedo, Alfonso Nicolás Pérez de Bobadilla e Pierre Favre, então o único sacerdote presente, para se submeterem pela primeira vez aos Exercícios Espirituais que havia elaborado. O objetivo de tais exercícios é estabelecer regras disciplinares para a vida religiosa e para as missões de evangelização.

Com a ameaça da expansão Protestante, Iñigo e seus companheiros decidiram recuperar antigas áreas perdidas para a nova religião. Elaboraram, então, uma estratégia de contra-ataque. Estruturam a Companhia de Jesus como uma milícia para defender a fé e combater a heresia. Os Jesuítas se tornaram a antítese dos monges contemplativos.

Iñigo era um ex-militar e transmitiu a seus seguidores o espírito aguerrido e a língua ferina, transformando os Jesuítas em um exército rigidamente disciplinado, verdadeiros soldados da fé católica. A hierarquia é a principal característica da Companhia. Além dos votos comuns de castidade, pobreza e obediência, os Jesuítas professam o voto de obediência absoluta ao Papa, de quem são os mais hábeis defensores, renunciando à própria vontade.

Em um momento que os reformadores criticavam o excesso de luxo dos sacerdotes e a atitude condescendente da Igreja, os Jesuítas passaram a valorizar as viagens de conversão, o heroísmo e o sacrifício, enfrentando doenças desconhecidas, alimentos estranhos, a distância da família, a fome e a própria morte.

Os Jesuítas se espalharam rapidamente, tornando-se educadores e confessores de reis. Sua íntima ligação com a Santa Sé faz da ordem alvo de desconfiança e criticas das outras ordens. Com o quarto voto, eles se mostram os mais fiéis dos fiéis, buscando se desvencilhar da submissão às autoridades locais no regime de Padroado. Sua submissão é ao Papa, que se encontra quase sempre bem distante.

A expansão da Ordem pôs em chegue um dos seus principais pilares: a união e coesão de seus integrantes. Nem mesmo a obediência e a hierarquia firme seriam suficientes para manter o espírito original dos Jesuítas de Paris. Os sacerdotes da Companhia adotaram, então, o hábito da constante troca epistolar.

A Companhia não possui regras de vida em comunidade nem ofícios sagrados, o que dá à ordem grande flexibilidade de ação. Também não possuem religiosas a seu cargo, nem regras para penitências, e não aceitam cargos eclesiásticos.

Pragmáticos e racionais, planejam e buscam alcançar suas metas com arrojo e determinação. Dedicados a tornarem-se modelo de perfeição espiritual, observam com rigidez as regras que mais repercutem na sociedade. Para eles, a confissão é essencial para compreender e ajudar as almas, encontrando a solução para seus problemas. Já a conversão de novos fiéis deve ser alcançada pela educação.

Hábito: os Jesuítas não adotam um hábito específico, variando as vestes conforme a região.

Cruz: os Jesuítas também não possuem uma cruz característica. Entretanto, nas missões castelhanas, destaca-se a Cruz de Caravaca, um crucifixo com duas barras horizontais. Ela é um símbolo de poder e proteção. Em Caravaca há uma fortaleza militar construída para expulsar ou Mouros. Há quem afirme que a cruz original foi levada até por dois anjos e que nela há um pedaço da cruz onde foi crucificado Jesus Cristo. Dizem, também, que ali havia um antigo reduto da Ordem dos Templários. Os dois braços simbolizam a fé redobrada, foco e abnegação.

A Formação

A Companhia conciliou a formação religiosa e intelectual de seus noviços com a resistência física e a articulação política necessárias às atividades missionárias. Os Jesuítas são também instruídos nas habilidades administrativas e financeiras que asseguram a autonomia da ordem.

Tanto o desenvolvimento espiritual quanto o intelectual são considerados essenciais para um Soldado de Cristo. Mas o jesuíta também não deve descuidar da saúde física ou causar intencionalmente qualquer debilidade em si mesmo.

O noviciado da Companhia é prolongado e inclui formação literária e científica. São dois anos de noviciado, três de filosofia, algum tempo dedicado ao magistério, quatro anos de teologia e mais um de noviciado. Os Jesuítas são grandes estudiosos e mestres em oratória, pois só assim acreditam poder exercer bem suas funções. Usam a lógica sem paixão, buscando sólidos argumentos.

Não pode ingressar na Companhia quem já renegou a fé, quem já tenha negado ou depreciado a autoridade da Igreja Católica ou quem já tenha praticado crime grave ou de conhecimento público. Não se trata, portanto, de uma Ordem aberta a qualquer pessoa. Ela exige do aspirante a submissão prévia, voluntária; virtudes raramente encontradas em um homem; o total desprendimento de seus próprios desejos.

Durante o noviciado, o noviço não pode ter contato com seus familiares ou usar qualquer coisa sua, a fim de acostumar-se desde o início com a pobreza.  O retiro espiritual da Companhia é distinto do praticado pelas outras ordens. Os Jesuítas praticam os Exercícios Espirituais elaborados por Iñigo de Loyola. Ele acreditava que a disciplina da fé desenvolvia o Poder Divino, da mesma forma que o exercício físico desenvolve o corpo. Os Exercícios são, portanto, a contrapartida religiosa da dedicação à filosofia e à ciência.

Os Exercícios Espirituais focam na adaptação às circunstâncias, flexibilidade e ajuste a todo tipo de cultura e forma de pensar, circunspecção e preferências que devem ser respeitadas. Os Jesuítas valorizam a aptidão individual de seus membros, pois são particularmente concentrados na busca pela perfeição.

O primeiro exercício é o da imaginação, construir na mente o próprio cenário, os lugares em que as coisas se passaram, com os personagens e todas as circunstâncias. O segundo exercício é educar o ouvido interior para ouvir o que dizem os personagens.  Se meditar sobre o pecado, é preciso imaginar o inferno, ouvir os gritos dos condenados, sentir o odor das carnes queimadas. E assim se segue.

A obediência é imperfeita quando, apesar de executar a ordem, a pessoa não estiver de acordo com o que fez. É preciso uma comunhão de sentimentos entre aquele que comanda e aquele que obedece.

Os noviços são orientados a exigir dos catecúmenos apenas o essencial, o Cristianismo mais fácil de praticar. A Companhia defende que não há um caminho rígido para a eternidade, mas sim muitos.

Os noviços, chamados de Escolásticos, no final de sua formação, dependendo de seu desempenho nos treinamentos, são ordenados Padres Coadjutores ou Padres Professos.

Os Padres Coadjutores são aqueles que proferem apenas os três votos básicos de todas as ordens: castidade, obediência e pobreza. Esses padres auxiliam os Padres Professos na organização geral da estrutura da Companhia e atuam diretamente nas paróquias.

Os Padres Professos são os Jesuítas que completaram todo o complexo processo de formação, que dura de 12 a 15 anos, provando sua excelência escolástica, e, no final, proferem o quarto voto, o de obediência ao Papa. Os Professos ocupam os cargos de professores nas faculdades de Filosofia e Teologia, comandam o processo de treinamento dos noviços, e exercem o cargo de Padre Provincial. É exigido do Professo rigor na prática da pobreza.

Há ainda os Irmãos Leigos, que nunca se tornam padres, pois completaram apenas a primeira parte do noviciado. Auxiliam nos serviços mais básicos das casas e colégios jesuíticos, servindo também como enfermeiros.

A Estrutura

O órgão superior da Societas Iesu é a Congregação Geral. Ela é formada pelos Padres Professos eleitos em suas províncias. Trata-se de uma assembleia internacional de Jesuítas sediada em Roma, responsável somente perante o Papa.  A Congregação elege o Superior-Geral, com mandato vitalício, e só poderá depô-lo por motivos justos.

O Superior-Geral tem autoridade sobre toda a estrutura da Ordem, sem estar vinculado a qualquer conselho ou consentimento, exceto ao próprio regulamento da Companhia e ao Papa. Mas o Geral tem a seu lado um Vigilante que o adverte de suas faltas cotidianas. Caso necessário, o denuncia. Caso caia em fala grave, o Conselho pode destitui-lo. Até o momento, isso nunca aconteceu.

Quando o Geral morre, seus assistentes convocam nova Congregação Geral, que deve ser composta por três professos por província. A eleição é por maioria de votos.

Diferente das ordens mendicantes, a Companhia depende diretamente do Geral da Ordem, sem passar pelo Rei. Apesar dos conflitos com autoridades reais, civis e eclesiásticas, os Jesuítas sempre gozaram do favor da Coroa.

Nos reinos ibéricos, a Companhia de Jesus desenvolveu forte estrutura de milícia, tornando-se um poderoso braço da Contrarreforma. Ela se espalhou por todas as colônias lusitanas, incluindo as do Extremo Oriente.

À divisão administrativa da Companhia chama-se de Província, que seguem lógica distinta da administração colonial, mas podem coincidir. A sede provincial da Companhia na Província de Santa Cruz coincide com a sede do Governo-Geral. Já a sede da Companhia em Nova Castela fica em Córdoba, bem distante de Lima, a capital do Vice-Reino.

Cada província é dirigida por um Padre Provincial, também professo, designado pela Companhia de Jesus para cuidar de todas as missões de sua região. A ele, os demais jesuítas da colônia devem total obediência. Tem a seu dispor um conselho consultor, secretários e procuradores nas principais cidades.

Cada região da província tem um Padre Superior, que conta também com seu grupo de consultores. O Superior não tem autonomia para tomar qualquer tipo de decisão, precisando muitas vezes do consentimento dos consultores.

De tempos em tempos, o Geral envia um Visitador para verificar as condições de uma determinada província, tanto no aspecto espiritual e escolástico quanto no financeiro e político.

Apesar da rigidez hierárquica, não se trata, contudo, de uma organização absolutista. Seus membros são livres para emitir opiniões, propor soluções e alternativas. Os padres não ficam no aguardo de ordens superiores para lidar com determinada situação, sendo livres para improvisarem e colocarem em prática todo o seu conhecimento. Mas, uma vez tomada a decisão do superior hierárquico, obedecida ela será.

Embora ambos sejam vinculados à Congregação em Roma, não há relação direta entre os Jesuítas que servem à Coroa lusitana e aqueles que servem à Coroa hispânica, havendo muitas diferenças entre as missões lusitanas e as missões castelhanas.

Atualmente, a Companhia de Jesus se divide em 35 províncias, 3 vice-províncias, 579 colégios, 88 seminários, 160 residências, 106 missões, e aproximadamente 17655 jesuítas.

O Poder Divino

Após décadas dedicadas aos Exercícios Espirituais, os Jesuítas concluíram que havia um ingrediente individual, uma graça impossível de ser simulada. Porém, os Exercícios pareciam ajudar a despertar essa graça, sem precisar esperar que ela despertasse eventualmente. Assim, atualmente a Companhia de Jesus é a ordem que mais apresenta sacerdotes com Poder Divino, o que só faz aumentar os atritos com as demais ordens regulares.

Nos primeiros anos da Societas Iesu, só se tornava Padre Professo aquele que tivesse poder divino. Mas quando os Jesuítas se lançaram pelos quatro cantos do mundo para espalhar o Evangelho, não foi possível compor as fileiras dos Soldados de Cristo, com essa restrição, na velocidade com que surgiam as missões. A Congregação, então, foi obrigada a afrouxar seus critérios de seleção.

A prioridade da Ordem passou a ser que os padres com poder divino militassem nas fronteiras do mundo cristão. Por isso, em toda a Terra de Santa Cruz há padres de diversas origens atuando: Castelhanos, Lusitanos, Bretões, Vienenses, Genoveses, Helvéticos, Prussianos. Isso vem mudando o perfil da estrutura administrativa da Companhia e, particularmente, influenciando na política da Congregação e em sua relação com o Papa.

Os Jesuítas na colônia

No século XVI, o Rei de Portugal enviou um embaixador a Roma para convencer os Jesuítas a lideraram o processo de evangelização em suas colônias. Assim, os Jesuítas chegaram á Terra de Santa Cruz em 1549 sendo a única ordem religiosa autorizada a atuar na colônia, juntamente com os padres seculares. Ergueram imediatamente um colégio na capital. Levaram na bagagem plantas e animais, livros e medicamentos, música e disciplina, fé e um ambicioso projeto missionário.

Da capital, espalharam-se rapidamente por Santa Cruz, pois as ordens de Roma era trazer o gentio para o seio da Igreja. Partiram logo para o sul, onde fundaram Piratininga e uma série de aldeamentos. A partir de pontos estratégicos, dos colégios, penetravam o interior do Novo Mundo.

No início, os padres da Companhia acompanhavam as bandeiras. Nas expedições mata adentro, não era raro ver um jesuíta empunhando uma pistola para se defender das criaturas da mata.

O padre Juan de Azpilikueta y Sebastian participou da primeira entrada que subiu o rio Opará (futuro São Francisco) em busca de pedras preciosas. O jesuíta buscava nativos para converter, mas seus companheiros de viagem, a pedido da Coroa, tentavam confirmar a lenda da Serra das Esmeraldas e o da lagoa Vupabaçu. A viagem começou em 1553 e percorreu 1600 km pelo interior do continente. Erguiam capelas de barro com cruzes de madeira sempre que acampavam por muito tempo.

Com a alimentação improvisada, as caminhadas com calçados inadequados e o uso de batina no calor, Azpilikueta retornou doente, com febres recorrentes e muitos ferimentos. Sendo todo o grupo inexperiente com as coisas do sertão, a ajuda dos nativos foi essencial para que a expedição não terminasse em tragédia. Apesar do fracasso, Azpilikueta aproveitou a longa e difícil viagem para ser o primeiro europeu a dominar o idioma tupi.

Depois de um tempo, os Jesuítas foram proibidos de se ausentarem por longos períodos das vilas e aldeamentos, onde eram mais necessários. Passaram, então, a participar como diplomatas em expedições militares, atividade no qual se destacou o padre José de Anchieta. Em troca, os Jesuítas esperavam ter o apoio do Governador-Geral em sua luta contra a escravização dos nativos pelos colonos.

Com a morte de Azpilikueta em 1556, Anchieta deu continuidade ao trabalho do padre de Navarra e organizou a primeira gramática tupi. A partir daí, os Jesuítas enviados à Província de Santa Cruz passaram a ter de memorizar as orações básicas em Tupi.

Padre Anchieta e Padre Nóbrega, então o Provincial da Companhia, defendiam a guerra justa, na qual o bom cristão podia revidar. Pegar em armas era um mal menor, desde que o coração de quem apertava o gatilho estivesse recheado de intenções cristãs: o cristão deveria ser atacado primeiro, nunca tomando a iniciativa; os atacantes deveriam ter alguma culpa; em sua ação de defesa, o cristão deveria ter boas intenções.

Anchieta se tornou provincial em 1577. Preocupado com o isolamento da Capitania do Espírito Santo, ao largar o cargo de Provincial dez anos depois, fundou Reritiba, onde passou o resto de seus dias. Anchieta foi enterrado na Vila do Espírito Santo, no Colégio Jesuíta São Tiago.

Os Jesuítas fundaram casas, colégios e centros missionários. Em 1580, com a União das Coroas, os Jesuítas perderam a exclusividade. Chegaram a Santa Cruz os Carmelitas, Beneditinos e Franciscanos.

Da queda de braço com a Coroa

Apesar de toda a organização da Companhia de Jesus, suas atividades na colônia lusitana enfrentaram desde o início o obstáculo do Padroado. Em Santa Cruz, a Ordem não recebia da Coroa o mesmo amparo que lhe era dado na Metrópole. Assim, os Jesuítas tiveram de buscar recursos próprios para tocar seus projetos missionários. Eles não queriam ficar a mercê da inconstância da Coroa.

Desesperado com a falta de recursos, o Padre Provincial permitiu aos Padres Superiores adquirirem propriedades territoriais, para que a Companhia se tornasse autossuficiente. Apesar da contradição com o voto de pobreza, tão caro à Ordem, o Padre Geral corroborou a iniciativa, preferindo o relaxamento nas normas a um eventual conflito diplomático com a Coroa lusitana. As fazendas jesuíticas se tornaram tão lucrativas quanto alguns engenhos. Elas contam tanto com o trabalho servil dos nativos quanto com o de escravos negros.

A Companhia passou então a atuar junto ao rei para garantir maiores benefícios e concessões aos missionários. O acerto foi vantajoso para a Coroa, pois, ainda que abrisse mão de algumas posses e tributos, a empresa jesuíta garantiria seu próprio sustento a longo prazo.

De fato, em pouco tempo a Companhia criou uma sólida base econômica para atender a suas necessidades. Os padres instalaram suas fazendas, prolongaram estradas, montaram engenhos, fizeram comércio, exploraram a terra e civilizaram os nativos para o trabalho. Trouxeram do estrangeiro várias frutas e especiarias que vingaram nas terras do Novo Mundo, como laranja, coco, figo, romã e uva. As fazendas da Companhia são as propriedades mais bem administradas de São Vicente e São Sebastião, um modelo para os colonos.

Da queda de braço com os colonos

Os Jesuítas não são imediatistas. Desde o início eles sabem que o seu trabalho exige paciência e que só renderá fruto após gerações. Entretanto, as terras dos colonos precisavam de braços na lavoura e eles não tinham a mesma paciência e tampouco entendiam a importância que os padres missionários davam aos nativos catequizados. Mas entenderam rapidamente que escravização dos nativos ia de encontro aos interesses da Companhia, e que mais cedo ou mais tarde o atrito seria inevitável.

Os padres, então, tentaram conciliar a sua missão com as necessidades da colônia, disponibilizando mão de obra à medida que os nativos fossem sendo cristianizados. Mas não como escravos, mas sim homens livres. Tal postura colocou, como previsto, os Jesuítas frequentemente em conflito com os colonos, e o governo-geral ás voltas com delicadas tratativas diplomáticas.

Com o apreço cada vez maior dos Lusitanos pelo trabalho escravo dos negros e o crescimento da mineração do ouro, a importância do trabalho missionário dos Jesuítas começa a perder prestígio. Tanto para a Coroa quanto para o Governador-Geral, já não vale tanto o esforço para convencer os nativos da importância da atividade produtiva.

Os Jesuítas e a cultura colonial

Os Jesuítas têm em seus quadros engenheiros, arquitetos, carpinteiros, oleiros, músicos, escultores, cartógrafos, astrônomos e diversos outros mestres. Conseguem unir conhecimento, criatividade e fé como nenhuma outra ordem é capaz. Atuam na arte e na educação, marcando a formação e produção intelectual e artística nos dois primeiros séculos da colônia.

Devido às ordens da Coroa, não há universidades, apenas colégios, onde buscam instruir as crianças analfabetas e divulgar o saber e a caridade. O colégio ensina a ler e a escrever em Tupi, além de noções de Latim. As crianças aprendem carpintaria e marcenaria. Os filhos dos europeus são educados em Latim, Matemática e Astronomia.

Os Jesuítas não se limitam ao ensino elementar e das primeiras letras, oferecendo também curso de Letras, Filosofia, Teologia e Ciências. Os futuros sacerdotes recebem aulas de Teologia moral e especulativa. A formação do clero é muito superior à da média da população, e os Jesuítas são responsáveis pela formação da maior parte, inclusive na Metrópole. A biblioteca do Colégio da capital ultrapassa com sobras a marca de 3 mil volumes, tendo importantes atualizações científicas.

Há três tipos de estabelecimentos educacionais: o colégio primário, que cuida da educação dos filhos de colonos e nativos, com instrução simples, que funciona nas casas da Companhia ou nas aldeias; os Colégios propriamente ditos, onde estudam os meninos brancos, principalmente filhos dos Lusitanos, com instrução clássica, onde se formam mestres em artes; e os Seminários, local de recolhimento e formação de noviços. Há um seminário na capital e outro em São Sebastião.

Da vida nas Missões

A atividade missionária, conforme vislumbrada por Iñigo de Loyola, consistiria de padres itinerantes percorrendo vilas e aldeias ao redor do mundo, espalhando a palavra de Deus. Mas logo nas primeiras iniciativas na Terra de Santa Cruz, tanto do lado lusitano quanto no lado castelhano, os Jesuítas perceberam que a catequese só seria produtiva com a presença constante de um sacerdote e a construção de uma capela. Do contrário, os nativos voltariam rapidamente ao estado anterior.

Parte da estratégia catequista passou a ser aprender a língua nativa. Na colônia lusitana, a fluência em Tupi é uma obrigação. Os missionários têm de fazer curso de um ano na língua. Só depois de dominado o Tupi é que assumem seu posto nos aldeamentos.

Os padres chegam desarmados, pacíficos. Passam alguns dias com os nativos comendo e dormindo com eles. Quando há boa vontade, começam a pregação. O alvo principal são as crianças. A proposta inicial de transformar jovens nativos em padres gerou grande polêmica na Igreja.

Os Jesuítas também perceberam que não seria possível converter os nativos à fé católica sem que soubessem ler e escrever. Trataram de elaborar um dicionário e uma gramática da língua Tupi para ser ensinado nas aldeias. Este mesmo material passou a servir também aos noviços da Companhia. Os padres também ensinam música aos nativos, que é muito apreciada.

Os terreiros das missões seguem o plano urbano castelhano da Plaza Mayor: uma praça central, grande, onde ficam as principais construções, e a partir da qual se desenvolve o aldeamento. O terreiro é o ponto de encontro, o centro. O primeiro edifício é a igreja. As casas são de taipa ou de sapé. Elas não se diferenciam das malocas tupi: são unicelulares e sem divisão, cheias de fumaça, sem janela. A palha foi aos poucos sendo substituída por telha.

Todos os aldeamentos são erguidos em terreno elevado, para facilitar o escoamento da água. As roças são distantes, pois não se pode plantar no aldeamento. Assim, os nativos passam a semana fora. Nessas roças, misturam-se aos colonos, atendendo ao desejo do governo, que não queria ver os nativos convertidos andando pelas aldeias de nativos não convertidos.

O aldeamento é marcado pela instabilidade. Os Jesuítas permitem que os nativos consigam preservar um pouco de seus traços culturais. Apesar de serem livres após a catequese, os padres têm medo de perdê-los para os colonos, que tentam burlar a fiscalização e manter os nativos trabalhando em suas terras. O acordo oficial é que os nativos trabalhem de forma rotativa, remuneradamente, por apenas seis meses. Além do trabalho nas plantações, os nativos também atuam como força de segurança das vilas e em expedições militares ou exploratórias.

Dos descimentos

Com o passar do tempo, os aldeamentos passaram a ter composição étnica heterogênea, misturando os nativos de diferentes tribos descidas do sertão. O descimento consiste em trazer nativos de aldeias do interior para as missões. De preferência pelo convencimento, se necessário pela força.  Os Jesuítas acreditam estarem, com isso, protegendo esses nativos de um conflito trágico contra os Lusitanos.

Para o governo, por sua vez, o descimento não só minimiza possíveis conflitos futuros na expansão territorial, como também garante a ocupação das terras coloniais. Essa estratégia foi particularmente útil nas capitanias de São Sebastião e do Cabo Frio. Essas tribos convidadas ou obrigadas a ocuparem os territórios religiosos são escoltadas por tropas do governo até o aldeamento.

As aldeias servem para abrigar o maior número possível de nativos, que trabalharão nos campos e na construção, e seguirão as regras católicas de comportamento. Viverão em um único lugar e terão uma única esposa. Dominarão uma profissão e se tornarão figuras integradas ao novo mundo.

Pelo menos esse é o plano.

Do regulamento das missões

O padre visitador Antônio Vieira elaborou um regulamento de conduta a ser seguido pelos missionários.

Os Exercícios Espirituais devem ser praticados no espaço de 8 dias, quando a presença do padre não fizer falta nas atividades da aldeia. Para tanto, deve se recolher ao Colégio, onde, livre de todo o cuidado, melhor possa conseguir a eficácia e frutos dos Exercícios.

Os padres devem se confessar sempre que possível. No caso de haver apenas um sacerdote na missão, deverá ir até a Residência mais próxima, de forma a não passar mais de um mês sem se confessar.

Dentro das casas dos sacerdotes não pode dormir moço ou nativo algum. E nelas o padre só pode ter a seu serviço 4 ou 5 nativos. Mulher ou meninas sequer podem adentrar a residência em momento algum do dia.

A aldeia deve manter uma casa de hóspedes para visitantes ou viajantes. Estes não podem dormir na aldeia para não causar inconvenientes, exceto se for sacerdote.

Nos lugares em que podem ser assaltados ou nas viagens perigosas, para defender os missionários ou em legítima defesa, os nativos poderão portar arma de fogo.

Os missionários não poderão viajar em canoa própria junto com uma mulher, salvo em caso de extrema necessidade. E em todos os dias de viagem rezarão com os nativos.

Os missionários não poderão viajar em rede carregados pelos nativos, exceto em caso de necessidade.

Os padres poderão repreender e mandar castigar os delinquentes. O castigo deverá ser ministrado pelo Principal de sua tribo.  O castigo ordinário é a prisão por 3 dias. Castigos mais graves, ou que envolver pessoa hierarquicamente importante, deverão ter a aprovação do Padre Superior. No caso do delituoso ser o Principal da aldeia, deverá ser avisado o governador, e o caso será tratado pelo Padre Superior.

Se o Principal da aldeia morrer, sucede o filho. Se não houver, cabe ao conselho da aldeia escolher seu sucessor. A decisão deve ser comunicada ao governador, que oficializará a escolha.

Só os homens adultos poderão ser enviados para trabalhar nas vilas. As mulheres, apenas em quatro casos: como ama de leite; se for mulher desobrigada e adulta, para servir ao governador, ao vigário-geral ou a ministros da Coroa; mulher desobrigada para servir a mulher pobre e desamparada, como último recurso; e para acompanhar os maridos na época da colheita.

Os nativos que se ausentarem da aldeia devem constar em três listas: uma fica na aldeia; outra deve ser entregue ao padre do lugar de destino; e a terceira para o chefe administrativo.

Das críticas à Companhia

Os detratores dos Jesuítas nas Cortes e nas colônias alegam que, após a morte de seu fundador, a Ordem se transformou numa sociedade secreta, com objetivos políticos e comerciais inconfessáveis. Sua atividade missioneira seria mera fachada para um projeto mais ambicioso e audacioso, de interesse particular da Companhia.

O clero secular não gosta da postura dos Jesuítas. A Ordem foi perseguida pelo primeiro bispo de Santa Cruz. A Inquisição disputa com eles uma queda de braço de poder não declarada. Os Franciscanos se opõem abertamente à Companhia. Nenhuma outra Ordem aprova as flagelações públicas, as missas em tupi, as confissões com intérprete. Mais ainda, não gostam do favorecimento que a Coroa parece dar aos Jesuítas.

Em 1612, foi revelado ao público europeu a Monita Secreta, um documento secreto supostamente escrito pelo Geral da Companhia, instruindo os padres jesuítas a roubar, manipular os reis e tirar dinheiro de viúvas ricas. O Santo Ofício romano, após quatro anos de investigação, classificou a peça como falsificação. Seu possível autor teria sido o padre polonês Jerome Zahorowski, expulso da Companhia um ano antes da publicação do documento.

Até o momento, tais teorias conspiratórias não encontraram eco nos salões reais ou em Roma. Entretanto, a crença sincera dos Jesuítas de que eles são, com o trabalho de catequese, a salvação da fé católica, leva à loucura até mesmo aqueles que os defendem

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 0:50  Deixe um comentário  

Organização da Igreja

A Igreja Católica, sediada em Roma e comandada pelo Papa, encontra-se dividida em Ordens Seculares e Ordens Regulares. As Regulares são as ordens religiosas que seguem uma regra e possuem sua própria hierarquia. As Seculares são formadas por sacerdotes que desenvolvem atividades voltadas ao povo em geral, assegurando a administração da Igreja.

Os padres seculares fazem apenas os três votos básicos da Igreja: pobreza, castidade e obediência. Eles atuam também junto aos Leigos, religiosos que exercem funções clericais, de espectro limitado, mas sem terem sido ordenados.

As Ordens Regulares se dividem em Ordens Monásticas (Beneditinos, Clarissas), formadas por monges que vivem enclausurados, e Ordens Mendicantes (Franciscanos, Dominicanos, Agostinianos, Mercedários, Carmelitas), que vivem de esmolas e não podem acumular bens. Os Jesuítas são a única ordem regular que escapa desse modelo.

O Padroado

Apesar o Papa ser a autoridade máxima da Igreja, na Província de Santa Cruz é a Coroa quem controla as atividades eclesiásticas. Isso é feito por meio do Padroado, uma bula papal que delega aos monarcas católicos a administração e organização da Igreja nos territórios conquistados.

O Rei Padroeiro arrecada os dízimos eclesiásticos e, em troca, constrói e provê às igrejas todo o necessário. Ele nomeia os párocos e, no caso de Portugal, também escolhe os bispos e decide quais ordens religiosas podem atuar na colônia. Cabe à Coroa a decisão sobre a construção de edifícios religiosos, o controle de doações e dízimo, e a remuneração dos sacerdotes. Estes são praticamente parte da burocracia reinol. A renda anual dos padres catequistas, de qualquer ordem, é irrisória. A igreja colonial é dependente economicamente da Coroa.

Mesa da Consciência e Ordens

Conselho régio subordinado ao Conselho Ultramarino que controla o comportamento do clero. Possui um núcleo de quatro deputados, que podem convocar mais integrantes para decisões pontuais. Responsável também da administração das Ordens Militares.

A Arquidiocese de São Salvador da Bahia de Todos os Santos

Toda a colônia compunha uma única Diocese, cuja sede, fundada em 1551, ficava na capital da Província de Santa Cruz. Em 1676, o Rei solicitou ao Papa que elevasse a Diocese de São Salvador da Bahia de Todos os Santos a Arquidiocese, no que foi atendido. Em consequência, as antigas prelazias de São Sebastião e Olinda foram transformadas em Dioceses.

A Arquidiocese é governada por um Arcebispo, e a Diocese é governada pelo Bispo. Ambos são nomeados pelo Rei, que consulta informalmente a Mesa da Consciência e Ordens e o Conselho Ultramarino. A Santa Sé precisa confirmar a nomeação, mas isso ocorreu apenas uma vez, em 1640.

O cargo de bispo na colônia, na maioria dos casos, pode ser considerado um encerramento da carreira. Quase todos só deixaram o bispado ao morrer, e não foram bispados muito longos.

Os bispos são todos originários da Metrópole, fenômeno que não ocorre nas colônias castelhanas. A maioria possui origem familiar modesta, mas se destacaram em suas carreiras. Até o momento, nenhuma ordem foi privilegiada, mas há uma clara preferência pelo clero secular. A Coroa entende que a experiência de vida restrita do clero regular tornaria difícil governar a diocese de uma colônia tão extensa e complexa. Não há nenhum regulamento a respeito, mas nenhum bispo assumiu com menos de 31 anos.

Até o momento, nenhum bispo saiu das fileiras da Companhia de Jesus. Se, por um lado, a Coroa não gostaria de centrar muito poder nas mãos dos Jesuítas, por outro, os padres da Companhia tampouco costumam aceitar esse tipo de distinção política.

Nas primeiras décadas do século XVII, foram nomeados bispos ligados ao Santo Ofício. Mais do que significar uma maior presença deste tribunal na colônia, a principal motivação da Coroa foi compensar a Inquisição pelo perdão geral dado aos Cristãos-Novos na Metrópole.

O episcopado colonial é um poder frequentemente ausente. Alguns nomeados jamais apareceram em Santa Cruz, outros demoraram a ser substituídos. Em 125 anos de diocese, a colônia ficou um terço desse tempo sem um bispo presente. Mas houve bispos que pregaram, fizeram visitas, ministraram os sacramentos, ordenaram sacerdotes, realizaram reformas, estimularam a devoção dos colonos e a criação de confrarias, e que municiaram o Santo Ofício de informações e denúncias.

Mas as distâncias coloniais são mesmo perigosas e difíceis de transpor, sendo difícil para um bispo cumprir religiosamente com suas obrigações. O ambiente é hostil, dotado de escassez de meios. O corpo administrativo da arquidiocese e das dioceses é bastante insatisfatório para as necessidades da colônia. Tampouco há um corpo normativo ajustado à realidade colonial, seguindo as diretrizes da igreja metropolitana.

A legislação colonial procurar atender às demandas civis e religiosas, com o Governador-Geral atuando como árbitro. Em casos mais polêmicos, a questão é levada à Metrópole, como foi o caso da disputa sobre a escravização dos nativos. Cabe ainda à Coroa confirmar as condenações dos tribunais da Inquisição, podendo interferir nas formas de punição.

Até o momento, as ordens religiosas possuem bastante liberdade de ação. Ao mesmo tempo, uma enorme parcela da população não conhece elementos essenciais da religião que afirmam seguir.

A Igreja defende a elaboração um ordenamento eclesiástico para a colônia, a fim de conquistar um pouco mais de independência e autonomia. Os padres consideram que, assim, ficarão menos expostos aos humores dos governadores e aos interesses imediatos das Câmaras, ganhando maior estabilidade.

Outros cargos eclesiásticos

O Vigário-Geral é o braço executivo do Bispo em uma região.

Os Párocos fazem o trabalho pastoral junto às comunidades, vinculados a uma igreja. São popularmente chamados de Padres ou Curas. Os maus exemplos de alguns irmãos, de apego material e prazeres terrenos, não conseguem tirá-los do bom caminho.

Visitador Apostólico é o representante do Papa enviado para inspecionar as dioceses e o exercício da fé. Também fiscalizam o cumprimento ao tratado de Santa Luzia, o que leva os vicentinos a se mostrarem hostis às visitações. Suas visitas, contudo, são raras. Dependendo da gravidade da situação, podem reportar ao Tribunal do Santo Ofício, mas é importante não confundir essa com a visita do próprio Tribunal. Cada ordem religiosa também pode enviar o seu próprio visitador, como faz a Companhia de Jesus.

Costume eremita: é comum um devoto se dedicar a servir em certa capela e ali residir com este estilo de vida.

Ordens Religiosas na Terra de Santa Cruz

A primeira ordem a chegar à Terra de Santa Cruz foi a Ordem de São Francisco, nas primeiras navegações ao continente. Quatro décadas depois, vieram os Jesuítas, que instalaram as primeiras missões. No final do século XVI chegaram os Carmelitas e os Beneditinos. Na primeira metade do século XVII chegaram os Capuchinhos e os Mercedários. Os Agostinianos e os Dominicanos, presentes em Nova Castela, ainda não se instalaram na colônia lusitana. O fato de a ordem responsável pelo Tribunal da Inquisição não estar presente na colônia não está livre de especulações e teorias.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 0:47  Deixe um comentário