MESTIÇOS

Mestiço é o resultado de toda mistura entre nativos, negros e brancos. Em comum, muitos são tratados de acordo com a origem social hierarquicamente inferior ou de forma mais branda, com alguma possibilidade de ascensão social. Também correm o risco de serem visto com desconfiança por ambos os grupos dos quais se origina, ficando de fora dos dois mundos.

Inicialmente, a miscigenação mais comum foi entre os homens brancos (a primeira mulher a chegar do Velho Mundo levou algumas décadas) e as nativas do Novo Mundo. Os filhos dessa união são os Caboclos. Fora dos principais centros urbanos, eram bastante estimados. Na medida em que foram chegando mais brancos e mulheres brancas, foram perdendo prestígio. Dependendo da condição do pai (pois caboclo de pai nativo e mãe branca é bastante raro), não tem tanta dificuldade em se estabelecer na sociedade colonial. Sua dupla origem lhe dá certo prestígio nas bandeiras. Porém, pode ser visto com suspeita pelos nativos. Sua posição social varia muito de acordo com a região. Em Piratininga, são bem vistos, pois muitos bandeirantes são mestiços. Em São Sebastião, já tiveram dias melhores, sendo substituídos nos trabalhos urbanos pelos negros.

Com a chegada dos escravos negros e a implantação das grandes fazendas, começaram a surgir os primeiros filhos de pai branco e mãe negra (o inverso é a combinação mais rara). Foram designados pejorativamente como Mulatos, pois muitos negros (não necessariamente mestiços) faziam transporte de carga como as mulas, que eram fruto de uma mistura de raças. O termo, entretanto, foi adotado oficialmente pela Coroa para designar essa mestiçagem.

Com o crescimento das vilas e cidades, a participação de escravos e negros libertos nos pequenos negócios cresceu bastante, bem como o contingente de mulatos.  É possível encontrar mulatos como comerciantes ou artesãos bem sucedidos nas cidades, ou ainda como técnicos remunerados na produção de açúcar e melado. Sua associação com a cultura negra ou com a dos colonizadores é bastante circunstancial, assim como sua inserção na sociedade. Quanto mais clara for sua pele, maiores as chances de aceitação. As cidades, particularmente, oferecem aos mulatos uma razoável mobilidade social e espacial. Alguns chegam a estudar na Europa.

Já a interação entre negros e nativos é menos comum. O negro, em sua grande maioria, é escravo, vive limitado a sua área de trabalho. Só tem alguma liberdade de circulação nas cidades. Entretanto, nos núcleos urbanos, os nativos são presença cada vez menos frequentes. A maioria das tribos foi entrando ainda mais para o interior. Em Piratininga, onde ainda há bastante nativos e caboclos, a presença de negros é ínfima.

Muitos Quilombos se estabelecem longe das cidades, assim como os nativos, mas nem sempre há interesse mútuo em estabelecer qualquer tipo de contato. E, mesmo quando ele acontece, são pessoas que, por razões óbvias, vivem à margem da vida colonial. O ambiente mais propício a essa miscigenação se encontra no Nordeste, com a expansão da criação de gado e de cavalos no sertão. O resultado dessa união é o Cafuzo, cuja pouca incidência proporciona uma aura de excentricidade por onde quer que passe.

O percentual de mestiços livres é bem maior do que o de negros, mas, na colônia, a liberdade nem sempre pode ser devidamente aproveitada, mesmo por um homem branco. Há o caso de uma cafuza que nasceu livre e nunca havia experimentado o cativeiro. Quando adulta, já órfã e sem recursos, decidiu se vender como escrava.

Anúncios
Published in: on 8 de janeiro de 2019 at 18:25  Deixe um comentário  

IORUBÁ

Os Iorubá fundaram o Império Oyo no século XV, na Costa do Ouro. No século seguinte, eles foram invadidos pelo Império do Benim. A recuperação só ocorre cem anos depois, quando experimentam um forte crescimento a partir do comércio de escravos, o que lhes dá poderio bélico, particularmente pela superioridade da cavalaria adquirida junto aos Lusitanos.

Apesar de serem um grupo pequeno, os Iorubá já são a terceira maior etnia negra na colônia lusitana. Na região dos bandeirantes, sua presença pouco se faria sentir não fosse a formação dos Quilombos da Lua. Encontram-se em maior número no Nordeste, particularmente na capital.

A religião dos Iorubá é o Culto dos Orixás. No Continente Negro, trata-se de um culto local, não compartilhado por outros povos. Mas como a etnia também está presente em outros reinos, como o de Dahomey, há muita influência e intercâmbio cultural na região.

O CULTO DOS ORIXÁS

Na cosmogonia iorubá, o deus supremo é  Olodumaré. Ele não aceita oferendas, pois tudo o que pode ser ofertado já lhe pertence na qualidade de criador de tudo o que existe.

Segundo a concepção iorubá, todo o processo de existência se desenvolve no mundo material, Aiye, e no mundo espiritual, Orun. Tudo o que se manifesta no Aiye tem a sua pré-existência no Orun.

Como parte da criação do céu e da terra, Olodumaré criou os Orixás, entidades intermediárias responsáveis pelos diversos reinos da natureza. Os Orixás atuam de acordo com as funções que lhes são delegadas por Olodumaré. A criação da vida na Terra foi delegada a Oxalá.

O Culto dos Orixás é uma religião que trabalha com as energias da natureza, que por sua vez são as energias dos Orixás. Muitos Orixás são ancestrais que foram divinizados, pois durante sua vivência na terra adquiriram controle sobre a natureza. Assim, eles possuem características semelhantes aos seres humanos, pois se manifestam através das mesmas emoções.

No Continente Negro, cada Orixá está ligado originalmente a uma cidade ou a um reino inteiro. A realização das cerimônias de adoração ao Orixá é assegurada pelos sacerdotes designados por sua tribo ou cidade. Obviamente, tal cenário não encontra correspondência na Terra de Santa Cruz.

Os Orixás são individuais de cada pessoa, que por sua vez é parte do orixá em si. Ou seja, uma pessoa que é de Oxalá, seu orixá individual, é também parte do Oxalá divinizado, com todas as suas características, como um arquétipo.

Essa ligação espiritual indissolúvel entre o indivíduo e seu orixá permitiu que os Iorubá não enfrentassem os mesmos obstáculos que os Fon e os Banto para darem continuidade a seu culto na colônia. Ao trazerem os Iorubá para o Novo Mundo, os mercadores de escravos, sem o saber, transportavam muito mais do que seus olhos podiam ver.

Os Iorubá podem não ser tão antigos e numerosos na colônia quanto os Banto. Podem não ter uma estrutura religiosa tão organizada quanto os Fon. Mas chegaram na Terra de Santa Cruz com toda a força de seu axé.

AXÉ

Dentro da tradição iorubá, a existência se deve à manifestação de uma força chamada Axé. Sem Axé não há a possibilidade de existência e de realização, pois dele decorre todo o processo vital.

Os Orixás representam a personificação das forças da natureza e dos fenômenos naturais. Representam os quatro grandes elementos: fogo, ar, terra e água. Representam ainda os três reinos: mineral, vegetal e animal, além dos princípios masculino e feminino. Tudo isso representa o poder vital.

O axé é parte do Orixá. Essa energia pura interfere também na existência dos seres humanos. No momento em que a pessoa é concebida, seu corpo é criado com a energia predominante de um Orixá. As práticas e rituais da religião iorubá têm por finalidade a sintonia e integração do ser humano com essa energia divina da qual é formado. Ao identificar a força do Orixá e se alinhar com ela, a pessoa consegue que essa força trabalhe a seu favor.

OS ORIXÁS

Obatalá: o pai de quase todos os orixás, criador do mundo e dos homens. Orixá do branco, da paz e da fé. Ele representa claridade, justiça e sabedoria. É o dono da argila da criação.

Exu: orixá guardião dos templos, casas, cidades e das pessoas. Mensageiro divino dos oráculos. Orixá das encruzilhadas e passagens. Ele representa o poder dos ancestrais e encarna a continuidade da vida. Exu tem o dom de estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Move-se através do mundo dos vivos e dos mortos. É o equilíbrio da natureza, sem ele nada poderá ser feito. Exu é malicioso, brincalhão e inteligente, com forte agressividade, coragem, iniciativa e espírito crítico.

Ogum: orixá do ferro e da guerra. É o dono do trabalho. Ele está em tudo onde há tecnologia. Ogum é o próprio progresso. O temperamento de Ogum caracteriza-se pela violência: é extremamente agressivo e impulsivo.

Xangô: orixá do raio, do trovão, da justiça e do fogo. Xangô foi um rei iorubá, sendo imortalizado como o deus do trovão. É um Orixá temido e respeitado, viril e violento. Xangô é inteligente, com boa capacidade de organização e planejamento. Seu grande potencial agressivo é controlado pela razão e direcionado para fins específicos.

Oyá: orixá feminino dos ventos, relâmpagos, tempestade e trovão. Tem a água como elemento, além de estar ligada aos animais e aos espíritos. Como guerreira do panteão iorubá, ela representa o poder feminino. Ela é forte, ágil e agitada como o próprio vento. Quando está enfurecida, pode criar tornados e furacões. É inteligente, agressiva e dominadora, oscilando entre a impulsividade e o controle rígido.

Oxumaré: orixá da chuva e do arco-íris, o dono das cobras. É Oxumaré quem recolhe a chuva que cai na terra e a transforma em nuvens. Portanto, é ele quem regula as chuvas. Está ligado a todos os movimentos que não podem parar. O que inclui o movimento contínuo do universo e dos corpos celestes.

Ossaim: orixá das ervas medicinais e seus segredos curativos. Sua força e poder estão no conhecimento da mistura das folhas. Ele é o guardião de todas as florestas.

Oxóssi: orixá da caça e da fartura. Senhor das florestas, sendo seu habitat natural onde vive e caça. É a divindade da harmonia e do equilíbrio da natureza. Oxóssi é prudente e desconfiado, mas afetuoso. Oxóssi porta o Ofá, um arco e flecha sagrado.

Oxum: orixá feminino dos rios, cachoeira, do ouro, do amor e da fertilidade. É o poder feminino e o princípio da criação. Representa a força das águas dos rios e cachoeiras. Oxum é sensual, inteligente, intuitiva e prática.

Obá: orixá feminino das águas revoltas dos rios. Guerreira, usa um escudo e o Ofá (arco e flecha sagrado usado por Oxóssi). Obá representa as águas revoltas dos rios. Ela também controla o barro, a água parada, a lama, o lodo e as enchentes. É energética e forte, considerada mais forte que muitos Orixás, vencendo na luta Oxalá, Oyá, Oxumaré, Exu e Orunmilá.

Iemanjá: orixá feminino dos lagos, mares e fertilidade. A deusa do mar e da lua. Ela é o arquétipo de mãe e a provedora de riqueza. Iemanjá é extremamente generosa. Mas, como o oceano, pode ser implacável. Iemanjá é também a guardiã dos segredos que estão escondidos nos oceanos.

Obaluaiyê: orixá das doenças epidérmicas e das pragas, e também da cura. Sua veste é a palha, onde esconde o segredo da vida e da morte. Ao mesmo tempo em que causa as doenças, possui o poder de cura sobre elas.

Orúnmilá: orixá da adivinhação e do destino. É a soma da sabedoria suprema, a vida e a morte, o nascimento da natureza, a visão total do mundo e da existência, estabelecendo normas éticas que irão comandar os homens. Seu culto é diferenciado, pois é reverenciado através de seu oráculo e porta-voz, Ifá.

OS SACERDOTES

Há pessoas que possuem o dom de vivenciar mais intensamente a ligação com seu Orixá. Quando essa predisposição inata é acompanhada de orientação e conhecimento de rituais específicos, a pessoa passa a ter controle da incorporação, tornando possível que o Orixá se manifeste de forma plena. A iniciação permite que o axé seja transmitido ao sacerdote.

Iyalorixá (a sacerdotisa) e o Babalorixá (o sacerdote) são responsáveis pela iniciação dos Iaôs e pelo culto de todo e qualquer orixá.

Iaô: os iniciados. A ideia de casamento místico presente na Costa do Ouro se perdeu entre os Iorubá trazidos à Terra de Santa Cruz. Em seu lugar se sobrepõe a relação de pais e filhos. Os iniciados são filhos ou filhas de Orixás; os sacerdotes são os pais ou as mães dos iaôs. O iaô é uma pessoa escolhida pelo próprio orixá, a fim de que este possa, por meio de transe, manifestar-se no plano físico. A iniciação, que em Oyo dura sete anos, serve para condicionar a pessoa escolhida a entrar em transe no momento desejado, em circunstâncias precisas e muito controladas. O comportamento ritual obedece a um padrão rigoroso.

Pouco a pouco, o orixá adquire o hábito de falar através do iaô. Portanto, ele tem também a missão de transmitir as mensagens que o orixá destina às pessoas, incluindo o próprio iaô. Neste último caso, o orixá transmitirá ordens e conselhos para ele por uma terceira pessoa, que passará o recado quando findado o transe

Essa ligação evolui sem o iniciado se dar conta. Mesmo fora do estado de transe, a personalidade inconsciente do orixá continua a pensar, agir, observar e influir na vida do iaô. Na maioria das vezes, o iniciado não percebe o orixá atuando, controlando sua fisiologia e reforçando sua energia vital. O orixá pode modificar os desejos do iniciado, deixando-lhe recados imperceptíveis. Ao despertar de um sonho, o iaô muda de opinião sem saber por quê.

No fim da iniciação, o iaô pertencerá ao orixá, será seu depositário de força divina, e assim permanecerá até a morte. O que quer que faça e o que quer que pense, jamais poderá desfazer esse vínculo. Com o passar do tempo, suas personalidades entrarão em harmonia.

O dono da cabeça: o iaô deve herdar e reproduzir o seu orixá individual, e pode haver também influência de um segundo orixá. O sacerdote incorpora apenas o seu orixá de origem, o dono da cabeça. A relação com os orixás secundários se dá com base na negociação e troca de favores. Nenhuma oferenda a um orixá secundário poderá ser feita sem que o orixá principal também a receba.

O problema ocorre quando o caráter básico do iniciado não é muito aparente e pode ser modificado através da influência de outro orixá. Um orixá secundário pode procurar impor-se no lugar daquele que é o dono da cabeça. Quando ocorre de um orixá secundário se impor, significa que o iaô passará a incorporá-lo. Caso isso se consolide, o seu verdadeiro orixá passará a persegui-lo. É possível perceber quando isso ocorre na medida em que o comportamento do iniciado difere demais das características de seu suposto orixá principal.

É importante ressaltar que essa diferença nada tem a ver com o gênero. Um orixá masculino ou um feminino pode ser ligado a homens ou mulheres indistintamente.

Inkita: forma de punição na qual o orixá manifesta diretamente a sua cólera, infligindo ele mesmo um castigo a seus filhos. Exemplo: a pessoa entre em transe, seu orixá incorpora e vai pro mato. Ela permanece por lá várias horas e volta toda lacerada, sem lembrar o que aconteceu.

O Culto dos Orixás na Terra de Santa Cruz

O uso de colares, cores, gostos particulares dos Orixás e obrigações, tão meticulosamente observados no Império Oyo, são considerados luxos nessas primeiras décadas no Novo Mundo. O mais importante é a sobrevivência do culto. O maior temor dos sacerdotes é que, caso enfraquecidos pela falta de seguidores, os Orixás atravessem de volta o Mar Oceano e nunca mais retornem.

Os iaôs costumam usar o colar do seu orixá. Simples, feito de um fio só. Porém, muitas vezes os rigores da vida de escravo, particularmente daqueles que trabalham nos engenhos, não permitem que se sigam muitos dos protocolos sacerdotais. A existência de um terreiro no qual praticar o culto, organizado conforme a crença iorubá, por enquanto é apenas uma lembrança das terras africanas. Um sonho a ser materializado apenas nos quilombos.

Os cultos dentro do culto

Dentro do Culto dos Orixás há dois cultos independentes, nos quais o sacerdote não entra em transe: o Culto de Ifá e o Culto aos Eguns. O primeiro inicia os Babalaôs. O segundo, os Ojés.

CULTO DE IFÁ

O Culto de Ifá é um sistema divinatório bastante popular na Costa do Ouro, a ponto de influenciar fortemente a religião Vodum. No Império Oyo, é empregado principalmente nas decisões de cunho religioso ou social.

Babalaô: a iniciação de um sacerdote de Ifá não comporta a perda momentânea de consciência. Não se trata de incorporar Orunmilá. É uma iniciação totalmente intelectual. O Babalawo passa por um longo período de aprendizagem de conhecimentos precisos, uma quantidade enorme de histórias e lendas antigas, cujo conjunto forma uma enciclopédia oral dos conhecimentos tradicionais dos Iorubá.

Durante os anos de iniciação, o Omo-awo (iniciado de Ifá) aprende a usar o Opelé (colar de Ifá). A ele é impedido a mentira, o roubo, a ganância, e o adultério.

Itelodu: “o começo”. Ritual que conclui a iniciação. Serve de impulso para o Babalaô aprimorar suas práticas religiosas, fazer medicinas e utilizar os vários instrumentos adivinhatórios.

Odu: é a marca do destino. Consiste no lançamento de 16 búzios, que permite 256 combinações possíveis. Este lançamento é feito com diferentes técnicas.

Opon-Ifá: tábua sagrada feita de madeira, de diversos formatos, onde são marcados os signos dos Odus e na qual são lançados os búzios, o Opelé ou os Ikins (caroços de dendê).

Opelé: de utilização privativa do babalaô. É um colar composto de oito metades de favas, presas a uma correntinha que se joga sobre a mesa, de modo a cair formando um U, cuja abertura fica colocada diante do adivinho. As favas, ao caírem, formam então 16 palavras ou odus. O babalaô interpreta a resposta de acordo com seus conhecimentos.

Igba-odu: a cabaça da existência. Todo iniciado em Ifá deve ser capaz de olhar para dentro da grande cabaça sem ficar cego ou perder seu equilíbrio. Ela contém uma mistura preparada pelo babalaô e alguns objetos sagrados. Ela representa o mistério oculto que não pode ser revelado. Sua tampa não pode ser removida. Só os iniciados podem vê-la. Apenas aquele que apreendeu todo o conhecimento necessário será capaz de vislumbrar incólume o seu interior.

Iyanifá: é a mulher que se submete a todas as etapas da iniciação. A única exceção aos rituais de iniciação de uma iyanifá é que ela é proibida de olhar a cabaça da existência.

Apetebi: é a esposa do babalaô. Ela pode ter conhecimento ou não da filosofia de Ifá, ou seja, ser uma iyanifá.

CULTO DOS EGUNS

Egum: alma ou espírito de qualquer pessoa falecida, iniciada ou não. Egungun se refere a espíritos de homens importantes iniciados no Culto dos Orixás. Os ancestrais que assumem formas corporais. Genericamente, são os Eguns.

Xangô, ainda em vida, foi o fundador do culto. E foi por ele determinado que as mulheres não poderiam participar do culto, pois este foi criado justamente como vingança contra as Iyámi Ajé, uma sociedade secreta de mulheres. Apenas os espíritos masculinos são preparados para serem convocados em rituais. O culto também mantém relações com Exu e Ossaim, que são cultuados pelos Ojés, os sacerdotes.

O principal objetivo do culto é tornar o espírito ancestral visível, manipular o poder que emana dele e atuar como veículo entre os vivos e os mortos. Ao mesmo tempo, mantém restrito controle na relação com os mortos, mantendo-os isolados dos vivos.

Os Eguns aparecem cobertos por roupas coloridas que permitem perceber uma forma humana. O culto não é de incorporação e sim de materialização. Caso a forma não seja reconhecível, provavelmente se trata de um egum coletivo, guardião da ética e da disciplina, a manifestação mais respeitada e temida.

Mesmo que o Egum não se manifeste fisicamente, sua presença poderá se manifestar só pela voz. A voz do Egum carrega com ela todo o poder dos ancestrais. Feito de pura energia, os Eguns falam de modo curioso. Alguns se expressam por meio de vozes profundas, roucas e cavernosas. Outros falam muito baixo, porém com voz muito aguda.

Awo: o mistério da morte, poder sobrenatural que emana dos Eguns. Indica que a morte e os elementos que são extensões dela (em iorubá, a morte é masculina) não são e nem podem ser conhecidos. Não se sabe, e ninguém deve procurar saber, o que se esconde sob as tiras de pano, pois o segredo é uma existência fundamental no culto.

Ojé: sacerdote do Culto dos Eguns. É o intermediário entre os vivos e os mortos. Responsável por tornar os espíritos visíveis. O ojé não entra em transe e tem uma iniciação distinta do iaô. Ele aprende a lidar com os mistérios da morte e com as relações que daí derivam. O espírito que está sendo chamado não é bom nem mau, mas com ambas as qualidades. Sendo um poder, ele é perigoso se tratado de modo errado. Os ojés são capazes de invocar um Egum em qualquer lugar, de acordo com as necessidades.

Os ojés são iniciados em um segredo que devem manter acima de tudo, e são punidos por um pacto que se dá entre os sacerdotes e os espíritos. Tal pacto é sagrado, imutável e permanente.

Ìsan: vara de mais ou menos 1,60m. É o único meio pelo qual um Egum pode ser encontrado e mantido à distância. O ojé emprega o ìsan para chamar o Egum, para guiá-lo e para despedi-lo. Um ìsan colocado horizontalmente impede o Egum de ir mais adiante. Também pode ser brandido como um chicote. Bater no chão três vezes é invocar o espírito dos mortos.

Eguns na Terra de Santa Cruz

No que diz respeito ao culto de seus antepassados, os Iorubá deveriam enfrentar as mesmas dificuldades que os Banto e os Fon ao se distanciarem de suas terras. Entretanto, sem que ninguém saiba como foi feito, um escravo iorubá conseguiu chegar na capital da colônia junto com seu falecido pai. Em torno deste Egum se formou um grupo de culto. Com o passar do tempo, os Eguns de Ojés mortos na colônia engrossaram a quantidade de Eguns cultuados. Sua prática, no entanto, é bastante limitada. Nenhum branco conhece o culto, e, mesmo entre os Iorubá, poucos sabem da sua presença na Terra de Santa Cruz.

ÌYÀMÍ OXORONGÁ

Ìyámi Agbá: são os mortos do sexo feminino, mas não são cultuados individualmente. Sua energia como ancestral é aglutinada de forma coletiva e representada por Ìyámi Oxorongá. Esta imensa massa energética que representa a ancestralidade coletiva feminina é cultuada pela sociedade Guèlédé, composta exclusivamente por mulheres, e somente elas detêm e manipulam este perigoso poder.

Ogbé Guèlédé: sociedade secreta criada por Obá na qual apenas as mulheres são aceitas. Ao participarem dessas reuniões, as mulheres usam máscaras para não serem reconhecidas e deixam seus seios expostos, para que nenhum homem se infiltre durante as reuniões.

As sociedades de Ìyàmí, na Costa do Ouro, são dirigidas por um conselho de mulheres idosas da aldeia, que é composto também por iniciadas de Oxum, Yemanjá e Oyá. Quando se pronuncia o nome de Ìyàmí Oşorongá, quem estiver sentado deve se levantar, quem estiver de pé fará uma reverência, pois esse é um temível espírito a quem se deve respeito completo.

O pássaro Oxorongá, do Continente Negro, emite um som de onde provém seu nome, e ele é o símbolo de Ìyàmí. As Ìyàmí são as senhoras da vida. Quando devidamente cultuadas, manifestam-se apenas em seu aspecto benfazejo. Não podem, porém, ser esquecidas: nesse caso lançam todo tipo de maldição e tornam-se senhoras da morte. O objetivo da sociedade é exacerbar sua cólera, mas há quem considere que as oferendas feitas em sua homenagem deveriam ser voltadas para aplacá-la.

Ajé: mulheres idosas de poderes extraordinários. Representam a maternidade, fertilidade, fecundidade e a essência da vida. Representam também a imagem persecutória, dominadora e agressiva. Pelo poder procriador, tornaram-se conhecidas como as senhoras dos pássaros, e sua fama de grandes feiticeiras as associou à escuridão da noite. Por isso também são chamadas de Eleye, a Dona do Pássaro, e as corujas são seus maiores símbolos.  São as feiticeiras mais temidas entre os Iorubá. Possuem o poder de se transformar em pássaro. Mulheres-pássaros, senhoras da noite, voam de um lado para o outro levando encantamentos, dores, doenças, misérias, rancor e morte. Ao ouvir seu temido canto, todo ser humano deve proteger-se e agradá-la, pois sua ira é fatal.

O voo de Oxorongá

Não há conhecimento da presença de uma Ìyàmí na Terra de Santa Cruz, embora não seja impossível que uma delas tenha sido capturada e escravizada. É bastante improvável, no entanto, que haja alguma sociedade Guèlédé na colônia, pois as próprias circunstâncias do cativeiro não favorecem a existência de uma sociedade secreta para os próprios negros.

SOCIEDADE OGBONI

No Império Oyo há uma tendência muito forte de formar associações e corporações devido a sua grande extensão de terras. Estas associações são formadas com o interesse comum de proteger a população. A sociedade secreta Ògbóni, a sabedoria da terra, é sustentada pela tradição de ter surgido nos primórdios do reino iorubá. Estão constantemente dedicados aos estudos místicos e serviram de modelo às demais sociedades secretas iorubá. Ela venera a terra como fonte da vida. Sua tarefa é supervisionar e fazer cumprir as leis estabelecidas.

Os Ogboni mediam os conflitos dentro da comunidade quando a autoridade dos governantes se prova inadequada. O poder dessa sociedade varia de reino para reino, mas nenhum assunto de relevância pode ser resolvido sem o consentimento deles. Os Ogboni deliberam sobre quaisquer assuntos de interesse da sociedade. Uma vez tomada a decisão sobre o tema em discussão, não há possibilidade de mudança.

A sociedade Ògbóni se dedica a praticar um dos cultos mais antigos dos Iorubá, baseado na preservação de Onilè (a Terra).  Para os Iorubá, a terra é sagrada porque foi a primeira coisa que Olódùmarè criou. A sociedade ensina como tratar a terra e a melhor maneira de melhorar a sua produção, respeitando o seu poder.

Simbolizando a terra há um buraco com aproximadamente 15 cm de diâmetro no canto dos templos de Ogbóni, que dizem não ter fundo. Ninguém nunca viu esses buracos sendo escavados. Suspeita-se de que são ocorrências naturais e, ao encontrá-los, os membros da sociedade constroem no local um templo. Ou seja, não é o buraco que está no templo, mas o templo é que está no buraco. Anualmente, muitas oferendas são ali depositadas e desaparecem imediatamente.

No entanto, o principal tributo a Onilé é a própria vida, pois na terra repousam os corpos e restos de tudo o que já não vive. Onilé deve ser propiciada sempre, para que o mundo continue a existir.

O Conselho

A sociedade Ogboni é formada por um conselho de anciões composto principalmente por homens, raramente por mulheres. Há um pequeno grupo de mulheres que fazem parte da sociedade, o Erelú. Elas representam os interesses das mulheres da cidade nas reuniões. Internamente, os Ogboni possuem um vocabulário secreto com o qual realizam determinados rituais.

Os Ògbóni mantém um ritual de iniciação baseado num pacto que estabelece e faz cumprir o seu elevado código ético, zelando pelo bom caráter, justiça, verdade, lealdade e proteção.

Iwa: o bom caráter. Para os Iorubá, o caráter do homem vem em primeiro lugar, e dele depende o seu bem-estar na terra. Por esse motivo, o primordial para a Sociedade Secreta Ògbóni é o caráter reto.

Oluwo: o chefe do culto de Ògbóni, o senhor do segredo. O Oluwo é portador do shaki, uma estola que o distingue como detentor de honra e respeito.

Edan: peça que os anciões da sociedade usam na cintura. Esse adereço é uma corrente de cerca de 30 cm. Nas duas extremidades há um pequeno bastão de bronze: um representa o sexo feminino e o outro, o masculino. A sua principal função é proteger contra a feitiçaria, anulando seus efeitos. Ao participarem das reuniões da sociedade, os membros depositam seu Edan no solo para indicar que chegaram a alguma decisão. O Edan é o elo que une a comunidade a Onilé.

A Sociedade Ogboni tem como orixá protetor Oxum. Não só essa relação, como também a relação da terra com os mortos, associa a sociedade com a Geledé e também com o Culto aos Eguns.

Na Terra de Santa Cruz

A Sociedade Ogboni é uma instituição iorubá, que faz parte da estrutura política, social e religiosa dos reinos dessa cultura no Continente Negro. Na colônia, além de serem minoria, os Yorubá estão espalhados como estilhaços nas vilas e engenhos. Ainda que algum Ogboni tenha sido arrastado para o Novo Mundo, dificilmente terá encontrado ambiente propício para o restabelecimento da sociedade nessas terras. Tampouco um propósito para ela.

Published in: on 8 de janeiro de 2019 at 18:23  Deixe um comentário  

FON

No Continente Negro, os Fon estão concentrados no Reino de Dahomey, na costa ocidental, na região conhecida como Costa do Ouro. O reino sofreu recente derrota na luta contra o Império Oyo, dos Iorubá. Assim, uma boa leva de escravos fon foi exportada para o Novo Mundo. A maioria, entretanto, não veio para a colônia lusitana, mas para as ilhas do norte, dominadas por Castelhanos e Franceses.

Mesmo sendo tendo uma presença numericamente inferior, sua cultura não foi dominada pelos Banto. Sua religião, o Vodum, praticada também por povos vizinhos, é fortemente estruturada e disciplinada. Sua organização e hierarquia acabam servindo de parâmetro para as demais religiões negras.

Com o início da mineração no interior da colônia, aumentou a procura por escravos vindos da Costa do Ouro, uma vez que já possuem experiência com o trabalho nas minas. Assim, os Fon, que até então estavam mais presentes no Norte e no Nordeste, começam a se multiplicar na terra dos bandeirantes.

VODUM

O Vodum é uma tradição religiosa baseada nos ancestrais, que tem as suas raízes entre os povos dos reinos do Benim e Dahomey. Vodum, na língua Gbe (falada por várias etnias na Costa do Ouro, entre elas os Fon), significa “espírito”. Os voduns representam ancestrais divinizados e forças da natureza.

Em Dahomey, os ancestrais da realeza viram culto nacional e sufocam as casas familiares, que também possuem cada uma os seus voduns. Há também os voduns públicos, mais antigos, associados às grandes forças da natureza, como o trovão, o mar e a terra; ou de caráter territorial, protetores de locais específicos.

De acordo com os Fon, a pessoa integra quatro almas: um destino (kpoli), um princípio dinâmico (legbá), o espírito guardião de um ancestral (djoto) e uma divindade principal (vodum).

Na Costa do Ouro existe a crença em um mundo invisível, paralelo ao nosso, morada das forças espirituais, uma réplica do mundo sensível dos viventes. A morte é uma viagem para este outro mundo, o país dos mortos. Mas se trata de mortos que continuam a agir e interagir com o mundo dos vivos. A relação entre família, clã e reino gera conexões de parentesco indissolúveis mesmo com a morte.

Porém, a identidade familiar dos Fon não pode ser replicada na colônia devido à ruptura de laços e ao afastamento geográfico das sepulturas. O culto passa, então, a se concentrar nos grandes voduns públicos.

A travessia do Mar Oceano serviu para aprofundar laços de solidariedade entre aqueles que foram afastados de suas famílias. Os companheiros de viagem, chamados de Malungos, passam a ser os novos parentes. Entre eles vale inclusive o tabu do incesto.

Uma vez já estabelecidos na colônia, os Fon sofrem com o isolamento e falta de contato com outras regiões. Com o tempo, entretanto, novas genealogias vão sendo formadas, e a ancestralidade tende a ocupar novamente um lugar de destaque. Enquanto isso, em Dahomey, novos voduns reais vão se formando. As próximas gerações de Fon a chegarem à colônia trarão voduns desconhecidos por aqueles que aqui estão.

COSMOGONIA

Mawu é o ser supremo dos povos Fon, quem criou a terra, os seres vivos e os voduns. Lissá, ao lado de Mawu, é o vodum da Criação, pai e ancestral de todos os demais voduns. Enquanto Mawu representa o frescor e os prazeres da vida, Lissá encarna o trabalho, a seriedade e a determinação.

A divindade dupla Mawu-Lissá é intitulada Dadá Segbô (Grande Pai Espírito Vital). Em seu primeiro parto, Dadá Segbô gerou Sakpatá. Depois gerou Heviossô, que é macho e fêmea ao mesmo tempo. No seu terceiro parto, Dadá Segbô gerou o casal de gêmeos Agbê e Naeté. Na sua quarta concepção veio Agué e na quinta veio Gu, ambos machos. Na sexta veio Djó, a atmosfera, sem gênero definido, e em sétimo veio o caçula, Legba.

Depois de criar Ayìkúngban, o Mundo, Mawu deu seu domínio a Sakpatá. Heviossô, por ser muito parecido com seu genitor, permaneceu no Céu, governando os elementos e o clima. Agbê e Naeté receberam o domínio de Hu, o mar, que refresca a terra. Agué foi encarregado das plantas e dos animais que a habitam. Gu, que tinha o corpo feito de pedra e uma lâmina no lugar da cabeça, ficou responsável por auxiliar os homens a dominar o mundo criado e garantir seu sucesso e felicidade em suas cidades. Djó foi responsável por separar o Céu da Terra e dar trajes de invisibilidade a seus irmãos. Já o caçula, Legba, permaneceu junto de Mawu.

A cada filho, Mawu ensinou uma língua diferente, que deveria ser usada em seus próprios domínios. Djó ficou encarregado de ensinar a linguagem aos homens, mas todos se esqueceram como falar a linguagem de Mawu, com exceção de Legba, que nunca se separou dela. Assim, todos, até mesmo os voduns, precisam recorrer a Legba para se comunicar com Mawu.

OS VODUNS

Legba: representa as entradas e saídas e a sexualidade. Geralmente instalado na entrada da aldeia, afasta todos os maus espíritos. É invocado antes de qualquer cerimônia, para garantir a calma e o bom andamento do ritual. Esta regra jamais é esquecida pelo povo Fon, pois  Legba é o mensageiro entre os homens e os voduns, o intermediário, o linguista, o tradutor. Legba sabe falar todas as línguas. Mas não faz nada sem uma oferenda. Ele pode ser encontrado em todos os templos, pois é aquele quem abre o caminho para os demais voduns poderem atuar. O fetiche de Legba é colocado nas portas, pois protege o lugar com Barreira Astral. Jovial, astuto, audacioso, vaidoso, suscetível, irascível, caprichoso, grosseiro, indecente, que pode atrapalhar ou resolver qualquer problema. Legba é um desordeiro, gosta de disputas e intrigas, perturba a harmonia e semeia confusão, mas é reverenciado como um transformador, e não visto como um mal.

Heviossô: vodun que comanda os raios e relâmpagos. É o vodum do céu, que se manifesta em forma do trovão e do raio. É considerado um vodum de justiça que castiga ladrões, mentirosos, criminosos e malfeitores, incluindo os feiticeiros. Os seus emblemas são o Sô-kpé (“pedra de raio”) e o Sossiovi (machado de uma lâmina com forma de cabeça de carneiro).

Djó: vodum do ar, da atmosfera. Sua característica é a invisibilidade. Vive entre o céu e a terra.

Agbê: vodum dono dos mares. Senhor de Hu, o mar. Ele é representado por uma serpente, um símbolo que representa tudo o que é perene.

Naeté: irmã de Agbê, é a vodum das águas calmas.

Aziri: vodum das águas doces. Vive nas profundezas dos rios e lagoa. É uma serpente aquática.

Sakpatá: vodum da varíola. Por extensão, é o vodum de inúmeras enfermidades contagiosas que deformam o corpo. Todo o povo Fon o teme e o cultua fervorosamente. Seus sacerdotes são os únicos capazes de realizar a cura da doença, da mesma forma como podem também castigar com a varíola. Em Dahomey, o culto de Sakpatá é olhado com suspeita e, em alguns lugares, banido. Há sempre a suspeita de que seus sacerdotes espalham deliberadamente a doença para aumentar seu poder. Uma vodúnsi de Sakpatá não pode ser dada como esposa para o rei.

Gu: vodum dos metais, da guerra, do fogo, e da tecnologia. O ferreiro e agricultor, dono e criador de todas as armas. Caçador e guerreiro, o cão. O emblema principal de Gu é o Gubassá, uma adaga metálica adornada com desenhos místicos utilizada em diversos rituais, incluindo o culto de Fá, para abrir caminho para o mundo dos espíritos. Em segundo plano fica o Gudaglô, menor que o Gubassá, que Gu utiliza para defender seus filhos dos inimigos. Gu é representado portando estes dois sabres, o Gubassá na mão direita e o Gudaglô na mão esquerda.

Ayizan: “a esteira da terra”, vodum feminino da crosta terrestre e dos mercados, onde as pessoas se encontram e interagem. A ela também é atribuído o dom da palavra e da comunicação, e desta forma está estritamente ligada à Legba. Vodum responsável pela proteção da comunidade, guardiã do portal entre os dois mundos, espiritual e material.

Dan Ayidohwedo: vodum da riqueza, representado pela serpente que se rasteja e se esconde na terra, mas que ascende ao céu na forma de arco-íris. Dan rege a imortalidade, a duração das coisas, a preservação da vida.

Agué: vodum da caça e protetor das florestas. Ele tem uma só perna, às vezes representado também com um só braço e um só olho. Ensinou aos homens o segredo das plantas. Agué é também o chefe de todos os Aziza, os espíritos da floresta. Seu emblema é o arco e flecha, e encarna a inteligência e a sensibilidade do indivíduo para se adaptar à natureza. Reina sobre as aves e todos os animais.

Loko: o vodum dentro da árvore. Loko é cultuado em toda parte. Vodum das árvores sagradas, associadas às práticas terapêuticas. Seus altares são chamados Atínsá (no pé da árvore).

Fa: vodum da adivinhação e do destino. Fá é o deus da adivinhação ou da mensagem divina. Seus sacerdotes não entram em transe.

Agassu: vodum que representa a linhagem real do Reino de Dahomey. Herói mítico fundador da linhagem dos Kpòvĭ (filhos do leopardo). Seu nome significa “bastardo”. Seus descendentes fundaram os reinos de Allada, Hogbonu e Abomey, na Costa do Ouro. O rei é o leopardo, visto como divindade da guerra.

OS SACERDOTES

A manipulação dos elementos cerimoniais, sacrifícios e oferendas constitui o saber especializado dos sacerdotes como mediadores entre o mundo material e o espiritual. O ritual tem como principal finalidade a revelação através da adivinhação, acompanhado de oferendas e sacrifícios nos altares.

Os sacerdotes são chamados de Vodunon (o homem) e Vodúnsi (a mulher). Os vodunons são, em regra, os chefes dos cultos. Raras são as vodúnsis que ocupam essa função. Os sacerdotes de Fa (Bokonon) e de Agassu (Agassunon) atuam de forma distinta.

Os sacerdotes não dão ordens aos voduns. Eles pedem ajuda e os voduns respondem. Os voduns não trabalham para os devotos, eles fazem o que querem. O ritual apenas os convoca. A religião é apenas um caminho para os voduns se comunicarem com o mundo dos homens.

Hunkpame: templo dedicado ao culto vodum, existente apenas no Continente Negro.

Força vital: a força vital circula e é transmitida de um ser a outro. Uma pessoa pode ganhar ou perder força vital. Princípio semelhante ao ntu dos Banto e ao axé dos Iorubá.

VODUNON

O Sacerdote, o “detentor do vodum”. É ele quem mais acumula força vital. Enquanto chefe da aldeia, o vodunon pode ser também o chefe da família. Ele é obrigado a conhecer todos os segredos do vodum, as maneiras de tratá-lo para manipular suas forças, mas sem necessidade de entrar em relação mística com ele, ou seja, em transe. Sua atividade religiosa, além de gerar bens materiais, aumenta seu prestígio social. Ele é o símbolo da coletividade. A comunicação com os ancestrais e forças místicas é que legitima a sua autoridade como chefe. Na Terra de Santa Cruz, por sua vez, a aldeia se transforma na senzala. O clã é substituído por laços de solidariedade formados pelas circunstâncias.

Em Dahomey, o vodunon raramente incorpora seu vodum. Não há nenhum impedimento para que o faça, mas suas funções políticas e administrativas exigem total controle de seus atos. Na colônia, sua realidade é diversa. Não há Hunkpame para administrar, apenas a sobrevivência: sua e de sua religião.

O vodunon só pode incorporar o seu vodum. Aos demais, porém, pode pedir e negociar ajuda. Menos a Fá e a Agassu, cujos sacerdotes seguem práticas distintas.

VODÚNSI

Vodúnsi é o nome genérico para as sacerdotisas dos voduns. A iniciação é dividida em dois estágios. O primeiro é a iniciação simples, Vodúnsi-he. O segundo é celebrado com intervalo de vários anos, tornando-se Vodúnsi gonjaí. Só estas podem assumir a função de Noché (chefe da casa), um ano após a conclusão da iniciação.

Em Dahomey, a vodúnsi enfrenta, desde nova, um longo processo de iniciação no Hunkpame. Lá, a sacerdotisa sofre uma morte ritual, para renascer como esposa do vodum. No final de todo o processo, ela é reintegrada à sociedade, um processo difícil, longo e doloroso.

Para chamar o vodum, a vodúnsi esfrega de leve as mãos uma na outra. Quando ele chega, ele se levanta de súbito. As vodúnsis não dançam para iniciar a possessão; é o gesto de ficar em pé que marca o momento.

A vodúnsi incorpora a dignidade, calma e sobriedade atribuídas ao vodum. A expressão do vodum é reelaborada cada vez que ele é incorporado e se manifesta na vodúnsi. Mas os voduns não podem ficar por muito tempo, pois as vodúnsis se cansam.

Na Terra de Santa Cruz, não há templos, não há sequer, na maioria dos casos, um vodunon capacitado para dirigir a iniciação da noviça. Isolados em suas áreas de servidão, afastados por uma imensidão de água de sua terra de origem, de seu clã, de seus espíritos, a iniciação de uma nova vodúnsi é um período de descobertas tanto para a iniciada quanto para o seu mestre, na base da experimentação e intuição, com uma pequena ajuda dos próprios espíritos.

A vodúnsi-he, tradicionalmente, só pode incorporar o vodum no qual ela for iniciada e pedir auxílio a Legba. Entretanto, em Santa Cruz, o isolamento necessário para o “casamento” da iniciada é impossível. Ela desenvolve muito a sua capacidade de incorporação, mas a sua relação com o mundo dos voduns é desenvolvido de forma precária, incompleta.

Assim, algumas vodúnsis descobriram que são capazes de incorporar outros voduns. Só não é aconselhável que o façam. Sem atingir um alto grau de conhecimento religioso (dominado pela vodúnsi gonjaí), correm o risco de irritar os voduns, principalmente o seu próprio. Além disso, pode ocorrer de atrair outro tipo de espírito (qualquer outro espírito!).

Em Dahomey, as vodúnsis são extremamente respeitadas em suas comunidades e por seus familiares, mas raras são as que atingem relevância política, sendo a maioria gente do povo. Assim, a incidência de vodúnsis nos navios negreiros é bem maior do que a de vodunons. Enquanto o vodunon domina a arte da iniciação, a vodúnsi-he só tem como referência o seu próprio processo de aprendizado.

AGASSUNON

Sumo-sacerdote de Agassu, possui o papel de chefe de cultos dentro da cidade real. Seu emblema é o leopardo, cuja pele faz parte das insígnias tanto do rei como do Agassunon.

A presença de um sacerdote de Agassu no Novo Mundo é um tanto improvável. Isso só seria possível a partir da escravização de um membro da família real ou de um Agassunon. Porém, a escravização de um sacerdote real é rara, ocorrendo apenas em circunstâncias excepcionais, como nas brigas de sucessão.

O Agassunon, assim como o rei, tem o poder de se transformar em um leopardo. Essa transformação ocorre em três níveis, sem entrar em transe:

Sobre-humano: o sacerdote adquire habilidades e sentidos de um leopardo, bem como garras nas mãos.

Híbrido: o sacerdote se transforma em um ser semelhante a um Kanaíma. Caminha ainda ereto, mas adquire feições animalescas, bem como uma pelagem de leopardo. É a forma que atinge o maior nível de força e de capacidade destrutiva.

Animal: o sacerdote se transforma em um leopardo de fato.

Contudo, a não ser que seja um Agassunon iniciado no templo real de Dahomey, uma iniciação em Santa Cruz será necessariamente precária e incompleta, havendo um grande risco do sacerdote perder o controle nas formas híbrida e animal. Para tanto, será preciso um grande conhecimento e domínio da religião vodum.

Como os demais sacerdotes, o Agassunon poderá chamar Legba.

BOKONON

Sacerdote de Fa, “aquele que carrega os amuletos”. Atua de forma mais independente e individualizada, sem estar sujeito a organização de um templo, vivendo de seus serviços, preparando poções e fetiches. É um especialista com funções principalmente de cura e adivinhação, que atua segundo a demanda dos clientes, sem entrar em transe. No Continente Negro, a remuneração constitui elemento central da prática religiosa: cobrar ou exigir retorno material pelas consultas oraculares, processos de iniciação (inclusive das vodúnsis) ou pela fabricação de bŏs. Assim como os demais sacerdotes, o Bokonon poderá, ainda, pedir auxílio a Legba. Ele diferencia-se do bruxo por ser um ator benéfico. Bruxo é o praticante de atividade antissocial e agressiva.

Os Bokonons não são escravizados em quantidade significativa. Poucos estão atuantes na colônia lusitana. Entretanto, sua atuação e aprendizado mais despojado permitem um ensinamento mais eficiente de suas habilidades, que são basicamente a Adivinhação, a Cura e a fabricação de Bŏs e Botchios. Bŏ e Botchio são pertences do Bokonon, mas podem ser vendidos ou utilizados por terceiros.

Bŏ: remédios, amuletos e talismãs. Enfim, magia, feitiço e contrafeitiço. Medicina sagrada e outros objetos de poder de caráter defensivo, propiciatório ou agressivo. Os escravos em Santa Cruz chegam a usar bŏs para proteger os senhores que consideram bons. Já o uso dos bŏs contra a escravidão deu nova funcionalidade a esses objetos, sendo associados pela sociedade colonial à feitiçaria.

Botchio: o “cadáver” do Bŏ. São figuras antropomórficas de madeira que podem constituir um dos elementos do Bŏ. Podem, inclusive, exigir sacrifícios para serem reativados. Alguns brancos confundem o botchio com o próprio vodum, mas não se venera um botchio, usa-se o botchio. Ele não representa um vodum, mas pode servir para invocá-lo. Em Dahomey, seu uso recebe algumas proibições, segue algumas regras. No Novo Mundo, tais limitações inexistem.

Bokanto: adivinho convocado após o sepultamento de uma pessoa. É uma especialidade: o Bokanto aprende um ritual extra que lhe permite escutar os mortos. Não há diálogo: o morto só falará aquilo que deseja. O adivinho esfrega as mãos sobre um pote invertido, até que a voz do defunto seja escutada, com a revelação da causa da sua morte. Mas tal magia só pode ser realizada até dois dias após a morte da pessoa.

DJOTO

Espírito de um ancestral da linhagem que acompanha o indivíduo como um anjo da guarda. Ele não apenas acompanha, mas é um elemento espiritual constitutivo da pessoa.

Qualquer pessoa sensível à magia pode ter um djoto, mas um sacerdote poderá se comunicar com ele de forma mais direta. Uma pessoa comum poderá até ter um djoto sem se dar conta disso.

Published in: on 8 de janeiro de 2019 at 18:15  Deixe um comentário  

BANTO

No Continente Negro, os Banto formam uma etnia composta por 400 subgrupos étnicos. Entretanto, no que diz respeito à língua, o Bantu, eles apresentam uma forte unidade cultural.

Os Lusitanos aportaram em duas áreas dominadas pelos Banto, uma na costa oeste e outra na costa leste. Nesta última, em Mosambik, além do obstáculo da distância, o domínio sobre ela ainda é muito precário, pois a região é disputada com os Árabes, que chegaram naquela costa séculos antes. Então o povo de lá ainda não foi incluído no comércio de escravos.

Na costa oeste, o primeiro reino com o qual os Lusitanos travaram contato foi o Reino do Kongo. Seu rei, impressionado com o poderio militar dos Lusitanos, decidiu adotar voluntariamente o Cristianismo como religião oficial do reino, requisitando à Coroa o envio de missionários.

Após a emancipação do Reino Ndongo, que fazia parte do Kongo, os Lusitanos conseguiram travar uma boa relação com a aristocracia local e fundaram São Paulo da Assunção de Loanda, em uma região que formava um excelente porto natural. Após ser tomada pelos Neerlandeses na época da invasão de Olinda, forças coloniais comandadas pelo Visconde de Asseca recuperaram Loanda para os Lusitanos em 1648. Com isso, a colônia passou a comercializar diretamente com o Reino Ndongo, dando um novo impulso ao fluxo de escravos da região.

Os Banto são a grande maioria dos negros na colônia. Nas capitanias de São Sebastião e de Cabo Frio chegam a compor mais de 90% do total, incluindo seus descendentes nascidos em Santa Cruz. A religião principal dos Banto trazidos para a colônia lusitana é o Calundu.

O MUNDO ESPIRITUAL

Todos os povos que compartilham a cosmovisão banta acreditam em um deus único, supremo e criador, cujo nome varia, pois eles ocupam uma imensa extensão territorial. Segundo essa crença geral, após a criação do mundo, esse ser supremo se distanciou dele, entregando sua administração a seus filhos divinizados.

Os Banto creem em uma divisão entre o mundo invisível e o mundo visível. No mundo invisível, acima de tudo está Nzambi Mpungu. Ele reina sobre o universo e sobre os homens de modo distante, porém benéfico.

O culto a Nzambi não tem forma nem altar próprio. O altar de Nzambi é a sua própria essência, o próprio universo. Em cada local ele se faz presente e está ciente de tudo o que se passa. Assim, em qualquer lugar é possível cultuá-lo. Só em situações extremas ele é invocado.

Nzambi não tem representação física, pois os Banto o concebem como o incriado. Representá-lo seria um sacrilégio, uma vez que ele não tem forma. No final de todo ritual, Nzambi é louvado, pois Nzambi é o princípio e o fim de tudo.

Abaixo de Nzambi estão os Minkisi, plural de Nkisi. Os Minkisi são divindades criadas pelo ser supremo. Eles governam a terra e garantem o seu equilíbrio. Os Minkisi são os intermediários entre Nzambi e os homens.

Abaixo dos Minkisi estão os espíritos da natureza: animais, vegetais e minerais. Habitam lagos, rios, pedras, ventos, florestas ou objetos. Esses seres, embora não possuam forma humana, exercem grande influência sobre os homens, notadamente sobre as atividades da caça, pesca e agricultura. Além disso, eles atuam sobre os fenômenos naturais.

Abaixo desses espíritos da natureza, encontram-se os ancestrais, espíritos fundadores das linhagens, venerados por terem deixado uma herança espiritual favorável à evolução de sua comunidade. Os ancestrais estão mais longe de Nzambi do que as forças da natureza, mas são mais eficazes como intermediários entre os homens e a divindade suprema. São eles os responsáveis por garantir a solidariedade e a estabilidade do grupo ao longo do tempo. Eles receberam de Nzambi o ntu, a energia vital, e atuam como elo entre os homens e a divindade suprema. Um antepassado pode alcançar um alto grau de sacralização e se tornar um Nkisi.

Abaixo dos ancestrais, estão os antepassados, mais próximos dos seres humanos. Mortos recentes, personalizados. Para que o espírito de uma pessoa falecida se torne um antepassado, é preciso considerar a forma como ele morreu e a conduta que teve em vida. É preciso que ele tenha deixado as marcas de uma boa conduta moral, ter vivido até a velhice e não ter se suicidado, além de ter deixado grande descendência.

O antepassado se manifesta em uma pessoa viva por meio de possessão, enviando mensagens aos seus familiares, com os quais passa a desenvolver uma relação de muita proximidade. Assim como os ancestrais, o antepassado passa a ser cultuado e assume a função de intermediário entre Nzambi e a comunidade. Mesmo depois de morto, o antepassado se mantém como membro ativo do grupo familiar ao qual pertenceu em vida. Ele se torna o guardião e o protetor de seus parentes vivos. O antepassado se empenha em aumentar o ntu de seus familiares. Em contrapartida, o grupo precisa alimentá-lo e cultuá-lo. Caso contrário, ele pode acabar esquecido e esvanecer com o tempo.

Já no mundo visível, estão as forças pessoais: os reis, os chefes, os clãs, os sacerdotes, os anciãos, os homens. A realeza é sagrada. Os súditos chamam o rei de Nzambi Mpungu. É o próprio rei quem representa o Nkisi do reino. Aos anciões, cabe a responsabilidade de manter a comunidade unida.

Logo abaixo das forças pessoais, encontram-se as forças impessoais: animais, plantas e minerais. Todas elas proporcionam energia e vitalidade ao homem. Enquanto os animais emprestam suas características, os vegetais e minerais, conforme sua utilização em rituais, guardam propriedades ocultas e podem proporcionar benefícios ou malefícios.

Por fim, os fenômenos naturais e os astros. Estes estão a serviço da comunidade, passíveis de serem dominados pelos homens. Particularmente pelos sacerdotes e feiticeiros.

NTU

O ntu, a força vital, é um valor supremo para os Banto. O mundo é feito de energia. Todo ser é uma força. O ntu não se limita aos vivos, ele está presente na natureza, nos seres inanimados, no espaço e no tempo. Nzambi é único e não se confunde com o ntu, mas os demais espíritos são parte dessa força vital.

Muntu é o indivíduo, o ser humano. Bantu é a coletividade, o povo, significa “pessoas”. Kintu são os seres da natureza, animados ou inanimados. Kuntu é a expressão, que possui natureza própria, independente do ser que a expresse. É a inteligência, o sorriso, a beleza etc. Hantu é um lugar definido no tempo e no espaço. Ubuntu é a existência definida pela existência de outras existências.

O ntu pode aumentar ou diminuir por meio da interação das forças, de modo que um ser pode fortalecer ou enfraquecer outro ser. O homem, vivo ou morto, pode diretamente reforçar ou diminuir a força de alguém. Para se proteger contra a perda ou diminuição de energia vital por ação direta ou indireta de outros seres, a pessoa só pode resistir usando a sua própria força. Assim, é importante obter reforço da energia vital. Como o ntu também chega aos seres inanimados, é possível transmitir essa força a um barco, uma arma, uma casa.

Entre os Banto não há oposição entre o bem e o mal. O mal é o que prejudica o outro, o que ameaça a paz e a sobrevivência do grupo. Ele não possui um status sobrenatural, sendo um efeito circunstancial derivado da intenção dos seres. O ódio, o despeito, a vingança e até mesmo o esquecimento podem provocar distúrbios na interação dessas energias, gerando uma força vital distorcida que pode afetar o equilíbrio entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos.

O CALUNDU

Uma vez que o universo é constituído originalmente pela harmonia, bem-estar, saúde, segurança, poder e fecundidade, as forças malévolas podem, por meio de pensamentos e sentimentos malignos, causar danos como doença, morte, brigas e toda sorte de experiências negativas. Assim, a ordem natural original pode ser quebrada pela ação de espíritos ou por feitiçaria. Nos acontecimentos positivos há o aumento do ntu; e quando há sofrimento, dor ou infelicidade, há a diminuição do ntu. Os Banto atribuem as doenças e desgraças aos feiticeiros, os Ndoki.

Entre os Banto, mortos e vivos formam uma só comunidade. Os vivos obedecem aos seus mortos, prestando-lhes oferendas e sacrifícios. Caso contrário, um antepassado pode possuir um descendente para cobrar maior comprometimento com as obrigações rituais. Quando o descendente assume a condição de mediador entre os dois mundos, ele se torna o oficiante do culto desse espírito. Essa liderança é exercida por sacerdotes, que agem como adivinhos e curandeiros, capazes de captar e dirigir o ntu por meio de rituais. Tata é o sacerdote; Mametu é a sacerdotisa.

A relação entre a pessoa e o antepassado é marcada por obrigações recíprocas. Se a pessoa não cumprir seus compromissos, pode ser castigada com doenças ou outras formas que diminuam o seu ntu. Porém, essa perda de ntu pode ser também a ação de maus espíritos ou de feiticeiros. O sacerdote investiga o ocorrido para descobrir a verdadeira razão do enfraquecimento.

A magia no Calundu deriva da manipulação dessa relação entre vivos e mortos. Quando utilizada para o mal, a magia ameaça a ordem social e profana a vontade de Nzambi. É como agem os feiticeiros. Por outro lado, quando usada para o bem, a magia procura restabelecer e reforçar a harmonia e o equilíbrio, desencadeando energias capazes de neutralizar e proteger contra as forças maléficas. É a função dos sacerdotes.

O Calundu não é realizado em templos nem em terreiros específicos para fins religiosos. Seus rituais acontecem nas casas e fazendas. A música e a dança estimulam o transe. A possessão permite ao sacerdote incorporar as energias de seus antepassados, compartilhar seu conhecimento e promover a cura. A Adivinhação é parte inerente ao ritual. A possessão é um meio privilegiado para adivinhar as causas da perda do equilíbrio ou os desejos e necessidades dos antepassados.

O ritual mais comum é composto basicamente de invocação (com o auxílio da música), possessão (seguida de oferendas), adivinhação (dos males físicos ou espirituais) e cura (por meio de poção de ervas e raízes).

Ao incorporar um antepassado, o sacerdote tem um súbito aumento de sua força vital, agregando temporariamente atributos, habilidades e conhecimentos que antes não possuía. Ao incorporar um espírito da natureza, ele incorpora também algumas características sobre-humanas, de acordo com o espírito incorporado.

Ao incorporar um Nkisi, ele compartilha a plenitude de seu poder. No caso da invocação, sem incorporação, o sacerdote e o Nkisi estabelecem acordos breves ou de maior complexidade em troca de favores. Neste caso, o mais comum é o uso temporário de parte de suas habilidades místicas.

ANCESTRALIDADE

Entre os Banto, nada é feito sem que estejam em contato com os mortos, que, ao passarem pela agonia da morte, adquirem um conhecimento mais profundo do universo. Os descendentes prestam-lhe oferendas em suas sepulturas. Assim, os antepassados permanecem ligados ao cotidiano de seus familiares, atuando de modo influente sobre seus destinos e contribuindo com seu ntu. A interação entre eles é marcada por sentimentos de admiração, medo e respeito profundo.

Os antepassados se comunicam com seus descendentes por meio de uma possessão maléfica ou benéfica. No primeiro caso, cabe ao sacerdote procurar um ajuste na relação entre o antepassado e o corpo no qual ele se manifesta. Em último caso, faz o exorcismo. No caso da possessão benéfica, a pessoa possuída passa a ser vista como uma privilegiada e pode até se transformar, pelo transe, em um sacerdote, assumindo função de oráculo, de modo que suas palavras se tornam palavras do antepassado.

ALÉM DA KALUNGA GRANDE

Os Banto só entendem a vida como parte de uma comunidade. Viver não é simplesmente existir, mas interagir com a comunidade. Quanto mais perto de seus antepassados, maior o nível de força vital; quanto mais afastado, maior a debilidade.

Assim, a travessia da Kalunga Grande (o Mar Oceano para os Banto) representa mais do que uma mudança social ou geográfica, mas a ruptura radical de tudo aquilo que dá sentido à vida dos Banto. Um silêncio espiritual, uma fratura no ntu, uma experiência inédita e traumática.

Os negros vieram sem nada, foram obrigados a deixar tudo o que havia de material para trás. Os Lusitanos queriam que os negros renascessem em uma nova terra, com novo nome, catequizados nos ritos da Igreja. Os escravos embarcados em São Paulo de Loanda são batizados antes de subirem no navio.

Vieram, também, sem seus mortos. Os cemitérios, seus antepassados, seus ancestrais, haviam todos ficado do outro lado da Kalunga Grande. E também os seus sacerdotes e anciãos. A grande maioria dos escravos era mais jovem, prisioneiros ou escravos já existentes no Reino do Kongo.

Levados pelo desespero, pela solidão espiritual, alguns escravos se mataram ou se deixaram definhar na esperança que seus espíritos retornassem ao Continente Negro, a fim de voltar para junto de seu clã. Mas logo perceberam seu equívoco. Mesmo mortos, eles permaneceram no Novo Mundo, em um mundo astral desconhecido, repleto de criaturas e espíritos que não conseguiam compreender.

Pela forma como morreram, esses espíritos não puderam se tornar os novos antepassados, mas conseguiram de alguma forma se comunicar com os vivos e alertá-los sobre sua nova realidade. Aqueles que já estavam em Santa Cruz trataram de alertar os recém-chegados.

Os Banto se deram conta de que deveriam construir uma nova linhagem a partir do Novo Mundo. Novos antepassados, novos ancestrais. E novos sacerdotes. Estes, na verdade, não passaram por iniciação alguma. São pessoas com abertura natural para o mundo invisível, que se educaram no Calundu por conta própria.

O ambiente novo e estranho, tanto para o banto morto quanto para o banto vivo, fez com que se conectasse a uma ancestralidade própria dessa terra. Os Banto foram os primeiros negros a chegarem em massa na colônia. Foram contemporâneos de uma época em que a presença de nativos no cotidiano das vilas era bem mais intensa. Essa proximidade, ainda que desprovida de maior integração física e social devido às circunstâncias do cativeiro, contribuiu para que os sacerdotes incorporassem espíritos de nativos e caboclos. E, com o tempo, também de espíritos locais da natureza. Esses novos sacerdotes eram verdadeiros para-raios espirituais aleatórios, sem muito controle sobre as possessões.

Só quando eclodiu uma guerra civil no Reino Ndongo que chegaram os primeiros sacerdotes experientes a Santa Cruz. Com o fortalecimento dos novos antepassados e de sua força vital, os mais experientes conseguiram acessar os Minkisi. Mas nem todo Nkisi se dignou a atravessar a Kalunga Grande para atender a seus chamados.

Quando a primeiras levas de Fon começaram a chegar nas vilas e senzalas, os Banto se surpreenderam com o grau de articulação de seu culto, e passaram a tê-los como referência de organização religiosa.

MINKISI

Esses são os principais Minkisi que cruzaram o oceano em resposta ao chamado de seu povo:

Lembá Dilê: foi o primeiro Nkisi criado por Nzambi. Lembá Dilê foi encarregado de criar não só o Universo, mas também todos os seres. Ele é o equilíbrio positivo do universo, o fim pacífico de todos os seres. Nkisi da ventura, da compreensão, do entendimento e da morte, Lembá vai determinar o fim da estrada do ser humano. Atua como mediador para acalmar discórdias e definir uma solução.

Kindembu: senhor do tempo e das estações, Nkisi das transformações. Ele guia o seu povo nômade com sua bandeira branca, cujo mastro é tão alto que pode ser visto de qualquer lugar, não deixando ninguém perdido.

Kaiango: é a energia do vento, que tem o domínio sobre o fogo. Comanda os Nvumbe (espíritos dos mortos) através de seus ventos, guiando-os para o lugar apropriado.

Nkosi: Nkisi da guerra, do ferro e da forja, senhor dos metais. O leão, o guerreiro, o lutador. O devorador de almas. É um Nkisi de caráter agressivo e bastante temido. Nkosi é procurado para resolver conflitos nas aldeias ou na vida particular, mas muitas pessoas preferem distância dele devido ao seu poder de causar tanto ordem quanto desordem.

Kaviungo: Nkisi das doenças de pele, da saúde e da morte.

Katendê: Nkisi das ervas medicinais. Senhor do retiro e da vida ermitã nas florestas. Guardião das folhas sagradas. Só tem uma perna e é de baixa estatura. Nunca teve vida terrena, sendo criado diretamente por Nzambi.

Mutalambô: Nkisi caçador, que vive em florestas e montanhas. Domina as parte mais profundas das matas, onde o sol não chega.

Kisimbi: Nkisi da fertilidade, da maternidade, da riqueza, da família, representada como a sereia da água doce. Dotada de uma beleza sem igual, feiticeira, mestre da artimanha, dona do ouro e do cobre.

Published in: on 8 de janeiro de 2019 at 18:11  Deixe um comentário  

OS NEGROS

Em dois séculos de colonização, os Lusitanos trouxeram escravos africanos de três regiões diferentes do Continente Negro, todas banhadas pelo Mar Oceano: Guiné, Costa do Ouro e os Reinos Bantos. Nas duas primeiras convivem diversas etnias, cada uma com sua religião. Os Banto ocupam a região central do continente, de costa a costa, descendo pelo sudoeste, subdividindo-se em diversos subgrupos e reinos. Esta é a etnia com maior presença na colônia lusitana. Além dela, os Fon e os Iorubá, ambos da Costa do Ouro, são as outras duas etnias que conseguem, às duras penas, preservar e reproduzir parte de sua cultura no Novo Mundo. Escravos de vários outros povos são pegos nessa rede, mas, em pouca quantidade, seu desenraizamento é total, sendo diluídos pelas três culturas mais presentes.

Os negros trazidos para a Terra de Santa Cruz como escravos perderam sua condição de liberdade já em sua terra de origem. Seja por serem inimigos políticos em seus reinos; por serem membros de um reino rival; ou por terem sido condenados por um crime passível de ser punido com a escravidão. Nem todos os negros nessas condições são vendidos aos Lusitanos ou a outros europeus, sendo mantidos como escravos por aqueles que os capturaram, para serem aproveitados nos campos, na atividade religiosa, como soldados ou em casamentos. Escapam, assim, das condições miseráveis e ultrajantes no interior dos navios negreiros, tão insalubres que muitos morrem ainda na viagem. Ao chegarem nos portos coloniais, sua vida pregressa já não conta mais. Tudo o que foi, sente, acredita, depende única e exclusivamente da sua força de vontade e fé interior para manter o passado vivo.

A escravização de sacerdotes é fato raro, ocorrendo apenas em circunstâncias excepcionais, como brigas de sucessão. Contudo, por mais difícil que seja, os negros conseguem preservar muito de sua religião. Amontoados nas senzalas, desde que não criem confusão ou fujam, aos senhores pouco importa o que fazem durante a noite, nos e nos dias de descanso semanal. Assim, certos hábitos tradicionais são mantidos. O tempo, a distância, a mistura de culturas distintas nas senzalas promovem o sincretismo e a formação de uma cultura original.  A religião é o espaço que os negros  encontram para reivindicar sua identidade, criar laços e ganhar forças para superar os momentos difíceis.

Na busca para restabelecer essas religiões, há rupturas, perdas, caminhos truncados, possibilidades mutiladas. O culto dos ancestrais, presente em todas as etnias, perde visibilidade com a ruptura familiar. Algumas divindades conseguem atravessar o Mar Oceano, mas não há estrutura formal de culto. Elas sobrevivem pela fé particular de indivíduos dispersos pela escravização.

Os negros buscam se identificar por sinais de seu reino de origem, com talhos no corpo, penteados, amuletos, peças de roupa. O que para os brancos pode parecer uma massa indistinta de trabalhadores e escravos, é, na verdade, um conjunto de grupos heterogêneos vivendo os mesmos desafios.

Com o passar do tempo, ainda que como exceção, alguns negros logram obter a liberdade. A maioria pouco pode fazer com ela, pois nenhum bem possui para se estabelecer. Há mesmo casos de quem um forro se vende novamente como escravo para sobreviver. Mas alguns conseguem aprender um ofício e tocar a vida.

Há ainda aqueles que conquistam um lugar de destaque na sociedade colonial, inclusive sendo proprietário de escravos. Muitos negros que chegam a Santa Cruz não foram arrancados do meio do mato. Em sua terra natal, eram artesãos, mestres de ofícios. Alguns, bastante capacitados em forjas, mineração e outras técnicas. Estes passam a valer mais quando reconhecida a sua competência, são melhor tratados, são remunerados e têm boas chances de comprar a sua alforria.

Entretanto, ser livre, ter dinheiro, ser influente e reconhecido na sua área de atuação não significa portas abertas em todos os setores da sociedade. Uma negra comerciante pode ser respeitada como comerciante. Um negro caldeireiro pode ser respeitado como caldeireiro. Mas eles terão as mesmas limitações sociais que um branco nascido na colônia, sem nenhuma possibilidade de influência na política e administração colonial. Fora de sua área de atuação e do meio social no qual fez sua fama e ganhou reconhecimento, ainda corre riscos. Despojado de seus adereços sociais, a cor fala mais alto. Mais alto do que a cor, somente o dinheiro.

A maioria dos escravos, obviamente, não obtém a alforria. A alternativa, então, é fugir. Muitos são capturados ou mortos pelos capitães-do-mato, ou encontram a morte nos perigos da mata. Outros, contudo, conseguem sucesso e se perdem pelo mundo ou se organizam em pequenas comunidades afastadas, os Quilombos, na qual procura, à sua maneira, reproduzir a cultura de seu continente de origem (ou o que se lembra dela).

Published in: on 8 de janeiro de 2019 at 17:50  Deixe um comentário  

OS CIGANOS

A origem dos Ciganos é nebulosa, sendo possivelmente originários do Oriente, de onde migraram para a Europa. Seus costumes e idiomas variam muito, pois eles se dividem em vários grupos. Os dois mais conhecidos são os Rom e os Calon. Estes últimos chegaram à Península Ibérica no início do século XV, tornando-se o grupo mais numeroso.

Os Ciganos pensam em si próprios de forma fragmentária, tendo forte identificação com seu grupo familiar, sem nutrir uma identidade única. Para eles não existem “Ciganos”, mas diversas comunidades que mantêm relações de semelhança. A dispersão nômade ocorre há séculos, propiciando vários contatos com outras culturas e adaptações necessárias à sobrevivência. Eles não formam um grupo religioso ou uma nacionalidade.

Como não desenvolveram a escrita, os registros sobre eles partem sempre dos outros povos, expressando um olhar hostil, pois veem os Ciganos como trapaceiros e vagabundos, que peregrinam pelo mundo sem pouso permanente. Para piorar, não empregam os sacramentos católicos, como casamento e batismo. Ao favorecer seus próprios costumes, desafiam a Igreja e a sociedade que os abrigam. Da antipatia veio a fama de feiticeiros, ainda que a única prática visível de magia seja a buena dicha, a leitura da sorte na palma da mão das pessoas.

O primeiro cigano chegou a Santa Cruz ainda no século XVI, degredado junto com sua mulher e filhos. Não foi, porém, resultado de uma campanha da Coroa contra esse povo. A Inquisição, na verdade, pouco se ocupava deles, uma vez que eles são normalmente marginalizados e pouco risco oferecem à solidez da fé cristã. Essa perseguição só se inicia em 1686, e por iniciativa da Coroa. Antes disso, muitos Calon haviam migrado para as colônias lusitanas de forma voluntária. Quantos aos degredados, preferencialmente, as mulheres e seus filhos eram enviados ao Continente Negro, enquanto os homens eram condenados às galés por toda a vida. Santa Cruz era um destino eventual. A Câmara Municipal ou o governador eram incumbidos de emitir um documento dando seu parecer sobre o comportamento do degredado ao fim do cumprimento da pena. Em Piratininga, os vereadores contrataram uma cigana degredada para cuidar da primeira venda da vila.

No final do século XVII ocorre finalmente um êxodo em massa. O Rei determinou a deportação imediata de uma pequena comunidade de 140 Calon que estavam detidos na prisão do reino. O embarque foi espetaculoso, com todos acorrentados para servirem de exemplo. A esse se seguiram vários banimentos. Inicialmente, para Ngola. Depois, para a Capitania do Maranhão, para ficarem longe dos principais portos da colônia e da região mineira.

As autoridades coloniais são instruídas pela Coroa a não permitir o retorno dos Ciganos à Metrópole. Tampouco deve ser permitido o uso do Caló, sua língua própria. Por mais indesejáveis que sejam, o constante desafio de povoamento das vastas terras coloniais ainda ocupadas por nativos encontra nos degredados uma solução conveniente para a Coroa, pois, ao mesmo tempo que diminui a tensão na Metrópole, provê Santa Cruz de pessoas dispostas a arriscar tudo. Mas os colonos preferem os nativos aos Ciganos. As autoridades os consideram pessoas desconhecidas e suspeitas, sempre relacionados ao comércio de mercadoria roubada. Os Ciganos, de fato, se ocupam do comércio de animais e de escravos, sendo alguns senhores escravagistas, mas ninguém é capaz de afiançar a idoneidade deles. O nômade, por não ter residência fixa, é visto com desconfiança. Praticamente nada se sabe sobre sua organização. Há apenas a referência ao “Conde dos Ciganos”, uma figura a quem todos respeitam e que aparenta ser o chefe do grupo.

Os moradores fazem queixas constantes às Câmaras, que recorrem aos governadores ou diretamente à Metrópole. O Conselho Ultramarino recomenda às autoridades coloniais tentar modificar os hábitos desse povo, uma estratégia já fracassada no reino. Portanto, nem mesmo o Conselho possui esperanças que tais medidas levem a uma integração dos Ciganos com os colonos. Uma coexistência pacífica já seria um grande triunfo.

Apesar dos obstáculos, os Ciganos conseguiram chegar a São Sebastião, acampando no Campo da Cidade, uma das áreas de pastagem comunitária próximas ao centro urbano. Também lograram chegar à região mineira logo após a descoberta do ouro, provavelmente usando o caminho pelo rio São Francisco. Em completo contraste com o trabalho duro dos mineiros, são imediatamente considerados como elementos inúteis àquela sociedade incipiente. Supersticiosos, desrespeitosos, vândalos, enfim, um perigo a ser contido pelas autoridades. O problema é que o próprio conceito de autoridade nos Campos dos Cataguás ainda é um tanto precário, e muitos sãos os problemas e conflitos a serem resolvidos, de forma que, na prática, os Ciganos pouco têm com o que se preocupar nas minas.

A vastidão da colônia, o sertão inóspito, a precariedade ou mesmo a inexistência de prisões propiciam à índole rebelde dos Ciganos uma liberdade jamais sonhada no Velho Mundo. Porém, os perigos escondidos na mata podem se tornar pesadelos mais reais que a sensação de liberdade.

Published in: on 8 de janeiro de 2019 at 17:48  Deixe um comentário  

CRISTÃOS-NOVOS

Durante muitos anos, Portugal foi um ponto de convergência de vários povos por ser porto estratégico de ligação entre o Mediterrâneo e os reinos do norte. A Coroa estimulava a pesquisa náutica e recebia a todos como cidadãos do Reino. Contudo, no fim do século XV, a convivência entre Hebreus e Católicos se tornara conflituosa. Pressionado pela Igreja, o Rei impôs o batismo aos Judeus, dando origem aos Cristãos-Novos. Mas o que era para ser uma solução acabou piorando a situação. Os cristãos não reconheceram os Hebreus cristianizados como iguais, provocando mais irritação do que os Marranos, como são conhecidos os Judeus nascidos na península ibérica ou em suas colônias. Todas as tentativas de por fim à discriminação fracassaram.

Aqueles que continuaram a cultivar a religião judaica passaram a ser conhecidos como Criptojudeus. Para os Cristãos, todo Cristão-Novo é um Criptojudeu. Entre os Judeus, os Cristãos-Novos também são motivos de desconfiança, pois muitos Cristãos-Novos buscam realmente assimilar sua nova condição. Como saber em quem confiar?

Os Judeus, então, buscam locais de maior tolerância, como as Terras Baixas ou as novas fronteiras proporcionadas pelo Novo Mundo. Muitos atravessaram o Mar Oceano por conta própria; outros foram degredados. O maior atrativo para os Cristãos-Novos na Província de Santa Cruz é a ausência de um tribunal do Santo Ofício, ao contrário do que ocorre em Nova Castela. Assim, comerciantes natos, eles tomaram conta do comércio entre as vilas portuárias e o interior. Por isso, a própria atividade de comerciante é vista com preconceito. Uma nova leva chegou com a invasão neerlandesa. Quando estes foram expulsos, muitos Judeus permaneceram em Olinda. A presença de Cristãos-Novos na colônia é mais aceita, pois faltam homens interessados em lutar pela ortodoxia religiosa. Os próprios Jesuítas têm reservas quanto aos métodos inquisitoriais.

Sem a presença do Santo Ofício, São Sebastião se tornou uma espécie de porto seguro para os Marranos, uma vez que a cidade está convenientemente longe da sede do Governo-Geral e, ao mesmo tempo, serve de entreposto para o rio da Prata. Nessa capitania e em São Vicente, os Cristãos-Novos somam 25% da população. A vedação à participação em cargos da administração colonial acaba sendo pouco observada, pois em muitas vilas há escassez de pessoas capacitadas para exercer determinadas funções. Há, inclusive, Cristãos-Novos agraciados com a Ordem de Avis. Mais rígida, entretanto, é a vedação à ocupação de postos eclesiásticos.

Os Cristãos-Novos ocupam diversas atividades nas vilas: contratador, alfaiate, mercador, negociante, advogado, ourives, bufarinheiro (mascate), escrivão, médico, juiz, senhor de trapiche, cirurgião. Na colônia, há muitos mercadores que se tornaram senhores de engenho. Eles acumulam seu capital primeiro como mercadores para depois adquirirem terras, muitas vezes com um bom casamento. A posse de terras garante ascensão social e cargos públicos. Essas famílias de Cristãos-Novos procuram ter suas moendas próximas umas das outras por questões de segurança e para ter maior controle sobre os negócios.

Porém, apesar da distância e da aparente indiferença dos vizinhos, olhos vigilantes encontram-se atento a sinais indicativos de prática religiosa judaica, como não comer carne de porco e de coelho, circuncisão, não trabalhar no sábado, orar contra a parede, entre outros. Uma forma de driblar a vigilância dos Familiares do Santo Ofício é sair pela cidade com um lenço na mão, atrás das costas, para divulgar as datas das reuniões secretas dos Criptojudeus. Outra estratégia é se concentrarem em uma mesma área, com casas coladas umas nas outras. Em Santa Cruz, é impossível desenvolver um culto formal.

Na Metrópole, o apoio financeiro e político à Coroa lhes garantem algumas liberdades e garantias, permitindo o surgimento de companhias mercantis. Mas a pressão da Igreja sobre a Coroa é constante. A situação dos Cristãos-Novos, portanto, é extremamente vulnerável às mudanças da política da Metrópole.

Published in: on 8 de janeiro de 2019 at 17:45  Deixe um comentário  

OS EUROPEUS

CASTELHANOS

Apesar de Castela ser apenas um dos reinos de Espanha, os Lusitanos se referem a todos os hispânicos como Castelhanos, independentemente de virem de Castela ou não. Mas, de fato, o reino é composto também por Catalães, Aragoneses, Valencianos, Galegos, Asturianos, Murcianos, Bascos, Navarros, Estremenhos, Cântabros e Riojanos.

Apesar das disputas de fronteira, particularmente na Colônia do Sacramento, a presença de comerciantes e navegadores castelhanos nos portos lusitanos tornou-se comum. Alguns até residem nestas cidades.

A espionagem é constante de lado a lado, mas a Igreja Católica une a todos. As ordens religiosas presentes dos dois lados são as mesmas, bem como sua obediência às decisões de Roma. Culturalmente, são povos muito assemelhados, sendo que os Castelhanos, principalmente os padres, consideram os Lusitanos pouco rigorosos e muito flexíveis na observância dos dogmas religiosos.

FRANCESES

Francês é o termo genérico para aqueles que pertencem ao Reino da França, formado também por Gauleses, Bretões, Burgúndios, Francos, Aquitanos e Normandos. A França foi o primeiro a questionar com veemência a divisão do Novo Mundo entre as Coroas Ibéricas, chegando a engendrar duas tentativas de estabelecer colônia em terras lusitanas. O projeto acabou sendo abandonado não só pela forte reação lusitana, mas também pelos intensos e sangrentos conflitos religiosos internos ocorridos no reino em fins do século XVI. No século XVII, os Franceses passaram a atuar na região como piratas. Os Franceses certamente deixaram muitos mestiços na colônia, mas estes já foram absorvidos pela cultura nativa.

NEERLANDESES

Das Terras Baixas, a República das Sete Províncias Unidas foi a região que mais se desenvolveu no século XVII. Antiga colônia hispânica formada por Batavos, Frísios, Holandeses e Groningueses, os Neerlandeses  infernizam os Castelhanos por meio da pirataria  Em relação aos Lusitanos, na época em que a metrópole lusitana ficou sob o domínio de Castela, os neerlandeses abandonaram as boas relações comerciais de outrora ao ocuparem Olinda e passarem a disputar as rotas comerciais do Oriente, bem como tomaram a maioria das feitorias lusitanas no Continente Negro. Em 1674, resistiram à invasão das forças unidas da Bretanha e da França.

Das posses castelhanas nas Terras Baixas,  Flandres e Valônia ainda estão sob o domínio do rei de Castela.

BRITÂNICOS

Quando Portugal ficou sob o domínio de Castela, os Britânicos defenderam os Lusitanos por serem inimigos dos Castelhanos. E assim a colônia sofreu vários ataques de corsários britânicos. Posteriormente, em 1662, uma princesa lusitana casou-se com o rei da Bretanha e tornou-se rainha daquele reino.

Os Britânicos começam a frequentar os entrepostos do Continente Negro para abastecer suas colônias de escravos. Em muitas ilhas do norte por eles dominadas, o modelo colonial lusitano é replicado com sucesso. Os laços comerciais e diplomáticos entre as Coroas britânica e lusitana permitem que comerciantes daquele reino transitem pela costa de Santa Cruz sem maiores incidentes. Além disso, os corsários britânicos causam muita dor de cabeça aos Castelhanos, de quem são rivais. Esse inimigo em comum une os dois povos.

OUTROS REINOS

Venezianos, Genoveses, Florentinos, Germânicos, Austríacos ou demais povos do Velho Mundo não são ilustres desconhecidos na colônia, ainda que de presença bastante incomum. Comerciantes, aventureiros, náufragos, viajantes, padres, várias são as razões para que europeus de outras terras desembarquem no Novo Mundo.

Published in: on 8 de janeiro de 2019 at 17:42  Deixe um comentário  

OS LUSITANOS

Os Lusitanos foram o primeiro povo europeu a se a se unificar em torno de uma só Coroa, formando um reino forte e coeso após a expulsão dos Mouros. Ao contrário da vizinha Espanha, fruto da união de vários reinos sob o comando de Castela, Portugal é culturalmente mais coeso, com Lusitanos e os Galegos do norte.

Como entreposto preferencial entre as rotas do Mediterrâneo e as do Mar do Norte, o jovem reino teve de se habituar a conviver com diversos povos que por lá passavam. Essa estabilidade e tolerância permitiu que a Coroa reunisse na Escola de Sagres sábios de todas as partes, que desenvolveram antes dos demais a capacidade de viajar para muito além do Velho Mundo. Em Portugal, plantar árvores era sinônimo de plantar navios.

Inicialmente, seus interesses estavam em participar diretamente das riquíssimas e milenares rotas comerciais do Oriente, sem precisar da mediação dos comerciantes mediterrâneos. Essa busca lhes permitiu entrar em contato direto com os reinos negros ao sul do Saara.

Quando os demais reinos ibéricos expulsaram os Mouros e se reuniram em torno do trono de Castela, lançaram-se também ao mar e descobriram o Novo Mundo, levando os Lusitanos a seguirem a mesma direção. Inicialmente, tal interesse era apenas estratégico. A Coroa lusitana acreditava que a ocupação da Terra de Santa Cruz seria garantida pelos interesses comerciais privados, podendo, assim, dedicar-se mais às colônias mais rentáveis do Oriente. Mas as dificuldades à colonização criadas pelos nativos, seja por conflitos, seja por diferenças culturais ou pelas epidemias, fizeram as coisas andarem muito devagar. Assim, dois eventos fizeram a Coroa tomar as rédeas da colonização.

Primeiro, a descoberta de ricas minas de ouro e prata no antigo Império do Sol, pertencente aos Castelhanos. Segundo, o crescente interesse do Reino da França em tomar parte da ocupação do Novo Mundo, e justamente nas terras que cabiam aos Lusitanos. De imediato, a primeira medida tomada pela Coroa desagradou imensamente aqueles aventureiros e colonos que já haviam se estabelecido em Santa Cruz: apressar a colonização enviando presos e degredados.

Aconteceu o que os pioneiros já previam: as vilas foram tomadas por pessoas pouco dispostas ao trabalho duro e à procura do dinheiro fácil. Mas não só assassinos e malandros cruzaram o oceano. Presos e degredados também incluíam aquelas pessoas que tiveram a má sorte de se indispor com quem não devia, de ter de lutar por sua honra ou a de outrem à custa de sua própria liberdade, de ter de roubar uma galinha para salvar a família da fome. Pessoas que certamente sonhavam por uma segunda chance, ainda que preferissem que essa chance lhes fosse dada na Metrópole. Mesmo assim, trataram de agarrar a oportunidade (ou pelo menos tentar). De fato, muitos foram bem sucedidos. Houve degredado chegando sem a roupa do corpo que se tornou proprietário de uma dezena de engenhos e milhares de escravos.

Além do trabalho na terra, na burocracia e no comércio, a vida colonial é composta ainda por diversas atividades nas vilas e arraiais.

Uma vez em Santa Cruz, a pessoa é reconhecida mais por suas conquistas e trabalho do que por sua origem além-mar. O comércio, ainda que pudesse render uma boa fortuna, carece de status social. Este é garantido para os nobres, senhores de terra e militares de alta patente.

Published in: on 8 de janeiro de 2019 at 17:38  Deixe um comentário  

OS BRANCOS

A Terra de Santa Cruz foi dividida pela maior autoridade religiosa do Velho Mundo, o Papa, entre as Coroas lusitana e hispânica.

A Espanha, sob a liderança de Castela, é formada por diversos reinos ibéricos. Ainda que o idioma castelhano tenha se tornado o oficial, em muitas regiões ainda se fala o dialeto original. Já Portugal, bem menor, e unificada 300 anos antes, possui maior coesão política.

Outros reinos questionaram a decisão do Papa e tentaram causar problemas à ocupação ibérica do Novo Mundo. Os mais assíduos foram os Franceses, os Neerlandeses e os corsários que atuam em nome da Coroa Britânica. Devido a intercâmbios constantes entre si e com povos do Oriente e da África, os europeus adquiriram uma superioridade tecnológica e militar difícil de ser igualada.

Inicialmente, os Lusitanos não se interessaram muito pelas novas terras, mais atraídos pelas vantagens econômicas das ativas rotas econômicas do Oriente, ou pelo ouro e marfim do Continente Negro. A Coroa lusitana, nas primeiras décadas, acreditou que iniciativas particulares bastariam para ocupar a região, mas o interesse dos Franceses e a resistência oferecida pelos nativos revelaram que não seria assim tão fácil. Correndo o risco de perder a primazia da colônia, a Coroa criou um governo-geral e estabeleceu uma estratégia agressiva de ocupação de seu litoral.

No nordeste do continente, as vantagens imediatas das grandes plantações de cana-de-açúcar no litoral satisfizeram as ambições da Metrópole. No distante sudeste, a ocupação se deu mais para conter as incursões de Franceses e Castelhanos na área. Sentindo-se negligenciados pela Metrópole, a população lusitana no planalto de Piratininga desenvolveu uma cultura exploratória à procura de riquezas e, inicialmente, de escravos nativos: as Bandeiras. Para não criar problemas com as tribos aliadas nos lugares onde se estabeleciam, cuja cooperação era vital para a sua sobrevivência, os Lusitanos tinham que ir para bem longe de suas vilas capturar os inimigos de seus aliados.

Quando a Igreja forçou a Coroa a proibir o apresamento dos nativos, por meio do Tratado de Santa Luzia, as Bandeiras se voltaram para a busca por metais preciosos, exploração do território e combate às estranhas criaturas que habitam o continente.

Os povos do Velho Mundo veem sua cultura como superior e mais avançada do que a dos povos negros e nativos. Essa superioridade pode ser exercida com benevolência, descaso, arrogância ou violência, mas sempre estará presente. Consideram a sua religião como a única verdadeira, e todos os outros deuses são vistos como falsos ou obra do demônio. Assim, enviam seus sacerdotes para os quatros cantos da Terra de Santa Cruz a fim de espalhar o Evangelho e trazer os nativos para a Igreja Católica. Ambas as Coroas Ibéricas encontram-se em sintonia nessa missão, sendo Castela um pouco mais determinada nesse sentido.

Porém, sob o manto do Cristianismo, alguns brancos compartilham outras crenças. Uns professam a religião judaica, mas se viram forçados a se converteram, tornando-se Cristãos Novos. Outros seguem crenças muito mais antigas do Novo Mundo, ligadas à natureza e até mesmo a poderes considerados demoníacos. Assim como os Cristãos Novos, precisam tomar muito cuidado para não revelar sua verdadeira crença. Há ainda aqueles oriundos de outros reinos que seguem uma dissidência do Cristianismo, os Protestantes, que são tolerados na colônia apenas quando se trata de viajantes.

Entre os brancos há uma outra divisão mais sutil, imperceptível aos nativos e negros, mas fundamental na dinâmica da sociedade colonial: os brancos nascidos na colônia e os brancos nascidos no Velho Mundo. A estes são reservados os melhores postos na burocracia colonial, os títulos de nobreza e comando militar. Entre os Lusitanos, essa diferença é diluída se o nascido na colônia for estudar na Metrópole. Ao contrário do que ocorre nas colônias hispânicas, na colônia lusitana não há universidades, apenas colégios religiosos, que, ainda assim, não são muitos. A educação colonial é a última preocupação da Coroa lusitana.

Após o fracasso inicial das capitanias privadas, a Coroa esvaziou as prisões da Metrópole para povoar sua colônia no Novo Mundo. Sendo esta uma verdadeira terra de oportunidades, ainda que perversas, criou-se a curiosa situação que tanto um degredado quanto um nobre poderia encontrar na Terra de Santa Cruz o sucesso ou a perdição.

Na verdade, mesmo em posição hierárquica superior, até o século XVII a vida dos colonos não era nenhum mar de rosas. O risco de sublevações nativas ainda é alto na região das bandeiras; as criaturas representam ameaça constante; as condições materiais de vida em muitas vilas, com raras exceções, são precárias e demandam muita determinação e trabalho. Imagine, então, a vida dos menos afortunados.

No início da colonização não havia mulheres. Atualmente elas são maioria em algumas cidades, como em São Sebastião. Inicialmente elas foram enviadas com o propósito exclusivo de se casarem, o que reflete na pouca oportunidade de destaque das mulheres na sociedade colonial. Ainda assim, há oportunidades, particularmente para viúvas e herdeiras. A cada dez engenhos de cana-de-açúcar, um tem como proprietário uma mulher. Claro que, além de propostas de um segundo matrimônio, pode haver tentativas de lhe tirar o domínio da terra, como falsas acusações de Judaísmo encaminhadas ao Santo Ofício. Algumas mulheres se destacam no comércio ou na lavoura, entre os arrendatários que trabalham junto aos engenhos, inclusive sendo proprietárias de escravos.

Published in: on 8 de janeiro de 2019 at 17:22  Deixe um comentário