OS TAPUIAS

Para este assunto, nada melhor do que recorrer aos escritos do Padre Maurício para conhecemos sobre os nativos não falantes do Tupi-Guarani que povoam a Terra de Santa Cruz. Este Jesuíta escreveu as crônicas de suas viagens pelo continente entre 1655 e 1680. Sua conduta despojada e irreverência tiveram de ser toleradas pelos mais tradicionalistas, pois, dentre nossos irmãos, talvez ninguém tenha conhecido melhor Santa Cruz e sua gente do que o Padre Maurício. Anchieta foi quem melhor conheceu os Tupis, mas Maurício sempre se mostrou mais disposto, senão mesmo ansioso, a mergulhar nos recônditos desta terra, estabelecer os contatos mais arriscados. Um homem de fé e de ação. Ao fechar meus olhos, ainda posso vê-lo caminhando pela rua com sua batina suja e esfarrapada, a barba espessa, o cabelo desgrenhado e o inseparável mosquete atravessado às costas. ‘Não há fé que derrube uma onça em pleno salto’, justificava-se.

A partir de suas crônicas, juntei diversos excertos que descrevem um pouco das muitas tribos que cercam nossas vilas e às quais os Tupis chamam indistintamente de Tapuias, denominação que por comodidade muitas vezes adotamos. Esses povos ocupam territórios que julgamos nossos, mas que nossos pés jamais pisaram, exceto por alguma intrépida bandeira” – anotações do Padre Bernardo Paes Freire.

ACRITÓS

“O melhor relato sobre os Acritós, sua gente e sua cultura, continua sendo o inestimável relato do cirurgião-barbeiro Luiz Gaspar de Lemos e Correia, que tive a feliz oportunidade de receber de um tupinambá. Depois de lê-lo e fazer uma cópia para mim, entreguei ao Padre Bernardo Paes Freire, então Principal de São Sebastião.

Minha experiência pessoal com os Acritós certamente renderia um relato emocionante, digno dos romances de aventura, mas pouca luz traria à questão. Poderia certamente escrever sobre como entrei no vale desses temidos guerreiros, sobre o templo que lá se encontra e seus perigos. Mas, sobre os Akritós propriamente ditos, sobrevivi à aventura justamente por ser bem sucedido em evitar maior contato. Posso dizer, entretanto, que o tamanho deles (dez palmos de altura!), a ferocidade, as onças… É tudo verdade.

Segundo Gaspar de Lemos, o canibalismo akritó tem o mesmo cunho ritualístico que o tupi. Os lendários guerreiros-onça seriam frutos de amuletos de metamorfose. O uso de amuletos mágicos, de fato, não é tão incomum entre os nativos.

Os Acritós vivem fechados em um vale intransponível que se localiza no labirinto de montanhas localizado entre o Caminho do Facão e a Vila da Ilha Grande. Na época eram apenas três aldeias. Imagino por quanto tempo aquele vale poderá satisfazer todas as necessidades de caça dos Acritós caso a população venha a crescer. Mais cedo ou mais tarde eles terão de sair de lá, ou adotar um regime rigoroso para conter o crescimento de sua gente.

Ouvi relatos do início da ocupação de São Sebastião sobre uma tribo que vivia nos fundos da lagoa Camambucaba. Seria um povo canibal, que não bebia água, só sangue. Comiam frutas e morcegos. Esses nativos teriam o poder de se transformar em onça e aversão ao olhar humano. Atiravam os ossos de suas vítimas ao longe, de dentro da mata em direção às águas da lagoa. Quem os encontrou não sobreviveu para contar, o que manteve essa tribo no patamar de lenda até os dias de hoje.

Penso se não eram Acritós que se desprenderam dos demais, sem tomar conhecimento da existência do vale. E que fim teriam tido? Da mesma forma que não há registros que comprovem sua existência, não há, portanto, registros de que tenham sido encontrados, mortos ou expulsos daquele local.” – Excerto das Crônicas de Padre Maurício, uma viagem pelo interior de Santa Cruz.

Mundo espiritual

Apesar das diferenças culturais, o xamã dos Acritós pouco se difere dos pajés. A devoção à onça, ter esse animal como símbolo da força da tribo, é o seu elemento mais característico. Toda a atividade ritualística, os amuletos e as poções são para reforçar essa conexão. Segundo as lendas da tribo, a onça salvou os Acritós da destruição e os conduziu até o vale para protegê-los.

AKROÁS

“Os Akroás habitam as terras além das frias e rochosas Serras de Ivituruí. Dali é possível descer o rio São Francisco até as capitanias de Pernambuco e da Bahia de Todos os Santos, atravessando uma região de cerrado por onde esses nativos se espalham. Acredito que seja o mesmo povo com o qual o Padre Azpilikueta travou contato há mais de cem anos, quando subiu o rio São Francisco acompanhando a primeira expedição até essa região.

A característica que mais me chamou a atenção entre os Akroás é que se casam muito cedo, entre os 14 e 16 anos, geralmente entre primos. Como muitas tribos dessa terra, vivem da caça, da pesca, da coleta e realizam uma agricultura complementar. Soube que possuem dois povos irmãos, os Akwe e os A’uwe, que habitam mais ao norte, na Grande Floresta, e que juntos formam o povo Akwén.” – Excerto das Crônicas de Padre Maurício, uma viagem pelo interior de Santa Cruz.

O contato dos bandeirantes com os Akroá até o momento foi pequeno, mas suficientemente trágico. Muitos foram mortos ou escravizados, tidos como Cataguás. A expansão dos arraiais mineiros se aproxima cada vez mais do território dos Akroá.

Mundo espiritual

“Os Akroás acreditam que, assim como seus xamãs se transformam em animais, alguns animais também possuem o poder de se transformarem em pessoas. As aldeias dessa tribo são protegidas por Yayá, uma onça de origem tão antiga que já não se sabe se foi uma xamã que não conseguiu mais reverter a metamorfose ou se foi o contrário, uma onça que perdeu a capacidade de transformação. Sabem apenas que ela já era muito antiga quando o mais velho dos Akroás ainda percorria as matas pendurado nas costas de sua mãe. Só os xamãs conseguem se comunicar com ela.

Por meio de uma dança ritual chamada Toré, os Akroás convocam Yayá e pedem os seus conselhos. O ritual é regado à Jurema, uma forte bebida alucinógena. Yayá influi na vida da tribo como um oráculo, alertando para os perigos e oferecendo soluções.

O Toré só pode ser realizado em lugar sagrado. Por isso, a questão territorial é de suma importância para os Akroás. Nessas áreas, não é permitido construir casa, criar animais ou entrar estrangeiros, exceto quando permitido pelo xamã. Apesar de ter sido muito bem recebido na aldeia pelo Chefe Xakriabá, só pude assistir à cerimônia de muito longe, já fora do círculo sagrado.

Enquanto durou o ritual, estive acompanhado de um gentil guerreiro akroá. Primeiramente, pensei que me vigiava, temeroso de que eu adentrasse o terreno proibido. Mas, posteriormente, explicou-me que os arredores da aldeia são povoados pelos espíritos dos mortos que assumem, durante a noite, a forma de animais comuns. Segundo meu guardião, qualquer um que agir com valentia ou arrogância ao encontrar tais entidades é tomado pelo medo. Disse-me, muito seriamente, que se minha montaria empacar, é sinal de que eles estão por perto. Recusou-se, porém, a nomeá-las.” – Excerto das Crônicas de Padre Maurício, uma viagem pelo interior de Santa Cruz.

AIMORÉS

“Os temidos Aimorés vivem no vale do rio que chamam de Watu (‘mar doce’ em sua língua). Há mais de um século levam tormento a todas as vilas da região, atacando insistentemente colonos e escravos. Sem um chefe específico, atacam em emboscadas de pequenos grupos. Quando prisioneiros, recusam-se a comer. Sendo a Capitania do Espírito Santo uma região de menor ocupação e importância econômica para a colônia, os conflitos prometem não acabar tão cedo.

Os Pataxós de Santa Cruz de Posse me alertaram para a forte presença de Aimorés pelo interior, alastrando-se até o rio Paraguaçu, que liga a capital até o rio São Francisco. Se assim for, acredito que a Guerra dos Aimorés não terá fim em menos de uma década.

Assim como os Goitacás, de quem parecem ser inimigos tradicionais, os Aimorés possuem a pele mais clara e são mais altos que os Tupis. Possuem corpo largo, andam nus, são bons corredores, extremamente agressivos e falam idioma próprio. Certamente nenhum que conheçamos, exceto por algumas palavras esparsas.

De hábitos nômades, as casas são improvisadas com folhas de palmeira e carregam poucos utensílios domésticos, geralmente vasilhas, dormindo no chão. As mulheres são responsáveis por montar as choças e carregar os filhos e pertences. Vivem da caça e da coleta, utilizando três tipos diferentes de arco e flecha. A família é poligâmica e o casamento independe de cerimônia, sendo facilmente feito e desfeito.

O nome pelo qual os conhecemos, Aimorés, foi dado pelos Tupis. Trata-se de uma espécie de macaco da região. Mas ouvi um aimoré se autodenominar de Krén. Seu elemento mais distintivo é o uso de metara nos lábios e orelhas.  Trata-se de uma peça circular de madeira leve como uma rolha, de até meio palmo de diâmetro. Por essa característica, muitos colonos os chamam de Botocudos.” – Excerto das Crônicas de Padre Maurício, uma viagem pelo interior de Santa Cruz.

Mundo espiritual

Os espíritos da natureza são os Tokón. Espíritos invisíveis, responsáveis pela escolha de seus intermediários na terra, os xamãs. Algumas pessoas eleitas recebem deles a capacidade de ver os Marét, os heróis fundadores de seu povo. Estes têm a forma e o tamanho de nativos comuns, homens e mulheres, crianças e adultos. Vivem em abundância, sem precisar trabalhar. São bondosos e caridosos com os Aimorés, sem nunca se zangarem. Ajudam, orientam, ensinam.

Nos sonhos, os Aimorés visitam o mundo dos Marét, quando conseguem obter visões do futuro de sua aldeia. Essa viagem é feita pelo Nakandyún, a alma. Um adulto possui de cinco a seis Nakandyún, mas só um pode habitar o corpo físico. Durante o sonho, este Nakandyún sai do corpo e tem suas aventuras independentemente do corpo. Caso esta alma venha a sucumbir, o corpo fica doente, mas se recupera com a chegada de outro Nakandyún. Se eles acabarem, a pessoa morre de vez.

Todo xamã é capaz de se relacionar com os Marét, mas não só eles. Há também os Yikégn, detentores de uma força sobrenatural concedida pelos Marét. Todo chefe aimoré é um Yikégn, mas nem todos os Yikégn são chefes. Um Yikégn também recebe o dom de fazer metamorfose ou provocá-la em outra pessoa. Entre os Aimorés, é normal o xamã ser o chefe da aldeia.

Os Aimorés acendem fogueiras junto aos túmulos para que suas almas não virem espíritos maus, que atacam os vivos e desenterram os mortos. Oferendas são dadas para que, na espera por serem conduzidos ao mundo dos Marét, não sintam fome e se transformem em animais para devorar os vivos. Tais fantasmas são os Nandyón, que se formam a partir dos cadáveres. Eles habitam o submundo, onde só há luz durante a noite. Vivem de forma semelhante aos vivos, mas os Marét não permitem que eles subam à superfície para pegar mais luz. Mas alguns conseguem e, se a pessoa não o enfrentar corajosamente, poderá encontrar a morte.

CATAGUÁS

“Os primeiros nativos que os viajantes que atravessam a Serra da Amanatykyra encontram são os Cataguás. Por isso a região é chamada de Campos dos Cataguás, ainda que a área assim chamada abrigue ainda outras tribos. Os Cataguás ocupam o sul e o oeste desse território ainda pouco explorado, sobre o qual correm muitas lendas de montanhas de ouro, prata e esmeraldas.

Cataguás significa ‘gente boa’, mas o viajante não deve esperar uma recepção hospitaleira. Esses nativos são conhecidos por seu caráter belicoso. Para eles, os colonos, os Tupis, os Goitacás, os Aimorés, somos todos Pixiauás, a ‘gente ruim’.

Com muito cuidado e paciência, consegui licença para passar em paz por suas terras. Notei que suas aldeias são formadas por pequenas choças, assentadas à beira dos rios e lagos, em áreas ricas em pesca, caça, frutos e raízes. Eles utilizam o arco e flecha e o tacape com grande destreza.” – Excerto das Crônicas de Padre Maurício, uma viagem pelo interior de Santa Cruz.

Os Cataguás descendem dos Tremembé, uma tribo da Capitania de Pernambuco. Com a migração para o sul, entraram em contato com os Akroá, o que levou à formação de uma nova tribo. Por outro lado, a forte rivalidade com os Tupi ao sul acabou se convertendo em uma forte influência cultural do inimigo. Suas trilhas foram amplamente aproveitadas pelos bandeirantes, tanto para atravessar a região rumo ao nordeste como para circular entre as lavras mineiras.

Os Cataguás são muito temidos pelos bandeirantes, e por isso travam uma terrível e violenta guerra contra a tribo. Esses nativos mostram muita coragem na defesa de suas terras, porém, estão quase extintos na região.

Uma determinação régia dirigida aos mineiros, mantida escondida do resto da colônia e especialmente dos Jesuítas, permite que a escravização dos Cataguás devido aos muitos conflitos, mortes e roubos ocorridos no início da ocupação, trazendo de volta o conceito de “guerra justa” do início do século. Como muitos Tupiniquim foram para as minas com os bandeirantes, fica difícil perceber a diferença entre o nativo cativo e o trabalhador servil.

Mundo espiritual

“Os Cataguás realizam uma dança ritual muito semelhante ao Toré dos Akroás, que vim a conhecer poucas semanas mais tarde. Eles fazem uma roda dentro da qual permanecem dois dançarinos. Suponho que são aqueles destinados a receber as mensagens e as visões dos espíritos da natureza.

Indaguei a um cataguá se eles realizam o mesmo ritual antropofágico dos Tupis. Senti-me consternado ao saber que os prisioneiros de guerra são devorados, mas sem que haja nisso um propósito ritual. Ao menos o canibalismo não é praticado entre eles.

Sobre o xamã dos Cataguás, até onde pude apurar, não parecem exercer as mesmas funções de conselheiro e líder espiritual da tribo que os pajés dos Tupis. Sua ação, até onde pude testemunhar, é centrada na cura e na feitiçaria.” – Excerto das Crônicas de Padre Maurício, uma viagem pelo interior de Santa Cruz.

GOITACÁS

“Os Goitacás são o mais cruel, bárbaro e violento povo de Santa Cruz’, ouvi certa vez Padre Bernardo me dizer. Não apenas os Lusitanos pensam assim. Essa é também a visão dos Tupis. Similarmente aos nossos amigos, os Goitacás têm a guerra como meio de vida. Se não houver vizinhos contra quem lutar, brigam entre si. Conhecem a agricultura, manejam o barro, fazem trabalho com penas de ave, bambu e fibras. Alimentam-se de frutos, mel, raízes, caça e pesca. E também andam nus. Entretanto, em vez da tonsura na cabeça, deixam os cabelos bem compridos e possuem uma pele mais clara que a dos vizinhos. E também são mais altos e robustos. Os dentes, bem brancos, são afiados como pontas de flecha. Os corpos são pintados de preto dos pés à cabeça, realçando seus olhos avermelhados e brilhantes.

Os Goitacás são bem conhecidos, e temidos, desde a Capitania Real do Cabo Frio até a Vila do Espírito Santo. No passado, ocupavam toda a parte baixa do vale do rio Paraitinga até a foz, espalhando-se pelo litoral ao redor, uma área conhecida como Campos dos Goitacás. Hoje essa região é ocupada por engenhos e povoados, após as sesmarias serem distribuídas entre os Sete Capitães. Habitam também boa parte da bela serra que segue pela Capitania do Espírito Santo até o rio Watu.

Os Goitacás não mantêm contato pacífico com nenhum homem branco, negro ou nativo. Devido a essa atitude hostil, a língua deles permanece desconhecida por todos. Nem mesmo nós Jesuítas obtivemos sucesso em registrar qualquer palavra, o que torna ainda mais assustador sua voz gutural, quase parecendo um rosnado. Tudo o que sabemos a respeito deles foi colhido a partir da experiência de outras tribos. Portanto, pouco sabemos sobre seus costumes e práticas religiosas, ou como chamam os seus feiticeiros e espíritos.” – Excerto das Crônicas de Padre Maurício, uma viagem pelo interior de Santa Cruz.

O nome Goitacá foi cunhado pelos Tupis, que designa um povo de grandes corredores que sabem nadar. Tal fato revela uma grande admiração que os nossos aliados nutrem por seu inimigo, pois geralmente uma tribo nomeia a outra com nomes pejorativos ou hostis.

De fato, é assombroso assistir um goitacá em ação. Eles conseguem capturar um veado na corrida, agarrando-o com as próprias mãos. Mergulham no mar para caçar tubarões com apenas um pedaço de pau, que usam para enfiar-lhe na boca. Os dentes do animal são usados como pontas de flecha. Não é a toa que os Franciscanos os chamam de ‘tigres humanos’. Assim como os Tupis, comem carne humana, mas não como vingança ou ritual, mas para o próprio sustento.

O arco e flecha é a arma favorita deles, que manejam com extrema destreza. Suas táticas de combate raramente incluem luta em campo aberto. Preferem as emboscadas, as tocaias planejadas, flechando o inimigo pelas costas. No combate corpo a corpo, não são menos mortais com seus machados de pedra, pois, além da ferocidade peculiar, possuem força extraordinária. Todos andam muito bem armados: homens, mulheres e crianças. A índole guerreira dessa tribo, de todas com as quais tive contato, só é superada pela dos Acritós.

Os Goitacás que vivem na serra mantêm hábitos nômades, de constante mudança e acampamentos improvisados. Os grupos que vivem na planície fabricam jangadas e vivem em palafitas erguidas em áreas pantanosas ao longo dos rios, dormindo no chão. Por superstição, não bebem água diretamente dos rios e lagos, apenas das cacimbas. São poços de captação de água subterrânea ou originados pelas cheias dos rios.

Entretanto, apesar da opção pelo isolamento, não são raras as trocas comerciais com os colonos da região. Mas elas têm de seguir um cuidadoso protocolo. Os Goitacás deixam seus produtos, geralmente mel, cera, pescado, caça e frutos, em um lugar destacado e se afastam. Os colonos então se aproximam, pegam a mercadoria e depositam em seu lugar enxadas, foices, aguardente e miçangas. Se qualquer tipo de contato for tentado, será entendido como um ato de guerra e retaliado imediatamente.

Os Goitacás pertencem a uma etnia que inclui pelo menos duas tribos que se espalham pelo vale do Paraitinga e montanhas ao redor: os Koropós e os Telikong.

Os Koropós

Os Koropós habitam a região serrana ao norte do rio Paraitinga, descendo o vale, e também a parte montanhosa ao sul da Capitania do Espírito Santo, em constante confronto com os Goitacás e com os Aimorés, que ocupam as terras mais para o interior. Eles usam uma coroa de plumas na cabeça, que os distinguem das demais tribos da etnia. Até o momento, os Koropós se veem livres de qualquer aborrecimento relevante com os colonos. Porém, as serras onde vivem têm servido de abrigo a quilombos. A considerar o tratamento dado pelos Goitacás ao povo do Continente Negro, esses escravos fugidos não devem ter vida fácil. De resto, a vida dos Koropós mantém-se um mistério ainda maior que a dos seus primos Goitacás.

Os Telikong

Os Telikong ocupam a região oriental da Serra da Amanatykira e boa parte do vale do Paraitinga. As outras tribos os chamam de Puris, que significa gente fraca, povo manso. Mas isso está longe de representar a verdade. Eles participaram junto com os Tupinambás da Confederação dos Tupinambás, que por pouco não arrasou Piratininga há mais de um século. Porém, ao contrário dos Goitacás, evitam o contato com os colonos mesmo quando estes invadem seu território. Ganharam assim a fama de povo tímido.

Enquanto os Goitacás pintam o corpo de preto, os Telikong usam o vermelho e muitas plumas, e são hábeis no uso do bodoque. Pouca coisa mais se sabe sobre eles. Contudo, diante dessa postura menos bélica, talvez sejam o melhor caminho para conhecer mais dessa cultura do vale do Paraitinga.” – Excerto das “Crônicas de Padre Maurício, uma viagem pelo interior de Santa Cruz”.

Com a circulação intensa de colonos pelo caminho até as minas, os Telikong estão sendo empurrados para a região de seus tradicionais rivais, os Koropós. Estes, por sua vez, sofrem com a migração cada vez mais intensa de Aimorés para o interior.

A Guerra contra os Goitacás

Até a expansão dos engenhos de açúcar, o problema de relacionamento com os Goitacás era resolvido de uma forma bem simples: evitava-se o contato. Aproveitando-se dessa política, formou-se para além do rio Paraitinga o maior grupo de quilombos do continente, os Quilombos da Lua. A tática dos negros foi usar os Goitacás como escudo contra os colonos. Funcionou bem, mas tinha o inconveniente de que não havia escudo contra os próprios nativos. Os Koropós, que vivem nas montanhas próximas, nutrem pelos negros a mesma aversão que dedicam a Lusitanos e Tupi.

A situação para os Goitacás começa a se complicar após o avanço da ocupação do litoral com as plantações de cana-de-açúcar. Durante a ocupação neerlandesa em Olinda, os engenhos do sul experimentaram uma era de prosperidade, alcançando rapidamente os Campos dos Goitacás. Para aumentar a tensão, o vale se revelou particularmente fértil para a cana-de-açúcar. E então os verdadeiros combates tiveram início.

Nessa época, os Lusitanos ainda contavam com a ajuda dos Temiminó. Apesar do desmatamento provocado pela expansão dos engenhos causar constantes desentendimentos com seus aliados brancos, os Temiminó não precisaram de muito incentivo para pegar em armas e combater seus antigos inimigos.

Quando se veem em desvantagem, os Goitacás preferem bater em retirada. Assim, procuraram refúgio nas serras. Desde então tornam a vida dos colonos um inferno com suas emboscadas. Quanto mais engenhos surgem, pior fica. Os senhores de engenho confabulam por em prática uma solução tão cruel quanto definitiva: provocar um surto de varíola entre os Goitacás.

Mundo espiritual

“Os Goitacás enterram seus mortos em urnas funerárias de barro chamadas igaçabas. Não fossem essas urnas, nada saberíamos de seus ritos funerários.

Há suspeitas de que os Goitacás tenham algum tipo de ligação com os Acritós. Apesar de haver algumas semelhanças, não há registro de guerreiros-onças avistados entre eles, mas há um dado peculiar. Como as demais tribos nativas, os Goitacás respeitam os espíritos da natureza, mas parecem guardar especial ligação com as onças e os outros felinos da floresta.” – Excerto das Crônicas de Padre Maurício, uma viagem pelo interior de Santa Cruz.

O xamã goitacá não se diferencia tanto em poder e função de um pajé, mas eles desenvolveram uma poção especial que confere maior velocidade, resistência e força a seus guerreiros: o Sangue de Akritó.

Essa poção é restrita aos Goitacás, não sendo de conhecimento dos Telikong e Koropós, seus rivais. Apesar dessa poção lhes conceder considerável vantagem em combate, os Goitacás não são expansionistas como os Tupi e os Guarani. Tudo o que eles desejam é ter caça abundante.

TIKMU’UN

“Os Tikmu’un não são uma tribo, mas várias tribos de uma mesma etnia que se unem eventualmente para combater um inimigo em comum ou em situações de crise. As tribos, separadamente, atendem pelo nome de Monoxós, Kumanoxós, Kutatóis, Malalis, Makonís, Kopoxós, Kutaxós, Panhames e Pataxós. Esta última é mais conhecida pelos Lusitanos, pois habitam o litoral entre Santa Cruz de Posse e Nhoesembé. E foi nessa vila que conheci meu guia pataxó, Txury, que se mostrou o tempo todo muito prestativo e muito falante também. Com o tempo, aprendi que deveria filtrar boa parte das histórias que me contava, pois Txury era chegado a um exagero.” – Excerto das Crônicas de Padre Maurício, uma viagem pelo interior de Santa Cruz.

Os Pataxós, “os Papagaios”, vivem espremidos entre as terras dos Aimorés, ao sul, e os Tupinambás, ao norte, além do rio Jequitinhonha. Os demais se dispersam pelo interior em várias aldeias autônomas.

Com a expansão das vilas e engenhos no litoral e a pressão dos Tupinambás que vêm migrando do norte para o sul, empurrados pela expansão dos engenhos de Vila de São Jorge, os Pataxós estão sendo forçados para o interior. Nessa migração, os Pataxós entraram em constante atrito com os Aimorés. Não sendo muito numerosos, decidiram costurar uma aliança com as outras tribos Tikmu’un contra os Aimorés, cuja natureza beligerante incomoda a todos. A essa união de tribos chamam de Naknenuk.”

Mundo espiritual

Os Tikmu’un, como muitos nativos, não fazem distinção entre o homem e os outros seres que habitam o mundo. Seu universo religioso é composto por dez grandes grupos de entidades ordenadas, os Yãmiyxop. Estes seguem uma classificação totêmica dos seres da mata, aos quais homenageiam com vários cantos. O espírito mais forte de cada grupo nomeia cada um deles. Cada grupo possui uma quantidade bem variável de seres, e eles detêm todo o conhecimento verdadeiro das coisas.

Seis Yãmiyxop são encabeçados por animais:

Putuxop: o espírito do papagaio, representa a bravura e a coragem.

Mõgmõka: o espírito do gavião, evocado na emergência de conflitos externos.

Xunin: o espírito do morcego, evocado nas práticas terapêuticas.

Ãmãxux: o espírito da anta.

Tatakox: o espírito de uma lagarta que vive na taquara, presente no ritual de iniciação dos meninos, que são levados para uma casa de ritual por trinta dias.

Po’op: o espírito do macaco, que atua na caça.

Koatkuphi é o fio não comestível da mandioca.

Três são referentes aos homens: Yãmiy, os espíritos ancestrais masculinos; Yãmiyhex, os espíritos ancestrais femininos; e Kõmãyxop, o ritual ligado à amizade.

Hemex é um Yãmiyxop puramente espiritual, um ser que não possui corpo animal.

Os Tikmu’un têm a sua própria versão do Diabo. Hãmgãyãgñag é o soberano das forças do mal. Hãmgãyãgñag se manifesta como uma onça feroz que vive na mata e devora suas vítimas. Os Tikmu’un o temem e se relacionam com ele por meio dos Yãmiyxop.

Topa era a divindade do bem, ser supremo e criador do mundo. Mas os Tikmu’un teriam quebrado um pacto que tinham com ele e foram por esta divindade abandonados.

Kukek é a casa sagrada dos rituais. Entre estes rituais, o mais importante é a Cura, que só pode ser realizada por meio de rituais coletivos. A Cura individual é considerada prática de feitiçaria, punida com a morte. Os idosos não recebem a cura mágica.

Koxuk é a alma, o reflexo, a sombra. Após a morte, Koxuk se torna Yãmîy, o espírito.

Inmõxã é uma fera canibal de corpo humanoide, que pode se metamorfosear em felino. Aquele que não aprender a se tornar um Yãmîy ao longo da vida, seguindo os preceitos religiosos de seu povo, torna-se um Inmõxã após a morte. Ele é a própria encarnação da ferocidade. Suas feições confundem-se com a do próprio cadáver em decomposição. Ele deve ser morto transpassando uma lança ou flecha em um dos orifícios do corpo, como olhos, bocas e umbigo.

Yãmîyxoptak é o xamã tikmu’un, aquele que domina os rituais e os cantos. Ele é o mestre de cerimônia do encontro dos espíritos.

GUAYANÁS

“Só quando fui transferido para a Missão de San Miguel Arcángel, após um terrível período enfrentando uma epidemia de varíola, tive conhecimento da existência dos Guayanás. O Principal me contou de como esse povo havia participado das missões do Guayrá e de como ficaram traumatizados com o fim trágico nas mãos dos bandeirantes. Desde então passaram a evitar qualquer contato com os colonos.

Os Guayanás vivem em La Piñeria, formando uma ilha entre os Tupiniquins de Piratininga, os Cariós da costa e as demais tribos Guaranis. Por isso a região também é chamada por alguns de ‘País dos Guayanás’. Apesar de seu desejo de isolamento, soube que os Lusitanos ergueram uma vila na região, Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.

Assim como os vizinhos Guaranis, os Guaynás vivem de caça, pesca, coleta e agricultura complementar, na qual o milho é o alimento mais importante. O pinhão, abundante na região, é usado também para fazer farinha e produzir bebida fermentada, o Kiki, a qual também leva mel. Assim como os Tupis, exibem uma tonsura na cabeça.

Eles derrubam as palmeiras para que, no pau podre, produzam larvas de inseto, que são consumidas cruas ou fritas na própria gordura. A erva-mate (kógwuin), além de muito apreciada, também é usada nos ritos de adivinhação.

As casas são subterrâneas, para evitar o frio. O chão de terra batida fica abaixo do nível do solo. De fora, só se avista o telhado. As aldeias possuem centenas de casas, dispostas em torno de um sistema de caminhos. As residências são bastante resistentes, podendo durar por gerações.

Estranhei esse sedentarismo, que contrasta com o seminomadismo que prevalece na maioria das culturas nativas. Soube por um Kuiã, o pajé deles, que, quando os Guaranis chegaram à região, os Guayanás se viram obrigados a viverem em aldeias permanentes, com maior concentração de habitantes e chefias centralizadas.

Como desdobramento dessa mudança na cultura da tribo, as aldeias guayanás possuem monumentos faraônicos inexistentes nas demais tribos das províncias de Santa Cruz, do Rio da Prata e do Guayrá.” – conforme relatado pelo Padre Anton Clemens ao Padre Maurício em
Crônicas de Padre Maurício, uma viagem pelo interior de Santa Cruz..

Mundo espiritual

A vida social e espiritual dos Guayanás é marcada pela oposição dos irmãos mitológicos Kaiurukré e Kamé, responsáveis pelo dia e pela noite, perfeição e imperfeição, complementaridade e assimetria. Para cada animal que Kaiurukré criou, Kamé criou outro em resposta, o mesmo ocorrendo com as plantas. Essa dualidade marca também a relação entre eles e os outros povos. Assim, as aldeias são divididas em duas metades. Os membros de cada metade só podem se casar com os membros da outra metade. Os filhos pertencem à metade onde vive o pai, mas este mora na casa do sogro.

Os caminhos da aldeia são organizados de acordo com os monumentos, pequenas colinas artificiais, circulares em forma de anel, onde são depositados os ossos cremados. Tais santuários geralmente ocupam a parte alta do terreno, podendo chegar a vinte metros de diâmetro e de um a três metros de altura. Uma avenida de 400 metros conduz até o monumento. O anel principal é ladeado por três anéis menores. Em seu interior, no qual são realizados os sepultamentos, há um forno de pedra, pratos e taças de cerâmica.

Refletindo o dualismo dos Guayanás, um santuário é pareado por outro. Os membros do Kamé costumam ser enterrados em lugares altos, por serem considerados superiores.

O Kikkikoi, voltado ao culto aos mortos, é o principal ritual da tribo, regado a kiki e realizado entre janeiro e junho. Leva mais de dois meses para ser concluído.

Kuiã

Kuiã é o xamã dos Guayanás. Ele se ocupa da Cura, do conhecimento e da capacidade de ver e saber o que é [Adivinhação, Aura, Visão Astral]. Seu poder, em sua iniciação, é retirado de um “companheiro”. O futuro Kuiã faz uma poção e a leva até a floresta. Deixa a cabaça com o líquido por alguns dias e depois retorna para buscá-la e beber o que resta dela, pois algum animal já terá bebido um pouco da poção. A partir deste momento, o Kuiã terá o poder referente a esse animal, o qual nunca poderá caçar: o seu companheiro. O Kuiã possui Elo mental com esse animal e Metamorfose imediatos [sem precisar rolar dados ou mesmo comprar os feitiços, bastando gastar os pontos de poder mágico designados].

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Published in: on 7 de janeiro de 2019 at 18:23  Deixe um comentário  

OS TUPIS

Os Tupi são uma etnia originária do oeste da Grande Floresta. Parte migrou pro sul, dando origem aos Guarani. A outra parte, para o leste, seguindo o rio Solimões até a foz. Depois, desceram o litoral, expulsando muitos grupos que ali viviam. Como esta descida foi feita em diferentes levas temporais, os Tupi se dividiram em várias tribos, que compartilham costumes e língua, mas que são inimigas entre si.

Além do Tupi e do Guarani e seus respectivos subgrupos, essa grande etnia ainda contém nove famílias que habitam a Grande Floresta. Seus idiomas possuem semelhanças, mas entre o Tupi e o Guarani a diferença é tão pequena que os Jesuítas as consideraram a mesma língua, o Tupi-Guarani. O Tupi falado no litoral é muito semelhante entre os diferentes subgrupos, não criando dificuldades ao colono que dominar o idioma.

Na Província de Santa Cruz, há seis grupos Tupi: Tabajara, Potiguar, Caeté, Tupiniquim, Tupinambá e Temiminó. Apenas os três últimos habitam a região dos bandeirantes.

Tupiniquim

Os Tupiniquim foram os primeiros nativos a entrarem em contato com os Lusitanos, onde hoje se encontra a Santa Cruz de Posse, próximo à Vila de Santa Cruz. Nessa época, além dessa parte do litoral, os Tupiniquim ocupavam a região onde foi fundada, três décadas mais tarde, a vila de São Vicente e toda a costa ao redor, bem como as terras para o interior, chegando à futura vila de Piratininga. Os Tupiniquim eram inimigos viscerais dos Tupinambá, a leste, e dos Carió, ao sul. Com a aliança com os Lusitanos, eles ganharam um bom reforço em suas guerras tribais. Quando os Lusitanos começaram a necessitar de mão de obra escrava, os Carió foram as primeiras vítimas, com o auxílio empolgado dos Tupiniquim. Estes participaram ativamente dos ataques dos bandeirantes às missões jesuíticas castelhanas em busca de cativos. As Missões do Guayrá, bem como as duas vilas castelhanas estabelecidas em La Piñería, foram completamente aniquiladas pelos bandeirantes, acompanhados por um exército tupiniquim, entre 1630 e 1640, como parte da reação dos bandeirantes ao Tratado de Santa Luzia.

Em Piratininga, a distância das rotas comerciais e a indiferença da Metrópole garantiram aos Tupiniquim um relativo protagonismo na sociedade local. Na região, o Tupi é mais falado que a língua dos brancos. Os mestiços são bem vistos e a mestiçagem é estimulada. Os próprios bandeirantes, aliás, são vistos pelo resto da colônia como mestiços, pois rara é a família tradicional vicentina que não tenha sangue nativo correndo nas veias.

Tupinambá

Quando os Lusitanos chegaram à Terra de Santa Cruz, os Tupinambá eram o mais numeroso grupo entre os Tupi. Ao sul, ocupavam desde o Cabo de São Tomé até Piratyoca.

No Nordeste, ocupavam a região onde foi fundada a capital da colônia, espalhando-se pelo interior. Estes se tornaram aliados dos Lusitanos, ao contrário de seus irmãos do sul. No Norte, ocupavam um pequeno trecho de litoral, onde foi erguida a Cidade de Saint Louis pelos Francos.

Os Tupinambá do sul se aliaram aos Francos e viraram inimigos dos Lusitanos, aliados de seus inimigos Tupiniquim e Temiminó. Após a derrota dos Francos, as aldeias Tupinambá se uniram numa grande confederação de tribos e partiram para atacar Piratininga. Quando esta estava prestes a sucumbir, os Jesuítas conseguiram negociar uma trégua, a Paz de Iperoig. Entretanto, esta era apenas um ardil para a chegada de reforços da capital. A desmobilização dos Tupinambá devido à trégua foi mortal para o destino do grupo. Os Francos ainda tentaram ajudar os Tupinambá em São Sebastião, mas foram surpreendidos com a chegada de mais reforços vindos de São Vicente. Atualmente, os Tupinambá remanescentes sobrevivem nas serras e no litoral entre São Sebastião e Piratininga, já sem nenhum ímpeto de revanche, preocupados apenas com a sobrevivência.

No Nordeste, com a expansão dos engenhos de açúcar, os Tupinambá foram se deslocando para o interior, tendo como limite o rio São Francisco, e para o sul, pressionando os Tupiniquim, Pataxós e Aimorés, em um efeito dominó. Muitos trabalham na criação de gado.

No Norte, no início do século, os Tupinambá foram protagonistas involuntários de mais uma tentativa dos Francos de ocuparem terras lusitanas. Estabelecendo-se em uma grande ilha bem junto ao continente, os Francos firmaram uma leal aliança com os nativos. Ao serem expulsos pelos Lusitanos pouco mais de meia década depois, seus aliados Tupinambá se tornaram presa fácil da ira lusitana e foram exterminados.

Temiminó

Os Temiminó formam o menor grupo tupi, mas desempenharam um papel fundamental na ocupação lusitana. Na região onde se encontra São Sebastião, os Tupinambá, seus inimigos, eram presença esmagadora. Os Temiminó habitavam apenas a ilha de Paranapuã e mantinham algumas aldeias nas terras ao fundo da baía. Os Tupinambá chamavam os Temiminó  pejorativamente de Maracajás, os “gatos do mato”. Eles cultuam a ferocidade da onça e a sua habilidade de combate.

Mas calhou de os Lusitanos, ao chegarem à região, aportarem em Paranapuã, não no continente. Assim, aconteceu dos Temiminó se tornarem aliados dos Lusitanos; e os Francos, por oposição, aliados dos Tupinambás. Quando os Lusitanos, com a ajuda dos Temiminó, ganharam a batalha contra os Francos e, na sequência, contra os Tupinambá, os Temiminó ocuparam diversas aldeias outrora pertencentes a seus rivais. Com o crescimento da cidade, os Temiminó acabaram sendo absorvidos pela cultura lusitana e pela intensa mestiçagem.

Subindo a costa, os Temiminó ocupavam o litoral entre as terras dos Goitacás e dos Aimorés, na Capitania do Espírito Santo. Em Reritiba, os Temiminó fizeram parte da redução jesuítica dirigida pelo Padre Anchieta, responsável pela consolidação de Piratininga e por mediar a Paz de Iperoig, sem saber que ela seria usada com outros propósitos pelo governo colonial.

Vida e Morte Tupi

Os nativos, em sua maioria, já não vivem mais como antigamente, atraídos para a fé cristã. Os padres recém-chegados, os noviços, precisam ir às aldeias tapuias para conseguirem ter um vislumbre daqueles tempos.

Dos Costumes

Os Tupis, quando os Jesuítas aqui chegaram, andavam todos nus, e não exibiam pelo algum no corpo, nem nos supercílios, nem na região pubiana, exceto na parte de trás da cabeça. Usavam brincos de ossos, braceletes de penas, colares de dentes e miçangas. Levavam uma pedra verde enfiadas nos lábios inferiores e às vezes na própria bochecha. Muitos desses acessórios ainda persistem nos aldeamentos. Também é comum o hábito de comer carne de animais ligeiros, acreditando que isso os tornará ágeis. Mas já não dispensam uma boa carne de boi, animal pesado, cuja carne evitavam comer, bem como a carne dos animais lerdos.

A caça segue sendo uma atividade exclusivamente dos homens, assim como a pesca, embora as mulheres possam ajudá-los mergulhando para buscar o peixe flechado, pois que são exímias nadadoras!

Originalmente, os homens fabricavam canoas, pequenos móveis de madeira, arcos, flechas, tacapes e adornos de penas multicoloridas. Cortavam a lenha para as fogueiras, teciam redes para caça e pesca, confeccionavam cestos de folhas de palmeira e desempenhavam papel preponderante na construção coletiva das malocas, da qual as mulheres também participavam. Mas sua função primordial sempre foi o contínuo adestramento para a guerra, proteção das tabas e das mulheres, velhos e crianças.

As mulheres cuidavam de todo o resto. Além do que já foi dito, elas davam suporte ao contínuo esforço de guerra, fazendo todo o trabalho da horta, desde a semeadura até a colheita. Plantavam mandioca, milho, feijão, batata-doce, amendoim, abacaxi, inhame, abóbora, pimenta, tabaco, algodão. Coletavam ostras e mariscos nas pedras. Podiam participar da caça para auxiliar no transporte das presas abatidas. Preparavam a farinha de peixe, principalmente para a guerra. Faziam o serviço doméstico, como cozinhar e manter aceso os dois fogos que ficam junto à rede da família. Quando iam buscar água para beber, aproveitavam pra lavar a rede. Eram responsáveis diretas pela domesticação dos animais: aves, cachorros, galinhas, cutias, papagaios. E ainda cuidam dos filhos pequenos.

Atualmente, elas ainda são mestres na tecelagem do algodão e das redes de dormir. Fazem cestos trançados de junco e vime. Preparam o barro e a manufatura de panelas, vasilhas e potes, e pintam a cerâmica. Mas muitos trabalhos são compartilhados hoje com os homens. O mais difícil foi transformar os guerreiros em camponeses, pois os Tupis consideravam o trabalho nos campos como coisa de mulher. Por isso, sempre se animaram a acompanhar os bandeirantes em suas aventuras.

O entretenimento deles fica por conta do tiro à cabaça com o arco e flecha. A criança tupi aprende desde os 4 anos a manejar o arco. O melhor professor é sempre o pai. Os Tupis desconhecem o castigo às crianças e nem os pais os repreendem por qualquer falta. A educação é baseada no exemplo.

Dos casamentos originais

Antes, os moços só podiam casar depois do ritual da quebra do crânio. Já as moças se casavam muitos anos após chegar à puberdade, quando se tornavam kunhã. Entre um rito de passagem e outro, gozavam de bastante liberdade. Por outro lado, havia uma cobrança rígida no desempenho das suas funções comunitárias. Caso cometessem erros, eram duramente castigadas por suas mestras. Só podiam se casar após mostrar plena capacidade de manter um lar.

A relação entre jovens não preparados para casar era mal vista e praticada às escondidas. Já a relação com as meninas menores sempre foi tabu, assim como o incesto.

O amor recíproco era a principal motivação do casamento, mas o pretendente precisava ganhar a simpatia dos parentes, oferecendo caça e peixes. Para o casamento, a virgindade tinha pouco valor. Pelo contrário, esperava-se que os noivos já tivessem se conhecido na intimidade.

A relação entre dois homens não era mal vista, embora um ou outro pudesse ser alvo de zombaria. Entre as mulheres, algumas assumiam posição reservada aos homens, casando-se com outras mulheres. Nesses casos, exerciam todas as funções do homem na sociedade, os mesmos deveres, o mesmo corte de cabelo. Chamá-las de kunhã (mulher) era grave injúria. A estas só era vedada a execução cerimonial de quebra do crânio.

Das tabas

As antigas tabas chegavam a ter 500 varas de largo. A maloca podia chegar a 100 de comprimento por 15 de largura. Algumas tabas, no início da colonização, chegavam a abrigar 10 mil nativos, mas em média tinham entre 600 e 800 indivíduos. Hoje, nesta região, vale dizer que aquelas onde ainda predomina o modo selvagem são bem menores.

Na maloca vivem as famílias solidárias entre si. Várias malocas se unem para formar uma taba. Cada taba é formada por, pelo menos, quatro malocas, dispostas ao redor de um espaço livre em forma de pátio, a okara.

Internamente, as malocas são subdivididas a partir de estacas de sustentação internas, cada família com seu perímetro, onde organizam as redes, fogueiras e pertences (cabaças, panelas, banquinhos, caixas de madeira para enfeites e objetos pessoais, como ceras, tintas e óleos). Os telhados são trançados com palha de palmeira, demasiadamente baixos, de forma que um homem alto teria de entrar ligeiramente curvado. Há duas entradas laterais, uma em cada extremidade, e uma intermediária, no centro. Não há peleja, não há furtos entre os Tupis, seja nas tabas, seja nos aldeamentos da Companhia.

Um homem só podia se mudar de sua maloca ou taba em razão de casamento, indo morar com o sogro ou erguendo sua própria casa. Uma nova maloca devia atrair pelo menos mais 40 indivíduos. Se conseguisse a proeza, ele se tornaria o Morubixaba daquela maloca, passando a compor o conselho de chefes da aldeia.

Em nossa pressa de assimilar a cultura dos nativos, interpretamos o Morubixaba como nossos reis. Só mais tarde nos demos conta do equívoco. Na verdade, cada maloca tem um morubixaba. Em malocas muito numerosas, pode haver até dois. A liderança é bem informal e o morubixaba não é seguido em tudo, apesar de ser ouvido e respeitado. Então de nada nos valia negociar com um achando que este falava em nome de toda a aldeia.

A localização de uma aldeia, nova ou antiga, depende de lenha e água potável nas proximidades. Melhor ainda se houver rio para pesca, terreno fértil e caça abundante. E pássaros, para obter as penas. Os nativos não aldeados mudam de lugar, mas procuram se manter no mesmo território, até uma légua de distância do terreno anterior. Uma das razões da mudança é o envelhecimento do teto das malocas, que se enchem de parasitas e insetos; outra é o desgaste da terra cultivada; ou o perigo de ataque de inimigos, de criaturas da floresta ou de espíritos.

As tabas eram circundadas por um sistema de fortificações. Primeiro, uma estacada de troncos de palmeira rachados, com cerca de três varas de altura, tão cerrada que uma flecha não podia atravessá-la. Havia pequenos buracos pelos quais os guerreiros podiam atirar protegidos dos inimigos. Havia uma segunda cerca, de paus grossos e compridos, com distância pela qual um homem não podia passar. As duas cercas eram ajustadas de maneira que, num eventual ataque, os defensores podiam sair pelos flancos da primeira cerca em posição privilegiada de contra-ataque. No alto delas eram espetados os crânios dos inimigos. Podia, ainda, haver armadilhas entre as duas paliçadas, como buracos recheados de pontas agudas e cortantes.

Dos Peabirus

Peabiru é o nome que os Tupis dão às trilhas percorridas por eles de uma taba a outra. Mas não se trata de mera picada aberta na mata. São trilhas ancestrais abertas no meio da densa floresta para servir como estradas, como as vias romanas ou os caminhos incas em Nova Castela. Elas têm cerca de oito palmos de largura e leito rebaixado em pouco menos de dois palmos em relação ao nível do solo, recoberto, em alguns casos, com gramínea ou pedra. Os Tupis acreditam que essas trilhas tenham sido abertas por Maíramûana, o primeiro Karaíba. Ou seja, podemos acreditar que são mesmo muito antigas.

Os mapas baseados nas referências geográficas dos Tupis acabam cometendo um equívoco básico para aqueles que não entendem o modo deles pensarem. Iguaçú, itaúna, itaoca são nomes que se repetem. Não são lugares geográficos determinados, mas sua estrutura, seu significado. A itaoca indicada em um mapa, que significa ‘casa de pedra’, pode não ser a mesma itaoca para a qual o guia tupi está conduzindo.

Das armas

As flechas tupis têm dimensões equivalentes ao tamanho do arqueiro. Como as mulheres são menores, suas flechas têm menor comprimento. Trata-se de objeto profundamente pessoal.

As flechas são minuciosamente preparadas, com pontas diferentes para cada objetivo. São longas e medem até oito palmos, feitas de um tipo de cana sem nós. Para impacto, ponta de madeira rija, arpoada ou não, de lasca de taquara ou ossos de peixe pontiagudos do tamanho de um dedo, e com uma ponta recurvada em gancho. Para os inimigos, flechas com dente de tubarão, por serem agudos, cruéis, peçonhentos, de feridas que raramente saram; ou com ferrões de arraia, que são muito venenosos. Também podem ser de algodão para flechas incendiárias ou para atordoar pássaros.

As penas são cortadas ao meio e amarradas com fios de algodão no cabo da flecha para dar equilíbrio e direção ao tiro. Podem ser disparadas na razão de seis para cada tiro de arma de fogo. Os Tupis da Província de Santa Cruz não envenenam suas flechas.

Para matar, a arma preferencial deles é o tacape. O tacape é usado quando o combate chega ao clímax. São feitos de uma madeira dura, de cor vermelha ou negra. Tem um topo triangular que vai se estreitando na direção da extremidade inferior, medindo até sete palmos. No punho da clava, um enfeite de plumas.

Os Tupis desenvolveram escudos de couro de anta e madeira leve, pintados de várias cores e revestidos de penas. Conseguem aguentar um tiro de arcabuz.

Das guerras

A relação entre as tabas sem laços de parentesco era, em regra, de hostilidade. Tupis ou não, os inimigos usavam mais ou menos as mesmas armas. A maioria das guerras não era por sobrevivência ou disputa territorial, como hoje. Eles lutavam para vingar seus antepassados e para ter uma existência honrada. Atualmente, há regiões onde essas guerras culturais ainda ocorrem, mas luta-se mais por necessidade.

A disputa entre os grupos tupis surgiram a partir da escassez de inimigos. Uma vez que já haviam ocupado um vasto território no continente, muitas tabas só tinham como vizinhos outros tupis.

As ações eram deliberadas por um conselho de chefes da aldeia, ou de um conjunto de tabas liderado pelos mais velhos, os Tunhãbaés. O conselho escolhia um líder para a expedição guerreira. Às vezes ocorriam discussões ásperas. Parte do ritual envolvia a fumagem coletiva, um ato sagrado e místico. Após chegarem a uma conclusão, o plano era apresentado ao pajé. Pajés e Karaíbas também podiam impulsionar uma expedição punitiva movida por alguma profecia.

Essas expedições podiam ter três formatos:

Expedição com número limitado de guerreiros: atuava como uma tropa de elite cuja função era atacar tabas inimigas, matar o maior número possível deles, queimar suas casas, causar o máximo de destruição e voltar em seguida, de preferência trazendo cativos para que a vingança pudesse ser compartilhada com as mulheres e parentes de outras tabas.

Expedição com maior número possível de guerreiros, de uma ou mais tabas: quando era esperada maior resistência do adversário.

Nestes dois casos, sobrava um contingente razoável para manter as defesas de sua própria taba, realizada, inclusive, com sentinelas.

A primeira coisa que faziam em um ataque era queimar as malocas dos inimigos com flechas embebidas em algodão. Quando estes eram desalojados, atiravam suas flechas. Até que chegava a hora do corpo a corpo com tacape ou machado. O principal objetivo era capturar inimigos para o ritual antropofágico. Os mais feridos eram sacrificados no próprio campo de batalha.

Expedição longa: se o ataque prometia ser de longa duração, e fosse necessária a participação de todos os guerreiros disponíveis, a expedição envolvia toda a comunidade, para que mulheres, velhos e crianças não ficassem desprotegidos.

A data de partida da expedição era relacionada ao amadurecimento de algum fruto ou desova de peixe. Os nativos dependiam de elementos da natureza para planejar a jornada. O peixe serve como mantimento e o milho para produzir o cauim. As mulheres e filhas produziam bastante farinha de guerra, que era feita com peixe torrado ao fogo e esmagado, depois secado para conservar. Essa farinha de peixe podia durar meses. Os homens preparavam todo o equipamento de guerra.

Para tais incursões, o costume era montar esquadras com dezenas de canoas, cada uma carregando de 20 a 30 guerreiros. Batalhas navais envolvendo troca maciça de flechas entre dois aglomerados de barcos podiam decidir a briga.

Uma batalha nesses moldes, lideradas pelos bandeirantes, ocorreu contra uma missão jesuítica castelhana no cerro de Mbororé, em 1640. Na época, os Jesuítas conseguiram licença da Coroa para armar os Guaranis com armas de fogo e resistir ao ataque. Após uma semana de feroz combate no rio Uruguay, vicentinos e tupis sofreram retumbante derrota.

Dos Rituais

Os Tupis não cultuam nenhum ser em específico, ainda que muitos irmãos acreditem que os pajés recebam seus poderes do Senhor das Trevas. Não se trata, porém, de uma questão simples. Há muitas forças envolvidas e é preciso maior discernimento para compreendê-las.

Apesar de não terem uma idolatria, a vida cotidiana dos Tupis é marcada por rituais que apresentam função social semelhante aos demais rituais religiosos, manejando energias poderosas. Foi preciso muita habilidade e paciência dos Jesuítas para decifrá-los e, a partir desse conhecimento adquirido, aproximá-los da liturgia cristã, e então reapresentá-los aos nativos de uma forma que entendessem a mensagem de Cristo.

Padres de outras ordens condenam os Jesuítas por fazerem tais aproximações. Mas a Companhia de Jesus sustenta que essa é a melhor forma de trazer os nativos convictamente para o Reino de Deus. Não basta adestrá-los na fé ou ter controle sobre suas ações se o amor de Cristo e a verdadeira fé não habitarem seus corações. E, igualmente importante, os padres devem provar na prática o poder da reza e da missa, e como a fé deles pode ajudá-los a ter uma vida melhor.

Da bebida ritual

O Cauim é a bebida fermentada servida nas grandes ocasiões. Nascimento, puberdade, furação dos lábios, cerimônias antes e depois da guerra, rituais religiosos, rituais funerários, trabalho coletivo na roça, assembleia de anciões, visitantes: tudo era momento para grandes bebedeiras. Essa bebida é adaptada às frutas e raízes disponíveis na região (aipim, milho, caju, abacaxi, ananás, mangaba, banana, jabuticaba, batata, jenipapo). É servida morna.

O Cauim em si não representa nenhuma ofensa ao Nosso Senhor. O problema reside no fato dos Tupis serem beberrões respeitáveis. Só os adultos podem beber e apenas as mulheres podem fazer a bebida. O material é fervido até ficar bem cozido. Depois, elas se reúnem ao redor da panela e mastigam bem o conteúdo, devolvendo as porções para um segundo pote aquecido em fogo baixo. Após um tempo fermentando com a saliva, a pasta é novamente levada ao fogo e remexida até cozinhar. A bebida é opaca e densa, com sedimentos e gosto de leite azedo. Pode ser misturada com frutas.

O álcool da bebida era visto como propriedade mística. Assim, as mulheres que faziam parte da mastigação deveriam ser virgens ou guardar a castidade por algum tempo. As moças mais bonitas ainda são incentivadas a participar da mastigação. Durante as festas, o cauim é mantido aquecido a fogo baixo. Ao beber, os homens devem esvaziar a tigela num único gole. Se sobrar alguma coisa, a mulher bebe.

Nos tempos antigos, uma festa regada a cauim podia durar vários dias. Os mais velhos eram os primeiros a serem servidos. O tabaco era fumado nas pausas das bebedeiras. As mulheres também bebiam e podiam dançar ao lado dos homens. Ninguém se alimentava de comida. Chegavam ao extremo de vomitar para poder beber mais. Parar de beber antes dos demais era considerado sinal de fraqueza. A libido também era intensa. Quando a bebedeira gerava confusão, as mulheres corriam para apagar o fogo das tigelas, para que nenhum índio bêbado tocasse fogo na própria maloca.

Foi mais difícil para os padres conter a esbórnia dos nativos do que por fim ao ritual antropofágico.

Do ritual antropofágico

A antropofagia era o principal ritual dos Tupis, em torno do qual girava todo o funcionamento da taba. E o que nos mais provocava horror e aflição.

Mas não era uma questão de alimentação. Um homem só podia se casar após provar seu valor como guerreiro. E seu rito de passagem era rachar o crânio de um inimigo neste ritual. Ou seja, sem a antropofagia não havia sequer casamento!

A antropofagia não visava exterminar adversários ou ocupar territórios, mas manter vivo um ciclo interminável de vingança que enobrecia quem dele participava.

O massacre do crânio é a maior ofensa a se fazer a um inimigo, ou desonra a sofrer nas mãos deles, pois os Tupis ainda acreditam que os defuntos caminham na outra vida da forma que terminaram nesta. Esse ato, portanto, impediria o espírito de continuar viagem à Terra Sem Mal, o paraíso eterno dos Tupis, o que  provocava as rixas entre as tribos.

Nesse ritual, o matador adquiria um nome, a maior riqueza de que pode dispor um guerreiro. Um tupi não podia procriar antes de obter um nome desses e também não podia dar nome a seu filho. Para cada nome conquistado, o matador tupi fazia uma incisão no corpo, aplicava pó de urucum na ferida, resultando em uma espessa cicatriz. De posse de muitos nomes, ele podia até ascender à posição de Morubixaba. O acúmulo de nomes permitiria à alma superar as provas da morte e alcançar a Terra Sem Mal. Assim, alguns guerreiros possuíam grandes cicatrizes no peito, nos braços, nas coxas, de tamanho, espessura e recorte semelhante. O prestígio aumentava na proporção dos inimigos que abatia. Só podia se tornar Morubixaba aquele que tivesse massacres rituais em seu passado. Podia ainda dominar a magia e se tornar um pajé.

A prática de escarificações ainda é popular entre os nativos, mesmo entre os aldeados, e contaminou até mesmo os colonos, apesar dos nossos constantes alertas quanto ao perigo de se entregar a tais costumes pagãos.

O ritual antropofágico começava com a chegada do prisioneiro à taba. Ele era recebido com muita hostilidade. Depois, a ele era dado uma mulher, possivelmente uma viúva. Esta não poderia se casar novamente enquanto o marido morto não fosse vingado. Se o morto fosse solteiro, o cativo poderia receber a irmã, a filha, ou mesmo uma das mulheres de seu captor.

As Tupis consideravam honrosa essa ligação com os inimigos vencidos, e se sentiam recompensadas pela derrota de seus maridos. Mas a mulher também tinha a função de vigiá-lo, cuidar dele e alimentá-lo. Ao prisioneiro ainda era permitido se relacionar com outras mulheres, desde que às escondidas. Mas nunca com uma mulher casada, o que era punido com morte imediata.

Às vezes o cativo era constrangido a trabalhar na roça com as mulheres e não podia usufruir de sua caça e pesca sem antes oferecê-la a seu captor. Exceto pela fuga, o cativo tinha total liberdade de locomoção, como ficamos sabendo pelo livro daquele alemão que foi prisioneiro dos Tupinambás.

As mulheres prisioneiras, em geral, tornavam-se esposas de seus captores. Porém, se rejeitada, podia deitar-se com qualquer um. Aquela que se tornava esposa de um guerreiro da tribo só teria o seu crânio rachado após a morte natural.

O conselho de chefes determinava a data do ritual de execução. Os prisioneiros mais velhos eram executados logo. Os mais novos permaneciam na aldeia por meses ou anos. É um grande equívoco confundir esses cativos com os escravos. Ainda que devessem alguma obediência a seus captores, a sua natureza era a de um prisioneiro que gozava de invejável liberdade.

A execução ritual vingava a morte dos antepassados. O prisioneiro considerava sua morte honrosa, e houve mesmo casos em que o cativo recusou a ajuda de um padre para poupá-lo da execução. Uma vez decidida a data, esta era comunicada às aldeias vizinhas, que enviavam emissários para a festa. Então o prisioneiro era coberto de plumas e fazia uma peregrinação por todas as malocas.

A partir desse momento, o prisioneiro era mantido amarrado.  Às vezes era retirado de sua maloca-prisão para participar de certas etapas de preparação do ritual. Toda a taba, a essa altura, estava voltada para a execução. Os homens fabricavam o Ybyrapema, o tacape cerimonial destinado a esmagar o crânio do cativo.

Era preparada também a Muçurana, a corda ritual, untada com uma substância branca semelhante à cal. Nos dois últimos dias, o prisioneiro permanecia guardado pelas nativas mais velhas numa pequena cabana. Seu cabelo era todo raspado e o corpo pintado de preto. O cauim era servido generosamente do lado de fora.

No dia anterior á execução, o cativo era levado para banhar-se no rio. No retorno, era atacado por um guerreiro todo paramentado, que devia dominá-lo. Se não o fizesse, certamente seria considerado uma vergonha para o guerreiro, mas outro logo o substituiria até que o cativo estivesse dominado. Depois, ele era amarrado com a muçurana. Essa pesada corda era colocada em seu pescoço e esticada pelos dois lados, dando alguma liberdade de movimento. Os nativos que seguravam a corda se protegiam com os escudos de anta. Sua esposa lhe oferecia frutas, pedras e uma flecha rombuda, com as quais tentaria acertar seus captores. Depois, cobriam-lhe de mel e plumas. O ybyrapema era levado até o centro da taba e consagrado, e então pendurado em frente a uma choça. O prisioneiro era obrigado a participar da festa que se seguia.

No dia da execução, o cativo era acordado aos primeiros raios de sol. A muçurana era tirada de seu pescoço e amarrada à cintura. Sua mulher se despedia e se afastava chorando. Seu executor, que até então permanecera apartado, alheio às festas, revela-se com um sombreiro de plumas e um diadema de penas vermelhas. Vestia colares, braceletes e tornozeleiras de penas. Seu rosto estava pintado com urucum e o corpo com cinzas embranquecidas. Ele parava em frente à vítima e recebia o ybyrapema. Sua missão era simples: quebrar o crânio do inimigo com um único golpe fatal. Não lhe era permitido fazer qualquer tipo de finta, ou receberia ruidosas vaias. Se o morto caísse de costas ao receber o golpe fatal, e não de frente, isso seria interpretado como mau augúrio. Significava que o executor teria uma vida curta.

Uma vez desferido o golpe fatal, as nativas mais velhas eram as primeiras a se precipitarem sobre o corpo. Era delas a maior demonstração de ódio. A antropofagia era mais importante para as mulheres, pois para os homens havia o ato de esmagar o crânio dos inimigos. Para elas, aquele era o momento de consumar a vingança.

As crianças eram estimuladas a se aproximarem e lambuzarem a mão de sangue. O corpo era então escaldado com água fervendo, o couro era retirado, os membros cortados e levados para as malocas com gritos de alegria. Depois eram depositados no moquém, a grelha tupi. As mulheres retiravam as tripas e assavam a carne. Nenhum pedaço do defunto era desperdiçado. Os dedos das mãos, o fígado e o coração eram considerados partes nobres e eram oferecidas aos hóspedes mais importantes.

Só o executor não saboreava o banquete, devendo abster-se da carne do inimigo e refugiar-se em sua maloca. Seu padrinho, o morubixaba que lhe passara o ybyrapema, o aguardava dentro da maloca e enfim completava seu rito de passagem.

Ao sair, o executor já se tornara um adulto, um guerreiro abá. Com isso poderia trocar o nome de sua infância por um nome que lhe agradasse. Em seguida, sentava em sua rede e infligia cortes no corpo, no qual esfregavam pó e ervas, de forma a arreganhar e inchar, virando uma espécie de tatuagem. Enquanto não cicatrizasse, ele deveria fazer jejum de cauim e de carne. Não poderia também sair da rede ou colocar o pé no chão.

Dos ritos funerários

Em regra, os entes queridos eram enterrados no interior da maloca, para protegê-los dos inimigos. Eles receavam a violação de seus corpos e, particularmente, o esfacelamento do crânio. Parece que não era incomum que violassem túmulos com essa finalidade. Porém, em algumas tabas, apenas o Morubixaba podia ser sepultado dentro da própria maloca.

Quando o Morubixaba morria, as mulheres da taba cortavam o cabelo e os homens o deixavam crescer. A viúva tingia-se com o preto do jenipapo. Antes de ser enterrado, o corpo era untado com mel e ornado com penas coloridas e os enfeites que usava em vida nas cerimônias. Depois, era colocado na própria rede e então amarrado em cordas de algodão para que não retornasse à superfície.

O buraco era cercado com estacas de madeira para que a terra não passasse. Junto a ele depositavam a clava de madeira, as outras armas e utensílios pessoais. Também lhe davam presentes para que levasse à terra dos mortos, e mensagens aos antepassados. O morto também era um mensageiro do além.

Da Criação segundo os Tupis

Para os Tupis não cristianizados, Monã, o ‘antigo’, é a entidade única criadora de tudo. Mas os homens desprezaram seu criador. Como punição, Monã enviou um grande ‘tatá’, um enorme fogo vindo dos céus que queimou tudo. O fogo fez a terra enrugar, transformando-a em vales e montanhas. O único homem salvo foi Irin-Magé. Para compensar Irin-Magé da destruição, Monã fez chover vários dias. A terra se recuperou e Monã deu a ele uma esposa. Entre os filhos de Irin-Magé estava o grande karaíba Maíramûana, o profeta transformador. Seus poderes eram compatíveis aos de um deus. Maíramûana vivia recluso na mata, cercado de seguidores. Ele é responsável pela tonsura dos cabelos, pela depilação total, as pinturas corporais, a tradição de achatar o nariz dos recém-nascidos. Podia, como castigo, transformar pessoas em animais. Isso aterrorizava tanto os nativos que eles o mataram.

Da difícil viagem da alma após a morte

A força vital dos Tupis, a Anga, transforma em Anguera após a morte, quando enfrenta os desafios de uma longa e difícil caminhada no mundo astral, para tentar alcançar a Terra Sem Mal. Só assim a alma poderá se tornar imortal.

Em seu caminho estará, além dos espíritos dos inimigos, a legião dos Anhangas. Estas entidades maléficas que habitam as matas, sombras difusas dos espíritos da natureza, dedicam-se a capturar as Angueras. Para proteger as almas de seus familiares que rumam à Terra Sem Mal, os Tupis acendem fogueiras ao lado da sepultura, por ser este o único elemento que afasta um Anhanga. Por essa razão, também, os Tupis são enterrados com suas armas e objetos que podem precisar na viagem.

Caso o tupi seja morto por um feiticeiro, sua viagem à Terra Sem Mal se tornará ainda mais dificultosa, pois a Anguera fica enfraquecida. Por isso esses bruxos nativos e seus sortilégios infligem tamanho pavor aos nativos.

Os Anhangas são bem mais do que crendices nativas. Apesar de sua terrível natureza, não se pode confundi-los com os espíritos malignos que habitam os planos inferiores. Eles parecem nascer da aura sombria da própria floresta.

Finalmente, após passar por uma série de provas para chegar à Terra Sem Mal, devendo ainda evitar as terras dos inimigos no mundo dos espíritos, a alma deve marcar o ritmo com maracá, a fim de anunciar sua chegada a Maíramûana.

Das almas vis

Quando o tupi morre, além da Anguera, desprende-se do corpo o Taúb-aib, o fantasma do cadáver, que apodrece com ele, e cheira como ele. O Taúb-aib não gosta dos vivos e busca fazer-lhes mal. Quando a matéria se decompõe, o Taúb-aib também se vai, definitivamente. Não há nenhum plano que a abrigaria.

Aqueles que são sacrificados e devorados não geram um Taúb-aib. Seu fantasma desaparece logo no estômago dos inimigos. Por isso os Tupis têm horror à morte natural.

Da Terra Sem Mal

Ybymarãeýma é a Terra Sem Mal, onde não há guerra, não há morte, nem trabalho, um lugar onde só os mais fortes, corajosos, destemidos e que seguem à risca os ensinamentos de Maíramûana e as tradições ancestrais têm lugar. Para o tupi, humanidade e mortalidade existem num mundo imperfeito.

Neste Paraíso, descansam os antepassados mais valorosos e memoráveis. Há nele uma fonte da juventude eterna que manteria todos na melhor idade, pais e avós, em harmonia e felicidade eterna. O tupi deve enfrentar muitas provas durante a vida e depois da morte, a fim de provar o seu valor espiritual. O desafio da vida é manter-se digno para adentrar a Terra Sem Mal. Por isso a cultura Tupi é a guerra, única forma de mostrar seu valor.

Pajés

O pajé não é um sacerdote, pois os Tupi não cultuam nenhuma entidade, nem possuem dogmas que possam ser comparados a um sistema religioso. Pajé é o líder espiritual da aldeia, mas não é o único a lidar com as forças da natureza. Há aqueles que o auxiliam nesse serviço, mas sem o mesmo status de liderança, e há os feiticeiros, que só usam o seu poder mágico em proveito próprio.

Os feiticeiros propriamente ditos têm o mesmo poder do pajé, mas utilizam esse poder de forma egoísta e furtiva, fazendo mal à tribo. Não há diferença entre os poderes dos pajés e dos feiticeiros, nem entre os pajés das diferentes tribos tupi e guarani.

Maracá

Os pajés utilizam um instrumento mágico chamado Maracá, a falsa cabeça. Ele possui a conformação de uma pequena cabeça humana, com orelhas, cabelo, olhos, boca e nariz. Em seu interior são colocadas folhas de propriedades místicas. O objeto é conduzido solenemente pelo pajé nos rituais, impondo o ritmo dos cânticos e da dança. Ele salta e dança diante dos guerreiros, postos em círculo. O pajé usa o maracá para canalizar a força dos espíritos a favor da tribo.

Karaíbas

Os Karaíbas foram o maior obstáculo enfrentado pelos Jesuítas no início da colonização. Ainda que não sacrificassem inimigos, nem comessem carne humana (o que lhes é proibido), representavam para os padres o tipo mais abominável de feiticeiro. Além de controlarem grande número de espíritos animais, podem também incorporá-los em um ato consciente e voluntário. Possuem livre trânsito entre as aldeias, inclusive inimigas. Vivem na mata porque este é o território dos espíritos.

Os Karaíbas são capazes de se transformar em onça. Eles nunca comem carne humana e nunca são devorados nos rituais. O cadáver de um Karaíba não libera a taguaib e sua anga não enfrenta os desafios a caminho da Terra Sem Mal. Ele tem o dom de ir, fisicamente, a Ybymarãeýma.

Published in: on 7 de janeiro de 2019 at 17:57  Deixe um comentário  

TRIBOS NATIVAS

Os nativos da Terra de Santa Cruz se espalham por todo o território e formam povos bem diversos. As etnias que constituíam o Império do Sol pouco ou nada se assemelham culturalmente aos Tupiniquim que estabeleceram os primeiros contatos com os Lusitanos, que por sua vez pouca ou nenhuma semelhança guardam com os Aonikénk do Planalto das Visões. Entretanto, entre os povos da mata, há uma semelhança cultural que, à distância, faz o estrangeiro, seja este proveniente do Velho Mundo ou do Continente Negro, acreditar serem todos os nativos uma coisa só. Assim, inicialmente, os Lusitanos tomaram os Tupi como base para todas as tribos da região.

De fato, os povos da mata possuem muitas semelhanças: andam descalços, praticamente desnudos, fazem tatuagens, utilizam basicamente as mesmas armas, procuram viver em harmonia com a natureza, não adoram deuses e nem desenvolveram qualquer tipo de culto ou religião, ainda que acreditem fortemente nos espíritos da natureza e seus mitos.

Porém, uns deixam os cabelos compridos, alguns rente ao ombro, outros o cortam curto e fazem uma tonsura. Alguns grupos conhecem a agricultura e vivem em casas multifamiliares, enquanto outros vivem de forma nômade, carregando poucos pertences e dormindo em acampamentos improvisados. Muitos grupos derivam do mesmo tronco linguístico, enquanto outros, ainda que bem reduzidos, desenvolveram línguas próprias. Uns praticam o canibalismo ritual, só devorando a carne do inimigo em condições específicas. Outros comem carne humana para o sustento.

Entre os povos que habitam a colônia lusitana, o que mais se destaca é o Tupi. Além de numerosos, eles se alastram por quase todo o litoral. Os Guarani, que possuem uma origem comum aos Tupi e falam basicamente a mesma língua, ganham protagonismo nas colônias hispânicas do interior do continente, habitando as fronteiras nada definidas entre as duas colônias.

Como, desde que pisaram a areia branca da Terra de Santa Cruz, os Lusitanos tiveram os Tupi como aliados preferenciais, os colonizadores resolveram simplificar e chamar todas as outras tribos de Tapuias (aqueles que não falam Tupi).

Se todos esses povos não foram páreos para as forças lusitanas, isso na verdade não se deveu apenas às armas de fogo, cujo desempenho, ainda que provocasse grande impacto moral, ainda era pouco eficiente em uma guerra na mata. Os cavalos, as espadas de metal, que partiam com facilidade os tacapes indígenas, e as doenças foram os grandes fatores de desestabilização.

Tanto brancos quanto negros trouxeram doenças desconhecidas no Novo Mundo, para as quais os nativos não haviam desenvolvido defesas. A cada epidemia, as forças nativas sofriam baixas monumentais, causando um vazio demográfico de difícil recuperação na luta contra os brancos. Além disso, a impotência de seus xamãs para conter tais doenças, que se propagavam com mais rapidez do que conseguiam curar, minava a confiança dos nativos e fazia crescer o temor e a admiração pelo poderoso Deus dos brancos, cujos sacerdotes pareciam imunes àquele mal.

As trocas de animais, madeira e mão de obra por utensílios europeus esteve longe de ser trivial. Um machado de ferro é capaz de reduzir um trabalho de três horas para quinze minutos. Para não na falar na vantagem adquirida contra os inimigos tradicionais. O que parece ser banal para o europeu, pode ser inestimável para um nativo.

Assim, no limiar de um novo século, os colonos conseguiram se impor em toda a região da Província de Santa Cruz na qual decidiram fincar pés, forçando seus limites para o interior. Contudo ainda resta um largo território pouco explorado e desconhecido, no qual os homens brancos são apenas histórias trazidas pelos viajantes.

Published in: on 15 de março de 2010 at 1:42  Comments (2)