OS CIGANOS

A origem dos Ciganos é nebulosa, sendo possivelmente originários do Oriente, de onde migraram para a Europa. Seus costumes e idiomas variam muito, pois eles se dividem em vários grupos. Os dois mais conhecidos são os Rom e os Calon. Estes últimos chegaram à Península Ibérica no início do século XV, tornando-se o grupo mais numeroso.

Os Ciganos pensam em si próprios de forma fragmentária, tendo forte identificação com seu grupo familiar, sem nutrir uma identidade única. Para eles não existem “Ciganos”, mas diversas comunidades que mantêm relações de semelhança. A dispersão nômade ocorre há séculos, propiciando vários contatos com outras culturas e adaptações necessárias à sobrevivência. Eles não formam um grupo religioso ou uma nacionalidade.

Como não desenvolveram a escrita, os registros sobre eles partem sempre dos outros povos, expressando um olhar hostil, pois veem os Ciganos como trapaceiros e vagabundos, que peregrinam pelo mundo sem pouso permanente. Para piorar, não empregam os sacramentos católicos, como casamento e batismo. Ao favorecer seus próprios costumes, desafiam a Igreja e a sociedade que os abrigam. Da antipatia veio a fama de feiticeiros, ainda que a única prática visível de magia seja a buena dicha, a leitura da sorte na palma da mão das pessoas.

O primeiro cigano chegou a Santa Cruz ainda no século XVI, degredado junto com sua mulher e filhos. Não foi, porém, resultado de uma campanha da Coroa contra esse povo. A Inquisição, na verdade, pouco se ocupava deles, uma vez que eles são normalmente marginalizados e pouco risco oferecem à solidez da fé cristã. Essa perseguição só se inicia em 1686, e por iniciativa da Coroa. Antes disso, muitos Calon haviam migrado para as colônias lusitanas de forma voluntária. Quantos aos degredados, preferencialmente, as mulheres e seus filhos eram enviados ao Continente Negro, enquanto os homens eram condenados às galés por toda a vida. Santa Cruz era um destino eventual. A Câmara Municipal ou o governador eram incumbidos de emitir um documento dando seu parecer sobre o comportamento do degredado ao fim do cumprimento da pena. Em Piratininga, os vereadores contrataram uma cigana degredada para cuidar da primeira venda da vila.

No final do século XVII ocorre finalmente um êxodo em massa. O Rei determinou a deportação imediata de uma pequena comunidade de 140 Calon que estavam detidos na prisão do reino. O embarque foi espetaculoso, com todos acorrentados para servirem de exemplo. A esse se seguiram vários banimentos. Inicialmente, para Ngola. Depois, para a Capitania do Maranhão, para ficarem longe dos principais portos da colônia e da região mineira.

As autoridades coloniais são instruídas pela Coroa a não permitir o retorno dos Ciganos à Metrópole. Tampouco deve ser permitido o uso do Caló, sua língua própria. Por mais indesejáveis que sejam, o constante desafio de povoamento das vastas terras coloniais ainda ocupadas por nativos encontra nos degredados uma solução conveniente para a Coroa, pois, ao mesmo tempo que diminui a tensão na Metrópole, provê Santa Cruz de pessoas dispostas a arriscar tudo. Mas os colonos preferem os nativos aos Ciganos. As autoridades os consideram pessoas desconhecidas e suspeitas, sempre relacionados ao comércio de mercadoria roubada. Os Ciganos, de fato, se ocupam do comércio de animais e de escravos, sendo alguns senhores escravagistas, mas ninguém é capaz de afiançar a idoneidade deles. O nômade, por não ter residência fixa, é visto com desconfiança. Praticamente nada se sabe sobre sua organização. Há apenas a referência ao “Conde dos Ciganos”, uma figura a quem todos respeitam e que aparenta ser o chefe do grupo.

Os moradores fazem queixas constantes às Câmaras, que recorrem aos governadores ou diretamente à Metrópole. O Conselho Ultramarino recomenda às autoridades coloniais tentar modificar os hábitos desse povo, uma estratégia já fracassada no reino. Portanto, nem mesmo o Conselho possui esperanças que tais medidas levem a uma integração dos Ciganos com os colonos. Uma coexistência pacífica já seria um grande triunfo.

Apesar dos obstáculos, os Ciganos conseguiram chegar a São Sebastião, acampando no Campo da Cidade, uma das áreas de pastagem comunitária próximas ao centro urbano. Também lograram chegar à região mineira logo após a descoberta do ouro, provavelmente usando o caminho pelo rio São Francisco. Em completo contraste com o trabalho duro dos mineiros, são imediatamente considerados como elementos inúteis àquela sociedade incipiente. Supersticiosos, desrespeitosos, vândalos, enfim, um perigo a ser contido pelas autoridades. O problema é que o próprio conceito de autoridade nos Campos dos Cataguás ainda é um tanto precário, e muitos sãos os problemas e conflitos a serem resolvidos, de forma que, na prática, os Ciganos pouco têm com o que se preocupar nas minas.

A vastidão da colônia, o sertão inóspito, a precariedade ou mesmo a inexistência de prisões propiciam à índole rebelde dos Ciganos uma liberdade jamais sonhada no Velho Mundo. Porém, os perigos escondidos na mata podem se tornar pesadelos mais reais que a sensação de liberdade.

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Published in: on 8 de janeiro de 2019 at 17:48  Deixe um comentário