CRISTÃOS-NOVOS

Durante muitos anos, Portugal foi um ponto de convergência de vários povos por ser porto estratégico de ligação entre o Mediterrâneo e os reinos do norte. A Coroa estimulava a pesquisa náutica e recebia a todos como cidadãos do Reino. Contudo, no fim do século XV, a convivência entre Hebreus e Católicos se tornara conflituosa. Pressionado pela Igreja, o Rei impôs o batismo aos Judeus, dando origem aos Cristãos-Novos. Mas o que era para ser uma solução acabou piorando a situação. Os cristãos não reconheceram os Hebreus cristianizados como iguais, provocando mais irritação do que os Marranos, como são conhecidos os Judeus nascidos na península ibérica ou em suas colônias. Todas as tentativas de por fim à discriminação fracassaram.

Aqueles que continuaram a cultivar a religião judaica passaram a ser conhecidos como Criptojudeus. Para os Cristãos, todo Cristão-Novo é um Criptojudeu. Entre os Judeus, os Cristãos-Novos também são motivos de desconfiança, pois muitos Cristãos-Novos buscam realmente assimilar sua nova condição. Como saber em quem confiar?

Os Judeus, então, buscam locais de maior tolerância, como as Terras Baixas ou as novas fronteiras proporcionadas pelo Novo Mundo. Muitos atravessaram o Mar Oceano por conta própria; outros foram degredados. O maior atrativo para os Cristãos-Novos na Província de Santa Cruz é a ausência de um tribunal do Santo Ofício, ao contrário do que ocorre em Nova Castela. Assim, comerciantes natos, eles tomaram conta do comércio entre as vilas portuárias e o interior. Por isso, a própria atividade de comerciante é vista com preconceito. Uma nova leva chegou com a invasão neerlandesa. Quando estes foram expulsos, muitos Judeus permaneceram em Olinda. A presença de Cristãos-Novos na colônia é mais aceita, pois faltam homens interessados em lutar pela ortodoxia religiosa. Os próprios Jesuítas têm reservas quanto aos métodos inquisitoriais.

Sem a presença do Santo Ofício, São Sebastião se tornou uma espécie de porto seguro para os Marranos, uma vez que a cidade está convenientemente longe da sede do Governo-Geral e, ao mesmo tempo, serve de entreposto para o rio da Prata. Nessa capitania e em São Vicente, os Cristãos-Novos somam 25% da população. A vedação à participação em cargos da administração colonial acaba sendo pouco observada, pois em muitas vilas há escassez de pessoas capacitadas para exercer determinadas funções. Há, inclusive, Cristãos-Novos agraciados com a Ordem de Avis. Mais rígida, entretanto, é a vedação à ocupação de postos eclesiásticos.

Os Cristãos-Novos ocupam diversas atividades nas vilas: contratador, alfaiate, mercador, negociante, advogado, ourives, bufarinheiro (mascate), escrivão, médico, juiz, senhor de trapiche, cirurgião. Na colônia, há muitos mercadores que se tornaram senhores de engenho. Eles acumulam seu capital primeiro como mercadores para depois adquirirem terras, muitas vezes com um bom casamento. A posse de terras garante ascensão social e cargos públicos. Essas famílias de Cristãos-Novos procuram ter suas moendas próximas umas das outras por questões de segurança e para ter maior controle sobre os negócios.

Porém, apesar da distância e da aparente indiferença dos vizinhos, olhos vigilantes encontram-se atento a sinais indicativos de prática religiosa judaica, como não comer carne de porco e de coelho, circuncisão, não trabalhar no sábado, orar contra a parede, entre outros. Uma forma de driblar a vigilância dos Familiares do Santo Ofício é sair pela cidade com um lenço na mão, atrás das costas, para divulgar as datas das reuniões secretas dos Criptojudeus. Outra estratégia é se concentrarem em uma mesma área, com casas coladas umas nas outras. Em Santa Cruz, é impossível desenvolver um culto formal.

Na Metrópole, o apoio financeiro e político à Coroa lhes garantem algumas liberdades e garantias, permitindo o surgimento de companhias mercantis. Mas a pressão da Igreja sobre a Coroa é constante. A situação dos Cristãos-Novos, portanto, é extremamente vulnerável às mudanças da política da Metrópole.

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Published in: on 8 de janeiro de 2019 at 17:45  Deixe um comentário