IORUBÁ

Os Iorubá fundaram o Império Oyo no século XV, na Costa do Ouro. No século seguinte, eles foram invadidos pelo Império do Benim. A recuperação só ocorre cem anos depois, quando experimentam um forte crescimento a partir do comércio de escravos, o que lhes dá poderio bélico, particularmente pela superioridade da cavalaria adquirida junto aos Lusitanos.

Apesar de serem um grupo pequeno, os Iorubá já são a terceira maior etnia negra na colônia lusitana. Na região dos bandeirantes, sua presença pouco se faria sentir não fosse a formação dos Quilombos da Lua. Encontram-se em maior número no Nordeste, particularmente na capital.

A religião dos Iorubá é o Culto dos Orixás. No Continente Negro, trata-se de um culto local, não compartilhado por outros povos. Mas como a etnia também está presente em outros reinos, como o de Dahomey, há muita influência e intercâmbio cultural na região.

O CULTO DOS ORIXÁS

Na cosmogonia iorubá, o deus supremo é  Olodumaré. Ele não aceita oferendas, pois tudo o que pode ser ofertado já lhe pertence na qualidade de criador de tudo o que existe.

Segundo a concepção iorubá, todo o processo de existência se desenvolve no mundo material, Aiye, e no mundo espiritual, Orun. Tudo o que se manifesta no Aiye tem a sua pré-existência no Orun.

Como parte da criação do céu e da terra, Olodumaré criou os Orixás, entidades intermediárias responsáveis pelos diversos reinos da natureza. Os Orixás atuam de acordo com as funções que lhes são delegadas por Olodumaré. A criação da vida na Terra foi delegada a Oxalá.

O Culto dos Orixás é uma religião que trabalha com as energias da natureza, que por sua vez são as energias dos Orixás. Muitos Orixás são ancestrais que foram divinizados, pois durante sua vivência na terra adquiriram controle sobre a natureza. Assim, eles possuem características semelhantes aos seres humanos, pois se manifestam através das mesmas emoções.

No Continente Negro, cada Orixá está ligado originalmente a uma cidade ou a um reino inteiro. A realização das cerimônias de adoração ao Orixá é assegurada pelos sacerdotes designados por sua tribo ou cidade. Obviamente, tal cenário não encontra correspondência na Terra de Santa Cruz.

Os Orixás são individuais de cada pessoa, que por sua vez é parte do orixá em si. Ou seja, uma pessoa que é de Oxalá, seu orixá individual, é também parte do Oxalá divinizado, com todas as suas características, como um arquétipo.

Essa ligação espiritual indissolúvel entre o indivíduo e seu orixá permitiu que os Iorubá não enfrentassem os mesmos obstáculos que os Fon e os Banto para darem continuidade a seu culto na colônia. Ao trazerem os Iorubá para o Novo Mundo, os mercadores de escravos, sem o saber, transportavam muito mais do que seus olhos podiam ver.

Os Iorubá podem não ser tão antigos e numerosos na colônia quanto os Banto. Podem não ter uma estrutura religiosa tão organizada quanto os Fon. Mas chegaram na Terra de Santa Cruz com toda a força de seu axé.

AXÉ

Dentro da tradição iorubá, a existência se deve à manifestação de uma força chamada Axé. Sem Axé não há a possibilidade de existência e de realização, pois dele decorre todo o processo vital.

Os Orixás representam a personificação das forças da natureza e dos fenômenos naturais. Representam os quatro grandes elementos: fogo, ar, terra e água. Representam ainda os três reinos: mineral, vegetal e animal, além dos princípios masculino e feminino. Tudo isso representa o poder vital.

O axé é parte do Orixá. Essa energia pura interfere também na existência dos seres humanos. No momento em que a pessoa é concebida, seu corpo é criado com a energia predominante de um Orixá. As práticas e rituais da religião iorubá têm por finalidade a sintonia e integração do ser humano com essa energia divina da qual é formado. Ao identificar a força do Orixá e se alinhar com ela, a pessoa consegue que essa força trabalhe a seu favor.

OS ORIXÁS

Obatalá: o pai de quase todos os orixás, criador do mundo e dos homens. Orixá do branco, da paz e da fé. Ele representa claridade, justiça e sabedoria. É o dono da argila da criação.

Exu: orixá guardião dos templos, casas, cidades e das pessoas. Mensageiro divino dos oráculos. Orixá das encruzilhadas e passagens. Ele representa o poder dos ancestrais e encarna a continuidade da vida. Exu tem o dom de estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Move-se através do mundo dos vivos e dos mortos. É o equilíbrio da natureza, sem ele nada poderá ser feito. Exu é malicioso, brincalhão e inteligente, com forte agressividade, coragem, iniciativa e espírito crítico.

Ogum: orixá do ferro e da guerra. É o dono do trabalho. Ele está em tudo onde há tecnologia. Ogum é o próprio progresso. O temperamento de Ogum caracteriza-se pela violência: é extremamente agressivo e impulsivo.

Xangô: orixá do raio, do trovão, da justiça e do fogo. Xangô foi um rei iorubá, sendo imortalizado como o deus do trovão. É um Orixá temido e respeitado, viril e violento. Xangô é inteligente, com boa capacidade de organização e planejamento. Seu grande potencial agressivo é controlado pela razão e direcionado para fins específicos.

Oyá: orixá feminino dos ventos, relâmpagos, tempestade e trovão. Tem a água como elemento, além de estar ligada aos animais e aos espíritos. Como guerreira do panteão iorubá, ela representa o poder feminino. Ela é forte, ágil e agitada como o próprio vento. Quando está enfurecida, pode criar tornados e furacões. É inteligente, agressiva e dominadora, oscilando entre a impulsividade e o controle rígido.

Oxumaré: orixá da chuva e do arco-íris, o dono das cobras. É Oxumaré quem recolhe a chuva que cai na terra e a transforma em nuvens. Portanto, é ele quem regula as chuvas. Está ligado a todos os movimentos que não podem parar. O que inclui o movimento contínuo do universo e dos corpos celestes.

Ossaim: orixá das ervas medicinais e seus segredos curativos. Sua força e poder estão no conhecimento da mistura das folhas. Ele é o guardião de todas as florestas.

Oxóssi: orixá da caça e da fartura. Senhor das florestas, sendo seu habitat natural onde vive e caça. É a divindade da harmonia e do equilíbrio da natureza. Oxóssi é prudente e desconfiado, mas afetuoso. Oxóssi porta o Ofá, um arco e flecha sagrado.

Oxum: orixá feminino dos rios, cachoeira, do ouro, do amor e da fertilidade. É o poder feminino e o princípio da criação. Representa a força das águas dos rios e cachoeiras. Oxum é sensual, inteligente, intuitiva e prática.

Obá: orixá feminino das águas revoltas dos rios. Guerreira, usa um escudo e o Ofá (arco e flecha sagrado usado por Oxóssi). Obá representa as águas revoltas dos rios. Ela também controla o barro, a água parada, a lama, o lodo e as enchentes. É energética e forte, considerada mais forte que muitos Orixás, vencendo na luta Oxalá, Oyá, Oxumaré, Exu e Orunmilá.

Iemanjá: orixá feminino dos lagos, mares e fertilidade. A deusa do mar e da lua. Ela é o arquétipo de mãe e a provedora de riqueza. Iemanjá é extremamente generosa. Mas, como o oceano, pode ser implacável. Iemanjá é também a guardiã dos segredos que estão escondidos nos oceanos.

Obaluaiyê: orixá das doenças epidérmicas e das pragas, e também da cura. Sua veste é a palha, onde esconde o segredo da vida e da morte. Ao mesmo tempo em que causa as doenças, possui o poder de cura sobre elas.

Orúnmilá: orixá da adivinhação e do destino. É a soma da sabedoria suprema, a vida e a morte, o nascimento da natureza, a visão total do mundo e da existência, estabelecendo normas éticas que irão comandar os homens. Seu culto é diferenciado, pois é reverenciado através de seu oráculo e porta-voz, Ifá.

OS SACERDOTES

Há pessoas que possuem o dom de vivenciar mais intensamente a ligação com seu Orixá. Quando essa predisposição inata é acompanhada de orientação e conhecimento de rituais específicos, a pessoa passa a ter controle da incorporação, tornando possível que o Orixá se manifeste de forma plena. A iniciação permite que o axé seja transmitido ao sacerdote.

Iyalorixá (a sacerdotisa) e o Babalorixá (o sacerdote) são responsáveis pela iniciação dos Iaôs e pelo culto de todo e qualquer orixá.

Iaô: os iniciados. A ideia de casamento místico presente na Costa do Ouro se perdeu entre os Iorubá trazidos à Terra de Santa Cruz. Em seu lugar se sobrepõe a relação de pais e filhos. Os iniciados são filhos ou filhas de Orixás; os sacerdotes são os pais ou as mães dos iaôs. O iaô é uma pessoa escolhida pelo próprio orixá, a fim de que este possa, por meio de transe, manifestar-se no plano físico. A iniciação, que em Oyo dura sete anos, serve para condicionar a pessoa escolhida a entrar em transe no momento desejado, em circunstâncias precisas e muito controladas. O comportamento ritual obedece a um padrão rigoroso.

Pouco a pouco, o orixá adquire o hábito de falar através do iaô. Portanto, ele tem também a missão de transmitir as mensagens que o orixá destina às pessoas, incluindo o próprio iaô. Neste último caso, o orixá transmitirá ordens e conselhos para ele por uma terceira pessoa, que passará o recado quando findado o transe

Essa ligação evolui sem o iniciado se dar conta. Mesmo fora do estado de transe, a personalidade inconsciente do orixá continua a pensar, agir, observar e influir na vida do iaô. Na maioria das vezes, o iniciado não percebe o orixá atuando, controlando sua fisiologia e reforçando sua energia vital. O orixá pode modificar os desejos do iniciado, deixando-lhe recados imperceptíveis. Ao despertar de um sonho, o iaô muda de opinião sem saber por quê.

No fim da iniciação, o iaô pertencerá ao orixá, será seu depositário de força divina, e assim permanecerá até a morte. O que quer que faça e o que quer que pense, jamais poderá desfazer esse vínculo. Com o passar do tempo, suas personalidades entrarão em harmonia.

O dono da cabeça: o iaô deve herdar e reproduzir o seu orixá individual, e pode haver também influência de um segundo orixá. O sacerdote incorpora apenas o seu orixá de origem, o dono da cabeça. A relação com os orixás secundários se dá com base na negociação e troca de favores. Nenhuma oferenda a um orixá secundário poderá ser feita sem que o orixá principal também a receba.

O problema ocorre quando o caráter básico do iniciado não é muito aparente e pode ser modificado através da influência de outro orixá. Um orixá secundário pode procurar impor-se no lugar daquele que é o dono da cabeça. Quando ocorre de um orixá secundário se impor, significa que o iaô passará a incorporá-lo. Caso isso se consolide, o seu verdadeiro orixá passará a persegui-lo. É possível perceber quando isso ocorre na medida em que o comportamento do iniciado difere demais das características de seu suposto orixá principal.

É importante ressaltar que essa diferença nada tem a ver com o gênero. Um orixá masculino ou um feminino pode ser ligado a homens ou mulheres indistintamente.

Inkita: forma de punição na qual o orixá manifesta diretamente a sua cólera, infligindo ele mesmo um castigo a seus filhos. Exemplo: a pessoa entre em transe, seu orixá incorpora e vai pro mato. Ela permanece por lá várias horas e volta toda lacerada, sem lembrar o que aconteceu.

O Culto dos Orixás na Terra de Santa Cruz

O uso de colares, cores, gostos particulares dos Orixás e obrigações, tão meticulosamente observados no Império Oyo, são considerados luxos nessas primeiras décadas no Novo Mundo. O mais importante é a sobrevivência do culto. O maior temor dos sacerdotes é que, caso enfraquecidos pela falta de seguidores, os Orixás atravessem de volta o Mar Oceano e nunca mais retornem.

Os iaôs costumam usar o colar do seu orixá. Simples, feito de um fio só. Porém, muitas vezes os rigores da vida de escravo, particularmente daqueles que trabalham nos engenhos, não permitem que se sigam muitos dos protocolos sacerdotais. A existência de um terreiro no qual praticar o culto, organizado conforme a crença iorubá, por enquanto é apenas uma lembrança das terras africanas. Um sonho a ser materializado apenas nos quilombos.

Os cultos dentro do culto

Dentro do Culto dos Orixás há dois cultos independentes, nos quais o sacerdote não entra em transe: o Culto de Ifá e o Culto aos Eguns. O primeiro inicia os Babalaôs. O segundo, os Ojés.

CULTO DE IFÁ

O Culto de Ifá é um sistema divinatório bastante popular na Costa do Ouro, a ponto de influenciar fortemente a religião Vodum. No Império Oyo, é empregado principalmente nas decisões de cunho religioso ou social.

Babalaô: a iniciação de um sacerdote de Ifá não comporta a perda momentânea de consciência. Não se trata de incorporar Orunmilá. É uma iniciação totalmente intelectual. O Babalawo passa por um longo período de aprendizagem de conhecimentos precisos, uma quantidade enorme de histórias e lendas antigas, cujo conjunto forma uma enciclopédia oral dos conhecimentos tradicionais dos Iorubá.

Durante os anos de iniciação, o Omo-awo (iniciado de Ifá) aprende a usar o Opelé (colar de Ifá). A ele é impedido a mentira, o roubo, a ganância, e o adultério.

Itelodu: “o começo”. Ritual que conclui a iniciação. Serve de impulso para o Babalaô aprimorar suas práticas religiosas, fazer medicinas e utilizar os vários instrumentos adivinhatórios.

Odu: é a marca do destino. Consiste no lançamento de 16 búzios, que permite 256 combinações possíveis. Este lançamento é feito com diferentes técnicas.

Opon-Ifá: tábua sagrada feita de madeira, de diversos formatos, onde são marcados os signos dos Odus e na qual são lançados os búzios, o Opelé ou os Ikins (caroços de dendê).

Opelé: de utilização privativa do babalaô. É um colar composto de oito metades de favas, presas a uma correntinha que se joga sobre a mesa, de modo a cair formando um U, cuja abertura fica colocada diante do adivinho. As favas, ao caírem, formam então 16 palavras ou odus. O babalaô interpreta a resposta de acordo com seus conhecimentos.

Igba-odu: a cabaça da existência. Todo iniciado em Ifá deve ser capaz de olhar para dentro da grande cabaça sem ficar cego ou perder seu equilíbrio. Ela contém uma mistura preparada pelo babalaô e alguns objetos sagrados. Ela representa o mistério oculto que não pode ser revelado. Sua tampa não pode ser removida. Só os iniciados podem vê-la. Apenas aquele que apreendeu todo o conhecimento necessário será capaz de vislumbrar incólume o seu interior.

Iyanifá: é a mulher que se submete a todas as etapas da iniciação. A única exceção aos rituais de iniciação de uma iyanifá é que ela é proibida de olhar a cabaça da existência.

Apetebi: é a esposa do babalaô. Ela pode ter conhecimento ou não da filosofia de Ifá, ou seja, ser uma iyanifá.

CULTO DOS EGUNS

Egum: alma ou espírito de qualquer pessoa falecida, iniciada ou não. Egungun se refere a espíritos de homens importantes iniciados no Culto dos Orixás. Os ancestrais que assumem formas corporais. Genericamente, são os Eguns.

Xangô, ainda em vida, foi o fundador do culto. E foi por ele determinado que as mulheres não poderiam participar do culto, pois este foi criado justamente como vingança contra as Iyámi Ajé, uma sociedade secreta de mulheres. Apenas os espíritos masculinos são preparados para serem convocados em rituais. O culto também mantém relações com Exu e Ossaim, que são cultuados pelos Ojés, os sacerdotes.

O principal objetivo do culto é tornar o espírito ancestral visível, manipular o poder que emana dele e atuar como veículo entre os vivos e os mortos. Ao mesmo tempo, mantém restrito controle na relação com os mortos, mantendo-os isolados dos vivos.

Os Eguns aparecem cobertos por roupas coloridas que permitem perceber uma forma humana. O culto não é de incorporação e sim de materialização. Caso a forma não seja reconhecível, provavelmente se trata de um egum coletivo, guardião da ética e da disciplina, a manifestação mais respeitada e temida.

Mesmo que o Egum não se manifeste fisicamente, sua presença poderá se manifestar só pela voz. A voz do Egum carrega com ela todo o poder dos ancestrais. Feito de pura energia, os Eguns falam de modo curioso. Alguns se expressam por meio de vozes profundas, roucas e cavernosas. Outros falam muito baixo, porém com voz muito aguda.

Awo: o mistério da morte, poder sobrenatural que emana dos Eguns. Indica que a morte e os elementos que são extensões dela (em iorubá, a morte é masculina) não são e nem podem ser conhecidos. Não se sabe, e ninguém deve procurar saber, o que se esconde sob as tiras de pano, pois o segredo é uma existência fundamental no culto.

Ojé: sacerdote do Culto dos Eguns. É o intermediário entre os vivos e os mortos. Responsável por tornar os espíritos visíveis. O ojé não entra em transe e tem uma iniciação distinta do iaô. Ele aprende a lidar com os mistérios da morte e com as relações que daí derivam. O espírito que está sendo chamado não é bom nem mau, mas com ambas as qualidades. Sendo um poder, ele é perigoso se tratado de modo errado. Os ojés são capazes de invocar um Egum em qualquer lugar, de acordo com as necessidades.

Os ojés são iniciados em um segredo que devem manter acima de tudo, e são punidos por um pacto que se dá entre os sacerdotes e os espíritos. Tal pacto é sagrado, imutável e permanente.

Ìsan: vara de mais ou menos 1,60m. É o único meio pelo qual um Egum pode ser encontrado e mantido à distância. O ojé emprega o ìsan para chamar o Egum, para guiá-lo e para despedi-lo. Um ìsan colocado horizontalmente impede o Egum de ir mais adiante. Também pode ser brandido como um chicote. Bater no chão três vezes é invocar o espírito dos mortos.

Eguns na Terra de Santa Cruz

No que diz respeito ao culto de seus antepassados, os Iorubá deveriam enfrentar as mesmas dificuldades que os Banto e os Fon ao se distanciarem de suas terras. Entretanto, sem que ninguém saiba como foi feito, um escravo iorubá conseguiu chegar na capital da colônia junto com seu falecido pai. Em torno deste Egum se formou um grupo de culto. Com o passar do tempo, os Eguns de Ojés mortos na colônia engrossaram a quantidade de Eguns cultuados. Sua prática, no entanto, é bastante limitada. Nenhum branco conhece o culto, e, mesmo entre os Iorubá, poucos sabem da sua presença na Terra de Santa Cruz.

ÌYÀMÍ OXORONGÁ

Ìyámi Agbá: são os mortos do sexo feminino, mas não são cultuados individualmente. Sua energia como ancestral é aglutinada de forma coletiva e representada por Ìyámi Oxorongá. Esta imensa massa energética que representa a ancestralidade coletiva feminina é cultuada pela sociedade Guèlédé, composta exclusivamente por mulheres, e somente elas detêm e manipulam este perigoso poder.

Ogbé Guèlédé: sociedade secreta criada por Obá na qual apenas as mulheres são aceitas. Ao participarem dessas reuniões, as mulheres usam máscaras para não serem reconhecidas e deixam seus seios expostos, para que nenhum homem se infiltre durante as reuniões.

As sociedades de Ìyàmí, na Costa do Ouro, são dirigidas por um conselho de mulheres idosas da aldeia, que é composto também por iniciadas de Oxum, Yemanjá e Oyá. Quando se pronuncia o nome de Ìyàmí Oşorongá, quem estiver sentado deve se levantar, quem estiver de pé fará uma reverência, pois esse é um temível espírito a quem se deve respeito completo.

O pássaro Oxorongá, do Continente Negro, emite um som de onde provém seu nome, e ele é o símbolo de Ìyàmí. As Ìyàmí são as senhoras da vida. Quando devidamente cultuadas, manifestam-se apenas em seu aspecto benfazejo. Não podem, porém, ser esquecidas: nesse caso lançam todo tipo de maldição e tornam-se senhoras da morte. O objetivo da sociedade é exacerbar sua cólera, mas há quem considere que as oferendas feitas em sua homenagem deveriam ser voltadas para aplacá-la.

Ajé: mulheres idosas de poderes extraordinários. Representam a maternidade, fertilidade, fecundidade e a essência da vida. Representam também a imagem persecutória, dominadora e agressiva. Pelo poder procriador, tornaram-se conhecidas como as senhoras dos pássaros, e sua fama de grandes feiticeiras as associou à escuridão da noite. Por isso também são chamadas de Eleye, a Dona do Pássaro, e as corujas são seus maiores símbolos.  São as feiticeiras mais temidas entre os Iorubá. Possuem o poder de se transformar em pássaro. Mulheres-pássaros, senhoras da noite, voam de um lado para o outro levando encantamentos, dores, doenças, misérias, rancor e morte. Ao ouvir seu temido canto, todo ser humano deve proteger-se e agradá-la, pois sua ira é fatal.

O voo de Oxorongá

Não há conhecimento da presença de uma Ìyàmí na Terra de Santa Cruz, embora não seja impossível que uma delas tenha sido capturada e escravizada. É bastante improvável, no entanto, que haja alguma sociedade Guèlédé na colônia, pois as próprias circunstâncias do cativeiro não favorecem a existência de uma sociedade secreta para os próprios negros.

SOCIEDADE OGBONI

No Império Oyo há uma tendência muito forte de formar associações e corporações devido a sua grande extensão de terras. Estas associações são formadas com o interesse comum de proteger a população. A sociedade secreta Ògbóni, a sabedoria da terra, é sustentada pela tradição de ter surgido nos primórdios do reino iorubá. Estão constantemente dedicados aos estudos místicos e serviram de modelo às demais sociedades secretas iorubá. Ela venera a terra como fonte da vida. Sua tarefa é supervisionar e fazer cumprir as leis estabelecidas.

Os Ogboni mediam os conflitos dentro da comunidade quando a autoridade dos governantes se prova inadequada. O poder dessa sociedade varia de reino para reino, mas nenhum assunto de relevância pode ser resolvido sem o consentimento deles. Os Ogboni deliberam sobre quaisquer assuntos de interesse da sociedade. Uma vez tomada a decisão sobre o tema em discussão, não há possibilidade de mudança.

A sociedade Ògbóni se dedica a praticar um dos cultos mais antigos dos Iorubá, baseado na preservação de Onilè (a Terra).  Para os Iorubá, a terra é sagrada porque foi a primeira coisa que Olódùmarè criou. A sociedade ensina como tratar a terra e a melhor maneira de melhorar a sua produção, respeitando o seu poder.

Simbolizando a terra há um buraco com aproximadamente 15 cm de diâmetro no canto dos templos de Ogbóni, que dizem não ter fundo. Ninguém nunca viu esses buracos sendo escavados. Suspeita-se de que são ocorrências naturais e, ao encontrá-los, os membros da sociedade constroem no local um templo. Ou seja, não é o buraco que está no templo, mas o templo é que está no buraco. Anualmente, muitas oferendas são ali depositadas e desaparecem imediatamente.

No entanto, o principal tributo a Onilé é a própria vida, pois na terra repousam os corpos e restos de tudo o que já não vive. Onilé deve ser propiciada sempre, para que o mundo continue a existir.

O Conselho

A sociedade Ogboni é formada por um conselho de anciões composto principalmente por homens, raramente por mulheres. Há um pequeno grupo de mulheres que fazem parte da sociedade, o Erelú. Elas representam os interesses das mulheres da cidade nas reuniões. Internamente, os Ogboni possuem um vocabulário secreto com o qual realizam determinados rituais.

Os Ògbóni mantém um ritual de iniciação baseado num pacto que estabelece e faz cumprir o seu elevado código ético, zelando pelo bom caráter, justiça, verdade, lealdade e proteção.

Iwa: o bom caráter. Para os Iorubá, o caráter do homem vem em primeiro lugar, e dele depende o seu bem-estar na terra. Por esse motivo, o primordial para a Sociedade Secreta Ògbóni é o caráter reto.

Oluwo: o chefe do culto de Ògbóni, o senhor do segredo. O Oluwo é portador do shaki, uma estola que o distingue como detentor de honra e respeito.

Edan: peça que os anciões da sociedade usam na cintura. Esse adereço é uma corrente de cerca de 30 cm. Nas duas extremidades há um pequeno bastão de bronze: um representa o sexo feminino e o outro, o masculino. A sua principal função é proteger contra a feitiçaria, anulando seus efeitos. Ao participarem das reuniões da sociedade, os membros depositam seu Edan no solo para indicar que chegaram a alguma decisão. O Edan é o elo que une a comunidade a Onilé.

A Sociedade Ogboni tem como orixá protetor Oxum. Não só essa relação, como também a relação da terra com os mortos, associa a sociedade com a Geledé e também com o Culto aos Eguns.

Na Terra de Santa Cruz

A Sociedade Ogboni é uma instituição iorubá, que faz parte da estrutura política, social e religiosa dos reinos dessa cultura no Continente Negro. Na colônia, além de serem minoria, os Yorubá estão espalhados como estilhaços nas vilas e engenhos. Ainda que algum Ogboni tenha sido arrastado para o Novo Mundo, dificilmente terá encontrado ambiente propício para o restabelecimento da sociedade nessas terras. Tampouco um propósito para ela.

Published in: on 8 de janeiro de 2019 at 18:23  Deixe um comentário