OS CAMINHOS DE SANTA CRUZ

O governo colonial não se preocupa em construir estradas para carroças ligando as vilas ou realizar grandes obras de infraestrutura. A viagem para o interior, particularmente às regiões montanhosas. representa um enorme sacrifício físico, de tempo, de recursos e dos animais utilizados. A Província de Santa Cruz é praticamente uma terra sem pontes.

Em Santa Cruz há dois tipos de caminhos: aqueles que se originaram a partir dos velhos caminhos nativos, os Peabiru, chamados simplesmente de “caminhos”; e aqueles abertos por colonos, os Caminhos Reais.

Os Peabiru formam uma intricada rede de caminhos por boa parte do continente. Muitos desses caminhos são muito antigos, e nem os nativos têm alguma lembrança de quando e por quem alguns foram construídos. A maioria procura contornar com suavidade os acidentes do terreno, evitando subidas e descidas abruptas. Seguem sempre próximos de rios e áreas de caça abundante. Não possuem nenhum tipo de pavimentação, marcados pelo pisoteio intenso. Têm em média 1,8 m de largura, parcialmente recoberto por uma grama miúda, pálida, macia e farta em sementes pegajosas, chamada de puxa-tripa. Onde essa grama é bem fechada, ela impede o crescimento de outras espécies.

Muitos caminhos, reais ou nativos, não são compostos apenas por trilhas terrestres, mas também por lagos e, principalmente, rios. Essas conexões são marcadas pelas peaçabas, o lugar de desembarque das canoas.

Caminho de São Tomé

Peabiru muito antigo, de oito palmos de largura, com rebaixamento do solo em 40 cm. Em ambos os lados do caminho cresce uma erva que chega até a altura de 1,5 m. Esta erva, mesmo quando queimada, renasce e cresce. Nos seus trechos mais difíceis, o caminho é pavimentado com pedras. Em alguns pontos é possível encontrar inscrições rupestres, mapas e símbolos astronômicos.

Aparentemente, o Peabiru percorre toda a Terra de Santa Cruz de leste a oeste, ligando os dois oceanos. Passa por Santa Maria de Assunção, Piratininga e segue adiante pelo vale do rio Paraitinga. Em seu extremo leste, chega às praias da Capitania da Bahia de Todos os Santos. Para oeste, entrelaça-se com os caminhos incas. A esse Peabiru convergem muitos outros, como aquele que conduz às minas, os que vêm de Paraty e São Vicente atravessando a Serra de Paranapiacaba, e o caminho que segue para Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.

Até a União das Coroas, a trilha além do Planalto de Piratininga foi proibida devido a sua ligação com terras castelhanas. O Governador-Geral temia o contrabando entre as duas colônias. A partir da Vila Nossa Senhora da Ponte de Sorocaba, o caminho se bifurca. Um segue em direção a La Piñeria e, de lá, rumo a Santa Maria de Assunção, que foi usado pelos bandeirantes no passado para atacar as missões jesuíticas e as vilas castelhanas da Província do Guayrá. O outro segue na direção do Forte Albuquerque, conhecido pelos nativos como Caminho da Terra Sem Mal. Ambos se reencontram mais adiante rumo ao Altiplano.

O nome “Caminho de São Tomé”, atribuído aos Jesuítas, deriva do nome dado pelos nativos: Caminho de Sumé. É possível encontrar pegadas gravadas em pedra, às vezes descalças, às vezes de sandálias, que as lendas dizem ser os rastros de Sumé. Impressionados com esse mito, os Jesuítas trataram de aproximá-lo a São Tomé. E muitos padres acreditam mesmo que o Apóstolo tenha chegado de alguma forma ao Novo Mundo e tentado trazer a civilização aos nativos. O que, aos olhos da Igreja, explicaria algumas grandes realizações dos nativos de Santa Cruz, sendo os Peabiru um bom exemplo.

Caminho Geral do Sertão

Esse é o caminho preferencial que os bandeirantes seguem para chegar às minas dos Campos dos Cataguás. O primeiro trecho dele, que segue de Vila de Nossa Senhora do Desterro de Jundiahy até Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, passando por Piratininga, é parte do Caminho de São Tomé. De Vila de Nossa Senhora da Conceição de Paraitinga em diante, o caminho pode ser percorrido pelo rio Paraitinga. Em Guaratinguetá, o caminho segue rumo norte, cortando a Serra da Amanatykyra através da Garganta do Embaú, até chegar à Vila Rica de Albuquerque.

Caminho do Facão

O caminho para os Campos dos Cataguás que parte de Nossa Senhora dos Remédios de Paratiy foi aproveitado de um antigo Peabiru. A primeira vez que os Lusitanos o usaram foi durante a guerra contra os Tupinambás. O primeiro Visconde de Asseca, filho do então governador de São Sebastião, atravessou a serra com 700 lusitanos e 2 mil Tupiniquim. Em 1660, seu filho, também governador, mandou abrir a estrada oficialmente quando Paratiy foi elevada à vila. Apesar da distância até a Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá ser quase a metade da trilha vinda de Piratininga, o caminho é bem mais árduo, e todo feito por terra.

A serra que corta região é a mesma Paranapiacaba que segue junto ao litoral desde as proximidades de Santo Antônio dos Anjos de Laguna até os Campos dos Goitacás. Íngreme e estreito, o caminho leva a um planalto entrecortado de colinas até chegar ao vale. No meio do caminho está o Rancho do Facão, um pequeno ponto de pouso para os viajantes. O vale é apenas um momento de descanso antes de enfrentar a travessia da Serra da Amanatykyra. O percurso total do litoral até as lavras de ouro pode durar cerca de três meses, considerando as necessidades de parada. Em marcha acelerada, sem descansos além do pernoite, pouco mais de 40 dias.

Caminho de Paranapiacaba

Para se chegar do litoral até Piratininga há dois caminhos. O mais antigo é o Caminho de Paranapiacaba. Tendo como origem uma velha trilha tupiniquim, o caminho parte da Vila de São Vicente, atravessa o alagadiço da Fazenda dos Jesuítas e sobe a Serra de Paranapiacaba por uma trilha cheia de curvas. Uma vez no topo, o viajante alcança o rio Tamanduateí e daí o córrego Anhangabaú, que leva a Piratininga. Em circunstâncias normais, o viajante leva dois dias para subir e um para descer. Durante a guerra contra os Tupinambás, este caminho chegou a ser proibido para evitar o ataque dos nativos. Atualmente, é preferido por aqueles que levam muita carga para o planalto, pois seu traçado proporciona uma subida menos íngreme.

O principal inconveniente são os obstáculos que podem aparecer na travessia. É corriqueiro o relato de criaturas que atacam os viajantes, particularmente aqueles que viajam em pequenos grupos. O alto da serra também serve de abrigo para Tupinambás que não querem viver sob o jugo colonial. Não querem mais guerrear, mas atacam as caravanas à procura de ferramentas e alimentos.

Caminho do Padre José

O segundo caminho para atravessar a Serra de Paranapiacaba rumo a Piratininga foi aberto pelo Padre Anchieta em 1554. São duas léguas por água e uma por terra, que podem ser percorridas em três dias, quando em boas condições. O viajante segue de canoa do porto da Vila de Todos os Santos até o pé da serra, onde dorme num tijupar, uma cabana feita de palha. Os Jesuítas não perdem a oportunidade de cobrar pela travessia em suas terras. No dia seguinte, em meio-dia de caminhada chega-se ao cume. O caminho é tão íngreme que às vezes é preciso usar as mãos. Lá do alto é possível contemplar o mar a perder de vista, as enseadas e braços de rio.

Chegar ao alto da serra não melhora muito a situação do viajante. O resto da travessia é marcado por muita lama, e ainda é preciso subir e descer colinas, passando por rios caudalosos de águas gélidas. No terceiro dia, a viagem segue descendo o rio de canoa de casca de árvore com cerca de 20 pessoas, bem próximo da margem, até chegar a Piratininga.

O Caminho do Padre José tem cerca de 65 km. Apesar de mais íngreme e difícil, o governo recomenda este caminho, pois raramente ocorre ataque de nativos ou criaturas. O perigo, no entanto, está oculto. Nativos e criaturas o evitam, e têm motivos para isso, pois lá é o lar de uma criatura sombria, vulnerável apenas aos poderes divinos.

Caminho de Itupava

Até meados do século XVII, o caminho mais fácil para chegar à Nossa Senhora da Luz dos Pinhais era seguir uma trilha a partir de Iguape, seguindo rio Ribeira, aproveitando um antigo Peabiru. Este caminho se conecta mais adiante com o Caminho de São Tomé que atravessa La Piñeria.

É a partir de Iguape que se teve início a ocupação do planalto das araucárias, com o surgimento da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. O imposto do quinto sobre o ouro extraído na região era pago em Iguape, e não em Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá.

Mais ao sul, a partir de Nossa Senhora do Desterro, um outro Peabiru sobe pelo rio Itapocu por uma rota utilizada pelos Castelhanos para chegar até Santa Maria de Assunção.

Entretanto, em 1654 foi finalizado o Caminho de Itupava, que liga diretamente Rosário de Paranaguá à Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. O caminho cruza rios, corta a mata e sobe a Serra de Paranapiacaba. Os bandeirantes, com a ajuda dos Cariós, aproveitaram um antigo e esquecido Peabiru, muito difícil de ser transposto, com trechos íngremes e escorregadios, e o transformaram na principal ligação do planalto com o porto. Liga também as duas principais lavras da região: as lavras do rio Cubatão, na planície, e as lavras do rio Arraial, no planalto. Por ter sido construído com recursos dos próprios mineiros, é cobrado um pequeno pedágio para cuidar da manutenção da via.

Caminho dos Currais do Sertão

O vale do rio São Francisco encontra-se ocupado até seu médio curso, prevalecendo em suas margens a criação de gado. O objetivo inicial desses colonos era abastecer as cidades do litoral, uma vez que os engenhos do nordeste não produzem alimentos. Para isso contam com o incentivo do Governador-Geral. Com a descoberta das minas, um novo mercado se abre para os criadores. Eles sobem o rio até encontrar a barra do rio Guaimií, por onde sobem até chegar às minas. Por esta rota, além do gado, passam mercadorias, produtos importados, escravos e aventureiros.

Apesar do caminho ser menos acidentado que aqueles do sul, favorecendo a passagem de bois e cavalos, não é uma rota tão fácil. Uma boa parte da travessia é pelo cerrado, com pouca proteção das árvores, o que é amenizado pela proximidade do rio. Por não ser um caminho oficial, e distante de vilas e arraiais, o viajante encontra-se a mercê de ataques de nativos, quilombolas e criaturas das mais variadas. Perto da capital, ao retornarem das minas, estão também sujeitos à ação de bandoleiros. A forma mais segura de percorrê-lo é com a ajuda dos tropeiros.

O Caminho dos Currais não foi aberto a partir de um Peabiru, mas por bandeirantes que desceram o rio São Francisco até a Capitania de Pernambuco. Foi recentemente muito útil no combate à Confederação dos Cariris. Por esse caminho também chegaram os mineiros da capital e de Olinda.

O governo tenta controlar o acesso para evitar o crescente contrabando de ouro. Os caminhos do sul são fortemente fiscalizados, e a rota pelo São Francisco, apesar de mais demorada, permite escapar do peso da tributação. Para evitar o descaminho do ouro, a Coroa procura coibir a sua utilização, limitando-a ao transporte de gado para as minas. Porém, a dificuldade de transportar carga pelas rotas oficiais acaba estimulando o contrabando na área.

O ouro sai dos Campos dos Cataguás ainda em pó, pois a única casa de fundição fica em Tabaybaté. Isso facilita que o ouro seja levado diretamente à capital. Os próprios mineradores usam esse caminho para adquirir cabeças de gado para revendê-las nos arraiais mineiros a preços exorbitantes.

Passos de Anchieta

Na Capitania do Espírito Santo, o Padre Anchieta utilizava um Peabiru de 100 km até a Vila do Espírito Santo. Ele caminhava por quatro dias, percorrendo em média 25 km por dia, boa parte pela areia da praia. É possível encontrar vários poços de água potável abertos pelo próprio padre. Atualmente, o caminho é usado como via de peregrinação até Reritiba, onde se encontram os pertences e os ossos do padre, considerado por muitos como um santo.

Anúncios
Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:56  Deixe um comentário  

CAMPOS DOS CATAGUÁS

A região das minas pertence originalmente à Capitania de São Vicente, mas nenhuma divisão ficara estabelecida após o surgimento da Capitania de Itanhaém. Assim, as lavras são de quem se estabelecer primeiro. Mas uma parte da região, mais a leste, também pertence à Capitania do Espírito Santo, em fronteiras que ninguém seria capaz de definir.

Os Campos dos Cataguás estão separados das capitanias de São Vicente, Itanhaém, São Sebastião e Cabo Frio pela Serra de Amanatykyra e da Capitania do espírito Santo pela Serra do Caparaó. A região é entrecortada por rios que desaguam no rio São Francisco e serras escarpadas e pedregosas. Ao sul, predominam as florestas. Ao norte, o terreno fica mais árido e a vegetação mais baixa.

O principal caminho, conhecido como Caminho Geral do Sertão, começa em Nossa Senhora do Desterro de Jundiaí, passa por Piratininga e chega ao vale do Paraitinga. Um novo caminho continua até a região mineira a partir de Santo Antônio de Guaratinguetá, fazendo um entroncamento com o Caminho do Facão, que segue até Paratiy. O caminho corta a Serra de Amanatykyra e chega ao rio Guaicuí.

Arraial de Ibituruna: fundado pelos bandeirantes em 1694.

Arraial da Barra do Sabarabuçu: a região já havia sido visitada por uma expedição vinda da capital em meados do século XVI, da qual fez parte o padre jesuíta João de Azpilcueta, o primeiro a traduzir a língua dos Tupi. O povoado foi criado mais recentemente, em 1675, por bandeirantes que buscavam esmeraldas na lendária Serra de Sabarabuçu, quando encontraram restos de uma antiga capela. As lendas sobre a serra acabaram se mostrando verdadeiras, mas em vez de esmeraldas ou prata, foi encontrado ouro. No alto da serra, pagando uma promessa, os mineiros ergueram uma rústica capela dedicada a Nossa Senhora da Piedade. É um dos mais populosos da região.

Arraial Santo Antônio de Ouro Branco: um pouco mais ao sul foi encontrado em meio às montanhas um ouro de coloração esbranquiçada. A serra é mais abrupta e de altitudes variáveis. A lavra é mais difícil e até o rendimento do ouro é duvidoso.

Vila Rica de Albuquerque: os bandeirantes encontraram ouro enegrecido aos pés do pico Itakunumi. Rapidamente foram levantados três arraiais, que em 1698 se fundiram como Vila Rica de Albuquerque.

Arraial do Ribeirão da Nossa Senhora do Carmo: do outro lado do Itakunumi, mais ouro foi encontrado, e um novo povoado é erguido por bandeirantes vindos de Tabaybaté.

Missões dos Capuchinhos: na Serra de Amanatykyra há nove missões de padres Capuchinhos entre os Puris e Coropós, formadas após o crescente confronto entre os bandeirantes e os nativos, que acabaram vendo nos padres uma forma de contenção. Entretanto, os métodos dos Capuchinhos são menos suaves que o dos Jesuítas.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:49  Deixe um comentário  

Colônia do Sacramento

O governador de São Sebastião recebeu a visita secreta de um representante da Coroa, determinando a ele a missão de erguer uma fortificação no rio da Prata, na margem oposta a Santa Maria de los Buenos Ayres. Com o apoio de comerciantes da cidade, desejosos de ampliar seus negócios com as colônias castelhanas, o governador montou uma grande expedição ao sul e levou a cabo a missão. A resposta de Castela foi imediata, e logo forças vindas do outro lado do rio, de Santa Maria da Assunção e das missões jesuíticas tomaram a cidade. Seus ocupantes foram levados prisioneiros para Santa Maria de los Buenos Ayres. O Reino de Francia se uniu à Lusitânia nos protestos contra a ação castelhana. Os Castelhanos decidiram recuar e devolver Sacramento aos lusitanos, a fim de evitar um confronto internacional.

A cidade é voltada para o rio, espremida em um cabo fluvial. Uma grossa muralha a separa do interior e da praia que se estende ao norte. Separando as duas entradas, bem no centro da muralha, há uma fortaleza quadrangular que avança para dentro da cidade. No interior da fortaleza situa-se a igreja paroquial, a casa do governador, o hospital real, a residência dos franciscanos, a casa da artilharia, os quartéis e o corpo da guarda principal. O porto fica no norte da cidade, sendo o sul completamente rochoso e a ponta ocidental com muitas pedras, vegetação e uma curtíssima faixa de areia que dá para um paredão de pedra erguido pelos lusitanos.

A cidade encontra-se plena de edificações, com cerca de 90 casas, quase todas ocupadas por militares casados. Fora da muralha, há cerca de 200 casas. Não há propriedade, mas lotes concedidos pelo governador. Os militares ficam com os lotes próximos à cidade, considerados os melhores.

Com a retomada da cidade, já sem o seu fundador, que faleceu de doença na província hispânica, o rio da Prata passou a fazer parte das rotas comerciais que se ligam a São Sebastião. Foram estabelecidas defesas militares e relações comerciais que dão acesso á prata de Potosí e ao couro bovino produzido na região. Entretanto, a falta de uma administração civil levou ao aumento excessivo do poder dos militares. O governo da Colônia do Sacramento é dominado pelo militar de maior patente.

Seis anos após a retomada, teve início a política de povoamento, sendo enviados pela Província de Santa Cruz casais brancos e nativos, mulheres solteiras e oficiais militares. Em 10 anos a população cresceu de 600 a 1000 habitantes. Os novos colonos passaram a explorar intensamente as riquezas pecuárias da banda oriental do rio da Prata.

Os militares correspondem a 30% da população. Somando mulheres e meninas livres, a população feminina não chega a 25%, havendo um pouco mais do que isso de escravos. O resto é composto por homens civis, meninos e nativos.

A força militar consiste em quatro companhias de ordenanças, forças militares a serem convocadas em caso de combate. Em tempos mais tranquilos, cuidam da ordem interna da cidade. As companhias são divididas em duas de solteiros e duas de casados, cada qual comandada por um capitão. As dos solteiros estão divididas entre a cavalaria e companhia dos mercadores. A dos casados não apresentam diferenças entre si.

Alguns civis melhor situados social e economicamente reclamam a composição de uma Câmara Municipal. Também não há juiz, exceto o alfandegário. A centralização é total nas mãos do governador, que pressiona os comerciantes a levantarem fundos para sustentar a tropa. Alguns militares também se dedicam ao comércio.

O contrabando é uma forma de ascensão social e econômica. O contrabando realizado pelos oficiais da alfândega consiste em declarar a entrada de uma quantidade menor do que realmente entra, ou passar mercadorias em remessas de correspondência. Em paralelo, os moradores realizam transações em pequena escala. Os lusitanos trazem escravos negros e tentam vender aos castelhanos. Da colônia lusitana também chegam açúcar, tabaco, aguardente e arroz. Do Velho Mundo, tecidos de algodão ou linho, confecções, objetos de metal. Os produtos produzidos na região são couro, trigo, farinha, queijo e galinha.

O domínio das ilhas de São Gabriel (ilha maior próxima à cidade), Martin García e Las Hermanas (ambas subindo o rio) facilita o acesso dos contrabandistas lusitanos aos canais e enseadas castelhanas. A navegação no Rio da Prata é complicada, pois são águas pouco profundas, com muitos bancos de areia. Os Lusitanos se tornaram especialistas nesse tipo de navegação, e sua superioridade é reconhecida até mesmo pelos Castelhanos. Para os barcos de nações estrangeiras cruzam o oceano, navegar no Prata uma tarefa quase impossível, a não ser que possuam um navegador lusitano a bordo.

Os negros escravos são usados em Colônia como artesãos, capatazes, cocheiros e em vários serviços domésticos. Requisitados aos aldeamentos da Coroa, os nativos são presença constante nas obras públicas de Colônia, principalmente na construção das fortificações. Há três anos, o governador pediu o envio de sessenta nativos de São Sebastião para trabalharem na restauração das muralhas, pois considerava impossível dar início à obra só com o trabalho dos soldados que, além do serviço militar, tinham de garantir o próprio sustento. Também pesavam razões econômicas, pois os soldados não fariam o serviço por menos de um tostão diário, enquanto que aos nativos se costuma dar a metade desse valor.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:47  Deixe um comentário  

CAPITANIA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DE PARANAGUÁ

A criação da Capitania da Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá em 1660, com uma única e pequena vila que antes pertencia à Capitania de Itanhaém, foi uma provocação da Coroa lusitana a seus vizinhos ibéricos. A criação de uma capitania nessas circunstâncias só poderia significar expansão. E para onde? Cananéia, a alguns quilômetros litoral acima, ainda fazia parte de Itanhaém. Só restavam então as terras castelhanas. De fato, trinta anos depois, a fundação de mais quatro vilas, uma no interior e três descendo a costa, não podia ser coincidência. Até vir o golpe final: a fundação de Colônia do Sacramento.

A costa da nova capitania é ainda mais estreita e acidentada que a de Itanhaém e São Vicente. Só na baía de Guaraqueçaba, onde foi erguida a primeira vila, a planície ganha maior extensão, ultrapassando os 90 Km. Descendo a costa, só é possível adentrar o continente a partir dos vales dos rios a partir da baía da Babitonga, e volta a se alargar um pouco na lagoa de Upava.

A Serra de Parapiacaba prossegue desafiadora até depois de Upava, separando o litoral, povoado pelos Cariós, das terras dos Guayanás, que habitam o planalto. Próximo à vila de Nossa Senhora do Rosário, a serra chega a apresentar picos de mais de 1800 metros. A mata que a cobre é basicamente a mesma, só mudando de aspecto após a travessia, quando surgem os pinheiros, que fez o interior ser conhecido como La Piñería.

Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá

Em 1550, os lusitanos de São Vicente foram atraídos para o local devido a notícias de que haveria ouro na Ilha de Cotinga, localizada na baía de Guaraqueçaba. Até então, não havia discussão que as posses lusitanas se estendiam até Cananéia. Já a Ilha de Cotinga parecia ser território castelhano, mas a Coroa hispânica não questionou a ocupação, deixando implícito que este seria o limite entre as duas colônias. Hispânia não ignorou a toa: o ouro de Cotingo era de aluvião, ralo, sem muito atrativo. Em 1570, vieram os primeiros povoadores da vila, que só foi consolidada em 1644, após as descoberta de ouro nos rios da Serra Negra, que desaguam na baía.

Nossa Senhora da Luz dos Pinhais

Novos boatos de metais preciosos além da muralha natural que se ergue para além de Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá levou a uma pequena corrida para a região em 1654. Os bandeirantes levaram consigo Cariós em condição de escravos. Apesar da proibição, a obediência às determinações da Coroa era pouco observada na região, uma vez que a própria legalidade do povoamento era duvidosa. Em 1693, o povoado virou vila, mas não passa de um amontoado desordenado de casas. A mineração é pouco proveitosa e os mineradores aos poucos vão migrando para os Campos dos Cataguás.

A ligação entre Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora da Luz dos Pinhais é feita pelo Caminho de Itupava, um antigo peabiru. Seguindo o rio Nhundiaquara e transpondo a íngreme muralha verde, chega-se ao planalto.

São Francisco do Sul

Em 1503, um navio franco aportou na baía da Babitonga, em uma grande ilha que toma conta de toda a entrada da baía. Os Francos fizeram amizade com os Cariós e, ao partirem, o capitão levou o filho do cacique, com a missão de conhecer mais sobre esse estranho povo branco. O capitão prometeu retornar, mas não obteve financiamento para uma nova viagem. Decidiu então adotar o jovem nativo e criá-lo como um filho, dando a ele uma boa educação. Em 1515, os Castelhanos chegaram à baía de Babitonga, chamando a grande ilha da região de San Francisco. Em 1553, devido a uma tempestade, um navio castelhano busca refúgio no local e lá fica por dois anos. Fazendo amizade com os Cariós, erguem uma capela e algumas choças, constituindo o povoado de San Francisco de Mbiaza. Dois anos depois, a pequena vila é atacada por piratas bretões. A maioria decide fugir rumo a Santa Maria da Assunção. Outros permanecem e se mesclam aos nativos, dando origem a uma tribo mestiça.

Em 1641, um grupo vindo de Nossa senhora do Rosário de Paranaguá fundou o novo povoado. Mas só em 1658 o arraial se consolida, quando chega um lusitano com o firme propósito de colonizar a ilha, plantar, criar gado e fundar uma vila. Sua determinação e firmeza de caráter garantiram que São Francisco do Sul se tornasse uma vila próspera. Mas, atualmente, seus habitantes se veem aterrorizados pela crueldade e violência do capitão-mor, chamado pelo povo de Cabecinha, no cargo desde 1686. Apesar de ser um administrador de visão, não pensa duas vezes antes de usar a violência para impor sua vontade. Arbitrariedades, trabalhos forçados, assassinatos se tornaram comuns na ilha. Sua última obra, capaz de atrair a atenção dos Ouvidores, foi colocar um padre em uma canoa na maré vazante com apenas uma porção de peixe seco. E pelo crime de não ter aceitado enterrar o filho do capitão debaixo do altar mor da igreja matriz. O povo da vila afirma que o fantasma do padre assombra a ilha.

Nossa Senhora do Desterro

Em 1673 começou o povoamento da Ilha de Santa Catarina pelos lusitanos. A ilha é habitada pelos Cariós e já servia como ponto de parada e abastecimento para as naus que seguem rumo ao rio da Prata. Por tais razões, é mais frequentada por Castelhanos do que por Lusitanos. A ilha é separada do litoral pelo estreito de Y-Jurerê-mirim, que forma duas baías, ao norte e ao sul do estreito, que protegem as embarcações das fortes tormentas daquelas águas.

Santo Antônio dos Anjos de Laguna

Entre 1538 e 1548, os Franciscanos tentaram catequizar os Cariós. Seus esforços foram aniquilados por um ataque de bandeirantes vindos São Vicente a procura de escravos nativos. Outro bandeirante, com propósitos mais nobres, fundou um povoado no local em 1676, na entrada da lagoa de Upava. Por enquanto, não passa de um grupamento de casas de pau-a-pique cobertas de palha, sem sequer um padre para realizar casamentos e batizados. Sua posição é estratégica, tendo como finalidade alargar os limites da fronteira com as terras hispânicas.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:46  Deixe um comentário  

CAPITANIA DO ESPIRITO SANTO

A Capitania do Espírito Santo se encontra entre a Capitania da Bahia de Todos os Santos e a Capitania Real de Cabo Frio. Sua capital é a primeira vila fundada na região, a Vila do Espírito Santo.

Ao sul da capital, o litoral, onde vivem os Temininós, apresenta falésias e muitas praias entrecortadas por pontas rochosas, com presença de alguns lagos. Na medida em que se avança para o interior, o relevo bastante ondulado e irregular segue até as altas serras habitadas pelos Goitacás. Estas serras não formam a mesma muralha densa de Paranapiacaba. Os rios da região sulcam os vales abrindo caminho pelas altas montanhas, sendo o principal deles o rio Itapemirim.

Ao norte da Vila do Espírito Santo, as terras litorâneas são mais vastas, e o caminho para o interior é menos íngreme e acidentado. Subindo o rio Watu, é possível alcançar a região das minas, mas é preciso passar pelas terras dos Aimorés, expulsos do litoral após sangrentas batalhas, há mais de um século, com a ajuda dos Tupiniquins vindos do norte, que buscavam ocupar a região. As altas árvores da região fazem lembrar aquelas da Grande Floresta. As praias são bastante extensas, prosseguindo em uma constante faixa de areia por muitas léguas, sendo interrompida apenas pela foz dos rios.

Os antigos donatários, os fidalgos da Família Coutinho, decidiram vender a capitania em 1674. Dom António Luís Coutinho, quando herdou as terras, era Almotacé-Mor do Reino, título de grande prestígio, e achou por bem passar adiante suas terras para alguém que de fato se dedicaria a revigorá-la, um herói de guerra lusitano chamado Francisco Gil de Araújo, que a arrendou por 40 mil cruzados. Posteriormente, Coutinho, com todo o seu prestígio junto ao Rei, viria a ser o antecessor do Governador Lencastre como Governador-Geral da Província de Santa Cruz. Atualmente é o Vice-Rei das Índias. O novo dono reergueu a capitania e restaurou os combalidos fortes para proteger a entrada da baía onde fica a Vila do Espírito Santo, antigamente alvo fácil dos piratas. Após sua morte, em 1687, seu filho não se interessou em vir para Santa Cruz. Em seu lugar, enviou para governá-la o Capitão-Mor João Velasco Molina, que busca povoar os sertões da capitania.

Os colonos da capitania sempre tiveram dificuldades de se estabelecer devido à resistência de Goitacás e Aimorés, o que a tornou, por muitas décadas, a capitania mais isolada de todas. Com o burburinho causado pelas notícias vindas dos Campos dos Cataguás, os colonos logo se apressaram em encontrar um caminho para lá. Afinal, o Capitão-Donatário Francisco Gil havia tentado exaustivamente, mas sem sucesso, encontrar pedras ou metais preciosos nas serras da capitania.

Mas uma ordem do Governo-Geral Lencastre serviu como um balde de água mais fria do que aquela encontrada nas cachoeiras da Serra do Caparaó: por razões de segurança, nenhuma estrada poderá ser construída entre os Campos dos Cataguás e a capitania.

Vila do Espírito Santo

Em 1535, a Vila do Espírito Santo foi fundada às margens de uma estreita baía por seu donatário, que chegou à praia de Piratininga com 60 homens. A região era disputada por três grupos nativos quando os Lusitanos chegaram: Aimorés, Goitacás e Tupis. Como se não bastasse esse infortúnio, a região também era disputada por Neerlandeses e Francos. Assim, em 1551, o governo da capitania decidiu transferir a vila para um local mais protegido, na grande Ilha de Guanaani, então batizada de Ilha de Santo Antônio, na outra margem da baía. E assim surgiu Vila Nova do Espírito Santo, sendo a anterior conhecida como Vila Velha.

Em 1558, o frei franciscano Pedro Palácios, de origem hispânica, desembarcou na praia de Piratininga com a missão de erguer uma ermida no alto do morro. A ermida levou bem mais de um século para se tornar o imponente Convento da Penha, reinando absoluto na paisagem da baía, equilibrando-se sobre as pedras.

Nesse meio tempo, em 1592, a vila sofreu o ataque de corsários britânicos. Em 1625 e 1640, vieram os Neerlandeses. O novo donatário da capitania mandou recuperar os dois fortes que defendem a baía, postos em ruínas pelos ataques anteriores: Forte São João, na ilha; e o Forte de São Francisco Xavier de Piratininga, na Vila Velha.

Fazenda Itapemirim

Em 1539, um colono decidiu se estabelecer na foz do rio Itapemirim, onde Temiminós habitavam a estreita faixa litorânea. No entanto, o interior era tomado pelos Goitacás, de forma que ao fazendeiro só coube agradecer pelo relevo acidentado que o mantinha a salvo do interesse dos nativos. Entretanto, com as primeiras notícias de ouro no interior, algumas expedições resolveram explorar as formosas serras e seus vales abruptos, e chegaram à conclusão de que o melhor caminho a seguir seria o rio Itapemirim. Assim, a vida pacata da Fazenda Itapemirim, erguida sobre um pequeno promontório de costas para o mar e voltada para o rio, começou a mudar.

Vila de São Matheus

Em 1544, náufragos chegaram à ilha de Guriri, subiram o rio Kiri-Kerê e formaram um povoado sem nome. Mas a vida ali não era nada fácil, pois a região era dominada pelos Aimorés. Em 1558, ocorre a terrível Batalha do Kiri-Kerê. Com a derrota para os Aimorés, as forças lusitanas tiveram de recuar para a Vila do Espírito Santo. Posteriormente, o Governador-Geral enviou uma nova frota que promoveu uma matança e empurrou os Aimorés rio acima. Muitos combatentes acabaram permanecendo no povoado do Kiri-Kerê. Em 1566, Padre Anchieta reza uma missa no local e batiza o povoado de Vila de São Matheus.

Vila de Nossa Senhora da Conceição

A Vila de Nossa Senhora da Conceição foi fundada em 1554, num porto natural na barra do rio Kiri-Kerê, no início da campanha lusitana contra os Aimorés. Não sabiam os Lusitanos que naquela margem do rio vivia uma pequena aldeia pacífica, que há alguns anos havia abrigado e incorporado náufragos Castelhanos. Essa aldeia decidiu ajudá-los na campanha contra os Aimorés, que eram também seus inimigos. Seu posicionamento estratégico tornou a vila parada preferencial dos navios vindos do norte. E logo ela se tornou a maior vila no norte da capitania.

Aldeia dos Reis Magos

A Aldeia dos Reis Magos foi a primeira redução jesuítica erguida na Capitania do Espírito Santo, em 1557, junto ao rio Apiaputanga, por ordens do Governador-Geral. O lugar se revelou problemático por ser área de confronto entre Tupiniquins e Aimorés. Contra todas as expectativas, a aldeia se mantém de pé até hoje.

Reritiba

A redução jesuítica de Reritiba foi fundada em 1561 pelo mais importante missionário da Companhia de Jesus em terras lusitanas. Responsável pela Paz de Iperoig e a fundação de Piratininga, de origem hispânica, ex-Provincial da colônia, Padre Anchieta passou seus últimos dez anos entre os Temiminós, na aldeia que se encontra no alto de uma colina na foz do rio Reritiba, que forma um porto natural e é abundante em ostras.

Após a morte do jesuíta, os nativos passaram a considerar todos os pertences pessoais do padre como sagrados, principalmente seus ossos, alegando serem artefatos de grande poder. Os Jesuítas precisaram usar todo a sua habilidade diplomática para levar o corpo de Anchieta até Vila Nova do Espírito Santo, a fim de enterrá-lo no Colégio de São Tiago, o qual ele mesmo ajudara a construir.

Curiosos com a adoração dos missioneiros, os Jesuítas tentaram estudar os objetos a fim de verificar se havia alguma verdade na lenda, mas foram expulsos pelos nativos cristãos. O Provincial da colônia decretou que todos os Jesuítas deveriam respeitar a vontade dos seguidores de Anchieta, alegando que valia mais a pena conservar o ardor religioso dos Temiminós do que arriscar perdê-los em nome de investigações teológicas.

Porém, doze anos depois, por ordem do Superior Geral da Companhia, os ossos de Anchieta foram enviados à catedral da capital da província e, secretamente, seu fêmur foi encaminhado a Roma.

Vila de Santa Maria de Guaraparim

Fundada em 1585, também por Padre Anchieta, a Aldeia de Santa Maria de Guaraparim se dedicava à catequese dos Temiminós. Em 1677 foi construída a Igreja de Nossa senhora da Conceição, abrindo caminho para, dois anos depois, a aldeia ser elevada à vila. A vila está localizada ao sul da Vila do Espírito Santo, em uma pequena colina junto ao mar, na entrada de um estuário que se assemelha a uma estreita baía, repleta de manguezais. Em seu litoral, a praia revela uma estranha areia enegrecida.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:43  Deixe um comentário  

CAPITANIA REAL DE CABO FRIO

Com a expansão do norte da Capitania de São Sebastião, em 1616 a Metrópole decide criar a Capitania Real de Cabo Frio, submetida ao Governo-Geral e independente de São Sebastião. O crescimento da região ficou na expectativa do resultado das campanhas contra os Goitacás a partir de 1630, que acabou expulsando essa tribo das terras baixas. Os sete capitães que lideraram as lutas contra os temidos nativos foram presenteados pelo governador com imensas sesmarias. A área entre o litoral e Serra de Paranapiacaba se abre numa extensa planície de lagoas, areais, bosques e campos. O rio Paraitinga, ao fazer sua curva em direção ao Mar Oceano, marca o fim dessa serra que se ergue paralela à costa desde o sul da Província. As terras baixas do vale, tomadas dos Goitacás, delimitam a capitania junto ao rio Ykuabapuana, após o qual tem início a Capitania do Espírito Santo. Tais terras se mostraram bastante propícias para o plantio da cana.

Dois caminhos reais ligavam a Banda d’Além à Capitania Real do Cabo Frio. Um costeando o litoral. O outro subindo o rio Macacu e depois descendo o rio São João até chegar à capital.

Cidade de Nossa Senhora da Assunção do Cabo Frio

A vasta região de lagos a leste de São Sebastião foi palco da última grande batalha entre Lusitanos e Tupinambás em 1568, quando estes perderam derradeiramente a guerra. A chacina conhecida como a Guerra de Cabo Frio transformou a região em um deserto humano, só perturbado por Goitacás de passagem. Na virada do século, os Francos voltaram a frequentar a região, logo seguidos pelos Neerlandeses, sendo necessário constante monitoramento. O então governador de São Sebastião havia se associado aos Britânicos no contrabando de pau-brasil na área, mas o negócio se viu ameaçado com as ordens da Coroa para que fosse fundada uma vila no local. Com medo de ser descoberto, o governador denunciou a presença britânica no local e liderou a frotas que os expulsou. Em 1615 foi erguido, junto com a vila, o Forte de São Mateus. As terras foram rapidamente distribuídas entre os colonos. Na cidade, seus poucos habitantes se dedicaram à pesca e às salinas naturais. No interior, os fazendeiros se espalhavam, lançando mão cada vez mais de escravos negros. Se a cidade se desenvolvia pouco, os engenhos de cana-de-açúcar se espalharam pela terra dos Goitacás, dando origem a novos povoados. A cidade, então, começa a crescer com a demanda por sal no Velho Mundo, desembarcado no porto da barra de Araruama. Às margens desta lagoa, há uma serraria de pau-brasil. Os Franciscanos chegam à cidade para construir o Convento de Nossa Senhora dos Anjos, concluído em 1696.

Próximo dali, em uma península entrecortada por praias e encostas rochosas, uma pequena aldeia de pescadores, não mais que umas 20 casas, se vê acossada por contrabandistas Francos e Britânicos. Os caiçaras não têm como (ou mesmo não se interessam em) impedir que os invasores montem sua base em uma das praias. A Coroa decide, então, proibir a pesca em toda a capitania, temendo que a região se torne autossustentável, e tenta refrear a produção de sal para conter o contrabando. Os pescadores e os salineiros decidem ignorar essa determinação. Um pescador da aldeia caiçara é preso e condenado à morte no tronco por ser pego pescando.

Aldeia de São Pedro

Jesuítas e Beneditinos ocupam muitas terras na região, com destaque para a Aldeia de São Pedro, composta por Tupinambás, erguida junto à lagoa de Araruama em 1619. Atualmente, ela conta com mais de duas mil almas, três vezes mais populosa que a capital.

Fazenda Macahé

Seguindo o litoral, em 1634 os Jesuítas montaram uma fazenda agropecuária com o auxílio de nativos catequizados. Na base do Morro de Sant’Ana, junto ao rio Macahé, construíram um engenho de açúcar, que também produz farinha de mandioca e extrai madeira para casas e navios, No alto do morro tem uma capela, um colégio e um cemitério. Os Jesuítas também possuem uma redução na foz do rio Leripe, rico em ostras, onde há uma igreja dedicada a Nossa Senhora da Conceição, um poço de pedras e um cemitério.

Campos dos Goytacás

Por muitas décadas, as antigas terras dos Goitacás foi palco de disputas acirradas. A região foi inicialmente tomada por engenhos de pequeno porte, muitos deles em associação com pequenos lavradores, formando pequenos povoados. Mas os Sete Capitães, entre os quais alguns filhos do governador de São Sebastião, o Visconde de Asseca, tinham outros planos: criar gado. Ambas as empreitadas foram muito bem sucedidas, mas logo se deu o embate entre os poderosos senhores de terra e os lavradores locais. O governo da capitania ficou do lado mais forte. A revolta contra as forças oficiais é liderada por uma senhora de engenho e sua filha. Apesar de evitar confrontar o Visconde, o Governador-Geral não vê com bons olhos o grande poder dos Assecas no sul da Província. Assim, decide elevar o povoado à Vila de São Salvador dos Campos, e, a partir de uma pequena ermida na foz, criar a Vila de São João da Barra do Paraíba, ambas em 1677.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:42  Deixe um comentário  

Vilas do Oeste

Vila da Ilha Grande

Em 1608, o povoado iniciado em 1556 em região outrora repleta de histórias de encontros entre brancos e Tupinambás é reconhecido como vila. Situada em uma verdejante angra a oeste de São Sebastião, seu porto é protegido por dezenas de ilha, entre as quais se destaca a Ilha Grande que dá nome à vila.

Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty

Um pequeno povoado teve início junto às margens do rio Perequê-Açu no final do século XVI. A transformação da vila, em 1670, foi permitida com a condição de que os nativos da região não fossem molestados. O porto de Paraty se revelou mais estratégico do que o da Vila da Ilha Grande devido a um antigo Peabiru que liga a região ao vale do rio Paraíba, atravessando a Muralha Verde. Com o incremento das lavras de ouro no interior, este caminho tem se mostrado o meio mais rápido de se chegar até lá desde a costa. Apesar da travessia íngreme, a trilha tem a vantagem de evitar a perigosa Serra da Bocaina, que se ergue por detrás da Vila da Ilha Grande, onde se esconde o vale dos temidos Acritós. Assim, mercadorias com destino às lavras chegavam primeiro em São Sebastião e depois seguiam a Paraty. Os governos de Itanhaém e São Vicente desejam recuperar o domínio sobre Paraty, que já fora antes um povoado vicentino. Assim, eles terão controle tanto sobre a fundição quanto sobre a saída do ouro.

Aldeia de São Francisco Xavier de Itinga

Por iniciativa dos filhos do primeiro Visconde de Asseca, vários Cariós apresados no sul foram aldeados nos limites da Fazenda Santa Cruz, de propriedade dos Jesuítas. A aldeia acabou sendo encampada pela Companhia. Atualmente conta com cerca de 300 almas.

Nossa Senhora da Guia de Mangaratiba

Aldeia de Tupiniquins trazidos do Nordeste, administrada por particulares supostamente ligados ao Visconde de Asseca. Diz-se que a aldeia de Itinga foi engue aos Jesuítas em troca da manutenção do caráter privado da aldeia de Mangaratiba.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:41  Deixe um comentário  

Banda d’Além

Vila Real da Praia Grande

Em 1567, o líder dos Temiminós que lutaram ao lado dos Lusitanos na guerra contra os Francos e os Tupinambás decidiu ocupar a margem leste da baía, onde foi erguida a vila jesuítica São Lourenço dos Índios. Aos poucos, ao redor da missão, muitos Lusitanos ergueram suas casas e formaram a Vila Real da Praia Grande, próxima à Fortaleza de Santa Cruz, construída em 1555 para ajudar a defender a entrada da baía.

Com o crescimento da vila, a aldeia de São Lourenço foi minguando, chegando ao fim do século com pouco mais de cem almas. Muitos migraram para a aldeia de São Barnabé, com cerca de 400 nativos de origem temiminó e tupinambá, mais ao norte.

Seguindo pelo litoral, às margens da lagoa Maricaha foi fundada a fazenda São Bento por monges beneditinos.

Freguesia de Magepemerim

Fundado por colonos lusitanos em 1566 e elevada a freguesia em 1696, a vida local gira em torno do porto que faz ligação com São Sebastião e escoa toda a produção do fundo da baía. Nesse porto, inclusive, aportam alguns navios negreiros.

Freguesia de São Gonçalo de Amarante

A freguesia foi criada em 1644 junto à fazenda jesuítica de Colubandê, ao norte de São Lourenço dos Índios. Os engenhos da região desenvolveram uma próspera produção de cachaça. Em 1660, o governador aumentou a taxa sobre o produto para aparelhar suas tropas. Seguiu-se uma revolta dos senhores de engenho da região, que levou à deposição do governador. Mas o Visconde de Asseca já havia contornado situações piores. Em poucos meses reuniu forças em São Vicente e conseguiu dar fim à revolta.

Vila Santo Antônio de Cacerebu

Localizada às margens do rio Macacu, nome de uma árvore da qual se extrai tinta, a freguesia foi criada em 1647, após a expulsão dos Puris, tornando-se em vila em 1697. O termo da vila abrange seis léguas de cada margem do rio, descendo da vila, aos pés da serra, até a sua barra, nos fundos da baía.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:40  Deixe um comentário  

Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro

O paraíso dos Tupinambás foi primeiramente explorado pelos Francos, que lá tentaram se estabelecer em 1555. Só então os Lusitanos se preocuparem em ocupar o território. Expulsar os Francos não foi tão difícil, mas os Tupinambás, que a eles se aliaram, ofereceram grande resistência, em uma guerra que durou sete anos. A cidade fundada em 1565 era apenas um aldeamento de pau a pique à beira mar. Com o final da guerra, os colonos se transferiram para o alto do Morro do Castelo. O núcleo urbano pouco cresceu nas primeiras décadas, mas a quantidades de fazendas, engenhos, roças compensou com sobras a simplicidade de suas construções. Com o crescimento dos canaviais, a capitania cresceu e a cidade cresceu junto. Seu porto é parada obrigatória aos navios que partem para o sul da Terra de Santa Cruz, o que atraiu também a visita de piratas até o final do século passado. Ladeada por duas baías, cercada e entrecortada por altas montanhas, a cidade, que abriga uma exuberante natureza, é ao mesmo tempo benção e desafio àqueles que nela vivem.

Em São Sebastião os edifícios são pouco elevados em ruas voltadas para o mar e as casas não possuem encantos. Entretanto, as pedreiras da região permitem que haja muitas construções sólidas. As ruas são verdadeiros esgotos a céu aberto, onde animais domésticos fazem suas coisas e os tonéis de dejetos são despejados pelos escravos.

A paisagem é dominada pelos morros do Castelo (ocupado pelos Jesuítas), São Bento (ocupado pelos Beneditinos), Santo Antônio (ocupado pelos Franciscanos) e da Conceição (ocupado pelos Capuchinhos francos). Entre eles, a rua Direita, a rua da Vala e a rua da Misericórdia. Há uma fortaleza com canhões aos pés do Morro do Castelo e um centro comercial aos pés do Morro de São Bento, animado por embarcações vindas do rio da Prata e São Paulo de Loanda.

O núcleo urbano conta com quinze igrejas. Na parte baixa da cidade, sobressaem o Convento do Carmo e a Igreja da Cruz dos Militares. A Ermida da Nossa Senhora da Candelária foi erguida em 1609, na rua Direita, por um casal lusitano, em agradecimento por terem sobrevivido ao quase naufrágio da embarcação Candelária. Mais afastada, no alto de uma pedra que domina a parte norte da baía, encontra-se a Capela de Nossa Senhora da Penha, erguida em 1635 também em agradecimento por ter o senhor daquelas terras sobrevivido ao ataque de uma serpente. Aos poucos a igreja vai ganhando fama de santuário milagroso.

O perfil da cidade é basicamente rural. Os trapiches são encarregados de armazenar o açúcar que chegam dos engenhos. Ao longo do Caminho do Catete, um antigo Peabiru, olarias abastecem a cidade com tijolos e telhas. A Cadeia Pública e a Casa da Câmara, ainda em construção, desceram o Castelo e se instalaram no Largo do Carmo, em frente ao porto onde são desembarcados os negros escravos. Entre o porto e o morro de São Bento fica a Praia do Peixe, lugar de atracação de canoas e venda de peixes. Alguns pescadores são muito bem sucedidos.

Na Ilha de Paranapuã há um estaleiro para fabricar galeões e fragatas. Em frente à ilha, no continente, pequenas embarcações ficam ancoradas para escoar o açúcar que desce pelo rio Irajá, navegável e repleto de vida. Ao longo desse rio foram erguidos os primeiros engenhos da cidade. Ali, no interior, onde antes ficava a aldeia tupinambá Eraîá, foi erguido um entreposto, o Paço do Irajá, para onde convergem vários caminhos e de onde sai o açúcar levado até a baía.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:39  Deixe um comentário  

CAPITANIA REAL DE SÃO SEBASTIÃO

A região era inicialmente parte da Capitania de São Vicente, mas ficou completamente abandonada, à disposição dos Franceses. Após a guerra contra os Francos e seus aliados Tupinambás, foi fundada a Cidade de São Sebastião. Então a Coroa tomou para si a administração da nova capitania, separando-a de São Vicente. Mais tarde, a capitania foi novamente desmembrada, dando origem à Capitania Real do Cabo Frio.

A atual capitania se limita à Cidade de São Sebastião e seu entorno, encontrando seus limites ao norte no vale do rio Paraitinga, ao qual se chega após transpor a íngreme Serra de Paranapiacaba. A oeste, as terras são frequentemente disputadas pelas capitanias de Itanhaém e São Vicente. As poucas vilas e povoados ali existentes se espremem entre a muralha verde da serra e o entrecortado litoral de enseadas e ilhas.

Para leste, após atravessar a baía, encontra-se a fértil Banda d’Além, que se estende até a região de lagos que marca o início da Capitania Real do Cabo Frio.

A viagem de São Sebastião para a capital da província é dificultada pelos ventos contrários que sopram entre setembro e março. Os lusitanos desenvolveram uma técnica para conseguir fazer o percurso nessas condições, ou os colonos teriam morrido de fome no século XVI.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:38  Deixe um comentário