OS CAMINHOS DE SANTA CRUZ

O governo colonial não se preocupa em construir estradas para carroças ligando as vilas ou realizar grandes obras de infraestrutura. A viagem para o interior, particularmente às regiões montanhosas. representa um enorme sacrifício físico, de tempo, de recursos e dos animais utilizados. A Província de Santa Cruz é praticamente uma terra sem pontes.

Em Santa Cruz há dois tipos de caminhos: aqueles que se originaram a partir dos velhos caminhos nativos, os Peabiru, chamados simplesmente de “caminhos”; e aqueles abertos por colonos, os Caminhos Reais.

Os Peabiru formam uma intricada rede de caminhos por boa parte do continente. Muitos desses caminhos são muito antigos, e nem os nativos têm alguma lembrança de quando e por quem alguns foram construídos. A maioria procura contornar com suavidade os acidentes do terreno, evitando subidas e descidas abruptas. Seguem sempre próximos de rios e áreas de caça abundante. Não possuem nenhum tipo de pavimentação, marcados pelo pisoteio intenso. Têm em média 1,8 m de largura, parcialmente recoberto por uma grama miúda, pálida, macia e farta em sementes pegajosas, chamada de puxa-tripa. Onde essa grama é bem fechada, ela impede o crescimento de outras espécies.

Muitos caminhos, reais ou nativos, não são compostos apenas por trilhas terrestres, mas também por lagos e, principalmente, rios. Essas conexões são marcadas pelas peaçabas, o lugar de desembarque das canoas.

Caminho de São Tomé

Peabiru muito antigo, de oito palmos de largura, com rebaixamento do solo em 40 cm. Em ambos os lados do caminho cresce uma erva que chega até a altura de 1,5 m. Esta erva, mesmo quando queimada, renasce e cresce. Nos seus trechos mais difíceis, o caminho é pavimentado com pedras. Em alguns pontos é possível encontrar inscrições rupestres, mapas e símbolos astronômicos.

Aparentemente, o Peabiru percorre toda a Terra de Santa Cruz de leste a oeste, ligando os dois oceanos. Passa por Santa Maria de Assunção, Piratininga e segue adiante pelo vale do rio Paraitinga. Em seu extremo leste, chega às praias da Capitania da Bahia de Todos os Santos. Para oeste, entrelaça-se com os caminhos incas. A esse Peabiru convergem muitos outros, como aquele que conduz às minas, os que vêm de Paraty e São Vicente atravessando a Serra de Paranapiacaba, e o caminho que segue para Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.

Até a União das Coroas, a trilha além do Planalto de Piratininga foi proibida devido a sua ligação com terras castelhanas. O Governador-Geral temia o contrabando entre as duas colônias. A partir da Vila Nossa Senhora da Ponte de Sorocaba, o caminho se bifurca. Um segue em direção a La Piñeria e, de lá, rumo a Santa Maria de Assunção, que foi usado pelos bandeirantes no passado para atacar as missões jesuíticas e as vilas castelhanas da Província do Guayrá. O outro segue na direção do Forte Albuquerque, conhecido pelos nativos como Caminho da Terra Sem Mal. Ambos se reencontram mais adiante rumo ao Altiplano.

O nome “Caminho de São Tomé”, atribuído aos Jesuítas, deriva do nome dado pelos nativos: Caminho de Sumé. É possível encontrar pegadas gravadas em pedra, às vezes descalças, às vezes de sandálias, que as lendas dizem ser os rastros de Sumé. Impressionados com esse mito, os Jesuítas trataram de aproximá-lo a São Tomé. E muitos padres acreditam mesmo que o Apóstolo tenha chegado de alguma forma ao Novo Mundo e tentado trazer a civilização aos nativos. O que, aos olhos da Igreja, explicaria algumas grandes realizações dos nativos de Santa Cruz, sendo os Peabiru um bom exemplo.

Caminho Geral do Sertão

Esse é o caminho preferencial que os bandeirantes seguem para chegar às minas dos Campos dos Cataguás. O primeiro trecho dele, que segue de Vila de Nossa Senhora do Desterro de Jundiahy até Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, passando por Piratininga, é parte do Caminho de São Tomé. De Vila de Nossa Senhora da Conceição de Paraitinga em diante, o caminho pode ser percorrido pelo rio Paraitinga. Em Guaratinguetá, o caminho segue rumo norte, cortando a Serra da Amanatykyra através da Garganta do Embaú, até chegar à Vila Rica de Albuquerque.

Caminho do Facão

O caminho para os Campos dos Cataguás que parte de Nossa Senhora dos Remédios de Paratiy foi aproveitado de um antigo Peabiru. A primeira vez que os Lusitanos o usaram foi durante a guerra contra os Tupinambás. O primeiro Visconde de Asseca, filho do então governador de São Sebastião, atravessou a serra com 700 lusitanos e 2 mil Tupiniquim. Em 1660, seu filho, também governador, mandou abrir a estrada oficialmente quando Paratiy foi elevada à vila. Apesar da distância até a Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá ser quase a metade da trilha vinda de Piratininga, o caminho é bem mais árduo, e todo feito por terra.

A serra que corta região é a mesma Paranapiacaba que segue junto ao litoral desde as proximidades de Santo Antônio dos Anjos de Laguna até os Campos dos Goitacás. Íngreme e estreito, o caminho leva a um planalto entrecortado de colinas até chegar ao vale. No meio do caminho está o Rancho do Facão, um pequeno ponto de pouso para os viajantes. O vale é apenas um momento de descanso antes de enfrentar a travessia da Serra da Amanatykyra. O percurso total do litoral até as lavras de ouro pode durar cerca de três meses, considerando as necessidades de parada. Em marcha acelerada, sem descansos além do pernoite, pouco mais de 40 dias.

Caminho de Paranapiacaba

Para se chegar do litoral até Piratininga há dois caminhos. O mais antigo é o Caminho de Paranapiacaba. Tendo como origem uma velha trilha tupiniquim, o caminho parte da Vila de São Vicente, atravessa o alagadiço da Fazenda dos Jesuítas e sobe a Serra de Paranapiacaba por uma trilha cheia de curvas. Uma vez no topo, o viajante alcança o rio Tamanduateí e daí o córrego Anhangabaú, que leva a Piratininga. Em circunstâncias normais, o viajante leva dois dias para subir e um para descer. Durante a guerra contra os Tupinambás, este caminho chegou a ser proibido para evitar o ataque dos nativos. Atualmente, é preferido por aqueles que levam muita carga para o planalto, pois seu traçado proporciona uma subida menos íngreme.

O principal inconveniente são os obstáculos que podem aparecer na travessia. É corriqueiro o relato de criaturas que atacam os viajantes, particularmente aqueles que viajam em pequenos grupos. O alto da serra também serve de abrigo para Tupinambás que não querem viver sob o jugo colonial. Não querem mais guerrear, mas atacam as caravanas à procura de ferramentas e alimentos.

Caminho do Padre José

O segundo caminho para atravessar a Serra de Paranapiacaba rumo a Piratininga foi aberto pelo Padre Anchieta em 1554. São duas léguas por água e uma por terra, que podem ser percorridas em três dias, quando em boas condições. O viajante segue de canoa do porto da Vila de Todos os Santos até o pé da serra, onde dorme num tijupar, uma cabana feita de palha. Os Jesuítas não perdem a oportunidade de cobrar pela travessia em suas terras. No dia seguinte, em meio-dia de caminhada chega-se ao cume. O caminho é tão íngreme que às vezes é preciso usar as mãos. Lá do alto é possível contemplar o mar a perder de vista, as enseadas e braços de rio.

Chegar ao alto da serra não melhora muito a situação do viajante. O resto da travessia é marcado por muita lama, e ainda é preciso subir e descer colinas, passando por rios caudalosos de águas gélidas. No terceiro dia, a viagem segue descendo o rio de canoa de casca de árvore com cerca de 20 pessoas, bem próximo da margem, até chegar a Piratininga.

O Caminho do Padre José tem cerca de 65 km. Apesar de mais íngreme e difícil, o governo recomenda este caminho, pois raramente ocorre ataque de nativos ou criaturas. O perigo, no entanto, está oculto. Nativos e criaturas o evitam, e têm motivos para isso, pois lá é o lar de uma criatura sombria, vulnerável apenas aos poderes divinos.

Caminho de Itupava

Até meados do século XVII, o caminho mais fácil para chegar à Nossa Senhora da Luz dos Pinhais era seguir uma trilha a partir de Iguape, seguindo rio Ribeira, aproveitando um antigo Peabiru. Este caminho se conecta mais adiante com o Caminho de São Tomé que atravessa La Piñeria.

É a partir de Iguape que se teve início a ocupação do planalto das araucárias, com o surgimento da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. O imposto do quinto sobre o ouro extraído na região era pago em Iguape, e não em Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá.

Mais ao sul, a partir de Nossa Senhora do Desterro, um outro Peabiru sobe pelo rio Itapocu por uma rota utilizada pelos Castelhanos para chegar até Santa Maria de Assunção.

Entretanto, em 1654 foi finalizado o Caminho de Itupava, que liga diretamente Rosário de Paranaguá à Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. O caminho cruza rios, corta a mata e sobe a Serra de Paranapiacaba. Os bandeirantes, com a ajuda dos Cariós, aproveitaram um antigo e esquecido Peabiru, muito difícil de ser transposto, com trechos íngremes e escorregadios, e o transformaram na principal ligação do planalto com o porto. Liga também as duas principais lavras da região: as lavras do rio Cubatão, na planície, e as lavras do rio Arraial, no planalto. Por ter sido construído com recursos dos próprios mineiros, é cobrado um pequeno pedágio para cuidar da manutenção da via.

Caminho dos Currais do Sertão

O vale do rio São Francisco encontra-se ocupado até seu médio curso, prevalecendo em suas margens a criação de gado. O objetivo inicial desses colonos era abastecer as cidades do litoral, uma vez que os engenhos do nordeste não produzem alimentos. Para isso contam com o incentivo do Governador-Geral. Com a descoberta das minas, um novo mercado se abre para os criadores. Eles sobem o rio até encontrar a barra do rio Guaimií, por onde sobem até chegar às minas. Por esta rota, além do gado, passam mercadorias, produtos importados, escravos e aventureiros.

Apesar do caminho ser menos acidentado que aqueles do sul, favorecendo a passagem de bois e cavalos, não é uma rota tão fácil. Uma boa parte da travessia é pelo cerrado, com pouca proteção das árvores, o que é amenizado pela proximidade do rio. Por não ser um caminho oficial, e distante de vilas e arraiais, o viajante encontra-se a mercê de ataques de nativos, quilombolas e criaturas das mais variadas. Perto da capital, ao retornarem das minas, estão também sujeitos à ação de bandoleiros. A forma mais segura de percorrê-lo é com a ajuda dos tropeiros.

O Caminho dos Currais não foi aberto a partir de um Peabiru, mas por bandeirantes que desceram o rio São Francisco até a Capitania de Pernambuco. Foi recentemente muito útil no combate à Confederação dos Cariris. Por esse caminho também chegaram os mineiros da capital e de Olinda.

O governo tenta controlar o acesso para evitar o crescente contrabando de ouro. Os caminhos do sul são fortemente fiscalizados, e a rota pelo São Francisco, apesar de mais demorada, permite escapar do peso da tributação. Para evitar o descaminho do ouro, a Coroa procura coibir a sua utilização, limitando-a ao transporte de gado para as minas. Porém, a dificuldade de transportar carga pelas rotas oficiais acaba estimulando o contrabando na área.

O ouro sai dos Campos dos Cataguás ainda em pó, pois a única casa de fundição fica em Tabaybaté. Isso facilita que o ouro seja levado diretamente à capital. Os próprios mineradores usam esse caminho para adquirir cabeças de gado para revendê-las nos arraiais mineiros a preços exorbitantes.

Passos de Anchieta

Na Capitania do Espírito Santo, o Padre Anchieta utilizava um Peabiru de 100 km até a Vila do Espírito Santo. Ele caminhava por quatro dias, percorrendo em média 25 km por dia, boa parte pela areia da praia. É possível encontrar vários poços de água potável abertos pelo próprio padre. Atualmente, o caminho é usado como via de peregrinação até Reritiba, onde se encontram os pertences e os ossos do padre, considerado por muitos como um santo.

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Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:56  Deixe um comentário