Colônia do Sacramento

O governador de São Sebastião recebeu a visita secreta de um representante da Coroa, determinando a ele a missão de erguer uma fortificação no rio da Prata, na margem oposta a Santa Maria de los Buenos Ayres. Com o apoio de comerciantes da cidade, desejosos de ampliar seus negócios com as colônias castelhanas, o governador montou uma grande expedição ao sul e levou a cabo a missão. A resposta de Castela foi imediata, e logo forças vindas do outro lado do rio, de Santa Maria da Assunção e das missões jesuíticas tomaram a cidade. Seus ocupantes foram levados prisioneiros para Santa Maria de los Buenos Ayres. O Reino de Francia se uniu à Lusitânia nos protestos contra a ação castelhana. Os Castelhanos decidiram recuar e devolver Sacramento aos lusitanos, a fim de evitar um confronto internacional.

A cidade é voltada para o rio, espremida em um cabo fluvial. Uma grossa muralha a separa do interior e da praia que se estende ao norte. Separando as duas entradas, bem no centro da muralha, há uma fortaleza quadrangular que avança para dentro da cidade. No interior da fortaleza situa-se a igreja paroquial, a casa do governador, o hospital real, a residência dos franciscanos, a casa da artilharia, os quartéis e o corpo da guarda principal. O porto fica no norte da cidade, sendo o sul completamente rochoso e a ponta ocidental com muitas pedras, vegetação e uma curtíssima faixa de areia que dá para um paredão de pedra erguido pelos lusitanos.

A cidade encontra-se plena de edificações, com cerca de 90 casas, quase todas ocupadas por militares casados. Fora da muralha, há cerca de 200 casas. Não há propriedade, mas lotes concedidos pelo governador. Os militares ficam com os lotes próximos à cidade, considerados os melhores.

Com a retomada da cidade, já sem o seu fundador, que faleceu de doença na província hispânica, o rio da Prata passou a fazer parte das rotas comerciais que se ligam a São Sebastião. Foram estabelecidas defesas militares e relações comerciais que dão acesso á prata de Potosí e ao couro bovino produzido na região. Entretanto, a falta de uma administração civil levou ao aumento excessivo do poder dos militares. O governo da Colônia do Sacramento é dominado pelo militar de maior patente.

Seis anos após a retomada, teve início a política de povoamento, sendo enviados pela Província de Santa Cruz casais brancos e nativos, mulheres solteiras e oficiais militares. Em 10 anos a população cresceu de 600 a 1000 habitantes. Os novos colonos passaram a explorar intensamente as riquezas pecuárias da banda oriental do rio da Prata.

Os militares correspondem a 30% da população. Somando mulheres e meninas livres, a população feminina não chega a 25%, havendo um pouco mais do que isso de escravos. O resto é composto por homens civis, meninos e nativos.

A força militar consiste em quatro companhias de ordenanças, forças militares a serem convocadas em caso de combate. Em tempos mais tranquilos, cuidam da ordem interna da cidade. As companhias são divididas em duas de solteiros e duas de casados, cada qual comandada por um capitão. As dos solteiros estão divididas entre a cavalaria e companhia dos mercadores. A dos casados não apresentam diferenças entre si.

Alguns civis melhor situados social e economicamente reclamam a composição de uma Câmara Municipal. Também não há juiz, exceto o alfandegário. A centralização é total nas mãos do governador, que pressiona os comerciantes a levantarem fundos para sustentar a tropa. Alguns militares também se dedicam ao comércio.

O contrabando é uma forma de ascensão social e econômica. O contrabando realizado pelos oficiais da alfândega consiste em declarar a entrada de uma quantidade menor do que realmente entra, ou passar mercadorias em remessas de correspondência. Em paralelo, os moradores realizam transações em pequena escala. Os lusitanos trazem escravos negros e tentam vender aos castelhanos. Da colônia lusitana também chegam açúcar, tabaco, aguardente e arroz. Do Velho Mundo, tecidos de algodão ou linho, confecções, objetos de metal. Os produtos produzidos na região são couro, trigo, farinha, queijo e galinha.

O domínio das ilhas de São Gabriel (ilha maior próxima à cidade), Martin García e Las Hermanas (ambas subindo o rio) facilita o acesso dos contrabandistas lusitanos aos canais e enseadas castelhanas. A navegação no Rio da Prata é complicada, pois são águas pouco profundas, com muitos bancos de areia. Os Lusitanos se tornaram especialistas nesse tipo de navegação, e sua superioridade é reconhecida até mesmo pelos Castelhanos. Para os barcos de nações estrangeiras cruzam o oceano, navegar no Prata uma tarefa quase impossível, a não ser que possuam um navegador lusitano a bordo.

Os negros escravos são usados em Colônia como artesãos, capatazes, cocheiros e em vários serviços domésticos. Requisitados aos aldeamentos da Coroa, os nativos são presença constante nas obras públicas de Colônia, principalmente na construção das fortificações. Há três anos, o governador pediu o envio de sessenta nativos de São Sebastião para trabalharem na restauração das muralhas, pois considerava impossível dar início à obra só com o trabalho dos soldados que, além do serviço militar, tinham de garantir o próprio sustento. Também pesavam razões econômicas, pois os soldados não fariam o serviço por menos de um tostão diário, enquanto que aos nativos se costuma dar a metade desse valor.

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Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:47  Deixe um comentário  

CAPITANIA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DE PARANAGUÁ

A criação da Capitania da Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá em 1660, com uma única e pequena vila que antes pertencia à Capitania de Itanhaém, foi uma provocação da Coroa lusitana a seus vizinhos ibéricos. A criação de uma capitania nessas circunstâncias só poderia significar expansão. E para onde? Cananéia, a alguns quilômetros litoral acima, ainda fazia parte de Itanhaém. Só restavam então as terras castelhanas. De fato, trinta anos depois, a fundação de mais quatro vilas, uma no interior e três descendo a costa, não podia ser coincidência. Até vir o golpe final: a fundação de Colônia do Sacramento.

A costa da nova capitania é ainda mais estreita e acidentada que a de Itanhaém e São Vicente. Só na baía de Guaraqueçaba, onde foi erguida a primeira vila, a planície ganha maior extensão, ultrapassando os 90 Km. Descendo a costa, só é possível adentrar o continente a partir dos vales dos rios a partir da baía da Babitonga, e volta a se alargar um pouco na lagoa de Upava.

A Serra de Parapiacaba prossegue desafiadora até depois de Upava, separando o litoral, povoado pelos Cariós, das terras dos Guayanás, que habitam o planalto. Próximo à vila de Nossa Senhora do Rosário, a serra chega a apresentar picos de mais de 1800 metros. A mata que a cobre é basicamente a mesma, só mudando de aspecto após a travessia, quando surgem os pinheiros, que fez o interior ser conhecido como La Piñería.

Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá

Em 1550, os lusitanos de São Vicente foram atraídos para o local devido a notícias de que haveria ouro na Ilha de Cotinga, localizada na baía de Guaraqueçaba. Até então, não havia discussão que as posses lusitanas se estendiam até Cananéia. Já a Ilha de Cotinga parecia ser território castelhano, mas a Coroa hispânica não questionou a ocupação, deixando implícito que este seria o limite entre as duas colônias. Hispânia não ignorou a toa: o ouro de Cotingo era de aluvião, ralo, sem muito atrativo. Em 1570, vieram os primeiros povoadores da vila, que só foi consolidada em 1644, após as descoberta de ouro nos rios da Serra Negra, que desaguam na baía.

Nossa Senhora da Luz dos Pinhais

Novos boatos de metais preciosos além da muralha natural que se ergue para além de Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá levou a uma pequena corrida para a região em 1654. Os bandeirantes levaram consigo Cariós em condição de escravos. Apesar da proibição, a obediência às determinações da Coroa era pouco observada na região, uma vez que a própria legalidade do povoamento era duvidosa. Em 1693, o povoado virou vila, mas não passa de um amontoado desordenado de casas. A mineração é pouco proveitosa e os mineradores aos poucos vão migrando para os Campos dos Cataguás.

A ligação entre Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora da Luz dos Pinhais é feita pelo Caminho de Itupava, um antigo peabiru. Seguindo o rio Nhundiaquara e transpondo a íngreme muralha verde, chega-se ao planalto.

São Francisco do Sul

Em 1503, um navio franco aportou na baía da Babitonga, em uma grande ilha que toma conta de toda a entrada da baía. Os Francos fizeram amizade com os Cariós e, ao partirem, o capitão levou o filho do cacique, com a missão de conhecer mais sobre esse estranho povo branco. O capitão prometeu retornar, mas não obteve financiamento para uma nova viagem. Decidiu então adotar o jovem nativo e criá-lo como um filho, dando a ele uma boa educação. Em 1515, os Castelhanos chegaram à baía de Babitonga, chamando a grande ilha da região de San Francisco. Em 1553, devido a uma tempestade, um navio castelhano busca refúgio no local e lá fica por dois anos. Fazendo amizade com os Cariós, erguem uma capela e algumas choças, constituindo o povoado de San Francisco de Mbiaza. Dois anos depois, a pequena vila é atacada por piratas bretões. A maioria decide fugir rumo a Santa Maria da Assunção. Outros permanecem e se mesclam aos nativos, dando origem a uma tribo mestiça.

Em 1641, um grupo vindo de Nossa senhora do Rosário de Paranaguá fundou o novo povoado. Mas só em 1658 o arraial se consolida, quando chega um lusitano com o firme propósito de colonizar a ilha, plantar, criar gado e fundar uma vila. Sua determinação e firmeza de caráter garantiram que São Francisco do Sul se tornasse uma vila próspera. Mas, atualmente, seus habitantes se veem aterrorizados pela crueldade e violência do capitão-mor, chamado pelo povo de Cabecinha, no cargo desde 1686. Apesar de ser um administrador de visão, não pensa duas vezes antes de usar a violência para impor sua vontade. Arbitrariedades, trabalhos forçados, assassinatos se tornaram comuns na ilha. Sua última obra, capaz de atrair a atenção dos Ouvidores, foi colocar um padre em uma canoa na maré vazante com apenas uma porção de peixe seco. E pelo crime de não ter aceitado enterrar o filho do capitão debaixo do altar mor da igreja matriz. O povo da vila afirma que o fantasma do padre assombra a ilha.

Nossa Senhora do Desterro

Em 1673 começou o povoamento da Ilha de Santa Catarina pelos lusitanos. A ilha é habitada pelos Cariós e já servia como ponto de parada e abastecimento para as naus que seguem rumo ao rio da Prata. Por tais razões, é mais frequentada por Castelhanos do que por Lusitanos. A ilha é separada do litoral pelo estreito de Y-Jurerê-mirim, que forma duas baías, ao norte e ao sul do estreito, que protegem as embarcações das fortes tormentas daquelas águas.

Santo Antônio dos Anjos de Laguna

Entre 1538 e 1548, os Franciscanos tentaram catequizar os Cariós. Seus esforços foram aniquilados por um ataque de bandeirantes vindos São Vicente a procura de escravos nativos. Outro bandeirante, com propósitos mais nobres, fundou um povoado no local em 1676, na entrada da lagoa de Upava. Por enquanto, não passa de um grupamento de casas de pau-a-pique cobertas de palha, sem sequer um padre para realizar casamentos e batizados. Sua posição é estratégica, tendo como finalidade alargar os limites da fronteira com as terras hispânicas.

Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 1:46  Deixe um comentário