DAS CRIATURAS INFERNAIS*

Algumas criaturas infernais parecem ter seguidos os europeus até o Novo Mundo. Outras parecem próprias destas terras. Seres malignos são suscetíveis ao exorcismo e aos encantos divinos, e não podem adentrar solo sagrado.

Cão da Meia‑noite

Trata-se de um enorme cão negro extremamente feroz e da altura de um homem. Suas garras compridas podem dilacerar um homem num instante. De seus olhos desprendem fogo e de sua boca sai chamas curtas. Ele se alimenta de carne humana.

Ele ataca exclusivamente à noite, mas há um único relato de atividade durante dia. Porém, havia uma neblina extremamente espessa que tornava o sol uma abstração.

Sua aparição é atribuída a uma conjuração da criatura com o objetivo de proteger uma fazenda. Para manter o seu serviço, contudo, é necessário oferecer-lhe um homem a cada ano. Caso contrário, deixará de obedecer ao dono. Só pode ser morto se decapitado.

Considerações adicionais: fora a hipótese do fazendeiro ser um bruxo, o dono deste cão infernal provavelmente fez um pacto com o Diabo ou contratou um bruxo para conjurá-lo.

Demônios

Alguns demônios possuem aparência semi-humana, com olhos de serpentes e pequenos chifres na testa. De cor parda, cinzenta ou avermelhada, variam entre 1,50m e 2m de altura. Suas peles são quentes e ásperas, podendo causar queimaduras em contato prolongado. Possuem garras curtas como a dos animais. Estes são os demônios mais comuns, mas há outros com características específicas. Só podem ser mortos por decapitação. É mais fácil exorcizá-los.

Considerações adicionais: demônios são muitas vezes vistos como sendo todos iguais, mas não é bem assim. Eles são um reflexo da humanidade, com uma grande variação de tipos.

Diabo

O Diabo tem muitas formas. Homem alto, forte, com pequenos chifres escondidos sob um chapéu negro, vestido com roupas negras. Demônio de pele vermelha e olhos de fogo, com chifres na testa. Um homem bonito e sedutor. Um touro. Um cão. Um anjo.

O Diabo tem vários nomes, não só devido às diferentes culturas, mas também porque o povo evita mencionar o seu nome, com medo de que isso seja uma forma de invocá-lo.

Cada cultura possui uma visão própria da personificação do mal. Para cada uma delas ele aparecerá como é imaginado por aquelas pessoas. Para os Incas, seu nome é Súpay, o Senhor do Caos.

Seja qual for sua aparência ou alcunha, chega para causar complicações, desespero, desilusão, mesmo a morte. Mas nunca atacará de forma direta. Usará seus poderes para iludir, manipular, seduzir, corromper. Só age diretamente em relação àquele que se dispôs a fazer algum tipo de acordo. Se, ao fim, o Diabo levar a alma da pessoa, estará apenas tomando o que é seu por direito.

Considerações adicionais: o Diabo possui um poder infalível, mas sua ação em nosso mundo se evidencia limitada. Por algum motivo, que só pode ser de origem divina, ele não pode agir diretamente sobre as pessoas. Ele precisa, portanto, seduzir a pessoal para o seu lado a fim que possa agir através dela. Além dessa limitação, símbolos e solos sagrados impõem-lhe restrições. O Diabo não resiste a um desafio. Caso perca, o que é difícil, cumprirá fielmente o que quer que tenha prometido. Normalmente, o que o desafiante mais deseja é que o Príncipe da Trevas o deixe em paz. Como qualquer demônio, ele também pode ser exorcizado, o que demanda um enorme esforço mágico.

Famaliá

Infelizmente, uma triste prática do velho continente atravessou o Mar Oceano junto com os colonos: o Famaliá. Os processos conduzidos pela Santa Inquisição descobriram esses pequenos demônios enegrecidos presos dentro de uma garrafa.

Seus proprietários podem ser bruxos ou alguém que com eles aprendeu o ritual que aprisiona o diabinho. Uma vez aprisionado, o demônio deve servir ao seu algoz como um escravo. E, enquanto estiver dentro da garrafa, assim o fará.

O ritual é trabalhoso, mas de simples compreensão para quem não é iniciado em magia negra. Uma vez realizado, tudo o que a pessoa precisa fazer é manter a garrafa em lugar seguro e alimentar o cativo com pó de ferro.

Sobres as vantagens adquiridas por meio dessa prática macabra, é perceptível a bonança que usufrui o proprietário de um Familiá. Seus negócios vão de vento em popa; a colheita é sempre generosa. Contudo, no final e ao cabo, o preço a ser pago será a própria alma.

Considerações adicionais: crime da mais alta gravidade e dos mais atacados pelo Santo Tribunal, não há notícia desses pequenos demônios nas vilas. Também é difícil comprovar a sua ocorrência, pois muito do que se diz a respeito é mais fruto da inveja do que de sortilégio. Mais muito se fala da existência de Familiás no interior, particularmente na região mineira, distante das leis dos homens e das leis de Deus.

Touro Negro

Aqueles que dominam as forças ocultas são capazes de conjurar um enorme touro de cor negra, com olhos e cascos incandescentes e que lança baforadas de fogo de curto alcance.  A criatura é gigantesca, com cabeça redonda, algo entre humana e taurina, ostentando chifres de ouro. Eles solta fumaça pelas ventas e seus bramidos lembram uma trompa.

O Touro Negro corre à noite pelos campos espalhando o medo e a destruição. Não é que ele só apareça nos campos, mas um desfiladeiro ou um pântano são ambientes pouco propícios para sua ação.

Geralmente ele é conjurado para proteger uma fazenda, perseguindo os ladrões de gado implacavelmente, garantindo ao proprietário muita prosperidade. Para que se mantenha nessa função sem causar transtornos para o próprio senhor de terra, será necessário realizar um pacto com o Diabo. Quando o fazendeiro morrer, o Diabo carrega a sua alma e também todo o gado, deixando os pastos vazios.

Nas terras castelhanas, essa criatura maligna é conhecida pelo nome de Touro Súpay.

Considerações adicionais: apesar do caráter protetivo desse touro diabólico, não é incomum sua aparição como besta desgovernada, incendiando e destruindo vilas e plantações. Talvez tais ocorrências sejam provocadas por conjurações amadoras. Como toa criatura demoníaco, é passível de exorcismo. Difícil é manter a concentração ante sua carga mortal.

*Compilação extraída do bestiário de Padre Maurício

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Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 12:36  Deixe um comentário