DOS ESPÍRITOS QUE RONDAM*

Os espíritos abaixo listados são vistos nas regiões habitadas pelos nativos a eles vinculados. Mas é possível que tais espíritos também se manifestem em outras matas e recebam das outras tribos nomes distintos.

Anhangá

O Anhangá é um espírito que protege os animais da floresta contra os nativos que abusarem da caça para destruí-los inutilmente. Com a chegada dos colonos e escravos negros, seu trabalho tem aumentado. Todo aquele que persegue um animal que amamenta corre o risco de ver o Anhangá.

Quando se manifesta, este espectro toma a forma física de um animal, adquirindo uma coloração branca e olhos vermelhos como fogo. Por isso ele também pode ganhar diversos nomes, de acordo com a forma animal que incorpora: Miranhanga, Tatu-anhanga, Suaçu-anhanga, Tapira-anhanga, Pirarucu-anhanga. Os lugares que frequenta são mal-assombrados, com forte presença de espíritos e forças astrais.

O Anhangá não devora, nem mata. A sua visão é capaz de trazer a febre e, às vezes, a loucura. Também é de provocar ilusões, fazer que, ao procurar a caça abatida, em vez de encontrar o animal, o caçador veja a própria mãe ou coisas do tipo.

Considerações adicionais: por ser a manifestação de um espírito, é possível que este ser possa ser combatido com exorcismo. Entretanto, é importante não confundir o espírito protetor da caça, Anhangá, com os Anhangas, as entidades maléficas que habitam as matas, dedicadas a capturar as Angueras, as almas tupis que tentam alcançar a Terra Sem Mal. É possível que o Anhangá seja um Anhanga mais preocupado com o que acontece no mundo dos vivos do que com as almas que percorrem o reino dos mortos.

Angaba

Angaba é a assombração das matas da Serra de Paranapiacaba. Poucos tiveram a oportunidade de vislumbrá-la, e a descrevem como uma sombra viva que se funde à escuridão da noite. Alguns afirmam que tem a forma humana.

Quando chegaram aos Campos de Piratininga, os Jesuítas tomaram a sombra maligna por Jurupari, uma entidade cultuada pelos Tupis. Mas em alguns anos o equívoco se mostrou evidente. Os nativos temem a criatura mais do que os colonos, que, na verdade, pouco a conhecem e até mesmo duvidam de sua existência. E suas aparições também parecem ser restritas a determinados locais, sendo um deles o caminho do Padre José.

Sua natureza maligna parece ser atraída pela luz da vida, a alma humana. Durante o sono, Angaba se aproxima do corpo da vítima e parece a estrangular. Contudo, exatamente como uma sombra, a criatura não tem consistência, não tem matéria, e os golpes e tiros apenas golpeiam o ar.

O Angaba parece ser sensível à luz intensa e padres atestam a efetividade do exorcismo. Mas ou existem muitos Angabas ou o exorcismo apenas o espanta por alguns dias, pois ele sempre há de reaparecer na mesma área.

Considerações adicionais: como uma sombra poderia estrangular uma pessoa? Talvez não seja o ar que falte ou a garganta que lhe aperte, mas os gemidos de dor e sofrimento sejam da alma que lhe está sendo tirada do corpo.

Añás

Añás são almas dos Guaranis que tiveram má sorte, por suicídio ou agonia prolongada, transformando-se em espíritos de natureza maligna.

Assim como os Anhangás, esses espíritos são capazes de tomar a forma física de um animal em particular, mas não para proteger a caça, e sim para prejudicar a vida dos homens. Porém, eles não podem se se manifestar ou agir nas aldeias e vilas, pois sua força está diretamente ligada à floresta, fora da qual não possui energia para manter sua forma física.

O rei dos Añás chama-se Añá-Tumpa, inimigo de Tupã e senhor do submundo.

Boyguasu-Tumpa é um añá que possui forma de serpente e castiga aqueles que se submetem às leis do submundo e não a obedecem, atravessando-os com uma flecha invisível. A flecha provoca enfermidade e morte, que só pode ser evitada por magia.

Considerações adicionais: segundo os Tavyterã, os Añás podem ser exorcizados e mantidos afastados com o fogo. Diferentemente do Anhangá, cada Añá está vinculado a apenas uma forma animal, cada qual com uma característica especial, enquanto os Anhangás são todos iguais. É possível que haja alguma conexão dos Añás com os Angües, as almas guaranis impedidas de adentrar a Terra Sem Mal e encontrar seu repouso. Os Angües tentam continuamente invadir o Paraíso dos Guaranis. Talvez os Añás tenham sido Angües no passado, que desistiram de entrar na Terra Sem Mal e migraram para o submundo.

Kerpimanha

Para os Tupis, Kerpimanha é a origem dos sonhos, um espírito mensageiro enviado pelos Criadores. Os nativos a descrevem como uma velha bondosa que desce do céu e entra no coração deles, permitindo que alma vague mundo afora, só voltando ao despertar.

Quando a alma retorna, encontra um recado deixado por Kerpimanha. Quando não há recado, a pessoa recorda de seu voo noturno como um sonho. Quando há mensagem, as lembranças dessas andanças se apagam e o recado se torna a lembrança do sonho. O problema é saber qual é qual.

Considerações adicionais: sem a Kerpimanha, o corpo esfriaria durante o sonho e a alma não retornaria. Será que esse espírito se relaciona apenas com os Tupis ou pode se relacionar também com nativos de outra tribos ou mesmo com os colonos?

Yaguareté-Jhi

O Yaguareté-Jhi surge quando uma onça negra é possuída pelo espírito de um homem bom e nobre que foi assassinado. O objetivo dessa possessão é vingar a morte. O espírito do morto terá pleno domínio do corpo da onça e consciência de suas ações. Ao atingir seu objetivo, o espírito deixará a onça e partirá deste plano. Nada o impede de desistir da vingança e seguir seu caminho mesmo assim.

Considerações adicionais: apesar de inteligente, a onça não fala. Mas talvez seja possível identificar a alma humana dentro do corpo de onça de alguma forma. Segundo os pajés, é possível conversar com o Yaguareté-Jhi em uma viagem astral. E, como se trata de uma possessão, talvez seja possível exorcizá-la.

*Compilação extraída do bestiário de Padre Maurício

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Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 12:34  Deixe um comentário