PERSONAGENS ESPECIAIS*

Estes personagens devem ser interpretados com cautela e com o objetivo de enriquecer a história. Eles são especiais e devem ser tratados como tais. Pode ser também que algum jogador queira fazer um personagem de uma das classes especiais (espera-se que não seja o Compactado). Isso pode ser arriscado. É aconselhável fazer isso só com um jogador experiente e que interprete muito bem seus personagens. E que o grupo também participe desta decisão.

DOS COMPACTADOS

Alguns bruxos fazem pacto com o Diabo com o intuito de aumentar seus poderes e, assim, sua malignidade. O Tribunal do Santo Ofício os classifica como Compactados.

O mais importante é ter em mente que ninguém se torna bruxo com o pacto. É preciso já sê-lo para convocar Satanás e negociar a alma com ele. Sempre a alma, pois não há nada mais valoroso que uma pessoa possa lhe entregar. Por isso, ao morrer, o cadáver desaparece entre nuvens de enxofre e ruídos infernais.

Apesar de conservar o aspecto humano, o bruxo se torna mais demônio do que gente. Além dos feitiços que já domina, o Compactado pode fazer crescer garras nas mãos, ganha força e resistência sobre-humana. Sua pele é capaz de queimar ao toque, caso assim o desejar. Possuem grande poder, que parecem recuperar rapidamente e crescer a cada dia. Os padres que os combaterem alegam ter grande resistência a alguns encantos, exceto ao poder da fé divina.

Considerações adicionais: a considerar verdadeiros os relatos vindos de Nova Castela, esses bruxos adquirem fortuna facilmente e se inserem na vida social dos fidalgos com muita habilidade e traquejo, não despertando suspeitas e agindo com bastante discrição. O que os torna ainda mais perigosos.

DAS PESSOAS ABENÇOADAS

Algumas pessoas nascem com a benção divina, poderes especiais que, ao mesmo tempo lhes concedem uma graça, também lhes impõem um pesado fardo.

Adivinho

O Adivinho já nasce com dom de prever o futuro, mas este permanece latente até que ele seja atingido por um raio. A partir deste evento fortuito e aparentemente traumático, pois o raio não lhe fará mal e nem lhe deixará marcas, ele começará ter visões de eventos futuros. Contudo, não terá o menor controle sobre o seu poder. Ele não terá visões quando bem entender e sequer sobre os assuntos que desejar.

Considerações adicionais: reza a lenda que o Adivinho, ainda no seio da mãe, sinaliza estar marcado pela sina adivinhatória ao chorar demasiado. É possível que seu poder se manifeste com tamanha força que a torrente de visões provoque uma excruciante agonia em uma mente incapaz de compreender o que ocorre. Para a própria sobrevivência, tais visões podem ser bloqueadas e só reativadas por um outro evento igualmente traumático. Seria o raio o único evento possível?

Estigmata

Estigmas são marcas que reproduzem as cinco chagas de Cristo, manifestadas fisicamente de formas variadas, como ulcerações, chagas e queimaduras, nos cinco pontos do corpo pelos quais Jesus teria sido pregado à cruz: pés, punhos e no peito.

Aqueles que porventura nascem no mesmo dia e hora em que ele foi crucificado recebem a graça do poder da cura e ostentam tais marcas, sendo conhecidas como Estigmatas. Quando exercem seu poder, que nunca falha, as feridas se abrem e começam a sangrar.

Considerações adicionais: os Estigmatas são pessoas geralmente pacíficas e sempre de boa índole, mas costumam ser tratados como santos e geralmente se encontram incapacitados de levar uma vida comum, sendo usados em nome da fé. Como seu poder desperta ainda na tenra infância, antes mesmo de poderem compreender o que ocorre com seu corpo e a sua volta, são crianças sofridas, que muita vezes confundem a graça com maldição.

Saludador

Aquele que nasce na Sexta-Feira Santa, na mesma hora da morte de Jesus, ostenta no corpo a marca de uma cruz. Seu hálito e sua saliva possuem poderes curativos. A saliva cura feridas, enquanto o hálito, soprado para dentro da boca ou narina da pessoa, pode curar doenças. São conhecido como Saludadores, os benzedores ou curandeiros.

Considerações adicionais: a lenda é pouco conhecida e nem sempre a cruz é aparente. Assim, a pessoa ou seus familiares podem descobrir seu poder tardiamente, ou talvez nunca descobri-lo.

Zaorís

Alguns homens nascidos na sexta-feira da Paixão, mas nem todos, possuem o poder de ver através das coisas. Os tesouros enterrados, monstros escondidos, um veio de ouro etc. Nada está oculto para eles. Seus olhos possuem um brilho especial, misterioso, inconfundível.

O primeiro desses homens abençoados a ser descoberto vivia no Levante, onde recebeu o nome de Zaorí. Inicialmente, acreditava-se que os Zaorís viam e conversavam com espíritos, e estes lhes contavam a localização daquilo que está escondido dos olhos dos vivos. Muito depois foi revelado o seu verdadeiro poder.

Mas a benção do Zaorí vem com um fardo: seu poder não pode ser exercido em seu próprio benefício. O Zaorí jamais encontra tesouro para uso próprio, ele sempre reverte em benefício alheio. Tal restrição não ocorre por algum tipo de punição divina, mas pela própria natureza de um Zaorí. Eles são irrecuperavelmente desapegados, distantes, indiferentes, desinteressados, praticamente desprovidos de ambições e emoções fortes.  Seu olhar é sempre vago. Costuma andar sujo e esfarrapado, arrastando em passos lentos seu corpo franzino.

Considerações adicionais: o surgimento de um Zaorí permanece um enigma. Sabemos que ele nasce no mesmo dia que o Saludador e o Estigmata, mas certamente não no mesmo horário, tampouco no mesmo dia do ano. Talvez não seja a benção que forme a personalidade, mas o oposto. Tampouco se sabe em que idade ou circunstância seu poder se manifesta, pois um Zaorí nunca fala de si ou de seus sentimentos.

DAS PESSOAS LONGEVAS

Pelos quatro cantos do mundo nos deparamos com histórias de pessoas que viveram muito além de um homem normal, ou que caminha pela Terra há eras. Pessoas que que, aparentemente, possuem o dom da vida eterna. No próprio Livro Sagrado temos vários exemplos, como Seth, Metusalah, Mahalaleel, Enoch.

Mas a origem da maioria dessas lendas é desconhecida, e muitas vezes sua presença. Sua própria existência é envolta em mistérios insondáveis. Tampouco é possível dizer se há alguma ligação entre eles ou se trata de fenômenos isolados. Seriam eles parte de uma raça de imortais? Ou pessoas que receberam a graça da longevidade ou da vida eterna? Alguns relatos parecem mesmo retratar um ser indestrutível, capaz de retornar da morte como quem acorda após uma longa noite de sono.

As andanças pela Terra de Santa Cruz revelam ao menos três personagens que parecem se enquadrar nesse seleto e intrigante grupo.

Bacharel

Na segunda expedição lusitana à Terra de Santa Cruz, em 1502, um pequeno grupo de degredados foi deixado na ilha onde hoje se encontram as vilas de São Vicente e Todos os Santos. Na verdade, esse mesmo grupo foi responsável pelo levantamento de um povoado chamado São Vicente. Entre eles estava um personagem polêmico chamado Cosme Fernandes, de cuja origem nada se sabe. Conta-se que Fernandes teria se juntado a castelhanos para atacar São Vicente e que seria o responsável pela origem da vila de Cananéia. Entrou para a história com a alcunha de Bacharel.

A história desse personagem já seria por si só interessante, não fosse o fato de que, no auge do comércio e contrabando dos lusitanos no rio da Prata, um tal de Bacharel não fosse responsável pelo serviço de reparos a embarcações estrangeiras no porto de Cananeia. E, poucas décadas mais tarde, Bacharel também era a pessoa encarregada da casa de fundição erguida em 1653 na vila de Iguape.

Considerações adicionais: em 1650, o comandante do Forte Albuquerque se chamava Ruy Garcia. Ora, este nada mais é do que o mesmo nome do castelhano que, oficialmente, comandou o ataque a São Vicente, supostamente acompanhado do Bacharel. Ruy Garcia era uma figura misteriosa e mostrava um conhecimento anormal da região, da Terra de Santa Cruz e seus mistérios.

Recentemente, detalhes sobre a vida de João Ramalho, pivô da ocupação dos Campos de Piratininga e da aliança construída entre Lusitanos e Tupiniquins, chegaram ao conhecimento da Companhia de Jesus. A fonte de tais relatos não foi identificada, mas a precisão e a riqueza de pormenores indica sua veracidade. João Ramalho chegara a São Vicente junto com Cosme Fernandes.

Há indícios de que o conhecido comerciante de escravos Damião Hernandes seja o Bacharel. Mas ele desfila com a segurança de que qualquer menção a esse fato seria tratado como loucura.

Sumé

Os nativos relatam a presença de um homem branco no continente muito antes da chegada dos Castelhanos. Conhecido por Sumé entre os Tupis, esse homem, em diferentes idades, caminhou por todo o Novo Mundo ensinando técnicas e artes, e ditando regras morais para os habitantes.

Conforme a lenda, Sumé foi amado, aceito, odiado e atraiçoado. Muitas vezes foi perseguido por pajés que não aceitavam sua intromissão nos assuntos espirituais da tribo. Sumé haveria caminhado sobre as águas do mar, dando as costas a uma chuva de flechas que vinham em sua direção, mas que subitamente retornaram na direção dos flecheiros. Quatro pegadas suas, com a marca dos dedos bem definidas, estão registradas nas pedras da barra do rio.

Expulso da região, Sumé reapareceu no altiplano, sendo conhecido por lá com o nome de Tonapa. Com barba, magro, andando com um bastão, expulsou os demônios da região e pregou o amor ao próximo numa época entre a queda de Tiahuanaco e o surgimento dos irmãos Ayar. Da mesma forma, encontrou a resistência dos sacerdotes locais, que o amarraram em três grandes pedras a fim de lança-lo no lago. Mas três águias baixaram do céu e o libertaram. Tonapa, então, dirigiu-se a Copacabana, navegando sobre seu manto. As plantas aquáticas, as totoras, abriam a sua passagem.  Onde pousava os pés, deixava pegadas impressas na rocha. Onde repousava, esculpia a forma de um corpo. Na Ilha do Sol fez brotar uma fonte de água santificada. Foi, então, novamente aprisionado por sacerdotes e expulso pelos mesmos motivos de sempre. Partiu andando sobre as águas do Titicaca.

Considerações adicionais: mais do que um sábio, Sumé possui um vasto poder mágico, dominando uma variedade de encantos. Tais características fizeram os primeiros Jesuítas a aqui chegarem supor tratar-se do apóstolo São Tomé. Ao ouvir tal hipótese, o caraí dos Tavyterã apenas sorriu e soltou uma frase enigmática: “Sumé já caminhava por estas terras quando os Guajáras aqui estavam. Pelo menos foi o que ele me disse, e não tenho motivos para duvidar.” Então, culpando o cauim, nada mais disse.

Vaqueiro Misterioso

Em diversas partes do continente onde há uma grande criação de gado, o viajante certamente ouvirá uma mesma história: um belo dia, montado em um cavalo velho e cansado, chegou à região um vaqueiro mal vestido, humilde, oferecendo seus préstimos em troca de abrigo e um pouco de comida. Sobre ele, ninguém sabe quem é ou de onde vem, e nem interessou perguntar, pois é mais alvo de zombaria do que de curiosidade.

Mas, assim que começa a trabalhar, cerca e encaminha para o curral, sozinho, quase todo o gado. Galopa léguas em minutos, tão rápido é seu cavalo. Mostra-se capaz de imobilizar um touro tão facilmente quanto se prende um novilho antes da ordenha.

Logo se mostra sabedor de segredos infalíveis, além de ser o mais destro e mais hábil cavaleiro de toda a região. É aclamado como herói, desejado pelas mulheres, mas recusa todas as seduções, recebe o pagamento e desaparece, para surgir longe dali em outra fazenda.

Considerações adicionais: o vaqueiro misterioso é conhecido por muitos nomes. Nos currais próximos à capital da província, é conhecido como Vaqueiro Borges.

*Compilação extraída do bestiário de Padre Maurício.

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Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 12:12  Deixe um comentário