COSTUMES COLONIAIS

Caballitos de totora

Frágeis embarcações indígenas de totora prensada, atingindo de 3 a 4 metros, amarrada por cordas. Na proa achatada há uma concavidade para colocar redes e produtos de pesca. O pescador monta na parte central. Quando entra na água, o pescador o leva no ombro, e quando o monta se coloca de joelhos. O caballito é guardado em pé na areia. São insubmergíveis. São necessárias 1.200 plantas e 6 meses de fabricação.

Callejón

Becos e cortiços, onde moram pessoas humildes apertadas em casebres e ruas estreitas. As casas são de cana ou adobe, de um andar. Habitações de um ou dois quartos, sem nenhuma higiene, sem ar, sem luz. Verdadeiros focos de enfermidades onde surgem as grandes epidemias. Dos callejones saem os vendedores ambulantes que infestam as ruas das principais cidades do Vice-Reino. O ponto de encontro dos moradores é na única pileta (pequena fonte de água) do lugar, onde se comentam as novidades.          Os callejones também são famosos por sua musicalidade, de onde saem os melhores violeiros.

Misia Juana: a zeladora, a porteira, a única pessoa a quem se recorre com as queixas diárias, os pedidos de conselho, as súplicas de préstimos e adiamento do aluguel. A misia é uma autoridade. A ela chegam as fofocas em primeira mão. Principal centro de informações, mas longe de ser gratuito.

Jaranas: festas e bailes. Sempre há um convidado de honra, um amigo, um doutor, um compadre do dono da festa, que desfruta da atenção de todos. Não há uma jarana sem confusão.

Corrida de Touros (Touradas)

Acontece na Plaza de Armas (quase toda cidade tem uma), praça principal da cidade, com presença das principais celebridades. A praça e as ruas adjacentes são cercadas e a tourada tem início. Muito popular na colônia, ocorrendo nas principais festas, como na festa de graduação da Universidade de San Marcos.

Educação e Cultura

Só as principais classes recebem instrução em Nova Castela. Os nobres se sentem na obrigação de freqüentar as escolas, mas poucos chegam às Universidades. E raros são os que burlam a proibição de importação de livros e textos e entram no mundo da filosofia e da ciência. A severidade do estudo escolar dá à escola o aspecto de uma prisão. Os nobres, por estímulo do orgulho, vencem a dor de aprender. O sistema de ensino infunde pavor nas crianças, a ponto dos pais ameaçarem seus filhos com a escola. Além da palmatória, os alunos desobedientes são trancados num pequeno calabouço onde há um crânio iluminado por uma vela. Os meninos aprendem catecismo, leitura sacra, matemática, moral, urbanidade, gramática, redação, geografia e História Sagrada. As meninas aprendem a doutrina, urbanidade e trabalhos domésticos, pois se acredita que as mulheres não necessitam de cultura para suas funções sociais.

Ao povo resta a instrução caseira (de pais ou professores particulares), nos conventos ou nas paróquias. A importação de livros tem que passar pela aprovação de um censor do Conselho das Índias e da Inquisição. Os jornais vêm da Metrópole.

A arte colonial é marcada pela literatura, teatro, oratória e música. Na literatura, muitos livros têm sido escritos para contar a história dos incas, histórias da conquista e também diversos dicionários lingüísticos. Os índios também têm grande influência na música e na dança colonial. No teatro, a temática inca tem forte presença. Já existe na colônia uma impressora, voltada unicamente para publicações religiosas ou lingüísticas.

Universidade Nacional de San Marcos: fundada em 1553, em Lima. Todas as ordens religiosas se fazem representar. Matérias: Teologia, Cânones, Leis (Direito Canônico e Direito Romano), Medicina e Matemática. Capacidade para 1.500 estudantes. O Vice-Rei participa da festa de graduação.

Higiene

Sempre há meio século de diferença entre as inovações da Metrópole e sua aplicação na colônia. Afinal, poucos leem, o nível cultural não é dos melhores e as notícias demoram a chegar. A higiene não possui caráter científico, é apenas um luxo das classes altas, não é vista como uma necessidade. Portanto, há acúmulo de lixos nas redondezas, canais abertos em pleno centro da cidade, falta de canalização da água, praga de urubus, falta de banheiros públicos e até mesmo particulares.

Uma diversão comum é a aposta das moscas. Um vendedor de biscoitos coloca sua mercadoria sobre a tábua e as pessoas colocam uma moeda sobre o biscoito de sua preferência. O vendedor, então, espanta as moscas que voam sobre os biscoitos, para depois esperar o seu retorno. Ganha aquele em cujo biscoito a primeira mosca pousar.

Hospitalidade

Nova Castela é famosa por sua hospitalidade. As condições geográficas, o clima por vezes rigoroso, as dificuldades de comunicação e os meios de transporte tornam as viagens verdadeiras aventuras. As distâncias em que se encontram os povoados, o terreno acidentado, a insegurança nos caminhos e os bandoleiros impõem ao viajante a necessidade de se guarnecer durante o pernoite, procurando casas de fazendas. Como a situação é semelhante a todos, criou-se um clima de solidariedade para com o viajante. Jamais é negado o leito ou a mesa. Até as casas dos grandes latifúndios têm sessões adequadas para receber os viajantes.

Medicina

Lima conta com 70 médicos para uma população total de 60 mil habitantes. A maioria é mulato ou negro, pois os nobres acham indigna a profissão de médico e destinam os filhos de seus escravos para aprender. A medicina não é muito desenvolvida, muitas vezes se limitando a cortar, arrancar e queimar. Há três tipos de médico:

médicos: respeitados, que trabalham na Audiência e no Santo Tribunal.

cirujanos: aventureiros do Velho Mundo, enfermeiros criollos, mulatos e negros. Não merecem muito respeito, mas se tem alguma consideração.

barbeiros: abaixo dos cirujanos. Enfermeiros, assistência e primeiro socorros.

médicos indígenas: conhecem todos os métodos curativos de ervas, o que contribuiu muito para a medicina colonial. Também há bruxas, curandeiros e feiticeiros negros, todos perseguidos pela Inquisição.

Hospitais: discriminados. Hospital para branco homem, para branco mulher, para criollos, para índios, para negros, para sacerdotes, para leprosos… cada um com sua própria lei.

Prisões

A alta delinqüência, o crime passional, quase não existe. Só os delitos comuns contra a propriedade ou o patrimônio. As prisões não diferem muito das medievais, com direito a torturas. Algumas prisões não têm pátio, são escuras, a ventilação é feita por tubos e têm apenas um barril para as necessidades e outro com água, apenas para beber. Quando o preso cumpre sua condenação, paga a taxa de carceragem e sai para as ruas sem recursos e nem meios de voltar a sua cidade.

Outros Costumes

Bimestre e a prova: os casais têm direito a dois meses de teste antes de realmente se casar. Cabe apenas ao homem o direito de recusar o casamento. A mulher devolvida às vezes ganha certo prestígio. Em algumas regiões, a mulher mais “provada” é considerada o melhor partido. Nas classes mais pobres, há também o rapto da noiva na véspera do casamento, o que dá a ela mais importância.

Briga de galo: ocorre na Casa de Galos, onde há as galleras (onde se guarda os galos de briga) e uma arena. As lutas são anunciadas em um cortejo: alguém carrega a gaiola com o galo na cabeça, um vai na frente tocando uma corneta e outro com um tambor.

Costumes femininos: se vestem com muito luxo. Quase não saem durante o dia, preferindo a noite, mais atraente. O divórcio é permitido, e até muito usado.

Relógios: os relógios de areia e as clepsidras (relógio de água) são objetos de luxo. O povo se orienta pelo movimento dos vendedores nas ruas. Nos campos e nas montanhas, se orientam pelo sol.

Santos callejeros: pequenas imagens de santos numa urna de cristal que vai de porta em porta com uma caixa de doações. Termina numa festa em homenagem ao santo. O dinheiro, muitas vezes colocado para pedir milagres, é usado em proveito próprio. Algumas são praticamente obrigatórias, como a destinada a celebrar a Semana Santa. As fraudes, quando descobertas, eram bem punidas.

Serviço doméstico: símbolo de riqueza. Alguns casarões chegam a ostentar trinta criados.

Varear la plata: duas vezes por ano, a alta classe espalha as moedas no pátio dos casarões para lavá-las, em dia de sol, para evitar a oxidação. O trabalho é realizado pelos escravos. O barulho das moedas é ouvido pela vizinhança e pelos passantes. Não há bancos na colônia, portanto o dinheiro permanece imobilizado, com cada um cuidando da sua fortuna.

Published in: on 12 de março de 2010 at 1:18  Comments (2)