A INQUISIÇÃO

Quando a Inquisição começou, no século XIII, o Papa confiou a missão à ordem de São Domingos. O Santo Tribunal foi trazido à Nova Castela graças aos esforços dos dominicanos, que organizam os processos e as atividades do Tribunal, mas as outras ordens podem colaborar.

O Tribunal da Inquisição foi estabelecido em 1570. O poder do Santo Ofício, residente em Lima, se estendeu por todas as colônias castelhanas de Santa Cruz. O primeiro auto de fé foi celebrado em 1573. Foi condenado à fogueira um pobre velho protestante que vivia como ermitão numa huaca em Rímac.

Em 1578 foi celebrado o segundo auto de fé, mais festivo, com a presença do Vice-Rei e de toda a Audiência. Eram 16 vítimas, que saíram em procissão com cartazes pendurados no pescoço. Entre eles, seis religiosos, um advogado e um comerciante. Alguns foram condenados a receber duzentas chibatadas, outros foram pra fogueira, e todos tiveram seus bens confiscados.

O seguinte foi celebrado com 20 vítimas, e assim se seguiu, infundindo o terror. Uma acusação, uma simples denúncia (sem responsabilidade para o denunciante) ou um anônimo infame motiva o processo. O réu é arrancado de seu lar, privado de seus papéis e fortuna, e deve, nos salões de tortura, confirmar as denúncias de heresia. A inocência, ou a negativa, multiplica o tormento. Sem poder se defender, ou o réu se confessa culpado (para escapar da dor) ou resiste valorosamente ao inumano martírio. As penas são geralmente a morte na fogueira, a prisão perpétua ou temporária, e chibatadas. Em todos os casos, a Igreja confisca todos os bens do réu.

O Santo Tribunal não tem jurisdição sobre o índio, mesmo no delito de heresia. A maioria dos casos é de bigamia, outras religiões, bruxaria, blasfêmia e proposições contra a Igreja, sendo 5% dos réus membros da própria Igreja Católica. Os inquisidores agem em colaboração com os juízes ordinários. O réu é interrogado sem advogado e muitas vezes é utilizada a tortura.

Não fazem distinção de sexo para escolherem o método de tortura. A duração não pode passar de uma hora. Quando o réu desmaia, há um médico para saber se é real ou fingimento. Então, tem que confessar novamente passado um dia, caso contrário, mais uma sessão. Chega a até três sessões, com espaço de dois dias entre elas. Há casos de resistência física e bravura espiritual. Para a Igreja, a Inquisição sacrifica a poucos para salvar a todos. Para os padres, a Inquisição é um mal necessário e, através dela, acreditam livrar o mundo de uma terrível ameaça.

Métodos de Inquisição

São três os tipos de tortura: a roldana, o potro e o fogo. Para que os gritos não atrapalhem o silêncio reinante e consternem a vizinhança, o réu é levado para um sótão afastado, onde se prossegue com as perguntas.

Roldana: se coloca uma roldana num teto bem alto. Por ela se passa uma corda grossa de cânhamo. No réu, em trajes menores, são colocados grilhões nos pés. Virando os braços às costas, atam as cordas nos pulsos e o puxam para cima. Içam o corpo ao máximo e depois o deixam cair, mas sem deixar que a cabeça ou os pés cheguem ao chão, a fim de que o corpo receba o maior impacto. Dependendo do caso, repetem o processo até doze vezes.

Potro: o réu, em trajes menores, é amarrado de barriga pra cima sobre um cavalo de madeira, atando-lhe os pés, mãos e cabeça, de maneira que não possa se mexer. Dão-lhe oito garrotes: dois pouco acima dos cotovelo e dois nas pernas. Além disso, o fazem beber sete garrafas de água, colocando pouco a pouco sobre uma cinta que lhe metem até metade da boca para que sinta as ânsias de um afogado.

Fogo: colocam o réu com os pés nus sobre um braseiro e passam manteiga na planta dos pés. Quando se queixa muito da dor, colocam uma tábua entre seus pés e o braseiro e fazem uma pergunta. Diante de nova negativa, tiram a tábua.

Autos de Fé

Os autos de fé são anunciados com um mês de antecedência através de pregões, trombetas e tambores. Levantam-se tablados na praça principal. Às seis da manhã, os cidadãos, presididos pelo Vice-Rei ou pelas autoridades locais, se dirigem à casa dos membros do Tribunal para escoltá-los. Então é realizada uma missa, e depois partem para a praça principal numa enorme procissão, levando os condenados. A cruz da catedral, coberta com um véu negro, é carregada por quatro padres.

Os condenados marcham com velas verdes apagadas. Os reconciliados, com as velas acesas. Um chapéu cônico de papel, com quase um metro de altura, sobre a cabeça aludindo, com pinturas sinistras, aos delitos cometidos. Para os blasfemadores é colocada uma mordaça, para os demais uma corda no pescoço.

Quando a procissão chega na praça, um orador faz o sermão da fé e os réus avançam para escutar suas sentenças. Produz-se, então, uma espécie de qualificação: os impenitentes que não se arrependeram de seus crimes marcham para a fogueira, os que se arrependeram vão para a forca, e os reconciliados são absolvidos pelo Primeiro Inquisidor. Às onze da noite se conclui a cerimônia com o acompanhamento dos membros do Santo Tribunal a suas moradas.

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Published in: on 15 de março de 2010 at 1:34  Comments (2)  

ORDENS RELIGIOSAS

As ordens religiosas do Vice-Reinado são: os Dominicanos, os Franciscanos (que chegaram junto com os conquistadores), os Agostinianos (que vieram com o Vice-Rei), e os Jesuítas, últimos a chegar, em 1569.

Agostinianos

A Ordem de Santo Agostinho têm importante atividade missionária e possui grande presença no Altiplano. Segue as idéias de Santo Agostinho, que influenciou a Igreja por toda a Idade Média. Dogmáticos e moralistas, combateram as doutrinas cristãs intermediárias e contribuíram no fortalecimento da Igreja Católica a partir do século IV. Pregam a submissão do Estado à Igreja, o domínio da vontade sobre o corpo e a predestinação. Também assumem a existência dos deuses pagãos, colocando-os como demônios que tentam manipular os homens.

Dominicanos

A Ordem de São Domingos esteve na fundação de Arequipa e tiveram importante atuação na criação do Tribunal da Santa Inquisição e na origem da Universidade de San Marcos, ambas em Lima. Seguem de forma livre as idéias de Santo Agostinho, sendo bem próximos dos agostinianos. Além da atividade como inquisidores, são famosos por seus mosteiros, onde os monges dominicanos se dedicam à vida contemplativa e maravilham os fiéis com seu coral. Os dominicanos possuem uma certa rixa com os franciscanos.

Franciscanos

A Ordem de São Francisco se estendeu e superou as outras ordens, sendo responsável pelo convento de Cusco e inúmeras missões na selva. Os franciscanos cultuam a pobreza, a simplicidade da vida e defendem os índios contra a exploração castelhana e lusitana. Foi a primeira ordem a levar a palavra de Deus até o povo. São pregadores não enclausurados. Usam túnica marrom com um pequeno capuz. Por isso, também são chamados de capuchinhos. A ordem, criada no século XIII, não demorou em se afastar da ideologia de seu fundador. Luxo e posses passaram a ter lugar entre os seus líderes. Porém, sempre há um grupo que permanece fiel aos valores da pobreza, que partem ao interior de Santa Cruz como missionários.

Jesuítas

A Companhia de Jesus chegou com novos métodos. Dependem diretamente do General da Ordem, sem passar pelo Rei. Apesar dos conflitos com autoridades reais, civis e eclesiásticas, sempre gozou do favor da Coroa. Fundam casas e colégios, verdadeiros centros missionários. Atuam na arte, na educação e em obras sociais. Responsáveis pelas primeiras reduções indígenas. É a ordem mais influente da colônia. Criada por um ex-militar, no século XVI, seus integrantes possuem espírito aguerrido e língua ferina. A vida militar de seu fundador influenciou os jesuítas, transformando-os em um exército rigidamente disciplinado. Nas missões na selva, não é raro ver um jesuíta empunhando uma pistola para se defender das criaturas da selva. São grandes estudiosos, pois só assim acreditam poder exercer suas funções. Usam a lógica sem paixão, sempre buscam sólidos argumentos e costumam servir de exemplo. Comprometem-se a ir onde quer que lhes seja ordenado, tornando-se o principal instrumento de expansão da Igreja Católica em todo o mundo. Os jesuítas tomaram a direção da juventude colonial nos grandes colégios. Usam túnica preta.

Published in: on 15 de março de 2010 at 1:32  Comments (2)  

A IGREJA

No início, o objetivo era conhecer os costumes indígenas e conservar aqueles que não impediam a catequese. Os filhos dos curacas passaram a ser educados pela Igreja, pois sempre houve preferência em doutrinar as crianças. Destruíram os ídolos e objetos materiais de idolatria. Demonstraram que os deuses não lhes protegiam. Os sacerdotes e feiticeiros reagiram fortemente e foram isolados. Destruídos os ídolos, restaram os fenômenos naturais, também idolatrados. A religião oficial inca acabou, mas não acabou a religião popular. Com o passar dos anos, foi sendo encontradas diversas idolatrias camufladas. Os índios seguem praticando sua religião por debaixo da cristã. Os padres, então, reagiram com um grande movimento de fé que dura até o presente.

A ação da Igreja é uma benção comparada à ação dos conquistadores. Sua influência é decisiva na consolidação da colônia. A carreira eclesiástica oferece a alguns a oportunidade quase exclusiva de cultura, a segurança econômica e até a possibilidade tentadora de uma carreira política completa. A Igreja tem total influência na sociedade colonial: nos costumes, no comportamento, na forma de se vestir, de pensar. As festas e procissões são acontecimentos sociais de grande vulto, onde os jovens se exibem. Às vezes acontecem mais de dez festas em um único mês.

O dia do perdão: na Sexta-Feira Santa, o Vice-Rei comuta a pena de um condenado à morte e o Ouvidor coloca em liberdade os réus de delitos leves e aqueles que estão próximos de cumprir a pena.

• As Missões

Com a destruição da religião indígena, acreditam ampliar o campo espiritual dos índios com uma nova visão da vida, estimulando sua evolução mental. Para a Coroa, convertem os evangelizados em súditos suscetíveis de tributação e os colocam, teoricamente, sob a proteção das leis coloniais. As missões são responsáveis pela criação de povoados com melhores condições de vida. Os franciscanos avançaram pela selva próxima às cordilheiras. Os jesuítas se embrenharam na floresta, fundando inúmeras missões às margens do Amazonas. O rei vai proibindo, aos poucos, as conquistas armadas e ordenando que as novas descobertas ocorram por meio das missões. A Ordem de São Francisco e a Companhia de Jesus são as mais fervorosas e ajustadas, se rivalizando na extensão e importância de seus trabalhos nas cordilheiras. As duas superaram as outras ordens em arrojo e prestígio popular.

• A Riqueza da Igreja

A devoção no Vice-Reino se exteriorizou com as doações às igrejas e conventos. Os mais poderosos, que têm mais a perder com uma denúncia maldosa, enriquecem os templos coloniais e asseguram a tranqüilidade do clero. Só em Lima foram erguidos 34 templos. Há, no Vice-Reino, 150 monastérios e conventos. A Igreja possui muitas terras, mas gasta muito para manter suas propriedades.

Não são poucas as igrejas que possuem ornamentos de inestimável valor. Custódias (objeto, de ouro ou prata, onde se expõe a hóstia consagrada) com centenas de diamantes, esmeraldas, rubis e pérolas; estátuas com adornos de ouro e diamantes. No santuário de Copacabana, no Titicaca, a custódia, de ouro puro, mede, com o pedestal, 62 cm. Quatro colunas de prata sustentam o camarim da Virgem, cuja coroa é de pedras preciosas. Na cintura da Virgem há dois rubis de duas polegadas de diâmetro e nas mãos uma grande vela de ouro com um rubi na ponta.

Estas riquezas, por incrível que pareça, não são roubadas. Talvez a fé dos colonos seja suficiente para evitar o roubo. Alguns acreditam em proteção divina, uma vez que tais objetos permanecem quase o tempo todo sem proteção. Mas não só de riqueza vive a Igreja. A fé cristã encontra devotos notáveis em Nova Castela, cuja pureza de intenções está acima de qualquer suspeita.

Published in: on 15 de março de 2010 at 1:29  Comments (2)