CULTO AO SOL

Os povos que habitavam a região possuíam uma religião fortemente estabelecida e organizada, confundindo-se inteiramente com o poder de seus líderes. A religião era a razão de tudo e tudo girava em torno dela: as festas, as conquistas, os tributos, as dádivas. Com os incas, o Sol passou a ser o grande Deus, o principal culto, seguido, mais cedo ou mais tarde, por todos os povos da região. Na colônia, o culto ao Sol e a crença nos diversos espíritos da natureza mantém sua influência na vida dos índios. Mas é uma época difícil, e a religião dos brancos surge forte, revela os antigos deuses aparentemente impotentes ante seu poderio, confunde suas mentes, transformam seus templos. Mesmo os raros sacerdotes que ainda mantém vivo o culto ao sol sofrem com a dúvida de toda uma nação: por que teriam seus deuses os abandonado?

O Mundo Espiritual dos Incas

Viracocha: divindade principal do Império, sem princípio ou fim. Criador dos outros deuses, homens, animais e plantas. Governava o mundo como o Inca. Havia vivido na terra para ensinar aos homens, mas deixou a tarefa de cuidar do mundo para os seres que estavam mais próximos desta realidade: o Sol e a Lua.

Inti: o Sol, primeiro dos deuses criados por Viracocha. É representado como um disco de ouro com raios.

Quilla: a Lua, mulher do Sol.

Illapa: o Trovão, irmão do Sol. Governa a chuva. Representado como homem enfeitado com reluzente vestido. Em uma mão leva um porrete, noutra uma funda. O relâmpago é o fulgor de seu vestido ao mover-se. O trovão é a descarga de sua funda.

Libiac: o Raio, governa a chuva junto com Illapa.

Pachamama: a Terra.

Mamacocha: o Mar.

Huaca: lugar de adoração, lugar santo ou santuário. Não se trata somente de templos, mas de qualquer objeto ou lugar de significação religiosa, seja um morro, uma sepultura, o lugar de uma batalha. Têm importância variada. Recebem (mesmo durante a colônia) venerações e oferendas, inclusive sacrifícios. Eram guardadas pelos sacerdotes.

Apachetas: são montes de pedra soltas que se encontram nas trilhas montanhosas, às margens dos caminhos difíceis, depositadas pelos viajantes solitários. Ao passar, os índios colocam uma nova pedra ou deixam uma pequena oferenda. Assim, afastam os espíritos demoníacos da região. Em algumas delas, os padres chegaram a sobrepor uma cruz.

O Mito de Viracocha

Com o dilúvio, tudo foi destruído. Viracocha guardou consigo três homens, e eles serviam ao Deus e o ajudaram a formar novos povos. De uma ilha chamada Titicaca, em meio ao Grande Lago, Viracocha tirou o Sol, a Lua e as Estrelas. Um dos homens, Taguapaca, lhe desobedeceu e foi amarrado numa balsa e lançado no lago. Acompanhado por seus dois criados, Viracocha se instalou em Tiahuanaco, onde foi construída uma cidade para ele. Neste lugar, esculpiu em cerâmica todas as nações que queria criar e as espalhou por toda a região. Depois de criar todos os povos, decidiu caminhar. Sem ser reconhecido, Viracocha foi hostilizado em sua primeira parada. Então, ajoelhou-se e ergueu as mãos e o rosto para os céus, fazendo descer um fogo que queimou todo o lugar. Os homens pediram perdão e foram atendidos. No lugar, restou um monte abrasado cujas pedras, mesmo as grandes, podem ser erguidas facilmente por um homem.       Chegando ao vale onde muito mais tarde os incas construiriam seu Império, Viracocha foi bem recebido. Viracocha prosseguiu seu caminho, instruindo as pessoas. Acabou chegando à Baía de Tumbez, onde se juntou a seus dois criados. Disse que deixaria este mundo, mas que enviaria seus mensageiros para que os amparassem e os ensinassem. Assim, junto com seus dois criados, partiu caminhando sobre as águas como se fosse espuma.

Culto e Ritual

O culto oficial era praticado nos templos. O mais importante era o Coricancha, em Cusco, chamado pelos castelhanos de Templo do Sol. Mas o Sol não era a única divindade adorada em seu interior. Certas partes do templo eram revestidas com lâminas de ouro. O teto era igual a todos os outros: coberto de madeira e palha. O templo tinha a imagem do Sol, uma espécie de mapa celeste e as múmias dos Incas. Um ritual bastante comum era o da adivinhação nos oráculos. Havia vários por todo o Império.

A parte principal do culto eram os sacrifícios. O de maior valor era o sacrifício humano, mas só ocorria em ocasiões solenes ou de grave perigo. As vítimas eram meninos de dez anos, fisicamente perfeitos. Às vezes se sacrificava um adulto em ação de graças, como numa vitória de guerra. Mais comuns eram os sacrifícios de lhama e cuy. Geralmente, já havia um número definido para cada ocasião. As lhamas escuras eram destinadas a Viracocha, as brancas ao Sol e as coloridas a Illapa. Os líquidos eram vertidos ao solo, os objetos jogados na água, a coca era enterrada e o resto se queimava. Nos sacrifícios, o fogo devia ser tomado de um braseiro próximo ao Templo do Sol, no qual sempre havia lenha ardendo. O sacrifício acontecia ao nascer do sol. Durante a cerimônia, comiam o sancu, pão de milho mesclado com o sangue proveniente dos sacrifícios.

Os incas tinham o seu conceito de pecado. Os Ichuris (confessores) eram os sacerdotes que estavam a cargo das huacas e impunham uma penitência, geralmente jejum ou rezas. Cumprida a penitência, o índio se banhava em água corrente. O jejum (de condimentos e abstinência sexual) era considerado de grande valor religioso e se praticava em diversos níveis.             Pecados mais graves: matar um ao outro fora da guerra, tomar a mulher alheia, usar ervas ou feitiços para o mal, furtar, descuidar do culto às huacas, importunar as festas, falar mal do Inca e desobedecer-lhe. O pecado se limitava à ação, não chegando ao desejo, à intenção.

Sacerdócio

Para ser sacerdote, a pessoa devia mostrar vocação. Podia ser por hereditariedade ou eleição. Alguém atingido por um milagre também era aceito, tanto homem como mulher. Os cargos religiosos mais importantes estavam nas mãos de parentes do Inca. Normalmente, ser sacerdote significava ser nobre. O culto era respeitado em todo o Império.

No topo estava o Huillac-Omo (cargo vitalício), que morava em Cusco e que só podia ser tio ou irmão do Inca. Presidia um conselho superior de nove sacerdotes de alta hierarquia (Tarpuntay). Os sacerdotes cuidavam dos diversos templos do Sol (cada um com uma acllahuasi correspondente) e lá viviam com sua família. Não eram celibatários. Também havia os sacerdotes que serviam como guardiões das huacas (Ichuri), cujo status dependia da importância da huaca. Os jejuns eram obrigatórios na esfera religiosa. Os sacerdotes trabalhavam de adivinhos e intérpretes de oráculos, e rogavam por colheitas abundantes e pela saúde do povo. As entranhas das lhamas eram as mais estimadas nos atos de adivinhação. A limpeza era o símbolo da purificação. Os sacerdotes tinham que se banhar e usar roupas limpas.

Fora os sacerdotes oficiais, muitas pessoas trabalhavam nos ayllu como adivinhos, curandeiros e bruxos. A feitiçaria popular era permitida, mas também severamente punida quando utilizada para o mal.

Medicina Mágica

A medicina era intimamente ligada à magia e à religião, costume que não se perdeu após a conquista. As enfermidades, segundo os curandeiros, são causadas por um pecado, pelo desprendimento do espírito do corpo, por um malefício cometido por um bruxo, ou coisas do gênero.

Os curandeiros deviam primeiro adivinhar a causa do mal para depois usar a magia e ervas medicinais. Havia intervenções cirúrgicas, como a trepanação, que consistia em abrir o crânio do doente. Com isso, acreditavam curar vítimas de fraturas ou ferimentos ósseos na cabeça e aliviar dores de cabeça e enfermidades mentais como a possessão demoníaca. Usavam instrumentos de bronze na cirurgia; a parte trepanada era coberta por um pedaço de mate e, às vezes, lâmina de metal. Colocavam algodão, vendas e gases nas feridas e usavam alguns narcóticos (coca e chicha) como anestesia. Algumas trepanações eram bem sucedidas. Já a amputação era usada em castigos, sacrifícios e necessidades médicas.

Coca

A folha de coca era mastigada com o objetivo de enganar a sede, a fome e o cansaço, além de ser considerada uma planta mágica. Assim, além de ser mastigada para estimular a resistência física, era mastigada para fazer adivinhações, ter visões e entrar em transe durante as cerimônias especiais nas quais o sacerdote obtém contato com forças sobrenaturais. O uso da coca era regulamentado pelo culto religioso. Porém, durante a colônia, o aspecto religioso da coca se perdeu e os índios a utilizam indiscriminadamente com o objetivo de resistir ao esforço nas minas.

Culto aos Mortos

Os incas acreditam na vida após a morte. Quando morria um curaca, morria também suas mulheres, enterradas junto com ele. Também deviam morrer os principais criados e servidores. Este costume não era obrigatório e desapareceu com a ação da Igreja nas reduções indígenas.

Os incas têm o costume de proporcionar aos defuntos alimentos e vestidos, que são para a sua longa viagem ao mundo dos mortos, localizado no interior da terra. Alguns espíritos escolhem como domicílio objetos naturais, no intuito de continuar a influenciar o destino de seus descendentes.

Os povos das cordilheiras e da costa possuíam o hábito de mumificar seus mortos, o que foi feito como todos os Incas, exceto com Atahuallpa e Huascar. Curiosamente, entre as múmias encontradas em Coricancha, há uma de um homem com barba ruiva. As múmias do deserto costeiro, devido ao clima, permanecem inalteradas.

Festividades

As festividades se sucediam todo mês e consistiam em beber e comer em abundância, mascar coca com permissão superior, e várias danças. Todo mês eram sacrificadas 100 lhamas. Com a conquista e a chegada da Igreja, os incas passaram a comemorar suas festas de forma disfarçada, mesclando-as com as festas católicas. A Igreja, consciente disso, estimulou ainda mais esta aproximação, pois a viu como uma forma eficaz de estabelecer a sua religião.

Capac-Raymi (dezembro) – iniciação dos jovens incas (furavam as orelhas, eram açoitados com fundas e tinham o rosto pintado com sangue).

Inti-Raymi (junho) – maior festa do Império (e continua resistindo bravamente), durante o solstício de inverno. Na véspera, apagavam os fogos em toda extensão do Tahuantinsuyo. Em Cusco, na grande praça se concentravam todas as celebridades. Nas sombras, a multidão esperava a aparição do Deus Sol, com grande respeito, descalços, em profundo silêncio. Os nobres, generais e altos funcionários imperiais, empunhando seus escudos e cetros, jejuavam por três dias. O significado da festa era agradecer ao Sol pelas colheitas no ano porvir, tentando deter seu afastamento da Terra com sacrifícios. Com o primeiro raio da aurora, se escutava o alarido vindo das montanhas. Começavam a cantar, puxados pelo Inca. A multidão saía ao Sol com os braços abertos. Um bracelete de ouro côncavo era colocado contra o Sol e refletido sobre um chumaço de algodão, que se incendiava. O fogo sagrado era levado para Coricancha, onde era conservado pelas acllas. O Inca esvazia um vaso de ouro cheio de chicha no centro da praça. Com outro vaso, dava um gole e o repartia entre a nobreza. Depois, todos desfilavam até Coricancha para cultuar o Sol. Na praça é feito o sacrifício de uma lhama pelo Tarpuntay. Os vaticínios são feitos pelos sacerdotes que os comunicam ao Huillac-Omo, que faz a interpretação e a comunica ao Inca, já no poente. O Inca ordena a retirada e libera a festa, que dura vários dias.

Published in: on 12 de março de 2010 at 1:45  Comments (3)