INTRODUÇÃO

Na História oficial, o extremo sul da América nunca caiu em domínio europeu, com exceção da ilha de Chiloé. Quando os brancos finalmente se estabeleceram na região, já não eram mais colonos nem europeus, mas chilenos e argentinos, latino-americanos independentes de sua metrópole. Apenas no século XIX, após a independência de Chile e Argentina, a Patagônia e a Araucânia foram conquistadas e a resistência de Araucos e Patagões, vencida. Não muito diferente foi a ocupação da região do Chaco, área agreste que se espalha pela Argentina, Bolívia e Paraguai. Neste meio tempo, entre muitas guerras, mortes e tentativas frustradas de levantar vilas nestes territórios, os espanhóis se viram obrigados a fazer tratados e delimitar fronteiras com os índios.

E não foi diferente na Terra de Santa Cruz. Mas, em vez da terra fictícia inspirada em nosso mundo da 1ª edição de O Desafio dos Bandeirantes, o continente aqui retratado é a América do Sul geograficamente como a conhecemos. Entretanto, em um mundo onde feiticeiros indígenas lançam relâmpagos, machados se materializam do nada na mão de sacerdotes negros, homens e mulheres se transformam em pássaros e anjos atendem às orações dos padres, a história jamais poderia ter transcorrido da mesma forma.

Assim, veremos neste suplemento como foi o embate entre Castelhanos* e índios no sul da Terra de Santa Cruz, e como são esses nativos que bravamente resistiram à colonização e a estranha região na qual habitavam. Contudo, seria complexo demais abordar cada uma dessas tribos. No jogo, elas se encontram reunidas em grandes grupos, sendo representadas algumas vezes por apenas uma delas.

Apesar do foco de O Desafio dos Bandeirantes e O Império do Sol ser o século XVII, nada impede que determinados eventos sejam adiantados e outros adiados, uma vez que não há a menor obrigação de seguir a cronologia oficial. Para isso, serão apresentados também acontecimentos do século XVI e parte do século XVIII, possibilitando até que o mestre do jogo contextualize suas aventuras nessas épocas, manipulando a História como melhor lhe convier.

Embora a ambientação tenha forte lastro em fatos reais (nenhuma data é inventada) e se possa, com sua leitura, apreender muito do que foi a época colonial no Cone Sul, nem tudo é História. Lembre-se de que se trata de um jogo, no qual a ficção e a fantasia se infiltram como água, sendo os mitos, as lendas e a magia apenas sua face mais evidente. E é dessa mistura que é feita a Terra de Santa Cruz.

*[Nota do autor: alguns termos de O Desafio dos Bandeirantes serão mantidos para preservar a atmosfera do livro original, como Castelhanos em vez de Espanhóis, Lusitanos no lugar de Portugueses. Seguindo o mesmo espírito, os Maoáris serão uma das diferentes tribos da nação Guarani, e a Terra de Santa Cruz continuará sendo o nome do novo continente. Por algum motivo, nessa realidade a designação de América não emplacou.]

 A CHEGADA DOS CASTELHANOS

No auge do Império do Sol, Topa Inca (1471-1493) chegou ao noroeste da atual Argentina, conquistando um conjunto de tribos ao qual chamaram de Diaguitas. Cruzou as cordilheiras de volta à costa e assimilou os Picunches, chegando até o rio Maule. Neste ponto, enfrentou a resistência dos Mapuches. Vinte mil índios de cada lado protagonizaram a Batalha do Maule, com muitos mortos, sem vencedores. Mas os Mapuches se sentiram vitoriosos, e os Incas decidiram não prosseguir, apenas fortalecer a posição até então alcançada. Os índios do norte, Diaguitas, Atacameños e Changos, aceitaram o domínio inca sem problemas, obtendo até vantagens dele. Os Incas criaram centros agrícolas e têxteis, assentamentos, fortalezas, caminhos e santuários.

Posteriormente, Huayna Cápac (1493-1525) arriscou uma incursão até o rio Biobio, mas sem consolidar as conquistas eventualmente obtidas. Com a guerra civil do Império entre Huáscar e Atahuallpa, a ocupação inca retrocedeu. Então os Castelhanos chegaram.

A região foi tangenciada inicialmente por Fernão de Magalhães, navegador lusitano que aportou na costa patagônica e atravessou o estreito entre o continente e o arquipélago do extremo sul, seguindo rumo ao Pacífico, chegando a fazer breve contato com índios cobertos de pele aos quais chamaram de Patagões.

Os Castelhanos chegaram ao sul do continente por dois caminhos: descendo a costa atlântica de navio até o rio da Prata e descendo por terra a partir do Vice-Reino de Nova Castela, seja cortando o altiplano para dentro do continente ou pela costa desértica.

Diego de Almagro, um dos conquistadores do Império do Sol ao lado de Pizarro, desce ao sul para verificar a veracidade de relatos de uma terra rica em metais preciosos. Optou por cortar pelo altiplano, descer pelas terras ocupadas pelos Incas nas franjas orientais dos Andes, para atravessar novamente as montanhas rumo à costa, refazendo o mesmo caminho de Topa Inca cerca de 50 anos antes, chegando ao vale do rio Copiapó em 1536. Em sua viagem, Almagro teve o azar de nada encontrar devido à alta do rio. Frustrado, retornou a Cusco e tentou tomá-la para si, encarando Pizarro (e perdendo) numa sangrenta guerra civil.

Em 1540, Pedro de Valdívia tomou posse daquilo que Almagro menosprezara, dessa vez descendo desde Lima pela costa. Até chegar ao lugar onde fundou Santiago de Nova Extremadura, Valdívia também passou por terras e tribos nativas outrora conquistadas pelos Incas. A partir de Santiago, Valdívia organizou a ocupação da Capitania-Geral de Nova Extremadura.

Do outro lado do continente, Américo Vespúcio havia chegado ao rio da Prata em 1502, mas foi Juan de Solís quem, em 1516, explorou rio adentro até a foz do rio Uruguai.  Ao prosseguir rio acima, Solís foi morto, mas antes disso registrou relatos de uma cidade de prata nas montanhas.

Dez anos depois, o veneziano Sebastián Gaboto levantou dois fortes em cada margem do rio Uruguai: San Salvador e Sancti Spíritu. Em seguida, prosseguiu viagem rumo norte, enquanto um de seus auxiliares, Francisco César, seguiu com um pequeno grupo rumo oeste, para as cordilheiras, a fim de conferir relatos de uma cidade coberta de riquezas. Vale lembrar que, na época, o Império do Sol ainda não havia sido descoberto por Pizarro. Três anos depois, Martin Afonso de Souza, navegador lusitano, chegou à região só para constatar a destruição dos fortes pelos índios. Ao perceber que se encontrava do outro lado da Linha de Tordesilhas, retornou a São Vicente.

Em 1534, na banda ocidental do rio da Prata, os Castelhanos fundaram o assentamento de Santa Maria del Buen Aire. Contudo, dois anos depois, um cerco indígena levou a população ao canibalismo. A cidade foi abandonada e os sobreviventes rumaram a Assunção, fundada em 1537, que se tornou o centro de operações da colônia naquele século. Partindo de Assunção, foi fundada Santa Fé, em 1573, a primeira cidade planificada da região, e, em 1580, houve a refundação de Santa Maria de los Buenos Ayres.

De Nova Castela ou de Nova Extremadura, foram fundadas cidades no interior, para além das cordilheiras, em território previamente dominado pelos Incas, entre elas Santiago del Estero (1553) e Córdoba de Nova Andaluzia (1573). Um pouco mais ao sul, Valdívia mandou fundar Mendoza del Nuevo Valle de La Rioja em 1551.

Surgiram, então, três províncias castelhanas entre as cordilheiras e o oceano Atlântico: Cuyo (que pertence à Capitania-Geral de Nova Extremadura), Tucumán e Nova Andaluzia (que, em 1617, é dividida em Rio da Prata e Guayrá), ambas ligadas diretamente ao Vice-Reino de Nova Castela.  Só em 1776 as três passaram a constituir o Vice-Reino do Rio da Prata.

Os Jesuítas se instalaram em Córdoba no final do século e, no início do século XVII, deram início à série de missões guaraníticas.

E, assim, as peças da Metrópole estavam postas no tabuleiro. Mas quais eram as peças do outro lado?

Os índios que tiravam o sono de Valdívia são os Mapuches, chamados pelos colonizadores de Araucos. Do outro lado da cordilheira, aqueles chamados pelos Castelhanos de Patagões, e pelos Mapuches de Tehuelches, são na verdade um grupo de várias tribos aparentadas, no qual se destacam os Aonikenk, mais ao sul, e os Guenenakene, mais ao norte.

As ilhas no extremo sul do continente, por onde circulam exploradores e piratas de diversas origens, são divididas primordialmente por três linhagens distintas: os Yámanas, os Kawésqar e os Selknam. No interior da colônia, Tucumán sofre com a resistência dos Diaguitas junto às cordilheiras, enquanto o Chaco Central serve de refúgio e trincheira a tribos que não se deixam assimilar facilmente. No rio da Prata, o terror dos colonos atende pelo nome de Charruas.

Os Guaranis, pelas mãos dos Jesuítas, tornam-se os grandes aliados dos Castelhanos nessa complexa engrenagem.

Published in: on 19 de setembro de 2016 at 23:20  Deixe um comentário