ILHAS SEBALDINAS

Essas ilhas do Atlântico, cerca de 550 km a és-nordeste da Terra do Fogo, receberam visitas de índios daquele arquipélago, mas que não se fixaram no local. No século XVI, recebeu visitas de Castelhanos e Britânicos. Um dos navios que acompanhavam o bispo Plasencia Carvajal, após uma tempestade no estreito da Terra do Fogo, acabou ancorando no arquipélago, onde permaneceu por quatro meses até terminarem os reparos. Mas a primeira visita documentada foi a do capitão holandês Sebald de Weert, em 1600, que acabou dando o nome ao arquipélago de Sebaldinas aos mapas da época. Entretanto, a ilha permanece desabitada no século XVII, apesar de sucessivas visitas de Castelhanos, Britânicos, Holandeses e Franceses.

No século XVIII, os Franceses tentam ocupá-la, fundando Port Saint-Louis, com 115 colonos. Dois anos depois, a Coroa francesa aceita os protestos dos Castelhanos e evacua a vila mediante indenização. Os Castelhanos transformam a vila em Nossa Senhora de La Soledad, sede do governo.

Na mesma época, em outra ilha do arquipélago, os Britânicos fundam Port Egmont. Após sucessivos conflitos, eles se retiram, mas sem abrir mão dos direito à ilha.

Em 1780, o então Vice-Rei do Rio da Prata manda destruir de vez a cidade britânica e constrói um presídio. Um acordo assinado em 1790 obriga os Britânicos a reconhecerem a posse castelhana. Os Castelhanos adotam o nome francês para as ilhas, Malouines, que vira Malvinas.

Geografia e Fauna

O arquipélago é formado por mais de 200 ilhas, das quais se destacam a Gran Malvina (ocidental) e La Soledad (oriental). Composto por terrenos rochosos cobertos de pasto e musgo, suavemente montanhoso, com penhascos e planícies onduladas, repletos de charcos ricos em turfas, e antigos glaciais que formam rios de pedra. A neve é rara e não se acumula, mas pode nevar por 10 meses. Os ventos são frequentes, particularmente no inverno, e chove em mais da metade do ano.

O arquipélago abriga muitos mamíferos e aves marinhos. O único animal original das ilhas é a Raposa das Malvinas (um tipo e Lobo-Guará), com 90 cm de comprimento, pelo castanho e cauda acinzentada. Vive em bandos e é dócil com os humanos, mas terrível com o gado.

O Inquilino

Quando os brancos botaram os pés nas ilhas, não encontraram nenhuma tribo nativa, nem sinais de ocupação, exceto por duas canoas abandonadas em uma praia, já muito deterioradas. Muitos anos antes, um poderoso feiticeiro Selknam foi condenado ao exílio e levado à ilha.

O feiticeiro havia sido um grande Kon (xamã) que teve um papel fundamental em um conflito entre os Selknam e os Yámanas em um período de inverno muito rigoroso, onde a alimentação tornou-se perigosamente escassa. Com o passar do tempo, no entanto, começou a se considerar o próprio Deus dos Onas, e não apenas um mediador entre os grandes espíritos e a tribo. Enlouquecido, mas de enorme poder, era impossível contê-lo por muito tempo. Porém, devido aos seus feitos em benefício da tribo, foi considerado tabu matá-lo. Com a ajuda dos Yacamouch (feiticeiros), os Selknam conseguiram colocá-lo para dormir, enfiaram-no em uma canoa e o levaram até uma distante ilha deserta (Gran Malvina). O feiticeiro nunca mais foi visto, assim como os bravos guerreiros que o levaram.

Published in: on 22 de setembro de 2016 at 2:01  Deixe um comentário  

TERRA DO FOGO E DO GELO

A Patagônia Austral é constituída de um arquipélago no qual habitam três diferentes etnias: os Selknam, os Yámanas e os Kawésqar. É o último ponto da Terra de Santa Cruz a ser habitada pelo homem branco, ainda que tenham atravessado seus estreitos com certa intensidade, com uma única tentativa trágica de colonização.

Geografia e Fauna

O arquipélago é dominado pela grande ilha que dá nome ao conjunto composto por dezenas de ilhas de tamanhos bem variados. As ilhas voltadas para o Pacífico e ao sul da grande ilha, incluindo o sul desta, são dominadas pelo relevo das cordilheiras, com montanhas altas de neve perpétua. Não há planícies, mas vários vales cobertos por bosques, entremeados por lagoas e pântanos. As costas são rochosas e escarpadas, sem formação de praias, com águas profundas mesmo próximas ao litoral.

Já a ilha principal, excetuando-se a já mencionada parte sul, apresenta baixa altitude, um relevo monótono semelhante à Patagônia continental, mas coberto por bosques. O clima é seco e quase sem nuvens. No fundo dos vales abundam lagos e charcos.

As ilhas voltadas para o Pacífico, onde vivem os Kawésqar, sofrem de constante mau tempo, chuvas intensas e céu nublado. São assoladas por um vento contínuo e com pouca variação de temperatura ao longo do ano. A fauna é basicamente de pássaros e animais marinhos. As ilhas do sul, mais próximas do Atlântico, onde se concentram os Yámanas, apresentam um clima menos inclemente.

A grande ilha, onde predominam os Selknam, abriga manadas de guanaco, umas poucas espécies de roedores, o huillín (uma nutria nativa), diversas aves, incluindo o condor, além de vários animais marinhos que chegam a suas praias. O zorro colorado da Terra do Fogo é bem maior que seus parentes da Patagônia. Os répteis estão representados por uma única espécie de lagartixa, assim como os anfíbios se resumem a uma pequena espécie de sapo.

O clima é subpolar, com verões curtos e frescos e invernos longos, úmidos e moderados. O nordeste da ilha é marcado por fortes ventos e poucas chuvas. O sul e a costa ocidental são úmidos e brumosos, com muito vento e poucos dias sem chuva, granizo ou neve. A temperatura média apresenta pouca amplitude ao longo do ano, variando entre 0º e 10° C. Algumas áreas do interior da Terra do Fogo possuem clima polar, chegando a 10° C negativos.

Os Exploradores

Quando o lusitano Fernão de Magalhães, em 1520, passou pelo estreito que separava o arquipélago do extremo sul do continente, conhecido então como Cola do Dragão, avistou as fogueiras dos Selknam no alto das falésias, dando àquela região gélida o insólito nome de Terra do Fogo. O fogo era aceso por uma pirita de ferro facilmente encontrada em uma ilha na saída do estreito, compartilhada por Yámanas e Kawésqar. A frota lusitana avistou também milhares de pinguins e muitas baleias. O próximo a passar pelo estreito foi o corsário britânico Francis Drake, em 1577, que teve um navio avariado e, nessas circunstâncias, travou contato com os Yámanas.

Em 1540, o bispo Plasencia Carvajal partiu para o estreito com três navios. Ao lá chegar, uma tempestade separou as embarcações. Uma delas conseguiu atravessar o canal e chegar à Nova Castela. Outra perdeu o rumo e chegou às ilhas Sebaldinas, onde ficou ancorado por quatro meses fazendo reparos. A terceira afundou.

Em 1584, Pedro Sarmiento de Gamboa fundou a Cidade do Nome de Jesus na ponta continental atlântica do estreito. A ideia era criar duas vilas com 350 pessoas e 400 soldados cada, a fim de evitar o uso do estreito por estrangeiros. Depois de 10 dias às voltas com o mau tempo, houve um motim e três embarcações se retiraram. As pessoas que embarcaram na futura colônia estavam em péssimo estado. Posteriormente, os soldados marcharam por terra até quase o final do estreito, chegando a enfrentar alguns Aonikenkes pelo caminho, com o objetivo de fundar a Cidade do Rei Felipe.

Após erguer os dois assentamentos, Gamboa voltou à Metrópole para buscar mais recursos e colonos, mas teve muitas dificuldades, chegando a ser preso, só retornando em 1590. Nesse meio tempo, os colonos de Nome de Jesus enfrentaram dificuldades de arrumar alimento e decidiram abandonar o local, marchando rumo a Rei Felipe. Os colonos e os poucos soldados que ali estavam foram morrendo de fome no decorrer da marcha. Um dos colonos foi resgatado três anos depois pelo corsário inglês Thomas Cavendish. Os outros 20 sobreviventes não puderam ser resgatados devido aos fortes ventos.

Ao passar por Rei Felipe, Cavendish só encontrou cadáveres, batizando o lugar de Porto da Fome. Pouco antes, um sobrevivente de Rei Felipe havia sido resgatado por outra embarcação inglesa.

Poucos anos depois, o pirata holandês Olivier Van Noort aportou em Porto da Fome e o usou como base para explorar a região, combatendo Selknam e Kawésqar. O imediato de Van Noort tentou desertar levando um dos navios, mas foi traído por seus homens e abandonado em Porto da Fome quando os holandeses deixaram a região.

No século XVII, passam pelo arquipélago uma expedição holandesa em 1615-1617; a expedição dos irmãos Garcia de Nodal em 1618-1619, que entram em contato com os Mánekenks; a Frota Nassau em 1624, de Jacob de L’Hermite, que tem um contato mortal com os Yámanas; e a expedição do pirata holandês Hendrik Brouwer, em 1642, rumo à Terra dos Araucos.

A Frota Nassau, ao descer em uma ilha para pegar água e lenha, teve 19 tripulantes retidos em terra devido ao mal tempo repentino. Os Yámanas, que até então os ajudavam, atacaram e mataram 17 deles, sendo que cinco quedaram esquartejados na praia e os outros doze foram levados. Apenas dois sobreviveram.

No século XVIII, navios da Coroa Britânica exploram o estreito e são combatidos pelo futuro Vice-Rei de Nova Granada. Nesta época começam as expedições científicas, responsáveis por divulgar no Velho e no Novo Mundo a riqueza da fauna marinha na região. Assim, em poucas décadas chegam os primeiro baleeiros. Em 40 anos a matança é tanta que prejudica a alimentação dos Yámanas e Kawésqar.

Terra Australis Incognita

Três navios saem de Valparaíso sob as ordens do Vice-Rei de Nova Castela, a fim de reprimir as incursões de piratas holandeses no extremo sul. Mas, errando um pouco a latitude, acabam chegando a uma terra coberta de gelo e neve, toda branca e montanhosa. Alguns navegantes holandeses também esbarraram nesse continente branco.

Published in: on 22 de setembro de 2016 at 1:59  Deixe um comentário  

A PATAGÔNIA

Patagônia é como os castelhanos chamam toda a região ao sul das áreas colonizadas. No caso, ao sul das províncias de Cuyo, pertencente à Nova Extremadura, e do Rio da Prata. Sem ser uma fronteira formal, a principal referência é o rio Salado, ao sul de Santa Maria de los Buenos Aires. De leste a oeste, vai do oceano Atlântico às cordilheiras, incluindo as ilhas ao sul de Chiloé, habitadas pelos Chonos e Kawésqar.

A Patagônia continental é habitada por tribos nativas conhecidas como Patagões. Apesar de falarem a mesma língua e terem uma origem cultural em comum, o termo cunhado pelos colonizadores engloba três grupos distintos: os Aonikénk, que habitam a Patagônia Meridional, os Guenenakéne, que habitam a Patagônia Setentrional, e os Chehuachekénk, que habitam as cordilheiras da região de Neuquén até o território dos Chonos.

GEOGRAFIA

A parte ocidental junto às cordilheiras é úmida e chuvosa, com bosques extensos e frondosos. A área é repleta de lagos exuberantes e densas geleiras. Seus vales glaciais tornam mais fácil a travessia para o lado do Pacífico, assim como a penetração dos ventos que vêm de lá.

El Chaltén é um pico das cordilheiras próximo ao lago Viedma, chamado assim pelos Aonikenkes por estar quase sempre coroado por nuvens, fazendo os viajantes acreditarem tratar-se de um vulcão. Com 3.400 metros de altitude e paredões verticais de pedra escorregadia, a escalada se torna quase impossível devido aos fortes ventos que o golpeiam. A região, apinhada de outros picos de pedra pontiagudos rodeados por campos de gelo, sofre com mudanças repentinas de clima, o que dificulta ainda mais a empreitada.

A 160 km ao sul, encontram-se as Torres del Paine, um maciço de montanhas que formam torres de granito que chegam a atingir 3 mil metros. Entre El Chaltén e as Torres, há imensas geleiras que chegam a 60 metros de altura, com quilômetros de largura, que avançam sobre os lagos da região.

Há também geleiras correndo para o lado ocidental, uma delas chegando ao oceano, marcando a fronteira entre os territórios dos Chonos e Kawésqar.

A Patagônia vai se tornando cada vez mais seca, e menos habitada, à medida que avança para o Atlântico, pois o vento úmido que vem do Pacífico vai perdendo a força. O clima é frio, havendo uma diferença de 10°C entre o norte e o sul da região.

A parte central e o litoral são praticamente desérticos. Devido às dificuldades da região e à baixa demografia, os índios vivem de caça e coleta. O sul apresenta uma cobertura de vegetação um pouco mais uniforme do que os tufos esparsos que predominam em quase toda a região entre os rios Chubut e Santa Cruz, além de boa parte do litoral, igualmente árido. A monotonia de uma paisagem plana, onde só se vê o alto das colinas no horizonte, é quebrada por vales férteis, cânions, serras breves, lagos de sal e bosques petrificados.

No interior da fria estepe patagônica, a 160 km de Puerto Deseado, jazem gigantescas e grossas árvores petrificadas, como se fulminadas pela fúria dos deuses.

A 120 km ao norte do rio Santa Cruz há um canyon de montanhas rochosas, formando muralhas e labirintos entrecortados por vales cobertos de vegetação, que abriga algumas cavernas.

A costa, com suas falésias rochosas, curvas sinuosas e praias escuras, mostra-se pouco hospitaleira aos navegantes. Alguns, impressionados com suas formas insólitas na bruma da manhã ou sob a luz do luar, chamam o litoral abaixo do rio Santa Cruz de Costa dos Espíritos.

O PLANALTO DAS VISÕES

Entre o rio Negro e o rio Chubut há uma região conhecida pelos nativos como Planalto das Visões. Os primeiros ventos da manhã parecem trazer vozes e espíritos capazes de provocar visões nos viajantes.

A região como um todo possui uma permeabilidade com o mundo astral mais intensa do que no resto do continente. Em alguns pontos, esta aproximação é quase palpável, podendo até mesmo ser vislumbrada a olho nu. Isso afeta diretamente na relação dos xamãs patagões com a magia. O ponto de maior esgarçamento é o Planalto das Visões. Quanto mais para o centro das estepes áridas, maior a influência do plano astral na realidade.

Orixás podem ser impedidos de incorporar e os espíritos dos feiticeiros negros podem ter dificuldade ao enfrentar os espíritos da região.

A COLONIZAÇÃO

A natureza em si é um obstáculo maior para a ocupação castelhana do que a resistência indígena. A aridez e vastidão da paisagem, além da baixa demografia, faz com que os colonos se refiram a estas terras como o Grande Deserto.

Muitas expedições, de diversas origens, arriscaram-se na região até que a Coroa castelhana, temendo as constantes incursões de britânicos e holandeses, decide estabelecer colônias ao sul. Entretanto, a ocupação do que seria a Província de Nova León transforma-se em uma coleção de fracassos.

As Expedições Costeiras

A primeira grande expedição foi do lusitano Fernão de Magalhães, em 1520, determinado a encontrar uma passagem para as Índias contornando a Terra de Santa Cruz. Decidiu procurá-la pelo sul. O inverno rigoroso obrigou sua frota a aportar em uma baía bem protegida da região.

Enquanto aguardava poder seguir viagem, enviou um de seus navios em missão exploratória. Este desceu a costa até a entrada de um largo rio, batizado de Santa Cruz. Devido a uma avaria, a embarcação teve de passar alguns meses em uma ilha fluvial.

Neste meio tempo, Magalhães enfrentou um motim. Um dos capitães amotinados foi morto em combate e o outro, decapitado. Um oficial amotinado foi enforcado em terra e o capelão que o apoiou foi deixado para trás, abandonado em uma ilha.

Magalhães havia travado contato com os índios locais, a quem chamou de patagões devido às vestimentas de pele. Como os índios eram bem mais altos que os lusitanos, os pés, envolvidos em peles, pareciam ainda maiores. Magalhães tentou levar um deles para exibi-lo na Europa, mas tal ato não foi bem aceito. Na breve confusão que se seguiu, um Aonikénk foi morto. O primeiro da colonização.

Poucos anos depois, um navio castelhano aportou na mesma baía, batizada de San Julián, onde foi colocada uma cruz e rezada uma missa. Décadas mais tarde, o corsário britânico Francis Drake encontra o patíbulo construído pelos homens de Magalhães para executar os amotinados.

A primeira expedição oficial com a finalidade de ocupação ocorre em 1534, liderada pelo castelhano Simón de Alcazaba, que aporta na costa com 250 homens e dois navios, 500 km ao norte de San Julián. O grupo monta um pequeno assentamento na costa, mas o objetivo de colonização foi prejudicado pela cobiça. Sem sequer esquentar lugar, Alcazaba logo monta uma expedição e parte território adentro, sonhando com a riqueza da Cidade dos Césares, cuja fama já começava a se alastrar na Metrópole. Contudo, os rigores da viagem leva a um motim e ao assassinato de Alcazaba. Quando o grupo retorna ao assentamento, confronta homens leais ao comandante.  O motim, então, é contido, deixando 80 mortos. A expedição decide retornar à Metrópole, abandonando o assentamento, mas um dos navios naufraga no meio da viagem, perto da costa de São Sebastião. Apenas 75 pessoas retornam com vida ao porto de Barrameda, em Andaluzia.

No século XVII é a vez de navios da Coroa Britânica se aventurarem pela região, não mais corsários como Francis Drake, mas oficiais militares. A pouco mais de 200 km ao norte de San Julián, o Almirante John Narborough toma posse da região com o intento de fundar Port Desire. Entretanto, após perder contato com o outro navio da expedição em um temporal e navegar pelo estreito até a Ilha de Chiloé, mapeando a região, entra em confronto com navios castelhanos e decide recuar. Depois, envolvido na guerra entre britânicos e holandeses, não retorna mais aos mares do sul, mas seus mapas se tornam muito úteis às expedições futuras. Duas décadas mais tarde, outra embarcação britânica atravessa o canal das ilhas Sebaldinas, batizando-o de Canal de Falkland.

Muitos anos depois dos britânicos, os Jesuítas chegam a Port Desire, agora rebatizado de Puerto Deseado, e à baía de San Julián, onde fincam uma cruz. Entretanto, decidem se estabelecer bem mais ao norte, na laguna de Las Cabrillas (depois chamada de Los Padres), ao sul do rio Salado, a poucos quilômetros da costa. Em suas margens fundam a missão Nossa Senhora do Pilar. A redução conta com 1.200 índios Hets.

Com o sucesso inicial, outras duas missões são erguidas na região: Missão dos Desamparados e Missão de Concepción de los Pampas. Apesar de serem bem recebidos, o cacique Cangapol, principal líder dos patagões setentrionais, percebe a concorrência das missões e decide atacar, destruindo Desamparados. Os missioneiros de Nossa Senhora de Pilar fogem então para Concepción, que também é atacada e abandonada.

As principais iniciativas de colonização por parte dos Castelhanos ocorrem no século XVIII, um reflexo da tentativa de britânicos e franceses ocuparem as ilhas Sebaldinas. Os colonizadores chegam ao golfo San José, na península Valdés, onde é fundado o porto de San Juan de la Candelaria.  De lá são enviadas duas expedições exploratórias: uma para explorar o rio Colorado e outra para fazer um assentamento na foz do rio Negro, ambos ao norte, subindo a costa.

Na entrada do rio Negro é fundada Nova Murcia, que recebe famílias vindas da Metrópole, e o Forte Nossa Senhora de Carmen, após negociação amigável com o cacique Negro. O rio é o mais importante de toda a Patagônia devido ao seu volume d’água, e os colonos decidem explorá-lo. Porém, a expedição chega só até a metade do caminho, na ilha Choele Choel, um verdadeiro oásis agrícola. Os exploradores estranham a presença de macieiras, desconhecendo as atividades dos jesuítas no lago Nahuel Huapi, onde nasce o rio Limay, que dá origem ao rio Negro. Eles tentam construir um forte na ilha, mas são rechaçados pelos índios. Para se prevenirem de uma eventual mudança de humor dos homens de Negro ou mesmo de ataques de inimigos estrangeiros, os colonos decidem erguer um forte em cada margem do rio: Forte San Javier, ao sul, e Forte Invencible, ao norte.

Em Puerto Deseado, é fundada San Carlos de Puerto Deseado. Em seu primeiro ano, os colonos enfrentam problemas com o escorbuto, devido à escassez de alimentos. Os colonos decidem explorar o rio Santa Cuz até a sua nascente, chegando ao Cerro El Chaltén, já nas cordilheiras.

Próximo à baía San Julián, um pouco mais para o interior, a fim de evitar a pirataria, é fundada Floridablanca. Na baía é erguido o Forte San José sobre os escombros de acampamentos anteriores. Vinte e quatro famílias chegam de La Coruña. A vila é composta por 150 homens, 18% de presidiários do Rio da Prata e 14% de militares. Logo de início também enfrentam uma epidemia de escorbuto. Dedicados à agricultura, os colonos mantêm comércio e relações harmoniosas com os Aonikénk, conseguindo contornar as dificuldades iniciais e começar a prosperar.

Desafortunadamente, o Rei fica sabendo com atraso do primeiro ano desastroso, e, sem ser atualizado do progresso da região, manda desmantelar a colônia. Nesse mesmo período, a Metrópole enfrenta os britânicos na Europa e uma revolta em Nova Castela, liderada por Túpac Amaru II. Dos assentamentos, apenas dois são mantidos: o forte San José, a fim de manter um posto de observação da atividade marítima na região e dar apoio às embarcações pesqueiras; e Nova Múrcia, inicialmente por insubordinação dos colonos, mas depois com o consentimento real, visto como importante porto de comunicação com os colonos nas Malvinas, ex-Sebaldinas.

Entre 1779 e 1781, uma linha de fortificações separando a Patagônia e o Vice-Reino do Rio da Prata é construída ao norte do rio Salado, em decorrência de tratados com os índios. As fortificações são ocupadas por unidades de cavalaria e por milicianos.

As Expedições Andinas

No século XVII, as cordilheiras patagônicas são frequentemente exploradas por Castelhanos e corsários de outros reinos, aproveitando-se do fácil acesso pelos vales da região dos lagos, na Terra dos Araucos.

As primeiras expedições castelhanas para a região partiram de Castro e do forte de Cabulco, com a finalidade de capturar índios e combater holandeses infiltrados, que se utilizavam do conflito entre Castelhanos e Mapuches para se aliar aos índios. Com a proibição do Vice-Rei do apresamento dos Mapuches, a nova estratégia é enviar os padres jesuítas para pacificar a região habitada pelos Chehuachekénkes e Pehuenches. Duas missões são fundadas ao redor do lago Nahuel Huapi, onde, no final do século XVI, padres mercedários, vindos de Osorno e Villarrica, haviam tentado sem sucesso se fixar. Com a destruição destas duas vilas pelos índios, a missão ficou sem suporte e os mercedários tiveram de abandoná-la.

Os Jesuítas são bem recebidos inicialmente. Plantam as primeiras maçãs, que logo se espalham pelas cordilheiras, tanto do lado ocidental quanto oriental. Um dos padres resolve explorar, com sucesso, o rio Negro até o Atlântico.

Uma pequena quantidade de gado bovino e equino abandonado pelos Castelhanos se espalha rapidamente pelos pampas até se transformar em enormes manadas selvagens. Os Guenenakénes começam a capturar e domesticar os cavalos trazidos pelos colonizadores e a caçar o gado disperso. Em pouco tempo, começam a comercializá-los com os Mapuches, que acabam sendo atraídos para a região. À medida que se desenvolvem cada vez mais nessa prática, os conflitos com castelhanos em Cuyo e no Rio da Prata se intensificam, aumentando a necessidade da Metrópole de impor limites aos índios.

Com a chegada dos Mapuches na região, a sorte dos Jesuítas começa a mudar. Os padres passam a ser mortos pelos índios. A Companhia de Jesus não desiste e continua a mandar substitutos, que não sobrevivem por mais de três ou quatro anos. Outra missão é erguida onde o rio Neuquén encontra as águas do rio Limay, formando o rio Negro. Os jesuítas vão sendo sucessivamente assassinados até que a missão de Nahuel Huapi é incendiada. As missões restantes resistem por mais quatro anos, quando são finalmente abandonadas.

A Cidade dos Césares

Cidade mítica da Patagônia, insistentemente procurada por exploradores e aventureiros. A primeira menção à cidade ocorre em 1528, a partir da fortaleza Sancti Spiritu, quando o veneziano Sebastián Gaboto envia uma pequena expedição para o oeste, a fim de verificar os relatos dos índios sobre uma cidade cheia de riquezas.

O grupo liderado por Francisco César, que mal passava de uma dúzia de homens, retorna poucos meses depois dizendo ter visto a tal cidade. Os soldados dessa expedição ficaram conhecidos como “Os Césares”, devido ao nome de seu comandante.

Nessa época, os Castelhanos ainda não haviam descoberto a terra dos Incas, de forma que, quando isso ocorreu, muitos concluíram que os Césares haviam chegado a uma de suas fabulosas cidades. Entretanto, nos registros da expedição de Gaboto, consta que o grupo havia descido em direção à Patagônia, travando contato com os Hets, o que fez crescer os boatos de que haveria uma colônia inca nas cordilheiras do sul.

Isso deu origem a diversas expedições frustradas, tanto oficiais quanto de aventureiros. Em vez do fracasso dessas tentativas fazerem arrefecer as buscas, estas só aumentaram, pois relatos de náufragos e sobreviventes de outras expedições traziam informações indicativas da existência de tal cidade.

As Vilas Autônomas

Outro tipo de aventureiro caminha pela imensidão patagônica: os sobreviventes. Náufragos de navios colhidos pelas tempestades; sobreviventes de assentamentos destroçados pelos índios ou pela fome; sobreviventes de expedições exploratórias de destino incerto. Dessas expedições, a maioria buscava a Cidade dos Césares, jamais encontrada.

Poucas dessas almas mal aventuradas lograram chegar a uma vila, um forte, ou serem resgatadas por algum navio. Muitos morreram de fome, de frio, ou pelas mãos dos índios. Outros tiveram a sorte de cruzar o caminho de uma tribo mais amistosa. Destes, alguns acabaram se adaptando aos hábitos nômades e sendo aceitos pela tribo. Mas há aqueles que decidiram seguir adiante ao ouvir relatos da presença de homens brancos na região de Nahuel Huapi.

Aos poucos, próximo às ruínas das missões jesuíticas, foram se formando duas vilas: uma em Nahuel Huapi, chamada San Carlos, outra em Neuquén, onde começa o rio Negro. Não são vilas coloniais, autorizadas pela Coroa, ou mesmo de conhecimento desta. Viajantes e comerciantes que negociam com os Patagões tomam conhecimento de sua existência, mas muitas vezes essa informação é recebida como boato ou lenda. Seus habitantes estão por conta própria, a mercê dos humores dos Patagões e dos Mapuches. A elas volta e meia se dirige um degredado, alguém fugindo da lei dos homens, um aventureiro, ou mesmo viajantes a procura de um pouso mais acolhedor.

Neuquén é a vila onde brancos e índios vivem em mais harmonia. Como mulher branca é raridade por essas bandas, muitos brancos se juntam às nativas. A intensa miscigenação entre os próprios nativos – patagões setentrionais, das cordilheiras e Mapuches – vai formando uma nova cultura, que abandona os hábitos nômades pela atividade pecuária.

Em San Carlos, a maioria é branca, composta não só de castelhanos, mas também de aventureiros de outros reinos. Eles mantêm contato regular com o povo de Neuquén, mas procuram preservar seus costumes, fazendo com que o assentamento muito se assemelhe a uma vila colonial, utilizando em sua construção os restos das missões destruídas. Sua presença é apenas tolerada pelos índios, mas por razões que os habitantes de San Carlos desconhecem. Eles acreditam que a vila permanece de pé graças ao poder de Nossa Senhora de Nahuel Huapi.

De fato, a imagem da Virgem tem o poder de manter a vila protegida de qualquer ameaça espiritual ou demoníaca, o que tornaria bastante complicada a vida de um feiticeiro ou sacerdote negro de passagem pela vila, pois seus espíritos e orixás seriam barrados pela potente Barreira Astral emanada da Virgem. Da mesma forma, inibe a atividade dos xamãs locais, que costumam manter constante contato com os espíritos. Mas o que protege mesmo os habitantes de um eventual ataque é o Padre Sérgio.

Padre Sérgio é um jesuíta que se dedicou a explorar toda a região, sempre acompanhado de guerreiros Chehuachekénkes. Conheceu mais sobre a Patagônia do que qualquer homem branco vivo ou já vivido. Enquanto seus colegas de batina se dedicavam à catequese e à vida espiritual nas missões, Padre Sérgio vivia aventuras inimagináveis, impressionando os guerreiros que o acompanhavam com sua coragem e poder. Sua fama se alastrou de tal maneira entre os índios que, certa vez, um cacique decidiu acompanhá-lo em suas viagens.

Apesar de aconselhado do contrário, Padre Sérgio decidiu explorar o Planalto das Visões. Estava firmemente determinado em acampar na região o tempo que fosse necessário para compreender a natureza do lugar. Tal experiência o levou à loucura. Permaneceu por um tempo desaparecido, sendo considerado morto. Neste período, ocorreu o ataque às missões. Poucos anos depois, foi encontrado vagando sem rumo próximo a San Carlos. Os habitantes o acolheram e construíram para ele, obedecendo a um pedido seu, uma choupana subindo a colina, com uma bela vista do lago e das montanhas.

Padre Sérgio alterna períodos de demência e total delírio com rasgos de lucidez. Nestes momentos, poderá revelar tudo o que sabe e o que aprendeu em suas andanças. Há quem diga que, entre tais revelações, estaria a localização da Cidade dos Césares. Entretanto, o que o padre vivenciou em suas andanças é tão fantástico e inacreditável, que é impossível diferenciar os relatos verdadeiros dos momentos de delírio. Aquele que o visitar em sua choupana dificilmente sairá sem escutá-lo dizer: “ninguém vai ao sul, é o sul que vem até você”.

Em respeito ao Padre Sérgio, os índios deixam os habitantes de San Carlos em paz. Mas é uma trégua com prazo de validade. Seus habitantes que tratem de cuidar bem do velho padre, pois dele, sem o saberem, depende sua sobrevivência.

Published in: on 22 de setembro de 2016 at 1:57  Deixe um comentário  

GRAN CHACO

O Gran Chaco é uma grande planície agreste e pouco acidentada, cortada por dois rios, Bermejo e Pilcomayo. O clima apresenta grande amplitude térmica entre o dia e a noite, bem como inverno seco e verões muito quentes e chuvosos. É dividido em três setores: Boreal (ao norte do rio Pilcomayo), Central (entre os rios Pilcomayo e Bermejo) e Austral (ao sul do rio Bermejo).

A fauna é composta de animais de pequeno porte, como tatu-bola, coelho e porco-espinho, mas também há áreas com onça, veado-campeiro, anta, jacarés, tamanduás, porco-do-mato, lobo-guará e guanaco.

Chaco Austral

O Chaco Austral vai do rio Bermejo até as Salinas Grandes, perto de Córdoba. De leste a oeste, vai do rio Paraná às serras pampeanas e subandinas. Dos três setores, é o que apresenta clima mais ameno, sendo o mais ocupado pelos Castelhanos. É habitado por diversas etnias da Confederação Diaguita e por Omaguacas, a oeste; por Wichís, ao norte; Guaicurus, no centro e norte; e Guaranis a oeste.

O Impenetrável

Bosque de 40 mil km² no Chaco Austral, que se expande a partir da margem sul do rio Bermejo, entre as províncias de Tucumán e Rio da Prata. O emaranhado do bosque já garante por si só o nome do lugar. Mas há mais do que os olhos podem ver. O bosque muda de configuração à medida que se avança nele, fazendo com que os viajantes se percam e passem muitas vezes pelo mesmo lugar, andando em círculos ou saindo no mesmo lugar por onde haviam entrado. Só alguém com Comunhão com a floresta ou rolamentos sucessivos de Senso de Orientação quase impossíveis poderá atravessar o bosque sem se perder. Ainda assim, tais habilidades não ajudarão a superar os obstáculos naturais do Impenetrável, só mesmo o bom uso de um facão. Remover magia não surtirá efeito e Detectar Magia apenas revelará o problema, não a solução.

Chaco Central

É o Chaco Central que apresenta a natureza mais hostil. Terreno inundável com as chuvas, formando pântanos e lagos, o que torna difícil a passagem de cavalos e gado devido à lama. Além disso, formigueiros em profusão tornam o terreno instável, passível de quebrar a pata dos cavalos.

Região com savanas, arbustos espinhosos, alfarrobeiras e muitos insetos. Como a região é pouco propícia à agricultura, os índios vivem basicamente da caça e da pesca, e também da coleta, incluindo o mel. Para os Wichís e Guaicurus, adaptados ao meio, serve como zona de refúgio.

Os Wichís e Guaicurus não se adaptaram bem às encomiendas. De cultura guerreira, enviam espiões que já tenham contato prévio com os brancos. Atacam de manhãzinha de forma rápida e precisa, retirando-se em grupos dispersos, para dificultar a perseguição. Deslocam-se em noites enluaradas e atacam nas estações chuvosas para prejudicar o uso da pólvora. Os ataques são basicamente para roubar mantimentos e gado. Como armas, usam macana de madeira, faca de osso, arco e flecha.

As tribos acampam no interior de bosques intrincados ou à margem de lagos que possam usar como fosso natural. Ao se verem cercados, rendem-se e aceitam a redução. Então pedem uns dias para reunir a tribo e fogem.

Há entre os Castelhanos quem defenda o extermínio indígena para resolver a questão dos ataques. No início do século XVII, um novo governador de Tucumán dá início a uma estratégia ofensiva e defensiva bastante rígida que faz o cenário mudar a favor dos colonos: controle sobre os índios nas cidades e encomiendas, pressão sobre os encomenderos para seguir as ordens do governo, homens fortes e de confiança nos cabildos, repressão dura e indistinta aos índios rebeldes e missões com fortes para vigiar os índios reduzidos. Consegue assim uma paz de 20 anos, o tempo de duração de seu governo. Com sua morte, voltam os ataques. Ocorre, então, forte migração para as cidades ao sul, como Santiago del Estero, Santiago de Nova Extremadura, Santa Maria de los Buenos Aires.

Há pouco apoio militar do governo da província, tendo os colonos que se virar com aliados indígenas, além dos mestiços, para conter os ataques. O uso da diplomacia, com vantagens oferecidas às tribos que se mantiverem amistosas, chega a trazer bons resultados para incrementar a linha de defesa, mas nada que garanta uma paz sólida. Devido à precariedade dos tratados de paz, a nova estratégia passa a ser avançar a linha de fronteira através da construção de fortes.

Chaco Boreal

O Chaco Boreal tem pouca presença de homens brancos, salvo as missões jesuíticas e as vilas formadas a partir da fundação de Santa Cruz de la Sierra. Vai do rio Pilcomayo até o início da área de transição para a selva. De leste a oeste, vai do Pantanal até os contrafortes andinos. Entre os índios, predominam a tribo guarani dos Avá, os Chiquitanos, em torno dos quais foram erguidas as missões, e duas tribos aruaques, os Chanés e os Moxos.

Em 1561 foi fundada Santa Cruz de la Sierra, por um grupo vindo de Assunção. Devido a dificuldades com os índios, a população abandonou a vila rumo oeste, onde fundaram San Lorenzo Real de la Frontera, por determinação da Real Audiência de Charcas. Mais tarde, a cidade volta a se chamar Santa Cruz de la Sierra.

Parte da população havia ficado no meio do caminho, no povoado de Cotoca, perto do rio Guapay, onde se estabeleceram os Jesuítas para dar início às missões da região. Essas missões têm predominância dos índios Chiquitanos. Mesmo quando outras tribos são trazidas para as reduções, o idioma Bésiro, falado pelos Chiquitanos, é estabelecido como idioma comum.

A primeira missão jesuítica na região é fundada em 1691, seguida de outras três ao longo da década. No século XVIII, até a expulsão dos Jesuítas, são erguidas mais sete, sendo que uma é abandonada em poucos anos, após o ataque de uma tribo chiquitana que mata o padre da missão.

Essa região do Chaco Boreal ocupada pelos Castelhanos não pertence à Província do Guayrá nem a Tucumán, mas à Província de Santa Cruz de la Sierra.

Published in: on 20 de setembro de 2016 at 2:33  Deixe um comentário  

A GUERRA DE ARAUCO

A guerra entre Castelhanos e Mapuches começou logo após a chegada dos brancos ao vale do rio Maule em 1536, e durou por todo o período colonial, chegando ao fim no início da República. Poemas e epopeias foram dedicados ao conflito já no século XVI, divulgando a capitania pelos salões do Velho Mundo. Entretanto, não são 300 anos de batalhas sem fim; há períodos de maior e menor tensão.

No século XVI, ocorrem duas grandes rebeliões que marcam a relação entre Mapuches e Castelhanos, bem como os limites da ocupação colonial. Em meados do século XVII, em meio a diversos encontros envolvendo tratados de paz, ocorre mais uma grande insurreição. O século XVIII é salpicado por quatro rebeliões de menor duração. Há relatos de mortes rituais de prisioneiros durante a guerra. A Terra dos Araucos resiste independente até a República.

Leftaru e a Primeira Rebelião Mapuche

A primeira grande rebelião é marcada pela liderança de Leftaru, entre 1552 e 1557. Nascido em 1534, filho do líder Curiñancu, Leftaru foi capturado aos 15 anos por Pedro de Valdivia. Permaneceu preso por três anos, tornando-se pajem do governador, que o chamava de Lataro. Nesse período, aprendeu as táticas militares de Valdivia e tornou-se amigo de um capitão que lhe ensinou táticas de cavalaria e o uso de armas de fogo. Na Batalha de Andalién, em 1550, Leftaru testemunhou a crueldade de Valdivia, que mutilava os pés dos índios e depois os liberava. Dois anos depois, logrou fugir a cavalo.

Lefataru procurou então os líderes mapuches e compartilhou tudo o que havia aprendido em seus anos com os Castelhanos, principalmente o uso dos cavalos e das novas armas. Rapidamente tornou-se um líder e fez os Mapuches abandonarem o ataque em massa, passando a atacar por blocos e a utilizar táticas de guerrilha e emboscada, bem como boleadeiras e laços para conter a cavalaria.

Em pouco tempo Leftaru tornou-se Toqui, o chefe máximo da guerra. Criou um serviço de inteligência de qualidade profissional de espionagem e dissimulação, utilizando homens, mulheres e adolescentes. Esses índios aprenderam a simular bebedeira, fingir não saber falar espanhol, converter-se ao cristianismo e aceitar a servidão para se infiltrar entre os brancos. Criou também um sistema de comunicação por meio dos galhos das árvores, para que curtas mensagens pudessem ser enviadas à distância e repassadas com rapidez. Um grupo era treinado especificamente para espionagem noturna.

Em 1553, os Mapuches atacam a tropa de Valdivia acampada nas ruínas do Forte de Tucapel e o matam. Depois disso, arrasam cidade por cidade até o rio Biobio. Saqueiam e incendeiam duas vezes Concepción, fazendo a população fugir para Santiago.

Entre 1554 e 1556, os combates diminuem devido a uma peste de tifo, que mata 300 mil índios. No mesmo período, uma forte seca traz a fome, levando os Mapuches à pratica de canibalismo. Do outro lado, os castelhanos se veem obrigados a se reorganizar e entender como foram sobrepujados por índios bárbaros.

Em fins de 1556, Leftaru cruza Bio-Bio e tenta arregimentar os pacíficos Picunches, chegando a matar aqueles que não aderem à rebelião. De Santiago parte uma tropa para confrontá-lo e é derrotada. No ano seguinte, novo confronto não impede que as forças de Leftaru cruzem o rio Itata.

O antigo amigo capitão de “Lataro” se reúne com o comandante mapuche às escondidas. Em troca do fim da rebelião, Leftaru exige armas, cavalos e mulheres, e que o rio Maule fosse estabelecido como limite do avanço castelhano, antigo limite imposto também ao avanço dos Incas. Não há acordo. Os Mapuches avançam, então, até o Maule.

Leftaru deixa passar as forças do governador Villagro e avança rumo à desprotegida Santiago, como havia sido feito por índios locais na época de Valdívia. Entretanto, um importante cacique aliado de Leftaru, indignado com os maus tratos impostos aos Picunches, debanda com seus comandados. Enfraquecido, Leftaru desiste de continuar a marcha e acampa na margem sul do rio Mataquito. Avisado desses acontecimentos, Villagro retorna sem que Leftaru tome conhecimento. O ataque surpresa vitima o grande líder e mais 650 dos 800 mapuches que estavam com ele. Leftaru é sucedido por Caupolícán, que é preso e morto no ano seguinte.

Segunda Rebelião Mapuche e a Batalha de Curalaba

O retorno de assentamentos coloniais na Araucânia levam os Mapuches a uma nova onda de ataques iniciada em 1598, na qual se destaca o vice-toqui Pelantaro.

Ao sul de Concepción, o governador Óñez de Loyola fazia uma vistoria na cidade La Imperial, já regressando das vilas de Valdivia, Osorno e Villarrica, quando recebeu um pedido de socorro da cidade de Angol, que estaria prestes a sofre um ataque dos Mapuches. Apesar de a ameaça ser verdadeira, a mensagem foi levada por um índio, que fez chegar a mesma notícia a ouvidos mapuches. Uma emboscada a caminho de Angol pega o governador completamente desprevenido. Um verdadeiro massacre. Pelantaro junta o crânio do governador Loyola ao de Valdivia. Apenas dois castelhanos sobrevivem: um padre franciscano (os outros dois morreram) e um soldado que, de tão ferido, foi dado como morto.

Todas as cidades ao sul de Biobio, exceto Santiago de Castro, são arrasadas. A Terra dos Araucos passa a ser limitada ao norte pelo rio Biobio e, ao sul, pelo canal de Chacao, que separa o continente da Ilha de Chiloé.

Os Parlamentos de Paz e a Terceira Rebelião

Ao longo do século XVII, a guerra permanece viva entre os Mapuches e os Castelhanos de Chiloé, que fazem rápidas incursões escravistas no continente a partir dos fortes de Cabulco e Carelmapu, com apoio de tribos rivais aos Mapuches. Posteriormente, com o avançar dos tratados de paz, o próprio Vice-Rei ordena que os colonos parem com esses ataques.

Depois da destruição da cidade de Valdivia, o pirata holandês Hendrick Brower se alia aos índios Huilliches (Mapuches do sul) contra os Castelhanos em Chiloé e se estabelece na baía de Corral em 1643, nas ruínas da cidade. Ao ser abandonado pelos índios, é obrigado a partir.

Ao norte da Terra dos Araucos, a partir de 1641, missões religiosas dão início a uma abordagem diplomática. São cinco “parlamentos” no século XVII e outros cinco no século XVIII. Como não há uma liderança centralizada dos Mapuches, os acordos obtidos têm eficácia apenas regional.

Pelo primeiro tratado realizado no Parlamento de Quillín, em 1641, os Mapuches conservam sua absoluta liberdade, sem serem molestados, escravizados ou entregues aos encomenderos. Seu território tem como fronteira norte o rio Biobio. Os Castelhanos se comprometem a destruir o forte de Angol, que fica dentro do território Mapuche. Em contrapartida, os Mapuches devem liberar os colonos e soldados cativos e permitir a entrada dos padres em missão de paz e de catequese. Também se comprometem a considerar como inimigo os inimigos da Coroa, não se aliando a qualquer força estrangeira que chegue à costa.

Em 1651, após o Parlamento de Boroa, um navio castelhano encalhado no sul é atacado pelos índios Cuncos para roubar sua carga, matando toda a tripulação. Os próprios Mapuches denunciam a tribo culpada pelo ataque. Novos incidentes com os Cuncos levam a uma expedição punitiva em 1653. A expedição é massacrada no rio Bueno por inépcia de seu comandante.

Em 1655, os Mapuches realizam vários ataques nas fronteiras, levando muitas mulheres, crianças e soldados como prisioneiros e escravos. Após centenas de mortos, os colonos tentam depor o governador Antonio de Acuña y Cabrera, considerado culpado pelo novo levante indígena. A inépcia militar e diplomática de Cabrera chega ao ponto do Vice-Rei nomear um novo governador, que precisa assumir à força. O novo governador, Pedro Porter Casanate, consegue dar cabo da nova rebelião em 1661, mas morre por doença no ano seguinte, sem poder usufruir de seu sucesso.

Nessa terceira grande rebelião, os Mapuches fazem 1300 cativos, saqueiam 396 estâncias, e roubam 400 mil cabeças de gado. Nove fortes são destruídos, bem como metade do armamento da Capitania-Geral. Estima-se que, desde o início da guerra, em 1536, até 1664, cerca de 30 mil castelhanos e, possivelmente, 60 mil índios auxiliares perderam a vida. Do outro lado, 200 mil mapuches foram mortos em combate.

As Rebeliões do Século XVIII

É criado o cargo de Capitão de Amigos, um oficial militar encarregado de viver entre os Mapuches e atuar como mediador entre eles e as autoridades coloniais.  Acabam se tornando personagens ambíguos, que levantam suspeitas de ambos os lados.

Em 1723, após 30 anos sem incidentes entre nativos e colonos, um capitão de amigo, que tirava proveitos comerciais de seu cargo, é assassinado devido a sua conduta soberba e cruel. Com o temor de uma expedição punitiva, os Mapuches se anteciparam e cortaram a comunicação entre os fortes do sul. Após três anos de conflitos, nos quais os fortes sitiados foram evacuados, outro acordo de paz é realizado e os Mapuches se colocam como vassalos autônomos do Rei, com o direito de denunciar o abuso de autoridades coloniais. São estabelecidas feiras trimestrais às margens do Biobio para regular o comércio entre nativos e colonos.

Após novo período de paz de 30 anos, um outro período de conflitos tem início a partir de um acordo entre o governo de Nova Extremadura e caciques mapuches visando construir comunicações terrestres entre Concepción, Valdívia e o canal de Chacao. Para este fim, parte uma expedição de Chiloé e outra de Concepción. Entretanto, esta é atacada pelo cacique Lebián, opositor ao acordo.

O governo colonial volta a se reunir com os caciques para garantir o cumprimento do acordo, mas dessa vez os caciques são mais reticentes. O governo tenta, então, impor sua vontade à força, dando início a conflitos que se estendem por mais de dez anos. Com o passar dos anos, Lebián consegue o apoio de Huilliches e Pehuenches, ampliando a área de confronto. Um tênue tratado de paz é aceito com arrogância por Lebián em 1771.

Um novo governador resolve garantir a paz ao promover a cizânia entre os caciques, a ponto dos principais líderes rebeldes serem sistemática e discretamente assassinados sem levantar suspeitas ou provocar reações. Lebián entre eles.

No final do século, após o término do Caminho Real até Chiloé, que permite a reintegração terrestre de Valdívia à Nova Extremadura, os Castelhanos decidem reconstruir a cidade de Osorno, levando os Huilliches à revolta.  Mais enfraquecidos, os Huilliches se limitam a atacar as haciendas. Frente ao poderio militar superior das forças coloniais, pela primeira vez os nativos são obrigados a ceder uma parte de seu território. Em acordo de paz de 1793, Osorno é oficialmente reconhecida pelos Mapuches, que cedem ao governo colonial a região dos lagos, a partir do rio Rahue, que margeia cidade, até as cordilheiras. Do rio até a costa, permanece território dos Huilliches.

Published in: on 20 de setembro de 2016 at 2:15  Deixe um comentário  

CAPITANIA-GERAL DE NOVA EXTREMADURA

Após a tentativa frustrada de Diego Almagro em 1536, Pedro de Valdívia tomou posse da Capitania-Geral de Nova Extremadura em 1640. O que parecia ser uma empreitada fácil em seu início, apesar de não muito lucrativa, tornou-se uma grande dor de cabeça para os governadores da capitania. No caso de Valdívia, foi literalmente de perder a cabeça.

Organização Política

A capitania é administrada pelo Governador (que também recebe o título de Capitão-Geral), que é assessorado pela Real Audiência. A Audiência serve como órgão consultivo e tribunal de apelações, e é presidida pelo próprio governador. Apesar de autônoma, a capitania-geral está sob a fiscalização de Nova Castela. Porém, muitas vezes o governador se relaciona diretamente com a Metrópole, que envia às colônias as ordens reais, chamadas de Real Cédula.

A justiça em Nova Extremadura é totalmente independente do Vice-Reino, exceto no que diz respeito ao Tribunal da Inquisição, com sede em Lima. Quanto aos demais assuntos, tudo é decidido na Real Audiência de Concepción.

Já os recursos militares e comerciais dependem diretamente do Vice-Reino. A Casa da Moeda de Santiago surge apenas em 1743. Na guerra contra os Mapuches, os governadores exercem uma boa autonomia estratégica. Quando a ameaça a ser combatida parte da pirataria, particularmente aquela patrocinada por reinos rivais, os Vice-Reis tomam a frente. Pode-se dizer que o governador tem autonomia para questões internas, mas não para relações internacionais.

Os Corregedores governam as províncias como tenentes do governador. O Cabildo cuida da administração das cidades.

No início do século XVII, a capitania encontra-se dividida em seis províncias: Santiago (1541), do vale do rio Choapa (ao norte) ao vale do rio Maule (ao sul); La Serena (1544), do vale do Copiapó (norte) ao vale do rio Choapa (sul); Concepción (1550), do vale do rio Maule (norte) ao rio Biobio, fronteira com a Terra dos Aruacos; Cuyo (1565); Chiloé (1567), ilhas e fortes continentais; e Chillán (1580), na planície entre as cordilheiras, do rio Maule ao rio Itata. Valdívia volta a ser província após ser refundada em 1645, mas passa a depender diretamente de Nova Castela devido ao seu isolamento do resto da capitania por via terrestre.

Igreja

A Diocese de Santiago responde à Arquidiocese de Lima. As cinco Ordens de Nova Castela se fazem presentes: Franciscanos, Jesuítas, Mercedários, Dominicanos e Agostinianos.

Os padres ministram uma educação rudimentar: ensinam religião, noções de matemática, e a ler e escrever. Há também escolas para formar mão de obra, como corte e costura para mulheres.

Os Mercedários foram a primeira ordem a chegar á região e iniciar a atividade missioneira, tanto no vale central quanto junto aos Mapuches. Entretanto, sofreram um revés com as primeiras rebeliões no século XVI, dando espaço ao avanço dos Jesuítas no século XVII a partir de Chiloé.

Sociedade

Os castelhanos ocupam os mais altos cargos públicos e militares.

Os criollos pertencem à aristocracia, são donos de terra e de boa parte das atividades produtivas. Possuem poder econômico, mas não político, logrando ocupar cargos de pouca importância.

A classe média é incipiente. Os mestiços são a principal mão de obra, o grosso da sociedade: artesões, militares de baixa patente, pequenos comerciantes. Apesar de livres, são discriminados, não participando de atividades políticas e administrativas.

Os índios não podem ocupar função pública. São regidos por uma legislação que os trata como menores de idade. De certa forma, são mais protegidos pela lei do que os mestiços.

Os poucos negros presentes na capitania se encarregam de trabalhos domésticos. Tão poucos que a presença de usuários de magia dessa cultura é raríssima na região.

As Tribos

A região é dominada pelos Mapuches e seus subgrupos: Huilliches, Cuncos, Picunches e Pehuenches. Nas ilhas do sul, predominam os Chonos. Ao norte, vivem os Diaguitas. Todos são descritos com mais detalhes no capítulo sobre tribos nativas.

Economia

A Encomienda é o principal sistema econômico no século XVI: um encomendero submete um grupo de índios que trabalha para ele como forma de tributo. O encomendero lhes dá proteção, vestimenta e alimentação. Com a queda do número de índios, o sistema é substituído progressivamente pelas haciendas.

A Hacienda, a partir do século XVII, é a base da economia rural. Trata-se de grandes pedaços de terra que fabricam o necessário para o seu sustento. O estancieiro contrata inquilinos e peões pra trabalhar. Os inquilinos trabalham em troca de terras, onde podem morar, plantar e criar gado para seu próprio sustento e comércio. Os peões trabalham por dinheiro, geralmente na época da colheita. Os principais produtos são trigo e cevada.

A mineração surge já no século XVI, mas com baixa produção (comparado à Nova Castela) de ouro aluvial, prata, cobre e chumbo.

GEOGRAFIA

Os limites de Nova Extremadura são o vale do rio Copiapó na fronteira norte e o rio Biobio ao sul. Ao sul da terra dos Araucos, há a Ilha de Chiloé e arredores.

Hidrografia

É fácil dividir o território da capitania pelos rios que cortam suas terras correndo das cordilheiras até o oceano. De norte a sul, os vales são: Copiapó, Huasco, Elqui, Choapa, Petorca, Aconcágua, Maipo, Mataquito, Maule, Itata, Biobio. Seguindo pela Terra dos Araucos: Imperial, Toltén, Valdívia, Bueno e Maullín.

Terremotos

Toda a região é marcada por constantes abalos sísmicos, em sua maioria de baixa intensidade, mas não são raras as grandes catástrofes naturais, ocorrendo eventuais maremotos.

Relevo

A capitania é formada por duas longas cadeias de montanhas longitudinais e uma depressão central que as separa.

A cadeia oriental é a cordilheira andina, que segue desde o norte do continente, prosseguindo a partir do Altiplano. Essa cordilheira é repleta de vulcões e é constantemente abalada por tremores de terra. Na parte centro-norte da capitania, os Andes apresentam as maiores altitudes, como o Nevado Ojos del Salado, um vulcão ativo que ultrapassa os 6.800 metros. À medida que se aproxima do extremo sul, a altura vai caindo para 3 mil metros, correndo bem junto ao mar a partir de Chiloé,  chegando aos 2500 metros na Terra do Fogo.

O relevo contínuo dos Andes dificulta a travessia. Ao norte de Santiago, os pontos de travessia alcançam 4 mil metros. Ao sul, os vales de origem glacial facilitam o acesso à Patagônia. As cadeias montanhosas entrelaçadas formas inúmeras ilhas onde a ação do gelo é acentuada.

A cadeia montanhosa ocidental é a cordilheira da costa, de altitude moderada. Ela também vai diminuindo a altitude no sentido norte-sul, indo dos 3 mil metros no Atacama aos 2 mil metros no vale central. Ao sul, perde continuidade, formando cadeias isoladas de montanhas.

A cordilheira da costa prossegue pela ilha de Chiloé e os arquipélagos do extremo sul, com altura de mil metros e um clima difícil, com fortes ventos.

A depressão entre as duas cordilheiras é preenchida por aluviões e detritos que formam planícies estreitas e descontínuas, desde os pampas desérticos do norte aos grandes vales do centro, onde fica Santiago, e do sul, na Araucânia e na região dos lagos. Entre La Serena e Valparaíso, as duas cadeias se encontram e a depressão desaparece, alcançando o ponto mais próximo entre os Andes e o mar: 90 km. A partir de Chiloé, a depressão é substituída pela faixa de mar entre as ilhas e a costa íngreme.

Entre a cordilheira da costa e o mar há uma estreita faixa de planícies litorâneas pouco recortadas. No Atacama, a cordilheira da costa cai abruptamente, tornando a planície costeira quase inexistente.

Clima

O vale do Copiapó delimita o sul do deserto do Atacama, extremamente árido e de raras precipitações. As cidades costeiras da região costumam ser tomadas por uma névoa matinal conhecida como camanchaca, que só se dissipa por volta do meio-dia. A umidade da névoa, provocada pelo mar frio, permite o aparecimento de bosques de alfarrobeiras, cactos e arbustos espinhosos.

Os vales centrais apresentam temperatura média de 14°C e clima seco, formando uma estepe de acácias e palmeiras. A depressão entre as cordilheiras forma vales férteis, o que permite o desenvolvimento agrícola da colônia. As estações são bem marcadas, com verão seco e quente, com máxima de 36°C, e inverno frio e chuvoso, com máxima de 8°C.

O sul é bem mais frio e chuvoso, permitindo densas florestas de araucárias, carvalhos e faias. O extremo sul é dominado por um clima subpolar.

AS CIDADES

A Capital (Província de Santiago)

Santiago de Nova Extremadura: o governador Pedro de Valdívia elegeu o povoado indígena às margens do rio Mapocho para ser a capital de seu governo. No mesmo ano de sua fundação, 1540, os índios da região aproveitaram a partida de Valdívia para guerrear com os Mapuches ao sul para atacar a cidade, que foi arrasada, mas não conquistada. A resistência foi liderada por Inés de Suárez, esposa do governador.

A primeira catedral é construída em 1572. Santiago parecia destinada a sofrer provações: sofre um terremoto em 1575; epidemia de varíola em 1590; enchente do rio Mapocho em 1608 e 1618; e um novo terremoto em 1647, que vitima mais de 600 pessoas.

Como a cidade fica no planalto entre as cordilheiras, o porto mais próximo é o de Valparaiso. Os Castelhanos chegaram a Valparaiso em 1536, que logo vira uma pequena vila portuária, com poucas casas e uma igreja. Só no século XIX a vila começa a crescer.

Seguindo para o norte da província, pouco acima de Valparaíso e Santiago, o vale do rio Aconcágua sempre foi densamente povoado pelos Diaguitas. Valdívia levanta uma fortaleza na região e encontra ouro em La Campana. Só em 1717 o povoado de San Martin de La Concha se torna uma cidade.

Cidades do Norte (Província de La Serena)

San Bartolomé de La Serena: fundada por Valdivia em 1544 no litoral norte, perto da foz do rio Elqui, em uma região ocupada pelos índios Diaguitas. Cinco anos depois, uma revolta indígena mata quase todos os colonos. Em 1579, a cidade é atacada pelo corsário inglês Francis Drake, que é rechaçado por milicianos. Em 1681, melhor sorte tem o compatriota de Drake, Bartolomé Sharp, que incendeia a cidade. Em 1686, dois novos ataques de piratas são rechaçados. A cidade é então fortificada, contendo assim a fuga constante da população.

O vale do rio Huasco, entre La Serena e Copiapó, era ocupado durante a dominação Inca por Diaguitas e por Changos, índios seminômades que pescavam na costa. Em 1589 sai o primeiro carregamento de cobre para a Metrópole. Em 1600, desembarca em Huasco o pirata holandês Olivier Van Noort, onde fica por oito dias e chega a saquear Santa Rosa de Lima, um vilarejo próximo, a meio caminho de Vallenar, onde ficam as minas de cobre.

Em 1633 é construída a primeira igreja do vale, em San Francisco de Huasco Bajo, uma vila um pouco afastada do litoral. Quarenta anos depois, Huasco Bajo conta com 3400 pessoas, sendo a maior vila do vale. Em 1681, Bartolomé Sharp, após incendiar La Serena, desembarca em Huasco para roubar alimentos, fazendo com que os índios fujam para o interior. Em 1683, Charles Davis permanece ancorado no porto, mas não desembarca. A população foge assim mesmo.

Copiapó: primeira cidade da região a receber a expedição de Almagro em 1536. Na época, a província era chefiada por dois caciques: um que comandava da cidade até a costa, e o outro, os vales até as cordilheiras. A região de Copayapu, como era conhecida entre os Incas, havia sido anexada ao Império do Sol em 1470. Os incas construíram cemitérios, prédios administrativos, templos, minas, centros metalúrgicos, pontes, tambos e observatórios astronômicos. Em 1540, Valdívia mandou realizar ali a 1ª missa de Nova Extremadura, marcando a sua posse do território. A sociedade é agropastoril, com muitos povoados espalhados pelo interior, mas vira cidade colonial apenas em 1744. Só em 1832 é descoberta prata na região.

Apesar de haver muitas vilas e povoados, muitas cidades do norte só são fundadas de meados do século XVIII em diante.

Cidades do Sul (Províncias de Chillán e Concepción)

San Bartolomé de Gamboa: fundada em 1580 no centro da planície entre a cordilheira da costa e a andina, entre os rios Chillán e Ñube. É destruída pelos Mapuches no final da terceira rebelião, reconstruída na década seguinte. Cem anos depois, foi novamente destruída por um grande terremoto, que causou, inclusive, mudança no curso do rio Chillán.

Concepción: fundada em 1550 no litoral sul, ao norte da foz do rio Biobio. Era o centro dos assentamentos coloniais no sul da capitania. Em seus dez primeiros anos foi destruída três vezes pelos Mapuches, sendo saqueada, incendiada e atacada duas vezes por piratas. A população fugiu para Santiago, que, sem capacidade para abrigá-la, levou o governador a tentar reerguer a cidade, transformando-a em uma cidade militarizada.

Em 1565, a cidade vira sede da Real Audiência, o principal tribunal de justiça da capitania. Em 1604, abriga o primeiro exército profissional de Nova Extremadura. Devido ao ataque de piratas ingleses, em 1687 é construído o Forte La Planchada em Penco, ao norte da cidade. Em 1751, um terremoto de 8.5 seguido de maremoto destrói a cidade e faz com que ela mude de lugar, afastando-a da enseada e posicionando-a rio adentro, traslado que levou 14 anos de discussões para ser efetuado.

Ilha de Santa Maria: próxima à foz do rio Biobio, em mar aberto, foi descoberta pelos Castelhanos em 1544, sendo recebidos pacificamente pelos cerca de mil índios que já viviam por lá. Torna-se ponto de parada dos piratas para abastecimento.

Forte San Felipe de Arauco: erguido em 1552 por Valdívia, pouco abaixo de Concepción, na confluência dos rios Conumo e Carampangue, O forte é destruído e reconstruído várias vezes ao longo de muitas batalhas. Ganha o status de cidade apenas em 1852.

Cidades do sul fundadas e destruídas no século XVI (Província de Valdívia)

Santa María La Blanca de Valdívia: cidade portuária fundada em 1552. Possui grande importância estratégica como ponte entre a Ilha de Chiloé e o resto da colônia. Localizada na confluência dos rios Cruces e Callecalle, que formam o rio Valdívia. A cidade é destruída por um terremoto em 1575 e pelos Mapuches em 1599.

Em 1643, o pirata holandês Hendrick Brower chega à cidade fantasma e se alia aos Huilliches para atacar Chiloé. Como os holandeses mostram muito interesse por metais preciosos, os Huilliches acabam partindo, obrigando o pirata a deixar a região.

Em 1645, o governo ergue o Forte San Pedro de Alcántara na Ilha de Mancera, na entrada da estreita baía formada na foz do rio Valdívia, repovoando a região aos poucos.

Em 1658, Valdívia é refundada, mas correndo sempre perigo de ser atacada por índios ou piratas. A cidade permanece isolada do resto da colônia pelo continente até fins do século XVIII. Devido a sua importância estratégica, Valdívia fica diretamente subordinada à Nova Castela por um bom período. Em 1740, retorna para a Capitania-Geral.

Outros três fortes são construídos ao redor da baía, formando um eficiente sistema de defesa: San Sebastián de La Cruz, San Luis de Alba de Amargos e Monfort de Lemus. Em meados do século XVIII, um quinto é erguido, o Forte San Carlos.

Cañete: fundada em 1557 a partir do Forte Tucapel, de 1552, a meio caminho entre Concepción e La Imperial, um pouco afastada do litoral. Os colonos são obrigados a abandonar a cidade em 1563. Nova tentativa de ocupá-la em 1666 não prospera. Só em 1868 ela volta a ficar de pé.

Angol: fundada em 1553, dois meses antes da batalha que vitimou Valdívia. A cidade é reconstruída em 1560 e novamente destruída em 1600. Novas tentativas frustradas em 1637 e 1641, quando é abandonada devido a um acordo com os Mapuches.

La Imperial: fundada em 1551 às margens do rio Imperial, um pouco afastada do litoral, a meio caminho entre Concepción e Valdívia. Apesar de defenderem bravamente a cidade em 1600, os soldados e a população tiveram de abandonar a cidade após um prolongado sítio dos Mapuches.

Santa Maria Magdalena de Villarrica: fundada em 1552 às margens do lago de mesmo nome, com um vulcão ativo no outro extremo. Tem como objetivo explorar ouro aluvial e consolidar o local como entreposto para a Patagônia e o Atlântico, uma vez que a região abriga a passagem mais acessível de um lado para o outro da cordilheira. Após a derrota de Valdívia em 1553, o novo governador manda despovoar as cidades da região dos lagos. Em 1554, seus habitantes partem pra La Imperial e Concepción. Abandonada, a cidade é reduzida a cinzas. Refundada no ano seguinte, investe na exploração de ouro e prata e no comércio de escravos, vinho e sal com Córdoba e Santa Maria de los Buenos Aires, até ser atacada em 1598 pelos Mapuches. No ataque, a cidade fica completamente isolada das demais, sem comunicação alguma. Resiste a um sítio de três anos, tendo que recorrer ao canibalismo. Um pequeno grupo consegue fugir e escapar do ataque final. É refundada apenas em 1882.

San Mateo de Osorno: fundada em 1558 nos lagos do sul. Na região viviam 80 mil índios. A cidade mantinha estreitas relações com a cidade de Castro, em Chiloé. Em 1602, a cidade é cercada e destruída. A maior parte da população foge com a ajuda de índios que não se rebelaram, logrando chegar a Chiloé. Esses índios ganham o direito de portar armas, fazendo parte das forças do forte de Cabulco.

Em 1598, os Mapuches destroem todas as cidades ao sul de Biobio, permanecendo de pé apenas Castro, em Chiloé. Valdívia, por sua importância estratégica, merece por parte da Coroa um esforço maior para ser reocupada.

PROVÍNCIA DE CUYO

A província de Cuyo fica na Patagônia, do outro lado da cordilheira, na mesma latitude da província de Santiago, e ao sul da Província de Tucumán. A região foi descoberta por Francisco de Villagra, que viria a substituir Valdívia como governador de Nova Extremadura. A província permanece como parte de Nova Extremadura até 1776, quando passa a integrar o Vice-Reino do Rio da Prata.

Geografia

O relevo é montanhoso, a vegetação é escassa, o clima é desértico, com rios originários do degelo da cordilheira. A região é assolada por um vento forte e seco chamado Zonda, que eleva a temperatura e traz muita poeira. O Zonda ocorre com mais frequência entre maio e outubro.

As Cidades

Mendoza del Nuevo Valle de La Rioja: fundada em 1561, consegue viver pacificamente com os índios da região. A cidade é estratégica como ponto de parada entre Santiago e o Rio da Prata. É a segunda maior da Capitania-Geral.

San Juan de la Frontera: fundada em 1562 ao norte de Mendoza como elo de ligação com a Província de Tucumán. Em 1593, a enchente do rio arrasa a cidade e obriga uma mudança de local.

San Luís de Loyola: fundada em 1594 a leste de Mendoza. Importante ponto de ligação da província com o Rio da Prata. No início do século XVIII, os Pehuenches saqueiam San Luís e tomam vilarejos da região.

Entre 1769 e 1770, os Pehuenches realizam diversos ataques relâmpagos a Mendoza, tomando o Forte San Carlos. Em 1771 é erguido o Forte San Juan. Em 1778, um acordo de paz é oferecido pelo então Vice-Rei do Rio da Prata, o que leva a divisões e guerra entre os índios, que dura até 1800.

ILHA DE CHILOÉ

Antes da chegada dos Castelhanos, a ilha era habitada por Chonos, Cuncos e Huilliches. Muitos acabaram aderindo ao catolicismo.

Geografia e Fauna

A ilha é uma continuação da cordilheira da costa. O litoral ocidental, voltado para o mar aberto, é escarpado e sem portos naturais. O seu interior apresenta uma sucessão de colinas altas cobertas de vegetação, de alturas que variam de 500 a 800 metros. Entre as colinas e o mar interior há planícies e morros mais baixos, onde há agricultura e exploração florestal. Ao contrário da costa ocidental, a costa oriental, voltada para o mar interior, é recortada por enseadas, promontórios e pequenas ilhas.

Neva com pouca frequência, mas chove todo o ano. A ilha é cheia de rios e lagos, possuindo cobertura vegetal abundante. A plantação de batata foi introduzida com muito sucesso no século XVI, chegando a apresentar 400 variedades.

A grande variedade de ervas medicinais e de outras propriedades já era intensamente explorada pelos índios da região. Na colônia, passa a ser objeto de estudo dos Jesuítas e a ser cobiçada por bruxos.

A fauna é repleta de aves e animais marinhos. Abriga também o zorro chilote e o pudú, o menor cervo do mundo. Os colonizadores introduzem no século XVI o cavalo e as ovelhas, que acabam desenvolvendo um tipo de raça própria.

As Cidades

Santiago de Castro: fundada em 1567, nos fundos de uma baía protegida por ilhas, em um local de muita vantagem defensiva, com água em abundância e uma pequena quantidade de ouro arrastado pelo rio. Em 1594, abrigava 8 mil habitantes.

Em 1600, a cidade é atacada pelo corsário holandês Baltazar de Cordes, que só obtém sucesso devido a um ardil planejado com os Huilliches. Fazendo-se passar por comerciante, convence as autoridades que um ataque indígena é iminente, o que faz a população se refugiar na igreja. Quando os Huiliches chegam, os holandeses matam os varões castelhanos e constroem um forte improvisado. Com medo de que o episódio venha a colaborar com os Mapuches na guerra, Nova Castela investe no contra-ataque. Cordes consegue escapar, mas é preso em Callao (Nova Castela). A cidade recebe os sobreviventes de Osorno, que havia sido atacada pelos Mapuches, resgatados pelas mesmas forças que libertaram Castro.

San Antonio de Chacao: fundada também em 1567 ao norte da ilha, inicialmente como forte. Em 1768, a população, pouco mais de uma centena, é transferida para San Carlos de Chiloé.

Santa Maria de Achao: pequena vila fundada em 1753 na ilha de Quinchao, localizada em frente à baía que abriga Santiago de Castro. A vila é voltada para o mar interior. Sua igreja, Nossa Senhora do Loreto, é o abrigo final da imagem de Nossa Senhora de Nahuel Huapi, resgatada por uma expedição militar às margens do lago Nahuel Huapi.

Com a guerra contra os Mapuches, dois fortes são erguidos no continente, um em cada ponta do canal Chacao, que separa a ilha da Terra dos Araucos: San Antonio de la Ribera de CarelmapuSan Miguel de Calbuco. Em meados do século XVII, o forte San Francisco Javier de Maullin é construído na foz do rio Maullin.

O forte San Miguel, pouco depois, é transferido para a ilha de Caicaén. De Cabulco partem expedições militares até o lago Nahuel Huapi, na Patagônia. O forte recebe os índios que ficaram ao lado dos colonos no ataque dos Mapuches a Osorno. Com o tempo, os soldados vão se assentando em torno do forte com suas famílias. Até o final do século XVII já havia virado um povoado. Em 1675, uma expedição parte de Cabulco rumo ao sul em busca da Cidade dos Césares.

O forte em Carelmapu é invadido e incendiado em 1642 pelo pirata holandês Hendrick Brower. A vila é posteriormente reconstruída.

Como dos dois fortes partem “bandeiras” contra os índios, os bosques ao sul da Terra dos Araucos, próximo ao canal, permanecem praticamente desabitados. Posteriormente, com o início das negociações de paz entre os Mapuches e o governo de Nova Extremadura, tais ataques são proibidos pelo Vice-Rei.

Os Jesuítas chegam à região em 1609. Nos primeiros anos, instalam-se no forte de Cabulco. Em 1656, os missionários partem para as ilhas do sul. Em 1660, dois jesuítas missionam entre os Chonos e chegam ao Estreito.

Em contrapartida ao avanço do cristianismo nas ilhas, Chiloé também abriga o mais poderoso grupo de bruxaria da colônia, a Recta Provincia (ver detalhes no capítulo de Magia).

Published in: on 20 de setembro de 2016 at 2:09  Deixe um comentário  

ATACAMA

O Atacama não faz parte da Capitania-Geral de Nova Extremadura, mas do Corregimento de Potosí, apesar de geograficamente ser mais acessível a partir da Província de Santiago. Por isso, apesar de pertencer administrativamente à Nova Castela, foi incluída na ambientação do Sul.

A região é habitada pelos índios Atacameños, exceto no vale do Copiapó, tomado pelos Diaguitas. No estreito litoral habitam os Changos.

Diferentemente do Império do Sol, os Castelhanos mantiveram pouco interesse por assentamentos na região até o século XIX, ainda que ocupassem as cidades já existentes, mas com pouco contingente de pessoas. A região é administrada pela Real Audiência de Charcas.

O Deserto

O deserto costeiro do Atacama é situado no sul do Vice-Reino de Nova Castela e norte da Capitania-Geral de Nova Extremadura. É rico em cobre, mas também podem ser encontrados ferro, ouro e prata.

É considerado o deserto não polar mais árido do planeta, podendo haver períodos de 15 a 40 anos sem chuva. Em seu centro há regiões que ficaram mais de 400 anos sem chuva. O período mais propício a chuvas é em janeiro e fevereiro, geralmente garoas muito suaves e isoladas. Ainda assim, há ocorrência de grandes tempestades elétricas. Há temporadas de ventos fortes e tornados.

A variação de temperatura entre o dia e a noite pode chegar de 50ºC a -25°C. Praticamente não há diferenças entre verão e inverno. A umidade relativa do ar é muito baixa no interior, cerca de 18%, e altíssima no litoral, chegando a 98%.

A corrente de água fria que percorre a costa não permite a formação de nuvens de chuva, fenômeno que afeta também quase toda a costa de Nova Castela. As poucas que chegam a ser formadas são contidas pela cordilheira da costa, que desce bem junto ao estreito litoral. Já a cordilheira andina é uma continuação da zona vulcânica ao sul de Arequipa, que impede a chegada da umidade proveniente da selva.

As Cidades

Toconao: povoado de mais de 12 mil anos próximo à salina de Atacama. Agricultura de sobrevivência em um oásis de água pura, que permite o cultivo de várias frutas. As casas são de pedra vulcânica branca, que mantém a temperatura interna estável.

San Pedro de Atacama: fundada antes da chegada dos Castelhanos, em 1450. Área repleta de gêiseres e salinas.

Calama: tão antiga quanto San Pedro. O clima excessivamente árido não estimula maior presença colonial. Por ela passa o principal rio da região, o Loa.

Lasana: pequeno povoado indígena que conserva sua cultura ao longo do tempo. Dedicado à cultura do milho e outras hortaliças, bem como à criação de carneiros e lhamas. O povoado se ergue a partir de uma pukará, fortaleza indígena do século XII.

Pica: fundada em 1540 ao largo de um caminho inca. Concentra a maior população castelhana da região, comerciando vinho com Potosí e Arequipa. No século XVIII é descoberta a mina de prata de Huantajaya.

Iquique: cidade da costa habitada por Kollas e Changos, havendo também uma pequena e inusitada presença de Uros.  A cidade é usada pelos Castelhanos para a coleta de guano e como porto.

San Lorenzo de Tarapacá: fundada em 1536. Diego de Almagro passou pela região voltando para Cusco e Pedro de Valdívia passou indo para Nova Extremadura. Tornou-se uma vila próspera com a fabricação de vinhos e o comércio com Lima e Potosí.

San Marcos de Arica: fundada em 1541 em um povoado indígena de mais de 11 mil anos. Foi dominada pelo Império Tiahuanaco e, posteriormente, pelo Império do Sol. A cidade tornou-se o principal porto para o escoamento da prata de Potosí. Sofreu dez ataques piratas ao longo de sua história. Nunca chegaram a tomar a cidade, mas atacaram muitos galeões que partiam de seu porto.

Published in: on 20 de setembro de 2016 at 2:05  Deixe um comentário  

GUERRAS CALCHAQUIS

Trata-se do frequente enfrentamento entre a Confederação Diaguita e os colonizadores castelhanos entre 1560 e 1667. Os Diaguitas habitam a região de serra de Tucumán, de San Salvador de Jujuy até La Rioja, atravessando as cordilheiras e ocupando o vale do Copiapó e arredores, no norte de Nova Extremadura. Já faziam parte do Império do Sol, mas, com a chegada dos Castelhanos, muitos se refugiaram nos montanhosos vales Calchaquis, de difícil penetração. A confederação é formada pela reunião de várias etnias unidas por uma língua comum, o Cacán, a qual se juntaram os Omaguacas. Os Calchaquis vivem nas altas montanhas, em território agreste, difícil de atacar e fácil de defender.

Primeira Guerra Calchaqui

A primeira revolta teve origem em 1562, quando o cacique Juan Calchaqui aceitou ser batizado como parte das negociações de paz e ficou indignado ao perceber a real natureza da exploração indígena nas encomiendas. Lançou-se então ao ataque e destruiu as três cidades serranas que formavam o cinturão defensivo de Santiago del Estero. A mesma onda de ataques destruiu a Cidade de Nieva, mais ao norte. Esta primeira guerra resultou na separação da Província de Tucumán da Capitania-Geral de Nova Extremadura.  Os Castelhanos tentaram contra-atacar sem sucesso, mas constataram que os índios já não possuíam a mesma força para realizar outra onda de ataques semelhante.

A Rebelião de Viltipoco

Em 1594, o cacique omaguaca Viltipoco lidera 10 mil guerreiros da Quebrada de Humahuaca em um sítio à cidade de San Salvador de Jujuy, para dar cabo ao serviço indígena nas encomiendas, ameaçando também a cidade de Salta. Seus guerreiros recebem apoio dos Diaguitas. O ataque corta a ligação da região com Nova Castela. Dessa vez os castelhanos conseguem resistir e contra-atacar com sucesso, invadindo a Quebrada e prendendo Viltipoco, que acaba morrendo na prisão.

Segunda Guerra Calchaqui

O novo governador de Tucumán manda castigar 200 Hualfines (uma das etnias Diaguita) que trabalhavam nas encomiendas. O castigo consiste em açoitamento e corte do cabelo, só que este é considerado ofensa máxima para um hualfín. Assim, em 1630, o cacique Chalimín promove um levante contra os colonizadores, o que logo ganha a adesão de várias tribos: Capayanes, Olongastas, Yacampis e Calchaquis. Os encomenderos são mortos ou expulsos.

O contra-ataque em 1631 garante uma pacificação imediata, mas logo as hostilidades continuam. Neste mesmo ano, os Diaguitas sitiam La Rioja, mas reforços vindos de San Miguel de Tucumán aliviam a situação. Em novo contra-ataque, os Castelhanos são bem sucedidos e matam muitos índios, fazendo com que abandonem seus povoados e busquem abrigo mais ao norte, no Chaco. Contudo, mais uma vez a vitória havia sido breve.

Apenas em 1637 os castelhanos conseguem debelar a revolta e submeter os Diaguitas novamente às encomiendas. Chalimín foi finalmente preso, assassinado e esquartejado. Entretanto, os vales Calchaquis continuam servindo de refúgio aos índios indomáveis.

Terceira Guerra Calchaqui

A terceira onda dura de 1658 a 1667, iniciada por um aventureiro andaluz, Pedro de Bohorquez, que se autodenomina Inca Hualpa. Ele consegue o apoio dos Quilmes e até mesmo de jesuítas, juntando sob o seu comando 6 mil guerreiros. Os Jesuítas veem em suas ações uma facilitação ao processo de cristianização dos Diaguitas. Assim, Bohorquez consegue manter o controle da região por vários anos. Entretanto, o Vice-Rei não tem a mesma visão dos Jesuítas e ordena prendê-lo.

Em 1659, Bohorquez se entrega ao exército, achando que iria ser perdoado, mas é levado a Lima e executado. A confederação continua a guerra em apoio aos Quilmes, destruindo as missões da região, até o novo líder ser vencido em 1665. O governo promove a dispersão de 11 mil índios rebeldes em reduções próximas a Santa Maria de los Buenos Ayres. Os Quilmes são obrigados a caminhar de Tucumán até o rio da Prata.

Alguma resistência ainda persiste até 1667. O Vice-Rei decide deportar, dividir e escravizar os Diaguitas remanescentes.

Published in: on 20 de setembro de 2016 at 1:14  Deixe um comentário  

PROVÍNCIA DE TUCUMÁN

Quando Almagro chegou à região em 1535, após descer pelo interior do Altiplano vindo de Nova Castela, nela viviam cerca de meio milhão de Diaguitas. Entretanto, a primeira cidade colonial só foi fundada em 1550, seguida de mais quatro nos dez anos posteriores, sempre com bastante resistência dos nativos. Neste período inicial, a Província de Tucúman permaneceu atrelada à Capitania-Geral de Nova Extremadura.

Em 1560, os Diaguitas promovem uma guerra contra os colonizadores e saem vencedores. Em 1563, em reação, o Vice-Rei decide tornar Tucumán uma província autônoma vinculada diretamente a Nova Castela, sendo administrada por um governador, em vez de um corregedor, e regrada pela Real Audiência de Charcas, localizada na Corregedoria de Potosí. Em 1585 chegam os Jesuítas.

Uma vez que há poucos metais preciosos no território e este fica longe do Vice-Reino, a luta entre os Castelhanos por terras é ferrenha e desregrada, levando a atritos entre os governos de Nova Extremadura e de Nova Andaluzia. Posteriormente, a ocupação da província é intensificada, a fim de construir um caminho seguro de Nova Castela até as províncias do sul.

A forma de premiar os colonos pela difícil empreitada é a encomienda, coluna vertebral e motor fundacional das cidades, mas algumas são criadas sem autorização. As terras férteis e de clima mais ameno são cobiçadas, mas as melhores estão justamente nos vales Calchaquis, onde a resistência à dominação se mantém por 100 anos.

Ao contrário do que ocorre em Nova Extremadura e Nova Castela, os encomenderos detêm o poder nos cabildos até o século XVIII, quando começam a perder força ante as reformas administrativas na colônia. Um encomendero submete um grupo de índios que trabalha para ele como forma de tributo, e lhes dá proteção, vestimenta e alimentação.

No final do século XVII, a região se encontra suficientemente estável para estabelecer uma boa relação comercial com Nova Castela, principalmente no comércio de algodão.

As encomiendas definham no início do século XVIII por falta de mão de obra. Além da concorrência com as missões jesuíticas e a crescente mestiçagem, entre 1686 e 1720 ocorre uma sucessão de pestes. Fuga e ataques indígenas são também fatores de diminuição da mão de obra.

Real Audiência de Charcas

Este tribunal de apelação foi criado em 1599, sediado na cidade de La Plata, no Altiplano, próxima a Potosí. Sua jurisdição abarca as províncias de Tucumán, Rio da Prata, Guayrá e Santa Cruz de la Sierra, e os corregimentos de Potosí e La Paz.

As Tribos

A Província de Tucumán é dominada pela Confederação Diaguita, com seus vários subgrupos, entre os quais se destacam Quilmes, Calchaquis, Capayanes, Yacampis e Olongastas. A região oriental da província é dominada pelos Guaicurus. No norte há a presença de Kollas, Wichís e Omaguacas, que dominam a Quebrada de Humahuaca

GEOGRAFIA

A província acompanha a vertente oriental da cordilheira desde o Altiplano até os limites da Província de Cuyo. Estende-se a leste pela zona alta dos Pampas e, ao norte, até o rio Bermejo, que separa o Chaco Austral do Chaco Central.

Metade do ano é de clima agradável, com inverno frio e seco, quase sem chuvas. O verão é bastante quente e chuvoso. Terremotos são frequentes, mas de baixa intensidade.  Na fronteira com a Província do Rio da Prata, junto à margem sul do rio Bermejo, ergue-se um bosque agreste conhecido como “o Impenetrável” (ver no capítulo sobre o Chaco).

Deserto das Salinas

Localizado a meio caminho entre Córdoba e Catamarca, ocupa uma área de 6 mil km². No centro há uma falha tectónica onde se acumula água das chuvas procedente das serras. Clima seco e quente, chegando costumeiramente a 45°C. Parece um campo nevado, mas é um campo de sal. Em épocas de inundação, as salinas apresentam um aspecto espelhado. Grande amplitude térmica entre o dia e a noite, bem como verão e inverno.

A poucos quilômetros dali, direção nordeste, há a salina de Ambargasta, com 4.200 km². A oeste, o lago de sal La Antigua, com 410 km². Juntas, formam a maior área de salinas do planeta.

Mar de Ansenuza

Grande lago de água salgada, sem saída para o mar, a nordeste de Córdoba. É chamado pelos colonos de Laguna de Los Porongos, que, à época da fundação da cidade, confundiram o lago com o oceano Atlântico.  Pode alcançar uma área de 8.000 m² e profundidade de 11 metros em época de cheia, ou de 2.000 m² após um período intenso de seca.

O lago é formado por três afluentes, dois deles vindos do sul, e o principal, o rio Dulce, que banha Santiago del Estero, do norte. Antes das águas do rio Dulce chegarem ao lago, ele forma um banhado de área semelhante ao próprio lago. O local é um santuário de peixes e pássaros protegido, segundo a lenda, pela deusa Ansenuza.

AS CIDADES

A Capital

Santiago del Estero: fundada oficialmente em 1553 em decorrência da fundação de outra cidade, El Barco.

El Barco foi fundada em 1550 por Nuñez de Prado. Só que os fundadores entraram em conflito com uma expedição castelhana enviada por Valdívia, governador de Nova Extremadura. O pessoal de Nuñez acabou decidindo mudar a cidade para um local mais ao norte, fundando El Barco II no ano seguinte. Entretanto, a Real Audiência de Lima ordenou que a cidade retornasse para o sul, pois os índios da região eram muito beligerantes. Quem se opôs à mudança foi condenado à forca. Assim, oitos meses após terem se restabelecido, os moradores tiveram que migrar para o sul, para fundar El Barco III. A cidade foi reinstalada em meio em a uma tribo de índios agricultores que ofereceram resistência. Os colonos tiveram de rechaçar um ataque de 4 mil índios.

El Barco III ficava em meio a um bosque, próximo a cursos d’água ricos em pesca, além de bons pastos e caça abundante. Mas Nuñez estava insatisfeito com o novo sítio, temendo nova intervenção do governo de Nova Extremadura. De fato, em 1553, homens de Valdívia tomaram a cidade e fizeram de Nuñez prisioneiro. O novo comandante, Francisco de Aguirre, para escapar das constantes cheias do rio Dulce, mandou mudar novamente a cidade de lugar, que recebeu o nome dessa vez de Santiago del Estero.

A nova cidade serve de base para a fundação de diversas cidades da província, como San Miguel, Córdoba, Salta, San Salvador de Jujuy e Catamarca. Localização central, importante na ligação entre Nova Castela e o rio da Prata. A cidade atua também como protetora das cidades menores, enviando várias expedições militares, até mesmo rumo à Província do Rio da Prata quando esta é atacada por piratas.

O Cinturão Defensivo

Três cidades foram erguidas no alto da serra, a oeste de Santiago del Estero, com a finalidade de compor um cinturão defensivo contra os Calchaquís, tribo hostil da Confederação Diaguita. Serviam, também, para preservar a rota comercial com Nova Extremadura.

Londres de Nova Inglaterra: fundada em 1558 perto de uma antiga mina do Império do Sol. Três anos depois, a cidade foi destruída pelos Diaguitas em resposta à hostilidade do Alcaide.

Córdoba de Calchaquí: segunda cidade a formar o cinturão defensivo, fundada em 1559. Foi arrasada em 1562 pelos Calchaquís, após ficar isolada pelo abandono das duas cidades vizinhas.

Cañete: fundada em 1560 no local onde havia sido fundada a primeira El Barco. Foi abandonada em 1562 após os ataques indígenas.

Cidades do Norte

San Miguel de Tucumán: fundada em 1565. Em 1578, o governador reúne uma expedição para procurar a Cidade dos Césares, deixando na cidade apenas 18 homens, com mulheres e crianças. Cientes disso, os Diaguitas atacam e incendeiam a cidade, mas não conseguem expulsar os colonos.

Em 1582 há 25 encomenderos na região, para quem trabalham 3 mil índios. Em 1618, a população geral chega a 12 mil habitantes. Mas, após duas guerras Calchaquís, o que obriga a um desvio na rota comercial, a cidade é castigada pelo isolamento. Assim, em 1680 são apenas 150 castelhanos e 2 mil índios.  Além disso, o lugar apresenta problemas com a qualidade da água e enfermidades. Em 1685, decidem mudar a cidade 64 km a noroeste, em um terreno entre a pré-cordilheira e as serras pampeanas.

Nossa Senhora de Talavera del Esteco: fundada em 1566 por um grupo que se indispôs com o governador de Tucumán, Francisco de Aguirre, e partira de Santiago del Estero rumo ao norte da província. A população, em sua maioria, é formada por índios, com maioria de mulheres. No final do século, mais da metade da cidade migra para Madrid de las Juntas, fundada em 1592, de melhor localização.

Em 1609, o governador de Tucumán manda fundir as duas cidades em um novo local, nascendo assim Nossa Senhora de Talavera de Madrid. A cidade se torna rica e importante devida à produção de algodão. Ganha fortificações, um colégio e um seminário franciscano. No século XVII, chega perto de 40 mil habitantes, sendo a cidade conhecida como a Rainha do Chaco.

Em um determinado momento, quando a cidade começa a receber escravos negros, um poderoso feiticeiro negro passa a atuar na cidade, tornando-a um centro de práticas de feitiçaria. A seu redor circulam principalmente brancos, tendo cúmplices na elite local. O bispo de Tucumán tenta provar o envolvimento das autoridades locais junto à Real Audiência de Charcas, mas não é bem sucedido.

Em 1692, já em decadência devido a pestes e ao sucesso de rotas comerciais alternativas, construídas para driblar problemas com índios beligerantes do Chaco, a cidade é destruída por um grande terremoto. A população sobrevivente migra para dois povoados próximos, San José de Metán e Rosário de La Frontera.

San Felipe de Salta: fundada em 1582, cumprindo determinação da Coroa de intensificar a ocupação da região. Sua função primeira é mitigar a resistência indígena. A médio prazo, cumpre o objetivo de aumentar o número de escalas entre o Rio da Prata e Lima, a capital do Vice-Reino. A cidade sofre com o mesmo terremoto que destrói Talavera de Madrid, mas sobrevive graças a um milagre.

San Salvador de Jujuy: fundada em 1593 em uma região bem irrigada, servindo como porta de entrada para a Quebrada de Humahuaca, vale profundo que leva até as minas de prata de Potosí.

Trata-se, na verdade, da terceira tentativa de assentamento no local. Em 1561 havia sido fundada a Cidade de Nieva, destruída pelos Calchaquís em reação à escravização de índios. Em 1575 foi fundado o povoado de San Francisco de Álava, incendiado sete meses depois. Na terceira tentativa, bem sucedida, os castelhanos submeteram previamente os índios locais. A cidade só voltou a ser ameaçada por um levante indígena no final do século XVIII.

Cidades ao Sul

Todos los Santos de Nueva Rioja: militares fundam a cidade em 1591, próximo à serra.

Em 1612 é fundada San Juan Bautista de La Paz, na serra; mas, em 1630, devido aos constantes ataques indígenas, os moradores abandonam a nova cidade e se estabelecem em Nova Rioja.

San Juan Bautista de la Ribera: fundada em 1633 com fins militares, no alto da serra, acima dos 1.200 metros.

Belén: fundada em 1681 na serra, em decorrência de um longo processo de negociação com os índios serranos iniciado em 1627.

San Fernando del Valle de Catamarca: fundada em 1683 pelo governo da província em uma área próxima à cordilheira sujeita a terremotos, mas de clima árido e terra fértil.  A cidade abriga a imagem da Virgem do Vale, cuja aparição ocorreu em uma caverna próxima entre 1618 e 1620.

Córdoba de Nova Andaluzia: é a cidade mais ao sul da província, e também a mais próxima da capital da Província do Rio da Prata; na mesma latitude da cidade de San Juan de la Frontera, a oeste, na Província de Cuyo, e de Santa Fé, a leste. Foi erguida em 1573 no extremo oeste dos pampas, na chamada pampa alta. Seus fundadores acreditaram equivocadamente que a laguna Mar de Ansenuza, próxima à cidade, era uma baía oceânica.

A Catedral de Córdoba começa a ser construída em 1580 e é finalizada apenas em 1758. Os jesuítas chegam em 1585 e transformam a cidade em seu centro de operações no continente. Fundam um noviciado, o Colégio Máximo e, em 1613, a Universidade de Córdoba, a quarta mais antiga do continente, com uma biblioteca de 5 mil livros. A eles se seguiram os Mercedários e os Dominicanos. Em 1699, a cidade vira sede da Arquidiocese de Tucumán. Assim, a cidade se torna o centro religioso e educacional das províncias do sul.

Em Córboba funciona, a partir de 1622, a Aduana Seca, que controla o tráfico entre Nova Extremadura, o Altiplano e a capital do Rio da Prata. Em 1760, a população chega a 22 mil habitantes, sendo apenas 1.500 castelhanos.

Tempestades são comuns no verão, embora não chova muita ao longo do ano. Há grande variação de temperatura, sendo rara a incidência de neve. Mas a passagem de tornados é comum na região.

Published in: on 20 de setembro de 2016 at 1:01  Deixe um comentário  

PROVÍNCIA DO GUAYRÁ

De 1534 até 1617, a Província do Rio da Prata era unida à Província do Guayrá, formando a Província de Nova Andaluzia, submetida diretamente ao Vice-Reino de Nova Castela, com a capital em Assunção. Após a separação, a Província do Guayrá fica sem saída para o mar.

As missões guaraníticas fazem parte da província, mas, na prática, constituem um governo autônomo. A expansão territorial da província a leste e nordeste é contida pelas bandeiras lusitanas e índios pouco amistosos. A expansão a oeste e noroeste é contida pelo Chaco e seus índios rebeldes. Com a criação do Vice-Reino do Rio da Prata em 1776, a província é incorporada e Assunção perde de vez o seu protagonismo.

Real Audiência de Charcas

Este tribunal de apelação foi criado em 1599, sediado na cidade de La Plata, no Altiplano, próxima a Potosí. Sua jurisdição abarca as províncias de Tucumán, Rio da Prata, Guayrá e Santa Cruz de la Sierra, e os corregimentos de Potosí e La Paz.

Geografia

Planalto de baixa altitude, com média de 500 metros, com presença de morros ondulados. Clima úmido com chuvas e altas temperaturas constantes, mas os invernos são frios. Cortado por bosques e rios.

Ao longo do rio Paraguay, os terrenos são baixos e inundáveis. Pântanos e florestas verdejantes cobrem essa área.

A Capital

Santa Maria da Assunção: fundada em 1541, no lugar onde antes havia um forte militar erguido em 1537, após a primeira tentativa frustrada em fundar uma vila portuária na foz do rio da Prata. A aliança com os Guaranis foi imediata. A cidade se tornou o centro colonizador da bacia do Prata e do Gran Chaco, sendo conhecida como Mãe das Cidades. Com a separação de Nova Andaluzia, a cidade perde progressivamente a importância junto à Metrópole, ficando cada vez mais isolada. A mãe das cidades perde sua capacidade de se reproduzir.

Revolução Comunera

Em 1544, os colonos se revoltam com a nomeação de um governador pela Coroa, reivindicando o direito de escolherem por voto o seu novo governador, conforme uma Real Cédula de 1537.

Em 1717, os encomenderos pedem à Real Audiência de Charcas a destituição do governador por diversas irregularidades. O governador se recusa a abandonar o cargo. Um juiz é enviado pela Real Audiência para executar a decisão e acaba assumindo o governo. Na sequência, com apoio dos encomenderos, o juiz expulsa os Jesuítas da cidade. Estes se queixam ao Vice-Rei, que nomeia um novo governador, o que é considerado pelos locais como uma medida arbitrária, gerando nova revolta.

Enquanto o Vice-Rei apoia os Jesuítas, a Real Audiência de Charcas apoia o juiz governador. O governador nomeado pelo Vice-Rei tenta tomar a cidade com um exército guarani local, mas é derrotado. Entretanto, o governador do Rio da Prata organiza um exército de índios missioneiros para atacar Assunção, obrigando o juiz a fugir para Córdoba, onde é preso, levado a Lima e condenado à morte.

Em 1730, em nova troca de governo, os comuneros mais uma vez impedem a posse do novo governador e passam a governar através de uma junta. Porém, traições e dissensões na junta levam a um período de anarquia que dura quase cinco anos, até que um novo exército enviado do Rio da Prata debela o movimento de forma violenta e definitiva.

As Cidades de La Piñería

A região da banda oriental do rio Paraná era conhecida pelos Castelhanos como La Piñería, devido à abundância de pinheiros.

Em 1515, os Castelhanos chegaram à baía de Babitonga, chamando a grande ilha da região de San Francisco. Em 1553, devido a uma tempestade, um navio castelhano busca refúgio no local e lá fica por dois anos. Fazendo amizade com os índios Carijós, uma tribo costeira de Guaranis, erguem uma capela e algumas choças, constituindo o povoado de San Francisco de Mbiaza. Em 1555, a pequena vila é atacada por piratas franceses, que também já haviam passado por lá em 1503. A maioria decide fugir rumo à Assunção. Outros permanecem e se mesclam aos índios, dando origem à tribo dos Guayanas. Quase cem anos depois, em 1640, os lusitanos fundam no local a vila de São Francisco do Sul.

Em 1554, a 50 km do Salto do Guayrá, foi fundada a Vila de Ontiveros. Três anos mais tarde, em 1557, a população é transferida para um novo assentamento, a Cidade Real do Guayrá, às margem do rio Paraná, na foz do rio Piquiri.

Em 1570, um grupo decide subir o rio Piquiri até a sua nascente e fundar a Vila Rica do Espírito Santo, perto de onde se acreditava haver uma mina de ouro, bem no coração de La Pinería. Não encontram ouro, apenas ágatas.

Havia atrito entre os Jesuítas e os habitantes das duas cidades devido ao trabalho indígena nas encomiendas. Os Castelhanos também comercializavam índios com os bandeirantes. A consequência foi a paulatina escassez de mão de obra.

Em 1631, uma bandeira vinda de Piratininga sitia Vila Rica do Espírito Santo por seis meses, obrigando seus habitantes a fugirem. Na sequência, os mesmos bandeirantes atacam Cidade Real do Guayrá. Em 1638, os bandeirantes retornam e terminam por arrasar Cidade Real. As doze missões jesuíticas da região são destruídas ou abandonadas.

A população das duas cidades busca refúgio em Santiago de Jerez. Esta cidade foi fundada em 1580 na área do Pantanal, às margens do rio Miranda, um afluente do rio Paraguay, onde os lusitanos ergueriam o Forte Albuquerque décadas mais tarde. O cabildo de Santiago de Jerez havia solicitado ao governador de Nova Andaluzia e à Real Audiência de Charcas o deslocamento da cidade devido ao constante ataque de índios, o que foi feito em 1605. A cidade se estabelece mais ao sul, onde recebe os refugiados de Vila Rica e Cidade Real. Com a constante ameaça dos bandeirantes, a cidade se muda mais para oeste, estabelecendo-se na Serra de Amambay em 1642, uma região próxima a Assunção.

A Disputa pela Fronteira

A linha de Tordesilhas obviamente não corresponde a rios e serras que facilitem o respeito aos limites territoriais entre a colônia lusitana e a colônia castelhana. Assim, entre Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá, vila lusitana da costa atlântica, e o rio da Prata, a região é duramente disputada entre as duas coroas.

A Cisplatina, a partir da fundação de Colônia do Sacramento, é a disputa mais intensa devido à importância estratégica e comercial do rio da Prata. Mas outras regiões, como as terras conhecidas como La Piñeria, as ilhas de Santa Catarina e São Francisco do Sul, bem como a região do Tapé, onde ficam as missões jesuíticas da banda oriental do rio Uruguay, também são alvo de disputas só solucionadas com o Tratado de San Ildefonso, em 1777.

Os lusitanos foram primeiramente atraídos para as terras ao sul de São Vicente devido a notícias de que haveria ouro na ilha de Cotinga, em 1550, no extremo sul da capitania. Em 1570, vieram os primeiros povoadores da vila Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá, consolidada em 1644. A partir do porto, os lusitanos sobem a serra em busca de mais riquezas, escravizando índios e pondo-os para trabalhar na mineração. A busca frustrada leva à ocupação do planalto, com o surgimento da vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba, erguida como povoado em 1661 e se tornando vila em 1693.

São Francisco do Sul: na baía da Babitonga, é ocupada em 1640 pelos lusitanos, na mesma ilha outrora ocupada por castelhanos e franceses.

Nossa Senhora do Desterro: fundada em 1675 na Ilha de Santa Catarina. Assim como em São Francisco do Sul, a vila é erguida na face da ilha voltada para o continente. Desde o século XVI a ilha já era uma importante parada para as embarcações de diversas origens reporem água e víveres em seu caminho rumo ao rio da Prata. Um futuro governador da Província do Guayrá lá aportou para seguir por terra até Assunção, descobrindo no meio do caminho as monumentais quedas do rio Iguaçú.

No século XVIII são construídas três fortalezas pra proteger a entrada da baía norte: uma ao norte da ilha e as outras em duas ilhotas na entrada da baía. E também um forte junto à vila, no estreito que separa a baía norte da baía sul.

Em 1776, os Castelhanos tomam a Ilha de Santa Catarina sem efetuar um disparo. As guarnições lusitanas, ao ver o poderio da frota castelhana, deixam os fortes e fogem para o continente. Os Castelhanos abandonam a ilha após o tratado de San Ildefonso.

Santo Antônio dos Anjos de Laguna: fundada em 1684. Apesar de ser um grupamento de casas de pau-a-pique cobertas de palha, onde os casamentos e batizados somente se realizavam quando o padre a visitava, o povoado obtém o foral de vila em 1714, quando não conta com mais de 42 casas e 300 pessoas adultas.

Em 1728, na abertura de uma picada para o interior, é descoberto no alto da serra um planalto repleto de gado selvagem e cruzes fincadas, colocadas por Jesuítas. Assim, quando os bandeirantes lá chegam para fundar uma vila em 1766, já encontram a região ocupada por fazendeiros. Nossa Senhora dos Prazeres de Lages é fundada em 1771.

Viamão: ocupada em 1725, servindo de entreposto terrestre entre Laguna e Colônia do Sacramento. Com a chegada de 500 casais vindo dos Açores para povoar a região, o Porto de Viamão vira Porto dos Casais e rapidamente ganha o protagonismo na região.

As rotas terrestres que ligam Colônia do Sacramento e as missões jesuíticas a Laguna leva à criação de um posto de controle no rio Tramandaí, a fim de controlar a circulação do gado e cobrar uma espécie de pedágio. A região já conta com pequenos ranchos de palha em uma área propícia à pesca, o que acaba dando origem ao povoado de Tramandaí em 1732, no litoral próximo a Porto dos Casais.

Rio Grande de São Pedro: na barra da Laguna dos Patos são erguidos um presídio e um forte, dando origem à vila, que inicialmente é uma colônia militar. O local é limite entre o território dos Charruas e dos Carijós. Os Açorianos já circulam pela região desde 1720, trazendo gado das Missões. Logo se estabelecem estâncias pelo interior. A vila serve como parada para as viagens marítimas entre Laguna e Colônia do Sacramento.

Em 1763, forças vindas da Província do Rio da Prata atacam a vila. Parte dos habitantes foge para Porto dos Casais; outra parte se refugia na margem oposta da barra, dando origem à vila São José do Norte, que logo também é invadida pelos Castelhanos. Alguns Lusitanos são presos e levados para ajudar na fundação da cidade de San Carlos, na Cisplatina. Em 1767, os Lusitanos expulsam os Castelhanos da restinga onde fica São José do Norte, mas Rio Grande de São Pedro permanece ocupada até 1776.

Mas a maior e mais drástica disputa territorial fica por conta da região de Tapé, onde ficam os Sete Povos das Missões, levando, a partir do Tratado de Madrid em 1750, a uma sangrenta guerra entre os Guaranis e os exércitos das duas Coroas.

Published in: on 20 de setembro de 2016 at 0:51  Deixe um comentário