A GUERRA DE ARAUCO

A guerra entre Castelhanos e Mapuches começou logo após a chegada dos brancos ao vale do rio Maule em 1536, e durou por todo o período colonial, chegando ao fim no início da República. Poemas e epopeias foram dedicados ao conflito já no século XVI, divulgando a capitania pelos salões do Velho Mundo. Entretanto, não são 300 anos de batalhas sem fim; há períodos de maior e menor tensão.

No século XVI, ocorrem duas grandes rebeliões que marcam a relação entre Mapuches e Castelhanos, bem como os limites da ocupação colonial. Em meados do século XVII, em meio a diversos encontros envolvendo tratados de paz, ocorre mais uma grande insurreição. O século XVIII é salpicado por quatro rebeliões de menor duração. Há relatos de mortes rituais de prisioneiros durante a guerra. A Terra dos Araucos resiste independente até a República.

Leftaru e a Primeira Rebelião Mapuche

A primeira grande rebelião é marcada pela liderança de Leftaru, entre 1552 e 1557. Nascido em 1534, filho do líder Curiñancu, Leftaru foi capturado aos 15 anos por Pedro de Valdivia. Permaneceu preso por três anos, tornando-se pajem do governador, que o chamava de Lataro. Nesse período, aprendeu as táticas militares de Valdivia e tornou-se amigo de um capitão que lhe ensinou táticas de cavalaria e o uso de armas de fogo. Na Batalha de Andalién, em 1550, Leftaru testemunhou a crueldade de Valdivia, que mutilava os pés dos índios e depois os liberava. Dois anos depois, logrou fugir a cavalo.

Lefataru procurou então os líderes mapuches e compartilhou tudo o que havia aprendido em seus anos com os Castelhanos, principalmente o uso dos cavalos e das novas armas. Rapidamente tornou-se um líder e fez os Mapuches abandonarem o ataque em massa, passando a atacar por blocos e a utilizar táticas de guerrilha e emboscada, bem como boleadeiras e laços para conter a cavalaria.

Em pouco tempo Leftaru tornou-se Toqui, o chefe máximo da guerra. Criou um serviço de inteligência de qualidade profissional de espionagem e dissimulação, utilizando homens, mulheres e adolescentes. Esses índios aprenderam a simular bebedeira, fingir não saber falar espanhol, converter-se ao cristianismo e aceitar a servidão para se infiltrar entre os brancos. Criou também um sistema de comunicação por meio dos galhos das árvores, para que curtas mensagens pudessem ser enviadas à distância e repassadas com rapidez. Um grupo era treinado especificamente para espionagem noturna.

Em 1553, os Mapuches atacam a tropa de Valdivia acampada nas ruínas do Forte de Tucapel e o matam. Depois disso, arrasam cidade por cidade até o rio Biobio. Saqueiam e incendeiam duas vezes Concepción, fazendo a população fugir para Santiago.

Entre 1554 e 1556, os combates diminuem devido a uma peste de tifo, que mata 300 mil índios. No mesmo período, uma forte seca traz a fome, levando os Mapuches à pratica de canibalismo. Do outro lado, os castelhanos se veem obrigados a se reorganizar e entender como foram sobrepujados por índios bárbaros.

Em fins de 1556, Leftaru cruza Bio-Bio e tenta arregimentar os pacíficos Picunches, chegando a matar aqueles que não aderem à rebelião. De Santiago parte uma tropa para confrontá-lo e é derrotada. No ano seguinte, novo confronto não impede que as forças de Leftaru cruzem o rio Itata.

O antigo amigo capitão de “Lataro” se reúne com o comandante mapuche às escondidas. Em troca do fim da rebelião, Leftaru exige armas, cavalos e mulheres, e que o rio Maule fosse estabelecido como limite do avanço castelhano, antigo limite imposto também ao avanço dos Incas. Não há acordo. Os Mapuches avançam, então, até o Maule.

Leftaru deixa passar as forças do governador Villagro e avança rumo à desprotegida Santiago, como havia sido feito por índios locais na época de Valdívia. Entretanto, um importante cacique aliado de Leftaru, indignado com os maus tratos impostos aos Picunches, debanda com seus comandados. Enfraquecido, Leftaru desiste de continuar a marcha e acampa na margem sul do rio Mataquito. Avisado desses acontecimentos, Villagro retorna sem que Leftaru tome conhecimento. O ataque surpresa vitima o grande líder e mais 650 dos 800 mapuches que estavam com ele. Leftaru é sucedido por Caupolícán, que é preso e morto no ano seguinte.

Segunda Rebelião Mapuche e a Batalha de Curalaba

O retorno de assentamentos coloniais na Araucânia levam os Mapuches a uma nova onda de ataques iniciada em 1598, na qual se destaca o vice-toqui Pelantaro.

Ao sul de Concepción, o governador Óñez de Loyola fazia uma vistoria na cidade La Imperial, já regressando das vilas de Valdivia, Osorno e Villarrica, quando recebeu um pedido de socorro da cidade de Angol, que estaria prestes a sofre um ataque dos Mapuches. Apesar de a ameaça ser verdadeira, a mensagem foi levada por um índio, que fez chegar a mesma notícia a ouvidos mapuches. Uma emboscada a caminho de Angol pega o governador completamente desprevenido. Um verdadeiro massacre. Pelantaro junta o crânio do governador Loyola ao de Valdivia. Apenas dois castelhanos sobrevivem: um padre franciscano (os outros dois morreram) e um soldado que, de tão ferido, foi dado como morto.

Todas as cidades ao sul de Biobio, exceto Santiago de Castro, são arrasadas. A Terra dos Araucos passa a ser limitada ao norte pelo rio Biobio e, ao sul, pelo canal de Chacao, que separa o continente da Ilha de Chiloé.

Os Parlamentos de Paz e a Terceira Rebelião

Ao longo do século XVII, a guerra permanece viva entre os Mapuches e os Castelhanos de Chiloé, que fazem rápidas incursões escravistas no continente a partir dos fortes de Cabulco e Carelmapu, com apoio de tribos rivais aos Mapuches. Posteriormente, com o avançar dos tratados de paz, o próprio Vice-Rei ordena que os colonos parem com esses ataques.

Depois da destruição da cidade de Valdivia, o pirata holandês Hendrick Brower se alia aos índios Huilliches (Mapuches do sul) contra os Castelhanos em Chiloé e se estabelece na baía de Corral em 1643, nas ruínas da cidade. Ao ser abandonado pelos índios, é obrigado a partir.

Ao norte da Terra dos Araucos, a partir de 1641, missões religiosas dão início a uma abordagem diplomática. São cinco “parlamentos” no século XVII e outros cinco no século XVIII. Como não há uma liderança centralizada dos Mapuches, os acordos obtidos têm eficácia apenas regional.

Pelo primeiro tratado realizado no Parlamento de Quillín, em 1641, os Mapuches conservam sua absoluta liberdade, sem serem molestados, escravizados ou entregues aos encomenderos. Seu território tem como fronteira norte o rio Biobio. Os Castelhanos se comprometem a destruir o forte de Angol, que fica dentro do território Mapuche. Em contrapartida, os Mapuches devem liberar os colonos e soldados cativos e permitir a entrada dos padres em missão de paz e de catequese. Também se comprometem a considerar como inimigo os inimigos da Coroa, não se aliando a qualquer força estrangeira que chegue à costa.

Em 1651, após o Parlamento de Boroa, um navio castelhano encalhado no sul é atacado pelos índios Cuncos para roubar sua carga, matando toda a tripulação. Os próprios Mapuches denunciam a tribo culpada pelo ataque. Novos incidentes com os Cuncos levam a uma expedição punitiva em 1653. A expedição é massacrada no rio Bueno por inépcia de seu comandante.

Em 1655, os Mapuches realizam vários ataques nas fronteiras, levando muitas mulheres, crianças e soldados como prisioneiros e escravos. Após centenas de mortos, os colonos tentam depor o governador Antonio de Acuña y Cabrera, considerado culpado pelo novo levante indígena. A inépcia militar e diplomática de Cabrera chega ao ponto do Vice-Rei nomear um novo governador, que precisa assumir à força. O novo governador, Pedro Porter Casanate, consegue dar cabo da nova rebelião em 1661, mas morre por doença no ano seguinte, sem poder usufruir de seu sucesso.

Nessa terceira grande rebelião, os Mapuches fazem 1300 cativos, saqueiam 396 estâncias, e roubam 400 mil cabeças de gado. Nove fortes são destruídos, bem como metade do armamento da Capitania-Geral. Estima-se que, desde o início da guerra, em 1536, até 1664, cerca de 30 mil castelhanos e, possivelmente, 60 mil índios auxiliares perderam a vida. Do outro lado, 200 mil mapuches foram mortos em combate.

As Rebeliões do Século XVIII

É criado o cargo de Capitão de Amigos, um oficial militar encarregado de viver entre os Mapuches e atuar como mediador entre eles e as autoridades coloniais.  Acabam se tornando personagens ambíguos, que levantam suspeitas de ambos os lados.

Em 1723, após 30 anos sem incidentes entre nativos e colonos, um capitão de amigo, que tirava proveitos comerciais de seu cargo, é assassinado devido a sua conduta soberba e cruel. Com o temor de uma expedição punitiva, os Mapuches se anteciparam e cortaram a comunicação entre os fortes do sul. Após três anos de conflitos, nos quais os fortes sitiados foram evacuados, outro acordo de paz é realizado e os Mapuches se colocam como vassalos autônomos do Rei, com o direito de denunciar o abuso de autoridades coloniais. São estabelecidas feiras trimestrais às margens do Biobio para regular o comércio entre nativos e colonos.

Após novo período de paz de 30 anos, um outro período de conflitos tem início a partir de um acordo entre o governo de Nova Extremadura e caciques mapuches visando construir comunicações terrestres entre Concepción, Valdívia e o canal de Chacao. Para este fim, parte uma expedição de Chiloé e outra de Concepción. Entretanto, esta é atacada pelo cacique Lebián, opositor ao acordo.

O governo colonial volta a se reunir com os caciques para garantir o cumprimento do acordo, mas dessa vez os caciques são mais reticentes. O governo tenta, então, impor sua vontade à força, dando início a conflitos que se estendem por mais de dez anos. Com o passar dos anos, Lebián consegue o apoio de Huilliches e Pehuenches, ampliando a área de confronto. Um tênue tratado de paz é aceito com arrogância por Lebián em 1771.

Um novo governador resolve garantir a paz ao promover a cizânia entre os caciques, a ponto dos principais líderes rebeldes serem sistemática e discretamente assassinados sem levantar suspeitas ou provocar reações. Lebián entre eles.

No final do século, após o término do Caminho Real até Chiloé, que permite a reintegração terrestre de Valdívia à Nova Extremadura, os Castelhanos decidem reconstruir a cidade de Osorno, levando os Huilliches à revolta.  Mais enfraquecidos, os Huilliches se limitam a atacar as haciendas. Frente ao poderio militar superior das forças coloniais, pela primeira vez os nativos são obrigados a ceder uma parte de seu território. Em acordo de paz de 1793, Osorno é oficialmente reconhecida pelos Mapuches, que cedem ao governo colonial a região dos lagos, a partir do rio Rahue, que margeia cidade, até as cordilheiras. Do rio até a costa, permanece território dos Huilliches.

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Published in: on 20 de setembro de 2016 at 2:15  Deixe um comentário  

CAPITANIA-GERAL DE NOVA EXTREMADURA

Após a tentativa frustrada de Diego Almagro em 1536, Pedro de Valdívia tomou posse da Capitania-Geral de Nova Extremadura em 1640. O que parecia ser uma empreitada fácil em seu início, apesar de não muito lucrativa, tornou-se uma grande dor de cabeça para os governadores da capitania. No caso de Valdívia, foi literalmente de perder a cabeça.

Organização Política

A capitania é administrada pelo Governador (que também recebe o título de Capitão-Geral), que é assessorado pela Real Audiência. A Audiência serve como órgão consultivo e tribunal de apelações, e é presidida pelo próprio governador. Apesar de autônoma, a capitania-geral está sob a fiscalização de Nova Castela. Porém, muitas vezes o governador se relaciona diretamente com a Metrópole, que envia às colônias as ordens reais, chamadas de Real Cédula.

A justiça em Nova Extremadura é totalmente independente do Vice-Reino, exceto no que diz respeito ao Tribunal da Inquisição, com sede em Lima. Quanto aos demais assuntos, tudo é decidido na Real Audiência de Concepción.

Já os recursos militares e comerciais dependem diretamente do Vice-Reino. A Casa da Moeda de Santiago surge apenas em 1743. Na guerra contra os Mapuches, os governadores exercem uma boa autonomia estratégica. Quando a ameaça a ser combatida parte da pirataria, particularmente aquela patrocinada por reinos rivais, os Vice-Reis tomam a frente. Pode-se dizer que o governador tem autonomia para questões internas, mas não para relações internacionais.

Os Corregedores governam as províncias como tenentes do governador. O Cabildo cuida da administração das cidades.

No início do século XVII, a capitania encontra-se dividida em seis províncias: Santiago (1541), do vale do rio Choapa (ao norte) ao vale do rio Maule (ao sul); La Serena (1544), do vale do Copiapó (norte) ao vale do rio Choapa (sul); Concepción (1550), do vale do rio Maule (norte) ao rio Biobio, fronteira com a Terra dos Aruacos; Cuyo (1565); Chiloé (1567), ilhas e fortes continentais; e Chillán (1580), na planície entre as cordilheiras, do rio Maule ao rio Itata. Valdívia volta a ser província após ser refundada em 1645, mas passa a depender diretamente de Nova Castela devido ao seu isolamento do resto da capitania por via terrestre.

Igreja

A Diocese de Santiago responde à Arquidiocese de Lima. As cinco Ordens de Nova Castela se fazem presentes: Franciscanos, Jesuítas, Mercedários, Dominicanos e Agostinianos.

Os padres ministram uma educação rudimentar: ensinam religião, noções de matemática, e a ler e escrever. Há também escolas para formar mão de obra, como corte e costura para mulheres.

Os Mercedários foram a primeira ordem a chegar á região e iniciar a atividade missioneira, tanto no vale central quanto junto aos Mapuches. Entretanto, sofreram um revés com as primeiras rebeliões no século XVI, dando espaço ao avanço dos Jesuítas no século XVII a partir de Chiloé.

Sociedade

Os castelhanos ocupam os mais altos cargos públicos e militares.

Os criollos pertencem à aristocracia, são donos de terra e de boa parte das atividades produtivas. Possuem poder econômico, mas não político, logrando ocupar cargos de pouca importância.

A classe média é incipiente. Os mestiços são a principal mão de obra, o grosso da sociedade: artesões, militares de baixa patente, pequenos comerciantes. Apesar de livres, são discriminados, não participando de atividades políticas e administrativas.

Os índios não podem ocupar função pública. São regidos por uma legislação que os trata como menores de idade. De certa forma, são mais protegidos pela lei do que os mestiços.

Os poucos negros presentes na capitania se encarregam de trabalhos domésticos. Tão poucos que a presença de usuários de magia dessa cultura é raríssima na região.

As Tribos

A região é dominada pelos Mapuches e seus subgrupos: Huilliches, Cuncos, Picunches e Pehuenches. Nas ilhas do sul, predominam os Chonos. Ao norte, vivem os Diaguitas. Todos são descritos com mais detalhes no capítulo sobre tribos nativas.

Economia

A Encomienda é o principal sistema econômico no século XVI: um encomendero submete um grupo de índios que trabalha para ele como forma de tributo. O encomendero lhes dá proteção, vestimenta e alimentação. Com a queda do número de índios, o sistema é substituído progressivamente pelas haciendas.

A Hacienda, a partir do século XVII, é a base da economia rural. Trata-se de grandes pedaços de terra que fabricam o necessário para o seu sustento. O estancieiro contrata inquilinos e peões pra trabalhar. Os inquilinos trabalham em troca de terras, onde podem morar, plantar e criar gado para seu próprio sustento e comércio. Os peões trabalham por dinheiro, geralmente na época da colheita. Os principais produtos são trigo e cevada.

A mineração surge já no século XVI, mas com baixa produção (comparado à Nova Castela) de ouro aluvial, prata, cobre e chumbo.

GEOGRAFIA

Os limites de Nova Extremadura são o vale do rio Copiapó na fronteira norte e o rio Biobio ao sul. Ao sul da terra dos Araucos, há a Ilha de Chiloé e arredores.

Hidrografia

É fácil dividir o território da capitania pelos rios que cortam suas terras correndo das cordilheiras até o oceano. De norte a sul, os vales são: Copiapó, Huasco, Elqui, Choapa, Petorca, Aconcágua, Maipo, Mataquito, Maule, Itata, Biobio. Seguindo pela Terra dos Araucos: Imperial, Toltén, Valdívia, Bueno e Maullín.

Terremotos

Toda a região é marcada por constantes abalos sísmicos, em sua maioria de baixa intensidade, mas não são raras as grandes catástrofes naturais, ocorrendo eventuais maremotos.

Relevo

A capitania é formada por duas longas cadeias de montanhas longitudinais e uma depressão central que as separa.

A cadeia oriental é a cordilheira andina, que segue desde o norte do continente, prosseguindo a partir do Altiplano. Essa cordilheira é repleta de vulcões e é constantemente abalada por tremores de terra. Na parte centro-norte da capitania, os Andes apresentam as maiores altitudes, como o Nevado Ojos del Salado, um vulcão ativo que ultrapassa os 6.800 metros. À medida que se aproxima do extremo sul, a altura vai caindo para 3 mil metros, correndo bem junto ao mar a partir de Chiloé,  chegando aos 2500 metros na Terra do Fogo.

O relevo contínuo dos Andes dificulta a travessia. Ao norte de Santiago, os pontos de travessia alcançam 4 mil metros. Ao sul, os vales de origem glacial facilitam o acesso à Patagônia. As cadeias montanhosas entrelaçadas formas inúmeras ilhas onde a ação do gelo é acentuada.

A cadeia montanhosa ocidental é a cordilheira da costa, de altitude moderada. Ela também vai diminuindo a altitude no sentido norte-sul, indo dos 3 mil metros no Atacama aos 2 mil metros no vale central. Ao sul, perde continuidade, formando cadeias isoladas de montanhas.

A cordilheira da costa prossegue pela ilha de Chiloé e os arquipélagos do extremo sul, com altura de mil metros e um clima difícil, com fortes ventos.

A depressão entre as duas cordilheiras é preenchida por aluviões e detritos que formam planícies estreitas e descontínuas, desde os pampas desérticos do norte aos grandes vales do centro, onde fica Santiago, e do sul, na Araucânia e na região dos lagos. Entre La Serena e Valparaíso, as duas cadeias se encontram e a depressão desaparece, alcançando o ponto mais próximo entre os Andes e o mar: 90 km. A partir de Chiloé, a depressão é substituída pela faixa de mar entre as ilhas e a costa íngreme.

Entre a cordilheira da costa e o mar há uma estreita faixa de planícies litorâneas pouco recortadas. No Atacama, a cordilheira da costa cai abruptamente, tornando a planície costeira quase inexistente.

Clima

O vale do Copiapó delimita o sul do deserto do Atacama, extremamente árido e de raras precipitações. As cidades costeiras da região costumam ser tomadas por uma névoa matinal conhecida como camanchaca, que só se dissipa por volta do meio-dia. A umidade da névoa, provocada pelo mar frio, permite o aparecimento de bosques de alfarrobeiras, cactos e arbustos espinhosos.

Os vales centrais apresentam temperatura média de 14°C e clima seco, formando uma estepe de acácias e palmeiras. A depressão entre as cordilheiras forma vales férteis, o que permite o desenvolvimento agrícola da colônia. As estações são bem marcadas, com verão seco e quente, com máxima de 36°C, e inverno frio e chuvoso, com máxima de 8°C.

O sul é bem mais frio e chuvoso, permitindo densas florestas de araucárias, carvalhos e faias. O extremo sul é dominado por um clima subpolar.

AS CIDADES

A Capital (Província de Santiago)

Santiago de Nova Extremadura: o governador Pedro de Valdívia elegeu o povoado indígena às margens do rio Mapocho para ser a capital de seu governo. No mesmo ano de sua fundação, 1540, os índios da região aproveitaram a partida de Valdívia para guerrear com os Mapuches ao sul para atacar a cidade, que foi arrasada, mas não conquistada. A resistência foi liderada por Inés de Suárez, esposa do governador.

A primeira catedral é construída em 1572. Santiago parecia destinada a sofrer provações: sofre um terremoto em 1575; epidemia de varíola em 1590; enchente do rio Mapocho em 1608 e 1618; e um novo terremoto em 1647, que vitima mais de 600 pessoas.

Como a cidade fica no planalto entre as cordilheiras, o porto mais próximo é o de Valparaiso. Os Castelhanos chegaram a Valparaiso em 1536, que logo vira uma pequena vila portuária, com poucas casas e uma igreja. Só no século XIX a vila começa a crescer.

Seguindo para o norte da província, pouco acima de Valparaíso e Santiago, o vale do rio Aconcágua sempre foi densamente povoado pelos Diaguitas. Valdívia levanta uma fortaleza na região e encontra ouro em La Campana. Só em 1717 o povoado de San Martin de La Concha se torna uma cidade.

Cidades do Norte (Província de La Serena)

San Bartolomé de La Serena: fundada por Valdivia em 1544 no litoral norte, perto da foz do rio Elqui, em uma região ocupada pelos índios Diaguitas. Cinco anos depois, uma revolta indígena mata quase todos os colonos. Em 1579, a cidade é atacada pelo corsário inglês Francis Drake, que é rechaçado por milicianos. Em 1681, melhor sorte tem o compatriota de Drake, Bartolomé Sharp, que incendeia a cidade. Em 1686, dois novos ataques de piratas são rechaçados. A cidade é então fortificada, contendo assim a fuga constante da população.

O vale do rio Huasco, entre La Serena e Copiapó, era ocupado durante a dominação Inca por Diaguitas e por Changos, índios seminômades que pescavam na costa. Em 1589 sai o primeiro carregamento de cobre para a Metrópole. Em 1600, desembarca em Huasco o pirata holandês Olivier Van Noort, onde fica por oito dias e chega a saquear Santa Rosa de Lima, um vilarejo próximo, a meio caminho de Vallenar, onde ficam as minas de cobre.

Em 1633 é construída a primeira igreja do vale, em San Francisco de Huasco Bajo, uma vila um pouco afastada do litoral. Quarenta anos depois, Huasco Bajo conta com 3400 pessoas, sendo a maior vila do vale. Em 1681, Bartolomé Sharp, após incendiar La Serena, desembarca em Huasco para roubar alimentos, fazendo com que os índios fujam para o interior. Em 1683, Charles Davis permanece ancorado no porto, mas não desembarca. A população foge assim mesmo.

Copiapó: primeira cidade da região a receber a expedição de Almagro em 1536. Na época, a província era chefiada por dois caciques: um que comandava da cidade até a costa, e o outro, os vales até as cordilheiras. A região de Copayapu, como era conhecida entre os Incas, havia sido anexada ao Império do Sol em 1470. Os incas construíram cemitérios, prédios administrativos, templos, minas, centros metalúrgicos, pontes, tambos e observatórios astronômicos. Em 1540, Valdívia mandou realizar ali a 1ª missa de Nova Extremadura, marcando a sua posse do território. A sociedade é agropastoril, com muitos povoados espalhados pelo interior, mas vira cidade colonial apenas em 1744. Só em 1832 é descoberta prata na região.

Apesar de haver muitas vilas e povoados, muitas cidades do norte só são fundadas de meados do século XVIII em diante.

Cidades do Sul (Províncias de Chillán e Concepción)

San Bartolomé de Gamboa: fundada em 1580 no centro da planície entre a cordilheira da costa e a andina, entre os rios Chillán e Ñube. É destruída pelos Mapuches no final da terceira rebelião, reconstruída na década seguinte. Cem anos depois, foi novamente destruída por um grande terremoto, que causou, inclusive, mudança no curso do rio Chillán.

Concepción: fundada em 1550 no litoral sul, ao norte da foz do rio Biobio. Era o centro dos assentamentos coloniais no sul da capitania. Em seus dez primeiros anos foi destruída três vezes pelos Mapuches, sendo saqueada, incendiada e atacada duas vezes por piratas. A população fugiu para Santiago, que, sem capacidade para abrigá-la, levou o governador a tentar reerguer a cidade, transformando-a em uma cidade militarizada.

Em 1565, a cidade vira sede da Real Audiência, o principal tribunal de justiça da capitania. Em 1604, abriga o primeiro exército profissional de Nova Extremadura. Devido ao ataque de piratas ingleses, em 1687 é construído o Forte La Planchada em Penco, ao norte da cidade. Em 1751, um terremoto de 8.5 seguido de maremoto destrói a cidade e faz com que ela mude de lugar, afastando-a da enseada e posicionando-a rio adentro, traslado que levou 14 anos de discussões para ser efetuado.

Ilha de Santa Maria: próxima à foz do rio Biobio, em mar aberto, foi descoberta pelos Castelhanos em 1544, sendo recebidos pacificamente pelos cerca de mil índios que já viviam por lá. Torna-se ponto de parada dos piratas para abastecimento.

Forte San Felipe de Arauco: erguido em 1552 por Valdívia, pouco abaixo de Concepción, na confluência dos rios Conumo e Carampangue, O forte é destruído e reconstruído várias vezes ao longo de muitas batalhas. Ganha o status de cidade apenas em 1852.

Cidades do sul fundadas e destruídas no século XVI (Província de Valdívia)

Santa María La Blanca de Valdívia: cidade portuária fundada em 1552. Possui grande importância estratégica como ponte entre a Ilha de Chiloé e o resto da colônia. Localizada na confluência dos rios Cruces e Callecalle, que formam o rio Valdívia. A cidade é destruída por um terremoto em 1575 e pelos Mapuches em 1599.

Em 1643, o pirata holandês Hendrick Brower chega à cidade fantasma e se alia aos Huilliches para atacar Chiloé. Como os holandeses mostram muito interesse por metais preciosos, os Huilliches acabam partindo, obrigando o pirata a deixar a região.

Em 1645, o governo ergue o Forte San Pedro de Alcántara na Ilha de Mancera, na entrada da estreita baía formada na foz do rio Valdívia, repovoando a região aos poucos.

Em 1658, Valdívia é refundada, mas correndo sempre perigo de ser atacada por índios ou piratas. A cidade permanece isolada do resto da colônia pelo continente até fins do século XVIII. Devido a sua importância estratégica, Valdívia fica diretamente subordinada à Nova Castela por um bom período. Em 1740, retorna para a Capitania-Geral.

Outros três fortes são construídos ao redor da baía, formando um eficiente sistema de defesa: San Sebastián de La Cruz, San Luis de Alba de Amargos e Monfort de Lemus. Em meados do século XVIII, um quinto é erguido, o Forte San Carlos.

Cañete: fundada em 1557 a partir do Forte Tucapel, de 1552, a meio caminho entre Concepción e La Imperial, um pouco afastada do litoral. Os colonos são obrigados a abandonar a cidade em 1563. Nova tentativa de ocupá-la em 1666 não prospera. Só em 1868 ela volta a ficar de pé.

Angol: fundada em 1553, dois meses antes da batalha que vitimou Valdívia. A cidade é reconstruída em 1560 e novamente destruída em 1600. Novas tentativas frustradas em 1637 e 1641, quando é abandonada devido a um acordo com os Mapuches.

La Imperial: fundada em 1551 às margens do rio Imperial, um pouco afastada do litoral, a meio caminho entre Concepción e Valdívia. Apesar de defenderem bravamente a cidade em 1600, os soldados e a população tiveram de abandonar a cidade após um prolongado sítio dos Mapuches.

Santa Maria Magdalena de Villarrica: fundada em 1552 às margens do lago de mesmo nome, com um vulcão ativo no outro extremo. Tem como objetivo explorar ouro aluvial e consolidar o local como entreposto para a Patagônia e o Atlântico, uma vez que a região abriga a passagem mais acessível de um lado para o outro da cordilheira. Após a derrota de Valdívia em 1553, o novo governador manda despovoar as cidades da região dos lagos. Em 1554, seus habitantes partem pra La Imperial e Concepción. Abandonada, a cidade é reduzida a cinzas. Refundada no ano seguinte, investe na exploração de ouro e prata e no comércio de escravos, vinho e sal com Córdoba e Santa Maria de los Buenos Aires, até ser atacada em 1598 pelos Mapuches. No ataque, a cidade fica completamente isolada das demais, sem comunicação alguma. Resiste a um sítio de três anos, tendo que recorrer ao canibalismo. Um pequeno grupo consegue fugir e escapar do ataque final. É refundada apenas em 1882.

San Mateo de Osorno: fundada em 1558 nos lagos do sul. Na região viviam 80 mil índios. A cidade mantinha estreitas relações com a cidade de Castro, em Chiloé. Em 1602, a cidade é cercada e destruída. A maior parte da população foge com a ajuda de índios que não se rebelaram, logrando chegar a Chiloé. Esses índios ganham o direito de portar armas, fazendo parte das forças do forte de Cabulco.

Em 1598, os Mapuches destroem todas as cidades ao sul de Biobio, permanecendo de pé apenas Castro, em Chiloé. Valdívia, por sua importância estratégica, merece por parte da Coroa um esforço maior para ser reocupada.

PROVÍNCIA DE CUYO

A província de Cuyo fica na Patagônia, do outro lado da cordilheira, na mesma latitude da província de Santiago, e ao sul da Província de Tucumán. A região foi descoberta por Francisco de Villagra, que viria a substituir Valdívia como governador de Nova Extremadura. A província permanece como parte de Nova Extremadura até 1776, quando passa a integrar o Vice-Reino do Rio da Prata.

Geografia

O relevo é montanhoso, a vegetação é escassa, o clima é desértico, com rios originários do degelo da cordilheira. A região é assolada por um vento forte e seco chamado Zonda, que eleva a temperatura e traz muita poeira. O Zonda ocorre com mais frequência entre maio e outubro.

As Cidades

Mendoza del Nuevo Valle de La Rioja: fundada em 1561, consegue viver pacificamente com os índios da região. A cidade é estratégica como ponto de parada entre Santiago e o Rio da Prata. É a segunda maior da Capitania-Geral.

San Juan de la Frontera: fundada em 1562 ao norte de Mendoza como elo de ligação com a Província de Tucumán. Em 1593, a enchente do rio arrasa a cidade e obriga uma mudança de local.

San Luís de Loyola: fundada em 1594 a leste de Mendoza. Importante ponto de ligação da província com o Rio da Prata. No início do século XVIII, os Pehuenches saqueiam San Luís e tomam vilarejos da região.

Entre 1769 e 1770, os Pehuenches realizam diversos ataques relâmpagos a Mendoza, tomando o Forte San Carlos. Em 1771 é erguido o Forte San Juan. Em 1778, um acordo de paz é oferecido pelo então Vice-Rei do Rio da Prata, o que leva a divisões e guerra entre os índios, que dura até 1800.

ILHA DE CHILOÉ

Antes da chegada dos Castelhanos, a ilha era habitada por Chonos, Cuncos e Huilliches. Muitos acabaram aderindo ao catolicismo.

Geografia e Fauna

A ilha é uma continuação da cordilheira da costa. O litoral ocidental, voltado para o mar aberto, é escarpado e sem portos naturais. O seu interior apresenta uma sucessão de colinas altas cobertas de vegetação, de alturas que variam de 500 a 800 metros. Entre as colinas e o mar interior há planícies e morros mais baixos, onde há agricultura e exploração florestal. Ao contrário da costa ocidental, a costa oriental, voltada para o mar interior, é recortada por enseadas, promontórios e pequenas ilhas.

Neva com pouca frequência, mas chove todo o ano. A ilha é cheia de rios e lagos, possuindo cobertura vegetal abundante. A plantação de batata foi introduzida com muito sucesso no século XVI, chegando a apresentar 400 variedades.

A grande variedade de ervas medicinais e de outras propriedades já era intensamente explorada pelos índios da região. Na colônia, passa a ser objeto de estudo dos Jesuítas e a ser cobiçada por bruxos.

A fauna é repleta de aves e animais marinhos. Abriga também o zorro chilote e o pudú, o menor cervo do mundo. Os colonizadores introduzem no século XVI o cavalo e as ovelhas, que acabam desenvolvendo um tipo de raça própria.

As Cidades

Santiago de Castro: fundada em 1567, nos fundos de uma baía protegida por ilhas, em um local de muita vantagem defensiva, com água em abundância e uma pequena quantidade de ouro arrastado pelo rio. Em 1594, abrigava 8 mil habitantes.

Em 1600, a cidade é atacada pelo corsário holandês Baltazar de Cordes, que só obtém sucesso devido a um ardil planejado com os Huilliches. Fazendo-se passar por comerciante, convence as autoridades que um ataque indígena é iminente, o que faz a população se refugiar na igreja. Quando os Huiliches chegam, os holandeses matam os varões castelhanos e constroem um forte improvisado. Com medo de que o episódio venha a colaborar com os Mapuches na guerra, Nova Castela investe no contra-ataque. Cordes consegue escapar, mas é preso em Callao (Nova Castela). A cidade recebe os sobreviventes de Osorno, que havia sido atacada pelos Mapuches, resgatados pelas mesmas forças que libertaram Castro.

San Antonio de Chacao: fundada também em 1567 ao norte da ilha, inicialmente como forte. Em 1768, a população, pouco mais de uma centena, é transferida para San Carlos de Chiloé.

Santa Maria de Achao: pequena vila fundada em 1753 na ilha de Quinchao, localizada em frente à baía que abriga Santiago de Castro. A vila é voltada para o mar interior. Sua igreja, Nossa Senhora do Loreto, é o abrigo final da imagem de Nossa Senhora de Nahuel Huapi, resgatada por uma expedição militar às margens do lago Nahuel Huapi.

Com a guerra contra os Mapuches, dois fortes são erguidos no continente, um em cada ponta do canal Chacao, que separa a ilha da Terra dos Araucos: San Antonio de la Ribera de CarelmapuSan Miguel de Calbuco. Em meados do século XVII, o forte San Francisco Javier de Maullin é construído na foz do rio Maullin.

O forte San Miguel, pouco depois, é transferido para a ilha de Caicaén. De Cabulco partem expedições militares até o lago Nahuel Huapi, na Patagônia. O forte recebe os índios que ficaram ao lado dos colonos no ataque dos Mapuches a Osorno. Com o tempo, os soldados vão se assentando em torno do forte com suas famílias. Até o final do século XVII já havia virado um povoado. Em 1675, uma expedição parte de Cabulco rumo ao sul em busca da Cidade dos Césares.

O forte em Carelmapu é invadido e incendiado em 1642 pelo pirata holandês Hendrick Brower. A vila é posteriormente reconstruída.

Como dos dois fortes partem “bandeiras” contra os índios, os bosques ao sul da Terra dos Araucos, próximo ao canal, permanecem praticamente desabitados. Posteriormente, com o início das negociações de paz entre os Mapuches e o governo de Nova Extremadura, tais ataques são proibidos pelo Vice-Rei.

Os Jesuítas chegam à região em 1609. Nos primeiros anos, instalam-se no forte de Cabulco. Em 1656, os missionários partem para as ilhas do sul. Em 1660, dois jesuítas missionam entre os Chonos e chegam ao Estreito.

Em contrapartida ao avanço do cristianismo nas ilhas, Chiloé também abriga o mais poderoso grupo de bruxaria da colônia, a Recta Provincia (ver detalhes no capítulo de Magia).

Published in: on 20 de setembro de 2016 at 2:09  Deixe um comentário