A GUERRA DE ARAUCO

A guerra entre Castelhanos e Mapuches começou logo após a chegada dos brancos ao vale do rio Maule em 1536, e durou por todo o período colonial, chegando ao fim no início da República. Poemas e epopeias foram dedicados ao conflito já no século XVI, divulgando a capitania pelos salões do Velho Mundo. Entretanto, não são 300 anos de batalhas sem fim; há períodos de maior e menor tensão.

No século XVI, ocorrem duas grandes rebeliões que marcam a relação entre Mapuches e Castelhanos, bem como os limites da ocupação colonial. Em meados do século XVII, em meio a diversos encontros envolvendo tratados de paz, ocorre mais uma grande insurreição. O século XVIII é salpicado por quatro rebeliões de menor duração. Há relatos de mortes rituais de prisioneiros durante a guerra. A Terra dos Araucos resiste independente até a República.

Leftaru e a Primeira Rebelião Mapuche

A primeira grande rebelião é marcada pela liderança de Leftaru, entre 1552 e 1557. Nascido em 1534, filho do líder Curiñancu, Leftaru foi capturado aos 15 anos por Pedro de Valdivia. Permaneceu preso por três anos, tornando-se pajem do governador, que o chamava de Lataro. Nesse período, aprendeu as táticas militares de Valdivia e tornou-se amigo de um capitão que lhe ensinou táticas de cavalaria e o uso de armas de fogo. Na Batalha de Andalién, em 1550, Leftaru testemunhou a crueldade de Valdivia, que mutilava os pés dos índios e depois os liberava. Dois anos depois, logrou fugir a cavalo.

Lefataru procurou então os líderes mapuches e compartilhou tudo o que havia aprendido em seus anos com os Castelhanos, principalmente o uso dos cavalos e das novas armas. Rapidamente tornou-se um líder e fez os Mapuches abandonarem o ataque em massa, passando a atacar por blocos e a utilizar táticas de guerrilha e emboscada, bem como boleadeiras e laços para conter a cavalaria.

Em pouco tempo Leftaru tornou-se Toqui, o chefe máximo da guerra. Criou um serviço de inteligência de qualidade profissional de espionagem e dissimulação, utilizando homens, mulheres e adolescentes. Esses índios aprenderam a simular bebedeira, fingir não saber falar espanhol, converter-se ao cristianismo e aceitar a servidão para se infiltrar entre os brancos. Criou também um sistema de comunicação por meio dos galhos das árvores, para que curtas mensagens pudessem ser enviadas à distância e repassadas com rapidez. Um grupo era treinado especificamente para espionagem noturna.

Em 1553, os Mapuches atacam a tropa de Valdivia acampada nas ruínas do Forte de Tucapel e o matam. Depois disso, arrasam cidade por cidade até o rio Biobio. Saqueiam e incendeiam duas vezes Concepción, fazendo a população fugir para Santiago.

Entre 1554 e 1556, os combates diminuem devido a uma peste de tifo, que mata 300 mil índios. No mesmo período, uma forte seca traz a fome, levando os Mapuches à pratica de canibalismo. Do outro lado, os castelhanos se veem obrigados a se reorganizar e entender como foram sobrepujados por índios bárbaros.

Em fins de 1556, Leftaru cruza Bio-Bio e tenta arregimentar os pacíficos Picunches, chegando a matar aqueles que não aderem à rebelião. De Santiago parte uma tropa para confrontá-lo e é derrotada. No ano seguinte, novo confronto não impede que as forças de Leftaru cruzem o rio Itata.

O antigo amigo capitão de “Lataro” se reúne com o comandante mapuche às escondidas. Em troca do fim da rebelião, Leftaru exige armas, cavalos e mulheres, e que o rio Maule fosse estabelecido como limite do avanço castelhano, antigo limite imposto também ao avanço dos Incas. Não há acordo. Os Mapuches avançam, então, até o Maule.

Leftaru deixa passar as forças do governador Villagro e avança rumo à desprotegida Santiago, como havia sido feito por índios locais na época de Valdívia. Entretanto, um importante cacique aliado de Leftaru, indignado com os maus tratos impostos aos Picunches, debanda com seus comandados. Enfraquecido, Leftaru desiste de continuar a marcha e acampa na margem sul do rio Mataquito. Avisado desses acontecimentos, Villagro retorna sem que Leftaru tome conhecimento. O ataque surpresa vitima o grande líder e mais 650 dos 800 mapuches que estavam com ele. Leftaru é sucedido por Caupolícán, que é preso e morto no ano seguinte.

Segunda Rebelião Mapuche e a Batalha de Curalaba

O retorno de assentamentos coloniais na Araucânia levam os Mapuches a uma nova onda de ataques iniciada em 1598, na qual se destaca o vice-toqui Pelantaro.

Ao sul de Concepción, o governador Óñez de Loyola fazia uma vistoria na cidade La Imperial, já regressando das vilas de Valdivia, Osorno e Villarrica, quando recebeu um pedido de socorro da cidade de Angol, que estaria prestes a sofre um ataque dos Mapuches. Apesar de a ameaça ser verdadeira, a mensagem foi levada por um índio, que fez chegar a mesma notícia a ouvidos mapuches. Uma emboscada a caminho de Angol pega o governador completamente desprevenido. Um verdadeiro massacre. Pelantaro junta o crânio do governador Loyola ao de Valdivia. Apenas dois castelhanos sobrevivem: um padre franciscano (os outros dois morreram) e um soldado que, de tão ferido, foi dado como morto.

Todas as cidades ao sul de Biobio, exceto Santiago de Castro, são arrasadas. A Terra dos Araucos passa a ser limitada ao norte pelo rio Biobio e, ao sul, pelo canal de Chacao, que separa o continente da Ilha de Chiloé.

Os Parlamentos de Paz e a Terceira Rebelião

Ao longo do século XVII, a guerra permanece viva entre os Mapuches e os Castelhanos de Chiloé, que fazem rápidas incursões escravistas no continente a partir dos fortes de Cabulco e Carelmapu, com apoio de tribos rivais aos Mapuches. Posteriormente, com o avançar dos tratados de paz, o próprio Vice-Rei ordena que os colonos parem com esses ataques.

Depois da destruição da cidade de Valdivia, o pirata holandês Hendrick Brower se alia aos índios Huilliches (Mapuches do sul) contra os Castelhanos em Chiloé e se estabelece na baía de Corral em 1643, nas ruínas da cidade. Ao ser abandonado pelos índios, é obrigado a partir.

Ao norte da Terra dos Araucos, a partir de 1641, missões religiosas dão início a uma abordagem diplomática. São cinco “parlamentos” no século XVII e outros cinco no século XVIII. Como não há uma liderança centralizada dos Mapuches, os acordos obtidos têm eficácia apenas regional.

Pelo primeiro tratado realizado no Parlamento de Quillín, em 1641, os Mapuches conservam sua absoluta liberdade, sem serem molestados, escravizados ou entregues aos encomenderos. Seu território tem como fronteira norte o rio Biobio. Os Castelhanos se comprometem a destruir o forte de Angol, que fica dentro do território Mapuche. Em contrapartida, os Mapuches devem liberar os colonos e soldados cativos e permitir a entrada dos padres em missão de paz e de catequese. Também se comprometem a considerar como inimigo os inimigos da Coroa, não se aliando a qualquer força estrangeira que chegue à costa.

Em 1651, após o Parlamento de Boroa, um navio castelhano encalhado no sul é atacado pelos índios Cuncos para roubar sua carga, matando toda a tripulação. Os próprios Mapuches denunciam a tribo culpada pelo ataque. Novos incidentes com os Cuncos levam a uma expedição punitiva em 1653. A expedição é massacrada no rio Bueno por inépcia de seu comandante.

Em 1655, os Mapuches realizam vários ataques nas fronteiras, levando muitas mulheres, crianças e soldados como prisioneiros e escravos. Após centenas de mortos, os colonos tentam depor o governador Antonio de Acuña y Cabrera, considerado culpado pelo novo levante indígena. A inépcia militar e diplomática de Cabrera chega ao ponto do Vice-Rei nomear um novo governador, que precisa assumir à força. O novo governador, Pedro Porter Casanate, consegue dar cabo da nova rebelião em 1661, mas morre por doença no ano seguinte, sem poder usufruir de seu sucesso.

Nessa terceira grande rebelião, os Mapuches fazem 1300 cativos, saqueiam 396 estâncias, e roubam 400 mil cabeças de gado. Nove fortes são destruídos, bem como metade do armamento da Capitania-Geral. Estima-se que, desde o início da guerra, em 1536, até 1664, cerca de 30 mil castelhanos e, possivelmente, 60 mil índios auxiliares perderam a vida. Do outro lado, 200 mil mapuches foram mortos em combate.

As Rebeliões do Século XVIII

É criado o cargo de Capitão de Amigos, um oficial militar encarregado de viver entre os Mapuches e atuar como mediador entre eles e as autoridades coloniais.  Acabam se tornando personagens ambíguos, que levantam suspeitas de ambos os lados.

Em 1723, após 30 anos sem incidentes entre nativos e colonos, um capitão de amigo, que tirava proveitos comerciais de seu cargo, é assassinado devido a sua conduta soberba e cruel. Com o temor de uma expedição punitiva, os Mapuches se anteciparam e cortaram a comunicação entre os fortes do sul. Após três anos de conflitos, nos quais os fortes sitiados foram evacuados, outro acordo de paz é realizado e os Mapuches se colocam como vassalos autônomos do Rei, com o direito de denunciar o abuso de autoridades coloniais. São estabelecidas feiras trimestrais às margens do Biobio para regular o comércio entre nativos e colonos.

Após novo período de paz de 30 anos, um outro período de conflitos tem início a partir de um acordo entre o governo de Nova Extremadura e caciques mapuches visando construir comunicações terrestres entre Concepción, Valdívia e o canal de Chacao. Para este fim, parte uma expedição de Chiloé e outra de Concepción. Entretanto, esta é atacada pelo cacique Lebián, opositor ao acordo.

O governo colonial volta a se reunir com os caciques para garantir o cumprimento do acordo, mas dessa vez os caciques são mais reticentes. O governo tenta, então, impor sua vontade à força, dando início a conflitos que se estendem por mais de dez anos. Com o passar dos anos, Lebián consegue o apoio de Huilliches e Pehuenches, ampliando a área de confronto. Um tênue tratado de paz é aceito com arrogância por Lebián em 1771.

Um novo governador resolve garantir a paz ao promover a cizânia entre os caciques, a ponto dos principais líderes rebeldes serem sistemática e discretamente assassinados sem levantar suspeitas ou provocar reações. Lebián entre eles.

No final do século, após o término do Caminho Real até Chiloé, que permite a reintegração terrestre de Valdívia à Nova Extremadura, os Castelhanos decidem reconstruir a cidade de Osorno, levando os Huilliches à revolta.  Mais enfraquecidos, os Huilliches se limitam a atacar as haciendas. Frente ao poderio militar superior das forças coloniais, pela primeira vez os nativos são obrigados a ceder uma parte de seu território. Em acordo de paz de 1793, Osorno é oficialmente reconhecida pelos Mapuches, que cedem ao governo colonial a região dos lagos, a partir do rio Rahue, que margeia cidade, até as cordilheiras. Do rio até a costa, permanece território dos Huilliches.

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Published in: on 20 de setembro de 2016 at 2:15  Deixe um comentário