A PATAGÔNIA

Patagônia é como os castelhanos chamam toda a região ao sul das áreas colonizadas. No caso, ao sul das províncias de Cuyo, pertencente à Nova Extremadura, e do Rio da Prata. Sem ser uma fronteira formal, a principal referência é o rio Salado, ao sul de Santa Maria de los Buenos Aires. De leste a oeste, vai do oceano Atlântico às cordilheiras, incluindo as ilhas ao sul de Chiloé, habitadas pelos Chonos e Kawésqar.

A Patagônia continental é habitada por tribos nativas conhecidas como Patagões. Apesar de falarem a mesma língua e terem uma origem cultural em comum, o termo cunhado pelos colonizadores engloba três grupos distintos: os Aonikénk, que habitam a Patagônia Meridional, os Guenenakéne, que habitam a Patagônia Setentrional, e os Chehuachekénk, que habitam as cordilheiras da região de Neuquén até o território dos Chonos.

GEOGRAFIA

A parte ocidental junto às cordilheiras é úmida e chuvosa, com bosques extensos e frondosos. A área é repleta de lagos exuberantes e densas geleiras. Seus vales glaciais tornam mais fácil a travessia para o lado do Pacífico, assim como a penetração dos ventos que vêm de lá.

El Chaltén é um pico das cordilheiras próximo ao lago Viedma, chamado assim pelos Aonikenkes por estar quase sempre coroado por nuvens, fazendo os viajantes acreditarem tratar-se de um vulcão. Com 3.400 metros de altitude e paredões verticais de pedra escorregadia, a escalada se torna quase impossível devido aos fortes ventos que o golpeiam. A região, apinhada de outros picos de pedra pontiagudos rodeados por campos de gelo, sofre com mudanças repentinas de clima, o que dificulta ainda mais a empreitada.

A 160 km ao sul, encontram-se as Torres del Paine, um maciço de montanhas que formam torres de granito que chegam a atingir 3 mil metros. Entre El Chaltén e as Torres, há imensas geleiras que chegam a 60 metros de altura, com quilômetros de largura, que avançam sobre os lagos da região.

Há também geleiras correndo para o lado ocidental, uma delas chegando ao oceano, marcando a fronteira entre os territórios dos Chonos e Kawésqar.

A Patagônia vai se tornando cada vez mais seca, e menos habitada, à medida que avança para o Atlântico, pois o vento úmido que vem do Pacífico vai perdendo a força. O clima é frio, havendo uma diferença de 10°C entre o norte e o sul da região.

A parte central e o litoral são praticamente desérticos. Devido às dificuldades da região e à baixa demografia, os índios vivem de caça e coleta. O sul apresenta uma cobertura de vegetação um pouco mais uniforme do que os tufos esparsos que predominam em quase toda a região entre os rios Chubut e Santa Cruz, além de boa parte do litoral, igualmente árido. A monotonia de uma paisagem plana, onde só se vê o alto das colinas no horizonte, é quebrada por vales férteis, cânions, serras breves, lagos de sal e bosques petrificados.

No interior da fria estepe patagônica, a 160 km de Puerto Deseado, jazem gigantescas e grossas árvores petrificadas, como se fulminadas pela fúria dos deuses.

A 120 km ao norte do rio Santa Cruz há um canyon de montanhas rochosas, formando muralhas e labirintos entrecortados por vales cobertos de vegetação, que abriga algumas cavernas.

A costa, com suas falésias rochosas, curvas sinuosas e praias escuras, mostra-se pouco hospitaleira aos navegantes. Alguns, impressionados com suas formas insólitas na bruma da manhã ou sob a luz do luar, chamam o litoral abaixo do rio Santa Cruz de Costa dos Espíritos.

O PLANALTO DAS VISÕES

Entre o rio Negro e o rio Chubut há uma região conhecida pelos nativos como Planalto das Visões. Os primeiros ventos da manhã parecem trazer vozes e espíritos capazes de provocar visões nos viajantes.

A região como um todo possui uma permeabilidade com o mundo astral mais intensa do que no resto do continente. Em alguns pontos, esta aproximação é quase palpável, podendo até mesmo ser vislumbrada a olho nu. Isso afeta diretamente na relação dos xamãs patagões com a magia. O ponto de maior esgarçamento é o Planalto das Visões. Quanto mais para o centro das estepes áridas, maior a influência do plano astral na realidade.

Orixás podem ser impedidos de incorporar e os espíritos dos feiticeiros negros podem ter dificuldade ao enfrentar os espíritos da região.

A COLONIZAÇÃO

A natureza em si é um obstáculo maior para a ocupação castelhana do que a resistência indígena. A aridez e vastidão da paisagem, além da baixa demografia, faz com que os colonos se refiram a estas terras como o Grande Deserto.

Muitas expedições, de diversas origens, arriscaram-se na região até que a Coroa castelhana, temendo as constantes incursões de britânicos e holandeses, decide estabelecer colônias ao sul. Entretanto, a ocupação do que seria a Província de Nova León transforma-se em uma coleção de fracassos.

As Expedições Costeiras

A primeira grande expedição foi do lusitano Fernão de Magalhães, em 1520, determinado a encontrar uma passagem para as Índias contornando a Terra de Santa Cruz. Decidiu procurá-la pelo sul. O inverno rigoroso obrigou sua frota a aportar em uma baía bem protegida da região.

Enquanto aguardava poder seguir viagem, enviou um de seus navios em missão exploratória. Este desceu a costa até a entrada de um largo rio, batizado de Santa Cruz. Devido a uma avaria, a embarcação teve de passar alguns meses em uma ilha fluvial.

Neste meio tempo, Magalhães enfrentou um motim. Um dos capitães amotinados foi morto em combate e o outro, decapitado. Um oficial amotinado foi enforcado em terra e o capelão que o apoiou foi deixado para trás, abandonado em uma ilha.

Magalhães havia travado contato com os índios locais, a quem chamou de patagões devido às vestimentas de pele. Como os índios eram bem mais altos que os lusitanos, os pés, envolvidos em peles, pareciam ainda maiores. Magalhães tentou levar um deles para exibi-lo na Europa, mas tal ato não foi bem aceito. Na breve confusão que se seguiu, um Aonikénk foi morto. O primeiro da colonização.

Poucos anos depois, um navio castelhano aportou na mesma baía, batizada de San Julián, onde foi colocada uma cruz e rezada uma missa. Décadas mais tarde, o corsário britânico Francis Drake encontra o patíbulo construído pelos homens de Magalhães para executar os amotinados.

A primeira expedição oficial com a finalidade de ocupação ocorre em 1534, liderada pelo castelhano Simón de Alcazaba, que aporta na costa com 250 homens e dois navios, 500 km ao norte de San Julián. O grupo monta um pequeno assentamento na costa, mas o objetivo de colonização foi prejudicado pela cobiça. Sem sequer esquentar lugar, Alcazaba logo monta uma expedição e parte território adentro, sonhando com a riqueza da Cidade dos Césares, cuja fama já começava a se alastrar na Metrópole. Contudo, os rigores da viagem leva a um motim e ao assassinato de Alcazaba. Quando o grupo retorna ao assentamento, confronta homens leais ao comandante.  O motim, então, é contido, deixando 80 mortos. A expedição decide retornar à Metrópole, abandonando o assentamento, mas um dos navios naufraga no meio da viagem, perto da costa de São Sebastião. Apenas 75 pessoas retornam com vida ao porto de Barrameda, em Andaluzia.

No século XVII é a vez de navios da Coroa Britânica se aventurarem pela região, não mais corsários como Francis Drake, mas oficiais militares. A pouco mais de 200 km ao norte de San Julián, o Almirante John Narborough toma posse da região com o intento de fundar Port Desire. Entretanto, após perder contato com o outro navio da expedição em um temporal e navegar pelo estreito até a Ilha de Chiloé, mapeando a região, entra em confronto com navios castelhanos e decide recuar. Depois, envolvido na guerra entre britânicos e holandeses, não retorna mais aos mares do sul, mas seus mapas se tornam muito úteis às expedições futuras. Duas décadas mais tarde, outra embarcação britânica atravessa o canal das ilhas Sebaldinas, batizando-o de Canal de Falkland.

Muitos anos depois dos britânicos, os Jesuítas chegam a Port Desire, agora rebatizado de Puerto Deseado, e à baía de San Julián, onde fincam uma cruz. Entretanto, decidem se estabelecer bem mais ao norte, na laguna de Las Cabrillas (depois chamada de Los Padres), ao sul do rio Salado, a poucos quilômetros da costa. Em suas margens fundam a missão Nossa Senhora do Pilar. A redução conta com 1.200 índios Hets.

Com o sucesso inicial, outras duas missões são erguidas na região: Missão dos Desamparados e Missão de Concepción de los Pampas. Apesar de serem bem recebidos, o cacique Cangapol, principal líder dos patagões setentrionais, percebe a concorrência das missões e decide atacar, destruindo Desamparados. Os missioneiros de Nossa Senhora de Pilar fogem então para Concepción, que também é atacada e abandonada.

As principais iniciativas de colonização por parte dos Castelhanos ocorrem no século XVIII, um reflexo da tentativa de britânicos e franceses ocuparem as ilhas Sebaldinas. Os colonizadores chegam ao golfo San José, na península Valdés, onde é fundado o porto de San Juan de la Candelaria.  De lá são enviadas duas expedições exploratórias: uma para explorar o rio Colorado e outra para fazer um assentamento na foz do rio Negro, ambos ao norte, subindo a costa.

Na entrada do rio Negro é fundada Nova Murcia, que recebe famílias vindas da Metrópole, e o Forte Nossa Senhora de Carmen, após negociação amigável com o cacique Negro. O rio é o mais importante de toda a Patagônia devido ao seu volume d’água, e os colonos decidem explorá-lo. Porém, a expedição chega só até a metade do caminho, na ilha Choele Choel, um verdadeiro oásis agrícola. Os exploradores estranham a presença de macieiras, desconhecendo as atividades dos jesuítas no lago Nahuel Huapi, onde nasce o rio Limay, que dá origem ao rio Negro. Eles tentam construir um forte na ilha, mas são rechaçados pelos índios. Para se prevenirem de uma eventual mudança de humor dos homens de Negro ou mesmo de ataques de inimigos estrangeiros, os colonos decidem erguer um forte em cada margem do rio: Forte San Javier, ao sul, e Forte Invencible, ao norte.

Em Puerto Deseado, é fundada San Carlos de Puerto Deseado. Em seu primeiro ano, os colonos enfrentam problemas com o escorbuto, devido à escassez de alimentos. Os colonos decidem explorar o rio Santa Cuz até a sua nascente, chegando ao Cerro El Chaltén, já nas cordilheiras.

Próximo à baía San Julián, um pouco mais para o interior, a fim de evitar a pirataria, é fundada Floridablanca. Na baía é erguido o Forte San José sobre os escombros de acampamentos anteriores. Vinte e quatro famílias chegam de La Coruña. A vila é composta por 150 homens, 18% de presidiários do Rio da Prata e 14% de militares. Logo de início também enfrentam uma epidemia de escorbuto. Dedicados à agricultura, os colonos mantêm comércio e relações harmoniosas com os Aonikénk, conseguindo contornar as dificuldades iniciais e começar a prosperar.

Desafortunadamente, o Rei fica sabendo com atraso do primeiro ano desastroso, e, sem ser atualizado do progresso da região, manda desmantelar a colônia. Nesse mesmo período, a Metrópole enfrenta os britânicos na Europa e uma revolta em Nova Castela, liderada por Túpac Amaru II. Dos assentamentos, apenas dois são mantidos: o forte San José, a fim de manter um posto de observação da atividade marítima na região e dar apoio às embarcações pesqueiras; e Nova Múrcia, inicialmente por insubordinação dos colonos, mas depois com o consentimento real, visto como importante porto de comunicação com os colonos nas Malvinas, ex-Sebaldinas.

Entre 1779 e 1781, uma linha de fortificações separando a Patagônia e o Vice-Reino do Rio da Prata é construída ao norte do rio Salado, em decorrência de tratados com os índios. As fortificações são ocupadas por unidades de cavalaria e por milicianos.

As Expedições Andinas

No século XVII, as cordilheiras patagônicas são frequentemente exploradas por Castelhanos e corsários de outros reinos, aproveitando-se do fácil acesso pelos vales da região dos lagos, na Terra dos Araucos.

As primeiras expedições castelhanas para a região partiram de Castro e do forte de Cabulco, com a finalidade de capturar índios e combater holandeses infiltrados, que se utilizavam do conflito entre Castelhanos e Mapuches para se aliar aos índios. Com a proibição do Vice-Rei do apresamento dos Mapuches, a nova estratégia é enviar os padres jesuítas para pacificar a região habitada pelos Chehuachekénkes e Pehuenches. Duas missões são fundadas ao redor do lago Nahuel Huapi, onde, no final do século XVI, padres mercedários, vindos de Osorno e Villarrica, haviam tentado sem sucesso se fixar. Com a destruição destas duas vilas pelos índios, a missão ficou sem suporte e os mercedários tiveram de abandoná-la.

Os Jesuítas são bem recebidos inicialmente. Plantam as primeiras maçãs, que logo se espalham pelas cordilheiras, tanto do lado ocidental quanto oriental. Um dos padres resolve explorar, com sucesso, o rio Negro até o Atlântico.

Uma pequena quantidade de gado bovino e equino abandonado pelos Castelhanos se espalha rapidamente pelos pampas até se transformar em enormes manadas selvagens. Os Guenenakénes começam a capturar e domesticar os cavalos trazidos pelos colonizadores e a caçar o gado disperso. Em pouco tempo, começam a comercializá-los com os Mapuches, que acabam sendo atraídos para a região. À medida que se desenvolvem cada vez mais nessa prática, os conflitos com castelhanos em Cuyo e no Rio da Prata se intensificam, aumentando a necessidade da Metrópole de impor limites aos índios.

Com a chegada dos Mapuches na região, a sorte dos Jesuítas começa a mudar. Os padres passam a ser mortos pelos índios. A Companhia de Jesus não desiste e continua a mandar substitutos, que não sobrevivem por mais de três ou quatro anos. Outra missão é erguida onde o rio Neuquén encontra as águas do rio Limay, formando o rio Negro. Os jesuítas vão sendo sucessivamente assassinados até que a missão de Nahuel Huapi é incendiada. As missões restantes resistem por mais quatro anos, quando são finalmente abandonadas.

A Cidade dos Césares

Cidade mítica da Patagônia, insistentemente procurada por exploradores e aventureiros. A primeira menção à cidade ocorre em 1528, a partir da fortaleza Sancti Spiritu, quando o veneziano Sebastián Gaboto envia uma pequena expedição para o oeste, a fim de verificar os relatos dos índios sobre uma cidade cheia de riquezas.

O grupo liderado por Francisco César, que mal passava de uma dúzia de homens, retorna poucos meses depois dizendo ter visto a tal cidade. Os soldados dessa expedição ficaram conhecidos como “Os Césares”, devido ao nome de seu comandante.

Nessa época, os Castelhanos ainda não haviam descoberto a terra dos Incas, de forma que, quando isso ocorreu, muitos concluíram que os Césares haviam chegado a uma de suas fabulosas cidades. Entretanto, nos registros da expedição de Gaboto, consta que o grupo havia descido em direção à Patagônia, travando contato com os Hets, o que fez crescer os boatos de que haveria uma colônia inca nas cordilheiras do sul.

Isso deu origem a diversas expedições frustradas, tanto oficiais quanto de aventureiros. Em vez do fracasso dessas tentativas fazerem arrefecer as buscas, estas só aumentaram, pois relatos de náufragos e sobreviventes de outras expedições traziam informações indicativas da existência de tal cidade.

As Vilas Autônomas

Outro tipo de aventureiro caminha pela imensidão patagônica: os sobreviventes. Náufragos de navios colhidos pelas tempestades; sobreviventes de assentamentos destroçados pelos índios ou pela fome; sobreviventes de expedições exploratórias de destino incerto. Dessas expedições, a maioria buscava a Cidade dos Césares, jamais encontrada.

Poucas dessas almas mal aventuradas lograram chegar a uma vila, um forte, ou serem resgatadas por algum navio. Muitos morreram de fome, de frio, ou pelas mãos dos índios. Outros tiveram a sorte de cruzar o caminho de uma tribo mais amistosa. Destes, alguns acabaram se adaptando aos hábitos nômades e sendo aceitos pela tribo. Mas há aqueles que decidiram seguir adiante ao ouvir relatos da presença de homens brancos na região de Nahuel Huapi.

Aos poucos, próximo às ruínas das missões jesuíticas, foram se formando duas vilas: uma em Nahuel Huapi, chamada San Carlos, outra em Neuquén, onde começa o rio Negro. Não são vilas coloniais, autorizadas pela Coroa, ou mesmo de conhecimento desta. Viajantes e comerciantes que negociam com os Patagões tomam conhecimento de sua existência, mas muitas vezes essa informação é recebida como boato ou lenda. Seus habitantes estão por conta própria, a mercê dos humores dos Patagões e dos Mapuches. A elas volta e meia se dirige um degredado, alguém fugindo da lei dos homens, um aventureiro, ou mesmo viajantes a procura de um pouso mais acolhedor.

Neuquén é a vila onde brancos e índios vivem em mais harmonia. Como mulher branca é raridade por essas bandas, muitos brancos se juntam às nativas. A intensa miscigenação entre os próprios nativos – patagões setentrionais, das cordilheiras e Mapuches – vai formando uma nova cultura, que abandona os hábitos nômades pela atividade pecuária.

Em San Carlos, a maioria é branca, composta não só de castelhanos, mas também de aventureiros de outros reinos. Eles mantêm contato regular com o povo de Neuquén, mas procuram preservar seus costumes, fazendo com que o assentamento muito se assemelhe a uma vila colonial, utilizando em sua construção os restos das missões destruídas. Sua presença é apenas tolerada pelos índios, mas por razões que os habitantes de San Carlos desconhecem. Eles acreditam que a vila permanece de pé graças ao poder de Nossa Senhora de Nahuel Huapi.

De fato, a imagem da Virgem tem o poder de manter a vila protegida de qualquer ameaça espiritual ou demoníaca, o que tornaria bastante complicada a vida de um feiticeiro ou sacerdote negro de passagem pela vila, pois seus espíritos e orixás seriam barrados pela potente Barreira Astral emanada da Virgem. Da mesma forma, inibe a atividade dos xamãs locais, que costumam manter constante contato com os espíritos. Mas o que protege mesmo os habitantes de um eventual ataque é o Padre Sérgio.

Padre Sérgio é um jesuíta que se dedicou a explorar toda a região, sempre acompanhado de guerreiros Chehuachekénkes. Conheceu mais sobre a Patagônia do que qualquer homem branco vivo ou já vivido. Enquanto seus colegas de batina se dedicavam à catequese e à vida espiritual nas missões, Padre Sérgio vivia aventuras inimagináveis, impressionando os guerreiros que o acompanhavam com sua coragem e poder. Sua fama se alastrou de tal maneira entre os índios que, certa vez, um cacique decidiu acompanhá-lo em suas viagens.

Apesar de aconselhado do contrário, Padre Sérgio decidiu explorar o Planalto das Visões. Estava firmemente determinado em acampar na região o tempo que fosse necessário para compreender a natureza do lugar. Tal experiência o levou à loucura. Permaneceu por um tempo desaparecido, sendo considerado morto. Neste período, ocorreu o ataque às missões. Poucos anos depois, foi encontrado vagando sem rumo próximo a San Carlos. Os habitantes o acolheram e construíram para ele, obedecendo a um pedido seu, uma choupana subindo a colina, com uma bela vista do lago e das montanhas.

Padre Sérgio alterna períodos de demência e total delírio com rasgos de lucidez. Nestes momentos, poderá revelar tudo o que sabe e o que aprendeu em suas andanças. Há quem diga que, entre tais revelações, estaria a localização da Cidade dos Césares. Entretanto, o que o padre vivenciou em suas andanças é tão fantástico e inacreditável, que é impossível diferenciar os relatos verdadeiros dos momentos de delírio. Aquele que o visitar em sua choupana dificilmente sairá sem escutá-lo dizer: “ninguém vai ao sul, é o sul que vem até você”.

Em respeito ao Padre Sérgio, os índios deixam os habitantes de San Carlos em paz. Mas é uma trégua com prazo de validade. Seus habitantes que tratem de cuidar bem do velho padre, pois dele, sem o saberem, depende sua sobrevivência.

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Published in: on 22 de setembro de 2016 at 1:57  Deixe um comentário