GUERRAS CALCHAQUIS

Trata-se do frequente enfrentamento entre a Confederação Diaguita e os colonizadores castelhanos entre 1560 e 1667. Os Diaguitas habitam a região de serra de Tucumán, de San Salvador de Jujuy até La Rioja, atravessando as cordilheiras e ocupando o vale do Copiapó e arredores, no norte de Nova Extremadura. Já faziam parte do Império do Sol, mas, com a chegada dos Castelhanos, muitos se refugiaram nos montanhosos vales Calchaquis, de difícil penetração. A confederação é formada pela reunião de várias etnias unidas por uma língua comum, o Cacán, a qual se juntaram os Omaguacas. Os Calchaquis vivem nas altas montanhas, em território agreste, difícil de atacar e fácil de defender.

Primeira Guerra Calchaqui

A primeira revolta teve origem em 1562, quando o cacique Juan Calchaqui aceitou ser batizado como parte das negociações de paz e ficou indignado ao perceber a real natureza da exploração indígena nas encomiendas. Lançou-se então ao ataque e destruiu as três cidades serranas que formavam o cinturão defensivo de Santiago del Estero. A mesma onda de ataques destruiu a Cidade de Nieva, mais ao norte. Esta primeira guerra resultou na separação da Província de Tucumán da Capitania-Geral de Nova Extremadura.  Os Castelhanos tentaram contra-atacar sem sucesso, mas constataram que os índios já não possuíam a mesma força para realizar outra onda de ataques semelhante.

A Rebelião de Viltipoco

Em 1594, o cacique omaguaca Viltipoco lidera 10 mil guerreiros da Quebrada de Humahuaca em um sítio à cidade de San Salvador de Jujuy, para dar cabo ao serviço indígena nas encomiendas, ameaçando também a cidade de Salta. Seus guerreiros recebem apoio dos Diaguitas. O ataque corta a ligação da região com Nova Castela. Dessa vez os castelhanos conseguem resistir e contra-atacar com sucesso, invadindo a Quebrada e prendendo Viltipoco, que acaba morrendo na prisão.

Segunda Guerra Calchaqui

O novo governador de Tucumán manda castigar 200 Hualfines (uma das etnias Diaguita) que trabalhavam nas encomiendas. O castigo consiste em açoitamento e corte do cabelo, só que este é considerado ofensa máxima para um hualfín. Assim, em 1630, o cacique Chalimín promove um levante contra os colonizadores, o que logo ganha a adesão de várias tribos: Capayanes, Olongastas, Yacampis e Calchaquis. Os encomenderos são mortos ou expulsos.

O contra-ataque em 1631 garante uma pacificação imediata, mas logo as hostilidades continuam. Neste mesmo ano, os Diaguitas sitiam La Rioja, mas reforços vindos de San Miguel de Tucumán aliviam a situação. Em novo contra-ataque, os Castelhanos são bem sucedidos e matam muitos índios, fazendo com que abandonem seus povoados e busquem abrigo mais ao norte, no Chaco. Contudo, mais uma vez a vitória havia sido breve.

Apenas em 1637 os castelhanos conseguem debelar a revolta e submeter os Diaguitas novamente às encomiendas. Chalimín foi finalmente preso, assassinado e esquartejado. Entretanto, os vales Calchaquis continuam servindo de refúgio aos índios indomáveis.

Terceira Guerra Calchaqui

A terceira onda dura de 1658 a 1667, iniciada por um aventureiro andaluz, Pedro de Bohorquez, que se autodenomina Inca Hualpa. Ele consegue o apoio dos Quilmes e até mesmo de jesuítas, juntando sob o seu comando 6 mil guerreiros. Os Jesuítas veem em suas ações uma facilitação ao processo de cristianização dos Diaguitas. Assim, Bohorquez consegue manter o controle da região por vários anos. Entretanto, o Vice-Rei não tem a mesma visão dos Jesuítas e ordena prendê-lo.

Em 1659, Bohorquez se entrega ao exército, achando que iria ser perdoado, mas é levado a Lima e executado. A confederação continua a guerra em apoio aos Quilmes, destruindo as missões da região, até o novo líder ser vencido em 1665. O governo promove a dispersão de 11 mil índios rebeldes em reduções próximas a Santa Maria de los Buenos Ayres. Os Quilmes são obrigados a caminhar de Tucumán até o rio da Prata.

Alguma resistência ainda persiste até 1667. O Vice-Rei decide deportar, dividir e escravizar os Diaguitas remanescentes.

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Published in: on 20 de setembro de 2016 at 1:14  Deixe um comentário  

PROVÍNCIA DE TUCUMÁN

Quando Almagro chegou à região em 1535, após descer pelo interior do Altiplano vindo de Nova Castela, nela viviam cerca de meio milhão de Diaguitas. Entretanto, a primeira cidade colonial só foi fundada em 1550, seguida de mais quatro nos dez anos posteriores, sempre com bastante resistência dos nativos. Neste período inicial, a Província de Tucúman permaneceu atrelada à Capitania-Geral de Nova Extremadura.

Em 1560, os Diaguitas promovem uma guerra contra os colonizadores e saem vencedores. Em 1563, em reação, o Vice-Rei decide tornar Tucumán uma província autônoma vinculada diretamente a Nova Castela, sendo administrada por um governador, em vez de um corregedor, e regrada pela Real Audiência de Charcas, localizada na Corregedoria de Potosí. Em 1585 chegam os Jesuítas.

Uma vez que há poucos metais preciosos no território e este fica longe do Vice-Reino, a luta entre os Castelhanos por terras é ferrenha e desregrada, levando a atritos entre os governos de Nova Extremadura e de Nova Andaluzia. Posteriormente, a ocupação da província é intensificada, a fim de construir um caminho seguro de Nova Castela até as províncias do sul.

A forma de premiar os colonos pela difícil empreitada é a encomienda, coluna vertebral e motor fundacional das cidades, mas algumas são criadas sem autorização. As terras férteis e de clima mais ameno são cobiçadas, mas as melhores estão justamente nos vales Calchaquis, onde a resistência à dominação se mantém por 100 anos.

Ao contrário do que ocorre em Nova Extremadura e Nova Castela, os encomenderos detêm o poder nos cabildos até o século XVIII, quando começam a perder força ante as reformas administrativas na colônia. Um encomendero submete um grupo de índios que trabalha para ele como forma de tributo, e lhes dá proteção, vestimenta e alimentação.

No final do século XVII, a região se encontra suficientemente estável para estabelecer uma boa relação comercial com Nova Castela, principalmente no comércio de algodão.

As encomiendas definham no início do século XVIII por falta de mão de obra. Além da concorrência com as missões jesuíticas e a crescente mestiçagem, entre 1686 e 1720 ocorre uma sucessão de pestes. Fuga e ataques indígenas são também fatores de diminuição da mão de obra.

Real Audiência de Charcas

Este tribunal de apelação foi criado em 1599, sediado na cidade de La Plata, no Altiplano, próxima a Potosí. Sua jurisdição abarca as províncias de Tucumán, Rio da Prata, Guayrá e Santa Cruz de la Sierra, e os corregimentos de Potosí e La Paz.

As Tribos

A Província de Tucumán é dominada pela Confederação Diaguita, com seus vários subgrupos, entre os quais se destacam Quilmes, Calchaquis, Capayanes, Yacampis e Olongastas. A região oriental da província é dominada pelos Guaicurus. No norte há a presença de Kollas, Wichís e Omaguacas, que dominam a Quebrada de Humahuaca

GEOGRAFIA

A província acompanha a vertente oriental da cordilheira desde o Altiplano até os limites da Província de Cuyo. Estende-se a leste pela zona alta dos Pampas e, ao norte, até o rio Bermejo, que separa o Chaco Austral do Chaco Central.

Metade do ano é de clima agradável, com inverno frio e seco, quase sem chuvas. O verão é bastante quente e chuvoso. Terremotos são frequentes, mas de baixa intensidade.  Na fronteira com a Província do Rio da Prata, junto à margem sul do rio Bermejo, ergue-se um bosque agreste conhecido como “o Impenetrável” (ver no capítulo sobre o Chaco).

Deserto das Salinas

Localizado a meio caminho entre Córdoba e Catamarca, ocupa uma área de 6 mil km². No centro há uma falha tectónica onde se acumula água das chuvas procedente das serras. Clima seco e quente, chegando costumeiramente a 45°C. Parece um campo nevado, mas é um campo de sal. Em épocas de inundação, as salinas apresentam um aspecto espelhado. Grande amplitude térmica entre o dia e a noite, bem como verão e inverno.

A poucos quilômetros dali, direção nordeste, há a salina de Ambargasta, com 4.200 km². A oeste, o lago de sal La Antigua, com 410 km². Juntas, formam a maior área de salinas do planeta.

Mar de Ansenuza

Grande lago de água salgada, sem saída para o mar, a nordeste de Córdoba. É chamado pelos colonos de Laguna de Los Porongos, que, à época da fundação da cidade, confundiram o lago com o oceano Atlântico.  Pode alcançar uma área de 8.000 m² e profundidade de 11 metros em época de cheia, ou de 2.000 m² após um período intenso de seca.

O lago é formado por três afluentes, dois deles vindos do sul, e o principal, o rio Dulce, que banha Santiago del Estero, do norte. Antes das águas do rio Dulce chegarem ao lago, ele forma um banhado de área semelhante ao próprio lago. O local é um santuário de peixes e pássaros protegido, segundo a lenda, pela deusa Ansenuza.

AS CIDADES

A Capital

Santiago del Estero: fundada oficialmente em 1553 em decorrência da fundação de outra cidade, El Barco.

El Barco foi fundada em 1550 por Nuñez de Prado. Só que os fundadores entraram em conflito com uma expedição castelhana enviada por Valdívia, governador de Nova Extremadura. O pessoal de Nuñez acabou decidindo mudar a cidade para um local mais ao norte, fundando El Barco II no ano seguinte. Entretanto, a Real Audiência de Lima ordenou que a cidade retornasse para o sul, pois os índios da região eram muito beligerantes. Quem se opôs à mudança foi condenado à forca. Assim, oitos meses após terem se restabelecido, os moradores tiveram que migrar para o sul, para fundar El Barco III. A cidade foi reinstalada em meio em a uma tribo de índios agricultores que ofereceram resistência. Os colonos tiveram de rechaçar um ataque de 4 mil índios.

El Barco III ficava em meio a um bosque, próximo a cursos d’água ricos em pesca, além de bons pastos e caça abundante. Mas Nuñez estava insatisfeito com o novo sítio, temendo nova intervenção do governo de Nova Extremadura. De fato, em 1553, homens de Valdívia tomaram a cidade e fizeram de Nuñez prisioneiro. O novo comandante, Francisco de Aguirre, para escapar das constantes cheias do rio Dulce, mandou mudar novamente a cidade de lugar, que recebeu o nome dessa vez de Santiago del Estero.

A nova cidade serve de base para a fundação de diversas cidades da província, como San Miguel, Córdoba, Salta, San Salvador de Jujuy e Catamarca. Localização central, importante na ligação entre Nova Castela e o rio da Prata. A cidade atua também como protetora das cidades menores, enviando várias expedições militares, até mesmo rumo à Província do Rio da Prata quando esta é atacada por piratas.

O Cinturão Defensivo

Três cidades foram erguidas no alto da serra, a oeste de Santiago del Estero, com a finalidade de compor um cinturão defensivo contra os Calchaquís, tribo hostil da Confederação Diaguita. Serviam, também, para preservar a rota comercial com Nova Extremadura.

Londres de Nova Inglaterra: fundada em 1558 perto de uma antiga mina do Império do Sol. Três anos depois, a cidade foi destruída pelos Diaguitas em resposta à hostilidade do Alcaide.

Córdoba de Calchaquí: segunda cidade a formar o cinturão defensivo, fundada em 1559. Foi arrasada em 1562 pelos Calchaquís, após ficar isolada pelo abandono das duas cidades vizinhas.

Cañete: fundada em 1560 no local onde havia sido fundada a primeira El Barco. Foi abandonada em 1562 após os ataques indígenas.

Cidades do Norte

San Miguel de Tucumán: fundada em 1565. Em 1578, o governador reúne uma expedição para procurar a Cidade dos Césares, deixando na cidade apenas 18 homens, com mulheres e crianças. Cientes disso, os Diaguitas atacam e incendeiam a cidade, mas não conseguem expulsar os colonos.

Em 1582 há 25 encomenderos na região, para quem trabalham 3 mil índios. Em 1618, a população geral chega a 12 mil habitantes. Mas, após duas guerras Calchaquís, o que obriga a um desvio na rota comercial, a cidade é castigada pelo isolamento. Assim, em 1680 são apenas 150 castelhanos e 2 mil índios.  Além disso, o lugar apresenta problemas com a qualidade da água e enfermidades. Em 1685, decidem mudar a cidade 64 km a noroeste, em um terreno entre a pré-cordilheira e as serras pampeanas.

Nossa Senhora de Talavera del Esteco: fundada em 1566 por um grupo que se indispôs com o governador de Tucumán, Francisco de Aguirre, e partira de Santiago del Estero rumo ao norte da província. A população, em sua maioria, é formada por índios, com maioria de mulheres. No final do século, mais da metade da cidade migra para Madrid de las Juntas, fundada em 1592, de melhor localização.

Em 1609, o governador de Tucumán manda fundir as duas cidades em um novo local, nascendo assim Nossa Senhora de Talavera de Madrid. A cidade se torna rica e importante devida à produção de algodão. Ganha fortificações, um colégio e um seminário franciscano. No século XVII, chega perto de 40 mil habitantes, sendo a cidade conhecida como a Rainha do Chaco.

Em um determinado momento, quando a cidade começa a receber escravos negros, um poderoso feiticeiro negro passa a atuar na cidade, tornando-a um centro de práticas de feitiçaria. A seu redor circulam principalmente brancos, tendo cúmplices na elite local. O bispo de Tucumán tenta provar o envolvimento das autoridades locais junto à Real Audiência de Charcas, mas não é bem sucedido.

Em 1692, já em decadência devido a pestes e ao sucesso de rotas comerciais alternativas, construídas para driblar problemas com índios beligerantes do Chaco, a cidade é destruída por um grande terremoto. A população sobrevivente migra para dois povoados próximos, San José de Metán e Rosário de La Frontera.

San Felipe de Salta: fundada em 1582, cumprindo determinação da Coroa de intensificar a ocupação da região. Sua função primeira é mitigar a resistência indígena. A médio prazo, cumpre o objetivo de aumentar o número de escalas entre o Rio da Prata e Lima, a capital do Vice-Reino. A cidade sofre com o mesmo terremoto que destrói Talavera de Madrid, mas sobrevive graças a um milagre.

San Salvador de Jujuy: fundada em 1593 em uma região bem irrigada, servindo como porta de entrada para a Quebrada de Humahuaca, vale profundo que leva até as minas de prata de Potosí.

Trata-se, na verdade, da terceira tentativa de assentamento no local. Em 1561 havia sido fundada a Cidade de Nieva, destruída pelos Calchaquís em reação à escravização de índios. Em 1575 foi fundado o povoado de San Francisco de Álava, incendiado sete meses depois. Na terceira tentativa, bem sucedida, os castelhanos submeteram previamente os índios locais. A cidade só voltou a ser ameaçada por um levante indígena no final do século XVIII.

Cidades ao Sul

Todos los Santos de Nueva Rioja: militares fundam a cidade em 1591, próximo à serra.

Em 1612 é fundada San Juan Bautista de La Paz, na serra; mas, em 1630, devido aos constantes ataques indígenas, os moradores abandonam a nova cidade e se estabelecem em Nova Rioja.

San Juan Bautista de la Ribera: fundada em 1633 com fins militares, no alto da serra, acima dos 1.200 metros.

Belén: fundada em 1681 na serra, em decorrência de um longo processo de negociação com os índios serranos iniciado em 1627.

San Fernando del Valle de Catamarca: fundada em 1683 pelo governo da província em uma área próxima à cordilheira sujeita a terremotos, mas de clima árido e terra fértil.  A cidade abriga a imagem da Virgem do Vale, cuja aparição ocorreu em uma caverna próxima entre 1618 e 1620.

Córdoba de Nova Andaluzia: é a cidade mais ao sul da província, e também a mais próxima da capital da Província do Rio da Prata; na mesma latitude da cidade de San Juan de la Frontera, a oeste, na Província de Cuyo, e de Santa Fé, a leste. Foi erguida em 1573 no extremo oeste dos pampas, na chamada pampa alta. Seus fundadores acreditaram equivocadamente que a laguna Mar de Ansenuza, próxima à cidade, era uma baía oceânica.

A Catedral de Córdoba começa a ser construída em 1580 e é finalizada apenas em 1758. Os jesuítas chegam em 1585 e transformam a cidade em seu centro de operações no continente. Fundam um noviciado, o Colégio Máximo e, em 1613, a Universidade de Córdoba, a quarta mais antiga do continente, com uma biblioteca de 5 mil livros. A eles se seguiram os Mercedários e os Dominicanos. Em 1699, a cidade vira sede da Arquidiocese de Tucumán. Assim, a cidade se torna o centro religioso e educacional das províncias do sul.

Em Córboba funciona, a partir de 1622, a Aduana Seca, que controla o tráfico entre Nova Extremadura, o Altiplano e a capital do Rio da Prata. Em 1760, a população chega a 22 mil habitantes, sendo apenas 1.500 castelhanos.

Tempestades são comuns no verão, embora não chova muita ao longo do ano. Há grande variação de temperatura, sendo rara a incidência de neve. Mas a passagem de tornados é comum na região.

Published in: on 20 de setembro de 2016 at 1:01  Deixe um comentário