PROVÍNCIA DO GUAYRÁ

De 1534 até 1617, a Província do Rio da Prata era unida à Província do Guayrá, formando a Província de Nova Andaluzia, submetida diretamente ao Vice-Reino de Nova Castela, com a capital em Assunção. Após a separação, a Província do Guayrá fica sem saída para o mar.

As missões guaraníticas fazem parte da província, mas, na prática, constituem um governo autônomo. A expansão territorial da província a leste e nordeste é contida pelas bandeiras lusitanas e índios pouco amistosos. A expansão a oeste e noroeste é contida pelo Chaco e seus índios rebeldes. Com a criação do Vice-Reino do Rio da Prata em 1776, a província é incorporada e Assunção perde de vez o seu protagonismo.

Real Audiência de Charcas

Este tribunal de apelação foi criado em 1599, sediado na cidade de La Plata, no Altiplano, próxima a Potosí. Sua jurisdição abarca as províncias de Tucumán, Rio da Prata, Guayrá e Santa Cruz de la Sierra, e os corregimentos de Potosí e La Paz.

Geografia

Planalto de baixa altitude, com média de 500 metros, com presença de morros ondulados. Clima úmido com chuvas e altas temperaturas constantes, mas os invernos são frios. Cortado por bosques e rios.

Ao longo do rio Paraguay, os terrenos são baixos e inundáveis. Pântanos e florestas verdejantes cobrem essa área.

A Capital

Santa Maria da Assunção: fundada em 1541, no lugar onde antes havia um forte militar erguido em 1537, após a primeira tentativa frustrada em fundar uma vila portuária na foz do rio da Prata. A aliança com os Guaranis foi imediata. A cidade se tornou o centro colonizador da bacia do Prata e do Gran Chaco, sendo conhecida como Mãe das Cidades. Com a separação de Nova Andaluzia, a cidade perde progressivamente a importância junto à Metrópole, ficando cada vez mais isolada. A mãe das cidades perde sua capacidade de se reproduzir.

Revolução Comunera

Em 1544, os colonos se revoltam com a nomeação de um governador pela Coroa, reivindicando o direito de escolherem por voto o seu novo governador, conforme uma Real Cédula de 1537.

Em 1717, os encomenderos pedem à Real Audiência de Charcas a destituição do governador por diversas irregularidades. O governador se recusa a abandonar o cargo. Um juiz é enviado pela Real Audiência para executar a decisão e acaba assumindo o governo. Na sequência, com apoio dos encomenderos, o juiz expulsa os Jesuítas da cidade. Estes se queixam ao Vice-Rei, que nomeia um novo governador, o que é considerado pelos locais como uma medida arbitrária, gerando nova revolta.

Enquanto o Vice-Rei apoia os Jesuítas, a Real Audiência de Charcas apoia o juiz governador. O governador nomeado pelo Vice-Rei tenta tomar a cidade com um exército guarani local, mas é derrotado. Entretanto, o governador do Rio da Prata organiza um exército de índios missioneiros para atacar Assunção, obrigando o juiz a fugir para Córdoba, onde é preso, levado a Lima e condenado à morte.

Em 1730, em nova troca de governo, os comuneros mais uma vez impedem a posse do novo governador e passam a governar através de uma junta. Porém, traições e dissensões na junta levam a um período de anarquia que dura quase cinco anos, até que um novo exército enviado do Rio da Prata debela o movimento de forma violenta e definitiva.

As Cidades de La Piñería

A região da banda oriental do rio Paraná era conhecida pelos Castelhanos como La Piñería, devido à abundância de pinheiros.

Em 1515, os Castelhanos chegaram à baía de Babitonga, chamando a grande ilha da região de San Francisco. Em 1553, devido a uma tempestade, um navio castelhano busca refúgio no local e lá fica por dois anos. Fazendo amizade com os índios Carijós, uma tribo costeira de Guaranis, erguem uma capela e algumas choças, constituindo o povoado de San Francisco de Mbiaza. Em 1555, a pequena vila é atacada por piratas franceses, que também já haviam passado por lá em 1503. A maioria decide fugir rumo à Assunção. Outros permanecem e se mesclam aos índios, dando origem à tribo dos Guayanas. Quase cem anos depois, em 1640, os lusitanos fundam no local a vila de São Francisco do Sul.

Em 1554, a 50 km do Salto do Guayrá, foi fundada a Vila de Ontiveros. Três anos mais tarde, em 1557, a população é transferida para um novo assentamento, a Cidade Real do Guayrá, às margem do rio Paraná, na foz do rio Piquiri.

Em 1570, um grupo decide subir o rio Piquiri até a sua nascente e fundar a Vila Rica do Espírito Santo, perto de onde se acreditava haver uma mina de ouro, bem no coração de La Pinería. Não encontram ouro, apenas ágatas.

Havia atrito entre os Jesuítas e os habitantes das duas cidades devido ao trabalho indígena nas encomiendas. Os Castelhanos também comercializavam índios com os bandeirantes. A consequência foi a paulatina escassez de mão de obra.

Em 1631, uma bandeira vinda de Piratininga sitia Vila Rica do Espírito Santo por seis meses, obrigando seus habitantes a fugirem. Na sequência, os mesmos bandeirantes atacam Cidade Real do Guayrá. Em 1638, os bandeirantes retornam e terminam por arrasar Cidade Real. As doze missões jesuíticas da região são destruídas ou abandonadas.

A população das duas cidades busca refúgio em Santiago de Jerez. Esta cidade foi fundada em 1580 na área do Pantanal, às margens do rio Miranda, um afluente do rio Paraguay, onde os lusitanos ergueriam o Forte Albuquerque décadas mais tarde. O cabildo de Santiago de Jerez havia solicitado ao governador de Nova Andaluzia e à Real Audiência de Charcas o deslocamento da cidade devido ao constante ataque de índios, o que foi feito em 1605. A cidade se estabelece mais ao sul, onde recebe os refugiados de Vila Rica e Cidade Real. Com a constante ameaça dos bandeirantes, a cidade se muda mais para oeste, estabelecendo-se na Serra de Amambay em 1642, uma região próxima a Assunção.

A Disputa pela Fronteira

A linha de Tordesilhas obviamente não corresponde a rios e serras que facilitem o respeito aos limites territoriais entre a colônia lusitana e a colônia castelhana. Assim, entre Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá, vila lusitana da costa atlântica, e o rio da Prata, a região é duramente disputada entre as duas coroas.

A Cisplatina, a partir da fundação de Colônia do Sacramento, é a disputa mais intensa devido à importância estratégica e comercial do rio da Prata. Mas outras regiões, como as terras conhecidas como La Piñeria, as ilhas de Santa Catarina e São Francisco do Sul, bem como a região do Tapé, onde ficam as missões jesuíticas da banda oriental do rio Uruguay, também são alvo de disputas só solucionadas com o Tratado de San Ildefonso, em 1777.

Os lusitanos foram primeiramente atraídos para as terras ao sul de São Vicente devido a notícias de que haveria ouro na ilha de Cotinga, em 1550, no extremo sul da capitania. Em 1570, vieram os primeiros povoadores da vila Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá, consolidada em 1644. A partir do porto, os lusitanos sobem a serra em busca de mais riquezas, escravizando índios e pondo-os para trabalhar na mineração. A busca frustrada leva à ocupação do planalto, com o surgimento da vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba, erguida como povoado em 1661 e se tornando vila em 1693.

São Francisco do Sul: na baía da Babitonga, é ocupada em 1640 pelos lusitanos, na mesma ilha outrora ocupada por castelhanos e franceses.

Nossa Senhora do Desterro: fundada em 1675 na Ilha de Santa Catarina. Assim como em São Francisco do Sul, a vila é erguida na face da ilha voltada para o continente. Desde o século XVI a ilha já era uma importante parada para as embarcações de diversas origens reporem água e víveres em seu caminho rumo ao rio da Prata. Um futuro governador da Província do Guayrá lá aportou para seguir por terra até Assunção, descobrindo no meio do caminho as monumentais quedas do rio Iguaçú.

No século XVIII são construídas três fortalezas pra proteger a entrada da baía norte: uma ao norte da ilha e as outras em duas ilhotas na entrada da baía. E também um forte junto à vila, no estreito que separa a baía norte da baía sul.

Em 1776, os Castelhanos tomam a Ilha de Santa Catarina sem efetuar um disparo. As guarnições lusitanas, ao ver o poderio da frota castelhana, deixam os fortes e fogem para o continente. Os Castelhanos abandonam a ilha após o tratado de San Ildefonso.

Santo Antônio dos Anjos de Laguna: fundada em 1684. Apesar de ser um grupamento de casas de pau-a-pique cobertas de palha, onde os casamentos e batizados somente se realizavam quando o padre a visitava, o povoado obtém o foral de vila em 1714, quando não conta com mais de 42 casas e 300 pessoas adultas.

Em 1728, na abertura de uma picada para o interior, é descoberto no alto da serra um planalto repleto de gado selvagem e cruzes fincadas, colocadas por Jesuítas. Assim, quando os bandeirantes lá chegam para fundar uma vila em 1766, já encontram a região ocupada por fazendeiros. Nossa Senhora dos Prazeres de Lages é fundada em 1771.

Viamão: ocupada em 1725, servindo de entreposto terrestre entre Laguna e Colônia do Sacramento. Com a chegada de 500 casais vindo dos Açores para povoar a região, o Porto de Viamão vira Porto dos Casais e rapidamente ganha o protagonismo na região.

As rotas terrestres que ligam Colônia do Sacramento e as missões jesuíticas a Laguna leva à criação de um posto de controle no rio Tramandaí, a fim de controlar a circulação do gado e cobrar uma espécie de pedágio. A região já conta com pequenos ranchos de palha em uma área propícia à pesca, o que acaba dando origem ao povoado de Tramandaí em 1732, no litoral próximo a Porto dos Casais.

Rio Grande de São Pedro: na barra da Laguna dos Patos são erguidos um presídio e um forte, dando origem à vila, que inicialmente é uma colônia militar. O local é limite entre o território dos Charruas e dos Carijós. Os Açorianos já circulam pela região desde 1720, trazendo gado das Missões. Logo se estabelecem estâncias pelo interior. A vila serve como parada para as viagens marítimas entre Laguna e Colônia do Sacramento.

Em 1763, forças vindas da Província do Rio da Prata atacam a vila. Parte dos habitantes foge para Porto dos Casais; outra parte se refugia na margem oposta da barra, dando origem à vila São José do Norte, que logo também é invadida pelos Castelhanos. Alguns Lusitanos são presos e levados para ajudar na fundação da cidade de San Carlos, na Cisplatina. Em 1767, os Lusitanos expulsam os Castelhanos da restinga onde fica São José do Norte, mas Rio Grande de São Pedro permanece ocupada até 1776.

Mas a maior e mais drástica disputa territorial fica por conta da região de Tapé, onde ficam os Sete Povos das Missões, levando, a partir do Tratado de Madrid em 1750, a uma sangrenta guerra entre os Guaranis e os exércitos das duas Coroas.

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Published in: on 20 de setembro de 2016 at 0:51  Deixe um comentário