A PROVÍNCIA DO RIO DA PRATA

De 1534 até 1617, a Província do Rio da Prata era unida à Província do Guayrá, formando a Província de Nova Andaluzia, submetida diretamente ao Vice-Reino de Nova Castela. A capital da província era Assunção.

A divisão ocorre para que as cidades do sul da província tenham melhores condições para neutralizar os constantes ataques indígenas e o contrabando no rio da Prata. Conflitos de jurisdição se tornaram um problema contínuo entre as duas províncias, e entre estas e a Província de Tucumán, levando a arbitragens da Coroa e da Igreja.

Os Jesuítas chegam no início do século XVII, e com eles as escolas. Nos rios Paraná e Uruguay são instaladas as missões jesuíticas, chegando a um total de 30 reduções após os conflitos com os bandeirantes de Piratininga. Entre 1611 e 1616, são criadas três missões franciscanas em Santa Fé, três em Santa Maria de los Buenos Ayres, e duas em Corrientes.

A distância da província até Nova Castela, de onde chegam os produtos oficiais, leva os colonos a aderirem ao contrabando como forma corriqueira de abastecimento. O contrabando é realizado com a colônia lusitana, incrementado a partir da fundação de Colônia do Sacramento em 1680, e com barcos estrangeiros, quase sempre com ajuda da oficialidade.

A principal atividade da província vem do interior, do gado criado nas estâncias. Os estancieiros são pessoas rudes, que vivem a maior parte do tempo nas campanhas. A elite da capital, os portenhos, é formada por comerciantes dedicados ao contrabando, do qual faz parte o tráfico de escravos negros. Há uma catástrofe demográfica da população indígena ao longo do século XVII, seja por morte, mestiçagem ou pelo crescimento das missões, obrigando os Castelhanos a apelarem para escravos negros a partir do século XVIII.

O Chaco Central e a Patagônia permanecem livres dos colonos devido à resistência indígena. Entre 1779 e 1781, uma linha de fortificação separando a Patagônia e a capital do Rio da Prata é construída ao norte do rio Salado, em decorrência de tratados com os índios. As fortificações são ocupadas por unidades de cavalaria e milicianos.

A divisão social é a mesma do resto da colônia: castelhanos, criollos, mestiços, índios e negros, nesta ordem.

Escravos Negros

Ao longo do século XVIII, os castelhanos começam a comprar escravos negros junto aos lusitanos via Colônia do Sacramento. A demanda cresce devido à falta de disponibilidade de mão de obra indígena. Na capital do Rio da Prata, os negros fazem os serviços domésticos, trabalham nos campos e em outras atividades. Não houvesse tantos escravos, não seria possível viver nas cidades da região platina, pois os castelhanos, por mais pobres que sejam, negam-se a trabalhar, enquanto que raros são os índios que ainda se sujeitam à encomienda ou ao trabalho remunerado.

O Contrabando

Os habitantes da província precisam de bens que só poderiam vir da Europa, como móveis, roupa, papel e objetos de ferro e bronze, mas não têm incialmente nenhum bem exportável. Os produtos locais podem ser comercializados com Nova Castela, que recebe os produtos importados. Entretanto, essa rota comercial pelo interior sai cara. Para piorar, a capital portenha está proibida de exportar metais preciosos e só pode fretar duas embarcações por ano para comercializar seu couro. Assim, a província adere ao contrabando, que passa a ser a principal atividade comercial da região, com a vista grossa ou mesmo a participação direta das autoridades locais.

Um barco lusitano, francês ou holandês alega avaria para aportar. O “conserto” é pago com parte da carga. Outras vezes, a mercadoria é simplesmente desembarcada sem declarar. Muitos comerciantes fazem fortuna ao revender a mercadoria para as cidades do interior ou para as províncias vizinhas.

Real Audiência de Charcas

Este tribunal de apelação foi criado em 1599, sediado na cidade de La Plata, no Altiplano, próxima a Potosí. Sua jurisdição abarca as províncias de Tucumán, Rio da Prata, Guayrá e Santa Cruz de la Sierra, e os corregimentos de Potosí e La Paz.

A Real Audiência de Buenos Aires é criada em 1661, com jurisdição sobre as províncias do Rio da Prata, Tucumán e Guayrá. Em 1672 é desativada por fracassar em conter o contrabando na região.

As Tribos

No norte da província predominam os Guaicurus. Descendo a bacia do Prata até sua foz estão os Guaranis e os Charruas. Nos pampas ao redor da capital vivem os Hets, tribo de patagões que, ao longo dos séculos XVII e XVIII é progressivamente dominada pelos Mapuches.

GEOGRAFIA

A Província do Rio da Prata começa onde o rio Paraguai encontra o rio Paraná, região onde predominam as depressões e banhados, com clima úmido e quente. Segue rumo a oeste pelo Chaco Austral, com seu relevo plano e solo argiloso, com rios que correm mansos, apresentando muitas áreas inundáveis. Na fronteira com a Província de Tucumán, ao sul do rio Bermejo, ergue-se um bosque agreste conhecido como “o Impenetrável”.

Segue para o sul até o rio da Prata encontrar o mar, sendo a sua área oriental, a Cisplatina, disputada entre as metrópoles ibéricas. Ao sul da capital, o rio Salado demarca uma fronteira informal entre a província e a terra dos Patagões. A oeste encontra-se a Província de Cuyo, pertencente à Nova Extremadura. Toda essa área é conhecida como os pampas.

Os Pampas

Os pampas abrangem a região norte da Patagônia, a partir do rio Negro, habitada pelos Hets, e quase toda a província do Rio da Prata, incluindo toda a Cisplatina, até Santa Fé. Possui clima temperado e muita umidade. A região é dominada pelas pradarias, e a árvore mais característica é o ombú.

As duas serras da região se encontram na área patagônica, uma mais baixa, próximo ao litoral, e outra atingindo os 1.200 metros, um pouco mais para o interior, conhecida como Serras de Ventania.

A região é ótima para a criação de gado; o que leva ao rápido crescimento do gado selvagem e à rápida adaptação dos patagões a este estilo de vida. Também adequada para o plantio de cerais como trigo e milho.

Entre os rios Paraná e Uruguay, região dos Charruas, o terreno é coberto por uma densa floresta subtropical. Para o interior do continente, predomina a planície plana, apresentando ondulações nos vales dos rios. Quanto mais para o ocidente, a cobertura das pastagens se torna menos densa e o solo mais seco. Lar de pumas, cervos, guanacos e emas.

AS CIDADES

A Capital

Santa Maria de los Buenos Ayres: fundada inicialmente como Nuestra Señora del Buen Ayre em 1534, em um barranco do rio da Prata habitado pelos Hets, que usaram boleadeiras para neutralizar a vantagem dos cavalos. Dois anos depois, um cerco indígena levou a população ao canibalismo. Em 1541, após muitos conflitos, os colonizadores decidiram abandonar a vila e destruíram o assentamento, partindo para Assunção.

Em 1580, o mesmo fundador de Santa Fé refunda a vila com o nome de Porto de Santa Maria de los Buenos Aires, repartindo a terra entre ele, a esposa e mais 63 colonos, assentando também um grupo de famílias guaranis. Dessa vez, os Hets são dizimados.

No início do século XVII, a cidade já conta com um forte, três conventos e várias casas de barro e palha. Os habitantes são obrigados a portar armas e ninguém pode sair da cidade sem autorização do governador. Como a Metrópole privilegia os portos do Pacífico, a cidade só recebe dois navios oficiais por ano, mas pode ocorrer de não chegar nenhum. Isso leva à prática de contrabando com a colônia lusitana.

O crescimento da produção de couro faz aumentar a importância da região. Em 1602, há 500 habitantes. Em meados do século XVII, cerca de 3 mil. Em 1608, os jesuítas chegam a Buenos Aires e fundam o Colégio Santo Inácio, e, em 1675, o Real Colégio de San Carlos.

Com a fundação da Colônia do Sacramento pelos Lusitanos, aumenta a importância militar da cidade, essencial para conter o avanço dos Lusitanos na região. Porém, na mesma medida, incrementa-se o contrabando. Os Castelhanos contam com um grande contingente de Guaranis para combater seus inimigos, sejam eles Hets, Lusitanos ou Charruas.

No século XVIII, a indústria do couro cresce ainda mais. Títulos de nobreza representam pouco para os portenhos, e sim o sucesso de cada um nos negócios.

A cidade sofre seis tentativas de ataques por britânicos e franceses, todas rechaçadas. Em 1755, o povoado de Luján, próximo à capital, ganha status de Vila.

Cidades do Norte

Sancti Spiritu: primeira construção colonial na bacia do Prata, um forte erguido pelo navegador veneziano Sebastián Gaboto, a serviço da Metrópole castelhana. A construção teve início em 1526 e só foi terminada no ano seguinte, contando com 20 casas. Os Guaranis colaboraram na construção e no plantio de trigo e cevada. Havia uma pequena capela onde foram celebrados os primeiros matrimônios entre nativos e colonizadores. A cidade se localizava sobre um barranco do rio Carcarañá, próximo ao rio Paraná. Tinha duas torres, e o casario era de taipa, madeira e palha. Gaboto seguiu com a expedição rio acima. Neste meio tempo, chegou outra expedição castelhana ao local, que desconhecia a expedição de Gaboto. O capitão tentou tomar posse do local, mas acabou sendo convencido a se juntar à expedição de Gaboto. Entretanto, em suas incursões ao norte, Gaboto infligiu severos ataques aos índios locais, gerando revolta entre os Guaranis. A consequência foi um ataque mortal à fortaleza desguarnecida em 1529. Poucos se salvaram. Estes alcançaram Gaboto, que retornou na vã tentativa de salvar mais alguém. Uma das torres manteve-se de pé, servindo de referência para o primeiro assentamento na região. No século XVII, os franciscanos criaram uma missão de índios Calchaquis na região.

Santa Fé de la Vera Cruz: fundada em 1573 numa região de rios, lagoas e banhados na planície dos pampas, próximo ao rio Paraná. Foi erguida por um grupo de criollos vindos de Assunção, transformando-se em parada obrigatória, tanto por terra quanto por rio, entre a capital da então Província de Nova Andaluzia e o porto do rio da Prata. Em 1620 a cidade já contava com mil habitantes. Problemas com os Guaicurus, inundações e erosão dos barrancos levaram a população a mudar a cidade de lugar em 1650, cerca de 80 km.

Concepción de Buena Esperanza: esta cidade existiu apenas entre 1585 e 1632. Fundada no Chaco Austral, próximo ao rio Bermejo, por um grupo vindo de Assunção que se aproveitara de um antigo caminho indígena. Com cerca de 500 pessoas, a economia girava em torno do comércio e das encomiendas. Os índios da região não se adaptaram ao sistema, nem à evangelização. Em 1631, as tribos se juntam em um ataque contra a cidade. A população se vê obrigada a fugir, chegando os sobreviventes a Siete Corrientes, onde se estabelecem. A cidade era importante para o comércio com a província de Tucumán, mas tentativas de restabelecê-la acabam sendo abandonadas.

Ciudad de Vera de las Siete Corrientes: fundada em 1588 na margem oriental do rio Paraná, a meio caminho entre Santa Fé e Assunção, por um grupo de 62 criollos e castelhanos vindos da capital de Nova Andaluzia. O rio na região conta com sete pontas de pedra que geram correntes que dificultam a navegação. A elevação do terreno coloca a cidade a salvo de inundações. A região é habitada pelos Guaranis. A relação inicial não foi das mais amistosas, mas começa a melhorar a partir do surgimento das primeiras missões, em 1609. Reza a lenda que a Cruz dos Milagres atraiu raios de uma tempestade, fazendo com que os índios acreditassem que a cidade estava sob a proteção divina. Em 1620, a cidade conta com cerca de 200 a 300 habitantes, que falam tanto o guarani quanto o castelhano. Em 1630 chegam os primeiros escravos negros.

Cidades Cisplatinas

Houve duas tentativas de fundar cidades em Cisplatina no século XVI, mas tanto San Juan (1552) como Zaratina del San Salvador (1574) tiveram vida curta, sendo postas abaixo pelos Charruas.

Colônia do Sacramento: fundada pelos lusitanos em 1680, na margem oposta à Santa Maria de los Buenos Ayres. Os portenhos tratam de tomar a cidade no mesmo ano. Em 1683, mediante acordo, a cidade é devolvida à Coroa lusitana. Em 1705, durante uma guerra contra os britânicos, os Castelhanos invadem novamente a cidade e a ocupam por dez anos. Novo acordo diplomático a devolve para as mãos dos Lusitanos. Em mais duas oportunidades, de 1735 a 1737 e em 1762, os Castelhanos voltam a atacar, mas sem se fixar. Em 1777, Colônia do Sacramento passa de vez para mãos castelhanas.

No século XVIII, Montevideo é tomada dos Lusitanos em 1726, três anos após sua fundação, e San Carlos é fundada em 1762, subindo o litoral cisplatino. Em sua construção, os Castelhanos usam prisioneiros lusitanos. No mesmo ano, um pouco mais ao norte, é erguida a Fortaleza de Santa Tereza, para contrapor à presença lusitana na região.

Mais detalhes sobre a região de Cisplatina podem ser encontrados no suplemento Colônia do Sacramento.

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Published in: on 19 de setembro de 2016 at 23:28  Deixe um comentário