CHARRUAS

Os Charruas ocupam quase todas as terras orientais do rio da Prata, e uma parte da margem oeste do rio Uruguay. Devido a um incidente inicial no início da exploração desses rios, as relações com os Castelhanos nunca foram das melhores. Em 1552, próximo a onde Colônia do Sacramento foi erguida, os Castelhanos fundaram a Vila de San Juan, completamente destruída pelos Charruas no ano seguinte. Em 1574, um pouco mais ao norte, fundaram a cidade Zarantina del San Salvador, arrasada três anos depois.

Esses nativos não são mesmo de trato fácil. Há aqueles, mesmo dentro da Companhia de Jesus, que o consideram caso perdido, selvagens incorrigíveis. Mas essa avaliação é fruto da pouca informação que os colonos possuem sobre eles. Apesar de serem nada pacíficos, não são totalmente imunes ao trato diplomático.

Os Charruas vivem da caça e da coleta. Comem basicamente carne e peixe. Com a chegada dos Castelhanos, eles mostraram afinidade com as habilidades equestres e desenvolveram a criação de gado bovino. Mas, antes de aderirem aos cavalos, caçavam na corrida e alcançavam os veados. Não há mais de cem nativos por aldeia, mas cada grupo possui cerca de quinhentos cavalos.

O semblante deles parece sempre triste e a fala gutural assusta os viajantes. A estes costumam oferecer comida sem precisar receber nada em troca. E, quando recebem, não se mostram alegres. Não mostram medo ou espanto, só tristeza.

Eles são robustos e altos, rosto e ossos largos, lábios grossos, boca e cabeça grandes, nariz comprido e estreito, geralmente furados. Os olhos são escuros e horizontais; dentes fortes, sempre brancos, mesmo nos mais velhos. O cabelo é comprido, liso e duro; não têm barba e quase nenhum pelo no corpo, mas as sobrancelhas são salientes. A pele é bronzeada. Tem o tipo atlético e proporcional, mas as mãos e os pés são relativamente pequenos. Os homens são muito semelhantes às mulheres, que têm pouca cintura e seios pouco volumosos em relação aos demais nativos de Santa Cruz.

São altivos, soberbos e ferozes, sempre de cabeça erguida, com aspecto taciturno e sério. No verão, andam nus. No inverno, vestem um poncho de pele e um pedaço de couro atado aos pés. Possuem vista e audição perspicazes, atributos necessários para quem dorme nos campos e leva uma vida nômade. Só levam consigo peles, redes pra caçar, armas e pequenas vasilhas. Já as mulheres usam colares, plumas nos cabelos, tatuagens no rosto e vestem um pano que cobre da cintura até o joelho.

As vivendas são muito precárias, próximos aos rios, fáceis de armar e mudar. Quatro postes enterrados, com esteiras horizontais, sem teto. Aos homens cabem a caça e a defesa da tribo. Às mulheres cabem erguer as tendas, coletar alimentos e cozinhar.

Entre os casais, não há galanteios ou cerimônias. O homem pede a mulher pra família dela e pronto. As mulheres raramente negam e geralmente vão com o primeiro que pedir, mesmo se for velho e feio. O pretendente só precisa ser capaz de alimentar sua própria família.

Há poligamia e monogamia. A poligamia é permitida, mas só para os homens. Mas, se a mulher não quiser compartilhar o marido com outra, ela pode ir embora e se casar novamente. O adultério, no máximo, rende uns sopapos entre os envolvidos. As uniões são esporádicas, mas quando há filhos a tendência é a relação perdurar. Não há incesto, embora não seja oficialmente proibido.

A criação das crianças fica por conta das mães, especialmente as meninas. Os pais ensinam aos meninos a arte da caça e da guerra. As crianças aprendem desde cedo a atirar suas flechas montadas nos cavalos. Os pais não proíbem nada aos filhos e só ensinam as coisas práticas. Se ficam órfãos, são criados pelos parentes.

Como acontece com os Guaranis, os Charruas não constituem um povo homogêneo. Eles também se subdividem em pequenas tribos, das quais consegui distinguir três pequenos grupos que vivem nos limites do território charrua.

Os Bohanes

Trata-se de um grupo que vive às margens orientais do rio Uruguay. As terras deles quase alcançam a Missão de Yapeyú. Sinto que daqui a algumas décadas não será possível identifica-los, pois estão sendo aos poucos sendo absorvido pelos Charruas.

Quando a escravidão de nativos era permitida, os Charruas vendiam escravos aos Castelhanos, obtidos principalmente junto aos Bohanes. Mas ainda hoje trocam cativos por objetos com os Guaranis que ainda permanecem selvagens.

Os Minuanos

Os Minuanos vivem entre os rios Uruguay e Paraná, sendo também nossos vizinhos. Vivem nos campos. Esse grupo possui testa alta e peito largo; são corpulentos e bem definidos. Seus caciques podem ter muitas mulheres. Os homens se casam já maduros e as mulheres muito jovens. As mulheres armam os acampamentos, cozinham, vigiam as reses, pulem as bolas de pedra das temidas boleadeiras, coletam alimentos e levam as crianças nas mudanças, enquanto os homens seguem a cavalo levando as armas, pronto pra caçar qualquer presa avistada. Apenas a geografia ajuda a distingui-los dos Charruas.

Os Yaros

Os Yaros forma o grupo mais facilmente reconhecível, pois são mais baixos que os Charruas, sendo mais comum confundi-los com os Guaranis. Eles espetam um osso de peixe no queixo e usam lança e arco e flecha como armas, ao invés das boleadeiras tão apreciadas pelos demais. Os caciques vestem pele de veado e podem cumprir as funções do xamã. Os Yaros ocupam uma área mais afastada do rio Uruguay, subindo por dois afluentes das terras orientais.

A Origem

Os Charruas descendem de dois grupos: aqueles que os Castelhanos chamam de Patagões, que vivem no Planalto das Visões, e dos Guaycurus, que vivem no Chaco. Apesar dessa origem, os Charruas receberam bastante influência cultural dos Chandules, uma pequena tribo de guaranis canoeiros que vivem nas ilhas do rio da Prata. A relação com os Guaranis em geral é de muita troca e rivalidade. O idioma é próprio.

Organização

Os Charruas se organizam em cacicados escolhidos por consenso. Em necessidade de guerra, é designado um Cacique-Geral. Exceto em tais circunstâncias, a sociedade é muito horizontal, sem distinção entre os membros. Não há leis os costumes obrigatórios, nem recompensas ou castigos.

Os caciques não exercem nenhuma autoridade. Os chefes de família se reúnem para decidir sobre as sentinelas noturnas, os postos de observação, sobre a possibilidade de um ataque ou projeto de defesa. Se for aprovado, ninguém está obrigado a participar, nem mesmo quem fez a proposta.

Um chefe é responsável por um grupo de 10 a 15 famílias, que ficam unidas por questão de defesa. Cada um resolve diretamente suas diferenças particulares. Quando não estão de acordo, pelejam até que um dê as costas ao outro e não se fala mais no assunto. Jamais usam armas nestas ocasiões.

As Armas

Como arma, usam boleadeiras, lanças de madeira, porretes tipo rompe-cabeças, fundas, venábulo e arco e flecha. São certeiros na pontaria das flechas e das boleadeiras.

As boleadeiras são feitas de três bolas de pedra grossas como um punho, recobertas de couro. Estão unidas por uma corda de couro de um metro, enlaçadas em nó comum. Ao alcançar o animal, enreda suas patas. Pode alcançar de 30 a 100 metros. O charrua pega com a mão a menor das três e dá voltas com força por cima da cabeça até largá-la. Há outro tipo de apenas uma bola, chamada ‘bola perdida’. Pode alcançar 100 metros. Pode também ser usada como arma de proximidade, sem largar a corda.

Os rompe-cabeças são feitos de pedras com pontas talhadas, esféricas, que sobressaem uns 2 cm, atadas com uma tira de couro a um porrete de 40 cm.

Venábulo é uma arma com cabo, formada por uma longa vara provida de ferro, e empregada para caçar.

Charruas em Guerra

Nas guerras, os Charruas ocultam as famílias nos bosques. As expedições são normalmente feitas antes do amanhecer. Os exploradores são enviados por 6 léguas. Caso sejam vistos, os batedores partem em direção contrária ao resto da tribo. Também fazem falsos ataques e fugas simuladas, preparando emboscadas para seus perseguidores. Após receberem as informações dos exploradores, os guerreiros marcham lentamente. Quando chegam perto, caem sobre os inimigos como um raio. Matam a todos. Só levam como prisioneiros as mulheres e as crianças com menos de 12 anos. Esses prisioneiros ficam em liberdade dentro da tribo. São muito ousados e cruéis nas batalhas, mas muito humanos e piedosos com os cativos. Para alívio dos Castelhanos, não costumam aproveitar sua vantagem na batalha para continuar atacando, satisfazendo-se com uma vitória simples.

Os Charruas e os Castelhanos

Os problemas com os colonos começaram logo na expedição de Gaboto. Em pouco tempo os Charruas, inicialmente amistosos, irritaram-se com a atitude e as ações dos Castelhanos e decidiram tratá-los como inimigos.

Em 1552, próximo a onde Colônia do Sacramento é posteriormente erguida, os espanhóis fundaram a Vila de San Juan, que é destruída pelos Charruas no ano seguinte. Em 1574, um pouco mais ao norte, fundaram a cidade Zarantina del San Salvador, completamente destruída três anos depois.

Os Franciscanos tentam, sem sucesso, colocá-los em uma missão. Os Jesuítas sequer se dão ao trabalho, considerando-os selvagens incorrigíveis.

Em 1702, na Batalha Del Yi, os Charruas enfrentam um exército de dois mil guaranis oriundos das missões, sob o comando dos Castelhanos. Saldo de 300 mortos e 500 prisioneiros conduzidos às reduções próximas a Santa Maria de los Buenos Aires, para onde, poucas décadas antes, foram levados os Quilmes. Duzentos charruas são mortos à traição, degolados.

Posteriormente, ocorre novo confronto contra um exército de quatro mil guaranis, com final semelhante. Os Castelhanos lideram seguidas campanhas de extermínio dos Charruas, promovendo uma guerra sistemática em meados do século XVIII.

Relações perigosas

Os lusitanos de Colônia do Sacramento fizeram aliança com Minuanos e Charruas para combater os Castelhanos, tentando reproduzir a bem sucedida aliança com os Tupiniquim. Mas a situação no sul é bem mais instável.

Os atritos com os Jesuítas missionários levaram os Charruas a aceitar a aliança, mas em nenhum momento a tribo desenvolveu uma colaboração próxima com os Lusitanos, escaldados que estavam da experiência com os Castelhanos.

Se, por um lado, os Charruas não são os aliados confiáveis e manipuláveis que os Lusitanos desejavam, os Lusitanos de Colônia do Sacramento não mostram ser o aliado branco poderoso que os Charruas esperavam.

A estratégia do governador de Colônia do Sacramento é manter os Castelhanos ocupados e afastados para que os Lusitanos tenham tempo para consolidar sua ocupação na região. A estratégia dos Charruas é anular a ameaça dos Jesuítas, aliados de seus inimigos Guaranis. Mas o Vice-Rei de Nova Castela vê nessa aliança uma ameaça maior e mais imediata ao projeto de colonização da Província do Rio da Prata.

À medida que os atritos com os Charruas vão se sucedendo, as forças reunidas das províncias do Rio da Prata, do Guayrá e do exército guarani das Missões estão sendo reunidas para por fim de uma vez por todas a essa ameaça.

MAGIA E RELIGIÃO

Apesar de sua ancestralidade, a relação dos Charruas com o mundo espiritual é mais semelhante a dos Guaranis, tanto no distanciamento quanto no uso da erva-mate exclusivamente como bebida ritual.

Ao contrário dos Guaranis, não praticam a antropofagia. Porém, devido à presença constante de Guaranis na região, e a semelhança destes com os Yaros, alguns incidentes nesse sentido envolvendo Guaranis acabaram sendo creditados pelos colonos aos Charruas.

Os xamãs exercem um papel muito semelhante ao pajé dos Guaranis, inclusive nos poderes

O Luto Charrua

Os Charruas acreditam no além-vida, como praticamente todas os povos do Novo Mundo. Suas tumbas são construídas nos cerros, em pouca profundidade, sendo o corpo coberto por terra, galhos ou pedras. Sobre a tumba do guerreiro eles colocam a boleadeira, sua arma mais característica. A lança é cravada de um lado e o cavalo, do outro, sacrificado por um parente. Eles fazem isso para que o morto possa fazer sua viagem no mundo astral. Dentro da sepultura, são depositadas as peles e rompe-cabeças, com o morto envolto na própria rede.

Os parentes choram muito a perda de um familiar. Se for um pai, um marido ou um adulto, as filhas e as irmãs adultas cortam, assim como a esposa, uma das articulações dos dedos, começando pelo mindinho. Também fazem feridas com a faca do morto nos braços, nos seios, nas costas, e da cintura pra cima. Depois passam dois dias enfurnadas em suas choças. Eu mesmo vi algumas anciãs charruas com apenas o polegar.

O marido não faz luto pela esposa, nem o pai pelos filhos. O filho adulto, no caso da morte do pai, passa dois dias completamente nu em sua choça. Depois procura outro charrua e pede para que atravesse o seu braço com vários estiletes de bambu. Neste estado, sai nu pelo bosque, sem temer a nenhum animal, empunhando um rompe-cabeças, e com ele cava um buraco onde se enterra até o peito e passa a noite. Pela manhã, deixa o buraco e volta para a cabana. Retira os estiletes, deita-se e passa dois dias de jejum. Depois desse tempo, seus parentes passam a levar-lhe água e comida em pequenas quantidades, deixando os alimentos no chão da cabana e se retirando. Tudo isso dura 10 dias. Ninguém é obrigado a fazer tal ritual, mas é raro que não o façam. Quem não faz é considerado débil, fraco.

Apesar de sua ancestralidade, a relação dos Charruas com o mundo espiritual é mais semelhante a dos Guaranis, tanto no distanciamento quanto no uso da erva-mate exclusivamente como bebida ritual.

PERSONAGENS CHARRUAS

Os personagens sem magia seguem o padrão dos personagens indígenas. Não são obrigatórias, mas convém adquirir as habilidades Montar animais e Nadar.

Os xamãs charruas seguem as mesmas regras do Pajé, com quase a mesma lista de feitiços e habilidades.

Lista de Habilidade: Nadar; Caça e Pesca; Rastear; Arco e Flecha; Luta com tacape. Habilidades obrigatórias: Conhecimento da mata; Cultura indígena; Ervas e plantas; Mitos e lendas; Ocultismo.

Lista de Feitiços: Adivinhação; Barreira astral; Camuflagem; Chamado; Comunhão com a floresta; Comunicar-se com animais; Controlar animais; Controlar plantas; Controlar vento; Criar ilusão; Cura; Dardos de pedra; Elo mental com animais; Exorcismo; Levitar; Metamorfose; Ouvir o vento; Remover magia; Ventania; Viagem astral; Visão astral; Yaguaty.

Published in: on 20 de setembro de 2016 at 17:08  Deixe um comentário