OS PATAGÕES

Quando a tripulação de Fernão de Magalhães chegou à costa da Terra de Santa Cruz, em 1520, e avistou aqueles índios altos, cobertos de peles, inclusive nos pés, deu aos nativos o nome de Patagões. Quando os Mapuches atravessaram a cordilheira para comercializar com os Patagões, batizaram os mesmos nativos de Tehuelches. Ambos os termos são os mais usados para designar o povo que vivia na região, mas são nomes dados pelo estrangeiro, pelo invasor. Na verdade, apesar da estreita proximidade linguística e cultural, a região é habitada por diferentes grupos.

O rio Chubut e o Planalto das Visões dividem a região em setentrional e meridional. Os Patagões meridionais habitam do estreito descoberto por Magalhães até o Chubut. Os setentrionais chegam até o rio Colorado.

• Aonikénk: como se autodenominam os patagões meridionais, do extremo sul ao rio Chubut, das cordilheiras ao oceano Atlântico.

• Guenenakéne: como se autodenominam os patagões setentrionais, do rio Chubut ao rio Colorado, podendo ser encontrado em áreas mais ao norte. Os Guenenakéne sofrem com a invasão Mapuche e intenso processo de miscigenação ao longo do século XVII.

• Hets: habitam do rio Colorado até o rio Paraná, do litoral até o Mar de Ansenuza. São velozes e caçam veados, guanacos e emas. Adaptaram-se rapidamente ao gado colonial e aos cavalos. Espremidos entre os Castelhanos ao norte e o avanço Mapuche pelo oeste, mais as doenças trazidas pelo europeu, são extintos antes do século XVII chegar ao seu final.

• Chehuachekénk: há ainda outro grupo de patagões, que habitam as cordilheiras, do território dos Chonos, ao sul, até o lago Nahuel Huapi. As tribos das cordilheiras recebem diferentes denominações dos Mapuches conforme a região. A forte mestiçagem dos Chehuachekénk com os Mapuches acabou gerando uma terceira tribo denominada Pehuenches.

Todos eles são nômades, migrando em movimentos circulares. Seus acampamentos são chamados de aiken. Cada grupo tem um território específico de caça e coleta, no qual uma pequena árvore ou determinada pedra pode servir de marcação. Na necessidade de explorar além de seu território, um grupo deve pedir permissão ao outro. Caso contrário, é guerra. Os grupos são formados por base de parentesco, mas os casamentos devem ser entre grupos diferentes, o que geralmente gera uma contrapartida. Eventuais raptos de mulheres também podem levar à guerra.

No inverno, os patagões procuram as zonas mais baixas, como margens de lagos, litoral, planícies úmidas com solos mais férteis. No verão, vão para as mesetas centrais ou para as cordilheiras. Deslocam-se acompanhados de manadas de guanaco. Os patagões são bem mais altos que o europeu médio, podendo passar de 2 metros. Possuem grande força física e pés grandes.

A Invasão Mapuche

Nos séculos XVII e XVIII, ocorre a entrada dos Mapuches na região setentrional, com grande mistura e influência cultural, principalmente na área ao longo da cordilheira.

O cacique Cacapol e seu filho Cangapol são os mais importantes chefes dos patagões setentrionais no século XVIII. Eles tentam atacar Buenos Aires e chegam a 30 km da cidade. Cangapol nasceu próximo a Neuquén, de origem serrana, e tinha sete esposas. Ele e o pai comerciavam com os Castelhanos. O conflito começou a partir do assassinato de um importante cacique. Ao vê-lo avançar sobre a cidade, o governo do Rio da Prata envia um emissário para fazer um acordo de paz. O acordo é mediado por um jesuíta que tinha o respeito dos Hets. Nesse acordo, o rio Salado é traçado como limite de fronteira.

Poucos anos depois, Cangapol permite aos jesuítas fundarem a missão Nuestra Señora del Pilar junto aos Hets.  Os padres comerciam com os índios e mantém boas relações com os caciques locais. Com o passar dos anos, Cangapol se sente incomodado com a influência dos padres e põe fim ao acordo de paz, atacando as missões, já em número de três. Um cacique Het se recusa a apoiar Cangapol e é assassinado à traição, junto com mais 50 chefes. O governo colonial manda ajuda e os Jesuítas resolvem partir. Duas décadas mais tarde, Cangapol se alia novamente aos Castelhanos para deter o avanço dos Mapuches.

Os Chehuachekénk são totalmente assimilados pelos Mapuches, junto com outras pequenas tribos que viviam do lado ocidental. Com a invasão progressiva dos Mapuches a partir do século XVII, as pestes trazidas pelos brancos e os embates militares, Hets e Guenenakéne tendem ao desaparecimento, tendo, inclusive, sua língua sendo progressivamente substituída pelo Mapudungun dos Mapuches. A língua original dos patagões, a Tshon, continua a ser falada pelos Aonikénk.

MAGIA E RELIGIÃO

Apesar de conviver intensamente com o mundo espiritual, bastante presente, não há estrutura religiosa entre os patagões.

Kóoch é o deus supremo, criador do mundo. Ele não intervém na vida cotidiana.

Elal é o criador dos Aonikénk, que voava de um lado para o outro sobre Kóokne, o cisne mítico. Era capaz de correr com passos tão largos quanto sua altura. Foi morto à traição por Shintaukel, que foi corrompido e manipulado pelo poderosíssimo feiticeiro Takaurr para matar Elal. Shintaukel pretendia ocupar o lugar de Elal, mas teve de buscar a proteção dos gigantes maléficos contra a ira dos Aonikénk, refugiando-se na ilha deles. Após sua morte, Elal não mais interviu no mundo dos homens.

Xaleshem é o sol.

Keenyenkon é a lua.

Shorr é o senhor do tempo, pai dos três filhos malignos de Tons.

Tons é a noite, representante da escuridão absoluta, inimiga de Xaleshem. Tons é mãe de três seres malignos, que vivem na terra dos homens: Máip, Kélenken e Axshem (ver Mitos e Lendas). Mas ninguém sabe que eles são seus filhos.

Xóchem é o espírito do vento.

Kárut comanda os trovões e os fenômenos atmosféricos.

Kókeske é o espírito do frio e do gelo.

Shie é o espírito da neve.

Sésom, uma deidade de idade avançada, recebe os mortos no plano astral. Espírito bom e poderoso, mas é impotente contra os feiticeiros.

Ieskálau é o espírito encarregado dos animais de caça. Os caçadores só podem agir com sua autorização.

Arrok é o mar. Mantém-se afastado da vida dos patagões, planejando uma forma de por fim ao mundo criado por Elal.

[Nota do autor: por ter sido a cultura mais preservada, por não passar pelo processo de araucanização dos Mapuches, a parte mística é praticamente toda baseada nos Aonikénk, com exceção de Ieskálau, aproveitado da cultura Guenenakéne.]

PERSONAGENS PATAGÕES

Os personagens sem magia seguem as mesmas regras que os demais nativos da Terra de Santa Cruz, sendo que as armas preferenciais são a boleadeira e o arco e flecha.

Xamãs

Há apenas um xamã por grupo. São eles quem normalmente organizam os ritos e a narrativa dos mitos.

Assim como em outras culturas nativas, os feiticeiros são aqueles que usam seu poder mágico para seus próprios fins, e não para o bem da tribo.

Devido à influência do Planalto das Visões, que informalmente divide o território dos Guenenakéne das estepes ocupadas pelos Aonikénk, os espíritos têm muita influência na magia dos Patagões. Torna-se mais fácil para o xamã obter favores dos espíritos que vivem na terra, como os espíritos da caça, do vento, da neve etc.

Esses espíritos podem ajudar no feitiço sem que o xamã necessite usar o próprio poder mágico. Para isso, ele invoca o espírito por meio do feitiço Invocar Espírito. Este terá a liberdade de atender ao chamado ou não, assim como só ajudará o xamã se quiser. Caso o espírito atenda ao pedido, o xamã poderá utilizar alguns de seus feitiços sem precisar gastar poder mágico (mas não suprime o teste de habilidade). Cada espírito corresponde a um par de feitiços, mas todos eles podem levar o xamã ao plano astral. Uma vez lá, o xamã estará completamente à mercê da vontade daquele espírito. Mas tal efeito só é possível até o rio Colorado. Ao norte deste rio, nenhum espírito dos patagões atenderá à invocação.

Os espíritos não são exatamente amigáveis. Sésom é o único espírito bom, que ajudará o xamã sem pedir algo em troca. Entretanto, não poderá remover magia imposta por um feiticeiro, nem impedir a passagem de seu corpo astral. Ela só será efetiva contra espíritos e magias feitas por eles. É a deidade mais confiável com quem embarcar em uma Viagem astral.

Tons, o oposto de Sésom, é aquela cuja ajuda sempre poderá custar caro ao xamã.

Kárut é o mais temperamental. Caso se irrite com alguém, ou com o próprio xamã, poderá fulminá-lo com um raio.

Shorr é bastante escorregadio e pouco confiável. Poderá, inclusive, manipular o resultado dos feitiços do xamã por interesse próprio.

Todos os demais são relativamente neutros, sendo seu comportamento dependente das circunstâncias.

Lista de Habilidade: Navegação terrestre; Cultura indígena; Ervas e plantas; Mitos e lendas; Ocultismo (atributo relacionado: Inteligência). Habilidades obrigatórias: Cultura indígena; Ervas e plantas; Mitos e lendas; Ocultismo.

Lista de Feitiços: Adivinhação; Aura; Barreira astral; Camuflagem; Chamado; Comunicar-se com animais; Controlar animais; Criar ilusão; Criar nevoeiro; Cura; Dardos de pedra; Desviar ataques; Detectar magia; Elo mental com animais; Exorcismo; Geleira; Hibernação; Invocar espíritos; Levitar; Metamorfose; Nevasca; Ouvir o vento; Relâmpago; Remover magia; Trevas; Ventania; Ventura; Viagem astral; Visão astral; Visão noturna.

Ieskálau: Controlar animais; Elo mental com animais.

Kárut: Criar Nevoeiro; Relâmpago.

Keenyenkon: Criar ilusão; Visão noturna.

Kókeske: Geleira; Hibernação.

Sésom: Barreira astral; Remover magia.

Shie: Nevasca; Camuflagem (neve).

Shorr: Adivinhação; Aura.

Tons: Camuflagem (penumbra); Trevas.

Xaleshem: Exorcismo; Ventura.

Xóchem: Ouvir o vento; Ventania.

Nota-se que o xamã poderá realizar o feitiço Camuflagem normalmente com o seu próprio poder. Porém, utilizando o poder de Tons e de Shie, o feitiço funcionará apenas em seus ambientes específicos: a penumbra e a neve.

Além destes espíritos, o xamã poderá conjurar diversos pequenos espíritos ligados à natureza, como espíritos de rios, bosques e montanhas, que poderão ajudá-lo a encontrar uma trilha, uma caverna para se abrigar, uma fonte de água, uma pessoa na floresta. Mas que nenhuma relação tem com seu poder mágico ou com seus feitiços.

Os feiticeiros possuem os mesmos poderes, mas não obterão nenhum favor de Sésom, sendo inútil conjurá-la.

Published in: on 20 de setembro de 2016 at 17:02  Deixe um comentário