PERSONAGENS E HISTÓRIAS

A Caverna

Enquanto mapeava a região de Tapé, acompanhado de um pequeno grupo de fiéis guaranis, um jesuíta chegou às serras que separam as vacarias do estreito litoral. Em meio à subida, encontrou uma caverna escondida pela vegetação. As pedras em sua entrada pareciam esculpidas, mas o padre não se demorou muito ali e decidiu entrar. Chegou, então, a uma câmara ricamente ornamentada com esculturas e objetos dourados. Rapidamente pegou seu material e fez um rascunho no papel. Depois, fez o que qualquer um em seu lugar faria: Aura.

O padre só se recorda de despertar em uma clareira afastada da caverna. Os índios lhe contaram que, de repente, ele pareceu tonto e desmaiou. Temerosos que o padre tenha sido atacado por alguma magia poderosa, trataram de carregá-lo o mais rápido possível para bem longe da caverna.

Desconcertado com o ocorrido, decidiu partir para Candelária e ter com o Padre Superior. Este convocou seus conselheiros e, em um consenso, decidiram que era melhor esquecer a caverna. Na época os missionários já eram perturbados pelas autoridades coloniais com os boatos de que escondiam minas de ouro e prata na região. Se viesse à tona a descoberta de uma caverna com objetos de ouro, a desconfiança só aumentaria e eles poderiam ser expulsos.

O jesuíta cartógrafo, então, retornou à caverna com seus índios e cuidou para que ninguém jamais a encontrasse novamente. Porém, não destruiu o rascunho que fizera. Anos depois, suas anotações foram incluídas no documento elaborado por um jesuíta um pouco antes da expulsão da Companhia de Jesus da Terra de Santa Cruz. O tal que só seria encontrado mais de 250 anos depois.

Provincial Ignácio Álvarez de Irigoyen

Padre Irigoyen se destaca dos demais provinciais da Companhia de Jesus por ser o primeiro com Poder Divino a ocupar a função. Em determinado momento de sua vida, após ver sua missão ser arrasada pelos bandeirantes, chegou à conclusão que serviria a Deus de forma mais eficiente case se dedicasse aos círculos de poder político.

Padre Irigoyen começou a galgar a hierarquia da Companhia de Jesus até tornar-se Provincial em Córdoba. Houve um certo desconforto na Companhia, mas ninguém ousava questionar as suas qualidades administrativas e a justeza de suas decisões. Nas províncias do sul, sua palavra é lei, e seguida com o fervor religioso habitual dos Jesuítas. Mesmo na Congregação Geral seu nome passa a ser bem falado, a ponto de ser reconduzido ao cargo por três mandatos.

Entretanto, as outras ordens e as autoridades coloniais se sentem ameaçadas com o prestígio de Irigoyen. Como criticar um homem-santo, alguém tão próximo de Deus? No posto de Provincial, Irigoyen ameaça o equilíbrio entre as Ordens. E tal preocupação é muito mais do que paranoia e inveja. Durante seu mandado, os Jesuítas conseguiram retomar o projeto missionário no Rio da Prata, armar os Guaranis de forma permanente e tornar a região, na prática, uma província independente.

Sem argumentos para confrontá-los, seus opositores passam a incentivar sua promoção à Congregação Geral. Seria uma forma de afastá-lo do cotidiano da colônia. Contudo, seus admiradores, ante tal perspectiva, começam a cogitar a possibilidade de Irigoyen tornar-se o próximo Papa.

Bispo Martins de Saavedra

Bispo franciscano de Assunção, principal opositor dos Jesuítas nas colônias castelhanas. Apoia e incentiva qualquer boato que possa prejudicá-los. Acredita sinceramente que a Companhia de Jesus esconde algum segredo nas missões guaraníticas. Opõe-se às regalias e vantagens às quais nenhuma outra Ordem tem direito. Considera o favorecimento do Rei obra da política, não de Deus, e a omissão e a cumplicidade dos governadores, frutos de suborno.

Sem ter poder mágico, mas profundo conhecedor de artefatos religiosos, o Bispo considera os franciscanos igualmente capazes, muitos deles também abnegados homens-santos, mas que não são devidamente reconhecidos pela Coroa e por Roma devido à politicagem dos Jesuítas.

Padre Maurício

Padre Maurício é um jesuíta nascido em São Sebastião, que passa boa parte do tempo embrenhado nas matas da Terra de Santa Cruz. Sempre desgrenhado, com barba por fazer, batina rasgada e um mosquete a tiracolo (“não se caça na mata com reza e luz divina”, é o seu lema), sua presença impertinente só é tolerada pelos círculos superiores da Igreja porque nenhum homem branco sabe mais sobre os mistérios de Santa Cruz do que ele (exceto Sumé, claro).

Crítico, irônico, muitas vezes incômodo, particularmente com sua tolerância em relação à feitiçaria dos índios e dos negros (ele reconhece haver espíritos poderosos que não são necessariamente maus, e compreende que, com o poder alcançado, pajés e sacerdotes negros tenham se acomodado e não prosseguido no caminho da total iluminação), Padre Maurício tem a qualidade de ser muito discreto quanto às coisas da Igreja. E mais de uma vez pôde mostrar o valor disso. Além do mais, ele aceita as missões que nenhum padre em sã consciência aceitaria. E mais: é o tipo de missão que ele procura!

Sobrevivente do Vale dos Acritós, mediador do acordo entre uma tribo maoári e os lusitanos que possibilitou a construção do Forte Albuquerque, principal fonte do bestiário secreto que a Igreja mantém sobre as criaturas do Novo Mundo, ninguém seria mais indicado para investigar as circunstâncias da morte do jesuíta San Roque Gonzalez.

Após verificar os poderes do Machado de Ñezú, cujos ferimentos infligidos não podem ser curados por encanto nem por reza, a cúpula da Igreja ficou preocupada com a possibilidade de que tão poderosa feitiçaria pudesse armar os índios contra os colonos e os missionários. Para deixar a Igreja ainda mais desconfiada, o encanto de Aura se mostrou inútil, como se o artefato fosse uma página em branco. Padre Maurício, então, foi enviado às missões guaraníticas de Tapé para investigar a origem do machado. Apesar de ser um lusitano, os padres castelhanos da Companhia de Jesus, conhecedores de sua fama, não fizeram óbice à indicação.

Entretanto, muitos anos haviam se passado, e Ñezú já não estava mais entre os vivos. Tampouco era prudente sair perguntando abertamente sobre tal machado. Restou ao padre fazer o que sabia fazer de melhor: viver junto aos índios para tentar descobrir e entender seus segredos mais profundos. Com os anos vividos entre os Maoáris, Padre Maurício aprendeu que a melhor forma de fazer este tipo de investigação é ganhar o respeito e a confiança de um Caraí. O que não é tarefa fácil. Entre os Maoáris, ele pôde assumir o papel de um diplomata. Em Tapé, ainda que os Jesuítas tivessem conquistado o respeito mesmo dos índios não reduzidos, eles são vistos como concorrentes ou inimigos dos pajés.

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Published in: on 21 de setembro de 2016 at 18:45  Deixe um comentário  

OUTRAS MISSÕES

Missões de Chiloé

A atividade missioneira nas ilhas dos Chonos teve sucesso relativo. A experiência ajudou a Companhia de Jesus a perceber a ação limitada das missões itinerantes, passando a adotar assentamentos permanentes.

Missões da Patagônia

Com os Hets, nos pampas, os padres pedem ajuda ao governador para reprimir a insolência dos índios, enviando-os à capital da província para realizar trabalhos forçados. O governador ainda garante que os punirá se não houver arrependimento e submissão.

Os Hets têm uma postura bem diversa dos Guaranis. Eles esperam o missionário ir buscá-los em casa para ir à catequese.

As missões pampeanas junto aos Hets, um conjunto de três vilas, não vão pra frente, sendo aniquiladas pelos Mapuches em poucos anos.

As missões erguidas na região do lago Nahuel Huapi, junto às cordilheiras, também têm vida curta (ainda que não tão curta quanto às dos Hets), apesar do empenho dos padres, o que só fez aumentar o número de padres.

Missões do Chaco

No Chaco Austral foram estabelecidas algumas reduções de índios Guaicurus, algumas fundadas pelo padre Roque Gonzalez, antes mesmo de ser fundada a missão de San Ignacio Guazú em 1609. Contudo, as reduções dos Guaicurus tiveram início nada promissor, conseguindo se estabelecer apenas no século XVIII.

Na Província de Tucumán, as missões abrangem diferentes tribos e não formam um estado paralelo, como ocorre nos rios Paraná e Uruguay. Apesar da concorrência com as encomiendas, são toleradas por estarem atreladas às necessidades das cidades, contribuindo para a pacificação da região.

Padre Pedro Romero fundou várias missões no Chaco e em Tapé, sendo Padre Superior das missões do Paraná e Uruguay. Nesta qualidade, liderou os Guaranis na batalha de Mbororé. Acabou sendo morto em um ataque de Guaicurus ao tentar iniciar o projeto missioneiro no Chaco Boreal, em 1645. Os índios da região veem os padres como espiões do exército castelhano e os xamãs exploram essa suspeita.

No final do século XVII, os padres de Assunção sugerem ao Conselho das Índias uma guerra aberta contra os índios do Chaco como forma de pacificação. Os índios sofrem muitas derrotas por causa de um prisioneiro castelhano que cresceu entre os Guaicurus e se tornou um chefe guerreiro. Ferido e capturado pelas tropas coloniais, tornou-se um guia eficaz contra os índios.

Na última década da presença jesuítica na colônia, os Jesuítas logram erguer missões entre os Guaicurus ao norte de Assunção, subindo o rio Paraguay. Mas só as crianças vão à missa.

De todas as tribos do Chaco, os Calchaquis, entre os Diaguitas, são os mais arredios, recusando com repugnância as coisas da salvação.

Missões Chiquitanas

As missões jesuíticas do Chaco Boreal começam em 1691, formando um total de 11 missões até a expulsão dos Jesuítas. Ao contrário das missões do sul, os Guaranis da região, os Avá, são os inimigos. Os índios que servem de base à atividade missioneira são os Chiquitanos. Seu idioma, o Bésiro, é adotado como língua oficial das missões, mesmo com a chegada posterior de outras etnias. Apenas uma das reduções é atacada e destruída por uma tribo de Chiquitanos. Todas as outras prosperaram.

Os Chiquitanos são agricultores, o que contribui para o processo de redução. Adaptam-se com gosto ao machado de ferro e aos bois. Enquanto os nômades do Chaco pilham o gado castelhano, os Chiquitanos abraçam a revolução econômica.  Os colonos acreditavam poder conquistar uma mão de obra numerosa para suas plantações, mas esbarraram na resistência dos Jesuítas.

Os Chiquitanos têm o hábito de organizar anualmente expedições contra os vizinhos, arrebanhando escravos que ganham a liberdade após adotar o cristianismo.

Em um determinado momento, os Chiquitanos incorporam bem demais o discurso pacifista de sua nova religião, tornando-se presas fáceis nos confrontos com os Avá. Os padres são obrigados a readequar seu discurso de forma a preservar o espírito guerreiro dos Chiquitanos, ao menos no que diz respeito à autodefesa. Essa mudança é essencial para barrar os ataques dos Avá em 1726 e, posteriormente, dos bandeirantes.

Assim como os Guaranis no sul, usados nos confrontos contra os Charruas, os Chiquitanos e suas flechas envenenadas são utilizados para conter o ímpeto guerreiro dos Avá. Em ambos os casos, as missões servem também como obstáculo para o avanço da fronteira lusitana.

As reduções junto aos Moxos, tribo de Aruaques que vivem a sudoeste, são incorporadas ao conjunto das missões chiquitanas. Esse conjunto, e apenas ele, atinge o mesmo desempenho das missões guaraníticas.

Missões Franciscanas

A Ordem de São Francisco também administra missões na Terra de Santa Cruz, mas a Ordem é mais ativa no norte do continente, incluindo Nova Castela. Nas missões do sul, destaca-se um conjunto de reduções próximas a Assunção e outras no Chaco Austral. Entretanto, funcionam basicamente como vilas satélites das cidades coloniais.

Missões Mercedárias

Os Mercedários chegaram ao rio da Prata em 1536, participando da fundação de Assunção. Quando os Jesuítas são expulsos, herdam dez missões na região.

Chegaram a Tucumán em 1557 e estabeleceram missões em Santiago del Estero e nas cidades do norte da província.

Os Mercedários chegaram junto com Pedro de Valdívia a Nova Extremadura, estabelecendo missões no vale central, no norte da capitania e na região dos lagos, incluindo Nahuel Huapi. Com a revolta dos Mapuches, tiveram que abandonar as missões do sul e acabaram perdendo terreno para a Companhia de Jesus.

Assim como as missões franciscanas, as missões mercedárias no sul seguem a política dos governadores. A Ordem se encontra mais fortemente presente em Nova Castela.

Published in: on 21 de setembro de 2016 at 18:02  Deixe um comentário  

O FIM DAS MISSÕES

Em 1759, a Coroa lusitana expulsa os Jesuítas de Santa Cruz. Em 1767 foi a vez da Coroa castelhana. Nas últimas décadas, a Ordem estava sob cerrado ataque na Europa, acusada de fomentar a rebelião indígena, desobedecer às ordens da Coroa e construir um império independente na Terra de Santa Cruz.

Os Inimigos

Desde o início, a sociedade colonial reclama dos Jesuítas. Os colonos queixam-se da competição comercial com as reduções. Os bispos queixam-se de não receber o dízimo. As autoridades, civis e eclesiásticas, de não poderem exercer sua jurisdição sobre as vilas guaranis. Denunciam a existência de um Estado dentro do Estado; que os Jesuítas pregam o ódio aos colonizadores; que os índios são subtraídos das encomiendas para serem escravizados pelos padres. O muro de silêncio em torno das missões gera também reclamações direcionadas à Metrópole, acusada de favorecer os interesses da Companhia de Jesus.

O Bispo franciscano de Assunção defende que qualquer padre por ele nomeado seria mais capaz do que os Jesuítas no serviço de catequese, e faz campanha cerrada contra a Ordem.

As Intrigas

O desejo dos colonos por riquezas, a falta de metais preciosos na bacia do Prata e a preocupação gerada pelo avanço das missões geram uma série de denúncias de que os Jesuítas possuíam minas de ouro, prata e metais preciosos escondidas na região, e que até comerciavam com os estrangeiros, ou mesmo que estivessem montando um império independente com moeda própria. Tais denúncias são infundadas, mas levam as autoridades a diversas fiscalizações no local.

A intenção dessas denúncias é mesmo provocar a expulsão dos Jesuítas. Mesmo as outras ordens religiosas veem com preocupação o crescimento do prestígio jesuíta. Temem, principalmente, o que pode acontecer se um jesuíta chegar a Papa.

Os inimigos da Companhia de Jesus pagam guaranis que migraram para as cidades para contarem histórias de que haviam trabalhado nas minas dos Jesuítas. Porém, levados a mostrar onde ficam tais minas, acabam fugindo ao se aproximarem das missões, denunciando assim a fraude.

Na verdade, o que há de ouro e prata nas igrejas das reduções é proveniente de Nova Extremadura e de Nova Castela, mas muitos querem acreditar que há uma mina escondida na região. Quando os Jesuítas são expulsos da Terra de Santa Cruz, muitos mapas são vendidos com a “real” localização das minas.

A Expulsão

Com o crescimento do poder militar e econômico das missões, o grau de independência atingido incomoda a Metrópole e os governos locais, e até mesmo o Papa. Além da disputa pela mão de obra e o boato de riquezas, minas e tesouros secretos, a guerra guaranítica complicou de vez a situação, pois os Jesuítas são considerados culpados pela revolta. Até então, os interesses da Companhia coincidiam com os interesses reais. Não coincidem mais, ante a perspectiva de acordo com a Coroa lusitana sobre as fronteiras. O clero torna-se um dos adversários mais violentos da Ordem, e o Papa lava as mãos.

A paciência dos reis europeus com a Companhia de Jesus acaba. Ela é suprimida em Portugal (1759), França (1762) e Espanha (1767). Quando os missionários são presos, nenhum guarani se revolta. Já nas outras reduções, alheias ao conflito, há dor e indignação. É preciso mentir, dizendo que os padres estavam com saudades de casa, para evitar uma revolta. Ao voltarem para casa, os jesuítas castelhanos são presos e exilados para os Estados Pontífices. Em 1773, o próprio Papa extingue a Companhia.

As missões jesuíticas são distribuídas para as outras ordens. Entre os nômades do Chaco, os novos Curas acabam fugindo de volta para a cidade na primeira oportunidade, seguidos por alguns paroquianos. Com o tempo, essas tribos vão sendo exterminadas ou assimiladas pela sociedade colonial mestiça. Só os Moxos e os Chiquitanos mantêm-se protegidos com os Franciscanos, que assumem com sucesso as missões do Chaco Boreal. Já as missões guaraníticas são exterminadas, uma vez que a gestão econômica fica por conta dos colonos.

Nos últimos meses da presença dos Jesuítas na Terra de Santa Cruz, um padre decide fazer um mapa e reunir todas as informações das missões em um único documento. O mapa com as anotações é perdido em meio à confusão da retirada. Só veio a ser encontrado mais de 250 anos depois, mas isso já é outra história, outro RPG.

Published in: on 21 de setembro de 2016 at 17:21  Deixe um comentário  

O EXÉRCITO MISSONEIRO

A Batalha de Mbororé

Os Guaranis parecem para os bandeirantes uma presa privilegiada: numerosos e desorganizados, falam língua similar aos Tupis, estão no caminho para as riquezas de Nova Castela. Habitam regiões onde há poucos castelhanos estabelecidos e já estão pacificados nas reduções. Além disso, atacá-los significa um avanço da fronteira.

Após ter destroçado as missões do Guayrá e realizado várias escaramuças sobre as missões jesuíticas da região do Tapé e de Itatín, os bandeirantes já ameaçavam as reduções do lado ocidental do rio Uruguay. Em 1638, uma comissão de padres missioneiros viaja até a Metrópole para expor o problema e pedir ao Rei permissão de armar os índios missioneiros com armas de fogo, o que lhes foi concedido. A Real Cédula redigida para este fim permite aos índios continuarem a usar as armas em defesa das missões, desde que o Vice-Rei de Nova Castela seja comunicado com antecedência. Da Metrópole, um dos padres seguiu para Lima, sede do Vice-Reino, e outro a Roma.

Assim, com todas as autoridades cientes e a favor, os índios receberam as armas e treinamento militar, preparando-se para a invasão bandeirante. Após alguns confrontos que equilibraram as forças, os bandeirantes recuaram a fim de se preparem melhor para a nova realidade. Uma enorme bandeira parte de Piratininga em setembro de 1640, com 300 brancos e mestiços e 6 mil tupis, disposta a destruir todas as missões da região.

Ciente da ameaça, os Jesuítas armam um exército de 4.200 índios, dos quais apenas 300 portavam armas de fogo. O exército é liderado pelo Padre Superior, com o auxílio de três irmãos ex-militares.

À medida que a bandeira avança, índios que escapavam do apresamento se juntam ao exército missioneiro, servindo-se como informantes e espiões. O confronto ocorre em março de 1641, em torno do cerro Mbororé, na margem ocidental do Uruguay, tanto por terra quanto pelo rio, coberto por centenas de canoas. A batalha dura alguns dias, fazendo com que os Tupis desertem ou mesmo passem para o lado dos missioneiros.

No sexto dia de combate, os bandeirantes enviam uma carta de rendição, que é rasgada pelos missioneiros. Ao tentarem fugir do local de combate, deparam-se com 2 mil guaranis armados, que continuam a persegui-los até sobrar uns poucos homens, que retornam a Piratininga.

Com esses ataques, os Jesuítas decidem concentrar as missões entre os rios Uruguay e Paraná, fortificá-las e manter o treinamento militar dos índios adultos. Obtêm autorização do Vice-Rei para terem sua própria milícia, permitindo aos padres comprarem armas de fogo.

Os índios que compõem as milícias são liberados dos trabalhos comunais. Claro que o Vice-Rei não se preocupa tanto com o bem-estar dos índios, mas sim com o avanço dos Lusitanos. Por isso, naquele momento, não se recusou a dar mais autonomia às missões, pois teria em troca um verdadeiro exército de fronteira, do qual poderia lançar mão para resolver problemas internos, como o conflito com os Charruas, ao sul, ou a revolta comunera em Assunção.

Em 1648, a Coroa lusitana decide proibir as bandeiras de apresamento em reduções, tanto por pressão da Companhia de Jesus quanto para evitar maiores conflitos com os Castelhanos.

As missões jesuíticas se transformam em obstáculo para a expansão lusitana, tanto no sul quanto na região central da Terra de Santa Cruz, no Chaco Boreal.

A Milícia Guarani

Os frequentes ataques dos bandeirantes levaram, então, a uma militarização das missões, incluindo o uso de armas de fogo pelos índios. As táticas de combate são incluídas no currículo das missões, que passam a contar com milícias permanentes. Além de guerrear em nome dos governadores e do Vice-Rei, a milícia também se obrigava a ajudar em construções defensivas, como a muralha de Montevideo.

A milícia guarani utiliza arco, lança, pique, espada, funda, escudo circular, mosquete, escopeta e até canhões rudimentares, como as taquaras, peças feitas de tronco de laranjeira escavado e reforçado com couro, com capacidade para três tiros. Há de 20 a 30 armas de fogo em cada redução, podendo chegar a 50 naquelas que enfrentam maior perigo de ataque. Estas armas são confiadas aos índios mais hábeis. A pólvora fabricada localmente é de má qualidade.

Cada arqueiro possui 50 flechas, 2 arcos e 4 cordas. Os arsenais são abastecidos com 6 mil flechas. Os fundeiros têm 30 pedras talhadas e 12 fundas. Cada cavaleiro possui dois cavalos treinados para suportar o barulho das batalhas. Há um local de refúgio para mulheres e crianças, pois, quando são capturadas pelos inimigos, os guerreiros se rendem.

Os oficiais são os próprios Guaranis, e os Curas são os conselheiros de guerra. O comando fica por conta de um sargento-maior e um mestre-de-campo. A infantaria comporta 100 homens e a de cavalaria e de fundeiros, 50 cada. Cada uma delas é comandada por um capitão. Todo mês há um exercício de guerra. Os melhores atiradores são premiados com alimentos extras.

Poucos são os índios que sabem manusear a pólvora das armas ou fazer a mira como se deve. Também há pouca disciplina para manter a formação durante o combate. Por serem características alheias à cultura de guerra dos Guaranis, eles rendem melhor quando liderados por um branco.

As reduções guaranis são obrigadas a socorrer militarmente a colônia. Em grande número e bem comandados, são uma poderosa máquina de guerra, lutando várias vezes contra colonos rebeldes e Guaicurus. Os índios missioneiros combatem os pagãos ou os índios rebeldes das encomiendas com vigor. Às vezes os Jesuítas conduzem suas próprias guerras contra os nômades, sem pedir autorização oficial.

A maior vítima deles, entretanto, são os Charruas. Os Jesuítas não fazem muito esforço para converter os Charruas, considerados inimigos. Eles não aborrecem as missões, mas arrasam as estâncias e atacam as expedições às vacarias, atacando a reserva de gado. Rivais naturais dos Guaranis, estes partiram com gosto para atacá-los quando convocados pelo governador da Província do Rio da Prata.

Quando ameaçadas, as reduções armam paliçadas e fossos a seu redor. Há grandes barcos de guerra, principalmente nas reduções suscetíveis aos ataques dos Paiaguás.

Guerras Guaraníticas

Com a assinatura do Tratado de Madrid, em 1750, a região de Tapé passou a pertencer à Coroa lusitana, em troca da posse castelhana de Colônia do Sacramento. Os índios missioneiros, incentivados por alguns jesuítas, recusam-se a sair e se transferir para a banda ocidental, bem como os lusitanos de Colônia não deixam a cidade de imediato. Os índios consideram que são bons súditos à Coroa e que não cometeram crime algum que justifique o exílio, e escrevem uma carta ao Rei nesse sentido.

Os Guaranis censuram os Castelhanos e os Jesuítas por não agirem como cristãos e os fazerem perder a fé. Os Curas já não parecem mais agir em favor do povo. Os paroquianos decidem morrer em defesa do Santo Sacramento. Em 1753, os índios começam a criar dificuldades à ocupação lusitana na região, levando à guerra no ano seguinte. Só que, dessa vez, os Guaranis são obrigados a enfrentar também as forças castelhanas vindas do Rio da Prata.

Os caciques têm a seu favor o orgulho tribal e a bravura pessoal, mas não têm autoridade para falar por todos os Guaranis, nem conhecimento estratégico para combater Castelhanos e Lusitanos ao mesmo tempo. Assim, cada redução faz a guerra por si, com as tropas divididas em vários bandos. Não se prevê nenhum dispositivo de abastecimento, nem qualquer plano de campanha. Logo surgem divergências quanto às táticas a serem adotadas.

Com duas frentes de batalha e as forças divididas, a resistência acaba em 1756, de forma dramática, com a morte do principal líder guarani, Sepé Tiaraju.

Sepé tinha um grande dom para a magia, mas optou por ser um guerreiro em vez de um Caraí. Reza a lenda que Sepé era um Charrua cuja aldeia foi atacada pelos Castelhanos. Um jesuíta que acompanhava a tropa decidiu acolher o órfão e levá-lo até as missões, mas acabou o entregando a uma aldeia guarani antes de concluir a viagem.

Seu avô adotivo era um poderoso e adorado Caraí, de forma que Sepé foi criado para sucedê-lo. Entretanto, passou a frequentar a missão vizinha, onde aprendeu castelhano e a arte militar. Considerou que, como guerreiro, poderia contribuir mais para uma convivência harmoniosa entre brancos e índios. Na guerra, Sepé adota táticas de guerrilha, evitando grandes batalhas. Seu corpo nunca foi encontrado.

O Tratado de Madrid, de 1750, é rompido em 1761, mas os Guaranis haviam perdido a fé nos jesuítas. Ao mesmo tempo, todo mundo acredita que os Jesuítas fomentaram a guerra com os Guaranis. Muitos se convencem que os Jesuítas, ou parte deles, queriam fundar um império. Assim, os jesuítas se sentem isolados dos dois lados.

Published in: on 21 de setembro de 2016 at 17:08  Deixe um comentário  

A VIDA NAS MISSÕES

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A Vila

Na bacia do Prata, a vila precisa ser construída em lugar elevado, onde o ar é mais puro e menos úmido, além de ficar protegida das inundações e afastada dos pântanos, evitando epidemias. Além disso, deve ficar próxima a águas salubres e perenes, pois os índios banham-se com frequência. A proximidade do rio também facilita a comunicação e o comércio entre as missões e com as cidades coloniais.

A vila missioneira é formada pela igreja, o cemitério, a escola, que também serve como casa dos padres, e as casas dos índios, que se localizam ao redor de uma grande praça, na qual há uma grande cruz e uma estátua do santo patrono da missão. A praça pública divide a missão em duas partes distintas: de um lado, o domínio de Deus e dos padres; do outro, as habitações indígenas.

Todas as ruas são traçadas de forma geométrica e se dirigem à praça. Elas são em linha reta para facilitar a vigilância, com largura de 15 metros. As casas são agrupadas por blocos de 6 ou 7 unidades, o que limita o perigo de incêndio. Os bairros buscam respeitar a divisão por tribos.

As choupanas devem ter suas portas voltadas para o vento sul, mais fresco. Os cômodos têm de 5 a 6 metros de lado, não importa o tamanho da família. No final do século XVII, o Provincial proibiu as casas familiares, devendo cada casal viver em sua própria casa. Um couro de boi funciona como porta. Não há janelas ou chaminés, faz-se o fogo em um canto do chão, que não é revestido. O mobiliário é reduzido e semelhante ao que os índios possuíam nas aldeias: redes, couro de boi no chão, travesseiro, uma pedra ou pedaço de madeira, um banco, alguns baús para roupa, uma ou duas caçarolas de terracota, algumas jarras e uma cabaça. Quando necessário, esteiras dividem o cômodo em quartos de dormir. No mesmo cômodo vivem os animais domésticos: cachorro, galinhas, macacos e papagaios. As paredes são pretas de sujeira e a atmosfera é esfumacenta.

Há uma casa comunal para abrigar os órfãos, as viúvas e as mulheres solteiras, chamada Cotiguazú (Casa Grande). Nela também se encontra a prisão das mulheres. Há cômodos separados para mulheres e moças. As reclusas recebem diariamente uma porção de carne, roupa duas vezes por ano e algumas esmolas do Cura. Devem fiar para a comunidade e cultivar os campos. São dirigidas e vigiadas por uma anciã. Quando saem para a igreja ou aos campos, é sempre em grupo. Ao cair da tarde, a casa é fechada à chave por toda a noite. Há duas trancas: uma que abre por dentro e outra que abre por fora. A primeira fica com a anciã, a outra fica com o Cura. Quem invadir a casa receberá 25 chicotadas no pelourinho.

A igreja tem três naves, toda feita de madeira, exceto o teto de telhas. As paredes são guarnecidas de espessas pranchas de cedro trabalhado. O altar-mor é ornado com um esplêndido retábulo dourado. Há cruzes, candelabros, vasos, ornamentos, tudo de ouro e prata. As vestes sagradas são finamente fabricadas. As paredes estão repletas de quadros sacros. Só há duas igrejas inteiramente de pedra talhada: San Miguel e Trinidad. Há um calabouço ao lado da igreja para aqueles que não seguem as normas da missão.

Não há vidros nas janelas, pois falta material para produzi-los. Em seu lugar são usadas bexigas de boi diáfanas, papel, tecido ou lâminas de pedra talco. Esta pedra é branca, muito leve e frágil, de finas lâminas, que pode ser dividida com uma faca em pequenas placas. Quando mergulhadas em água, assumem a maleabilidade do papel e a cor da prata. É também usada para fazer pequenas imagens e adornar as igrejas. Torna-se muito escassa em meados do século XVIII.

As igrejas de Concepción têm três naves que dão para uma praça pública através de pórticos. As colunas são de mármore ou pedra talhada. Há estátuas por toda a parte, em geral de tamanho natural. Em Santa Rosa, a igreja possui um antealtar de ouro e prata maciços, um tabernáculo de ouro e prata artisticamente trabalhado, um lustre de prata de 40 kg, uma fonte de mármore cuja água corre para uma jarra de prata.

A vila possui água corrente e serviços sanitários, um detalhe que merece bastante atenção dos padres, o que diminui o impacto das doenças nas missões.

O colégio possui salas imensas, ornadas com madeira esculpida e cadeiras de carvalho com couro dourado. Há cerca de 6 quartos, alguns reservados a missionários de passagem.

Em cada redução os padres possuem sua horta atrás do colégio e da igreja, confiada aos meninos do catecismo. Funciona como um jardim de testes. Plantam diversos tipos de frutas, verduras e legumes. Só não conseguem fabricar um bom vinho.

Algumas missões possuem moinhos, serrarias, olarias, instalações de secagem de erva-mate e tratamento de cana-de-açúcar. Os Jesuítas ainda lograram construir três impressoras para satisfazer à demanda de materiais didáticos.

Os Padres

A vida do jesuíta não tem poesia. Eles vivem e trabalham apenas com Deus, sua única fonte de conforto. No trabalho nas missões, os padres não poupam qualquer sacrifício. Vivem em um ambiente onde moscas e mosquitos constituem um quinto elemento. Falta-lhes roupa, vestem trapos mal tingidos, a comida é sem tempero, o vinho é escasso e dormem muitas vezes em redes. Nascidos em geral na nobreza, esses sábios derrubam árvores, arrastam vigas, carregam palha nos ombros, trabalham no campo, cozinham e servem comida, cuidam dos doentes, tecem em teares rudimentares as roupas dos índios e, se necessário, pegam em armas para defender seu rebanho.

À exceção dos membros do clero, os padres não recebem ninguém em sua habitação, com exceção dos meninos que o servem como criados, no limite de cinco, e o porteiro, cujo quarto fica na entrada do colégio e é escolhido entre os anciões exemplares. Quando houver necessidade, só os homens são admitidos em seus aposentos. O missionário jamais fala a sós com uma índia. No entanto, elas aproveitam o sacramento para assediá-los. Os padres jamais visitam os índios em suas habitações, exceto em caso de morte.

O milagre desses milhares de índios governados por apenas dois padres estrangeiros, sem qualquer apoio militar presente ou próximo, explica-se pelo respeito de seus paroquianos. Só há submissão porque, no conjunto, a autoridade não é opressiva, nem arbitrária, nem caprichosa, e porque é exercida pelo bem da comunidade. Se os padres traem essa confiança; se calamidades destroem a redução, como geada, gafanhotos, cheias, secas, fome, epidemias, granizo; se sua autoridade se transforma em tirania; é porque seu poder divino diminuiu ou porque não mais o utilizam em favor dos índios, que então são tentados a fugir.

Quando um padre conquista a confiança dos índios, estes arriscam sua vida para protegê-lo. Ao contrário do que ocorre entre os civis, um jesuíta dificilmente faz algo para quebrar esse vínculo. Os colonizadores querem riqueza, e para isso enganam e roubam. Os Jesuítas se preocupam em falar a língua deles fluentemente e são fiéis ao que se propõem. Podem ser duros, mas seguem as próprias regras, que são expostas de forma clara.

A atitude dos índios em relação aos padres é muitas vezes de devoção fanática, mais do que a devoção dos brancos. São alimentados pela esperança de recompensas, ainda que não esteja muito claro para eles quais são os benefícios. Em algum ponto no futuro bruxuleia a imagem de uma terra sem males, também chamada de Paraíso.

Para certo desapontamento dos missionários, eles são a fonte de atração e adoração, enquanto Deus sofre com uma certa indiferença. O Rei está distante demais, às vezes duvida-se de sua existência. O Papa, um desconhecido do qual nem se lembram. Deus, abstrato demais para o imediatismo de suas vidas.

Se praticamente todos os Curas, nas primeiras décadas das missões, possuíam Poder Divino, sendo que muitos morreram em conflitos com os índios ou contra os bandeirantes, após a estabilização das missões, com o crescimento da atividade econômica e longos períodos de paz, chegaram à região padres mais voltados à administração das coisas da Igreja.

Os padres que substituem os apóstolos, que chegam apenas para dar continuidade à obra e não para construi-la a partir do nada, têm um olhar mais crítico em relação aos índios, tratando-os como crianças. O respeito dos paroquianos pelos missionários diminui à medida que aumenta o desprezo dos Curas pela capacidade de seus súditos.

Na verdade, nem todo jesuíta está à altura da missão. Às vezes, a intransigência doutrinal afasta os pagãos; às vezes, o padre perde a razão com o isolamento e os rigores da vida missionária e abandona a Companhia, sendo tomado por terríveis angústias.

O Cotidiano

Toda vida cotidiana é organizada como no colégio. O sino dirige todas as ocupações, e em cada redução há pelo menos um relógio, nem que seja solar. Todos devem correr até a igreja ao ouvir os sinos da missa. Em situações excepcionais, os sinos são usados para convocar reuniões gerais.

Assistir à missa durante a semana não é obrigatório para os adultos, mas a maioria tem o hábito de assistir a ela. Não há missa sem cantores e música. As mulheres entram pelo pórtico, os homens pelas portas laterais. Na nave central fica o pessoal do Cabildo, os oficiais de guerra e os caciques, que têm direito a cadeiras, enquanto o povo se ajoelha e se senta no chão. Os meninos, separados das meninas, vêm depois. As mulheres, da mesma forma, sentam-se separadas dos homens.

Terminada a missa, um punhado de erva-mate é distribuído a todos os chefes de família. Os cabildantes vão informar aos padres tudo o que aconteceu no dia anterior. As crianças ficam em frente à igreja aos cuidados dos anciões desocupados. Algumas vão à escola, são filhos de cacique e de funcionários, cantores, sacristãos e crianças dotadas.

O sino do rosário anuncia o fim da jornada de trabalho, que é de 9 horas no verão e de 7 horas no inverno.

Depois do toque de recolher, não é permitido a nenhum índio sair de casa, e, por toda a noite, zeladores percorrerem as ruas para que não haja qualquer infração. Os vadios são castigados exemplarmente. A noite é dividida em três vigílias.

O poder dos padres sobre as crianças é quase absoluto. As Congregações Marianas funcionam como uma “juventude jesuítica”, que denuncia todos os pecados dos adultos. Os congregados marianos recebem um tratamento diferenciado, como o direito a um enterro majestoso. Muitos índios almejam ser um congregado, chegando a 10% dos fiéis. A eles são reservados a maioria dos cargos administrativos.

Aqueles que prestaram grandes serviços à missão são enterrados na igreja, assim como os padres. Os padres são postos dentro de um caixão, os índios são envolvidos em uma mortalha de algodão.

Os paroquianos devem se confessar de 3 a 4 vezes por ano. Toda semana designam-se as casas cujos habitantes deverão se confessar.

São celebradas as festas religiosas com muita pompa. As principais são Semana Santa, Corpus Christi, Natal e o Dia do Padroeiro. A exuberância das festas suscita muitas queixas aos Padres Provinciais.

Os índios missioneiros de fato se comprometem com aquela nova realidade e admiram seus novos líderes, que substituem os pajés na liderança espiritual. Afinal, se aquelas pessoas estão tomando conta de suas terras e derrotando seus guerreiros, é porque o Deus deles tem bastante poder.

O desarraigamento geográfico e cultural ajuda na dependência dos índios. Eles perdem a aldeia, as funções sociais, o ritmo de vida, as relações intertribais, as relações dentro das tribos, as regras de parentesco e casamento. Tudo é formatado pela nova religião. Ao perder o contexto e as formas ancestrais, o índio adota a alma cristã.

Os padres não podem ser muito liberais na distribuição de bens e comida. É preciso explicar desde o início o compromisso dos índios com a atividade missioneira e o que receberão de alimento e roupas. Incialmente, é aconselhável evitar a fartura, pois os índios não têm a cultura da previdência. O importante é reter os índios nas missões por longo prazo, até que eles assimilem a nova vida e os ensinamentos religiosos. O jesuíta dever de ter a arte de apelar não somente para o apetite, mas também para o orgulho e a simpatia.

Muitos índios morrem de disenteria devido ao excesso de carne. As epidemias de varíola, uma praga habitual, podem levar metade da população de uma redução. No início do século XVIII, ela se introduz no Rio da Prata por navios negreiros.

Entre as mudanças nos costumes dos índios missioneiros, além de aspectos morais, estão as tarefas culturalmente atribuídas às mulheres, como trabalhos manuais e horticultura. A antropofagia desapareceu. As reduções diminuem as brigas entre as tribos. A milícia ajuda a impor a ordem na região.

Ainda que não tenham profunda compreensão da religião, as práticas religiosas são enraizadas e aceitas com facilidade. Mesmo os fugitivos as mantêm. As fugas das missões mal ultrapassam 1%.

A Administração

Cada redução tem o seu Cabildo. Este é liderado por um corregedor eleito pelos índios, geralmente um dos caciques, e confirmado pelo governador da província. Os alcaides, também chefes indígenas, são encarregados de manter a ordem cotidiana, e possuem um corpo burocrático para esse fim.

Entre os índios são escolhidos o corregedor, dois alcaides-mores, um tenente-corregedor, um alferes real, quatro regedores, um aguazil-mor, um alcaide da Irmandade, um procurador e um escrivão. Os integrantes do Cabildo são renovados a cada ano, enquanto o corregedor é vitalício.

Porém, são os padres quem detêm o verdadeiro poder sobre as reduções, administrando os bens dos índios e intervindo diretamente em todos os aspectos da vida missioneira, das coisas do espírito às atividades econômicas e militares. No geral, são ótimos administradores e bons chefes, sendo admirados por isso.

Os grandes caciques vão sendo substituídos por líderes que recebem apenas um pouco de prestígio e uma pequena parcela do poder de outrora. Os caciques se tornam hereditários, independentemente das qualidades pessoais. Essa nobreza indígena é reconhecida pela legislação colonial, recebendo os caciques o título de Dom. Há cerca de 30 a 40 caciques em cada redução.

O Colégio e as Oficinas

Os Jesuítas cumprem com rigor uma Real Cédula que ordena que em todo lugar haja escolas e que nelas os índios aprendam a ler e escrever, o que eles aprendem facilmente. Os meninos frequentam a escola dos 6 aos 12 anos, aprendendo a ler e escrever, e também matemática elementar. As meninas aprendem a ler, escrever, fiar e cozinhar. Os jovens que tenham superado a idade escolar podem trabalhar em qualquer atividade. Há uma divisão por classes, sendo colocados em plano superior aqueles que se destacam em suas funções. Os que melhor aprendem seus ofícios se tornam professores.

Crianças e adultos aprendem o castelhano, e os filhos dos caciques também aprendem o latim. Os filhos dos caciques fazem parte de uma pequena elite a qual tudo é ensinado. O desejo da criança de permanecer com o jesuíta logo se torna a vontade do pai.

A música e o canto ocupam lugar de destaque no processo de aprendizagem. Da mesma forma, os índios se dedicam à dança e a apresentações teatrais. Os dançarinos são sempre homens. Há entre 30 e 40 cantores e músicos em cada redução. Os Guaranis têm uma vocação especial para a música, e tocam com muita facilidade, revelando-se excelentes instrumentistas. Em algumas reduções chegam a fabricar instrumentos musicais, exceto aqueles feitos de metal, que precisam ser importados. Certa vez, por ignorância, o índio encarregado de trazê-los desmontou os instrumentos para facilitar a viagem. Outra atividade é a artística, com ateliês produzindo pinturas e esculturas feitas pelos índios, sob a supervisão dos padres.

As reduções contam com três imprensas, nas quais imprimem o material didático na língua indígena. Nessas impressoras são editados livros em castelhano ou guarani, com tiragens bem reduzidas. A maioria é manual para a catequese. O papel, entretanto, é preciso importar da Metrópole. Já a tinta é extraída de matéria-prima local.

As ferramentas, utensílios e maquinários fabricados nas missões são um pouco grosseiros devido à má qualidade da matéria prima. Isso inclui a imprensa. Por isso, os índios são treinados para fazer o trabalho de copistas. Embora não sejam bons em compor ou criar coisas novas, seu gênio imitativo os transforma em excelentes técnicos. Os copistas guaranis fazem um manuscrito perfeito, sendo difícil diferenciá-lo do original. Os Guaranis possuem ainda uma memória extraordinária, sendo capazes de transmitir sem qualquer erro todo um texto em língua estrangeira.

Os Jesuítas se tornaram os principais cartógrafos do continente no século XVIII. Seus mapas são as principais referências para a assinatura de tratados. Muitos deles são confeccionados com a ajuda dos índios, que conhecem bem a região.

Vestimentas

Os padres usam sapatos formados de uma simples sola de couro fechada por um botão, botinas de couro de carneiro como meia, batina sem forro ou bolso. Só os trajes das cerimônias são feitos com tecido de melhor qualidade. Para o mau tempo, vestem um manto marrom. Usam um rosário em volta do pescoço, como os índios. O cabelo é cortado bem curto, e em geral não usam barba.

O traje dos homens consiste em uma calça, um colete e um poncho ornado de franjas nas bordas. Camisa é considera um artigo de luxo. As roupas são de algodão, exceto o poncho, que é feito de lã. As roupas da comunidade são brancas. Meias e calçados só são utilizados pelos sacristãos durante os ofícios. Os cabelos são cortados como os dos noviços.

As mulheres só soltam o cabelo quando vão à igreja, em sinal de reverência. Normalmente elas os prendem em uma redinha de algodão. Em casa e no trabalho no campo, usam um vestido sem manga fechado até o pescoço e apertado na cintura. Para o culto, vestem por cima dele uma túnica que é mais larga, com mangas, e não é apertada na cintura. Nenhuma delas pinta o rosto ou os lábios. Colares e anéis são feitos de vidros coloridos. Os brincos são de cobre e podem atingir até três dedos de diâmetro.

A Justiça

Nos julgamentos, o juiz é o Cura, que deve ouvir a opinião do Companheiro. Se o delito for grave, os autos são enviados ao Superior, que dá seu parecer após ouvir seus consultores. Há ainda direito a recurso ao Provincial. Os Jesuítas lançam mão de castigos físicos, o chicote e o pelourinho, particularmente contra a feitiçaria.

Os Jesuítas aboliram a pena de morte. Os castigos mais comuns são o chicote e a prisão. A prisão das mulheres fica no Cotiguazú. A dos homens é ao lado do colégio.

As penas severas e os castigos são aceitos com submissão e gratidão, de tal forma que o castigado chega a agradecer aos padres. As flagelações são entendidas em seu aspecto purificador, como algo que concede força, saúde e coragem.

Os homens são chicoteados nas nádegas cerca de 20 chicotadas por dia. Para as mulheres, 12 vezes no ombro. Os homens são açoitados em praça pública. As mulheres, no Cotiguazú, seja pelo pai, por outra mulher ou por um velho. Com o tempo, a punição física às mulheres é vetada. Nos domingos e feriados não há chicotadas.

Para as práticas de feitiçaria que resultam em morte, a pena é um ano de prisão acorrentado, açoites públicos e posterior expulsão da redução, sendo encaminhado à cidade mais próxima. Para roubos, pena de prisão proporcional ao delito, com açoite no pelourinho. Aqueles que não comparecem à missa dominical também são chicoteados.

O homicídio é punido com prisão perpétua. O condenado fica acorrentado e recebe pouca comida, sendo chicoteado uma vez por mês no pelourinho. Só pode sair da cela para a missa dominical, como os demais presos. Entretanto, depois de 10 anos, encontra-se qualquer motivo para anistiar o condenado. Como é preciso manter a crença na prisão perpétua, o condenado é exilado para outra redução.

Dentro das missões pode haver ainda lutas e rivalidades entre clãs, o que deve ser administrado com sutileza pelo padre, sem deixar entender favorecimento pra um ou outro.

Casamentos

A idade nupcial é de 17 anos para os rapazes e 15 para as moças. Os Guaranis consideram incesto a união com qualquer parente do lado paterno. Após o casamento, se um homem falar com outra mulher, corre o risco de ser chicoteado. Exceto no contexto familiar, a separação de sexos é absoluta em todas as atividades. Em qualquer lugar que forem as mulheres, haverá um guardião.

O apego à poligamia alimenta a resistência dos caciques. Para amenizar o problema, é permitido aos chefes escolher qual das esposas originais gostaria de manter, não precisando ser a primeira com a qual ele se casou, o que seria, de qualquer modo, muito difícil de averiguar.

A Produção

Convencer os índios da necessidade de um trabalho metódico e rotineiro talvez seja a principal dificuldade dos missionários, mais do que a catequese, a substituição do nomadismo pelo sedentarismo ou da beligerância pela paz. Por muitas vezes é necessário apelar para o castigo para que cumpram com suas obrigações comunais ou para prover o sustento da própria família.

Os cultivos das missões são o milho (que permite até três colheitas por ano), mandioca, batata, erva-mate, algodão, tabaco, batata-doce, amendoim, favas, abóbora, melão, melancia. Poucos plantam cana-de-açúcar e árvores frutíferas. Nas aldeias, a agricultura é função das mulheres, mas nas missões passa a ser também trabalho dos homens. Os campos de algodão são imensos, e abastecem as comunidades com roupas para todos. Os tecidos excedentes são exportados.

Das plantas cultivadas, a erva-mate merece atenção especial. É um dos principais artigos de exportação, cuja concorrência incomoda os colonos, mesmo com preço mais elevado devido à qualidade superior, a erva Caaminí. O principal destino é Nova Castela.

A propriedade é mista, particular e comunal. Cada chefe de família possui uma chácara com tamanho necessário para o autossustento. A propriedade coletiva é a terra de Deus, onde se planta trigo, algodão e legumes, geralmente dividida em dois campos.

Por toda a Terra de Santa Cruz, os índios são vistos como preguiçosos, e os missionários devem estimulá-los ao trabalho. Por isso é adotada a caixa de comunidade, com o objetivo de suprir as necessidades comunais e evitar o consumo imediato do que é produzido.

Na prática, os Guaranis semeiam apenas o necessário. Poucos são o que se preocupam a vestir-se e alimentar-se decentemente, não se preocupando em armazenar. Se os padres não cobrarem, as colheitas apodrecem no pé. Os padres devem cuidar para que cada índio cultive o suficiente para todos. As colheitas são propriedade dos índios, mas eles as consomem imediatamente. Os padres precisam intervir para que haja armazenamento.

Os primeiros meses de uma nova missão, contudo, são de fome. A preparação do terreno pode levar até um ano. As árvores levam de 3 a 4 anos para render frutos. O governo ajuda com um salário inicial, materiais e víveres, mas só no aldeamento próximo à cidade.

Os Guaranis incorporaram com muito sucesso a criação de gado, que lhes fornece leite, couro e carne. Os bois são essenciais à conservação das vilas. A gordura serve de manteiga para os jesuítas. Além da carne, a gordura, o sebo e o couro trazem boa renda nas exportações.

As estâncias das reduções não são suficientes. As missões dispõem de reserva natural, os rebanhos soltos nas pradarias, chegando a retirar 300 mil cabeças de gado por ano desse gado disperso. Os problemas começam quando esta reserva é descoberta pelos bandeirantes.

O Comércio

Cada missão forma uma unidade econômica independente. A variedade geográfica gera algum grau de especialização das reduções, o que gera um intenso comércio interno, suprindo as deficiências de cada setor. Sem utilizar moeda, comerciam por escambo. O Provincial precisa estabelecer os preços e as normas de troca, para evitar conflitos e desequilíbrio entre as vilas.

Cada redução se especializa em algum ofício, como carpintaria, metalurgia, panificação, tecelagem, cerâmica, fabricação de instrumentos musicais e chapéus, escultura, pintura e música.

As viagens entre as missões são feitas principalmente pelos rios, mas as vilas são ligadas por boas estradas, com pontes e barcos para travessia dos rios. A cada cinco léguas há uma capela com um ou dois quartos para os viajantes, semelhantes aos tambos incaicos. O alojamento é gratuito e cuidado por índios designados para esta função.

As reduções precisam importar ferro de qualidade, cera europeia para as velas, óleo e produtos manufaturados, como armas, facas e anzóis. Assim, exportar é preciso. Os principais produtos de exportação são a erva-mate, o couro de boi, tecidos de algodão e de lã, tabaco, açúcar, mel, móveis de madeira nobre e alguns produtos de artesanato.

Todo ano sai uma balsa levando os produtos a Santa Maria de los Buenos Aires e Santa Fé, onde o procurador da Companhia de Jesus faz todas as operações comerciais, tanto para a missão quanto para o excedente individual dos índios, quando há. Os índios que levam as mercadorias se hospedam nos colégios enquanto aguardam os negócios serem concretizados. Neste meio tempo, podem realizar pequenos serviços para a Igreja ou mesmo para o governador.

A legislação colonial não permite que viajantes e comerciantes permaneçam mais de três dias nas reduções, para evitar má conduta, má influência e epidemias. Eles são alojados em um albergue especial, afastado das casas dos índios e guardados por um guerreiro da milícia.

Apesar das proibições, brancos e negros são empregados por muitos anos nas missões, seja em trabalhos técnicos, como arquitetos e artesãos, seja de proteção, como guardas de estâncias. Os ladrões de gado acabam sendo obrigados a permanecer contra a sua vontade, jogados nas prisões, às vezes por toda a vida.

O Tributo

Inicialmente, os índios missioneiros estavam liberados do serviço nas encomiendas por 10 anos. Após este período de isenção de tributos, os Jesuítas não conseguiam impedir os colonos de usarem seus serviços. Os índios começaram a acreditar que os padres eram cúmplices dos colonos. Isso afetava principalmente as missões do Chaco, mais próximas das vilas.

Com a pressão dos Jesuítas, a Coroa decide aumentar o prazo de isenção para 20 anos, após o qual o jesuíta pode pagar ao governo da província em troca da permanência do índio na redução, o que é feito através do comércio das missões com as cidades. Os governadores podem exigir ainda trabalhos públicos, como construção de fortes, prédios e pontes.

Depois de um tempo, a Coroa suspende o sistema de encomienda para os neófitos. A economia das missões se organiza e se firma. As missões dos rios Paraná e Uruguay encontram sua localização definitiva, mais propícia para o desenvolvimento da produção. Entretanto, as missões ficam obrigadas a oferecer apoio militar às províncias vizinhas quando requisitado.

Os colonos logo se colocam contra a isenção de tributo, havendo hostilidade com os missionários. Apesar das missões trazerem paz, ensino e medicina, alguns jesuítas são expulsos de áreas próximas às vilas. Aos poucos, vão sendo introduzidos escravos negros nas províncias do sul.

Quando o Bispo visita as reduções, estas assumem todas as despesas de sua viagem. E ainda lhes dão uma esmola de 100 pesos. Evita-se exibir demais as riquezas, pois os bispos demonstram vontade de impor o pagamento de dízimo às reduções. Os Curas, seguindo orientação do Superior, mantêm dois livros de sacristia: um com o valor exato dos ornamentos, para mostrar ao Provincial; outro adulterado, mostrado ao Bispo. A mesma reserva é adotada na visita dos governadores, pois eles querem pedir tudo o que veem.

Published in: on 21 de setembro de 2016 at 16:42  Deixe um comentário  

A CATEQUESE

Se a colonização ainda não dispôs os índios contra os brancos, os Jesuítas costumam ser bem recebidos nas aldeias, principalmente se não estiverem bem armados. Quando chegam, o jesuíta procura o cacique mais importante da tribo. Este se encontra em uma habitação escura, sentado em sua rede. O jesuíta é convidado a sentar ao lado e logo é rodeado pelas mulheres, que choram e gritam pelos parentes do padre, por sua sorte ou má sorte. Os homens cobrem a face com as mãos em sinal de tristeza. Depois das lágrimas e gemidos, são dadas as boas vindas ao padre. A saudação lacrimejante é um sinal positivo; se o visitante não é recebido dessa forma, perigo à vista. Quando recebido calorosamente, o padre pode ser brindado com uma morte gloriosa.

Depois da estranha saudação tradicional, é ofertada a chicha, bebida fermentada à base de milho, cuja recusa será considerada uma ofensa. Logo a população se encontra na praça para ouvir o estranho visitante. É a hora de o padre dizer a que veio. Ele diz que fala em nome do Rei, que abandonou tudo, atravessou mares, enfrentou terríveis perigos para estar ali. Tenta mostrar como a vida dos Guaranis é cheia de dificuldades e como ele pode torná-la mais feliz e segura. Que Deus revelará a fraude dos maus espíritos e os libertará da escravidão, que serão tratados como filhos dele. O padre manda, então, erguer uma grande cruz de madeira. Depois, se ajoelha e a beija. A seguir, celebra uma missa com a ajuda dos índios da escolta, garantindo que afugentará todos os demônios.

Não é fácil para o missionário convencer os índios de que são enviados por um ser misericordioso com o intuito de trabalhar para sua salvação. Os Jesuítas se aproveitam do mito da Terra Sem Males para apresentar a ideia cristã de Paraíso. Essas similaridades entre a religião cristã e a mitologia guarani os tornam mais propensos ao cristianismo do que as demais etnias. Mas, em regra, os Jesuítas não estudam as crenças e a mitologia dos índios, pois as veem como obra do demônio, interessando-se na medida em que necessitam combatê-las.

Muito antes de Castelhanos e Lusitanos, Sumé andou entre eles pregando palavras parecidas, mas acabou sendo expulso pelos Caraís, os pajés-profetas dos Guaranis. Os Jesuítas chegam a considerar que Sumé possa ter sido o apóstolo São Tomé, que teria chegado a estas terras e espalhado as palavras de Cristo. A facilidade com que os Guaranis abraçam a nova religião é vista como uma semente adormecida em sua cultura.

Se os nômades do Chaco e da Patagônia dão mais trabalho, os índios sedentários são mais humildes e se deixam impressionar com facilidade pela força dos colonizadores. Mas os padres se veem apenas com seu ar de autoridade e resolução. Mesmo que o poder dos brancos se apresente de forma amedrontadora, é importante manifestar sua natureza benéfica.

Os velhos reagem contra a nova religião devido ao enraizamento das tradições. Os jovens, devido aos rigores. Nas cidades, os Jesuítas levam os prisioneiros indígenas a seus colégios ou missões, fazendo com que sintam o poder da caridade. Depois, devolvem o prisioneiro para sua tribo como um embaixador. Mas os melhores relações-públicas são os membros de tribos já catequisadas, que acompanham o jesuíta em sua jornada. São eloquentes e convincentes.

Para driblar a resistência, os Jesuítas centram esforços nas crianças, e só batizam adultos que mostram sincera vontade. Desde pequena a criança é considera responsável na comunidade. Não há um sistema de educação com o qual o jesuíta precise concorrer. Visitam também os doentes e procuram curá-los, sendo vistos como grandes xamãs.

Os Jesuítas buscam não frustrar as esperanças e despertar a estima dos índios pela religião cristã, mostrando seu poder e positividade. Os índios são capazes de seguir cegamente ao missionário quando o percebem como alguém diferente do branco escravista.

É necessário que os Jesuítas se estabeleçam entre eles e os mantenham reunidos, pois a dispersão prejudica a catequese. Só o batismo não segura os índios. Assim que os padres deixam a aldeia, eles retornam aos hábitos antigos. A obra de evangelização exige paciência e continuidade. Mas nada impede os padres de passarem anos junto aos índios sem obter algum sucesso.

As reduções agradam aos governos, pois ajuda à colonização. A organização dos índios facilita a submissão à Coroa e às leis coloniais. Às vezes os índios eram reduzidos à força, mas os superiores da Companhia de Jesus se colocaram contra a iniciativa do governo de associar os Jesuítas aos soldados da colonização. Os padres abandonaram a coerção e partiram para a força do exemplo.

Entre os Guaranis, faz sucesso a liberdade das encomiendas prometida pelos missionários, caso se submetam pacificamente. Em regra, quando uma aldeia aceita o domínio dos Castelhanos, os colonos não descansam até que eles sejam submetidos aos encomenderos. Mas a influência dos Jesuítas na Corte permite que a Companhia proteja os índios contra os abusos dos colonos. Em determinado momento, os Jesuítas conseguem que se estenda às províncias do sul a legislação de Nova Castela, que dá 10 anos de isenção de tributos aos índios que optem pelas missões. Posteriormente, a isenção se estende pelo tempo que permanecerem nas missões. Os Jesuítas se preocupam com o mau exemplo dos colonos, e fazem o possível para manter os índios isolados.

O gado desempenha também um papel primordial na atração para as missões, pois a caça e a pesca não é fácil todo o ano. A oportunidade de não passar fome em nenhum momento, nem nas estações chuvosas, faz com que os índios aceitem a vida nas missões. Um anjo que descesse do céu sem bois e carneiros seria facilmente superado por um demônio que trouxesse carne, roupas e facas. Da mesma forma, instrumentos de ferro, particularmente o machado e a forja, às vezes bastam para converter uma tribo.

Antes de aceitarem a redução, os índios negociam com padres a conservação de alguns costumes. Muitos jesuítas preferem não bater de frente com estes costumes. A poligamia é um grande obstáculo ao progresso da religião entre os nômades, mas não tanto quanto a bebedeira. Os Guaranis tendem a abusar da chicha em suas festas religiosas.

Com o tempo, os Jesuítas conseguem mitigar a questão da poligamia. O ascetismo dos padres serve como exemplo e inspira respeito. Quando os índios oferecem suas mulheres aos padres, surpreendem-se com a recusa. As festas com bebidas, entretanto, continuam.

Uma mudança recebida de muito bom grado entre os Guaranis é o hábito de tomar mate. A bebida era antes reservada aos pajés, mas os Jesuítas a tornaram um consumo de todos, e muito apreciada, pois tem a qualidade de bebida mágica.

Por fim, e não menos impactante na conversão dos índios, está o poder real de alguns jesuítas. Quando este se ajoelha, de crucifixo na mão, e os céus se abrem para a chegada de um anjo, é uma exibição de grandeza a qual nenhum feiticeiro de sua tribo pode igualar. Ao perceber o efeito da Evocação Divina sobre os índios, alguns jesuítas passaram a utilizá-la para este fim. Mas os anjos não são tolos, e só atendem a chamados genuínos, o que veio a deixar muitos jesuítas em maus lençóis.

O fato da qualidade do jesuíta como chefe ser reconhecida espontaneamente pelos índios, e realçada pelo misticismo, não faz com que os índios sejam menos exigentes com seu novo líder. Pelo contrário. Quanto mais poder o jesuíta demonstra, maior deve ser sua generosidade e os benefícios concedidos.

A Comunicação

Como já foi dito, é exigido dos missionários o domínio de ao menos uma língua indígena. Quando se trata de uma língua como a Guarani, falada em boa parte da área central da Terra de Santa Cruz, não é problema, mas é comum uma língua ser falada por apenas um pequeno grupo de índios. A disciplina ferrenha dos jesuítas garante que sempre haja um padre a dominá-la.

Mas a vida dos Jesuítas não é nada fácil, mesmo para os mais hábeis. Certas tribos dissimulam, ensinando errado aos padres, como os Calchaquis, Hets e Wichís. Já os Patagões preferem aprender o castelhano, a fim de incrementar as relações comerciais com os colonos.

Há tribos em que a língua muda de acordo com a classe social. Há a língua dos caciques e do resto do povo. Entre os Guaicurus, a mulher fala uma língua diferente da do homem.

Os Patagões não podem pronunciar um termo relacionado à perda de um ente querido. Se ele perdeu o pai, não falará mais a palavra pai. Se o jesuíta insistir em pronunciá-la, poderá ser atacado.

Quando aprende a língua da tribo, a primeira coisa que o jesuíta procura explicar é o conceito de monogamia. Só que, como poligamia é um privilégio dos caciques, a reação é negativa. Os missionários entre os guaranis costumam esperar uns dois anos, até a sua liderança ser consolidada, para abordar o tema.

A Resistência

Nas primeiras décadas das missões, os Jesuítas enfrentam muita resistência dos índios, o que normalmente leva a um conflito armado, geralmente com bastante desvantagem para os Jesuítas. Os padres não lançam mão da ajuda militar porque provoca desconfiança nos índios, botando todo o esforço da catequese a perder. O mesmo ocorre com funcionários do governo. De qualquer forma, as missões mais afastadas não podem mesmo contar com esse tipo de apoio, só aquelas que ficam próximas às cidades. O mais comum é o jesuíta ser abandonado pelo governo. Quando as missões finalmente se consolidam, os padres passam a contar com a ajuda das missões vizinhas.

Às vezes, basta um tiro de fuzil ou de canhão para arrefecer o avanço indígena, mas, em geral, há poucos efetivos armados, e o sucesso depende muito da fé e da sorte. Quando o padre participa ativamente da defesa da redução, e sobrevive, aumenta o seu prestígio junto aos índios. Inclusive entre os inimigos.

Quando há reação, depois de uma redução já devastada e, possivelmente, alguns padres mortos, expedições punitivas partem das capitais das províncias, gerando um ciclo de vingança.

Os índios não atacam por ódio à religião, mas por defesa ou movidos por algum interesse específico ou rivalidade tribal. O martírio de um jesuíta cria dificuldades à futura catequese, pois, temendo represálias, a tribo se torna mais arredia, fugindo das aldeias com a aproximação dos padres. Uma vez, ao chegarem a uma aldeia deserta, o jesuíta e sua comitiva encontraram uma cruz fincada com uma ave de rapina preta crucificada.

Os pajés são os adversários mais obstinados, inteligentes e perigosos dos Jesuítas. Eles proclamam que os missionários vieram matar os índios e extinguir sua raça. Muitas vezes a batalha entre padres e pajés é longa e cruel.

O jesuíta é ajudado pelos índios convertidos, que denuncia os feiticeiros. O jesuíta precisa mostrar que sua magia é maior, o que é ajudado pelo domínio da medicina europeia. A autoridade do jesuíta é aceita também por provar sua qualidade de chefe.

Os pajés decidem, então, partir para a concorrência. Autodenominando-se Homem-Deus, forjam uma religião paralela às missões, imitando a igreja e instaurando cultos de muita riqueza e força surpreendente, atraindo assim muitos seguidores. O Homem-Deus se metamorfoseia em onça com objetivo religioso. Algumas mulheres também se destacam como líderes dessa nova religião.

Nessa religião, os feiticeiros são deuses superiores e os jesuítas seriam seus subordinados, fazendo parte da hierarquia. Ainda assim, alguns padres são executados por eles.

Da mesma forma que os Jesuítas defendem seus fiéis contra os pagãos, eles os defendem contra os bandeirantes. Nos ataques de 1628 a 1641, os Jesuítas podem ter perdido várias missões, mas eles provaram aos Guaranis que estavam do lado deles. Isso foi essencial para o sucesso posterior das missões. Alguns jesuítas morreram em campo com mosquete na mão.

Published in: on 21 de setembro de 2016 at 1:40  Deixe um comentário  

AS MISSÕES GUARANÍTICAS

Em tese, as missões guaraníticas fazem parte da Província do Guayrá, mas na prática elas formam um estado independente. No início do século XVIII, essa autonomia informal se torna oficial.

As missões guaraníticas, estabelecidas entre as províncias do Rio da Prata e do Guayrá, estão divididas em quatro regiões. Inicialmente, elas eram divididas entre três Superiores. À medida que cada um ia morrendo assassinado pelos índios, acabou ficando apenas um.

Antes, porém, havia uma quinta região, as missões do Guayrá, que foram destruídas pelos Bandeirantes.

Missões do Guayrá

As missões no Guayrá duraram de 1610 a 1632, quando foram aniquiladas pelas bandeiras vindas da Capitania de São Vicente. Os próprios castelhanos de Cidade Real e Vila Rica trocavam índios por produtos vindos de Piratininga e São Vicente, transformando uma antiga trilha indígena em rota comercial. Na época, o ataque de Holandeses às colônias da Coroa lusitana havia diminuído a oferta de escravos negros. O ritmo de troca espontânea deixou de satisfazer às necessidades dos bandeirantes, que passaram a pegá-los diretamente na fonte. Os bandeirantes retornaram a Piratiniga com cerca de 18 mil índios aprisionados.

As duas missões sobreviventes do Guairá são evacuadas e reconstruídas na região entre os rios Paraná e Uruguay. O êxodo de suas terras, carregando o que podiam das missões, incluiu naufrágio de embarcações, caminhada penosa com ataque de cobras e onças, fome, epidemia, queda d’água, choque com os colonos castelhanos que tentam impedir a migração, e, por fim, os desafios de um novo assentamento. Das 10 a 12 mil pessoas que deixaram o Guayrá, apenas 5 mil sobreviveram à provação. Por muitos anos a vida desses índios é dominada pelo medo dos bandeirantes.

Missões do Itatín

Itatín é o nome da região ao sul de Assunção, entre os rios Paraguay e Paraná. As primeiras missões, próximas ao rio Paraná, sofreram com a mesma onda de ataque bandeirante que as missões do Guayrá, sendo obrigadas a recuar para o oeste. Sofreram também com ataques dos Guaicurus.

San Ignacio Guazú: fundada em dezembro de 1609 a 225 km ao sul de Assunção. Considerada a capital do barroco hispano-guarani.

Nuestra Señora de la Encarnación de Itapúa: fundada a sudeste de Assunção em 1615 por San Roque González, santificado após a sua morte nas mãos dos Guaranis. Inicialmente erguida na margem oriental do rio Paraná, teve de se mudar pra margem ocidental devido à ameaça dos bandeirantes.

San Cosme y Damian: fundada em 1632 na margem ocidental do rio Paraná. Converteu-se, no início do século XVIII, no principal centro astronômico da Terra de Santa Cruz, com telescópios, quadrantes e um relógio de sol, todos construídos pelos índios, sob a orientação de um jesuíta astrônomo.

Santa Maria de Fé: fundada em 1647, é a mais próxima de Assunção e tem a primeira imprensa da Terra de Santa Cruz.

Santa Rosa de Lima: erguida em 1668 numa colina de grande beleza natural, descoberta por um padre da missão de Santa Maria de Fé.

Santiago Apóstol: fundada em 1669 a 270 km ao sul de Assunção, chegando a ter 3.100 habitantes.

Jesús de Tavarangüé: fundada em 1685 às margens do rio Monday. Foi obrigada a mudar algumas vezes devido ao ataque de bandeirantes. Chega a ter 3 mil índios.

Santísima Trinidad del Paraná: fundada em 1706, vinte anos depois já conta com 3 mil índios. Possui o maior templo entre as 30 missões guaraníticas, com riqueza arquitetônica e artística. As casas são melhores do que as das cidades da Província do Guayrá.

Missões do Paraná

Conjunto de missões estabelecidas entre os rios Paraná e Uruguay, até a laguna de Iberia. A região recebe forte concentração missioneira após a destruição das missões e das cidades do Guayrá, entre 1627 e 1632.

Nuestra Señora de la Inmaculada Concepción del Ibitiracuá: fundada por San Roque Gonzalez em 1619, próximo ao rio Uruguay, do lado ocidental.

Los Santos Apóstoles San Pedro y San Pablo: fundada em 1632 e refundada em 1652, entre os rios Uruguay e Paraná.

Santa María la Mayor: fundada em 1626 entre os rios Uruguay e Paraná.

San Javier: fundada em 1629 na margem ocidental do rio Uruguay, com bastante sucesso.

Santos Mártires del Japón: fundada em 1639 entre os rios Uruguay e Paraná.

San Carlos: fundada em 1631 entre os rios Uruguay e Paraná, localizada no ponto mais alto da região, a 200 metros de altitude.

San José de Itacuá: fundada em 1633 entre os rios Uruguay e Paraná, perto da missão San Carlos. Enfrentou problemas com os bandeirantes até a batalha de Mbororé, em 1640.

Candelária: erguida na margem oriental do rio Paraná, sede do Padre Superior.

Nuestra Señora de Santa Ana: fundada em 1633, subindo o rio Paraná, próximo a Candelária.

Nuestra Señora de Loreto: fundada em 1610 na margem esquerda do rio Yabebiry, quase na foz com o rio Paraná. Abriga uma das três imprensas que confecciona o material didático utilizado nas missões. O equipamento é itinerante, podendo ser levado à Santa Maria la Mayor ou a San Javier.

San Ignacio Miní: fundada por San Roque González em 1619 na região do Guayrá. Devido aos ataques dos bandeirantes a Cidade Real, desceu o rio até instalar-se pouco acima de Nuestra Señora de Loreto, na outra margem do rio Yabebiry.

Corpus Christi: fundada por San Roque González em 1622, na margem oriental do rio Paraná.

Missões do Uruguay

Duas dessas missões foram erguidas em consequência do ataque bandeirante às missões do Tapé. Apenas a de Yapeyú foi planejada com fins estratégicos.

Santo Tomé: fundada em 1632 ao sul de Encarnación, em terras da banda oriental do rio Uruguay. Em 1683, devido a constantes ataques dos bandeirantes, muda-se para a margem ocidental.

Asunción de La Cruz de Mbororé: fundada em 1630 no vale do rio Ibicuí. Com o ataque dos bandeirantes, seus habitantes migram para a outra margem do rio Uruguay.

Nuestra Señora de los Santos Reyes Magos de Yapeyú: fundada em 1627 pelo padre San Roque González nos limites entre a região dos Guaranis e dos Charruas, sendo a redução mais austral de todo o grupo. A missão tem importância estratégica como entreposto na navegação do rio Uruguay. Recebem os habitantes de La Cruz de Mbororé devido a um ataque dos bandeirantes. Em 1657, La Cruz é realocada rio acima, na margem ocidental do Uruguay. Aos poucos, a redução se especializa na criação de gado, o que permite o surgimento de várias estâncias ao longo do século XVIII, dos dois lados do rio.

Missões do Tapé

Conjunto de missões na banda oriental do rio Uruguay, na região conhecida como Tapé. Trata-se da segunda tentativa dos Jesuítas de se estabelecerem na área, uma vez que, na primeira, 18 reduções foram postas abaixo pelos bandeirantes. Os sobreviventes tiveram que se refugiar na banda ocidental do Uruguay.

San Nicolás: fundada por San Roque González em 1628, próximo ao rio Piratini. Logo em seguida, San Roque partiu para fundar as missões de Assunção de Ijuí e Todos los Santos de Caaró, onde foi atacado e morto pelo cacique Ñezú, que destruiu as duas missões e assassinou os outros dois padres que ficariam cuidando dessas missões e o cacique que os acompanhavam. Os cadáveres foram jogados na fogueira. O coração de González ficou milagrosamente intacto. O coração e o machado que o matou foram levados a Roma.

Posteriormente, a missão é atacada pelos bandeirantes e os missioneiros fugiram para o outro lado do rio Uruguay, fundando Los Apóstolos, para onde afluíram outros refugiados. Em 1687, um grupo retorna para reerguer a missão. Neste reinício, a missão enfrenta um ciclone, uma terrível chuva de granizo e um incêndio que destrói várias instalações, incluindo a igreja. Apesar dessas dificuldades, a missão prospera e chega a atingir 7 mil habitantes.

San Luiz Gonzaga: fundada em 1687 ao sul do rio Ijuí, em local onde antes havia duas reduções.

San Francisco de Borja: fundada em meados do século XVII na confluência dos rios Uruguay e Icamacuá, como extensão da missão de Santo Tomé.

San Lorenzo Mártir: fundada em 1690 ao sul do rio Ijuí com nativos vindos de Santa Maria La Mayor que descendiam das missões destruídas do Guayrá. Chega a atingir 6.400 habitantes.

San Miguel Arcángel: erguida em 1632, teve de ser abandonada com o ataque dos bandeirantes. Em 1687, é refundada por um padre tirolês, que lidera um grupo de 4 mil índios. No final do século XVII, ao atingir 6 mil missioneiros, é obrigada a se dividir, indo metade, junto com o padre tirolês, fundar a missão de San Juan Bautista.

San Miguel atinge seu auge em meados do século XVIII. Sua criação de gado é considerada a maior fonte de riqueza da região, além do excedente da produção manufatureira. Sua imponente igreja é construída entre 1735 e 1750. Torna-se centro da Guerra Guaranítica, sendo incendiada em 1756.

San Juan Bautista: erguida na virada do século XVIII por 3 mil índios vindos de San Miguel. O padre tirolês era geólogo, minerador, arquiteto, escultor, pintor e urbanista. Com suas habilidades, consegue extrair um ferro de baixa qualidade, difícil de fundir, mas que quebra o galho quando não é possível contar com as importações. Consegue com isso fabricar instrumentos e o sino do campanário da igreja, construída em 1708, que conta ainda com um relógio no campanário que, ao dar as horas, faz desfilar os 12 Apóstolos.

Santo Ángel Guardián de las Misiones: fundada em 1706 ao sul do rio Ijuí, obtém grande crescimento econômico e cultural, chegando a 8 mil índios. É totalmente destruída na Guerra Guaranítica.

Published in: on 21 de setembro de 2016 at 1:18  Deixe um comentário  

OS JESUÍTAS

Após chegaram ao sul da Terra de Santa Cruz, em fins do século XVI, a Companhia de Jesus estabeleceu sua sede em Córdoba e se espalhou por toda a região, particularmente na Ilha de Chiloé, no Gran Chaco e ao largo dos rios Paraná, Paraguay e Uruguay, buscando também se estabelecer, sem sucesso, entre os Patagões.

As mais bem sucedidas foram as missões estabelecidas no Chaco Boreal, entre os Chiquitanos e Moxos, e as da bacia do Rio da Prata, entre os Guaranis, que se transformaram em verdadeiros estados à parte. Estas últimas foram as que alcançaram maior grau de desenvolvimento econômico e militar, extrapolando seus objetivos religiosos e, por isso, atraindo a inveja e cobiça de diversas partes da colônia, ou mesmo da Metrópole e de Roma.

Por apresentarem tamanha complexidade, são estas que serão abordadas em detalhes. Porém, serão dadas pinceladas nas demais missões jesuíticas do sul do continente, cada uma vivendo uma realidade diferente da outra.

As missões da bacia do Rio da Prata apresentam três fases mais marcadas: do seu surgimento até a onda de ataques dos bandeirantes, culminando na Batalha de Mobororé; da batalha até a retomada da atividade missioneira nos anos 1680; e desta época até o tratado entre as Coroas Ibéricas, que transfere o território de Tapé, a leste do rio Uruguay, para os lusitanos. A ênfase será na estrutura das missões dessa terceira fase, mas aspectos de todas as fases estarão presentes indistintamente.

Os Jesuítas na Terra de Santa Cruz

As missões jesuíticas são um fato de grande importância na história latino-americana. Tão importante quanto controverso. No entanto, qualquer que seja a versão ou a visão que se tenha sobre os missionários da Companhia de Jesus, eles não soltavam Luz Divina, não curavam feridas com um toque de mão, tampouco faziam um anjo descer à terra. Este é, portanto, o grande diferencial entre os jesuítas da vida real e os jesuítas da Terra de Santa Cruz.

Quando um padre é capaz de realizar milagres reais e passíveis de serem vistos a olho nu e comprovados de imediato, não há muito espaço para hipocrisias, falta de fé ou descrença. Assim sendo, apesar do suplemento ser fortemente lastreado na realidade, em fatos ocorridos e documentados, nem todos esses elementos podem ser transpostos para o jogo. Quando um jesuíta se aproximar de uma aldeia indígena, ele levará muito mais do que a palavra de Deus, mas efetivamente uma parcela de seu poder. Portanto, a narrativa que se segue procura dar forma a esta realidade ficcional. Como teria sido a experiência missionária se os padres fossem imbuídos de poder divino?

Os Jesuítas e o Poder Divino

Se todo Jesuíta possuísse Poder Divino, ou todos os padres das demais ordens religiosas, a Igreja Católica reinaria soberana, pois não haveria dúvidas de que ela fala sempre em nome de Deus. Não haveria espaço, portanto, para o protestantismo e outras dissidências e tramas, tornando a parte religiosa pouco interessante para ser abordada no jogo.

Assim, nem todos os padres possuem Poder Divino, apenas aqueles que possuem fé verdadeira e seguem à risca os mandamentos da Igreja. São, de fato, homens santos. E não são muitos. Para um jogador, claro que um jesuíta com poder será a escolha natural, mas nada impede dele resolver interpretar um padre sem poder divino e investir no role-playing.

Mas a divisão entre padres com poder e sem poder pode, a princípio, parecer estranha. Mas só superficialmente. Exatamente por serem homens de extrema fé, abnegados, estes homens-santos não se interessam pela política da Igreja, questões simples do dia a dia dos colégios e das paróquias urbanas. Eles estão imbuídos do espírito da aventura, da vocação missionária, da catequese, de espalhar a palavra de Deus, de lutar contra o mal nos recônditos mais sombrios da existência.

Para alívio da Companhia de Jesus e de Roma, os jesuítas com Poder Divino estão mais interessados em se embrenhar nas matas da Terra de Santa Cruz do que em se ater a questões políticas e administrativas das dioceses. A palavra deles, claro, tem peso no mundo religioso e mesmo na sociedade, mas, graças a Deus (literalmente), a maioria deles está bem longe.

Mas por que os paroquianos aceitariam a tutela de padres sem Poder Divino? Acontece que o Poder Divino é muito mais do que aquele incorporado pelos padres santos.  O Poder Divino está, por exemplo, nas orações, nos rituais religiosos, na força da fé. Assim, um padre que esteja orando com os fiéis em uma igreja durante um terremoto pode obter a graça de evocar um anjo. Da mesma forma, ele não precisa do padre santo para obter água benta para a missa, Isso também poderá ser obtido mediante rezas e ritos específicos.

Além disso, há os objetos religiosos. A Igreja possui vários artefatos que possuem Poder Divino. Alguns são usados para um encanto específico, que qualquer padre estará apto a utilizar. Outros são repositórios de Poder Divino em estado puro. Isso exigirá um pouco mais de conhecimento do padre para, por meio de orações e ritos, obter o efeito desejado.

Dessa forma, mesmo um padre sem Poder Divino será capaz de impressionar sua paróquia e se fazer respeitar. Além do mais, no cotidiano das cidades, a atenção e a boa conversa provocam muito mais efeito do que uma Luz Divina.

O mais importante é ter em mente que um padre com Poder Divino é um homem dedicado às escrituras, que acredita que qualquer bruxo está a serviço do demônio e que as outras religiões, ou seguem a Deus de forma equivocada ou seguem a demônios ou falsos deuses. Com esta forte crença, um padre santo será capaz de chicotear um feiticeiro ou alguém que descumpriu as leis das missões, ou fazer parte da Santa Inquisição, convicto de estar fazendo o bem e agindo conforme a vontade de Deus.

Para interpretar e entender as motivações desses padres, o principal é ter em mente que tudo gira em torno da fé e na obediência aos cânones da Igreja, que diz respeito não só à Bíblia, mas também às ordens de seus superiores. Os padres devem seguir escrupulosamente as regras editadas pela Igreja para obter a sintonia com Deus. A cada quinze dias, uma manhã inteira deverá ser dedicada à missa e à prece. A perfeição só é obtida no isolamento.

Entretanto, pode ocorrer do padre suspeitar que determinada ordem esteja em desacordo com os desígnios de Deus e desobedecê-la sem que tenha sua fé abalada. É tudo uma questão de interpretação.

Por outro lado, quando um padre começa a agir em desacordo com sua fé ou se vir tomado por dúvidas, seu Poder Divino começa a falhar. De início, seus encantos ficam mais difíceis de serem realizados. Depois, consomem mais de seu poder para que o mesmo efeito seja alcançado. Por fim, ele desaparece. Não necessariamente por completo, desde que ele retome o caminho da fé.

A Província Jesuítica do Paraguay

Os Jesuítas chegam a Córdoba, Província de Tucumán, em 1585 e lá estabelecem a sede do que vem a ser a Província Jesuítica do Paraguay. Em 1625 é criada a Vice Província Jesuítica de Nova Extremadura, com jurisdição sobre Chiloé e Cuyo, responsável pelas missões estabelecidas em Nahuel Huapi, na Patagônia. Em 1683, torna-se independente de Córdoba.

Na prática, os Jesuítas estão vinculados diretamente ao Rei, a quem pedem tudo o que necessitam. Eventualmente, podem se dirigir ao Vice-Rei ou ao governador da Província do Guayrá.

A hierarquia é composta pelo Padre Provincial, sediado em Córdoba; um Padre Superior, auxiliado por quatro consultores e um monitor, que fica sediado em uma das missões de sua região; e um Vice-Superior, também com seus auxiliares. O dia a dia das missões é tocado por dois padres: o Cura e seu Companheiro.

O Padre Provincial é designado pela Companhia de Jesus para cuidas de todas as missões de sua região. A ele, os demais jesuítas da colônia devem total obediência. Tem a seu dispor um conselho consultor, secretários e procuradores nas cidades de Santa Fé, Assunção e Santa Maria de los Buenos Aires.

O Provincial é obrigado a visitar as missões pelo menos uma vez durante seu mandato de três anos. Inspeciona cada detalhe da vida da missão, da econômica à religiosa. Em cada um dos distritos preside uma assembleia com todos os missionários, onde são discutidas as regras, expostas as dúvidas e os problemas de cada missão. Ao voltar à sede, elabora uma longa carta circular chamada Visita, onde anota suas observações e instruções. Ele redige anualmente as Cartas Anuais da Província, que remete a Roma.

Nas missões, a carta do Provincial é transcrita para o Livro de Ordens. São essas instruções que garantem a uniformidade das reduções. Qualquer inovação é proibida sem a autorização do Provincial ou do Superior. Os Provinciais tendem a ser severos demais em relação a qualquer falha, sendo mais exigente do que qualquer governador ou administrador secular. Regulamentam as compras suntuosas dos padres, ainda que feitas para a atividade religiosa, e estabelecem as regras de trocas de mercadorias entre as missões. O Provincial também atua como árbitro de conflitos e estabelece um sistema de ajuda mútua em caso de calamidades e outras emergências.

O Padre Superior, além de cuidar do grupo de missões a ele designado, também tem de cuidar de sua redução. No caso das missões dos Guaranis, o padre superior fica em Candelária, mas sem exercer a função de Cura. É ele quem recebe os jesuítas recém-chegados em suas respectivas reduções. Nas primeiras décadas, também está presente no ato de fundação, seguindo depois viagem, deixando na redução os dois padres que dela cuidarão.

Assim como o Provincial, o Superior é auxiliado por consultores, cuja opinião é obrigado a pedir em todos os casos importantes. A cada seis meses, ou pelo menos anualmente, o superior inspeciona os Curas, sua vida e sua gestão.

Toda fundação de aldeia missionária precisa de autorização prévia das autoridades coloniais. Os índios preservam a propriedade das terras ancestrais, mesmo quando a redução necessita mudar de local por algum motivo. O deslocamento deve ser autorizado pela Real Audiência ou pelo Vice-Rei. Os jesuítas precisam de uma dose de carisma para tirar o índio de suas terras e fazê-lo superar as rivalidades tribais.

O Superior proíbe retirar qualquer coisa das reduções sem autorização, seja para socorrer a província ou o colégio da cidade. Não é incomum que Superiores, reitores, procuradores e administradores de colégio recebam presentes exorbitantes dos Curas. Algumas vezes, estes bens são usados para presentear autoridades civis. Alguns Provinciais participam desses procedimentos, fazendo recair sobre as reduções uma parte das despesas da província ou desfavorecendo-os nas transações comerciais.

As missões são administradas por apenas dois padres, que pode comandar centenas ou milhares de índios. Isso não seria possível sem um bom poder de convencimento ou autoridade moral. Apenas excepcionalmente são três, podendo, às vezes, ficar só um. Um fica a cargo da vida espiritual, o Cura; o outro cuida da vida cotidiana, como trabalho e instrução, o Companheiro. É preciso que o Cura e o companheiro tenham um só coração e uma só alma. O missionário se confessa com o companheiro, cuida da sua saúde física e espiritual. Sempre que possível, os missionários andam em dupla. Um é responsável por ajudar o outro a se manter no bom caminho, mas o Cura é superior hierarquicamente a seu companheiro. Se houver algum problema entre eles, apela-se ao Superior ou ao Provincial.

A maioria dos padres foge dessas terras hostis e ingratas, onde os colonos são pobres demais e os pagãos imprevisíveis. Como na Metrópole não tem padre suficiente, apela-se para jesuítas estrangeiros, ou mesmo criollos. Os jesuítas da Terra de Santa Cruz são de diversas origens: franceses, britânicos, germânicos, holandeses, castelhanos, lusitanos etc. Também têm uma gama diversa de formação profissional além da eclesiástica. Podem ser militares, arquitetos, médicos, astrônomos, botânicos, historiadores, filósofos, geólogos, pintores, ferreiros etc. Isso não só provoca admiração nos índios como traz muita variedade à atividade e produção missioneira.

Mais de uma centena de jesuítas morreram em naufrágios atravessando o Atlântico, fora aqueles que foram vítimas de corsários e epidemias. Poucos são os que ficam nos colégios ou em cargos de administração de Santa Maria de los Buenos Aires, seu porto de chegada. Os que vão a Santa Fé ou a Córdoba atravessam o território de tribos nômades e estepes desoladas, que só podem ser percorridas em caravanas. O comboio de balsas até a missão de Yapeyú, a mais próxima da cidade portenha, pode levar até um mês de viagem.

Ciente das dificuldades da empreitada e do senso de abnegação e sacrifício dos missionários, a Companhia de Jesus entrega aos padres enviados para assumir uma redução uma relíquia, um artefato religioso ou uma imagem sagrada com Poder Divino.

Entre os Jesuítas há dois tipos de atitudes: aqueles que seguem à risca o determinado pela Companhia e pelo Padre Provincial; e aqueles que colocam a defesa de seu rebanho acima de todas as coisas.

Nenhum jesuíta será admitido na ordenação se não demonstrar profundo conhecimento das línguas indígenas, independentemente de poder compensar sua deficiência com o encanto Comunicação. A competência linguística dos missionários é alvo de ataque das outras ordens, que os acusam de introduzir no catecismo termos indígenas e, com isso, prostituir a fé católica.

A Viagem

Os novos jesuítas, quando chegam a Santa Maria de los Buenos Aires, são recebidos no colégio com pompa por escravos negros. Esses escravos também trabalham nos campos da Igreja. Quando chegam às outras cidades e vilas, são recebidos com festa pelas ruas, como verdadeiros salvadores. Os padres se perguntam se é possível servir simultaneamente a Cristo, ao rei e aos colonos.

A viagem pelo rio é feita em balsa, uma armação de troncos reunidos e assentados sobre duas pirogas longas, impulsionados por 20 índios com auxílio de varas. Sobre essa plataforma é construído um abrigo rudimentar, que não impede a entrada de mosquitos.

Nos rios Uruguay, Paraná e seus afluentes, surgem a floresta tropical, as chuvas torrenciais, os pântanos, o calor úmido, os insetos e as enchentes. O calor é insuportável e os naufrágios, frequentes, com a balsa colidindo com um tronco à deriva.

Os jesuítas levam na viagem uma enorme cruz de madeira, um breviário, um altar portátil, um fuzil, talvez dois carneirinhos, uma bolsa de erva, 12 medidas de tabaco, 2 kg de sabão, meio quilo de sal, 6 pacotes de agulha de costura, meio litro de vinho, um caldeirão de ferro, uma panela, uma pequena sopeira, um prato de estanho, ornamentos sacerdotais e objetos de culto, além de ninharias e instrumentos de ferro para presentear os índios. Eventualmente, uma horda de Charruas (ou de outra tribo) pode se aproximar para trocar objetos de ferro por víveres. Se contrariados em seu intento, podem matar os viajantes.

Os índios são necessários não só para dirigir as embarcações, mas também para carregar as bagagens, abrir caminho pela floresta e defender os padres contra os animais ou mesmo contra índios hostis. Podem contar ainda com um colono que conhece a língua e os costumes dos índios. Raramente, para defesa, levam alguns soldados, particularmente quando a escolta é imposta pelas autoridades provinciais.

Geralmente, os índios que acompanham os padres até as missões mais longínquas são jovens pertencentes aos núcleos missioneiros urbanos, criados na fé cristã desde criança. Podem ser órfãos ou filhos de índios que trabalham nas encomiendas.

Os índios acompanhantes caçam macacos, tapires, veados ou pássaros. Carregam uma provisão de carne salgada e farinha de mandioca ou de milho, podendo se alimentar de raízes, folhas, mel, ovo de ema e cogumelos. Ao chegarem nas aldeias, servem de exemplo e propaganda da religião cristã.

A recepção nas missões também é com festa, onde são recebidos pelo Padre Superior e pelo Cura da redução. Nas missões guaraníticas, há exibições das milícias indígenas, seguidas dos cânticos religiosos.

Missões Castelhanas x Missões Lusitanas

Os jesuítas castelhanos utilizam as missões como forma de ocupação territorial, impondo aos índios trabalho agrícola e buscando segregar as comunidades do resto da colônia. As missões castelhanas formam, assim, um mundo a parte.

Já os jesuítas lusitanos incentivam a mestiçagem, procurando integrar o índio à vida da colônia, evitando assim a poligamia e a promiscuidade.

As missões lusitanas são atreladas às cidades, servindo para a defesa da vila, obtenção de serviços e evangelização. Nas missões castelhanas, a evangelização é o objetivo principal, embora nas missões do Chaco elas acabem também servindo aos interesses coloniais. As atividades econômicas se desenvolvem a partir da necessidade de sustento e a função militar a partir dos ataques dos bandeirantes.

Os Castelhanos são extremamente rigorosos no combate à feitiçaria indígena, não permitindo a manifestação de nenhum aspecto da religião nativa. Punem exemplarmente aqueles que insistem em tais práticas. Já os padres lusitanos são acusados de fazerem vista grossa à feitiçaria indígena, não contrariando sua prática.

Enquanto o trabalho indígena em terras lusitanas tornou-se um complemento à escravidão negra, particularmente em regiões onde eles são caros e escassos, nas colônias castelhanas ocorre o contrário. Os escravos negros são introduzidos à medida que escasseia a mão de obra indígena nas encomiendas.

Os índios que conhecem as duas realidades veem as missões como proteção contra os bandeirantes. Aqueles propensos a se conformar com o domínio dos colonizadores consideram as missões um destino preferível ao trabalho muitas vezes cruel e indigno nas encomiendas.

Ainda que tenham de abraçar um novo Deus e seguir algumas condutas estranhas a sua cultura, a convivência entre a tribo, a liderança dos caciques e muitas das atividades cotidianas mantêm um aspecto familiar. Além disso, inovações artísticas, particularmente a música, bem como a criação de gado e o uso de cavalos, são muito bem recebidas.

Na colônia castelhana, os índios têm o status de homens livres. Na colônia lusitana, os índios não são considerados súditos do Império, e os óbices à escravização indígena não são muito observados.

Entre a encomienda, a escravidão e uma guerra infrutífera, as missões acabam se tornando atraentes. Mas, para isso, os padres devem fazê-la soar como tal.

Published in: on 21 de setembro de 2016 at 0:16  Deixe um comentário