OS JESUÍTAS

Após chegaram ao sul da Terra de Santa Cruz, em fins do século XVI, a Companhia de Jesus estabeleceu sua sede em Córdoba e se espalhou por toda a região, particularmente na Ilha de Chiloé, no Gran Chaco e ao largo dos rios Paraná, Paraguay e Uruguay, buscando também se estabelecer, sem sucesso, entre os Patagões.

As mais bem sucedidas foram as missões estabelecidas no Chaco Boreal, entre os Chiquitanos e Moxos, e as da bacia do Rio da Prata, entre os Guaranis, que se transformaram em verdadeiros estados à parte. Estas últimas foram as que alcançaram maior grau de desenvolvimento econômico e militar, extrapolando seus objetivos religiosos e, por isso, atraindo a inveja e cobiça de diversas partes da colônia, ou mesmo da Metrópole e de Roma.

Por apresentarem tamanha complexidade, são estas que serão abordadas em detalhes. Porém, serão dadas pinceladas nas demais missões jesuíticas do sul do continente, cada uma vivendo uma realidade diferente da outra.

As missões da bacia do Rio da Prata apresentam três fases mais marcadas: do seu surgimento até a onda de ataques dos bandeirantes, culminando na Batalha de Mobororé; da batalha até a retomada da atividade missioneira nos anos 1680; e desta época até o tratado entre as Coroas Ibéricas, que transfere o território de Tapé, a leste do rio Uruguay, para os lusitanos. A ênfase será na estrutura das missões dessa terceira fase, mas aspectos de todas as fases estarão presentes indistintamente.

Os Jesuítas na Terra de Santa Cruz

As missões jesuíticas são um fato de grande importância na história latino-americana. Tão importante quanto controverso. No entanto, qualquer que seja a versão ou a visão que se tenha sobre os missionários da Companhia de Jesus, eles não soltavam Luz Divina, não curavam feridas com um toque de mão, tampouco faziam um anjo descer à terra. Este é, portanto, o grande diferencial entre os jesuítas da vida real e os jesuítas da Terra de Santa Cruz.

Quando um padre é capaz de realizar milagres reais e passíveis de serem vistos a olho nu e comprovados de imediato, não há muito espaço para hipocrisias, falta de fé ou descrença. Assim sendo, apesar do suplemento ser fortemente lastreado na realidade, em fatos ocorridos e documentados, nem todos esses elementos podem ser transpostos para o jogo. Quando um jesuíta se aproximar de uma aldeia indígena, ele levará muito mais do que a palavra de Deus, mas efetivamente uma parcela de seu poder. Portanto, a narrativa que se segue procura dar forma a esta realidade ficcional. Como teria sido a experiência missionária se os padres fossem imbuídos de poder divino?

Os Jesuítas e o Poder Divino

Se todo Jesuíta possuísse Poder Divino, ou todos os padres das demais ordens religiosas, a Igreja Católica reinaria soberana, pois não haveria dúvidas de que ela fala sempre em nome de Deus. Não haveria espaço, portanto, para o protestantismo e outras dissidências e tramas, tornando a parte religiosa pouco interessante para ser abordada no jogo.

Assim, nem todos os padres possuem Poder Divino, apenas aqueles que possuem fé verdadeira e seguem à risca os mandamentos da Igreja. São, de fato, homens santos. E não são muitos. Para um jogador, claro que um jesuíta com poder será a escolha natural, mas nada impede dele resolver interpretar um padre sem poder divino e investir no role-playing.

Mas a divisão entre padres com poder e sem poder pode, a princípio, parecer estranha. Mas só superficialmente. Exatamente por serem homens de extrema fé, abnegados, estes homens-santos não se interessam pela política da Igreja, questões simples do dia a dia dos colégios e das paróquias urbanas. Eles estão imbuídos do espírito da aventura, da vocação missionária, da catequese, de espalhar a palavra de Deus, de lutar contra o mal nos recônditos mais sombrios da existência.

Para alívio da Companhia de Jesus e de Roma, os jesuítas com Poder Divino estão mais interessados em se embrenhar nas matas da Terra de Santa Cruz do que em se ater a questões políticas e administrativas das dioceses. A palavra deles, claro, tem peso no mundo religioso e mesmo na sociedade, mas, graças a Deus (literalmente), a maioria deles está bem longe.

Mas por que os paroquianos aceitariam a tutela de padres sem Poder Divino? Acontece que o Poder Divino é muito mais do que aquele incorporado pelos padres santos.  O Poder Divino está, por exemplo, nas orações, nos rituais religiosos, na força da fé. Assim, um padre que esteja orando com os fiéis em uma igreja durante um terremoto pode obter a graça de evocar um anjo. Da mesma forma, ele não precisa do padre santo para obter água benta para a missa, Isso também poderá ser obtido mediante rezas e ritos específicos.

Além disso, há os objetos religiosos. A Igreja possui vários artefatos que possuem Poder Divino. Alguns são usados para um encanto específico, que qualquer padre estará apto a utilizar. Outros são repositórios de Poder Divino em estado puro. Isso exigirá um pouco mais de conhecimento do padre para, por meio de orações e ritos, obter o efeito desejado.

Dessa forma, mesmo um padre sem Poder Divino será capaz de impressionar sua paróquia e se fazer respeitar. Além do mais, no cotidiano das cidades, a atenção e a boa conversa provocam muito mais efeito do que uma Luz Divina.

O mais importante é ter em mente que um padre com Poder Divino é um homem dedicado às escrituras, que acredita que qualquer bruxo está a serviço do demônio e que as outras religiões, ou seguem a Deus de forma equivocada ou seguem a demônios ou falsos deuses. Com esta forte crença, um padre santo será capaz de chicotear um feiticeiro ou alguém que descumpriu as leis das missões, ou fazer parte da Santa Inquisição, convicto de estar fazendo o bem e agindo conforme a vontade de Deus.

Para interpretar e entender as motivações desses padres, o principal é ter em mente que tudo gira em torno da fé e na obediência aos cânones da Igreja, que diz respeito não só à Bíblia, mas também às ordens de seus superiores. Os padres devem seguir escrupulosamente as regras editadas pela Igreja para obter a sintonia com Deus. A cada quinze dias, uma manhã inteira deverá ser dedicada à missa e à prece. A perfeição só é obtida no isolamento.

Entretanto, pode ocorrer do padre suspeitar que determinada ordem esteja em desacordo com os desígnios de Deus e desobedecê-la sem que tenha sua fé abalada. É tudo uma questão de interpretação.

Por outro lado, quando um padre começa a agir em desacordo com sua fé ou se vir tomado por dúvidas, seu Poder Divino começa a falhar. De início, seus encantos ficam mais difíceis de serem realizados. Depois, consomem mais de seu poder para que o mesmo efeito seja alcançado. Por fim, ele desaparece. Não necessariamente por completo, desde que ele retome o caminho da fé.

A Província Jesuítica do Paraguay

Os Jesuítas chegam a Córdoba, Província de Tucumán, em 1585 e lá estabelecem a sede do que vem a ser a Província Jesuítica do Paraguay. Em 1625 é criada a Vice Província Jesuítica de Nova Extremadura, com jurisdição sobre Chiloé e Cuyo, responsável pelas missões estabelecidas em Nahuel Huapi, na Patagônia. Em 1683, torna-se independente de Córdoba.

Na prática, os Jesuítas estão vinculados diretamente ao Rei, a quem pedem tudo o que necessitam. Eventualmente, podem se dirigir ao Vice-Rei ou ao governador da Província do Guayrá.

A hierarquia é composta pelo Padre Provincial, sediado em Córdoba; um Padre Superior, auxiliado por quatro consultores e um monitor, que fica sediado em uma das missões de sua região; e um Vice-Superior, também com seus auxiliares. O dia a dia das missões é tocado por dois padres: o Cura e seu Companheiro.

O Padre Provincial é designado pela Companhia de Jesus para cuidas de todas as missões de sua região. A ele, os demais jesuítas da colônia devem total obediência. Tem a seu dispor um conselho consultor, secretários e procuradores nas cidades de Santa Fé, Assunção e Santa Maria de los Buenos Aires.

O Provincial é obrigado a visitar as missões pelo menos uma vez durante seu mandato de três anos. Inspeciona cada detalhe da vida da missão, da econômica à religiosa. Em cada um dos distritos preside uma assembleia com todos os missionários, onde são discutidas as regras, expostas as dúvidas e os problemas de cada missão. Ao voltar à sede, elabora uma longa carta circular chamada Visita, onde anota suas observações e instruções. Ele redige anualmente as Cartas Anuais da Província, que remete a Roma.

Nas missões, a carta do Provincial é transcrita para o Livro de Ordens. São essas instruções que garantem a uniformidade das reduções. Qualquer inovação é proibida sem a autorização do Provincial ou do Superior. Os Provinciais tendem a ser severos demais em relação a qualquer falha, sendo mais exigente do que qualquer governador ou administrador secular. Regulamentam as compras suntuosas dos padres, ainda que feitas para a atividade religiosa, e estabelecem as regras de trocas de mercadorias entre as missões. O Provincial também atua como árbitro de conflitos e estabelece um sistema de ajuda mútua em caso de calamidades e outras emergências.

O Padre Superior, além de cuidar do grupo de missões a ele designado, também tem de cuidar de sua redução. No caso das missões dos Guaranis, o padre superior fica em Candelária, mas sem exercer a função de Cura. É ele quem recebe os jesuítas recém-chegados em suas respectivas reduções. Nas primeiras décadas, também está presente no ato de fundação, seguindo depois viagem, deixando na redução os dois padres que dela cuidarão.

Assim como o Provincial, o Superior é auxiliado por consultores, cuja opinião é obrigado a pedir em todos os casos importantes. A cada seis meses, ou pelo menos anualmente, o superior inspeciona os Curas, sua vida e sua gestão.

Toda fundação de aldeia missionária precisa de autorização prévia das autoridades coloniais. Os índios preservam a propriedade das terras ancestrais, mesmo quando a redução necessita mudar de local por algum motivo. O deslocamento deve ser autorizado pela Real Audiência ou pelo Vice-Rei. Os jesuítas precisam de uma dose de carisma para tirar o índio de suas terras e fazê-lo superar as rivalidades tribais.

O Superior proíbe retirar qualquer coisa das reduções sem autorização, seja para socorrer a província ou o colégio da cidade. Não é incomum que Superiores, reitores, procuradores e administradores de colégio recebam presentes exorbitantes dos Curas. Algumas vezes, estes bens são usados para presentear autoridades civis. Alguns Provinciais participam desses procedimentos, fazendo recair sobre as reduções uma parte das despesas da província ou desfavorecendo-os nas transações comerciais.

As missões são administradas por apenas dois padres, que pode comandar centenas ou milhares de índios. Isso não seria possível sem um bom poder de convencimento ou autoridade moral. Apenas excepcionalmente são três, podendo, às vezes, ficar só um. Um fica a cargo da vida espiritual, o Cura; o outro cuida da vida cotidiana, como trabalho e instrução, o Companheiro. É preciso que o Cura e o companheiro tenham um só coração e uma só alma. O missionário se confessa com o companheiro, cuida da sua saúde física e espiritual. Sempre que possível, os missionários andam em dupla. Um é responsável por ajudar o outro a se manter no bom caminho, mas o Cura é superior hierarquicamente a seu companheiro. Se houver algum problema entre eles, apela-se ao Superior ou ao Provincial.

A maioria dos padres foge dessas terras hostis e ingratas, onde os colonos são pobres demais e os pagãos imprevisíveis. Como na Metrópole não tem padre suficiente, apela-se para jesuítas estrangeiros, ou mesmo criollos. Os jesuítas da Terra de Santa Cruz são de diversas origens: franceses, britânicos, germânicos, holandeses, castelhanos, lusitanos etc. Também têm uma gama diversa de formação profissional além da eclesiástica. Podem ser militares, arquitetos, médicos, astrônomos, botânicos, historiadores, filósofos, geólogos, pintores, ferreiros etc. Isso não só provoca admiração nos índios como traz muita variedade à atividade e produção missioneira.

Mais de uma centena de jesuítas morreram em naufrágios atravessando o Atlântico, fora aqueles que foram vítimas de corsários e epidemias. Poucos são os que ficam nos colégios ou em cargos de administração de Santa Maria de los Buenos Aires, seu porto de chegada. Os que vão a Santa Fé ou a Córdoba atravessam o território de tribos nômades e estepes desoladas, que só podem ser percorridas em caravanas. O comboio de balsas até a missão de Yapeyú, a mais próxima da cidade portenha, pode levar até um mês de viagem.

Ciente das dificuldades da empreitada e do senso de abnegação e sacrifício dos missionários, a Companhia de Jesus entrega aos padres enviados para assumir uma redução uma relíquia, um artefato religioso ou uma imagem sagrada com Poder Divino.

Entre os Jesuítas há dois tipos de atitudes: aqueles que seguem à risca o determinado pela Companhia e pelo Padre Provincial; e aqueles que colocam a defesa de seu rebanho acima de todas as coisas.

Nenhum jesuíta será admitido na ordenação se não demonstrar profundo conhecimento das línguas indígenas, independentemente de poder compensar sua deficiência com o encanto Comunicação. A competência linguística dos missionários é alvo de ataque das outras ordens, que os acusam de introduzir no catecismo termos indígenas e, com isso, prostituir a fé católica.

A Viagem

Os novos jesuítas, quando chegam a Santa Maria de los Buenos Aires, são recebidos no colégio com pompa por escravos negros. Esses escravos também trabalham nos campos da Igreja. Quando chegam às outras cidades e vilas, são recebidos com festa pelas ruas, como verdadeiros salvadores. Os padres se perguntam se é possível servir simultaneamente a Cristo, ao rei e aos colonos.

A viagem pelo rio é feita em balsa, uma armação de troncos reunidos e assentados sobre duas pirogas longas, impulsionados por 20 índios com auxílio de varas. Sobre essa plataforma é construído um abrigo rudimentar, que não impede a entrada de mosquitos.

Nos rios Uruguay, Paraná e seus afluentes, surgem a floresta tropical, as chuvas torrenciais, os pântanos, o calor úmido, os insetos e as enchentes. O calor é insuportável e os naufrágios, frequentes, com a balsa colidindo com um tronco à deriva.

Os jesuítas levam na viagem uma enorme cruz de madeira, um breviário, um altar portátil, um fuzil, talvez dois carneirinhos, uma bolsa de erva, 12 medidas de tabaco, 2 kg de sabão, meio quilo de sal, 6 pacotes de agulha de costura, meio litro de vinho, um caldeirão de ferro, uma panela, uma pequena sopeira, um prato de estanho, ornamentos sacerdotais e objetos de culto, além de ninharias e instrumentos de ferro para presentear os índios. Eventualmente, uma horda de Charruas (ou de outra tribo) pode se aproximar para trocar objetos de ferro por víveres. Se contrariados em seu intento, podem matar os viajantes.

Os índios são necessários não só para dirigir as embarcações, mas também para carregar as bagagens, abrir caminho pela floresta e defender os padres contra os animais ou mesmo contra índios hostis. Podem contar ainda com um colono que conhece a língua e os costumes dos índios. Raramente, para defesa, levam alguns soldados, particularmente quando a escolta é imposta pelas autoridades provinciais.

Geralmente, os índios que acompanham os padres até as missões mais longínquas são jovens pertencentes aos núcleos missioneiros urbanos, criados na fé cristã desde criança. Podem ser órfãos ou filhos de índios que trabalham nas encomiendas.

Os índios acompanhantes caçam macacos, tapires, veados ou pássaros. Carregam uma provisão de carne salgada e farinha de mandioca ou de milho, podendo se alimentar de raízes, folhas, mel, ovo de ema e cogumelos. Ao chegarem nas aldeias, servem de exemplo e propaganda da religião cristã.

A recepção nas missões também é com festa, onde são recebidos pelo Padre Superior e pelo Cura da redução. Nas missões guaraníticas, há exibições das milícias indígenas, seguidas dos cânticos religiosos.

Missões Castelhanas x Missões Lusitanas

Os jesuítas castelhanos utilizam as missões como forma de ocupação territorial, impondo aos índios trabalho agrícola e buscando segregar as comunidades do resto da colônia. As missões castelhanas formam, assim, um mundo a parte.

Já os jesuítas lusitanos incentivam a mestiçagem, procurando integrar o índio à vida da colônia, evitando assim a poligamia e a promiscuidade.

As missões lusitanas são atreladas às cidades, servindo para a defesa da vila, obtenção de serviços e evangelização. Nas missões castelhanas, a evangelização é o objetivo principal, embora nas missões do Chaco elas acabem também servindo aos interesses coloniais. As atividades econômicas se desenvolvem a partir da necessidade de sustento e a função militar a partir dos ataques dos bandeirantes.

Os Castelhanos são extremamente rigorosos no combate à feitiçaria indígena, não permitindo a manifestação de nenhum aspecto da religião nativa. Punem exemplarmente aqueles que insistem em tais práticas. Já os padres lusitanos são acusados de fazerem vista grossa à feitiçaria indígena, não contrariando sua prática.

Enquanto o trabalho indígena em terras lusitanas tornou-se um complemento à escravidão negra, particularmente em regiões onde eles são caros e escassos, nas colônias castelhanas ocorre o contrário. Os escravos negros são introduzidos à medida que escasseia a mão de obra indígena nas encomiendas.

Os índios que conhecem as duas realidades veem as missões como proteção contra os bandeirantes. Aqueles propensos a se conformar com o domínio dos colonizadores consideram as missões um destino preferível ao trabalho muitas vezes cruel e indigno nas encomiendas.

Ainda que tenham de abraçar um novo Deus e seguir algumas condutas estranhas a sua cultura, a convivência entre a tribo, a liderança dos caciques e muitas das atividades cotidianas mantêm um aspecto familiar. Além disso, inovações artísticas, particularmente a música, bem como a criação de gado e o uso de cavalos, são muito bem recebidas.

Na colônia castelhana, os índios têm o status de homens livres. Na colônia lusitana, os índios não são considerados súditos do Império, e os óbices à escravização indígena não são muito observados.

Entre a encomienda, a escravidão e uma guerra infrutífera, as missões acabam se tornando atraentes. Mas, para isso, os padres devem fazê-la soar como tal.

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Published in: on 21 de setembro de 2016 at 0:16  Deixe um comentário