AS MISSÕES GUARANÍTICAS

Em tese, as missões guaraníticas fazem parte da Província do Guayrá, mas na prática elas formam um estado independente. No início do século XVIII, essa autonomia informal se torna oficial.

As missões guaraníticas, estabelecidas entre as províncias do Rio da Prata e do Guayrá, estão divididas em quatro regiões. Inicialmente, elas eram divididas entre três Superiores. À medida que cada um ia morrendo assassinado pelos índios, acabou ficando apenas um.

Antes, porém, havia uma quinta região, as missões do Guayrá, que foram destruídas pelos Bandeirantes.

Missões do Guayrá

As missões no Guayrá duraram de 1610 a 1632, quando foram aniquiladas pelas bandeiras vindas da Capitania de São Vicente. Os próprios castelhanos de Cidade Real e Vila Rica trocavam índios por produtos vindos de Piratininga e São Vicente, transformando uma antiga trilha indígena em rota comercial. Na época, o ataque de Holandeses às colônias da Coroa lusitana havia diminuído a oferta de escravos negros. O ritmo de troca espontânea deixou de satisfazer às necessidades dos bandeirantes, que passaram a pegá-los diretamente na fonte. Os bandeirantes retornaram a Piratiniga com cerca de 18 mil índios aprisionados.

As duas missões sobreviventes do Guairá são evacuadas e reconstruídas na região entre os rios Paraná e Uruguay. O êxodo de suas terras, carregando o que podiam das missões, incluiu naufrágio de embarcações, caminhada penosa com ataque de cobras e onças, fome, epidemia, queda d’água, choque com os colonos castelhanos que tentam impedir a migração, e, por fim, os desafios de um novo assentamento. Das 10 a 12 mil pessoas que deixaram o Guayrá, apenas 5 mil sobreviveram à provação. Por muitos anos a vida desses índios é dominada pelo medo dos bandeirantes.

Missões do Itatín

Itatín é o nome da região ao sul de Assunção, entre os rios Paraguay e Paraná. As primeiras missões, próximas ao rio Paraná, sofreram com a mesma onda de ataque bandeirante que as missões do Guayrá, sendo obrigadas a recuar para o oeste. Sofreram também com ataques dos Guaicurus.

San Ignacio Guazú: fundada em dezembro de 1609 a 225 km ao sul de Assunção. Considerada a capital do barroco hispano-guarani.

Nuestra Señora de la Encarnación de Itapúa: fundada a sudeste de Assunção em 1615 por San Roque González, santificado após a sua morte nas mãos dos Guaranis. Inicialmente erguida na margem oriental do rio Paraná, teve de se mudar pra margem ocidental devido à ameaça dos bandeirantes.

San Cosme y Damian: fundada em 1632 na margem ocidental do rio Paraná. Converteu-se, no início do século XVIII, no principal centro astronômico da Terra de Santa Cruz, com telescópios, quadrantes e um relógio de sol, todos construídos pelos índios, sob a orientação de um jesuíta astrônomo.

Santa Maria de Fé: fundada em 1647, é a mais próxima de Assunção e tem a primeira imprensa da Terra de Santa Cruz.

Santa Rosa de Lima: erguida em 1668 numa colina de grande beleza natural, descoberta por um padre da missão de Santa Maria de Fé.

Santiago Apóstol: fundada em 1669 a 270 km ao sul de Assunção, chegando a ter 3.100 habitantes.

Jesús de Tavarangüé: fundada em 1685 às margens do rio Monday. Foi obrigada a mudar algumas vezes devido ao ataque de bandeirantes. Chega a ter 3 mil índios.

Santísima Trinidad del Paraná: fundada em 1706, vinte anos depois já conta com 3 mil índios. Possui o maior templo entre as 30 missões guaraníticas, com riqueza arquitetônica e artística. As casas são melhores do que as das cidades da Província do Guayrá.

Missões do Paraná

Conjunto de missões estabelecidas entre os rios Paraná e Uruguay, até a laguna de Iberia. A região recebe forte concentração missioneira após a destruição das missões e das cidades do Guayrá, entre 1627 e 1632.

Nuestra Señora de la Inmaculada Concepción del Ibitiracuá: fundada por San Roque Gonzalez em 1619, próximo ao rio Uruguay, do lado ocidental.

Los Santos Apóstoles San Pedro y San Pablo: fundada em 1632 e refundada em 1652, entre os rios Uruguay e Paraná.

Santa María la Mayor: fundada em 1626 entre os rios Uruguay e Paraná.

San Javier: fundada em 1629 na margem ocidental do rio Uruguay, com bastante sucesso.

Santos Mártires del Japón: fundada em 1639 entre os rios Uruguay e Paraná.

San Carlos: fundada em 1631 entre os rios Uruguay e Paraná, localizada no ponto mais alto da região, a 200 metros de altitude.

San José de Itacuá: fundada em 1633 entre os rios Uruguay e Paraná, perto da missão San Carlos. Enfrentou problemas com os bandeirantes até a batalha de Mbororé, em 1640.

Candelária: erguida na margem oriental do rio Paraná, sede do Padre Superior.

Nuestra Señora de Santa Ana: fundada em 1633, subindo o rio Paraná, próximo a Candelária.

Nuestra Señora de Loreto: fundada em 1610 na margem esquerda do rio Yabebiry, quase na foz com o rio Paraná. Abriga uma das três imprensas que confecciona o material didático utilizado nas missões. O equipamento é itinerante, podendo ser levado à Santa Maria la Mayor ou a San Javier.

San Ignacio Miní: fundada por San Roque González em 1619 na região do Guayrá. Devido aos ataques dos bandeirantes a Cidade Real, desceu o rio até instalar-se pouco acima de Nuestra Señora de Loreto, na outra margem do rio Yabebiry.

Corpus Christi: fundada por San Roque González em 1622, na margem oriental do rio Paraná.

Missões do Uruguay

Duas dessas missões foram erguidas em consequência do ataque bandeirante às missões do Tapé. Apenas a de Yapeyú foi planejada com fins estratégicos.

Santo Tomé: fundada em 1632 ao sul de Encarnación, em terras da banda oriental do rio Uruguay. Em 1683, devido a constantes ataques dos bandeirantes, muda-se para a margem ocidental.

Asunción de La Cruz de Mbororé: fundada em 1630 no vale do rio Ibicuí. Com o ataque dos bandeirantes, seus habitantes migram para a outra margem do rio Uruguay.

Nuestra Señora de los Santos Reyes Magos de Yapeyú: fundada em 1627 pelo padre San Roque González nos limites entre a região dos Guaranis e dos Charruas, sendo a redução mais austral de todo o grupo. A missão tem importância estratégica como entreposto na navegação do rio Uruguay. Recebem os habitantes de La Cruz de Mbororé devido a um ataque dos bandeirantes. Em 1657, La Cruz é realocada rio acima, na margem ocidental do Uruguay. Aos poucos, a redução se especializa na criação de gado, o que permite o surgimento de várias estâncias ao longo do século XVIII, dos dois lados do rio.

Missões do Tapé

Conjunto de missões na banda oriental do rio Uruguay, na região conhecida como Tapé. Trata-se da segunda tentativa dos Jesuítas de se estabelecerem na área, uma vez que, na primeira, 18 reduções foram postas abaixo pelos bandeirantes. Os sobreviventes tiveram que se refugiar na banda ocidental do Uruguay.

San Nicolás: fundada por San Roque González em 1628, próximo ao rio Piratini. Logo em seguida, San Roque partiu para fundar as missões de Assunção de Ijuí e Todos los Santos de Caaró, onde foi atacado e morto pelo cacique Ñezú, que destruiu as duas missões e assassinou os outros dois padres que ficariam cuidando dessas missões e o cacique que os acompanhavam. Os cadáveres foram jogados na fogueira. O coração de González ficou milagrosamente intacto. O coração e o machado que o matou foram levados a Roma.

Posteriormente, a missão é atacada pelos bandeirantes e os missioneiros fugiram para o outro lado do rio Uruguay, fundando Los Apóstolos, para onde afluíram outros refugiados. Em 1687, um grupo retorna para reerguer a missão. Neste reinício, a missão enfrenta um ciclone, uma terrível chuva de granizo e um incêndio que destrói várias instalações, incluindo a igreja. Apesar dessas dificuldades, a missão prospera e chega a atingir 7 mil habitantes.

San Luiz Gonzaga: fundada em 1687 ao sul do rio Ijuí, em local onde antes havia duas reduções.

San Francisco de Borja: fundada em meados do século XVII na confluência dos rios Uruguay e Icamacuá, como extensão da missão de Santo Tomé.

San Lorenzo Mártir: fundada em 1690 ao sul do rio Ijuí com nativos vindos de Santa Maria La Mayor que descendiam das missões destruídas do Guayrá. Chega a atingir 6.400 habitantes.

San Miguel Arcángel: erguida em 1632, teve de ser abandonada com o ataque dos bandeirantes. Em 1687, é refundada por um padre tirolês, que lidera um grupo de 4 mil índios. No final do século XVII, ao atingir 6 mil missioneiros, é obrigada a se dividir, indo metade, junto com o padre tirolês, fundar a missão de San Juan Bautista.

San Miguel atinge seu auge em meados do século XVIII. Sua criação de gado é considerada a maior fonte de riqueza da região, além do excedente da produção manufatureira. Sua imponente igreja é construída entre 1735 e 1750. Torna-se centro da Guerra Guaranítica, sendo incendiada em 1756.

San Juan Bautista: erguida na virada do século XVIII por 3 mil índios vindos de San Miguel. O padre tirolês era geólogo, minerador, arquiteto, escultor, pintor e urbanista. Com suas habilidades, consegue extrair um ferro de baixa qualidade, difícil de fundir, mas que quebra o galho quando não é possível contar com as importações. Consegue com isso fabricar instrumentos e o sino do campanário da igreja, construída em 1708, que conta ainda com um relógio no campanário que, ao dar as horas, faz desfilar os 12 Apóstolos.

Santo Ángel Guardián de las Misiones: fundada em 1706 ao sul do rio Ijuí, obtém grande crescimento econômico e cultural, chegando a 8 mil índios. É totalmente destruída na Guerra Guaranítica.

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Published in: on 21 de setembro de 2016 at 1:18  Deixe um comentário