A CATEQUESE

Se a colonização ainda não dispôs os índios contra os brancos, os Jesuítas costumam ser bem recebidos nas aldeias, principalmente se não estiverem bem armados. Quando chegam, o jesuíta procura o cacique mais importante da tribo. Este se encontra em uma habitação escura, sentado em sua rede. O jesuíta é convidado a sentar ao lado e logo é rodeado pelas mulheres, que choram e gritam pelos parentes do padre, por sua sorte ou má sorte. Os homens cobrem a face com as mãos em sinal de tristeza. Depois das lágrimas e gemidos, são dadas as boas vindas ao padre. A saudação lacrimejante é um sinal positivo; se o visitante não é recebido dessa forma, perigo à vista. Quando recebido calorosamente, o padre pode ser brindado com uma morte gloriosa.

Depois da estranha saudação tradicional, é ofertada a chicha, bebida fermentada à base de milho, cuja recusa será considerada uma ofensa. Logo a população se encontra na praça para ouvir o estranho visitante. É a hora de o padre dizer a que veio. Ele diz que fala em nome do Rei, que abandonou tudo, atravessou mares, enfrentou terríveis perigos para estar ali. Tenta mostrar como a vida dos Guaranis é cheia de dificuldades e como ele pode torná-la mais feliz e segura. Que Deus revelará a fraude dos maus espíritos e os libertará da escravidão, que serão tratados como filhos dele. O padre manda, então, erguer uma grande cruz de madeira. Depois, se ajoelha e a beija. A seguir, celebra uma missa com a ajuda dos índios da escolta, garantindo que afugentará todos os demônios.

Não é fácil para o missionário convencer os índios de que são enviados por um ser misericordioso com o intuito de trabalhar para sua salvação. Os Jesuítas se aproveitam do mito da Terra Sem Males para apresentar a ideia cristã de Paraíso. Essas similaridades entre a religião cristã e a mitologia guarani os tornam mais propensos ao cristianismo do que as demais etnias. Mas, em regra, os Jesuítas não estudam as crenças e a mitologia dos índios, pois as veem como obra do demônio, interessando-se na medida em que necessitam combatê-las.

Muito antes de Castelhanos e Lusitanos, Sumé andou entre eles pregando palavras parecidas, mas acabou sendo expulso pelos Caraís, os pajés-profetas dos Guaranis. Os Jesuítas chegam a considerar que Sumé possa ter sido o apóstolo São Tomé, que teria chegado a estas terras e espalhado as palavras de Cristo. A facilidade com que os Guaranis abraçam a nova religião é vista como uma semente adormecida em sua cultura.

Se os nômades do Chaco e da Patagônia dão mais trabalho, os índios sedentários são mais humildes e se deixam impressionar com facilidade pela força dos colonizadores. Mas os padres se veem apenas com seu ar de autoridade e resolução. Mesmo que o poder dos brancos se apresente de forma amedrontadora, é importante manifestar sua natureza benéfica.

Os velhos reagem contra a nova religião devido ao enraizamento das tradições. Os jovens, devido aos rigores. Nas cidades, os Jesuítas levam os prisioneiros indígenas a seus colégios ou missões, fazendo com que sintam o poder da caridade. Depois, devolvem o prisioneiro para sua tribo como um embaixador. Mas os melhores relações-públicas são os membros de tribos já catequisadas, que acompanham o jesuíta em sua jornada. São eloquentes e convincentes.

Para driblar a resistência, os Jesuítas centram esforços nas crianças, e só batizam adultos que mostram sincera vontade. Desde pequena a criança é considera responsável na comunidade. Não há um sistema de educação com o qual o jesuíta precise concorrer. Visitam também os doentes e procuram curá-los, sendo vistos como grandes xamãs.

Os Jesuítas buscam não frustrar as esperanças e despertar a estima dos índios pela religião cristã, mostrando seu poder e positividade. Os índios são capazes de seguir cegamente ao missionário quando o percebem como alguém diferente do branco escravista.

É necessário que os Jesuítas se estabeleçam entre eles e os mantenham reunidos, pois a dispersão prejudica a catequese. Só o batismo não segura os índios. Assim que os padres deixam a aldeia, eles retornam aos hábitos antigos. A obra de evangelização exige paciência e continuidade. Mas nada impede os padres de passarem anos junto aos índios sem obter algum sucesso.

As reduções agradam aos governos, pois ajuda à colonização. A organização dos índios facilita a submissão à Coroa e às leis coloniais. Às vezes os índios eram reduzidos à força, mas os superiores da Companhia de Jesus se colocaram contra a iniciativa do governo de associar os Jesuítas aos soldados da colonização. Os padres abandonaram a coerção e partiram para a força do exemplo.

Entre os Guaranis, faz sucesso a liberdade das encomiendas prometida pelos missionários, caso se submetam pacificamente. Em regra, quando uma aldeia aceita o domínio dos Castelhanos, os colonos não descansam até que eles sejam submetidos aos encomenderos. Mas a influência dos Jesuítas na Corte permite que a Companhia proteja os índios contra os abusos dos colonos. Em determinado momento, os Jesuítas conseguem que se estenda às províncias do sul a legislação de Nova Castela, que dá 10 anos de isenção de tributos aos índios que optem pelas missões. Posteriormente, a isenção se estende pelo tempo que permanecerem nas missões. Os Jesuítas se preocupam com o mau exemplo dos colonos, e fazem o possível para manter os índios isolados.

O gado desempenha também um papel primordial na atração para as missões, pois a caça e a pesca não é fácil todo o ano. A oportunidade de não passar fome em nenhum momento, nem nas estações chuvosas, faz com que os índios aceitem a vida nas missões. Um anjo que descesse do céu sem bois e carneiros seria facilmente superado por um demônio que trouxesse carne, roupas e facas. Da mesma forma, instrumentos de ferro, particularmente o machado e a forja, às vezes bastam para converter uma tribo.

Antes de aceitarem a redução, os índios negociam com padres a conservação de alguns costumes. Muitos jesuítas preferem não bater de frente com estes costumes. A poligamia é um grande obstáculo ao progresso da religião entre os nômades, mas não tanto quanto a bebedeira. Os Guaranis tendem a abusar da chicha em suas festas religiosas.

Com o tempo, os Jesuítas conseguem mitigar a questão da poligamia. O ascetismo dos padres serve como exemplo e inspira respeito. Quando os índios oferecem suas mulheres aos padres, surpreendem-se com a recusa. As festas com bebidas, entretanto, continuam.

Uma mudança recebida de muito bom grado entre os Guaranis é o hábito de tomar mate. A bebida era antes reservada aos pajés, mas os Jesuítas a tornaram um consumo de todos, e muito apreciada, pois tem a qualidade de bebida mágica.

Por fim, e não menos impactante na conversão dos índios, está o poder real de alguns jesuítas. Quando este se ajoelha, de crucifixo na mão, e os céus se abrem para a chegada de um anjo, é uma exibição de grandeza a qual nenhum feiticeiro de sua tribo pode igualar. Ao perceber o efeito da Evocação Divina sobre os índios, alguns jesuítas passaram a utilizá-la para este fim. Mas os anjos não são tolos, e só atendem a chamados genuínos, o que veio a deixar muitos jesuítas em maus lençóis.

O fato da qualidade do jesuíta como chefe ser reconhecida espontaneamente pelos índios, e realçada pelo misticismo, não faz com que os índios sejam menos exigentes com seu novo líder. Pelo contrário. Quanto mais poder o jesuíta demonstra, maior deve ser sua generosidade e os benefícios concedidos.

A Comunicação

Como já foi dito, é exigido dos missionários o domínio de ao menos uma língua indígena. Quando se trata de uma língua como a Guarani, falada em boa parte da área central da Terra de Santa Cruz, não é problema, mas é comum uma língua ser falada por apenas um pequeno grupo de índios. A disciplina ferrenha dos jesuítas garante que sempre haja um padre a dominá-la.

Mas a vida dos Jesuítas não é nada fácil, mesmo para os mais hábeis. Certas tribos dissimulam, ensinando errado aos padres, como os Calchaquis, Hets e Wichís. Já os Patagões preferem aprender o castelhano, a fim de incrementar as relações comerciais com os colonos.

Há tribos em que a língua muda de acordo com a classe social. Há a língua dos caciques e do resto do povo. Entre os Guaicurus, a mulher fala uma língua diferente da do homem.

Os Patagões não podem pronunciar um termo relacionado à perda de um ente querido. Se ele perdeu o pai, não falará mais a palavra pai. Se o jesuíta insistir em pronunciá-la, poderá ser atacado.

Quando aprende a língua da tribo, a primeira coisa que o jesuíta procura explicar é o conceito de monogamia. Só que, como poligamia é um privilégio dos caciques, a reação é negativa. Os missionários entre os guaranis costumam esperar uns dois anos, até a sua liderança ser consolidada, para abordar o tema.

A Resistência

Nas primeiras décadas das missões, os Jesuítas enfrentam muita resistência dos índios, o que normalmente leva a um conflito armado, geralmente com bastante desvantagem para os Jesuítas. Os padres não lançam mão da ajuda militar porque provoca desconfiança nos índios, botando todo o esforço da catequese a perder. O mesmo ocorre com funcionários do governo. De qualquer forma, as missões mais afastadas não podem mesmo contar com esse tipo de apoio, só aquelas que ficam próximas às cidades. O mais comum é o jesuíta ser abandonado pelo governo. Quando as missões finalmente se consolidam, os padres passam a contar com a ajuda das missões vizinhas.

Às vezes, basta um tiro de fuzil ou de canhão para arrefecer o avanço indígena, mas, em geral, há poucos efetivos armados, e o sucesso depende muito da fé e da sorte. Quando o padre participa ativamente da defesa da redução, e sobrevive, aumenta o seu prestígio junto aos índios. Inclusive entre os inimigos.

Quando há reação, depois de uma redução já devastada e, possivelmente, alguns padres mortos, expedições punitivas partem das capitais das províncias, gerando um ciclo de vingança.

Os índios não atacam por ódio à religião, mas por defesa ou movidos por algum interesse específico ou rivalidade tribal. O martírio de um jesuíta cria dificuldades à futura catequese, pois, temendo represálias, a tribo se torna mais arredia, fugindo das aldeias com a aproximação dos padres. Uma vez, ao chegarem a uma aldeia deserta, o jesuíta e sua comitiva encontraram uma cruz fincada com uma ave de rapina preta crucificada.

Os pajés são os adversários mais obstinados, inteligentes e perigosos dos Jesuítas. Eles proclamam que os missionários vieram matar os índios e extinguir sua raça. Muitas vezes a batalha entre padres e pajés é longa e cruel.

O jesuíta é ajudado pelos índios convertidos, que denuncia os feiticeiros. O jesuíta precisa mostrar que sua magia é maior, o que é ajudado pelo domínio da medicina europeia. A autoridade do jesuíta é aceita também por provar sua qualidade de chefe.

Os pajés decidem, então, partir para a concorrência. Autodenominando-se Homem-Deus, forjam uma religião paralela às missões, imitando a igreja e instaurando cultos de muita riqueza e força surpreendente, atraindo assim muitos seguidores. O Homem-Deus se metamorfoseia em onça com objetivo religioso. Algumas mulheres também se destacam como líderes dessa nova religião.

Nessa religião, os feiticeiros são deuses superiores e os jesuítas seriam seus subordinados, fazendo parte da hierarquia. Ainda assim, alguns padres são executados por eles.

Da mesma forma que os Jesuítas defendem seus fiéis contra os pagãos, eles os defendem contra os bandeirantes. Nos ataques de 1628 a 1641, os Jesuítas podem ter perdido várias missões, mas eles provaram aos Guaranis que estavam do lado deles. Isso foi essencial para o sucesso posterior das missões. Alguns jesuítas morreram em campo com mosquete na mão.

Published in: on 21 de setembro de 2016 at 1:40  Deixe um comentário