O EXÉRCITO MISSONEIRO

A Batalha de Mbororé

Os Guaranis parecem para os bandeirantes uma presa privilegiada: numerosos e desorganizados, falam língua similar aos Tupis, estão no caminho para as riquezas de Nova Castela. Habitam regiões onde há poucos castelhanos estabelecidos e já estão pacificados nas reduções. Além disso, atacá-los significa um avanço da fronteira.

Após ter destroçado as missões do Guayrá e realizado várias escaramuças sobre as missões jesuíticas da região do Tapé e de Itatín, os bandeirantes já ameaçavam as reduções do lado ocidental do rio Uruguay. Em 1638, uma comissão de padres missioneiros viaja até a Metrópole para expor o problema e pedir ao Rei permissão de armar os índios missioneiros com armas de fogo, o que lhes foi concedido. A Real Cédula redigida para este fim permite aos índios continuarem a usar as armas em defesa das missões, desde que o Vice-Rei de Nova Castela seja comunicado com antecedência. Da Metrópole, um dos padres seguiu para Lima, sede do Vice-Reino, e outro a Roma.

Assim, com todas as autoridades cientes e a favor, os índios receberam as armas e treinamento militar, preparando-se para a invasão bandeirante. Após alguns confrontos que equilibraram as forças, os bandeirantes recuaram a fim de se preparem melhor para a nova realidade. Uma enorme bandeira parte de Piratininga em setembro de 1640, com 300 brancos e mestiços e 6 mil tupis, disposta a destruir todas as missões da região.

Ciente da ameaça, os Jesuítas armam um exército de 4.200 índios, dos quais apenas 300 portavam armas de fogo. O exército é liderado pelo Padre Superior, com o auxílio de três irmãos ex-militares.

À medida que a bandeira avança, índios que escapavam do apresamento se juntam ao exército missioneiro, servindo-se como informantes e espiões. O confronto ocorre em março de 1641, em torno do cerro Mbororé, na margem ocidental do Uruguay, tanto por terra quanto pelo rio, coberto por centenas de canoas. A batalha dura alguns dias, fazendo com que os Tupis desertem ou mesmo passem para o lado dos missioneiros.

No sexto dia de combate, os bandeirantes enviam uma carta de rendição, que é rasgada pelos missioneiros. Ao tentarem fugir do local de combate, deparam-se com 2 mil guaranis armados, que continuam a persegui-los até sobrar uns poucos homens, que retornam a Piratininga.

Com esses ataques, os Jesuítas decidem concentrar as missões entre os rios Uruguay e Paraná, fortificá-las e manter o treinamento militar dos índios adultos. Obtêm autorização do Vice-Rei para terem sua própria milícia, permitindo aos padres comprarem armas de fogo.

Os índios que compõem as milícias são liberados dos trabalhos comunais. Claro que o Vice-Rei não se preocupa tanto com o bem-estar dos índios, mas sim com o avanço dos Lusitanos. Por isso, naquele momento, não se recusou a dar mais autonomia às missões, pois teria em troca um verdadeiro exército de fronteira, do qual poderia lançar mão para resolver problemas internos, como o conflito com os Charruas, ao sul, ou a revolta comunera em Assunção.

Em 1648, a Coroa lusitana decide proibir as bandeiras de apresamento em reduções, tanto por pressão da Companhia de Jesus quanto para evitar maiores conflitos com os Castelhanos.

As missões jesuíticas se transformam em obstáculo para a expansão lusitana, tanto no sul quanto na região central da Terra de Santa Cruz, no Chaco Boreal.

A Milícia Guarani

Os frequentes ataques dos bandeirantes levaram, então, a uma militarização das missões, incluindo o uso de armas de fogo pelos índios. As táticas de combate são incluídas no currículo das missões, que passam a contar com milícias permanentes. Além de guerrear em nome dos governadores e do Vice-Rei, a milícia também se obrigava a ajudar em construções defensivas, como a muralha de Montevideo.

A milícia guarani utiliza arco, lança, pique, espada, funda, escudo circular, mosquete, escopeta e até canhões rudimentares, como as taquaras, peças feitas de tronco de laranjeira escavado e reforçado com couro, com capacidade para três tiros. Há de 20 a 30 armas de fogo em cada redução, podendo chegar a 50 naquelas que enfrentam maior perigo de ataque. Estas armas são confiadas aos índios mais hábeis. A pólvora fabricada localmente é de má qualidade.

Cada arqueiro possui 50 flechas, 2 arcos e 4 cordas. Os arsenais são abastecidos com 6 mil flechas. Os fundeiros têm 30 pedras talhadas e 12 fundas. Cada cavaleiro possui dois cavalos treinados para suportar o barulho das batalhas. Há um local de refúgio para mulheres e crianças, pois, quando são capturadas pelos inimigos, os guerreiros se rendem.

Os oficiais são os próprios Guaranis, e os Curas são os conselheiros de guerra. O comando fica por conta de um sargento-maior e um mestre-de-campo. A infantaria comporta 100 homens e a de cavalaria e de fundeiros, 50 cada. Cada uma delas é comandada por um capitão. Todo mês há um exercício de guerra. Os melhores atiradores são premiados com alimentos extras.

Poucos são os índios que sabem manusear a pólvora das armas ou fazer a mira como se deve. Também há pouca disciplina para manter a formação durante o combate. Por serem características alheias à cultura de guerra dos Guaranis, eles rendem melhor quando liderados por um branco.

As reduções guaranis são obrigadas a socorrer militarmente a colônia. Em grande número e bem comandados, são uma poderosa máquina de guerra, lutando várias vezes contra colonos rebeldes e Guaicurus. Os índios missioneiros combatem os pagãos ou os índios rebeldes das encomiendas com vigor. Às vezes os Jesuítas conduzem suas próprias guerras contra os nômades, sem pedir autorização oficial.

A maior vítima deles, entretanto, são os Charruas. Os Jesuítas não fazem muito esforço para converter os Charruas, considerados inimigos. Eles não aborrecem as missões, mas arrasam as estâncias e atacam as expedições às vacarias, atacando a reserva de gado. Rivais naturais dos Guaranis, estes partiram com gosto para atacá-los quando convocados pelo governador da Província do Rio da Prata.

Quando ameaçadas, as reduções armam paliçadas e fossos a seu redor. Há grandes barcos de guerra, principalmente nas reduções suscetíveis aos ataques dos Paiaguás.

Guerras Guaraníticas

Com a assinatura do Tratado de Madrid, em 1750, a região de Tapé passou a pertencer à Coroa lusitana, em troca da posse castelhana de Colônia do Sacramento. Os índios missioneiros, incentivados por alguns jesuítas, recusam-se a sair e se transferir para a banda ocidental, bem como os lusitanos de Colônia não deixam a cidade de imediato. Os índios consideram que são bons súditos à Coroa e que não cometeram crime algum que justifique o exílio, e escrevem uma carta ao Rei nesse sentido.

Os Guaranis censuram os Castelhanos e os Jesuítas por não agirem como cristãos e os fazerem perder a fé. Os Curas já não parecem mais agir em favor do povo. Os paroquianos decidem morrer em defesa do Santo Sacramento. Em 1753, os índios começam a criar dificuldades à ocupação lusitana na região, levando à guerra no ano seguinte. Só que, dessa vez, os Guaranis são obrigados a enfrentar também as forças castelhanas vindas do Rio da Prata.

Os caciques têm a seu favor o orgulho tribal e a bravura pessoal, mas não têm autoridade para falar por todos os Guaranis, nem conhecimento estratégico para combater Castelhanos e Lusitanos ao mesmo tempo. Assim, cada redução faz a guerra por si, com as tropas divididas em vários bandos. Não se prevê nenhum dispositivo de abastecimento, nem qualquer plano de campanha. Logo surgem divergências quanto às táticas a serem adotadas.

Com duas frentes de batalha e as forças divididas, a resistência acaba em 1756, de forma dramática, com a morte do principal líder guarani, Sepé Tiaraju.

Sepé tinha um grande dom para a magia, mas optou por ser um guerreiro em vez de um Caraí. Reza a lenda que Sepé era um Charrua cuja aldeia foi atacada pelos Castelhanos. Um jesuíta que acompanhava a tropa decidiu acolher o órfão e levá-lo até as missões, mas acabou o entregando a uma aldeia guarani antes de concluir a viagem.

Seu avô adotivo era um poderoso e adorado Caraí, de forma que Sepé foi criado para sucedê-lo. Entretanto, passou a frequentar a missão vizinha, onde aprendeu castelhano e a arte militar. Considerou que, como guerreiro, poderia contribuir mais para uma convivência harmoniosa entre brancos e índios. Na guerra, Sepé adota táticas de guerrilha, evitando grandes batalhas. Seu corpo nunca foi encontrado.

O Tratado de Madrid, de 1750, é rompido em 1761, mas os Guaranis haviam perdido a fé nos jesuítas. Ao mesmo tempo, todo mundo acredita que os Jesuítas fomentaram a guerra com os Guaranis. Muitos se convencem que os Jesuítas, ou parte deles, queriam fundar um império. Assim, os jesuítas se sentem isolados dos dois lados.

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Published in: on 21 de setembro de 2016 at 17:08  Deixe um comentário