O FIM DAS MISSÕES

Em 1759, a Coroa lusitana expulsa os Jesuítas de Santa Cruz. Em 1767 foi a vez da Coroa castelhana. Nas últimas décadas, a Ordem estava sob cerrado ataque na Europa, acusada de fomentar a rebelião indígena, desobedecer às ordens da Coroa e construir um império independente na Terra de Santa Cruz.

Os Inimigos

Desde o início, a sociedade colonial reclama dos Jesuítas. Os colonos queixam-se da competição comercial com as reduções. Os bispos queixam-se de não receber o dízimo. As autoridades, civis e eclesiásticas, de não poderem exercer sua jurisdição sobre as vilas guaranis. Denunciam a existência de um Estado dentro do Estado; que os Jesuítas pregam o ódio aos colonizadores; que os índios são subtraídos das encomiendas para serem escravizados pelos padres. O muro de silêncio em torno das missões gera também reclamações direcionadas à Metrópole, acusada de favorecer os interesses da Companhia de Jesus.

O Bispo franciscano de Assunção defende que qualquer padre por ele nomeado seria mais capaz do que os Jesuítas no serviço de catequese, e faz campanha cerrada contra a Ordem.

As Intrigas

O desejo dos colonos por riquezas, a falta de metais preciosos na bacia do Prata e a preocupação gerada pelo avanço das missões geram uma série de denúncias de que os Jesuítas possuíam minas de ouro, prata e metais preciosos escondidas na região, e que até comerciavam com os estrangeiros, ou mesmo que estivessem montando um império independente com moeda própria. Tais denúncias são infundadas, mas levam as autoridades a diversas fiscalizações no local.

A intenção dessas denúncias é mesmo provocar a expulsão dos Jesuítas. Mesmo as outras ordens religiosas veem com preocupação o crescimento do prestígio jesuíta. Temem, principalmente, o que pode acontecer se um jesuíta chegar a Papa.

Os inimigos da Companhia de Jesus pagam guaranis que migraram para as cidades para contarem histórias de que haviam trabalhado nas minas dos Jesuítas. Porém, levados a mostrar onde ficam tais minas, acabam fugindo ao se aproximarem das missões, denunciando assim a fraude.

Na verdade, o que há de ouro e prata nas igrejas das reduções é proveniente de Nova Extremadura e de Nova Castela, mas muitos querem acreditar que há uma mina escondida na região. Quando os Jesuítas são expulsos da Terra de Santa Cruz, muitos mapas são vendidos com a “real” localização das minas.

A Expulsão

Com o crescimento do poder militar e econômico das missões, o grau de independência atingido incomoda a Metrópole e os governos locais, e até mesmo o Papa. Além da disputa pela mão de obra e o boato de riquezas, minas e tesouros secretos, a guerra guaranítica complicou de vez a situação, pois os Jesuítas são considerados culpados pela revolta. Até então, os interesses da Companhia coincidiam com os interesses reais. Não coincidem mais, ante a perspectiva de acordo com a Coroa lusitana sobre as fronteiras. O clero torna-se um dos adversários mais violentos da Ordem, e o Papa lava as mãos.

A paciência dos reis europeus com a Companhia de Jesus acaba. Ela é suprimida em Portugal (1759), França (1762) e Espanha (1767). Quando os missionários são presos, nenhum guarani se revolta. Já nas outras reduções, alheias ao conflito, há dor e indignação. É preciso mentir, dizendo que os padres estavam com saudades de casa, para evitar uma revolta. Ao voltarem para casa, os jesuítas castelhanos são presos e exilados para os Estados Pontífices. Em 1773, o próprio Papa extingue a Companhia.

As missões jesuíticas são distribuídas para as outras ordens. Entre os nômades do Chaco, os novos Curas acabam fugindo de volta para a cidade na primeira oportunidade, seguidos por alguns paroquianos. Com o tempo, essas tribos vão sendo exterminadas ou assimiladas pela sociedade colonial mestiça. Só os Moxos e os Chiquitanos mantêm-se protegidos com os Franciscanos, que assumem com sucesso as missões do Chaco Boreal. Já as missões guaraníticas são exterminadas, uma vez que a gestão econômica fica por conta dos colonos.

Nos últimos meses da presença dos Jesuítas na Terra de Santa Cruz, um padre decide fazer um mapa e reunir todas as informações das missões em um único documento. O mapa com as anotações é perdido em meio à confusão da retirada. Só veio a ser encontrado mais de 250 anos depois, mas isso já é outra história, outro RPG.

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Published in: on 21 de setembro de 2016 at 17:21  Deixe um comentário