PERSONAGENS E HISTÓRIAS

A Caverna

Enquanto mapeava a região de Tapé, acompanhado de um pequeno grupo de fiéis guaranis, um jesuíta chegou às serras que separam as vacarias do estreito litoral. Em meio à subida, encontrou uma caverna escondida pela vegetação. As pedras em sua entrada pareciam esculpidas, mas o padre não se demorou muito ali e decidiu entrar. Chegou, então, a uma câmara ricamente ornamentada com esculturas e objetos dourados. Rapidamente pegou seu material e fez um rascunho no papel. Depois, fez o que qualquer um em seu lugar faria: Aura.

O padre só se recorda de despertar em uma clareira afastada da caverna. Os índios lhe contaram que, de repente, ele pareceu tonto e desmaiou. Temerosos que o padre tenha sido atacado por alguma magia poderosa, trataram de carregá-lo o mais rápido possível para bem longe da caverna.

Desconcertado com o ocorrido, decidiu partir para Candelária e ter com o Padre Superior. Este convocou seus conselheiros e, em um consenso, decidiram que era melhor esquecer a caverna. Na época os missionários já eram perturbados pelas autoridades coloniais com os boatos de que escondiam minas de ouro e prata na região. Se viesse à tona a descoberta de uma caverna com objetos de ouro, a desconfiança só aumentaria e eles poderiam ser expulsos.

O jesuíta cartógrafo, então, retornou à caverna com seus índios e cuidou para que ninguém jamais a encontrasse novamente. Porém, não destruiu o rascunho que fizera. Anos depois, suas anotações foram incluídas no documento elaborado por um jesuíta um pouco antes da expulsão da Companhia de Jesus da Terra de Santa Cruz. O tal que só seria encontrado mais de 250 anos depois.

Provincial Ignácio Álvarez de Irigoyen

Padre Irigoyen se destaca dos demais provinciais da Companhia de Jesus por ser o primeiro com Poder Divino a ocupar a função. Em determinado momento de sua vida, após ver sua missão ser arrasada pelos bandeirantes, chegou à conclusão que serviria a Deus de forma mais eficiente case se dedicasse aos círculos de poder político.

Padre Irigoyen começou a galgar a hierarquia da Companhia de Jesus até tornar-se Provincial em Córdoba. Houve um certo desconforto na Companhia, mas ninguém ousava questionar as suas qualidades administrativas e a justeza de suas decisões. Nas províncias do sul, sua palavra é lei, e seguida com o fervor religioso habitual dos Jesuítas. Mesmo na Congregação Geral seu nome passa a ser bem falado, a ponto de ser reconduzido ao cargo por três mandatos.

Entretanto, as outras ordens e as autoridades coloniais se sentem ameaçadas com o prestígio de Irigoyen. Como criticar um homem-santo, alguém tão próximo de Deus? No posto de Provincial, Irigoyen ameaça o equilíbrio entre as Ordens. E tal preocupação é muito mais do que paranoia e inveja. Durante seu mandado, os Jesuítas conseguiram retomar o projeto missionário no Rio da Prata, armar os Guaranis de forma permanente e tornar a região, na prática, uma província independente.

Sem argumentos para confrontá-los, seus opositores passam a incentivar sua promoção à Congregação Geral. Seria uma forma de afastá-lo do cotidiano da colônia. Contudo, seus admiradores, ante tal perspectiva, começam a cogitar a possibilidade de Irigoyen tornar-se o próximo Papa.

Bispo Martins de Saavedra

Bispo franciscano de Assunção, principal opositor dos Jesuítas nas colônias castelhanas. Apoia e incentiva qualquer boato que possa prejudicá-los. Acredita sinceramente que a Companhia de Jesus esconde algum segredo nas missões guaraníticas. Opõe-se às regalias e vantagens às quais nenhuma outra Ordem tem direito. Considera o favorecimento do Rei obra da política, não de Deus, e a omissão e a cumplicidade dos governadores, frutos de suborno.

Sem ter poder mágico, mas profundo conhecedor de artefatos religiosos, o Bispo considera os franciscanos igualmente capazes, muitos deles também abnegados homens-santos, mas que não são devidamente reconhecidos pela Coroa e por Roma devido à politicagem dos Jesuítas.

Padre Maurício

Padre Maurício é um jesuíta nascido em São Sebastião, que passa boa parte do tempo embrenhado nas matas da Terra de Santa Cruz. Sempre desgrenhado, com barba por fazer, batina rasgada e um mosquete a tiracolo (“não se caça na mata com reza e luz divina”, é o seu lema), sua presença impertinente só é tolerada pelos círculos superiores da Igreja porque nenhum homem branco sabe mais sobre os mistérios de Santa Cruz do que ele (exceto Sumé, claro).

Crítico, irônico, muitas vezes incômodo, particularmente com sua tolerância em relação à feitiçaria dos índios e dos negros (ele reconhece haver espíritos poderosos que não são necessariamente maus, e compreende que, com o poder alcançado, pajés e sacerdotes negros tenham se acomodado e não prosseguido no caminho da total iluminação), Padre Maurício tem a qualidade de ser muito discreto quanto às coisas da Igreja. E mais de uma vez pôde mostrar o valor disso. Além do mais, ele aceita as missões que nenhum padre em sã consciência aceitaria. E mais: é o tipo de missão que ele procura!

Sobrevivente do Vale dos Acritós, mediador do acordo entre uma tribo maoári e os lusitanos que possibilitou a construção do Forte Albuquerque, principal fonte do bestiário secreto que a Igreja mantém sobre as criaturas do Novo Mundo, ninguém seria mais indicado para investigar as circunstâncias da morte do jesuíta San Roque Gonzalez.

Após verificar os poderes do Machado de Ñezú, cujos ferimentos infligidos não podem ser curados por encanto nem por reza, a cúpula da Igreja ficou preocupada com a possibilidade de que tão poderosa feitiçaria pudesse armar os índios contra os colonos e os missionários. Para deixar a Igreja ainda mais desconfiada, o encanto de Aura se mostrou inútil, como se o artefato fosse uma página em branco. Padre Maurício, então, foi enviado às missões guaraníticas de Tapé para investigar a origem do machado. Apesar de ser um lusitano, os padres castelhanos da Companhia de Jesus, conhecedores de sua fama, não fizeram óbice à indicação.

Entretanto, muitos anos haviam se passado, e Ñezú já não estava mais entre os vivos. Tampouco era prudente sair perguntando abertamente sobre tal machado. Restou ao padre fazer o que sabia fazer de melhor: viver junto aos índios para tentar descobrir e entender seus segredos mais profundos. Com os anos vividos entre os Maoáris, Padre Maurício aprendeu que a melhor forma de fazer este tipo de investigação é ganhar o respeito e a confiança de um Caraí. O que não é tarefa fácil. Entre os Maoáris, ele pôde assumir o papel de um diplomata. Em Tapé, ainda que os Jesuítas tivessem conquistado o respeito mesmo dos índios não reduzidos, eles são vistos como concorrentes ou inimigos dos pajés.

Published in: on 21 de setembro de 2016 at 18:45  Deixe um comentário