CIDADES, TEMPLOS E LUGARES MÍTICOS

CIDADE DOS CÉSARES

A cidade mítica da Patagônia, insistentemente procurada por exploradores e aventureiros. Muitos acreditam que ela existe, repleta de tesouros; outros, que se trata de uma cidade perdida (ou achada) dos Incas. Há ainda quem acredite que ela seja a morada dos deuses. Fato é que ninguém jamais a encontrou, e não foram poucas as tentativas. Mas, na Terra de Santa Cruz, toda lenda tem seu fundo de verdade.

A cidade é, na verdade, lar dos primeiros Imortais. Cansados de peregrinar pelo mundo, desencantados com os caminhos da humanidade, destinada a repetir seus erros, um grupo de imortais resolveu abandonar o Velho Mundo e navegar para novas terras. Fizeram sua primeira morada no cerro Lihué Calel, região habitada pelos Hets. Não demorou para perceberem que a vida no Novo Mundo não seria muito distinta daquela antiga. Antes mesmo da chegada das primeiras caravelas, decidiram procurar um lugar escondido e bem protegido nas cordilheiras. É possível encontrar alguns vestígios de sua passagem nas proximidades do cerro.

A última parada desses Imortais é próxima a El Chaltén. Em um conjunto de três torres montanhosas que se erguem depois do Chaltén, da mais alta delas é possível vislumbrar a cidade, que se encontra escondida por uma ilusão. No cume dessa montanha, em tese inacessível, há uma antiga adaga romana cravada na rocha. Quem a empunhar poderá enxergar a paisagem real.

Diz a lenda que a Cidade dos Césares ficaria no centro de um lago, entre uma montanha de diamantes e outra de ouro. O lago de fato existe, assim como a ilha, mas as montanhas são apenas impressões deixadas pelo efeito do sol sobre as pedras (não se pode acreditar em todas as lendas). A ilha é protegida por uma enorme serpente que cospe fogo e vive no lago. Apenas uma embarcação é permitida transitar em suas águas sem ser molestada. As margens não possuem praia. As montanhas descem diretamente em suas águas. Uma escada esculpida na pedra conduz até o pequeno embarcadouro da solitária embarcação. Mesmo as margens da ilha são pedregosas, mas mais acessíveis.

A cidade em si não possui muito luxo. Construída em pedra, arquitetonicamente bem acabada, sem maiores ostentações. A construção que mais chama a atenção é a muralha que separa as margens da ilha do resto da cidade. Isso não quer dizer que não haja um tesouro. Seus habitantes possuem relíquias dos mais diversos tipos, desde objetos e moedas de ouro e prata, tapeçarias, esculturas, cerâmica, a artefatos pelos quais alguém mataria para obter lá fora. E, claro, itens mágicos.

Nem todos os Imortais originais seguiram nessa caravana, assim como nem todos que lá chegaram permaneceram. Alguns, movidos pela curiosidade ou pelo tédio, saíram para ver como anda o mundo. Uns voltaram, outros continuam sua jornada. A adaga no alto da montanha é posta por aqueles que partem da cidade, a fim de facilitar seu retorno.

Os próprios Imortais que perambulam pelo mundo não sabem como eles surgem. Há a lenda de que só os primeiros Imortais podem gerar um novo imortal. Talvez a principal intenção desses Imortais, caso a lenda seja verdadeira, seja por fim à longeva linhagem.

Os habitantes da Cidade dos Césares, que obviamente não é nome da cidade (eles a chamam simplesmente de Lar), são versados em magias das mais diversas origens. Uma delas faz com que qualquer visitante que saia da cidade com vida não lembre absolutamente nada de sua passagem por ela. Apenas em sonhos. Só aos Guajáras é permitido chegar e sair em paz e com a memória intacta.

ESTECO

A antiga cidade de Talavera del Esteco foi completamente destruída por um terremoto em 1692. Neste mesmo terremoto, Salta foi poupada devido à invocação da Virgem Maria, por meio da imagem de Cristo do Milagre, que é celebrada todo ano em procissão, no dia 13 de setembro. Ninguém ousa desenterrar os restos da cidade, pois ela está povoada por espíritos vingativos. Corre pela colônia boatos de que o terremoto teria sido um castigo pela vida de luxúria. Se foi mesmo, difícil afirmar. Mas os espíritos estão lá. E não estão nada contentes por terem sido abandonados. Passar pelas ruínas de Esteco, ou mesmo pernoitar próximo a ela, é viver um pesadelo.

ILHA MOCHA

Localizada a 34 km da costa, entre Concepción e Valdívia, a ilha possui uma área de 48 km². O interior da ilha é completamente montanhoso e coberto por uma densa floresta, que abriga um pequeno lago. Mas o litoral é formado por uma planície costeira que permite fácil acesso à ilha em qualquer ponto da costa.

Em 1608, o Rei deu a ordem de retirar todos os Mapuches que vivem na ilha, para evitar o contato de piratas com os índios. A ordem leva 80 anos para ser cumprida, após o temor da Coroa ter se revelado justificado. A ilha se tornou um ponto de abastecimento de piratas, mas também lugar de constantes naufrágios.

O entorno da ilha serve de lar para as baleias cachalotes, que chegam a atingir mais de 20 metros de comprimento. Entretanto, as baleias mais importantes que frequentam a ilha são outras: as Trempulcahue. Trata-se de quatro baleias míticas que não podem ser vistas pelos vivos, apenas no plano astral. Estas baleias são a forma adotada por quatro machis anciãs para transportar as almas perdidas até a ilha. A viagem só ocorre ao por do sol.

Mocha é conhecida entre os Mapuches como Ilha dos Mortos, a Ngill Chenmaiwe. Ali encontra-se um portal para Wenu Mapu, a terra de cima. A travessia, no entanto, não ocorrerá sem perigos e desafios. A presença de Calcus e Wekufe na ilha não será tolerada. Os Mapuches que vivem na ilha agem como guardiões no mundo físico do portal, só acessível pelo plano astral. Com o plano de remoção, Ngill Chenmaiwe ficará desprotegida.

O IMPENETRÁVEL

Bosque de 40 mil km² no Chaco Austral, que se expande a partir da margem sul do rio Bermejo, entre as províncias de Tucumán e Rio da Prata. O bosque é um emaranhado de arbustos e árvores difícil de atravessar, sendo necessário o uso de facão para cortar caminho. Entretanto, o Lmay do bosque (ver Criaturas e seres fantásticos) não gosta de intrusos e transformará o bosque em um labirinto em constante mudança. O bosque muda de configuração à medida que se avança nele, fazendo com que os viajantes se percam e passem muitas vezes pelo mesmo lugar, andando em círculos ou saindo no mesmo lugar por onde haviam entrado. Isso se tiver a sorte de sair.

Só alguém com Comunhão com a floresta ou rolamentos sucessivos de Senso de Orientação quase impossíveis poderá atravessar o bosque sem se perder. Ainda assim, tais habilidades não ajudarão a superar os obstáculos naturais do Impenetrável, só mesmo o bom uso de um facão. Remover magia não surtirá efeito e Detectar Magia apenas revelará o problema, não a solução. Tampouco adianta invocar o espírito. Ele realmente não gosta de intrusos.

INCAHUASI

Ruínas do Império do Sol próximo a Salta, a 2860 metros, junto ao riacho Incamayo. Era o quartel general de Yupanqui antes de se aventurar pela terra dos Mapuches. Para um sacerdote do sol, suas paredes podem abrigar artefatos muito úteis.

IVY MARÃ-E’Y

Ivy Marã-e’y é o nome em guarani da Terra Sem Mal. Segundo a crença dos Guaranis, nesta terra não há doença, fome ou guerras. Nela, o guarani se despe de sua mortalidade e se transforma em um homem-deus, capaz de viver sem trabalhar, comer sem ter de caçar, livre da dor e do sofrimento. Permanecerá eternamente jovem e feliz em uma terra esplêndida.

Ao contrário do Paraíso bíblico, é possível alcançar a Terra Sem Mal sem precisar morrer. Isso só é possível àquele que atingir a perfeição em vida. E é possível atingi-la em vida porque ela pode ser encontrada e alcançada.

Os Guaranis procuram viver suas vidas para se tornarem aptos a alcançar a Terra Sem Mal ao menos depois de sua morte. Mas há muitos que a buscam em vida. Isso requer não só uma vida de muitos sacrifícios e bravura, como também uma longa peregrinação a um lugar onde ninguém sabe ao certo onde fica. Resiste a crença de que ela fica a oeste. Por isso os Guaranis chegaram aos contrafortes andinos e alcançaram até mesmo as cidades douradas do Império do Sol.

A localização da Terra Sem Mal no mundo físico permanece um mistério, um segredo, se é que ela realmente existe. Ou, se algum dia existiu, permanece por lá. Porém, no Plano Astral, ela efetivamente existe, e uma árdua peregrinação também será necessária para alcançá-la.

A Terra Sem Mal fica no terceiro nível do Plano Astral. O primeiro nível é um espelho do nosso mundo, por onde circulam os espíritos que interagem com o plano físico. Por isso, achar a Terra Sem Mal neste nível é tarefa tão árdua quanto procurá-la no plano físico. Em viagem astral, dificilmente alguém teria poder para ir além do primeiro nível.

Para chegar ao segundo nível, atravessa-se um portal, que não é apenas um, mas vários. Este nível é um lugar mais sombrio, e não guarda tanta relação com o mundo real, ainda que muitos elementos geográficos estejam presentes nele. Nele habitam espíritos que lograram sair do primeiro nível, mas que, por algum motivo, foram impedidos de ingressar no terceiro nível.

O terceiro nível, que também é acessível por portais, todos muito bem guardados, possui uma lógica completamente diversa. Nela, a Terra Sem Mal certamente existe. Por não ter relação com o mundo físico, é impossível correlacionar a sua localização com algum lugar em nosso mundo. O portal que dá acesso à Terra Sem Mal é muito bem guardado, e só será permitido passar aquele que for merecedor.

A Terra Sem Mal é marcada por uma extensa floresta, onde tudo necessário à vida é abundante. No centro da floresta ergue-se uma esplendorosa cidade, Mbaeverá-Guaçu.

Mbaeverá-Guaçu é a mítica e sagrada cidade dos Guaranis, que eles acreditam permanecer oculta e perdida em algum ponto da selva. É nela que os índios esperam chegar em vida ou depois da morte digna. Ela abriga todos aqueles que não desejam viver na floresta. Não há problema de habitação, pois ela cresce ou encolhe conforme a demanda. Não existe luxo, as casas são simples, mas com todo o conforto e infraestrutura necessária para viver bem. A suntuosidade está nas áreas comuns, nas praças e no templo, Mbocabog.

Mbocabog é o grande templo no centro de Mbaeverá-Guaçu, que pode ser avistado desde o portal. Se os Guaranis não eram adoradores, não cultuavam seus criadores, na Terra Sem Mal é um pouco distinto. Em Mbocabog eles se podem se reunir com Karaí, Yakairá, Nhanderú, Tupã ou mesmo Nhamandú, o que é mais raro.

Maraney são as sacerdotisas que cuidam do templo de Mbocabog. Elas têm o poder de entrar nos sonhos e conhecer os desejos e os temores das pessoas.

Poromoñangara é o zeloso guardião dos tesouros acumulados pelos deuses em Mbocabog. À primeira vista, Mbaeverá-Guaçu é uma cidade livre de todo mal. Isso ocorre graças à diligência de Poromoñangara. Ainda que nenhum guarani seja capaz de profanar o templo, o plano astral é feito não só de diversos níveis, mas de diversas terras. Sempre haverá o risco de invasões, particularmente dos Angues, as almas impedidas de adentrar a Terra Sem Mal. Poromoñangara possui todos os feitiços de um pajé, com mil pontos de poder mágico, e sem precisar fazer teste de habilidade. Tem por companheiro nessa vigilância Teyu-Yaguá, o lagarto-tigre.

Teyu-Yaguá é a deidade que guarda o portal que conduz à Terra Sem Mal. É um lagarto enorme com traços de onça, cuja força é invencível. Trata-se, na verdade, de um duplo portal. Um que leva do segundo nível para a Terra Sem Mal, e outro localizado no mundo físico, que pode conduzir diretamente à Terra Sem Mal. Este portal fica no fundo de uma caverna inacessível.

Yaguá Ovy é um cão azul que habita a Terra Sem Mal, e auxilia Teyu-Yaguá e Poromoñangara no patrulhamento da região. Seu objetivo é alertá-los de qualquer ameaça de invasão.

A Caverna da Morte

A caverna que dá acesso ao portal que liga diretamente o plano físico à Terra Sem Mal fica nas terras da tribo maoári próxima ao Forte Albuquerque. Escondida na floresta, sua localização e real função só são conhecidas pelo conselho maoári de anciões, presidido pelo Caraí Panoramã.

Uma das razões da aliança desses maoáris com os lusitanos, de certa forma, é auxiliar na proteção da caverna, pois, sem saber, os militares ajudam a manter potenciais inimigos à distância. Panoramã, com auxílio do conselho, conhece a magia capaz de enviar um grupo inteiro ao plano astral, mesmo aqueles desprovidos de poder mágico, o que pode ser sustentado por poucos dias.

Guará, um exímio rastreador, e seus guerreiros patrulham a região seguindo as ordens de Panoramã sem questionar. Eles sabem que devem proteger a caverna a qualquer custo, mas não sabem o que ela esconde. Qualquer um que a procure ou tente entrar nela deverá ser levado primeiramente a um dos pajés. Dependendo do que for apurado, será conduzido ao conselho ou liberado a seguir viagem.

O fundo da caverna é protegido por uma ilusão, que faz parecer que a caverna tenha chegado ao fim. Além dessa parede ilusória, desce-se por uma trilha que leva um imenso desfiladeiro subterrâneo. No fundo desse profundo desfiladeiro, há um rio de águas profundas onde habita o Teyu-Yaguá. Sob seu comando, diversos espíritos cuidam de, como em uma repartição pública, direcionar os demais espíritos que ali chegam. Só os merecedores serão direcionados ao portal da Terra Sem Mal.

Os Angues buscam, insistentemente, invadir a Terra Sem Mal tanto a partir do segundo nível quanto por meio deste portal no mundo físico.

MAR DE ANSENUZA

Diz a lenda que o Mar de Ansenuza, localizado próximo a Córdoba, é o lar da deusa aquática Ansenuza, que protege os pássaros e peixes do lago que leva o seu nome. Ela vive em um palácio no fundo do lago e o sal da água vem de suas lágrimas. Também conforme a lenda, as águas do lago têm poder curativo.

Na Terra de Santa Cruz, as lendas costumam ser verdadeiras, mas neste caso há uma boa dose de exagero. Ansenuza de fato vive no fundo das águas, mas não propriamente em um palácio, mas em cavernas. O sal do Mar de Ansenuza não vem de suas lágrimas, embora o poder curativo de suas águas tenha derivado delas. Mas isso ocorreu há muitos e muitos anos, de forma que, com o renovar constante das águas, este poder esteja bastante esmaecido.

Quando à magia que deu poder de cura às águas do lago foi realizada, estas eram capazes de ressuscitar um morto. Porém, ao fazê-lo, ele renascia como um flamingo, juntando-se aos outros tantos que vivem no lago.

Quando os colonos chegaram à região, suas águas conservavam apenas o poder de curar pequenas feridas (até 3 pontos de Cura por dia) . Um banho mais prolongado no lago talvez possa ter o efeito de conter a progressão da doença, mas não o suficiente para curá-la por completo. Tampouco terá efeito contra venenos, salvo se jogada imediatamente após a mordida ou picada. Se o veneno foi ingerido, a água do lago não será de nenhuma serventia. Caso um viajante tenha a ideia de levar a água do lado armazenada, seu poder curativo perderá o efeito após um dia.

Nem sempre os benefícios das águas do lago compensam os riscos de enfrentar a ira de Ansenuza. Embora não seja tão cruel como nos velhos tempos, e, de fato, tenha se tornado uma reclusa em seu palácio submerso, o excesso de caçadores e pescadores pode chamar a sua atenção. Ansenuza tem absoluto controle das águas e dos animais da região, bem como do clima ao redor.

O PLANALTO DAS VISÕES

Localizado entre o rio Negro e o rio Chubut, dividindo o território entre os patagões setentrionais e os patagões meridionais. A única forma de evitá-lo é passando junto às cordilheiras ou margeando a costa.

A Patagônia possui uma permeabilidade com o mundo astral mais intensa do que no resto do continente. No Planalto da Visões, esta aproximação é quase palpável, podendo até mesmo ser vislumbrada a olho nu. É o ponto de maior esgarçamento entre os planos físico e astral. Quanto mais para o centro das estepes áridas, maior a influência do plano astral na realidade.

O Planalto da Visões pode ser visto como um grande portal para o plano astral. Só que, enquanto portais costumam ter guardiões, este é um território livre, selvagem. Porém, é mais fácil a travessia do astral para o físico do que o contrário. Assim, os espíritos da região dominam amplamente o que acontece na região, podendo, inclusive, barrar a passagem de espíritos de outros lugares, como os espíritos dos feiticeiros negros e os orixás.

Como o plano astral pode ser visto a olho nu em alguns pontos ou hora do dia, particularmente nas primeiras horas do dia, essa visão de planos superpostos é capaz de levar qualquer pessoa à loucura. Também é difícil distinguir quem está de um lado ou de outro.

YBYPYTE

Em algum ponto junto aos contrafortes andinos, seguindo pelo Chaco Boreal, encontram-se muralhas ciclópicas que se estendem por vários quilômetros selva adentro. Em seu interior, há apenas mais floresta. Os Guaranis que chegaram até a muralha acreditaram ser ali a localização de Mbaeverá-Guaçu, podendo ela estar escondida misticamente ou no plano astral. Os Castelhanos acreditam que a floresta cobriu uma antiga cidade dos Incas, possivelmente Paititi. Mas, na verdade, as muralhas pertenciam a uma antiga cidade guajára.

Os anciões, cansados dos conflitos internos da cidade, decidiram abandonar o lugar e ordenaram à população deixar seus bens e casas e partir para bem longe. Passaram, então, a viver como os selvagens, aguardando o perdão divino por suas discórdias.

O que aconteceu com a cidade que a muralha abrigava, permanece um mistério.

Published in: on 25 de setembro de 2016 at 2:11  Deixe um comentário