Aventura em Colônia do Sacramento

Apresento aqui a minha aventura em Colônia do Sacramento, que deu origem ao suplemento. Criei uma trama política que tinha seu próprio timing, indiferentemente das ações dos personagens. Eles poderiam interagir com ela ou não, percebê-la ou não.

A aventura foi construída a partir de Naiara (Clara Maria), a única que vivia na região. Com a minha ajuda, a jogadora elaborou um histórico da personagem até o momento da primeira sessão. Os outros dois, um índio e um negro, vieram de fora. Fiz com os dois, por mensagem e separadamente, uma prequel. Mesmo quando os personagens se encontraram, as mensagens seguiram paralelas. Foi divertido para todos os envolvidos. Bentinho (Benedito, aka Escorpião Negro), o negro, foi desenvolvido a partir de um personagem pré-existente, de uma campanha que fiz em 2009/2010. Na época, era apenas um adolescente negro capoeirista, um escravo muito folgado. Em 2012, o jogador resolveu reaproveitá-lo e transformá-lo em Feiticeiro de Ferro e Fogo.

Então, antes de apresentar o plot da aventura, primeiro apresento os seus antecedentes, que, por si só, podem servir de inspiração para outras aventuras, revelando um pouco sobre as cidades lusitanas do sul. Já a aventura não será narrada conforme ocorreu. Apresentarei apenas a situação como um todo.

História de Clara Maria (aka Kaolin / Naiara)

Nasceu em uma fazenda no interior de Cisplatina, de onde pouco se recorda, no período em que Colônia de Sacramento esteve sob domínio Espanhol. Filha de Juan Carlos e Maria Lúcia.

Seu pai é de origem hispânica da região norte, em Nájera (nome de origem árabe, significa “lugar entre as rochas” ou “lugar entre os rochedos”), que migrou para as colônias e se destacou como um grande líder e comerciante de artefatos valiosos. Casou-se com uma portuguesa naturalista pouco afeita a vida nas grandes cidades, mas com incríveis habilidades culinárias e muito alegre, conquistou seu amor. Se conheceram em Colônia de Sacramento quando era recém chegado às colônias.

Com as oportunidades de negócios escassas em Colônia, partiu com a esposa e o filho pequeno para a distante terra ao norte, se estabelecendo numa fazenda num lugar ermo (mas na rota para as Missões), dedicando-se ao comércio de charque, conseguindo abastecer desde missões jesuíticas a pequenas vilas portuárias da colônia lusitana. Apesar de pouco lucro, ajudava a manter a sua equipe de trabalhadores em atividade e satisfeito. Com a retomada de Sacramento pelos portugueses, retorna para a fazenda próxima ao Prata e mais perto dos grandes negócios. A forma como conseguia cruzar o território dos charruas sem grandes problemas ajudava a manter o respeito e a lealdade de seus homens.

 Na pequena fazenda em Colônia de Sacramento, os negócios se expandiram devido às facilidades de escoamento de mercadorias, tendo negócios entre os espanhóis e portugueses. Seu filho mais velho, Luiz Carlos, seguia os passos do pai. Possuía grande carisma e incríveis habilidades sociais, enchendo o pai de orgulho e satisfação.

Clara Maria tinha veneração pelo irmão e amava os pais. Tinha espírito livre e gostava da natureza como a mãe, porém não tinha gosto pelos hábitos caseiros comuns a uma moça. Vestia-se como menino e preferia embrenhar-se no mato, brincar com os bichos e os meninos, principalmente com seu irmão.

Devido a seus impulsos, encrencou-se algumas vezes, quase perdendo a vida quando ainda era uma criança ao cair no rio nas suas aventuras pela mata. Foi salva por um índio, para a felicidade da mãe, que se recusava a acreditar que sua filha pudesse ter morrido.

Apesar do conhecimento da mata local, Clara gostava de novos desafios na sua pré-adolescência e acabou perdendo-se ao estender sua exploração pelo território. Felizmente seu amigo índio a ajudou e Kaolin, como ele a chamava, pôde voltar para casa alguns dias depois.

Uma forte enfermidade atingiu toda a família quando ela tinha 13 anos. Apenas seu pai parecia se recuperar. Quando os demais estavam à beira da morte, sua mãe utilizou todas as forças que restavam para que ao menos Clara tivesse sua chance de viver. Apenas Clara e o pai sobreviveram.

A jovem ficou arrasada com suas perdas, mas a infelicidade do pai a entristecia ainda mais. Para consolá-lo, Clara se empenhou em substituir seu irmão nos negócios do pai. Ela conhecia todos os amigos do pai que trabalhavam na área e pensava que não haveria problema se ela se esforçasse em aprender tudo com o ele. Clara não sabia que o problema não era conhecimento ou talento, mas sim o fato dela não ser homem. Seu pai sabia disso, mas aceitava sua ajuda consciente de que sua filha não poderia liderar seus homens quando ele se fosse.

Clara impressionava o pai pela sua capacidade de prever onde se encontravam as melhores oportunidades. Sua filha era esperta e parecia quase que ler as intenções das pessoas e, assim, desconfiou de um dos parceiros do pai, Molina, o que a fez agir sozinha para investigar de perto suas verdadeiras intenções. Descobrindo que planejavam assassinar seu pai e ocupar seu lugar nos negócios, Clara tenta alertá-lo, mas é capturada, espancada e jogada num rio para ser entregue à morte. Por uma grande sorte do destino, Clara é resgatada por seu amigo índio a tempo, que cuida dela até despertar do coma que durou dois meses. Ao se lembrar de tudo, tenta imediatamente ir até o pai, mas o índio explica o que havia acontecido e que não havia mais o que fazer pelo pai, que já estava morto.

Kaolin encontrava-se fraca e estava órfã. Seu amigo se tornara quase um pai ao cuidar dela, então ela não tinha outra coisa a fazer a não ser ficar e se fortalecer, pois não tinha para onde ir. Tinha como procurar seu tio por parte de mãe em Colônia de Sacramento, mas a viagem seria desgastante.

Enquanto ela se recuperava, aprendeu um pouco da cultura e religião indígena e pôde sentir mais de perto a espiritualidade da natureza. Kaolin sentia-se protegida com o índio, mas tinha pesadelos todas as noites tentando alcançar o pai e gritar, sem que seus pés saíssem do lugar e emitisse qualquer som, enquanto assistia o assassino se aproximando de seu pai com seus capangas, até que se via com os pés amarrados no fundo de um rio sem conseguir respirar ou nadar para a superfície, despertava se debatendo e suando em bicas.

O índio percebeu que Kaolin só se libertaria depois que confrontasse seu passado, então já sabia que mais cedo ou mais tarde ela seguiria seu caminho. Após um ano vivendo pela mata e bem recuperada, Kaolin, já com 16 anos e iniciada na prática da feitiçaria indígena, parte em busca do tio, mas não sem antes buscar sorrateiramente alguns recursos na sua antiga casa, ocupada por Molina.

Seu tio, Capitão Camões, desconfiava que a versão que lhe fora contada sobre a morte de seu cunhado e de sua sobrinha fosse mentira – teriam sofrido um acidente de barco quando visitavam clientes em Buenos Aires – mas nada fez por falta de evidências sobre o que de fato pudesse ter acontecido. Ele a recebe com surpresa e espanto. Não poderia imaginar que uma menina pudesse sobreviver tanto tempo na mata sozinha. Clara explicara todo o possível ao tio, que por bem concorda que ela deveria continuar morta e receber nova identidade. Assim nasce Naiara, que é estabelecida na casa do tio como uma filha adotiva que ajuda na criação dos animais de sua propriedade fora da cidade.

Capitão Camões é um bem sucedido comerciante de Colônia de Sacramento que vende mercadorias importadas da Europa de forma não autorizada pela Metrópole, mas muito apreciadas nas colônias. Pela sua atividade de comércio, entre outras qualidades, tem boas relações com portugueses e espanhóis. Os antigos homens do pai de Clara não desconfiariam de qualquer tentativa de vingança do cunhado, pois todos sabiam que por anos ele e seus pais não se falavam devido a suas práticas pouco ortodoxas. A última vez que tinham sido visto juntos fora após a morte de sua mãe e de seu irmão, quando seu pai falara ao cunhado sobre a possibilidade de receber sua filha e educá-la, pois temia seu destino na vida dura do campo. Ambos realizavam o mesmo tipo de atividade comercial na banda oriental do Prata e havia um respeito mútuo em relação ao trabalho de cada um. Camões se sentiu no dever de ajudar sua sobrinha.

Porém, ele não consegue remover da cabeça da sobrinha sua ideia de vingança. Ele próprio tinha seus desejos, mas, impossibilitado pela idade, restou apenas ajudar a sobrinha a arquitetar um plano e provê-la de todos os recursos necessários para ter sucesso em sua missão.

Naiara é um nome basco, originado de uma cidade espanhola chamada Nájera. Esse nome é de origem árabe, e significa “lugar entre as rochas” ou “lugar entre os rochedos”. No século XII foi reportada uma aparição da Virgem Maria numa caverna nas proximidades da cidade.

O que Naiara não sabe sobre suas origens: sua mãe era uma bruxa e utilizava sua magia para ajudar nos negócios do pai. Porém, o fazia às escondidas, sem nunca ter revelado ao marido suas reais aptidões, fazendo-lhe acreditar ser apenas uma pessoa com grande conhecimento de ervas e plantas. Capitão Camões é homossexual, e esse é o real motivo do afastamento da família. Suas preferências são conhecidas por alguns na cidade, mas toleradas devido a sua discrição, simpatia e habilidades comerciais. O amigo índio é um Guajára que passava pela região quando a salvou pela primeira vez. Ao perceber a vocação da menina pela magia e impressionado com seu ímpeto aventureiro, decidiu permanecer na região por mais algum tempo para acompanhar seu desenvolvimento à distância. Neste período, ficou entre os Charruas.

Assim, apesar de ser filha de uma bruxa, com quem aprendeu algo sobre ervas e plantas, Naiara domina a magia indígena. Por ter sido treinada por um Guajára, sua lista de feitiços é eclética, mais se assemelhando a de um feiticeiro indígena de O Império do Sol do que a de um pajé de O Desafio dos Bandeirantes: Ventura, Visão Noturna, Detectar Magia, Respirar sob as águas, Comunhão com a floresta, Camuflagem, Ventania, Criar Ilusão, Cura (poção), Olhos d’água, Remover Magia, Levitar, Viagem Astral, Visão Astral, Comunicar-se com animais, Luz Solar, Metamorfose (onça), Vigor.

A Saga do Escorpião Negro

Bentinho nasceu em São Sebastião do Rio de Janeiro, filho de escravos. Trabalhava para Dona Mariana, proprietária de um importante armazém próximo ao porto, assim como seus pais. Dona Mariana era uma sacerdotisa negra e herdou o estabelecimento de seu falecido marido. Apesar de ter escravos, tratava-os como se fossem empregados.

Ainda muito jovem, Bentinho aprendeu a lutar capoeira, e se metia nas confusões do porto, metido a malandro que era. Após muitas aventuras ao lado da patroa, Bentinho acabou sendo apresentado ao mundo da magia. Então Bentinho comprou sua liberdade (não que Dona Mariana fosse lhe cobrar, mas ele fez questão de pagar, afinal, as aventuras que enfrentou ao lado dela foram bem rentáveis) e decidiu partir junto com seus novos amigos, Kunta (feiticeiro de ferro e fogo) e Montenegro (bruxo) quando os dois deixaram a cidade. Viajaram juntos por um bom tempo, e assim pôde se desenvolver na arte do ferro e do fogo com Kunta.

Um belo dia, em São Francisco do Sul, uma cidade portuária ao sul que fica numa ilha, Montenegro encontrou um velho amigo, um branco, que se fazia acompanhar por uma índia. Então, o grupo decidiu seguir uma bandeira que adentraria o interior de Santa Cruz. Bentinho havia gostado daquela cidade que lhe lembrava um pouco São Sebastião, e decidiu ficar.

O ambiente portuário e seus personagens típicos ele já conhecia bem. E agora era mais experiente e tinha uns truques na manga. Com o tempo, acabou ficando conhecido na área como o homem certo pro trabalho errado. Ganhou respeito pela eficiência, temor e desconfiança por sua independência, nunca trabalhando muito tempo pra uma só pessoa.

Quando Bentinho se separou de Kunta e Montenegro e decidiu ficar em São Francisco do Sul, a ilha era comandada por um homem violento e autoritário, o capitão-mor Domingos Francisques, conhecido como Cabecinha. Tanto ele fez que acabou atraindo a ira de toda a cidade e foi condenado à morte. Ao saber disso, Cabecinha fugiu e nunca mais foi visto. Quem o ajudou fugir foi Bentinho, agora conhecido como Benedito, o Escorpião Negro, devido a suas lâminas envenenadas e seus golpes de capoeira.

Benedito não gostava dele, mas Cabecinha nunca lhe havia criado caso. Era difícil arrumar um bom trabalho na vila que, de alguma forma, não tivesse algo a ver com ele. Foi condenado à forca por uma série de assassinatos e malvadezas. Uma vez, quando um seu filho faleceu, Cabecinha quis que o corpo fosse enterrado em baixo do altar mor da matriz, alegando que sua família muito havia concorrido para a conclusão da obra da Igreja, o que era verdade. Como o Vigário da Vila recusou-se a fazê-lo, Cabecinha mandou seus homens o prenderem e lançá-lo em uma velha canoa já em mar aberto, com a maré vazante, provido apenas de uma porção de peixe seco. Ao receber a proposta, Benedito sabia que não faltaria gente pra ajudá-lo, pois o pagamento era muito bom. Dificilmente iriam saber quem o ajudou.

Benedito possui uma moral bem flexível, mas não gosta de crueldade deliberada. No caso, como ele conseguiu avaliar que, não fosse ele próprio, outros ajudariam, e o segredo seria bem guardado, ele decidiu aceitar o serviço. Mas fez questão de dizer a Cabecinha, por óbvio que fosse, pra ele não retornar a São Francisco do Sul. Também lhe perguntou para onde pretendia ir, quais o plano dele para o futuro. Mas Cabecinha não ficou falando muito de seus planos. Mas certamente a última coisa que ele ia fazer seria voltar a São Francisco do Sul, pois seria morte certa. Benedito o deixou na fazenda de um compadre dele, e, antes de pegar seu caminho de volta à cidade, ouviu eles falarem qualquer coisa sobre Laguna.

Quando Benedito retornou a São Francisco do Sul, todos estavam à procura de Cabecinha, e assim foi por meses, mas sem sinal do desgraçado. O povo ficou frustrado, mas aliviado por ter se livrado daquele demônio. Benedito continuou arrumando trabalho, embora ninguém pagasse tão bem quanto o Cabecinha. Um belo dia, chegou da Metrópole um interventor pra colocar ordem na vila e não deixar que se repetisse algo como Cabecinha. As demais vilas da colônia já tinham Câmara Municipal e uma administração organizada. Esse interventor veio para isso. Muito bom pro povo da ilha, mas não para os negócios. Benedito deixou para trás os bons ventos que sopravam na ilha e partiu no barco de um conhecido rumo ao sul.

Não era a primeira vez que Benedito andava de barco, mas era a primeira vez que ficava um dia inteiro dentro de um. Não era tão ruim quanto pensava, mas era muita água e frio para um filho do ferro e do fogo. No dia seguinte, chegaram a uma ilha maior que São Francisco do Sul, e com uma entrada de baía bem mais extensa. Assim como São Francisco, a vila de Nossa Senhora do Desterro ficava na parte de dentro, voltada pro continente. O lugar, com seus mares, florestas e montanhas, lembrou-lhe muito a natal São Sebastião, e isso lhe agradou. Conduto, o lugar era muito pequeno, com poucas possibilidades para um homem com suas habilidades. E até mesmo arriscado. Mesmo assim, decidiu conhecer mais a ilha e partiu para a área selvagem da ilha. De fato, as praias eram deslumbrantes. Os montes, embora não tão altos, possibilitavam belas vistas e tornavam algumas áreas de difícil acesso. Em uma das pontas, voltado para o mar, havia lhe escapado a existência de um forte, do qual preferiu manter certa distância. Em sua peregrinação, conversou com o fantasma de uma mulher; deparou-se com um curupira, que lhe deu uma mão; ouviu estranhos sons na mata; e avistou, da praia, estranhos seres marinhos a furar as ondas, que mais pareciam sereias deformadas. Após suas breves “férias”, retornou ao povoado e deu-se por satisfeito. Havia chegado a hora de seguir viagem.

Ao retornar à vila, Benedito aguardou alguns dias até que chegasse nova embarcação vinda do porto de Paranaguá. Numa rápida conversa com o capitão, descobriu que o barco partiria para Rio Grande, uma novíssima vila ao sul da colônia. Durante a espera, viu um índio sendo tratado com escárnio pelos demais marinheiros. O índio mantinha uma atitude altiva, apesar das gozações. De certa forma, Benedito se identificou com o índio, lembrando de sua época no porto de São Sebastião.

Benedito entrou na roda, impondo respeito, ganhou simpatia, puxou o índio pra um canto chamando-o de guerreiro, dando uma moral pro cara. O índio não era de falar muito, bastante discreto, vestido como um escravo de São Sebastião, mas deixa claro muito desconhecimento com as coisas do mar e sobre os negros. Benedito entende que ele queria ir pra São Vicente, mas que o navio veio pra essa vila, e ele não faz a menor ideia da direção onde fica tanto um lugar quanto outro. Ele mostra tão pouco conhecimento da vida colonial, que Benedito teme que ele acabe sendo explorado e se tornando um escravo, o que não combinaria com a altivez que percebe nele, como possuía também seu amigo Kunta. Ao mesmo tempo, aquele é o único navio nas proximidades, fora os barcos de pesca locais, e Benedito sabe que o barco vai pra Rio Grande, sentido oposto a São Vicente.

Benedito estava disposto a dar ajudar, mas não tanto a ponto de perder o navio para Rio Grande. Perguntou ao índio o seu nome e disse a ele que, se continuasse sozinho, poderia acabar mal. Se o que o levava a São Vicente não fosse urgente, sugeria que o acompanhasse ao sul, onde parecia haver mais movimento e oportunidades do que naquela vila. Seria melhor do que aguardar indefinidamente até aparecer uma embarcação para São Vicente. O índio pareceu aprovar. Durante a viagem, fez muitas perguntas sobre os negros, de onde vinham. O parecia ser diferente da maioria dos outros que conhecera. Não era mesmo agressivo e merecia alguma confiança. De qualquer forma, não teria por que Benedito deixar de falar um pouco. Apesar de ele próprio ter nascido em São Sebastião, Benedito conta que seus pais vieram em navios de um país muito distante, do outro lado do mar, onde todos eram negros como ele.

A viagem até Rio Grande é bem mais longa do que aquela de São Francisco do Sul a Desterro. O frio, quando não está sol, também. A vila, bem precária, fica na entrada de uma imensa lagoa que não parece ter fim. Benedito avista ao longe uma fortaleza. Após o embarque, dando uma circulada pela cidade, Benedito avista um rosto conhecido: Cabecinha.

Benedito buscou passar despercebido de Cabecinha tanto tempo quanto possível, até conhecer melhor o lugar e saber o que ele tinha feito pela cidade. Benedito descobre que Cabecinha pretendia se tornar o governador da vila, mas já não aparentava ter o mesmo vigor que antes. Ele tinha dúvidas se o velho tirano teria sucesso em sua empreitada. Contudo, a fama do Escorpião Negro já alcançara aquelas paragens e sua presença logo chegaria aos ouvidos de Cabecinha.

Sabendo que, cedo ou tarde, seria descoberto, e certo de que Cabecinha o tinha em alta conta por tê-lo ajudado na fuga, Benedito preferiu se adiantar e conversar com Cabecinha sobre a grande coincidência de estarem ambos no mesmo local de novo. Mas evitou ao máximo que os outros o associassem a ele, mantendo a independência de sempre. Benedito tentou descobrir quem eram os outros figurões da cidade, quem seriam os “inimigos” de Cabecinha ali no Rio Grande.

Cabecinha demonstrou muita alegria em ver Benedito. Disse que tinha grandes planos e que o Escorpião Negro poderia ter um papel fundamental neles. Ao fazer suas investigações, Benedito logo notou que Cabecinha tinha poucas chances de chegar ao poder por bem, e que os seus adversários políticos eram muito mais poderosos. Logo Benedito conclui que os planos de Cabecinha incluíam muito sangue.

Benedito não tem nenhuma simpatia por governantes brancos escravagistas, mas sabia que Cabecinha no poder seria um desastre. Apesar disso, sabia que, cedo ou tarde, Cabecinha iria procura-lo para algum “trabalho”. Benedito imaginou qual a reação de Cabecinha caso ele simplesmente lhe dissesse “não” a uma oferta de trabalho dele. Também calculou quantos e quão bons lutadores eram os homens que Cabecinha. Na verdade, Cabecinha tinha apenas um bando maltrapilho de bêbados e mestiços. Bentinho começou a perceber que o plano dele era o próprio “Escorpião”.

Nesse meio tempo, Benedito percebeu que a cidade era bastante promissora como entreposto comercial, mas ainda estava em seu início, menor ainda que Desterro. Ele já tinha ouvido falar que Laguna era a principal vila da região, e foi confirmar com o capitão do barco se a próxima parada seria mesmo em Laguna. O capitão comentou que antes precisaria ir ao Porto dos Casais, em Viamão. “Mas onde diabos é isso?”, perguntou. E ele apontou para aquele imenso rio que muito lhe lembrava a entrada da baía em São Sebastião. E o capitão complementou: “não se engane, esse rio é tão comprido quanto largo, e Viamão fica em seu final, virando a curva”. Benedito não estava gostando nada do rumo das coisas. Por um lado, Cabecinha e seus devaneios em recuperar a antiga pose de capitão-mor. De outro, um capitão de barco enrolão. O capitão havia dito ao índio que depois de Rio Grande iria voltar a São Vicente, e a ele que iria para Laguna. Agora, nem uma coisa nem outra. Talvez estivesse na hora de embarcar em outra canoa.

No dia seguinte, se aproximou do porto um navio imponente, chamando a atenção de todos, inclusive a de Benedito. Para sua surpresa, viu descendo um conhecido dos botecos de São Sebastião, que fez a festa ao reconhecê-lo. Benedito fica um pouco constrangido ao ser chamado em alto e bom som de “Bentinho”. Afinal, profissionalmente era chamado de Escorpião, e se apresentava em geral como Bento. Os dois sentaram para beber. O marinheiro diz que o barco partiu de São Sebastião com destino a Colônia do Sacramento. A viagem levaria no máximo 15 dias, mas o tempo não ajudou muito. Eles tiveram que aportar ali para pegar mais água, mantimentos e fazer alguns reparos. Benedito nunca ouvira falar dessa Colônia, e quando soube que lá viviam quase 2 mil habitantes, com um intenso comércio, contrabando com os espanhóis e pra onde vertia uma parte da prata de Potosí, seus olhos se arregalaram.

Chegara a hora da verdade: os dois barcos preparavam-se para partir e Cabecinha mandou um recado a Benedito para um encontro num lugar chamado “ilha dos marinheiros”. Até mesmo o índio que conhecera veio lhe perguntar sobre o destino do novo navio, pois preferia ficar em Rio Grande a partir novamente com aquele capitão que não honra a palavra. Colônia do Sacramento, pelo pouco que havia lhe contado o marujo José Dias, mais conhecido como “Cramunhão” (pelo rosto sempre avermelhado e a ausência de dotes estéticos, por assim dizer), prometia toda a aventura que Benedito buscava quando partiu de São Sebastião. E, assim, partiu mais ao sul, mas não sem antes obter alguns trajes de couro.

As Viagens de Yawarauna

Yawarauna é um índio da tribo Iviturui-Yawara, que vive isolada nas montanhas do interior da Terra da Santa Cruz. A tribo tem uma antiga e rica cultura, e é famosa e influente na região por alguns de seus membros que visitam as nações vizinhas. Seguem um código de honra inflexível, o que os faz serem muito respeitados, frequentemente servindo de árbitros nas disputas entre tribos e nações, chegando a fama da tribo até o Império do Sol.

Yawarauna é o neto mais novo de Mbiri’ki, um ancião da tribo. Dotado de um espirito indômito, que sempre o levou a fazer longas viagens e travar contato com as tribos dos arredores, Mbiri’ki logo tornou-se conhecido e respeitado na região. Um dos membros mais versados em ocultismo de sua tribo. Tornou-se o pajé e tinha grande influencia no conselho dos anciãos. Algum tempo atrás, notícias de estranhos homens brancos que carregavam trovões nas mãos chegaram a seus ouvidos, e ele, preocupado, trouxe a noticia a sua nação. Após uma longa reunião, os anciãos deliberaram no sentido de coletar mais informações antes de aconselhar os demais povos da região quanto à paz ou a guerra com os homens brancos.

Ao retornar a sua tribo, da reunião, Mbiri’ki procurou Yawarauna, um jovem corajoso e talentoso, de grande futuro, e lhe confiou uma dupla missão: sair pelo mundo como um andarilho, sem origem e sem destino, descobrir o máximo possível sobre o homem branco e o que ainda existe da velha magia no continente.

Yawarauna deixou sua tribo com um bom estoque de poções, mas a certa altura de suas andanças elas acabaram, mas encontrou tempo de fazer outras pelo caminho. Ganhou também um amuleto de Mbiri’ki, um cordão com um pequeno entalhe em pedra de forma zoomórfica. Ele disse para nunca se separar dele. E não mais lhe disse. Levou como acompanhante um pássaro com quem mantém elo mental.

Após algumas semanas de viagem, Yawarauna chega ao Forte Albuquerque, no Pantanal, onde presenciou um cerco indígena ao forte dos homens brancos. Inicialmente, simpatizou com os índios e pensou em falar com eles pra saber o motivo do ataque. Foi então que viu que outros brancos participavam do ataque junto aos índios. Intrigado com o fato, resolveu apenas observar. Para sua surpresa, os brancos do forte conseguiram repelir o ataque. Chamou-lhe a atenção a presença de um negro que arremessava bolas de fogo pelas mãos. Ouvira falar muito de homens brancos, mas nada de homens pretos… muito menos de sua magia poderosa. Logo ponderou que sua imagem seria mais interessante do que previra seu avô. Dali, sem revelar sua presença, seguiu viagem.

Yawarauna é normalmente sério, embora a seriedade seja um tanto forcada da parte dele (para parecer mais respeitável). Considera-se um estudioso, e sente muito orgulhoso por seu avô, do seu povo, e dele mesmo. Considera-se um guerreiro mediano, mas não tem ambições de ser muito mais que isto. Para emergências, transforma-se em uma grande onça negra. Segue um código de ética forte e particular de sua tribo, que passa por nunca iniciar uma agressão e nunca mentir (embora possa omitir). Ambiciona ser um grande feiticeiro e diplomata. Diplomata no sentido de mediar os conflitos entre as tribos da região. Ele considera a magia extremamente importante, porque seu conhecimento traz poder, e poder traz respeitabilidade, que é o que ele mais ambiciona. Ele se considera muito competente para sua idade, e espera ir além do grande Mbiri’ki. Sua especialidade é a magia ligada aos animais e à água.

Até aquele momento, o homem branco havia lhe deixado uma impressão de caráter ruim pelas mentiras que ele viu, mas reconhecia que eles eram muito poderosos. Estava espantado que tanto poder não estivesse alinhado a um caráter mais correto, e ainda não sabia como lidar com a situação. Iria aprender mais da cultura branca para saber como proceder.

Yawarauna desceu o rio e viajou por vários dias até chegar a uma missão jesuíta. Lá ele observou aqueles estranhos homens brancos e estranhou os índios vivendo daquele jeito, trabalhando organizadamente em plantações. Apesar do rigor do trabalho e da organização dos padres, ninguém parecia estar sendo forçado. Yawarauna foi bem recebido e resolveu ficar lá por dois meses. Aprendeu um pouco da língua branca e sobre o Deus deles. Teve contato com uma visão de homem-branco bem diferente da que tinha. Os padres lhe ofereceram estranhas roupas que lhe cobriam quase o corpo todo. Apesar do desconforto, decidiu vesti-las pra demonstrar boa vontade e simpatia. Certo dia, apareceu um padre acompanhado de um grupo de índios. Contou que sua missão havia sido atacada por bandeirantes e a maioria dos índios, levada cativa. Yawarauna se interessou em ir até o local e viu a devastação provocada por outros homens brancos. Perguntou de onde eles vinham. “De uma vila afastada chamada Piratininga”, responderam. Yawarauna decidiu retomar sua viagem e conhecer essa tal Piratininga.

Yawarauna caminhou vários dias pela fria mata (não achou as roupas dos brancos tão desconfortáveis, afinal) até avistar uma área de roça, onde índios aravam a terra e plantavam. Mas estes não pareciam tão à vontade assim, e havia homens brancos em volta, portando um tipo diferente de arma que ele havia visto no ataque ao forte. Chegando na vila, logo descobriu que não havia chegado a Piratininga, mas um lugar chamado Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba. Lá descobriu um estranho objeto chamado dinheiro, ao qual os brancos pareciam dar grande valor. Viu também alguns homens pretos, mas bem diferentes do altivo e forte negro que havia visto no forte. Pareciam tristes e submissos. Perguntou como fazer para chegar em Piratininga. Informaram-lhe que a forma mais rápida seria descer a serra até a Vila de Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá, de lá pegar um barco até São Vicente, e então subir a serra novamente até Piratininga. Uma caravana partiria rumo a Paranaguá em dois dias, e Yawarauna decidiu aguardar. Nesse meio tempo, percebeu os moradores bastante apreensivos e um tanto traumatizados. Qualquer menção a magia era repelida com veemência. Um mercador lhe conta que um poderoso bruxo havia atormentado a região recentemente, e que a vila havia sido libertada por uma bandeira que passara vinda de São Francisco do Sul. Yawarauna se pergunta se fora a mesma bandeira que atacara a missão dos padres. Mas Piratininga parecia ser muito longe dali, pelo que diziam. Perguntou ao mercador o que era um bruxo. Depois de uma larga risada, ele explicou.

Yawarauna partiu numa manhã de forte neblina rumo a Paranaguá. A serra que atravessava, mesmo sem muita visibilidade, se mostrava mais bela e imponente que a de sua terra natal. Suas habilidades de índio foram muito úteis à caravana. O líder lhe perguntou se não gostaria de ganhar uns trocados ajudando-o no negócio. Yawarauna não entendeu muito bem, apenas respondeu que precisava chegar a São Vicente. Quando ele avistou, lá do alto, a imensidão do mar, foi um impacto. Havia ouvido falar de um grande rio, impossível de avistar a outra margem, mas não esperava nada igual. Quando a caravana chegou na cidade, o branco da caravana novamente lhe ofereceu trabalho, prontamente e gentilmente recusado. Então, como agradecimento à ajuda, apresentou-o a um capitão que partiria dentro de dois dias. “Sim”, ele disse, “tenho ainda trabalho a fazer, mas meu destino final é São Vicente”. No tempo que teve, Yawarauna se afastou da vila, tirou as roupas e mergulhou no rio, nadando até a barra junto ao mar, mas não se atreveu a ir mais além. Em dois dias, partiu com o navio, não sem um certo temor ao desconhecido.

A viagem de quase dois dias de navio esteve longe de ser um dos melhores momentos da vida de Yawarauna. Primeiro, não lhe ocorreu que haveria tão pouco para comer. Segundo, depois de algumas horas de balanço, não comer não lhe pareceu tão má ideia assim. Terceiro, Yawarauna ficou intrigado com a preocupação da tripulação com as reservas de água, uma vez que havia tanta água em volta. Um marinheiro resolveu oferecer-lhe um pouco de água do mar. Há tempos não experimentava algo tão intragável. Chegou a pensar que um pouco de Controlar água resolvesse a questão, mas então lembrou-se de que magia talvez não fosse bem aceita pelos brancos em geral. Mesmo assim, Yawarauna ficou encantado (e amedrontado) com a imensidão do mar.

A embarcação, então, adentrou numa grande baía e aportou no que disseram ser uma ilha. Yawarauna ficou intrigado que aquele imenso pedaço de terra fosse circundado de água por todos os lados. Ao perguntar se estava em São Vicente, foi respondido com muitas risadas (o que já tinha virado rotina ao longo da viagem). Então, o capitão lhe disse que era Nossa Senhora do Desterro. Yawarauna protestou, dizendo ao capitão que ele havia dito que o destino do navio seria São Vicente. “Sim, índio. Mas antes preciso passar em outro portos. São Vicente será meu destino final”. Sentindo-se enganado e impotente, pois desconhecia completamente o lugar onde se encontrava, decidiu aguardar a próxima viagem.

Yawarauna sentia que havia virado motivo de diversão para todos da tripulação. Não paravam de rir e de lhe perguntar coisas, esperando suas tiradas como “beber água do mar”. Como se tivesse saído do nada, surge um preto esguio, porém bem diferente dos demais negros que havia encontrado, com um ar de autoridade e confiança só visto, talvez, no negro que avistara no Forte Albuquerque. A figura rapidamente tomou a frente da conversa, ganhou a simpatia de todos e, chamando Yawarauna de guerreiro, o afastou dos demais e puxou uma conversa, mostrando-se bem diferente dos outros marujos. Yawarauna não contou muito sobre sua jornada, mas falou de sua frustração quanto á viagem marítima.

O negro sugeriu a Yawarauna acompanhá-lo, pois considerava perigoso que seguisse viagem sozinho, a não ser que ir a São Vicente fosse tão importante assim. Yawarauna viu com bons olhos a oportunidade de conhecer mais sobre aqueles negros que tanto lhe chamaram a atenção. Enfim, todos embarcaram no navio, incluindo o negro. Yawarauna aproveitou para dar vazão a sua curiosidade. E, assim, aproveitou para manter afastados os demais tripulantes, que pareciam respeitar bastante o negro.

Enfim, Yawarauna fica sabendo que o negro nasceu no continente, mas que sua raça veio de um lugar muito distante, muito além do grande mar, escravizada. Yawarauna imagina que eles foram derrotados pelos brancos numa grande guerra, como acontece entre algumas tribos indígenas.

A viagem até Rio Grande de São Pedro foi mais longa do que aquela até Desterro. O frio, quando não estava sol, também. A vila, bem precária, ficava na entrada de uma imensa lagoa que não parece ter fim. Yawarauna avista ao longe uma fortaleza.

Yawarauna estava maravilhado com a paisagem do sul. O plano, sem montanhas, a imensidão do azul em cima, no imenso rio a sua volta, o vento… Acostumado às florestas, nunca se sentira tão irremediavelmente pequeno, vulnerável, mas ao mesmo tempo podia quase sentir as forças da natureza ao seu redor. Não podia controlá-las, mas podia sentir o quanto era forte. Yawarauna já havia percebido que apenas aos padres era permitido usar magia entre os homens brancos. Esquecera de perguntar a respeito ao companheiro de viagem negro. Alguns usavam túnicas claras, outros, escuras. Haveria alguma hierarquia? Entrou numa igreja e foi alegremente recebido pelo padre que quis lhe falar sobre o tal branco chamado Jesus, sobre quem tanto falavam na Missão. Conseguiu descobrir com o padre que as túnicas representavam diferente ordens, cujo conceito lhe pareceu um pouco confuso, mas entendeu que eram independentes entre si, e que todas obedeciam a um grande pajé chamado Papa, que vivia no Vaticano. Yawarauna, frustrado na intenção de chegar a Piratininga, pensou que esse lugar, Vaticano, poderia ser ainda mais interessante de conhecer. Perguntou ao padre se ficava próximo dali ou de São Vicente. O padre soltou uma gargalhada, e explicou que ficava muito distante dali, do outro lado do grande mar. “De onde vieram os negros?”, perguntou inocentemente. O padre ficou nervoso e impaciente com a pergunta. Em tom mais sério, explicou que há várias terras do outro lado do mar, de onde ele mesmo havia vindo, e que a terra dos brancos ficava ainda mais distante que a terra dos negros.

Yawarauna encontrou o capitão e perguntou quando partiriam para São Vicente. O capitão respondeu que precisava ir primeiro ao Porto dos Casais, em Viamão. Então perguntou se isso era próximo de São Vicente. O capitão então aponta na direção do imenso e largo rio a sua frente. Yawarauna não gostou nem um pouco disso e decidiu procurar o negro que conhecera em Desterro, pra perguntar-lhe os seus planos. Dependendo, talvez fosse melhor ficar por aquelas bandas. Então Yawarauna avistou um grande barco ancorado no porto, bem mais imponente daquele no qual viajara.

Yawarauna encontra o negro saindo de uma taberna com um sujeito estranho que parecia ser um amigo. O negro lhe conta que o amigo veio de São Sebastião naquele barco, e ruma para uma cidade mais ao sul, chamada Colônia do Sacramento. Yawarauna lhe fala que preferia permanecer em Rio Grande, cujo ambiente apreciara bastante, a viajar novamente com aquele capitão que não honra a palavra.

Havia chegado o momento de partir. As duas embarcações se preparavam para deixar o porto. Yawarauna procurou saber mais sobre a cidade de Sacramento, e descobriu ser maior do que todas nas quais esteve. Talvez fosse uma oportunidade de conhecer mais profundamente a cultura do homem branco. Só não sabia se seria tão fácil subir a bordo. Foi com satisfação que viu, então, o amigo negro próximo à embarcação, conversando com o tal amigo. Yawarauna foi então apresentado à estranha figura, um homem de rosto avermelhado, com feições nada agradáveis, chamado Cramunhão. Em um acerto rápido, Yawarauna já partia ao sul, rumo a novas aventuras.

A TRAMA

A trama independente aos personagens envolvia uma série de atentados terroristas na cidade para criar confusão e colocar a população descontente com o governador. Os ataques teriam como finalidade criar uma situação interna caótica que levasse à criação de uma Câmara Municipal. Só que Gaspar de Almada, que faz parte dos conspiradores, tem um plano um pouco diferente: usar isso pra enfraquecer a autoridade dos militares, distrai-los para os problemas interno enquanto os espanhóis se estabelecem mais ao norte para um ataque.

Naiara vai ao porto disfarçada de rapaz em busca de alguém para ajudá-la em seu plano de vingança. Ela faz amizade com Yawarauna e ouve sobre o Escorpião Negro e o contrata. Seu plano é realizar diversas sabotagens nos negócios de contrabando a fim de colocar Molina contra Ambrósio, o Sargento-Mor, e por fim, fazer com que tanto o governador quanto Molina percam a confiança um no outro. Eventualmente, Molina procura o Escorpião Negro para dar cabo do governador.

O problema é que as autoridades, incluindo aí a Igreja, pois um dos atentados foi o incêndio de uma igreja franciscana, pensam que tanto as sabotagens quanto esses atentados são uma coisa só. As investigações revelam a presença de magia, o que leva os Familiares do Santo Ofício a se reunirem e tomarem as rédeas da investigação.

O tempo todo eu usei um garoto para entregar bilhetes (foi assim que Naiara se aproximou de Benedito). Acabou virando uma piada interna do jogo. O garoto viu que o negócio era lucrativo e montou uma rede de mensageiros mirins. Afinal, o mestre também tem o direito de se divertir.

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Published in: on 8 de maio de 2016 at 1:54  Comments (1)