DIÁRIO BANDEIRANTES 25 ANOS

Introdução

Eu já tinha a ideia de fazer uma bibliografia comentada do Desafio dos Bandeirantes, mas aí o Carlos Klimick sugeriu uma espécie de making of. Então resolvi fazer algo no meio do caminho. Não vou fazer um relato de bastidores pois isso envolve outras pessoas. Tampouco farei um adiantamento da nova edição, pois as decisões editoriais que serão tomadas de agora em diante não me envolvem. Portanto, minha exposição nesses diários é particular e não oficial.

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Capítulo 1

O projeto do “Desafio dos Bandeirantes 25 anos” com regras do D&D 5ª edição me pegou no sofá comendo pipoca como todo mundo. As pessoas me perguntavam “o que vai ser?” e eu só podia responder “sei lá”.

Estávamos em fins de 2017. Haveria uma celebração dos 25 anos no Rio Shopping, em Jacarepaguá, no início de dezembro. Logo em seguida teria o lançamento carioca do RPG A Bandeira do Elefante e da Arara na finada Livraria Cultura do Centro. A notícia me pegou justamente lendo a novela do Christopher, que achei muito foda e cuja resenha publiquei aqui.

Em 2016 eu havia feito em meu blog os módulos O Sul e As Missões para Desafio dos Bandeirantes, e também mini-suplementos para Ilha da Páscoa e Colônia do Sacramento. Também transcrevi as anotações da épica bandeira que mestrei entre 1994 e 2000.

Em meados de 2017, após dar de cara com o excelente O Rio antes do Rio, resolvi pesquisar, sem pressa, material para um futuro módulo da Capitania de São Sebastião. Nesse sentido também li o igualmente ótimo 1499 – O Brasil antes de Cabral. Ambos receberam resenha minha na época. E, sem saber o quão inspirador me seria, dei início à leitura dos livros de Alberto Mussa, A Primeira História do Mundo e O Trono da Rainha Jinga, também resenhados. O livro do Christopher parecia uma campanha de RPG romanceada, o que fazia tudo convergir para um fim de ano inesperado.

Paralelamente a isso tudo, resolvi baixar os oito volumes da História da África publicada pela Unesco. Botei na cabeça que deveria conhecer mais sobre a África, pois hoje em dia há tantas narrativas que o desconhecimento nos deixa à mercê de verdadeiras ficções históricas. Já tinha lido o 1º volume (basicamente aspectos metodológicos da obra) e avançava pelo Egito do 2º volume, já fazendo anotações para um longínquo módulo de Continente Negro (vai que eu dure até os 70, né?), quando veio o convite para eu integrar o projeto do “Bandeirantes 25 Anos” em dezembro.

Larguei minhas leituras, larguei minhas séries, sofri por adiar a leitura do segundo volume da série napolitana da Elena Ferrante, virei um estranho para minha própria cama e mergulhei de cabeça no Brasil do século XVII.

A primeira grande questão foi definir se seria um Brasil histórico com fantasia ou se seria a fantástica Terra de Santa Cruz do livro de 1992. Tanto na minha campanha dos anos 90 como em meu blog, já havia optado há muito pela geografia real. A decisão foi manter o cenário fantástico e aproximá-lo mais do cenário e cronologia histórica. Outra decisão foi usar os nomes reais das tribos nativas e dar mais diversidade à cultura negra.

E foi com essas diretrizes que dei início aos trabalhos. Sobre os índios, já havia pesquisado bastante para escrever a parte dos Guaranis para As Missões, e também lido os livros acima citados. Então resolvi partir para preencher a minha principal lacuna: África e as culturas negras.

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Capítulo 2

Em minha missão de desbravar o Continente Negro e sua cultura, sabia que não teria tempo para seguir cronologicamente a minha leitura da coleção de História da África da Unesco, e teria de pular direto do volume 2 para o volume 5. Com medo de perder o rumo nesse salto, senti que era necessário adquirir primeiro uma visão mais geral e sintética do continente.

Foi então que me deparei com A África explicada a meus filhos, de Alberto da Costa e Silva, um livreto curto e fácil de ler. Uma delícia sobre a qual comentei aqui na época. A partir daí, segui em frente.

A facilidade em obter a versão traduzida dos oito volumes da História da África entusiasma o leitor. Já o texto, são outros quinhentos. Escrito em sua maioria nos anos 70, o texto é bastante árido, diferente dos livros de História atuais. É preciso fôlego e paciência. E a própria África também não ajuda: são tantos reinos, etnias, subgrupos, conquistas, migrações… Acompanhar as mudanças em um período de 100 anos é como tentar desenhar a forma das nuvens. Quando você acha que já tá se achando na geografia política e humana, muda tudo. Para 2019, está em meus planos retomar essa leitura de onde parei: lá atrás, do Antigo Egito, dessa vez acompanhado das duas bíblias do Alberto Costa e Silva sobre o assunto.

A princípio, os negros serão representados no livro por três culturas: Banto, Iorubá e Fon. Mas, naquele início de trabalhos, estudávamos a possibilidade de incluir os Malês. Então, de início, usei muito Wikipedia e sites. E me deparei com alguns problemas sérios para a pesquisa.

Primeiro, que os Iorubás, principal referência do jogo anterior e principal referência de religião negra nos dias de hoje, só chegaram pra valer no final do século XVIII. Então, como fazer um jogo de Brasil histórico sem Orixás? Impensável! Essa foi a primeira de outras vezes que o rigor cronológico teve de ser deixado de lado. Os próprios Fon só foram marcantes a partir do século XVIII. Quem dominava na época eram os Bantos. No Rio de Janeiro, eram cerca de 99%.

Segundo, que o domínio do Culto dos Orixás no século XIX foi tão grande que contaminou todas as demais religiões africanas. Pra não falar na influência do próprio Cristianismo em todas elas. Assim sendo, a maioria dos textos falam da atualidade, ou no máximo como era no século XIX e XX. E a única certeza que eu poderia ter é que tudo era diferente, mas muito diferente mesmo no século XVII. Ao mesmo em tempo que isso era um complicador, era também libertador. Os historiadores e antropólogos que eu lia assinalavam esse fato e constatavam que dificilmente haveria como preencher essas lacunas. Sendo o jogo uma fantasia, a possibilidade de recriar essas raízes me pareceu ser a melhor saída. Como essas religiões teriam sobrevivido nos primeiros anos de cativeiro na colônia lusitana?

Primeiro mirei naquilo que mais me oferecia desafio: meu desconhecimento sobre a religião vodum dos Fon. O que mais me incomodava no nosso livro de 1992 era o Feiticeiro Negro. O Feiticeiro de Ferro e Fogo foi uma invenção nossa, pois alguém achou que faltava um personagem de magia mais porrador. O Sacerdote Negro, representando o Culto os Orixás, estava ok. Mas, de última hora, resolvemos retratar uma outra realidade africana, pra dar maior diversidade aos personagens negros, algo que estivesse para o Sacerdote Negro o que o Bruxo estava para o Jesuíta. Um antagonista com magia.

Numa época pré-internet, as possibilidades de pesquisa eram livrarias e bibliotecas. Mas havia também um problema grave: o Carlos Klimick estava indo para os Estados Unidos estudar e não queríamos escrever nenhuma linha do livro sem ele. Então, ainda que a parte sistêmica do Feiticeiro Negro seja a minha preferida (adoro mestrar para esse personagem!), a parte de pesquisa foi nas coxas. Pegamos alguns espíritos de um dicionário de mitologia e inventamos uns dois (salvo engano, Nohrum e Myila). Não que faltasses mais espíritos para usar, mas eles precisavam englobar um determinado leque de poderes pro personagem não ficar desequilibrado em relação aos demais.

Há cerca de dez anos, tirei essa pedra do meu sapato no blog. Ainda assim, estava insatisfeito, pois o personagem, tanto o antigo quanto a minha nova versão, era baseado no vodu haitiano e nos bush negroes das Guianas. Nada a ver com a colônia brasileira. Para a Terra de Santa Cruz, até dava pra passar, mas para o meu cenário mais histórico, tal constatação era um incômodo. Pra se ter uma ideia, o único vodum que sobreviveu do livro original para a nova versão foi Heviosso. Mas, caso cheguemos a desenvolver o norte da Terra de Santa Cruz, velhos conhecidos darão as caras.

O livro que me acendeu a luz de como deveria abordar o tema das religiões africanas foi O Rei, o Pai e a Morte, do antropólogo catalão radicado no Brasil Luis Nicolau Parés. Seu objetivo era justamente buscar as raízes do Vodum na Costa do Ouro, com base na tradição oral e registros históricos. E mesmo assim, o que surge ali é o Vodum do século XVIII (o mais perto que consegui chegar do meu objetivo), e termina com uma esclarecedora comparação deste com o Vodum praticado no Brasil, sendo o mais próximo ao original o da Casa das Minas, em São Luís do Maranhão. Leitura mais do que recomendada.

O rigor da pesquisa e honestidade do trabalho me serviram de norte ao longo de todo o ano de 2018. A partir do texto de Parés fui interpretando tudo o que encontrava na internet sobre o tema, e reformulando para o jogo. Pois, claro, estamos falando de um cenário de fantasia para RPG, acima de tudo.

Resolvido meu carma com os Fon, chegava a hora de encarar os Bantos e, de quebra, os Malês. Ingenuamente, escolhi deixar os Iorubás e seus Orixás para o final, achando que seria mais fácil.

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Capítulo 3

Encaminhada minha pesquisa sobre Vodum, chegara a hora de encontrar meu “carro-chefe” sobre os Bantos. Dei de cara na livraria com um livro que parecia capaz de matar dois coelhos com usa só cajadada: Bantos, Malês e identidade negra, do Nei Lopes, um autor bastante badalado. Mas a leitura me decepcionou um pouco.

Nei Lopes é antes de tudo um artista, e, como tal, a parte do livro que fala da cultura dos Bantos foi bastante inspiradora. Entretanto, no que diz respeito ao conteúdo histórico, achei o texto muito truncado e jogado de qualquer jeito. Talvez o fato de não ser historiador ou antropólogo tenha pesado.

Vou começar pelo mais fácil, os Malês.

Nei Lopes é tão comprometido em sua luta pela valorização da identidade negra que chegou ao ponto de desmerecer a participação dos Malês nas revoltas do início do século XIX. Ele implica com a influência islâmica na cultura negra, o que considera parte do branqueamento cultural. Assim, deixou de citar autores importantes e desprezar documentos essenciais para sustentar sua narrativa.

O texto que me salvou foi Negros islâmicos no Brasil escravocrata, artigo de Lídice Meyer Pinto Ribeiro, publicado na Revista USP n° 91, em 2011. Valeu a pena pesquisar os Malês só por ter lido a história dos sobreviventes da revolta refugiados no Rio de Janeiro.

No final das contas, chegamos à conclusão que os Malês eram um fenômeno muito próprio do século XIX. Além disso, se fossemos usá-los, teríamos também de abordar a religião muçulmana no livro. Ambientar um jogo no século XVII nos dias de hoje já é confuso o bastante pra gente ainda mexer nisso. Por razões semelhantes, apesar de tratarmos dos Cristãos Novos e a perseguição por eles sofridos pela Inquisição, também descartamos o Judaísmo e o Protestantismo como religiões “jogáveis”.

No que diz respeito aos Bantos, o livro foi importante para captar a alma dessa cultura. Quando a gente entra numa pesquisa dessas meio que no escuro, é bom termos um farol, uma luz guia a nos conduzir por outras leituras.

Nei força um pouco a barra ao exaltar a influência dos Bantos em tudo, além do que as fontes primárias permitem. Mas numa coisa ele tem razão: se os Bantos perderam a batalha religiosa para os Iorubás, na cultura eles estão presentes em tudo. Eles são a base da cultura afro-brasileira. Fato que, para mim, apresentou-se um grande desafio: no século XVII, os Bantos eram a maioria esmagadora de negros no Brasil. Eu teria de fazer um trabalho impossível de palimpsesto cultural para restituir aos Bantos o peso que eles tiveram no passado.

Há a teoria que a prevalência do Vodum e dos Orixás sobre as religiões dos Bantos se deveu por elas serem mais estruturadas, pois eram religiões de Estado, enquanto a dos Bantos que para cá vieram refletiam uma estrutura mais tribal, comunitária.

Outros obstáculos se colocavam em meu caminho. Os Bantos que aqui estavam no século XVII vieram em sua maioria do Congo e de Angola. O Reino do Congo aderiu ao Cristianismo assim que os Portugueses por lá chegaram. Angola, na verdade, eram vários reinos. Impossível traduzir essa realidade para o jogo. A solução óbvia era eleger uma corrente e tentar dar um corpo representativo a ela. Mas isso também não foi fácil.

A expressão mais conhecida é o Calundu, devido a um processo inquisitorial. Mas este relato já é muito contaminado pelo Cristianismo. E os Inquisidores não estavam nem um pouco interessados em descrever a estrutura dessa prática religiosa. Alguns artigos acadêmicos foram importantes na montagem desse quebra-cabeça.

A religião dos bantos: novas leituras sobre o calundu no Brasil colonial, artigo de Robert Daibert, publicado na revista Estudos Históricos, vol. 28, nº 55, em 2015.

Revisando o calundu, de Laura de Mello e Souza, a autora de O Diabo na Terra de Santa Cruz, publicado pela USP em 2002.

Filosofia Ubuntu, de Francisco Antonio de Vasconcelos, publicado na Logeion: Filosofia da Informação, v. 3, n. 2, em 2017.

E também o site da Cultura Bantu Afro Brasileira.

De todos essas leituras extraí uma pequena lista de Minkisi, a descrição do mundo espiritual a partir de Nzambi, o Ntu (energia vital) e a importância da ancestralidade.

E então chegou a vez de lidar com os Orixás.

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Capítulo 4

Como escrever sobre um assunto do qual todo mundo parece entender alguma coisa e que tem tantas variantes? Como traduzir essa complexidade para uma forma simples e jogável sem desagradar a gregos e troianos? Esse foi o desafio na hora de pesquisar a principal religião afro da atualidade.

De cara, dei-me conta que o Culto aos Orixás, na época, era um culto reduzido, de caráter local. Tem a dimensão atual porque se tornou dominante em Cuba e no Brasil. No século XIX, negros brasileiros cruzavam o Atlântico para fazer “intercâmbio” em Lagos, na atual Nigéria. Mas, no século XVII, a presença iorubá no Brasil era ínfima. Claro que o preciosismo histórico teve de ser deixado de lado nesse pormenor. Contudo, o problema para a pesquisa se mantinha: caracterizar uma religião sedimentada no século XIX em uma versão factível no século XVII.

Listar os Orixás mais conhecidos foi a parte mais fácil. As fontes virtuais são abundantes. A escolha dos nomes (alguns mudaram de nome no Brasil) foi debatida e votada dentro do grupo de trabalho.

Para driblar o gap de dois séculos, imaginei o desafio que negros recém-chegados do Império Oyo teriam enfrentado para fazer sobreviver sua cultura e sua religião não só em outras terras, mas em meio a uma comunidade negro composta, em sua maioria, por membros de outra cultura. Ou seja, mais do que se preocupar com estruturas, protocolos e códigos, o mais importante seria manter a ligação com seus Orixás.

Um artigo e um livro foram particularmente úteis para estruturar essa parte:

Culto aos Orixás, Voduns e Ancestrais nas Religiões Afro-brasileiras, livro de artigos selecionados pelo sociólogo e historiador Carlos Eugênio Marcondes de Moura. Em um deles, a autora descreve todo o seu processo de iniciação como Iaô.

O objeto do desejo. A identificação do dono da cabeça no candomblé, artigo de Monique Augras e Ângela Maria Correa, publicado na Revista de Psicología General y Aplicada nº 31, em 1979.

A pesquisa rendeu uma espécie de spin-off, que de tão complexo e detalhado deverá ficar para algum suplemento: as sociedades secretas. São elas o Culto dos Eguns, a Sociedade Ogboni e Ìyàmí Oxorongá.

Foi interessante constatar o quão recentes essas religiões podem ser em relação às monoteístas em certos aspectos. Xangô, por exemplo, era um rei possivelmente do século XIII. Voduns cultuados no final do século XVIII haviam vivido no início do mesmo século. A ausência de um registro escrito torna a percepção de uma cultura bem diferente da nossa. Algo ocorrido há 200 anos atrás pode ganhar o peso de algo ocorrido no início dos tempos. E a gente simplesmente não tem como rastrear isso.

Após destrinchar as três etnias africanas e suas respectivas religiões, percebi que estava faltando algo super importante: uma base bibliográfica para a realidade dos negros na colônia. Seria temerário contar apenas com o senso comum e o conhecimento adquirido ao longo dos anos. E aqui entra uma questão de percepção histórica. Como a documentação e iconografia são mais fartas a partir do século XVIII, quase tudo que vem a nossa mente sobre vilas, Brasil colonial e escravos são dos séculos XVIII e XIX. Acontece que no século XVI e XVII o Brasil era outra coisa. A descoberta do ouro mudou tudo, tanto para melhor quanto para pior. O Brasil foi um até 1700 e outro a partir dessa data.

Haveria escravo de ganho no século XVII? Qual o percentual de negros livres? Como era seu cotidiano nas cidades? Quais eram as leis que regiam a escravidão e os negros livres? Teriam os escravos direitos? Quais as perspectivas sociais de um ex-escravo? Nesse sentido, o livro “Escravismo no Brasil”, de Francisco Vidal Luna e Herbert S. Klein, foi bastante elucidativo e didático. Ancorado em fontes primárias, tabelas e estatísticas, ele mostra a presença do negro no Brasil passo a passo ao longo do tempo e apresentando seus desdobramentos sociais, econômicos e jurídicos. Infelizmente, tive de suspender minha leitura antes de chegar ao século XIX, pois não podia me dar ao luxo de sair do foco da pesquisa.

Várias outras leituras contribuíram para o tema, mas com informações dispersas. Livros sobre os quais falarei mais adiante, tendo como escopo a colônia em termos gerais.

Da mesma forma, por meio desses registros eventuais, foram colhidas informações sobre as outras culturas europeias presentes na ambientação: Espanhóis, Alemães, Ingleses, Franceses e Holandeses. Aqui também lancei mão do conhecimento adquirido na pesquisa para o módulo “O Sul” (que pega toda a colonização hispânica do Uruguai, Paraguai, Argentina, Chile e Bolívia).

Sobre os franceses, foi muito oportuno já ter lido sobre as incursões deles no século XVI, tanto no livro O Rio antes do Rio quanto em Os Franceses na Guanabara – Villegagnon e a França Antártica, de Vasco Mariz e Lucien Provençal, também já comentado no Facebook.

O material sobre Cristãos Novos veio da bibliografia relacionada à Inquisição, sobre a qual falarei mais adiante. Só os Ciganos mereceram a leitura de textos específicos:

O Povo Cigano e o Degredo: contributo povoador para o Brasil colônia, artigo de Elisa Maria Lopes da Costa publicado em Textos de História, vol. 6, nº 1 e 2, da UnB, em 1998.

História dos Ciganos no Brasil, artigo de Rodrigo Corrêa Teixeira publicado pelo Núcleo de Estudos Ciganos em 2008.

Como a pesquisa sobre os nativos já estava bem adiantada, o passo seguinte foi dedicado às vilas e ao cotidiano da colônia.

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Capítulo 5

Depois que fiz O Império do Sol, percebi que O Desafio dos Bandeirantes era um jogo sem cidades. Mencionávamos as vilas, elas eram indicadas nos mapas, mas não falávamos nada sobre elas. O jogo em 1992 foi mesmo pensado para reunir um grupo e se mandar pro meio do mato. Creio que isso retrata um pouco a preferência minha e do Klimick por histórias mais aventurescas, enquanto o Ricon tende mais para as intrigas e cenários urbanos. Tanto que realçar o cenário urbano foi uma demanda forte dele para a nova edição.

Eu só fui me dar conta desse meu lado ‘mateiro’ em Era do Caos. Não conseguia me sentir bem mestrando, até que fiz uma aventura inspirada em Antônio Conselheiro e outra em que o grupo produzia uma novela no Pantanal. Essas me deixaram satisfeito, e entendi a razão: eram aventuras rurais.

De fato, o jogo precisa dar azo aos dois estilos. Isso claro, exigiria de mim o mesmo cuidado que tive em O Império do Sol, ao buscar descrever as características mais marcantes daquela sociedade e dar pistas do seu cotidiano, mas dessa vez com o cuidado de não incorrer no mesmo erro.

Eu me senti tão agradecido pelos meses de acolhimento no Consulado Geral do Peru durante a minha pesquisa para O Império do Sol (eu tinha livre acesso à biblioteca, mas não podia levar os livros pra casa – um dia eu conto essa história), que me senti devedor, na obrigação moral de tratar aquela cultura da forma mais fiel e respeitosa possível. E foi então que me senti mal em usar nomes fictícios, cronologia diferente e até mesmo outra geografia. Uma coisa é mexer com a nossa própria história, outra é mexer com a história dos outros. Será que eles entenderiam a proposta? Será que eles se sentiriam ofendidos?

Enfim, quando estamos lidando com uma ambientação de fantasia, excesso de respeito também atrapalha. Em O Império do Sol, na hora de dar aquela apimentada criativa, creio que segurei um pouco a mão. Porém, uma primeira versão mais pé no chão é necessária antes de extrapolar.

E, para chegar nessa primeira versão, seria necessária uma ampla leitura que reunisse aspectos políticos, sociais, econômicos, administrativos, militares, religiosos, cronológicos e geográficos. Fácil, não?

Claro, basta pegar uma pilha de livros sobre a época e ler, anotar, compilar etc. Mais ou menos…

Da mesma forma que, em um filme, não pode haver cena sobrando, um take ou um diálogo que não acrescente nada à trama, em um RPG não deve haver uma informação que não sirva para a criação de uma aventura ou para a construção de um personagem. Reduzir uma ambientação vasta a um número limitado de linhas e páginas já exige muito suor e lágrimas editoriais para perder tempo com o que não vai interessar aos jogadores, só ao entusiasmado autor. Mas não há uma receita pronta pra isso. É preciso saber escolher, e sem jamais poder ter certeza se escolheu certo.

Duas decisões foram importantes para não tornar essa pesquisa uma insanidade: tempo e espaço. No que diz respeito à geografia, ainda que seja a fantástica Terra de Santa Cruz, o recorte seria limitado ao equivalente do sudeste brasileiro (Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo), acrescido do início da colonização do Sul.

Sobre a questão temporal, havia a opção de pegar uma faixa de tempo ou uma data específica. Acho que até hoje isso não ficou muito claro. Há uma data, mas ao mesmo tempo ela pode ser apenas o limite para um período de tempo.

Por quase todo o 1º semestre, prevaleceu que o “Bandeirantes 25 anos” seria em 1675, uma vez que o ano de referência do original era 1650. Apesar da cronologia anterior ser ficcional, a data não foi aleatória: a intenção era pegar uma época em que tanto a presença do negro quanto a do índio tivessem equivalência na colonização. Só que o ano de 1675, dentro de uma perspectiva histórica, não tem nenhum significado particular, mas demoramos a nos dar conta disso. E, ainda por cima, nos obrigava a antecipar dois fatos históricos que queríamos abordar na nova edição: o início da mineração e a Colônia do Sacramento.

Enfim, quando já tinha encerrado praticamente toda a pesquisa com essa data em mente, chamei a atenção para o fato que, se o jogo se passasse nos anos 90, a cronologia ficaria toda redonda. Não me dei conta de que estava arrumando sarna pra me coçar: a concordância foi imediata e ganhei de presente a missão de retocar toda a pesquisa para a nova data.

A nova data escolhida foi 1699. Mais do que uma data de tempo presente, ela serve mais como uma data símbolo, como no livro 1499 – O Brasil antes de Cabral. Como eu disse antes, a partir de 1700 tudo muda. Então a nova edição deveria retratar o crepúsculo de uma época, a Era dos Bandeirantes.

E, não coincidentemente, naqueles anos 90 do século XVII, os bandeirantes foram os principais protagonistas nos três maiores eventos da colônia: a descoberta do ouro mineiro; a guerra contra a Confederação dos Cariris; e a destruição do Quilombo dos Palmares. E tudo ocorrendo ao mesmo tempo!

Dessa forma, os desdobramentos dessas ações, ou seja, a entrada no novo século, ficariam reservados para o desenvolvimento futuro do jogo: o crescimento das cidades mineiras, a descoberta das minas em Goiás e Mato Grosso, o aumento da ocupação no Sul, maior interesse da Coroa nas coisas da terra etc., pra ficarmos apenas nos 50 anos seguintes.

Já deve ter dado pra perceber que dar conta de bibliografia pra tudo isso em e com tão pouco tempo não foi moleza, né?

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Capítulo 6

Minha pesquisa de ambientação sobre o Brasil colonial do século XVII começou com um livro que eu já havia adquirido tendo em vista o desenvolvimento de O Desafio dos Bandeirantes para o meu blog: Histórias da Gente Brasileira Volume 1: Colônia, de Mary Del Priore, uma autora bastante conhecida. Entretanto, o livro me incomodou.

Além de ser uma compilação por vezes desordenada de vários textos sobre o assunto, incapaz de fazer sobressair uma narrativa própria, mistura épocas de forma descuidada. Então, não era uma fonte na qual eu podia confiar totalmente para esse trabalho. Por outro lado, foi essencial para que eu percebesse que tipo de livro eu deveria evitar.

Dentro da proposta enciclopédica do livro da Del Priori, adquiri a História Social do Brasil Volume 1 – Espírito da Sociedade Colonial, de Pedro Calmon, antigo reitor da UFRJ, publicado originalmente em 1935, que me foi muito mais útil. Calmon possui uma escrita empolgada e empolada, o que me divertiu um pouco.

Eventualmente, deparei-me com três preciosas fontes virtuais de pesquisa.

Primeiro, o acervo gratuito de obras que caíram em domínio público.

Segundo, o acervo digital da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, um verdadeiro tesouro para os amantes de História.

Por fim, a Brasiliana Eletrônica da UFRJ, site que disponibiliza o acervo da coleção Biblioteca Pedagógica Brasileira, de publicações históricas dos anos 30 e 40. Esse site não permite download, e o texto aparece todo em caixa alta.

Com isso, a perspectiva de terminar a pesquisa histórica em maio acabou se tornando uma miragem no deserto. Imprimi a lista de obras obtidas e discuti cada título com a equipe para definir quais seriam lidas.

Ler estes livros da primeira metade do século XX é bastante revelador não só quanto à mentalidade da época (há, sim, muito preconceito), mas também para entender como determinadas narrativas entranharam na nossa cultura. Mal comparando, são como os Westerns daqueles tempos, muito mais preocupados em retratar a visão dos vencedores, pois aquele passado ainda era muito vivo para eles. No caso brasileiro, havia na época uma necessidade de consolidar uma identidade nacional e validar diversas mudanças ocorridas no país. Ver o passado por esses autores me deixou muito mais próximo do espírito do jogo do que as obras contemporâneas mais acuradas. É como se os autores antigos vissem a História do ponto de vista dos brancos e os modernos pelo ponto de vista dos negros e índios. Algumas obras contemporâneas, mais fiéis às fontes primárias, conseguem atingir um equilíbrio, tendência que vêm fazendo um bem enorme à historiografia.

Ter a oportunidade de dialogar ao mesmo tempo com essas escolas e construir pontes entre elas como base para uma obra ficcional, podem ter certeza, foi um imenso prazer. Não tem preço!

Sobre o período colonial como um todo, foram particularmente relevantes:

Capítulos de História Colonial (1500-1800), de João Capistrano de Abreu, publicado em 1907.

Expansão Geographica do Brasil Colonial (2ª edição), de Basílio de Magalhães, publicado em 1935.

Sobre a administração colonial do período, sobre a qual eu encontrava dados insatisfatórios, fui agraciado com a Organização Política e Administrativa do Brasil (Colônia, Império e República), de Augusto Tavares de Lyra, publicado em 1941. E, de quebra, o site Memória da Administração Pública Brasileira.

Da mesma forma, sobre a organização militar, fui salvo pelo livro História Militar do Brasil, do polêmico Gustavo Barroso, publicado em 1938. Polêmico atualmente, pois na época ele era considerado um grande luminar, de saber enciclopédico e inquestionável.

Sobre a estrutura militar do século XVII, também foram importantes os seguintes artigos:

Os Corpos de Ordenanças e Auxiliares. Sobre as relações militares e políticas na América Portuguesa., de Cristiane Figueiredo Pagano de Mello, publicado na revista História: Questões & Debates n° 45, da UFPR, em 2006.

Organização militar, poder de mando e mobilização de escravos armados nas conquistas: a atuação dos Corpos de Ordenanças em Minas colonial., de Ana Paula Pereira Costa, publicado na Revista de História Regional, vol 11, n. 2, da Universidade Estadual de Ponta Grossa, em 2007.

Gênese das milícias de pardos e pretos na América portuguesa: Pernambuco e Minas Gerais, séculos XVII e XVIII, de Luiz Geraldo Silva, publicado na Revista de História nº 169, da USP, em 2013.

O universo do bandeirantismo foi explorado a partir de dois livros que nos serviram de base para o livro original, em 1992:

No Tempo dos Bandeirantes, de Belmonte, publicado nos anos 40. Um livro delicioso, que merece ser lido, publicado originalmente em capítulos de jornal.

Vida e Morte Bandeirante, de Alcântara Machado, publicado em 1929, faz uma análise sobre os inventários da época.

Além desses, oriundo dos sites acima referidos, mais duas obras:

História das Bandeiras Paulistas (Leitura Básica), de Afonso d’Escragnolle Taunay, selecionado por Antonio Paim. Baixei dos sites também a obra completa, em dois volumes. Mas a pressão do tempo me fez optar pela versão compacta. O texto original foi escrito entre 1924 e 1936. Para entender o período, é bibliografia essencial.

Bandeiras e Bandeirantes de São Paulo, de Francisco de Assis Carvalho Franco, publicado em 1940.

Enfim, numa orelha de livro que lia sobre a Inquisição, descobri um livro que representava a essência do momento histórico escolhido: 1680-1720: O Império deste mundo, de Laura de Mello e Souza e Maria Fernanda Baptista Bicalho. Laura é autora de O Diabo na Terra de Santa Cruz, e a obra fazia parte da Coleção Virando Séculos, da Companhia das Letras, publicada em 2000. Não tinha como não ler esse livro! E trata-se de um livro curto, rápido de ler, que começa com a morte do Padre Antônio Vieira. Uma grande aquisição para o jogo e para minha biblioteca particular, adquirido no site Estante Virtual.

Para a Capitania de São Sebastião, tive a felicidade de ter na casa dos meus pais uma obra-prima em dois volumes monstruosos, daquela que as pessoas deixam na mesa da sala-de-estar como decoração mas nunca abrem pra ler: Geografia Histórica do Rio de Janeiro (1502 – 1700), de Maurício de Almeida Abreu, publicado em 2010.

Não tenho palavras para descrever o que foi a experiência de ler esse livro. Com base nele, simplesmente sou capaz de reproduzir rua por rua, esquina por esquina, o Rio de Janeiro do século XVII. Sou capaz até de dizer que vivi lá por algumas horas da minha vida. Sensacional é uma ofensa para a excelência alcançada pela obra. Valeu todos os aborrecimentos enfrentados nos últimos meses só por ter tido a motivação de encarar esses dois tomos!

Tendo uma obra tão magnífica para São Sebastião, senti que estava devendo para São Vicente. Afinal, era a terra dos bandeirantes! Então, nos estertores da pesquisa, descobri A Casa da Moeda de São Paulo – a primeira do Brasil e os meios de pagamento emitidos nessa cidade, de Alfredo e Fernanda Gallas, publicado em 2008. Além de ter como foco um período obscuro da história de São Paulo (sobre o qual falarei mais adiante) o livro tapa todos os buracos históricos que eu tinha em minha pesquisa sobre a Capitania de São Vicente.

Hora de tomar um fôlego antes de falar sobre a região mineira e a ocupação dos lusitanos no Sul.

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Capítulo 7

Inicialmente, a proposta da nova edição era antecipar a descoberta do ouro para 1675. Mas até qual momento? Optamos pelo limiar da Guerra dos Emboabas. Quando a data passou a ser 1699 (a guerra foi entre 1707 e 1709), tornou-se algo ainda mais raiz e de acordo com a cronologia histórica: o momento antes do big bang. O governador do Rio de Janeiro havia sido designado pela Coroa para ir até a região e se certificar da veracidade de todos os relatos que chegavam à Metrópole.

O desafio era mapear os arraiais já existentes no período. Nesse sentido, foi primorosa a contribuição o artigo Dilatação dos confins: caminhos, vilas e cidades na formação da Capitania de São Paulo (1532 – 1822), de Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, publicado nos Anais do Museu Paulista, v. 17, n. 2, em 2009, que me serviu de pontapé inicial. Dessa vez, um artigo me serviu de guia.

Pegar referências dessa mineração incipiente não era tão simples, pois a grandiosidade do século XVIII exercia uma força irresistível sobre qualquer relato. Então, nada de livros sobre Minas Gerais, Ouro Preto etc. o Melhor caminho foram os livros sobre bandeirantismo. E um artigo foi particularmente útil: Entradas e Bandeiras nas Minas dos Cataguases, de Maria Leônia Chaves de Resende, apresentado no XXIII Simpósio Nacional de História em Londrina.

Parte importante para o jogo era delimitar e descrever as formas de acesso à região, pois isso certamente era um desafio naqueles anos 1690, e certamente será ainda maior numa ambientação de fantasia.

A pesquisa me apresentou a fatos aos quais nunca havia dado muita importância: já havia sido descoberto ouro no Brasil, e um século antes. Cem anos antes de Ouro Preto, os paulistas já extraíam ouro de diversos pontos da capitania. Uma casa de fundição havia sido instalada em meados do século XVII em Iguape, litoral sul do atual Estado de São Paulo. Muito antes disso havia sido descoberto ouro em Paranaguá e, posteriormente, em Curitiba.

Fala-se muito pouco sobre esse ouro nos livros. Mas, para desenvolver um bom jogo, eu não podia deixar passar essa em branco. Mais uma vez me salvaram os artigos acadêmicos.

As controvertidas minas de São Paulo (1550-1650), de José Carlos Vilardaga, publicado na revista Varia Historia, vol. 29, nº 51, em 2013.

A Cartografia Primitiva da Baía de Paranaguá (Séculos XVI-XVII) e os Limites da América Portuguesa e A mineração aurífera na ocupação do planalto curitibano e litoral paranaense (séculos XVI-XVIII), de Jefferson de Lima Picanço e Maria José Mesquita, publicados respectivamente na Revista Brasileira de Cartografia n. 67/4, em 2015, e na revista Geosul, v. 27, n. 54, em 2012.

O Paraná na História da Mineração no Brasil do Século XVII, de Antonio Liccardo, Arnoldo Sobanski II e Nelson Luiz Chodur, publicado no Boletim Paranaense de Geociências n° 54, da UFPR, em 2004.

E foi nessa luta que cheguei ao já citado livro A Casa da Moeda de São Paulo, que fala sobre a controversa existência de moedas vicentinas cunhadas na capitania.

Esses textos também foram muito úteis na pesquisa da ocupação do litoral sul. As cidades de Paranaguá, São Francisco do Sul, Florianópolis e Laguna surgiram no período.

Reaproveitei também a pesquisa que já havia feito para o meu mini suplemento de Colônia do Sacramento. Para as relações entre Lusitanos e Castelhanos no Rio da Prata, foi inspiradora a leitura de O Comércio Português no Rio da Prata (1580-1640), de Alice Piffer Canabrava, publicado originalmente em 1842.

Para desafogar a minha carga de leitura, alguns tópicos ficaram a cargo do Ricon: pirataria, moedas, pesos e medidas, tipos de luta, armas e embarcações.

E havia chegado a hora de entrar na Igreja…

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Capítulo 8

Se hoje saúde e educação são questões problemáticas no Brasil, imagina no período colonial. Claro que esse não é um tema central para o jogo, mais são detalhes que dão mais densidade ao cenário. E não há como falar em saúde e educação na colônia sem falar nos Jesuítas.

Sobre saúde, tive a felicidade de encontrar os três artigos abaixo:

Doenças entre Indígenas do Brasil nos Séculos XVI e XVII, de Rosangela Baida, publicado na Revista História em Reflexão, vol. 5, n. 9, da Universidade Federal da Grande Dourados, em 2011. Esse artigo lista as doenças já existentes no continente quando os portugueses aqui chegaram, e as doenças epidêmicas trazidas por europeus e africanos. E ainda faz o favor de usar a terminologia da época!

Saúde e Doença no Brasil Colonial: Prática de cura e uso de plantas medicinais no Tratado Erário Mineral de Luís Gomes Ferreira (1735), de Isaac Facchini Badinelli, é um trabalho de conclusão do curso de História da UFSC, de 2014. Este trabalho analisa um livro escrito por um cirurgião-barbeiro que curava e minerava na região mineira. Só fui ter acesso ao original muito depois, mas o artigo já era suficientemente extenso e detalhado pra precisar consultá-lo. Apesar de se referir a experiências do início do século XVIII, pude tirar muito proveito do texto.

As práticas e os saberes médicos no Brasil Colonial (1677-1808), de Ana Carolina de Carvalho Viotti, é uma dissertação de mestrado em História, da Universidade Estadual Paulista, de 2012. Esse texto me deu a visão geral da prática da medicina da época.

Por fim, o livro que destrincha o papel dos Jesuítas na farmacologia colonial: As plantas brasileiras, os jesuítas e os indígenas do Brasil: história e ciência na Triaga Brasílica (séc. XVII-XVIII), de Fernando Santiago dos Santos, publicado pela Casa do Novo Autor em 2009.

A educação da colônia estava inteiramente na mão da Igreja. Sobre o tema, li o artigo O ensino jesuítico no período colonial brasileiro: algumas discussões, de Alexandre Shigunov Neto e Lizete Shizue Bomura Maciel, publicado na Educar n° 31 em 2008, revista da UFPR.

Já a pesquisa sobre a Igreja e as ordens religiosas foi dividida em duas frentes: sobre os Jesuítas e sobre as demais ordens presentes no Brasil do século XVIII.

Já em O Império do Sol vi o erro em ignorar a existência de outras ordens na ambientação, como se por aqui só houvesse os Jesuítas. Perde-se a possibilidade de elaborar tramas muito ricas. E, se fizesse apenas referências a essas ordens, os demais padres ficariam apenas como figurantes sem profundidade, assim como qualquer trama que os envolvesse.

Então, já na época, incluí Agostinianos, Dominicanos e Franciscanos. Dessa vez, fui mais a fundo e só deixei de fora a ordem dos Oratorianos. Agostinianos e Dominicanos não vieram ao Brasil na época, mas havia Franciscanos, Mercedários, Carmelitas e Beneditinos, pra não falar das subdivisões entre Carmelitas e Franciscanos, também incluídos na pesquisa. Pela primeira vez, decidi distinguir também os padres seculares e os padres conventuais.

Para isso, baseei-me principalmente na Internet, começando sempre no Wikipedia e terminando nos sites relativos às ordens. Também não faltou referência às irmandades, particularmente às irmandades dos homens pretos.

Para a estrutura administrativa e hierárquica da Igreja, além da Internet, foi útil o artigo Os Bispos do Brasil e a formação da sociedade colonial (1551-1706), de José Pedro Paiva, publicado no Texto de História, v. 14, n. 1/2, da Universidade de Coimbra, em 2006.

Como já havia feito o módulo As Missões para o blog, essa foi a minha linha mestra. O livro fundamental na ocasião foi Índios e Jesuítas no Tempo das Missões, de Maxime Haubert. Curioso que comprei esse livro antes mesmo da GSA fechar, aguardando o dia em que fosse escrever sobre o assunto.

Mas As Missões fala essencialmente das missões castelhanas. Já ali eu menciono as diferenças com as missões lusitanas. Para me aprofundar nisso (pois a diferença é relevante), a bibliografia foi a seguinte:

Antigos Aldeamentos Jesuíticos, organizado pelo filósofo e teólogo Gabriel Frade, que fala principalmente dos aldeamentos paulistas.

A Grande Aventura dos Jesuítas no Brasil, do jornalista Tiago Cordeiro, que narra a história da Companhia de Jesus através de seus principais expoentes, seguindo até o Papa Francisco. Na verdade, o “no Brasil” do título é enganoso, pois ele não se limita ao país. Assim, fiquei conhecendo detalhes também das missões no Oriente.

Instruções Secretas dos Jesuítas, de Charles Sauvestre, publicado na França em 1862. Esse texto ecoa outro publicado no início do século XVII, Monita Secreta. Trata-se de uma campanha ferrenha contra os Jesuítas devido ao retorno da ordem à França. Na mesma linha tem o Código dos Jesuítas, de Jules Michelet e Edgar Quinet, publicado também no século XIX. A julgar por estes textos, o nome da ordem deveria ser a Companhia de Lúcifer.

Estrutura e organização das Constituições dos Jesuítas (1539-1540), artigo de Cézar Arnaut e Flávio Massami Martins Ruckstadter, publicado na Acta Scientiarum, v. 24, n. 1, da Universidade Estadual de Maringá, em 2002.

Os Tesouros do Morro do Castelo: Ouro dos Jesuítas no Imaginário do Rio de Janeiro, de Carlos Kessel, publicado na Revista de História Regional, v. 2, nº 2, da Universidade Estadual de Ponta Grossa, em 1997. Uma interessante leitura complementar sobre o assunto certamente é O Subterrâneo do Morro do Castelo, de Lima Barreto.

Controvérsias sobre a pobreza: franciscanos e jesuítas e as estratégias de financiamento das missões no Brasil colonial, de Luiz Fernando Conde Sangenis, publicado em Estudos Históricos, vol. 27, n° 53, da UERJ, em 2014. Jesuítas e Franciscanos viviam às turras.

A disputa entre o Bispo franciscano de Assunção, Bernardino de Cárdenas, e as missões jesuíticas do rio da Prata é célebre. Sobre o tema, recomendo a leitura de Legenda Domino Tesorum Ourum, de Sérgio Conde de Albite Silva, e Jesuítas contra Franciscanos, religião e política na Revolução dos Comuneros do século XVII, artigo de Luís Alexandre Cerveira, publicado na Revista Brasileira de História das Religiões, da Universidade Estadual de Maringá, em 2013.

Muitas biografias sobre jesuítas famosos, escrito ainda na colônia, estão disponíveis nas bibliotecas virtuais já citadas. Por ser um jesuítas que viveu na época abordada, dei uma olhada na Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil, escrita por Padre Manoel da Fonseca em 1752.

Uma leitura que certamente há de ser interessante, mas que ficou de fora da pesquisa, é a Vida do Padre José de Anchieta, escrita pelo Padre Pedro Rodrigues em 1607.

Um que ficou de fora da bibliografia, mas que poderia servir a um eventual módulo nordestino, é o surpreendente Relação de uma missão no rio São Francisco, publicado em 1706 e escrito pelo Padre Martinho de Nantes em forma de diário.

Outra novidade em relação jogo original é a inclusão das Ordens Militares, ligadas à Igreja, como a famosa Ordem de Malta, da qual fazia Villegagnon. No Brasil, a principal era a Ordem de Cristo. Mas em Portugal também havia a Ordem de Santiago e a Ordem de Avis. A pesquisa foi feita basicamente por Internet e pelo artigo Em busca da honra: os pedidos de hábitos da Ordem de Cristo na Bahia e em Pernambuco, 1644-76, de Thiago Nascimento Krause, apresentado no XIII Encontro de História Anpuh-Rio, em 2008. Se você quiser travar contato com o que há de mais conspiratório em termos de história colonial, há o livro A Ordem de Cristo e o Brasil, de Tito Lívio Ferreira.

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Capítulo 9

A Inquisição ficou de fora do livro original porque não havia um Tribunal do Santo Ofício no Brasil. Na verdade, um bom pretexto para não avançar nessa discussão na ocasião. Certamente, num mundo onde a magia indubitavelmente existe, a Inquisição operaria de forma bastante diferente, inclusive em seus objetivos. Outra dificuldade é imaginar como alguém capaz de perpetrar tais horrores fosse também capaz de realizar encantos divinos: ou seja, milagres.

Só fui enfrentá-la em O Império do Sol, pois em Lima havia um Tribunal da Inquisição. Não é um malabarismo retórico fácil. Mas, num cenário onde Deus efetivamente existe e ateu não tem lugar, a hipocrisia também deve ser tratada em outro nível. Mas como abordar isso sem ser incoerente com a ambientação ou “passar pano”, tipo: a Inquisição só persegue aqueles que atuam junto às forças demoníacas?

De qualquer forma, no que diz respeito à pesquisa histórica, o foco foi a estrutura do Tribunal, sua hierarquia e funções, modo de operação, abrangência e ramificações políticas. Eu nunca tinha ouvido falar dos Familiares do Santo Ofício até fazer minha pesquisa sobre Colônia do Sacramento. Acredito que eles são as melhores fontes para as tramas, mais do que os padres inquisidores.

O pontapé inicial começou na pesquisa sobre os Ciganos. Vadios, Heréticos e Bruxas: os degredados portugueses no Brasil-Colônia é uma magistral tese de mestrado em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia, elaborada por Geraldo Pieroni em 1991.

O segundo passo foi encarar A Inquisição Portuguesa e a Sociedade Colonial, de Sonia A. Siqueira. A republicação da Fonte Editorial do original de 1978 foi uma das coisas mais toscas que eu já vi no mercado editorial, a ponto de tornar a leitura um desafio. Mas valeu a pena, pois há uma descrição bastante detalhada de toda a estrutura da inquisição portuguesa e a função de cada membro.

Em seguida, o óbvio O Diabo e a Terra de Santa Cruz, de Laura de Mello e Souza, que fez sucesso nos anos 80. Interessante observar que Laura ataca abertamente o livro de Sonia no texto.

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Capítulo 10

No que diz respeito ao livro original, sempre tive uma predileção pelos personagens indígenas. Mas eles tinham nomes de tribos fictícias e, ao contrário dos nomes dos povos do Velho Mundo, sequer eram nomes que remetiam aos povos nos quais se inspiravam (Tupis, Guaranis, Aimorés, Carijós etc.).

Ao falar sobre o resto do continente, chamamos os Incas de Illimanis. E, ao fazer O império do Sol, comecei a me perguntar se essa havia sido uma decisão acertada. Mesmo sendo uma terra fictícia como Westeros ou Terra Média, o paralelismo histórico (e até mesmo geográfico) era óbvio e escancarado. Então, em vez de preservar, não estaríamos ofendendo? Talvez não tanto ao mar, nem tanto a terra, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Realmente não sei dar uma resposta a isso, mas optei em passar a dar o nome certo aos bois.

E, assim, quando desenvolvi O Sul para o blog, desenvolvi 17 tribos distintas. Claro que, num trabalho assim, não dá para dar protagonismo a todas. Mas até para você fazer um NPC decente e crível, é necessária alguma informação. E desse trabalho anterior eu extraí o formato para essa pesquisa.

Os protagonistas de As Missões, os Guaranis, tem uma importância mais marginal no Desafio dos Bandeirantes, mas eles serviram de espelho para os Tupis, inclusive quanto à densidade. A própria pesquisa anteriormente feita sobre os Guaranis recebeu acréscimos.

Os Tupis certamente são os protagonistas entre os nativos da região dos bandeirantes, divididos entre os três subgrupos ali presentes: Tupiniquins, Tupinambás e Temiminós. Para eles, o pontapé inicial já havia sido dado muito antes, na leitura de O Rio antes do Rio, do jornalista esportivo Rafael Freitas da Silva; seguido pelo 1499 – O Brasil antes de Cabral, de Reinaldo José Lopes, editor de Ciências da Folha de São Paulo; e o romance de Alberto Mussa, A Primeira História do Mundo.

Contribuiu também a leitura dos livros A Religião dos Tupinambás e suas relações com a das demais tribus Tupi-Guaranis, de Alfred Métraux, publicado originalmente na França em 1928; e Tratados da Terra e Gente do Brasil, do padre jesuíta Fernão Cardim, escrito entre 1583 e 1606. E também o ótimo artigo A Terra Sem Mal, o Paraíso Tupi-Guarani, de Eduardo de Almeida Navarro, publicado na Revista de Cultura Vozes nº 2, em 1995.

Assim como em O Sul, não seria possível dar protagonismo a todas as tribos da região, ou sequer retratá-las todas. Mais difícil ainda foi dar a cada uma o mesmo grau de profundidade. Impossível, na verdade. Ainda mais considerando que o foco é retratar a tribo como ela seria no século XVII.

Outro problema foi a denominação, pois muitos nomes eram dados pelos colonos ou eram nomes pejorativos dados pela tribo rival. Sempre tentei evita-los, quando possível.

Tive de garimpar muito pela Internet para achar informações sobre as tribos, e até mesmo saber qual tribo vivia onde na época. Muito me auxiliaram os sites dos Povos Indígenas no Brasil, da Comissão Pró-Índio de São Paulo, e Instituto Antropos.

Os Cainguangues deram uma particular dor de cabeça. O nome atualmente adotado foi cunhado por um fazendeiro paranaense (no século XIX, salvo engano). Sobre eles pude recorrer diretamente ao Portal Kaingang.

Também complicado foi ocupar a região dos Campos dos Cataguazes. Até mesmo a existência dos índios Cataguazes não é muito certa. Para isso, foi muito útil o artigo Indígenas na historiografia mineira: estudo de caso, apresentado por Renata Silva Fernandes no XX Encontro Regional de História: História e Liberdade, em 2010.

Se para os Cataguazes eu pude contar com um pouco de liberdade, para os Xacriabás e Maxacalis, demorou mas achei os seguintes artigos:

O Yãmiyxop como forma de conhecimento: formas do imaginário Maxakali, publicado por Rodrigo Barbosa Ribeiro na Avá – Revista de Antropologia, n. 19, da Universidad Nacional de Misiones, em 2011.

Metamorfose na Literatura Maxacali, publicado por Charles Bicalho na Em Tese, v. 19, n. 3, da UFMG, em 2013.

A produção do espaço no território Xacriabá: aldeias Imbaúbas e Caatinguinha, dissertação em 2014 da Escola de Arquitetura da UFMG, escrita por Déborah Cimini Cancela Sanches.

Os Maxacalis revelaram ter um mundo espiritual bastante rico, e para melhor entendê-lo seria necessária uma pesquisa mais aprofundada. Pra piorar, os nomes dos espíritos são impronunciáveis sem um conhecimento e sua língua, gerando dúvidas se seria sensato usá-los dessa forma ou não.

Dois importantes rivais dos Tupis, os Goytacazes e os Aimorés, foram construídos por pesquisa virtual. E adotei a interpretação do Mussa que os Puris e os Coropós são parentes dos Goytacazes. E alguma ligação é sugerida com os Acritós, que entram como mais uma das tribos, conforme a fórmula adotada em O Vale dos Acritós.

Sobre os Puris, em particular, encontrei o artigo Os ìndios Puris do Vale do Vale da Paraíba Paulista e Fluminense, apresentado pelo Coronel Cláudio Moreira Bento no XII Simpósio de História do Vale do Paraíba, em 1995.

Por fim, como a ambientação chegava à Colônia do Sacramento, tive de reaproveitar os Charruas de O Sul. Mas dessa vez pude contar com um reforço de peso, um livro comprado em Montevideo: Nuestro Pasado Indígena, de Fernando Klein.

Chamar o líder espiritual da tribo de Pajé até faz sentido quando estamos no Brasil. Do outro lado da fronteira, não faz sentido algum. Pajé é para Tupis e Guaranis (e mesmo entre estes, há controvérsias). Então busquei o nome específico para cada tribo. Quando não consegui, usei o nome genérico, Xamã. Ainda que, bem sabemos, a origem do termo é longínqua, esse é o termo oficialmente utilizado pelos antropólogos e profissionais do ramo.

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Capítulo 11

Por fim, a cereja do bolo: os mitos e lendas. Acredito que a parte de magia e as criaturas sejam os elementos mais chamativos da ambientação.

No livro original, a nossa bíblia foi o Dicionário de Mitologia de Hernâni Donato, publicado em 1973, que faz um apanhado meio aleatório da mitologia de determinados povos africanos e das três Américas, indo da Terra do Fogo aos Esquimós. O livro era do Carlos Klimick, e consegui adquirir um volume via Estante Virtual.

Como ele é pouco conhecido, alguém passou a dizer que inventamos o Kanaíma. Na verdade, trata-se de uma lenda interessantíssima da Venezuela e Guianas que simplificamos para o jogo. Algumas de fato inventamos.

Touro Negro foi 100% criação nossa. Mas, pesquisando sobre mitos da América Espanhola, descobri uma lenda muito similar. Então nos safamos.

Escorpião Gigante foi uma criatura usada de improviso em um playteste. Como gostamos do resultado, incorporamos.

Cão da Meia-Noite é uma lenda que existe, mas não tem nada a ver com o que está no jogo e sequer é interessante. Já o nome é bem sugestivo, e o usamos para incrementar o rol de criaturas demoníacos.

Ahor existe, é o Ahó-Ahó. Como na época vivíamos preocupados com o preconceito com o qual o jogo poderia ser recebido, acabamos nós mesmos sendo vítimas de uma auto censura. Assim, jogamos um raio gourmetizador na lenda e a rebatizamos de Ahor.

Marajigoana e Jurupari são duas criaturas do livro que nada refletem suas lendas originais. Baseadas em uma e outra frase solta que serviu de inspiração para montar uma essas criaturas. Como a criatura nomeada de Jurupari ficou muito maneira, penei para achar um outro nome que tivesse algum sentido dentro da cultura indígena. Mas achei!

Dessa vez, recorri mais ao Câmara Cascudo: o excelente Geografia dos Mitos Brasileiros, o meu livro favorito sobre o tema, que devorei para fazer o suplemento Lendas, para Era do Caos; e o Dicionário do Folclore Brasileiro, um tijolo considerável, que me lembro de ter consultado na biblioteca da PUC nos anos 90, mas não lembro para qual trabalho.

Também lancei mão da minha bíblia usada em O Sul: Seres Mitológicos Argentinos, de Adolfo Colombres. Muitos mitos da região do Prata são também citados em livros do folclore brasileiro, ou com outro nome ou com uma descrição alternativa.

No livro original, não houve muita preocupação sobre a origem cultural e territorial das lendas. Afinal, não se tratava do Brasil. Então na região dos bandeirantes havia lendas da Amazônia, do Nordeste, do Rio da Prata, indiscriminadamente. Só evitamos as regiões mais diferentes, como Patagônia, Chile, Andes. Dessa vez, a orientação foi para sermos mais regionais.

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Capítulo 12

Quando só faltava entregar a parte de mitos e lendas, o Ricon me disse que pretendia pegar todo o meu material e reescrevê-lo, a fim de dar uma homogeneidade ao texto. Até aí, tudo tranquilo, pois esse era um trabalho que precisava mesmo ser feito em algum momento, pois cada parte foi escrita em épocas diferentes, e algumas estão mais atreladas à pesquisa histórica do que convinha ao jogo. Achei o momento prematuro, mas entendi (ou achei ter entendido) a necessidade da pressa. Mas não supunha o que viria a acontecer, ou melhor, o que já estava acontecendo sem eu saber.

Por mais de nove meses, tivemos reuniões quinzenais que, no meio do ano, passaram a ser semanais, com o início do trabalho nas novas regras. Então um integrante importante do grupo de trabalhos saiu e, de repente, não havia mais reuniões. Ou melhor, as poucas que havia eu não era comunicado, chamado, ou sequer era inteirado do que havia ocorrido. Fossem reuniões com parceiros de trabalho ou com o pessoal da New Order, que eu havia manifestado questão de conhecer melhor e trocar ideias. O meu único contato com a New Order ocorreu no evento comemorativo dos 25 anos do livro, em dezembro de 2017, quando eu nem era parte do projeto, mas fui cumprimentado pelo Anésio e pelo Manjuba como se fosse. Viria a ser, mas ainda não era. Senti-me ligeiramente constrangido por isso.

Fiquei bastante chateado com essa atitude do Ricon. Meu amigo Daniel Og, que trabalhou comigo na Akritó, foi chamado pra fazer a “concept art” e eu nem fiquei sabendo. Soube porque ele se esbarrou por acaso com a minha esposa no CCBB. Aliás, não sabia sequer que já estava sendo feita arte para o livro. Aquela coisa que todo mundo quer ver, imagina então quem participa do projeto, né?

Playteste? Tampouco! Fiquei sabendo que estava rolando pelas redes sociais. E, ainda assim, fiquei na minha.

Foi nesse clima que comecei meu diário. O tom era mesmo de despedida, pois, em um climão desses, não vislumbrava meu futuro trabalhando com o Ricon na franquia, mesmo que isso significasse nunca publicar oficialmente meu material do “Império do Sol” e “O Sul”. Esse tipo de conduta não dá a menor segurança de nada. Aceitei a contragosto o fato de ser rebaixado de autor para pesquisador por meu “parceiro” de trabalho.

Mas, quando estava no meio desse diário, o caldo entornou de vez quando soube que o Ricon estava dando a entender às pessoas que a minha ausência se devia a uma vontade minha, que eu teria me afastado supostamente por ter encrencado com as novas regras (oi?). E, pior, segundo o Ricon, por ele não havia nenhum problema, que ele estava “de boa”.

Aí eu resolvi me incomodar. E pude apurar, com dificuldade, que a ideia era essa mesma: manter-me afastado de todo o projeto até o fechamento do texto e das regras. Que ele ia escrever do jeito dele, da forma que ele achasse melhor, mais adequado ao mercado (seja lá o que ele quis dizer com isso). Que, ou eu confiava nele e aceitava a situação, ou não aceitava e paciência. As coisas iam ser desse jeito porque ele assim havia decidido e ponto final.

Não vou ficar me perdendo em detalhes, que seriam pouco esclarecedores. Com certeza cada um de nós tem sua versão, e, ao ouvir uma, a pessoa pensará ter escutado a história de King Kong. Ao escutar a outra, terá a impressão de tratar-se de Jurassic Park. Em comum, apenas o fato de se passar numa ilha, envolver criaturas gigantescas e pessoas sonhadoras e ambiciosas.

O que me interessa nessa história toda é entender o que faz uma pessoa, em um trabalho em equipe, arvorar-se no direito de fazer e decidir tudo sozinha, sem consultar ou mesmo compartilhar o que está sendo feito. Mesmo havendo diferenças, seja quanto à condução dos trabalhos ou na parte criativa, o que faz um lado se julgar dono de tudo e alijar a outra de todo o processo?

A única explicação plausível que eu encontrei é o fato do Ricon, em agosto de 2014, sem avisar a mim ou ao Klimick, ter registrado a marca “O Desafio dos Bandeirantes” em nome dele, utilizando a arte da Eliane Bettocchi, dando-lhe uma sensação de segurança sobre qualquer projeto futuro. Ele só “lembrou” de nos contar isso no ano passado, dando a entender que tudo havia sido feito recentemente, em 2017. E a justificativa para não ter nos avisado já seria pouco aceitável se vivêssemos numa época em que, para falar com outra pessoa, era preciso esperar mais de uma hora na linha para que a telefonista completasse a ligação. Sendo uma realidade com celular, facebook, whatsapp, sinceramente…

Analisando retrospectivamente, o Ricon sempre agiu se sentindo como detentor da marca. O perfil de “O Desafio dos Bandeirantes” no Facebook é dele, e só dele. E ele o usa como se fosse uma página oficial.

Desde que eu coloquei o meu blog no ar, senti falta de um veículo apropriado para divulgar seu conteúdo e atualizações, mas tive o pudor de não fazer uma página no Facebook com medo que fosse tomado como oficial. Por isso sempre falo “meu” blog, “minhas” regras, “meu” material. Não se trata de arroubo narcisista, mas para deixar claro que não se trata de material oficial. Nem mesmo quando se trata de “O Império do Sol”, que recebeu autorização dos outros autores para ser escrito.

O fato é que, desde o fim da GSA, em meados dos anos 90, o Ricon embarreirou qualquer tentativa de retorno do jogo.

Na época da Akritó Editora, a Eliane Bettocchi, o Carlos Klimick e eu tivemos a ideia de fazer uma nova edição de “O Desafio dos Bandeirantes” com uma abordagem mais histórica e utilizando o sistema de “Era do Caos”. O Ricon vetou o projeto, temendo que isso lhe trouxesse complicações na Devir, onde ele trabalhava (ele encrencou até com o nome da editora, reclamando que a gente devia tê-lo consultado, pois isso poderia prejudicá-lo na Devir). Ficamos tristes e frustrados, mas acatamos o veto, pois o acordo sempre foi “quando um não quer, dois não publicam”.

Esse projeto natimorto, a Eliane e o Klimick desenvolveram e virou “Brasil Barroco, um jogo de Luz e Sombras”, fazendo parte do projeto deles chamado “Incorporais”.

Enfim, “O Desafio dos Bandeirantes” sempre foi uma obra de três pessoas, e nada seria feito oficialmente sem o aval dos três. E, assim, poucos anos depois, o Ricon nos procurou para o projeto “Desafio d20”, que envolvia até autores do Tagmar. Não nos interessamos, mas demos nossa benção. O projeto não engrenou por razões que eu desconheço (ou saiba mais de uma versão, o que dá no mesmo).

Em 2013, Filipe Cunha, do Pensamento Coletivo, me procurou perguntando sobre a possibilidade de relançarmos “O Desafio dos Bandeirantes”. Antes de responder qualquer coisa, claro, repassei para os outros dois autores. O Ricon imediatamente brecou, orientando: “diz pro cara que estamos pensando em reeditar mas que não tomamos a decisão ainda sobre a melhor forma de fazer isso. Agradece o interesse.” Ricon nos disse que vinha recebendo diversas propostas do tipo, mas que ele e a esposa, Maya, estavam pensando num projeto nesse sentido. Chegamos os três a trocar algumas ideias, ficar de nos reunirmos, mas o assunto morreu aí.

No final de 2014, dois eventos simultâneos. Primeiro, o João Pedro Torres me mandou um e-mail pra falar do seu “Sertão Bravio”, pedindo autorização para incorporar elementos de “O Desafio dos Bandeirantes” no jogo. Eu e o Klimick achamos legal, mas o Ricon mais uma vez foi a voz discordante, temendo que isso pudesse nos atrapalhar no futuro.

Nessa discussão, o Klimick contou que foi abordado pelo Anésio sobre a possibilidade de uma edição de luxo de “O Desafio dos Bandeirantes”. E o Ricon, da mesma forma que em 2013, disse que estava trabalhando numa ideia com a esposa, que havia outros parceiros possíveis, como a Retropunk, e deu a resposta padrão dele. Mais uma vez, trocamos algumas ideias, ficamos de nos encontrar… e o assunto morreu. Mais uma oportunidade perdida. Detalhe: na época, ele já tinha feito o registro da marca em nome dele e não nos contou.

Claro que não havia da minha parte e do Klimick nenhum interessante de continuar as tratativas sabendo que o Ricon não toparia. Afinal, “quando um não quer, dois não publicam”.

Em março de 2017, foi a vez da Retropunk nos procurar (uma segunda vez, salvo engano), e mais uma vez o Ricon interviu, dizendo que estava em tratativas com a New Order. Detalhe: no início do mesmo mês, ele havia pagado o primeiro decênio do registro da marca.

Em agosto, o Anésio voltou a procurar o Klimick, e o Ricon mais uma vez pediu pra gente segurar. Então falou da ideia de lançar o livro com regras do D&D 5ª edição, à qual não nos opusemos.

Como eu vinha embalado com o trabalho de “O Sul”, publicado no blog no 2° semestre de 2016, e em meados de 2017 começava a esboçar um suplemento para São Sebastião, pois queria dar à região dos Bandeirantes a mesma qualidade de pesquisa que eu dera às outras regiões, comentei com o Ricon o quanto eu queria trabalhar na ambientação da nova versão.

Em novembro, fomos surpreendidos com tudo já acertado com a New Order, sem nos consultar previamente e sem a nossa participação. Ou seja, poderíamos ter acertado com a New Order no início de 2015, e agora ele dizia que isso ocorria “graças aos seus contatos e tratativas”…

Por cinco anos declinamos de todos os convites porque o Ricon sempre tinha um plano mais ambicioso, e respeitamos a vontade dele. Ele só aparecia para falar desse plano o suficiente para travar qualquer negociação com uma editora que nos houvesse procurado diretamente, e depois sumia (fiquei sabendo esse ano que a AVEC também o procurou e ele recusou a proposta sem nos consultar). E tudo isso para, no final, ser tudo planejado sem a gente.

Enfim, acabei entrando no projeto no final de 2017, sendo necessária até uma espécie de “entrevista de emprego”. Esse início serve como pista para o fim que teve isso tudo.

Eu não tenho pretensão de saber qual é a melhor estratégia para uma nova edição do Bandeirantes, pois não tenho bola de cristal. Mas eu sei o que é “O Desafio dos Bandeirantes”.

O Bandeirantes, para mim, sempre significou o prazer de fazer, de trabalhar com esse tema (creio que para mim e para todos que se sentem ligados ao jogo de alguma forma). E, mais do que tudo, a amizade entre três amigos de escola. Sem esses elementos, é um texto feito para um blog ou mais um genérico na prateleira. Pouco me importa se minha pesquisa está sendo usada, se minhas ideias serão aproveitadas ou não, ou se vou deixar de ganhar dinheiro em um site caça-níquel. Não é isso o que me importa. Bandeirantes não é jogo de intriga, de conspiração ou de facada nas costas. Isso é outro jogo, do tipo que eu não curto.

O Ricon é um cara muito inteligente (ninguém faz o que ele fez sem sê-lo) e muito capaz. Ao lado dele, nas regras, está trabalhando o Arthur Werneck, indicado por mim, um fã do jogo. Não tenho duvidas de que a New Order terá um bom livro nas mãos. Mas não será “O Desafio dos Bandeirantes”.

“O Desafio dos Bandeirantes está voltando…” pra mim soa como propaganda enganosa. Sei que para o público não fará diferença (ninguém quer saber como são feitas as salsichas), mas não gostaria que o livro fosse publicado dessa forma, quebrando um acordo de mais de 20 anos: “quando um não quer, dois não publicam”. Infelizmente, compromisso ético não é para todos. Melhor teria sido deixar o livro quieto em 1992, a forma mais digna de preservar esse marco do RPG nacional.

Anexo 1 – O Império do Sol

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Muitas coisas poderiam ter sido feitos na esteira do livro básico de O Desafio dos Bandeirantes: livro de aventuras, módulo de expansão, suplementos à ambientação. E, de tantas opções para expansão, por que eu fui escolher O Império do Sol?

Certamente, não foi por fins comerciais. Essa é uma falha minha. Não consigo fazer nada inspirado por interesses comerciais. Nem mesmo amizade. Se fico amigo de alguém que pode me abrir portas, para mim é como se uma porta se fechasse.

Quando eu era criança, ganhei da minha mãe uma enciclopédia juvenil. Em um dos volumes, havia uma foto de duas páginas de Machu Picchu. Aquela foto me deixou chapado, e jurei que um dia ia conhecer aquele lugar. Depois meus pais compraram uma nova edição da coleção histórica da Life, e nela havia um volume sobre Civilizações Pré-Colombianas, o que fez eu me inteirar mais sobre o tema. E não preciso dizer que minha revista predileta do Tintim na época era O Templo do Sol.

Enfim, levei 30 anos para conhecer Machu Picchu ao vivo e a cores, mas posso dizer que, uns 13 anos antes, conheci-a muito bem à distância, antes da Internet e dos Google Maps da vida. Ao chegar nas ruínas, tinha uma boa noção para onde ir.

Tudo aconteceu no primeiro semestre de 1994. Nem sei se cheguei a buscar alguma coisa em biblioteca ou quem me sugeriu buscar o consulado do Peru, que fica na avenida Rui Barbosa, no bairro do Flamengo, em um apartamento de andar inteiro. Inicialmente fui atendido com frieza. A secretária me mostrou um quartinho logo ao lado da entrada, que devia ser a antiga chapelaria do apartamento. Estreito, sem janelas (no máximo um basculante alto para o hall) e nem muito profundo. Havia estantes tomando as duas paredes laterais, e, ao fundo, uma mesinha e uma cadeira. Fiquei horas ali folheando todos os livros e analisando minhas possibilidades. Tive certeza que, com aquele material, meu livro estava garantido. Só tinha um problema: nenhum livro poderia ser tirado de lá.

Do segundo dia em diante, o tratamento passou a ser outro. Passei a ser recebido com sorrisos e regalias crescentes. Minha rotina era pegar carona com meu pai, que me deixava por ali por volta das 11 da manhã. E saía, inicialmente, no final da tarde. Posteriormente, tarde da noite. Chegou ao ponto do Vice-Cônsul se despedir de mim, me deixando sozinho com a copeira, uma negra peruana chamada Tereza, que ficava fazendo a limpeza. Então ela vinha me servir misto quente e Coca-Cola. E eu, que não queria deixar uma migalha sequer na minibiblioteca, não levava sequer um biscoito. Minha única refeição era uma barrinha de chocolate branco que ia consumindo ao longo do dia com muita parcimônia, deixando derreter na boca. E era branco pra não correr o risco de borrar algum livro. Isso durou de três a quatro meses.

Abaixo a lista do material consultado in loco:

Artesanatos, transaciones, monedas y formas de pago en el mundo andino: siglos XV y XVI – Tomo I, do etno-historiador Waldemar Espinoza Soriano. Esse livro me deu informações sobre toda a estrutura financeira do Vice-Reino.

Documental del Perú – Enciclopedia Nacional Básica. 25 volumes. Cada volume era um livreto sobre um departamento peruano (o equivalente ao nosso estado). Incluía detalhes sobre cultura, geografia, história e lendas. Só estava faltando um volume, já não me lembro de qual departamento.

El mundo andino en la época del descubrimiento, elaborado pela Comissão Nacional Peruana do V Centenário do descobrimento.

Gran Geografia del Perú – Naturaleza y Hombre. Trata-se de uma obra em três volumes. Utilizei o Volume 1, Geografia física / Geologia, e o Volume 3, Fauna, de onde eu pude extrair todas as informações possíveis sobre a fauna peruana e sua distribuição territorial, bem como sobre os diversos ecossistemas do país, que é bem diversificado.

Historia del Tahuantinsuyo, da renomada historiadora Maria Rostworowski de Diez Canseco. Uma grande fonte sobre a época incaica.

Tradiciones Peruanas Volumes 1 e 10, e Tradiciones Peruanas (Selección), do escritor e político Ricardo Palma. Essa é uma obra clássica, de contos históricos. Comprei o original muitos e muitos anos depois.

Teatro Quechua Colonial – Antologia, uma compilação da dramaturgia quéchua na época colonial.

Pequeña Antologia de Lima (1535 – 1935), do historiador, diplomata e senador Raúl Porras Barrenechea, publicada em 1935. Trata-se de uma compilação de ensaios, crônicas e tradições limenhas publicadas ao longo de quatro séculos.

Por fim, os volumes 1 e 2 de Historia general de los peruanos (11ª edição), que balizou historicamente toda a minha pesquisa.

O primeiro volume era El Perú Antiguo, escrito pelo antropólogo, arqueólogo e historiador Federico Kauffmann Doig. O segundo volume, El Perú Virreinal, foi escrito por Raúl Porras Barrenechea (já devidamente apresentado), pelo historiador e sacerdote jesuíta Rubén Vargas Ugarte, e pelos historiadores Luís A. Pardo, Enrique Docafe e J. M. Valega.

Pois bem, na época não tinha tablet, notebook, nenhuma dessas facilidades. Era tudo anotado em caderno mesmo. Certa noite, estiquei do consulado direto pro Baixo Gávea. Carregava comigo uma pasta azul com meu caderno de anotações, uma agenda com um marcador de livros do Spock, que o Klimick havia me dado de presente, e um rolo de papel higiênico para “eventualidades” (item necessário para quem mora em Jacarepaguá e passa o dia inteiro fora de casa).

Pois bem… Àquela altura eu já havia devorado todos os dois volumes da Historia general de los peruanos e já estava em outras publicações. Provavelmente já com um mês de pesquisas nas costas. Estava sentado com amigos em um daqueles bancos do BG. Saímos andando e, a certa altura, dei falta da pasta. Voltei correndo, mas a pasta não estava mais lá. Desespero!

Quando voltei ao consulado, contei a minha história triste e eles ficaram penalizados, a ponto de liberarem os dois volumes da Historia general de los peruanos para eu tirar xerox. Não me lembro quanto tempo se passou (no mínimo duas semanas) para alguém entrar em contato dizendo que havia encontrado minha pasta. Ela morava na Gávea mesmo, rua Major Rubens Vaz. Justificou a demora por ter viajado logo depois de ter encontrado a pasta.

Provavelmente alguém a afanou pra procurar algo de útil e a deixou largada em outro banco. Mas a razão dos dois itens faltantes permanece um mistério: o marcador do Spock e o papel higiênico.

Enfim, terminei a pesquisa e me despedi emocionado do pessoal do consulado. Finalizei o trabalho com o material que tinha em casa, compilei tudo como um “Dossiê Peru” e imprimi duas cópias para, junto com os outros autores de O Desafio dos Bandeirantes, transformá-lo em um módulo do jogo. Para minha frustração, nenhum deles se interessou. Então tive de me virar sozinho. Coisa que nunca havia feito ou gostado. E continuo sem gostar.

Terminado o trabalho, imprimi, de novo, duas cópias para os dois, aguardando algum retorno crítico, sugestão de mudança etc. Nada. Nenhum feedback. Só me restou, então, entregar pra GSA do jeito que estava, no aguardo de alguma orientação editorial. A resposta da editora foi no sentido de que o material parecia ser um novo livro-básico, e que eles haviam decidido não publicar mais nenhum jogo novo, que Millenia seria o último.

Assim, todo esse material serviu apenas para apimentar minha campanha de sete anos de Bandeirantes. Quando terminei minha campanha (inacabada), por volta de 2001, nunca mais mestrei. Até que, em fins de 2007, a minha esposa me convenceu a montar um grupo pra apresentar RPG a uma amiga minha do trabalho, cujo irmão jogava quando garoto, mas sempre a deixava de fora.

Com esse retorno ao jogo, me empolguei e decidi disponibilizar todo o material de O Império do Sol em um blog, junto com todas as alterações nas regras que eu havia feito ao longo de todos esses anos. Algumas, inclusive, para serem publicadas em O Império do Sol, e que foram divulgadas em 94/95 no site do Emerson Costa, um antigo entusiasta paraense do Bandeirantes.

O que eu fiz para essa nova edição de O Desafio dos Bandeirantes pode ser mais do mesmo na vida de um acadêmico, mas pra mim foi uma conquista. Ainda mais considerando que eu tenho de dar conta de um trabalho regular e ter casa e família pra cuidar. Pra não falar que a idade já não me permite mais varar noites insones (para cumprir um deadline na época da Akritó, trabalhei direto de quarta a sexta-feira, só parando para comer e ir ao banheiro). Eu realmente não me sentia capaz de fazer o que eu fiz. E nem me dei conta do que eu estava fazendo. Isso teve um impacto positivo na minha vida. Afinal, sempre me considerei um leitor lento e preguiçoso, excessivamente distraído.

E o que mais me surpreendeu foi que, por um momento, eu cheguei a acreditar que havia sido a primeira vez que tivesse feito algo do gênero. Mas, não. Foi naquele semestre de 1994, no Flamengo, naquele quartinho do Consulado Geral do Peru. Por que, então, em todos esses anos, eu não fui capaz de perceber aquele período da mesma forma, como uma conquista? Talvez a indiferença e a não publicação do material me tivessem feito vivenciar tudo como um fracasso. E, ainda que posteriormente tivesse me reconciliado com esse passado, sequer cogitei em tirar disso alguma lição de vida ou incentivo.

Anexo 2 – O Sul

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Por volta de 2015/2016, quando vi que algumas pessoas tinham se dado ao trabalho de organizar o material de O Império do Sol para pdf, tive a ideia de continuar o trabalho. Meu sonho, desde o início, lá em 1992, era completar todas as regiões da Terra de Santa Cruz descritas no livro básico, e, quem sabe, partir para o Continente Negro. Mas essa ideia de avançar não veio assim do nada.

Eu tinha aquele ótimo livro sobre as Missões mofando na estante. Havia, de impulso, comprado um livro sobre mitologia argentina em uma das minhas viagens a Montevideo (a família da minha esposa é de lá). Por fim, na minha campanha dos anos 90, eu havia pesquisado lendas da Patagônia para um trecho dela. Percebi que já tinha material para alguma coisa.

Logo me dei conta que toda aquela região – Chile, Bolívia, Argentina e Paraguai – era indissociável, e acabei abarcando tudo. Mas como não havia, dessa vez, nenhuma expectativa de publicação, a pesquisa foi menos rigorosa e quase toda feita por Internet.

De material específico, encontrei em pdf:

Los Aónikenk – Historia y Cultura, de Mateo Martinic, publicado em Punta Arenas.

Los Brujos de Chiloé. Célebre Proceso del Juzgado de Ancud. Declaraciones e los reos é o registro histórico de um julgamento ocorrido em 1880, publicado em Santiago do Chile em 1908.

Los Chono y los Veliche de Chiloé, investigação histórico-etnográfica realizada pelos professores Renato Cárdenas, Dante Montiel Vera e Catherine Grace Hall, publicada em Santiago do Chile. O estudo analisa os povos de Chiloé e demais ilhas da região.

El Mundo Espiritual de los Selk’nam – Volumen 1, publicado originalmente em Viena, em 1931, foi escrito por Martin Gusinde, padre austríaco e etnologista. Seu trabalho destrincha a cultura dos nativos da Terra do Fogo.

Os Chiquitano de Mato Grosso: estudo das classificações sociais em um grupo indígena da fronteira Brasil-Bolívia, artigo de Renata Bortoletto Silva, da USP. Os Chiquitanos são protagonistas da maior experiência missionária depois das missões do Sul. E foram as únicas que se mantiveram prósperas após as expulsões dos Jesuítas.

Também foram bastante úteis os sites Diccionario de Historia Cultural de la Iglesia en América Latina, Voces de la Tierra e Tempo Ameríndio, além do que já foi mencionado sobre os Guaranis e as Missões.

Às vezes me perguntam por que eu não publico todo esse material, por que não faço print on demand… Talvez eu faça um dia. Quem sabe quando eu terminar toooooda a Terra de Santa Cruz. Por enquanto, encaro tudo isso como um trabalho eternamente em andamento. E sem fins lucrativos.

Além do mais, toda vez que penso em tentar ganhar algum dinheiro com isso, mais atrapalha do que ajuda. Por mim, qualquer publicação ou iniciativa relacionada a O Desafio dos Bandeirantes poderia ter sua renda revertida a alguma causa nobre confiável. Sinceramente, trabalharia (e pesquisaria) feliz assim, pois, para mim O Desafio dos Bandeirantes sempre teve a ver com o prazer de fazer.

Quando o dinheiro entra em campo, as pessoas começam a se tornar mesquinhas, preocupadas em agradar, pensando no que “o mercado está pedindo”. Creio que um trabalho que mira o público, o mercado, tende a ficar datado. Não creio que, se o livro de 1992 tivesse sido escrito com essas preocupações, ele teria virado um cult. Aliás, nem teria sido sobre folclore brasileiro.

Na proposta imaginada para o financiamento coletivo dessa edição de 25 anos, a ideia era alternar um relançamento com um material novo. Ou seja, alternadamente com O Império do Sol, O Sul e As Missões, viriam um novo Quilombos da Lua e um novo Vale dos Acritós, levando também em consideração a passagem do tempo. Haveria também uma nova versão para A Floresta do Medo / O Engenho. E as ideias não param por aí: “O Desafio do Sertão”, “A Grande Floresta”, vilas, piratas etc.

Published in: on 2 de fevereiro de 2019 at 2:32  Comments (2)