ERVAS E POÇÕES

Alma de Gato

Região: Província do Guayrá.

Algumas tribos guaranis próximas ao rio Paraguay conhecem o segredo da Alma de Gato, a planta que nasce onde está enterrado o pássaro de mesmo nome. Uma folha dessa planta concede a quem a come o poder da invisibilidade. Mas não tornará invisíveis as roupas que veste. Tampouco terá seu usuário controle sobre a duração do encanto, que pode durar 1d6 horas.

Só adquire essa essência mágica as plantas que crescem naturalmente, de forma que são bem raras e pouco conhecidas.

Anuntuhue

Região: as ervas necessárias para sua elaboração são encontradas nas serras da Terra dos Araucos e na Ilha de Chiloé.

Poção venenosa composta por ervas e ossos humanos moídos. Seu efeito letal é fulminante, fazendo a pessoa secar até a morte.

Seu efeito será sentido em 1d6 rodadas após tomar a poção. A partir deste momento, o personagem estará morto em 1d6 + 4 rodadas. O uso imediato de 20 pontos de Cura poderá interromper o processo. Mais 10 pontos diários, ao longo de três dias, eliminará os efeitos da poção no corpo.

Ervas Chilotes

Região: Ilha de Chiloé.

Em Chiloé há muitas ervas medicinais e ervas próprias para determinados rituais. A ilha é repleta de plantas venenosas, seja por sua condição própria ou por dosagem.

Pillunchucao

Região: Terra dos Araucos, Ilha de Chiloé, províncias de Concepción, Chillán e Santiago.

Conhecida entre os Mapuches como erva dos ladrões. A poção (um simples chá feito com essa erva) tem um duplo efeito sobre quem a ingere: concede +3 pontos na Sorte e dá à pessoa uma autoconfiança exagerada no sucesso da empreitada, seja lá qual seja. Argumentos e chamadas à razão não adiantam. A pessoa tem convicção de que tudo dará certo e agirá sem medo. O efeito durará por toda a cena, desde que a poção não seja tomada muito tempo antes da ação.

Tabaco de Caraí Katú

Região: Chaco Boreal.

Antes de partir para Terra sem Mal, o poderoso Caraí Katú semeou plantas de tabaco que podem ser usadas pelos pajés em seus exercícios espirituais. A localização do pequeno plantio encontra-se desconhecida. Segundo a lenda que corre entre os Guaranis, seu fumo teria o poder de cura e sua fumaça, quando muito densa, seria capaz de abrir um portal para o plano astral.

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Published in: on 22 de setembro de 2016 at 17:43  Deixe um comentário  

ILHAS SEBALDINAS

Essas ilhas do Atlântico, cerca de 550 km a és-nordeste da Terra do Fogo, receberam visitas de índios daquele arquipélago, mas que não se fixaram no local. No século XVI, recebeu visitas de Castelhanos e Britânicos. Um dos navios que acompanhavam o bispo Plasencia Carvajal, após uma tempestade no estreito da Terra do Fogo, acabou ancorando no arquipélago, onde permaneceu por quatro meses até terminarem os reparos. Mas a primeira visita documentada foi a do capitão holandês Sebald de Weert, em 1600, que acabou dando o nome ao arquipélago de Sebaldinas aos mapas da época. Entretanto, a ilha permanece desabitada no século XVII, apesar de sucessivas visitas de Castelhanos, Britânicos, Holandeses e Franceses.

No século XVIII, os Franceses tentam ocupá-la, fundando Port Saint-Louis, com 115 colonos. Dois anos depois, a Coroa francesa aceita os protestos dos Castelhanos e evacua a vila mediante indenização. Os Castelhanos transformam a vila em Nossa Senhora de La Soledad, sede do governo.

Na mesma época, em outra ilha do arquipélago, os Britânicos fundam Port Egmont. Após sucessivos conflitos, eles se retiram, mas sem abrir mão dos direito à ilha.

Em 1780, o então Vice-Rei do Rio da Prata manda destruir de vez a cidade britânica e constrói um presídio. Um acordo assinado em 1790 obriga os Britânicos a reconhecerem a posse castelhana. Os Castelhanos adotam o nome francês para as ilhas, Malouines, que vira Malvinas.

Geografia e Fauna

O arquipélago é formado por mais de 200 ilhas, das quais se destacam a Gran Malvina (ocidental) e La Soledad (oriental). Composto por terrenos rochosos cobertos de pasto e musgo, suavemente montanhoso, com penhascos e planícies onduladas, repletos de charcos ricos em turfas, e antigos glaciais que formam rios de pedra. A neve é rara e não se acumula, mas pode nevar por 10 meses. Os ventos são frequentes, particularmente no inverno, e chove em mais da metade do ano.

O arquipélago abriga muitos mamíferos e aves marinhos. O único animal original das ilhas é a Raposa das Malvinas (um tipo e Lobo-Guará), com 90 cm de comprimento, pelo castanho e cauda acinzentada. Vive em bandos e é dócil com os humanos, mas terrível com o gado.

O Inquilino

Quando os brancos botaram os pés nas ilhas, não encontraram nenhuma tribo nativa, nem sinais de ocupação, exceto por duas canoas abandonadas em uma praia, já muito deterioradas. Muitos anos antes, um poderoso feiticeiro Selknam foi condenado ao exílio e levado à ilha.

O feiticeiro havia sido um grande Kon (xamã) que teve um papel fundamental em um conflito entre os Selknam e os Yámanas em um período de inverno muito rigoroso, onde a alimentação tornou-se perigosamente escassa. Com o passar do tempo, no entanto, começou a se considerar o próprio Deus dos Onas, e não apenas um mediador entre os grandes espíritos e a tribo. Enlouquecido, mas de enorme poder, era impossível contê-lo por muito tempo. Porém, devido aos seus feitos em benefício da tribo, foi considerado tabu matá-lo. Com a ajuda dos Yacamouch (feiticeiros), os Selknam conseguiram colocá-lo para dormir, enfiaram-no em uma canoa e o levaram até uma distante ilha deserta (Gran Malvina). O feiticeiro nunca mais foi visto, assim como os bravos guerreiros que o levaram.

Published in: on 22 de setembro de 2016 at 2:01  Deixe um comentário  

TERRA DO FOGO E DO GELO

A Patagônia Austral é constituída de um arquipélago no qual habitam três diferentes etnias: os Selknam, os Yámanas e os Kawésqar. É o último ponto da Terra de Santa Cruz a ser habitada pelo homem branco, ainda que tenham atravessado seus estreitos com certa intensidade, com uma única tentativa trágica de colonização.

Geografia e Fauna

O arquipélago é dominado pela grande ilha que dá nome ao conjunto composto por dezenas de ilhas de tamanhos bem variados. As ilhas voltadas para o Pacífico e ao sul da grande ilha, incluindo o sul desta, são dominadas pelo relevo das cordilheiras, com montanhas altas de neve perpétua. Não há planícies, mas vários vales cobertos por bosques, entremeados por lagoas e pântanos. As costas são rochosas e escarpadas, sem formação de praias, com águas profundas mesmo próximas ao litoral.

Já a ilha principal, excetuando-se a já mencionada parte sul, apresenta baixa altitude, um relevo monótono semelhante à Patagônia continental, mas coberto por bosques. O clima é seco e quase sem nuvens. No fundo dos vales abundam lagos e charcos.

As ilhas voltadas para o Pacífico, onde vivem os Kawésqar, sofrem de constante mau tempo, chuvas intensas e céu nublado. São assoladas por um vento contínuo e com pouca variação de temperatura ao longo do ano. A fauna é basicamente de pássaros e animais marinhos. As ilhas do sul, mais próximas do Atlântico, onde se concentram os Yámanas, apresentam um clima menos inclemente.

A grande ilha, onde predominam os Selknam, abriga manadas de guanaco, umas poucas espécies de roedores, o huillín (uma nutria nativa), diversas aves, incluindo o condor, além de vários animais marinhos que chegam a suas praias. O zorro colorado da Terra do Fogo é bem maior que seus parentes da Patagônia. Os répteis estão representados por uma única espécie de lagartixa, assim como os anfíbios se resumem a uma pequena espécie de sapo.

O clima é subpolar, com verões curtos e frescos e invernos longos, úmidos e moderados. O nordeste da ilha é marcado por fortes ventos e poucas chuvas. O sul e a costa ocidental são úmidos e brumosos, com muito vento e poucos dias sem chuva, granizo ou neve. A temperatura média apresenta pouca amplitude ao longo do ano, variando entre 0º e 10° C. Algumas áreas do interior da Terra do Fogo possuem clima polar, chegando a 10° C negativos.

Os Exploradores

Quando o lusitano Fernão de Magalhães, em 1520, passou pelo estreito que separava o arquipélago do extremo sul do continente, conhecido então como Cola do Dragão, avistou as fogueiras dos Selknam no alto das falésias, dando àquela região gélida o insólito nome de Terra do Fogo. O fogo era aceso por uma pirita de ferro facilmente encontrada em uma ilha na saída do estreito, compartilhada por Yámanas e Kawésqar. A frota lusitana avistou também milhares de pinguins e muitas baleias. O próximo a passar pelo estreito foi o corsário britânico Francis Drake, em 1577, que teve um navio avariado e, nessas circunstâncias, travou contato com os Yámanas.

Em 1540, o bispo Plasencia Carvajal partiu para o estreito com três navios. Ao lá chegar, uma tempestade separou as embarcações. Uma delas conseguiu atravessar o canal e chegar à Nova Castela. Outra perdeu o rumo e chegou às ilhas Sebaldinas, onde ficou ancorado por quatro meses fazendo reparos. A terceira afundou.

Em 1584, Pedro Sarmiento de Gamboa fundou a Cidade do Nome de Jesus na ponta continental atlântica do estreito. A ideia era criar duas vilas com 350 pessoas e 400 soldados cada, a fim de evitar o uso do estreito por estrangeiros. Depois de 10 dias às voltas com o mau tempo, houve um motim e três embarcações se retiraram. As pessoas que embarcaram na futura colônia estavam em péssimo estado. Posteriormente, os soldados marcharam por terra até quase o final do estreito, chegando a enfrentar alguns Aonikenkes pelo caminho, com o objetivo de fundar a Cidade do Rei Felipe.

Após erguer os dois assentamentos, Gamboa voltou à Metrópole para buscar mais recursos e colonos, mas teve muitas dificuldades, chegando a ser preso, só retornando em 1590. Nesse meio tempo, os colonos de Nome de Jesus enfrentaram dificuldades de arrumar alimento e decidiram abandonar o local, marchando rumo a Rei Felipe. Os colonos e os poucos soldados que ali estavam foram morrendo de fome no decorrer da marcha. Um dos colonos foi resgatado três anos depois pelo corsário inglês Thomas Cavendish. Os outros 20 sobreviventes não puderam ser resgatados devido aos fortes ventos.

Ao passar por Rei Felipe, Cavendish só encontrou cadáveres, batizando o lugar de Porto da Fome. Pouco antes, um sobrevivente de Rei Felipe havia sido resgatado por outra embarcação inglesa.

Poucos anos depois, o pirata holandês Olivier Van Noort aportou em Porto da Fome e o usou como base para explorar a região, combatendo Selknam e Kawésqar. O imediato de Van Noort tentou desertar levando um dos navios, mas foi traído por seus homens e abandonado em Porto da Fome quando os holandeses deixaram a região.

No século XVII, passam pelo arquipélago uma expedição holandesa em 1615-1617; a expedição dos irmãos Garcia de Nodal em 1618-1619, que entram em contato com os Mánekenks; a Frota Nassau em 1624, de Jacob de L’Hermite, que tem um contato mortal com os Yámanas; e a expedição do pirata holandês Hendrik Brouwer, em 1642, rumo à Terra dos Araucos.

A Frota Nassau, ao descer em uma ilha para pegar água e lenha, teve 19 tripulantes retidos em terra devido ao mal tempo repentino. Os Yámanas, que até então os ajudavam, atacaram e mataram 17 deles, sendo que cinco quedaram esquartejados na praia e os outros doze foram levados. Apenas dois sobreviveram.

No século XVIII, navios da Coroa Britânica exploram o estreito e são combatidos pelo futuro Vice-Rei de Nova Granada. Nesta época começam as expedições científicas, responsáveis por divulgar no Velho e no Novo Mundo a riqueza da fauna marinha na região. Assim, em poucas décadas chegam os primeiro baleeiros. Em 40 anos a matança é tanta que prejudica a alimentação dos Yámanas e Kawésqar.

Terra Australis Incognita

Três navios saem de Valparaíso sob as ordens do Vice-Rei de Nova Castela, a fim de reprimir as incursões de piratas holandeses no extremo sul. Mas, errando um pouco a latitude, acabam chegando a uma terra coberta de gelo e neve, toda branca e montanhosa. Alguns navegantes holandeses também esbarraram nesse continente branco.

Published in: on 22 de setembro de 2016 at 1:59  Deixe um comentário  

A PATAGÔNIA

Patagônia é como os castelhanos chamam toda a região ao sul das áreas colonizadas. No caso, ao sul das províncias de Cuyo, pertencente à Nova Extremadura, e do Rio da Prata. Sem ser uma fronteira formal, a principal referência é o rio Salado, ao sul de Santa Maria de los Buenos Aires. De leste a oeste, vai do oceano Atlântico às cordilheiras, incluindo as ilhas ao sul de Chiloé, habitadas pelos Chonos e Kawésqar.

A Patagônia continental é habitada por tribos nativas conhecidas como Patagões. Apesar de falarem a mesma língua e terem uma origem cultural em comum, o termo cunhado pelos colonizadores engloba três grupos distintos: os Aonikénk, que habitam a Patagônia Meridional, os Guenenakéne, que habitam a Patagônia Setentrional, e os Chehuachekénk, que habitam as cordilheiras da região de Neuquén até o território dos Chonos.

GEOGRAFIA

A parte ocidental junto às cordilheiras é úmida e chuvosa, com bosques extensos e frondosos. A área é repleta de lagos exuberantes e densas geleiras. Seus vales glaciais tornam mais fácil a travessia para o lado do Pacífico, assim como a penetração dos ventos que vêm de lá.

El Chaltén é um pico das cordilheiras próximo ao lago Viedma, chamado assim pelos Aonikenkes por estar quase sempre coroado por nuvens, fazendo os viajantes acreditarem tratar-se de um vulcão. Com 3.400 metros de altitude e paredões verticais de pedra escorregadia, a escalada se torna quase impossível devido aos fortes ventos que o golpeiam. A região, apinhada de outros picos de pedra pontiagudos rodeados por campos de gelo, sofre com mudanças repentinas de clima, o que dificulta ainda mais a empreitada.

A 160 km ao sul, encontram-se as Torres del Paine, um maciço de montanhas que formam torres de granito que chegam a atingir 3 mil metros. Entre El Chaltén e as Torres, há imensas geleiras que chegam a 60 metros de altura, com quilômetros de largura, que avançam sobre os lagos da região.

Há também geleiras correndo para o lado ocidental, uma delas chegando ao oceano, marcando a fronteira entre os territórios dos Chonos e Kawésqar.

A Patagônia vai se tornando cada vez mais seca, e menos habitada, à medida que avança para o Atlântico, pois o vento úmido que vem do Pacífico vai perdendo a força. O clima é frio, havendo uma diferença de 10°C entre o norte e o sul da região.

A parte central e o litoral são praticamente desérticos. Devido às dificuldades da região e à baixa demografia, os índios vivem de caça e coleta. O sul apresenta uma cobertura de vegetação um pouco mais uniforme do que os tufos esparsos que predominam em quase toda a região entre os rios Chubut e Santa Cruz, além de boa parte do litoral, igualmente árido. A monotonia de uma paisagem plana, onde só se vê o alto das colinas no horizonte, é quebrada por vales férteis, cânions, serras breves, lagos de sal e bosques petrificados.

No interior da fria estepe patagônica, a 160 km de Puerto Deseado, jazem gigantescas e grossas árvores petrificadas, como se fulminadas pela fúria dos deuses.

A 120 km ao norte do rio Santa Cruz há um canyon de montanhas rochosas, formando muralhas e labirintos entrecortados por vales cobertos de vegetação, que abriga algumas cavernas.

A costa, com suas falésias rochosas, curvas sinuosas e praias escuras, mostra-se pouco hospitaleira aos navegantes. Alguns, impressionados com suas formas insólitas na bruma da manhã ou sob a luz do luar, chamam o litoral abaixo do rio Santa Cruz de Costa dos Espíritos.

O PLANALTO DAS VISÕES

Entre o rio Negro e o rio Chubut há uma região conhecida pelos nativos como Planalto das Visões. Os primeiros ventos da manhã parecem trazer vozes e espíritos capazes de provocar visões nos viajantes.

A região como um todo possui uma permeabilidade com o mundo astral mais intensa do que no resto do continente. Em alguns pontos, esta aproximação é quase palpável, podendo até mesmo ser vislumbrada a olho nu. Isso afeta diretamente na relação dos xamãs patagões com a magia. O ponto de maior esgarçamento é o Planalto das Visões. Quanto mais para o centro das estepes áridas, maior a influência do plano astral na realidade.

Orixás podem ser impedidos de incorporar e os espíritos dos feiticeiros negros podem ter dificuldade ao enfrentar os espíritos da região.

A COLONIZAÇÃO

A natureza em si é um obstáculo maior para a ocupação castelhana do que a resistência indígena. A aridez e vastidão da paisagem, além da baixa demografia, faz com que os colonos se refiram a estas terras como o Grande Deserto.

Muitas expedições, de diversas origens, arriscaram-se na região até que a Coroa castelhana, temendo as constantes incursões de britânicos e holandeses, decide estabelecer colônias ao sul. Entretanto, a ocupação do que seria a Província de Nova León transforma-se em uma coleção de fracassos.

As Expedições Costeiras

A primeira grande expedição foi do lusitano Fernão de Magalhães, em 1520, determinado a encontrar uma passagem para as Índias contornando a Terra de Santa Cruz. Decidiu procurá-la pelo sul. O inverno rigoroso obrigou sua frota a aportar em uma baía bem protegida da região.

Enquanto aguardava poder seguir viagem, enviou um de seus navios em missão exploratória. Este desceu a costa até a entrada de um largo rio, batizado de Santa Cruz. Devido a uma avaria, a embarcação teve de passar alguns meses em uma ilha fluvial.

Neste meio tempo, Magalhães enfrentou um motim. Um dos capitães amotinados foi morto em combate e o outro, decapitado. Um oficial amotinado foi enforcado em terra e o capelão que o apoiou foi deixado para trás, abandonado em uma ilha.

Magalhães havia travado contato com os índios locais, a quem chamou de patagões devido às vestimentas de pele. Como os índios eram bem mais altos que os lusitanos, os pés, envolvidos em peles, pareciam ainda maiores. Magalhães tentou levar um deles para exibi-lo na Europa, mas tal ato não foi bem aceito. Na breve confusão que se seguiu, um Aonikénk foi morto. O primeiro da colonização.

Poucos anos depois, um navio castelhano aportou na mesma baía, batizada de San Julián, onde foi colocada uma cruz e rezada uma missa. Décadas mais tarde, o corsário britânico Francis Drake encontra o patíbulo construído pelos homens de Magalhães para executar os amotinados.

A primeira expedição oficial com a finalidade de ocupação ocorre em 1534, liderada pelo castelhano Simón de Alcazaba, que aporta na costa com 250 homens e dois navios, 500 km ao norte de San Julián. O grupo monta um pequeno assentamento na costa, mas o objetivo de colonização foi prejudicado pela cobiça. Sem sequer esquentar lugar, Alcazaba logo monta uma expedição e parte território adentro, sonhando com a riqueza da Cidade dos Césares, cuja fama já começava a se alastrar na Metrópole. Contudo, os rigores da viagem leva a um motim e ao assassinato de Alcazaba. Quando o grupo retorna ao assentamento, confronta homens leais ao comandante.  O motim, então, é contido, deixando 80 mortos. A expedição decide retornar à Metrópole, abandonando o assentamento, mas um dos navios naufraga no meio da viagem, perto da costa de São Sebastião. Apenas 75 pessoas retornam com vida ao porto de Barrameda, em Andaluzia.

No século XVII é a vez de navios da Coroa Britânica se aventurarem pela região, não mais corsários como Francis Drake, mas oficiais militares. A pouco mais de 200 km ao norte de San Julián, o Almirante John Narborough toma posse da região com o intento de fundar Port Desire. Entretanto, após perder contato com o outro navio da expedição em um temporal e navegar pelo estreito até a Ilha de Chiloé, mapeando a região, entra em confronto com navios castelhanos e decide recuar. Depois, envolvido na guerra entre britânicos e holandeses, não retorna mais aos mares do sul, mas seus mapas se tornam muito úteis às expedições futuras. Duas décadas mais tarde, outra embarcação britânica atravessa o canal das ilhas Sebaldinas, batizando-o de Canal de Falkland.

Muitos anos depois dos britânicos, os Jesuítas chegam a Port Desire, agora rebatizado de Puerto Deseado, e à baía de San Julián, onde fincam uma cruz. Entretanto, decidem se estabelecer bem mais ao norte, na laguna de Las Cabrillas (depois chamada de Los Padres), ao sul do rio Salado, a poucos quilômetros da costa. Em suas margens fundam a missão Nossa Senhora do Pilar. A redução conta com 1.200 índios Hets.

Com o sucesso inicial, outras duas missões são erguidas na região: Missão dos Desamparados e Missão de Concepción de los Pampas. Apesar de serem bem recebidos, o cacique Cangapol, principal líder dos patagões setentrionais, percebe a concorrência das missões e decide atacar, destruindo Desamparados. Os missioneiros de Nossa Senhora de Pilar fogem então para Concepción, que também é atacada e abandonada.

As principais iniciativas de colonização por parte dos Castelhanos ocorrem no século XVIII, um reflexo da tentativa de britânicos e franceses ocuparem as ilhas Sebaldinas. Os colonizadores chegam ao golfo San José, na península Valdés, onde é fundado o porto de San Juan de la Candelaria.  De lá são enviadas duas expedições exploratórias: uma para explorar o rio Colorado e outra para fazer um assentamento na foz do rio Negro, ambos ao norte, subindo a costa.

Na entrada do rio Negro é fundada Nova Murcia, que recebe famílias vindas da Metrópole, e o Forte Nossa Senhora de Carmen, após negociação amigável com o cacique Negro. O rio é o mais importante de toda a Patagônia devido ao seu volume d’água, e os colonos decidem explorá-lo. Porém, a expedição chega só até a metade do caminho, na ilha Choele Choel, um verdadeiro oásis agrícola. Os exploradores estranham a presença de macieiras, desconhecendo as atividades dos jesuítas no lago Nahuel Huapi, onde nasce o rio Limay, que dá origem ao rio Negro. Eles tentam construir um forte na ilha, mas são rechaçados pelos índios. Para se prevenirem de uma eventual mudança de humor dos homens de Negro ou mesmo de ataques de inimigos estrangeiros, os colonos decidem erguer um forte em cada margem do rio: Forte San Javier, ao sul, e Forte Invencible, ao norte.

Em Puerto Deseado, é fundada San Carlos de Puerto Deseado. Em seu primeiro ano, os colonos enfrentam problemas com o escorbuto, devido à escassez de alimentos. Os colonos decidem explorar o rio Santa Cuz até a sua nascente, chegando ao Cerro El Chaltén, já nas cordilheiras.

Próximo à baía San Julián, um pouco mais para o interior, a fim de evitar a pirataria, é fundada Floridablanca. Na baía é erguido o Forte San José sobre os escombros de acampamentos anteriores. Vinte e quatro famílias chegam de La Coruña. A vila é composta por 150 homens, 18% de presidiários do Rio da Prata e 14% de militares. Logo de início também enfrentam uma epidemia de escorbuto. Dedicados à agricultura, os colonos mantêm comércio e relações harmoniosas com os Aonikénk, conseguindo contornar as dificuldades iniciais e começar a prosperar.

Desafortunadamente, o Rei fica sabendo com atraso do primeiro ano desastroso, e, sem ser atualizado do progresso da região, manda desmantelar a colônia. Nesse mesmo período, a Metrópole enfrenta os britânicos na Europa e uma revolta em Nova Castela, liderada por Túpac Amaru II. Dos assentamentos, apenas dois são mantidos: o forte San José, a fim de manter um posto de observação da atividade marítima na região e dar apoio às embarcações pesqueiras; e Nova Múrcia, inicialmente por insubordinação dos colonos, mas depois com o consentimento real, visto como importante porto de comunicação com os colonos nas Malvinas, ex-Sebaldinas.

Entre 1779 e 1781, uma linha de fortificações separando a Patagônia e o Vice-Reino do Rio da Prata é construída ao norte do rio Salado, em decorrência de tratados com os índios. As fortificações são ocupadas por unidades de cavalaria e por milicianos.

As Expedições Andinas

No século XVII, as cordilheiras patagônicas são frequentemente exploradas por Castelhanos e corsários de outros reinos, aproveitando-se do fácil acesso pelos vales da região dos lagos, na Terra dos Araucos.

As primeiras expedições castelhanas para a região partiram de Castro e do forte de Cabulco, com a finalidade de capturar índios e combater holandeses infiltrados, que se utilizavam do conflito entre Castelhanos e Mapuches para se aliar aos índios. Com a proibição do Vice-Rei do apresamento dos Mapuches, a nova estratégia é enviar os padres jesuítas para pacificar a região habitada pelos Chehuachekénkes e Pehuenches. Duas missões são fundadas ao redor do lago Nahuel Huapi, onde, no final do século XVI, padres mercedários, vindos de Osorno e Villarrica, haviam tentado sem sucesso se fixar. Com a destruição destas duas vilas pelos índios, a missão ficou sem suporte e os mercedários tiveram de abandoná-la.

Os Jesuítas são bem recebidos inicialmente. Plantam as primeiras maçãs, que logo se espalham pelas cordilheiras, tanto do lado ocidental quanto oriental. Um dos padres resolve explorar, com sucesso, o rio Negro até o Atlântico.

Uma pequena quantidade de gado bovino e equino abandonado pelos Castelhanos se espalha rapidamente pelos pampas até se transformar em enormes manadas selvagens. Os Guenenakénes começam a capturar e domesticar os cavalos trazidos pelos colonizadores e a caçar o gado disperso. Em pouco tempo, começam a comercializá-los com os Mapuches, que acabam sendo atraídos para a região. À medida que se desenvolvem cada vez mais nessa prática, os conflitos com castelhanos em Cuyo e no Rio da Prata se intensificam, aumentando a necessidade da Metrópole de impor limites aos índios.

Com a chegada dos Mapuches na região, a sorte dos Jesuítas começa a mudar. Os padres passam a ser mortos pelos índios. A Companhia de Jesus não desiste e continua a mandar substitutos, que não sobrevivem por mais de três ou quatro anos. Outra missão é erguida onde o rio Neuquén encontra as águas do rio Limay, formando o rio Negro. Os jesuítas vão sendo sucessivamente assassinados até que a missão de Nahuel Huapi é incendiada. As missões restantes resistem por mais quatro anos, quando são finalmente abandonadas.

A Cidade dos Césares

Cidade mítica da Patagônia, insistentemente procurada por exploradores e aventureiros. A primeira menção à cidade ocorre em 1528, a partir da fortaleza Sancti Spiritu, quando o veneziano Sebastián Gaboto envia uma pequena expedição para o oeste, a fim de verificar os relatos dos índios sobre uma cidade cheia de riquezas.

O grupo liderado por Francisco César, que mal passava de uma dúzia de homens, retorna poucos meses depois dizendo ter visto a tal cidade. Os soldados dessa expedição ficaram conhecidos como “Os Césares”, devido ao nome de seu comandante.

Nessa época, os Castelhanos ainda não haviam descoberto a terra dos Incas, de forma que, quando isso ocorreu, muitos concluíram que os Césares haviam chegado a uma de suas fabulosas cidades. Entretanto, nos registros da expedição de Gaboto, consta que o grupo havia descido em direção à Patagônia, travando contato com os Hets, o que fez crescer os boatos de que haveria uma colônia inca nas cordilheiras do sul.

Isso deu origem a diversas expedições frustradas, tanto oficiais quanto de aventureiros. Em vez do fracasso dessas tentativas fazerem arrefecer as buscas, estas só aumentaram, pois relatos de náufragos e sobreviventes de outras expedições traziam informações indicativas da existência de tal cidade.

As Vilas Autônomas

Outro tipo de aventureiro caminha pela imensidão patagônica: os sobreviventes. Náufragos de navios colhidos pelas tempestades; sobreviventes de assentamentos destroçados pelos índios ou pela fome; sobreviventes de expedições exploratórias de destino incerto. Dessas expedições, a maioria buscava a Cidade dos Césares, jamais encontrada.

Poucas dessas almas mal aventuradas lograram chegar a uma vila, um forte, ou serem resgatadas por algum navio. Muitos morreram de fome, de frio, ou pelas mãos dos índios. Outros tiveram a sorte de cruzar o caminho de uma tribo mais amistosa. Destes, alguns acabaram se adaptando aos hábitos nômades e sendo aceitos pela tribo. Mas há aqueles que decidiram seguir adiante ao ouvir relatos da presença de homens brancos na região de Nahuel Huapi.

Aos poucos, próximo às ruínas das missões jesuíticas, foram se formando duas vilas: uma em Nahuel Huapi, chamada San Carlos, outra em Neuquén, onde começa o rio Negro. Não são vilas coloniais, autorizadas pela Coroa, ou mesmo de conhecimento desta. Viajantes e comerciantes que negociam com os Patagões tomam conhecimento de sua existência, mas muitas vezes essa informação é recebida como boato ou lenda. Seus habitantes estão por conta própria, a mercê dos humores dos Patagões e dos Mapuches. A elas volta e meia se dirige um degredado, alguém fugindo da lei dos homens, um aventureiro, ou mesmo viajantes a procura de um pouso mais acolhedor.

Neuquén é a vila onde brancos e índios vivem em mais harmonia. Como mulher branca é raridade por essas bandas, muitos brancos se juntam às nativas. A intensa miscigenação entre os próprios nativos – patagões setentrionais, das cordilheiras e Mapuches – vai formando uma nova cultura, que abandona os hábitos nômades pela atividade pecuária.

Em San Carlos, a maioria é branca, composta não só de castelhanos, mas também de aventureiros de outros reinos. Eles mantêm contato regular com o povo de Neuquén, mas procuram preservar seus costumes, fazendo com que o assentamento muito se assemelhe a uma vila colonial, utilizando em sua construção os restos das missões destruídas. Sua presença é apenas tolerada pelos índios, mas por razões que os habitantes de San Carlos desconhecem. Eles acreditam que a vila permanece de pé graças ao poder de Nossa Senhora de Nahuel Huapi.

De fato, a imagem da Virgem tem o poder de manter a vila protegida de qualquer ameaça espiritual ou demoníaca, o que tornaria bastante complicada a vida de um feiticeiro ou sacerdote negro de passagem pela vila, pois seus espíritos e orixás seriam barrados pela potente Barreira Astral emanada da Virgem. Da mesma forma, inibe a atividade dos xamãs locais, que costumam manter constante contato com os espíritos. Mas o que protege mesmo os habitantes de um eventual ataque é o Padre Sérgio.

Padre Sérgio é um jesuíta que se dedicou a explorar toda a região, sempre acompanhado de guerreiros Chehuachekénkes. Conheceu mais sobre a Patagônia do que qualquer homem branco vivo ou já vivido. Enquanto seus colegas de batina se dedicavam à catequese e à vida espiritual nas missões, Padre Sérgio vivia aventuras inimagináveis, impressionando os guerreiros que o acompanhavam com sua coragem e poder. Sua fama se alastrou de tal maneira entre os índios que, certa vez, um cacique decidiu acompanhá-lo em suas viagens.

Apesar de aconselhado do contrário, Padre Sérgio decidiu explorar o Planalto das Visões. Estava firmemente determinado em acampar na região o tempo que fosse necessário para compreender a natureza do lugar. Tal experiência o levou à loucura. Permaneceu por um tempo desaparecido, sendo considerado morto. Neste período, ocorreu o ataque às missões. Poucos anos depois, foi encontrado vagando sem rumo próximo a San Carlos. Os habitantes o acolheram e construíram para ele, obedecendo a um pedido seu, uma choupana subindo a colina, com uma bela vista do lago e das montanhas.

Padre Sérgio alterna períodos de demência e total delírio com rasgos de lucidez. Nestes momentos, poderá revelar tudo o que sabe e o que aprendeu em suas andanças. Há quem diga que, entre tais revelações, estaria a localização da Cidade dos Césares. Entretanto, o que o padre vivenciou em suas andanças é tão fantástico e inacreditável, que é impossível diferenciar os relatos verdadeiros dos momentos de delírio. Aquele que o visitar em sua choupana dificilmente sairá sem escutá-lo dizer: “ninguém vai ao sul, é o sul que vem até você”.

Em respeito ao Padre Sérgio, os índios deixam os habitantes de San Carlos em paz. Mas é uma trégua com prazo de validade. Seus habitantes que tratem de cuidar bem do velho padre, pois dele, sem o saberem, depende sua sobrevivência.

Published in: on 22 de setembro de 2016 at 1:57  Deixe um comentário  

NOVOS FEITIÇOS

ARÍETE

Custo: 8

Tempo de preparação: instantâneo.

Duração: 1d6 + 2 investidas.

Dobrar: duração e impacto.

Descrição: surge um par de chifres nas laterais da cabeça do feiticeiro, ao mesmo tempo em que ele é tomado por uma força e resistência capaz de provocar impacto igual a um aríete ao fazer carga contra determinado alvo. O dano, impactante, é de 1d6 + 8.

O feiticeiro poderá fazer carga contra qualquer superfície sem levar dano de impacto, como se fosse uma rocha. Mas estará normalmente vulnerável a danos perfurantes e de outra natureza, como fogo e relâmpagos. Caso a carga seja feita contra pessoas, lembre-se que que estas não absorverão todo o impacto, a não ser que a pessoa esteja contra uma parede, ou fixada de alguma forma.

O feitiço só pode ser utilizado pelo próprio feiticeiro, não podendo ser feito em outra pessoa.

Mestre: duração máxima.

Falha: não poderá usar a magia pelo resto da cena.

CHONCHÓN

Custo: 6 (creme) + 7 (metamorfose)

Tempo de preparação: 4 horas para preparar o creme.

Preparação: o Calcu passa o creme mágico em volta do pescoço e se metamorfoseia, mas apenas a cabeça se transforma.

Poção: todo o sucesso do feitiço depende da elaboração do creme mágico.

Descrição: após passar o creme mágico em volta da garganta, o Calcu transforma sua cabeça em um pássaro cinzento, semelhante a uma coruja, com garras afiadas e enormes orelhas que usa como asas. E, assim, desprende-se do resto do corpo. Nessa forma, emite um grito que faz as pessoas sentirem náuseas e tonturas. Entra pelas janelas para sugar o sangue dos enfermos.

CONTROLAR VENTO

Custo: 8

Tempo de preparação: 1 rodada.

Duração: 1d6 + 4 rodadas

Dobrar: duração

Descrição: Ventania é uma magia que serve para provocar ventos. Controlar Ventos é uma magia para ser usada quando o vento já existe. Tanto faz ser uma ventania natural ou de origem mágica. O feiticeiro poderá direcionar o vento conforme sua vontade, utilizando a força que este já possui, sem poder alterá-la. Com este feitiço, o feiticeiro poderá até controlar um tornado, mas precisará estar perigosamente perto para obter sucesso.

Mestre: duração máxima.

Falha: não poderá usar a magia pelo resto da cena.

ESTIAGEM

Custo: 10

Tempo de preparação: ritual de 6 rodadas

Preparação: é exigida total concentração, sem que seja permitida qualquer interrupção.

Ritual: danças e orações.

Duração: 30 minutos.

Dobrar: duração.

Descrição: o feiticeiro consegue fazer parar de chover, não importa a intensidade da chuva. Esta estiagem terá a duração de pelo menos uma hora. Se voltará a chover ou não, dependerá das próprias condições climáticas.

Mestre: a estiagem durará o dobro do tempo pretendido.

Falha: não poderá usar a magia pelo resto da cena.

ÊXTASE

Custo: 8

Tempo de preparação: 1 rodada

Preparação: é necessário o contato físico.

Duração: enquanto durar a cena.

Dobrar: aumenta um nível de dificuldade de Resistência à magia.

Resistência à magia: aplicável.

Descrição: a pessoa se torna subitamente arrebatada por uma determinada atividade ou objeto, sentindo-se compelida a investir nisso de forma obsessiva, conforme o contexto e as circunstâncias. Esse comportamento segue em um crescendo até a pessoa ficar completamente alucinada e perder os sentidos. Quando despertar, não recordará nada do que fez enquanto estava sob os efeitos do feitiço.

Mestre: o feitiço não poderá ser removido.

Falha: não poderá usar a magia pelo resto da cena.

GARRA DE XALPEN

Custo: 5

Tempo de preparação: instantâneo

Duração: 2d6 + 2 rodadas (após esse período, o personagem pode prolongar a magia gastando 1 ponto por rodada)

Dobrar: duração

Descrição: cresce uma longa e afiada garra em apenas um dos dedos do personagem, capaz de provocar 1d6+4 de dano.

Mestre: duração máxima.

Falha: a magia não poderá ser repetida enquanto durar a cena.

GELEIRA

Custo: 6

Tempo de preparação: 1 rodada

Duração: 1d6 + 4 rodadas (após esse período, o personagem pode prolongar a magia gastando 1 ponto por rodada)

Dobrar: duração ou quantidade

Poção: ingerida, de ervas mágicas.

Descrição: o feiticeiro poderá atravessar uma superfície de gelo como se esta fosse feita de água e sem sofrer os efeitos da baixa temperatura, sendo esta considerada a mesma do ar em volta. Entretanto, o feitiço não lhe permitirá respirar no gelo, e sua visão será tão turva quanto se estivesse dentro d’água.

Mestre: duração máxima.

Falha: a magia não poderá ser feita novamente na mesma cena.

HIBERNAÇÃO

Custo: 10

Tempo de preparação: ritual de 10 rodadas

Preparação: é exigida total concentração, sem que seja permitida qualquer interrupção.

Ritual: o feiticeiro se coloca na posição desejada e repete mentalmente uma oração que o permite relaxar e entrar no estado de hibernação.

Duração: indefinida

Dobrar: quanto maior o poder gasto, mais difícil será quebrar o efeito da hibernação.

Poção: ingerida, de ervas mágicas.

Descrição: o feiticeiro poderá entrar em estado de hibernação, diminuindo sobre o seu corpo os efeitos do frio e da fome. O feitiço poderá ser realizado em outro personagem, mas este deverá realizar o ritual no lugar do feiticeiro.

O feitiço poderá ser realizado sobre todo um grupo, do qual pode estar incluído o próprio feiticeiro. Cada personagem equivalerá a 10 pontos, e todos deverão realizar o ritual. Se um personagem do grupo errar no ritual, ele não hibernará, mas isso não prejudicará os demais. Entretanto, os 10 pontos serão gastos.

O personagem em hibernação poderá se manter nesse estado por tempo indeterminado, mas poderá ser desperto a qualquer instante, quebrando assim o efeito do feitiço.

Mestre: o personagem despertará sem que seu corpo se ressinta do tempo transcorrido.

Falha: a magia não poderá ser feita novamente no mesmo dia.

HOMEOSTASE

Custo: 6

Tempo de preparação: instantâneo

Duração: 1d6+6 rodadas (quando autoimposto, o personagem pode prolongar a magia gastando 1 ponto por rodada).

Dobrar: duração.

Poção: ingerida, de ervas mágicas.

Descrição: o corpo do personagem se adaptará a qualquer mudança brusca de temperatura, podendo, por exemplo, mergulhar sem problemas na água gelada.

Mestre: duração máxima.

Falha: acreditando ter tido sucesso, o personagem sofrerá um choque térmico.

INVOCAR ESPÍRITO

Custo: 4

Tempo de preparação: ritual de 1 rodada

Preparação: ritual (falas, cânticos, gestos, altares ou pentagramas). O rolamento será feito no final do tempo de preparação.

Descrição: permite convocar um espírito da cultura do feiticeiro ou, se houver, qualquer espírito pertencente ao local no qual se encontra.

Ao contrário do que ocorre em Conjuração, o espírito não é obrigado a atender à invocação. Esta é apenas um chamado, ao qual o espírito atende se quiser. Os espíritos ligados a lugares e objetos geralmente atendem. Os demais atendem conforme a disponibilidade (podem estar ocupados ou distantes) e vontade. Caso atendam, isso não significa que farão o que o feiticeiro deseja.

Mestre: o espírito irá aparecer, nem que seja para dizer não.

Falha: o feiticeiro invocará outra entidade, de preferência uma bastante inapropriada para o momento.

LAVA

Custo: 8

Tempo de preparação: 1 rodada

Duração: 1d6+3 rodadas (quando autoimposto, o personagem pode prolongar a magia gastando 1 ponto por rodada)

Dobrar: duração.

Poção: ingerida, uma poção fumegante que provocará 1d10 de dano em quem a ingerir, mas que será curado logo após a transformação. Lava de vulcão é um item essencial para fazer a poção.

Descrição: o corpo do personagem se transforma em uma crosta de rocha fumegante, capaz de causar queimaduras com o toque ou atear fogo. A roupa será incinerada após a transformação. Nesta forma, o personagem ganhará +10 pontos de Resistência, com absorção de igual valor. Também ganhará +4 pontos de Força.

Ele poderá, ainda, canalizar todo o calor de sua pele mágica em uma única bola de fogo, capaz de provocar 1d6+5 de dano. Imediatamente após lançar a bola de fogo, seu corpo voltará ao normal, independentemente do tempo de duração.

O feitiço é basicamente autoimposto, exceto quando se usa a poção. Se alguém tomar a poção sem saber o feitiço, seus movimentos se tornarão difíceis, ganhando uma penalidade de -4 na Destreza. Caso tente lançar a bola de fogo, esta poderá explodir em suas mãos. O mestre do jogo poderá optar entre testes de Destreza, Intuição ou Sorte para saber se o personagem conseguiu lançar a bola de fogo.

Mestre: duração máxima.

Falha: o feitiço parecerá funcionar por um instante, mas apenas causará 1d10 de dano em queimaduras pelo corpo. Caso tenha tomado poção, não recuperará o dano provocado por esta.

LUA CHEIA

Custo: 16 (8 em noites de lua cheia)

Tempo de preparação: instantâneo.

Preparação: é necessário que o alvo esteja olhando fixamente nos olhos do feiticeiro.

Duração: 1d6 rodadas (o feiticeiro não poderá prolongar a duração).

Dobrar: duração, a fim de aumentar a possibilidade de atingir o efeito máximo, atingido em 6 rodadas.

Resistência à magia: aplicável, podendo ser rolado a cada rodada.

Descrição: em uma espécie de hipnose, o feiticeiro vai esvaziando a mente da vítima. O 1d6 indica a duração máxima do feitiço, mas este pode ser interrompido a qualquer momento por terceiros, um acidente, pelo próprio feiticeiro ou pela vítima, que poderá tentar resistir à magia a cada rodada.

Com apenas 1 rodada, a vítima apenas se esquecerá de suas últimas horas.

De 2 a 3, a pessoa tem problemas de memória. Suas lembranças falham constantemente.

De 4 a 5, ela atinge graus distintos de amnésia, comprometendo a própria identidade e conhecimento.

A duração máxima, 6 rodadas, deixa a pessoa em estado vegetativo. Sua mente é um grande branco.

Não há cura conhecida.

Mestre: duração máxima.

Falha: além de não conseguir o efeito pretendido, o feiticeiro fica desorientado por 1d6 rodadas.

LUZ DO MAL

Custo: 1

Tempo de preparação: instantâneo.

Descrição: uma luz alaranjada emana do Macuñ, o poncho utilizado pelos Calcus (feiticeiros mapuches), que pode cegar por 1d6 rodadas. Ela provoca nas pessoas por ela atingidas um efeito contrário a Ventura: um evento azarado irá ocorrer com a vítima, a não ser que ela seja bem sucedida em Resistência à magia.

O poder mágico emana do próprio poncho Macuñ, e não do feiticeiro, mas ele precisa gastar 1 ponto para ativá-lo, sem precisar de rolamento, pois não se trata de uma habilidade, mas do uso de um item mágico.

A Luz do Mal só pode ser emanada uma vez por dia, sendo necessárias 24 horas para recarregá-la.

MÃO DE GELO

Custo: 6

Tempo de preparação: instantâneo.

Preparação: é necessário contato físico.

Duração: 1d6+3 rodadas (o personagem pode prolongar a magia gastando 1 ponto por rodada)

Dobrar: o personagem pode optar por dobrar a duração, dobrar a velocidade da queda de temperatura (2°C por rodada) ou usar o poder nas duas mãos. Se quadruplicar o poder, poderá optar pelos três efeitos ao mesmo tempo.

Descrição: a cada rodada que o feiticeiro mantiver sua mão encostada em uma superfície, a temperatura desta cairá 1°C. Este feitiço não afeta o ar, outros gases e água corrente. O custo normal permite que apenas uma das mãos seja a “mão de gelo”.

Mestre: duração máxima.

Falha: o feitiço funciona, mas passa a afetar imediatamente o próprio personagem.

NEVASCA

Custo: 6

Tempo de preparação: instantâneo

Preparação: é necessário o contato visual ou físico.

Duração: 1d6 + 4

Dobrar: duração.

Descrição: o feiticeiro controla a neve a seu redor. A magia não fabrica neve. Ele só pode manipular a neve que já se encontra no ambiente, podendo provocar uma pequena nevasca de pouca intensidade; lançar neve, ou mesmo bolas de neve; cobrir algo com a neve; desenterrar um objeto na neve ou abrir um buraco nela; levantar uma cortina de neve etc.

Mestre: duração máxima.

Falha: a magia não poderá ser repetida durante a mesma cena.

OUVIR O VENTO

Custo: 5

Tempo de preparação: instantâneo

Preparação: transe místico. O personagem deverá ficar em repouso e atento para o som do vento. O transe pode ser quebrado por interferência externa.

Duração: 1d6 + 2 rodadas.

Dobrar: duração.

Descrição: o personagem poderá ouvir qualquer som no caminho do vento. Se duas pessoas estiverem conversando no alto da colina e o vento estiver soprando da colina para onde ele se encontra, o feiticeiro poderá escutar os que elas conversam. Da mesma forma ele poderá escutar o convés de um navio, uma tropa que se aproxima, desde que o vento assim permita. Contudo, estará sujeito a qualquer interferência sonora a seu redor.

O tempo do feitiço não permite apenas escutar por mais tempo, mas também dar tempo que um som que vem de muito longe chegue até ele.

Mestre: duração máxima.

Falha: não poderá fazer novamente a magia pela mesma cena.

PORRETE DE SHOORT

Custo: 5

Tempo de preparação: instantâneo

Duração: 1d6 + 4 rodadas

Dobrar: duração

Descrição: surge na mão do feiticeiro um porrete de madeira com uma pedra branca na ponta, capaz de causar 1d6 + 6 pontos de dano impactante.

Mestre: duração máxima.

Falha: a magia não poderá ser repetida enquanto durar a cena.

TOQUE DE TEMÁUKEL

Custo: 8

Tempo de preparação: instantâneo.

Preparação: o personagem precisa encostar as mãos nuas na pele do morto.

Descrição: o Olum dos Selknam é capaz de trazer à vida todos aqueles que morreram nas mãos de Howenh. Qualquer outro tipo de morte não será possível reverter. O efeito é imediato, apenas demorará um tempo para o corpo se recompor e a pessoa despertar, conforme o dano sofrido. O Olum tem um prazo de três dias para reverter a morte.

Mestregasta apenas a metade do poder mágico.

Falha: o feitiço só poderá ser repetido no dia seguinte.

Published in: on 22 de setembro de 2016 at 1:05  Deixe um comentário  

RECTA PROVINCIA

A Ilha de Chiloé possui uma inclinação natural para a prática de magia. Antes dos Castelhanos, abrigava os conciliábulos dos Calcus (feiticeiros mapuches). Após a colonização, viu surgir o maior grupo de feitiçaria da Terra de Santa Cruz: a Recta Provincia.

Certo dia, um bruxo marinheiro, que havia aportado em Castro em uma expedição cartográfica, desafia uma Machi (xamã mapuche) para um duelo de magia. Ao perder o desafio, Manuel de Moraleda resolve se dedicar à feitiçaria mapuche, assimilando tudo o que pôde com um Calcu. Entretanto, seu intento não era se tornar um deles, mas fundar o seu próprio grupo.

Aproveitando a mudança dos Calcus para as cordilheiras, Moraleda apoderou-se das cavernas e águas mágicas de Chiloé como base de seu conciliábulo. Do Macuñ dos bruxos mapuches (ver Itens Mágicos) criou seu próprio colete de poder. O colete também é feito da pele de um morto, mas funciona de forma distinta do Macuñ: enquanto usá-lo, o sucesso do feitiço é automático, precisando o bruxo apenas gastar o poder mágico. Porém, o seu uso o torna facilmente identificável por feitiços como Detectar magia e Aura. Após um mês, o bruxo deverá comparecer à caverna do conciliábulo para renovar o poder do manto. A entrada da caverna é protegida por um Invunche (ver Mitos e Lendas).

Para tornar-se um bruxo da Recta Provincia, o candidato deverá banhar-se nas mesmas águas que o Camahueto (ver Mitos e Lendas), na cachoeira do rio Tocoihue, onde os bruxos já iniciados vão renovar as forças. Tal banho concederá ao bruxo o poder de perceber pensamentos. Não se trata de controlar ou ler pensamentos, mas sentir quase intuitivamente a intenção da pessoa. Esse efeito permanecerá por um mês, e deverá ser usado com a habilidade Percepção, com o custo de 2 pontos de poder mágico.

O passo seguinte será matar um parente ou pessoa querida. Depois de cumprida a missão, terá de contornar a pé toda a ilha e então jogar-se no mar. Ainda molhado, deverá dirigir-se à caverna do conciliábulo a fim de receber o seu manto e, finalmente, prestar juramento ao Diabo, que será conjurado especialmente para a ocasião.

Um membro da Recta Provincia nunca poderá revelar-se espontaneamente como bruxo, muito menos revelar ser membro do grupo. Do juramento também faz parte não roubar. Caso rompa o juramento e o sigilo, morrerá em menos de um ano nas mãos de um de seus irmãos ou do próprio Diabo, dependendo do quão grave foi a sua falta.

A cúpula da Recta Provincia é conhecida como La Mayoria, e começa a ampliar a ordem criando núcleos nas principais cidades da colônia. A fim de manterem contato uns com os outros, transformam-se em pássaro para enviar mensagens, como fazem os Calcus.

A Caverna de Quicaví, onde se reúne La Mayoria, fica no nordeste da ilha. A caverna é subterrânea e sua entrada foi disfarçada com a construção de uma casa. Assim, a entrada se faz por um alçapão escondido. Nela encontra-se o livro de Moraleda, com todos os feitiços e rituais reunidos. E também um Challanco (ver Rituais), pedra com a qual La Mayoria observa os membros da ordem à distância.

Habilidades obrigatórias:  Ervas e plantas; Ocultismo (atributo relacionado: Inteligência).

Lista de feitiços:  Adivinhação; Amaldiçoar; Amizade; Apaixonar; Andar sobre as águas; Aura; Barreira astral; Camuflagem; Comunicar-se com animais; Conjuração; Controlar animais; Controlar entidades; Controlar mentes; Criar doenças (ritual: usam o cabelo da vítima para fazer um pó que lhe causará enfermidade); Criar dor intensa; Criar ilusão; Desviar ataques; Detectar magia; Exorcismo; Levitar; Mau-olhado; Medo; Metamorfose; Remover magia; Respirar sob as águas; Trevas; Ventania; Ventura; Viagem astral; Visão astral; Visão noturna.

[Nota do autor: a Recta Provincia histórica surgiu no final do século XVIII e durou cerca de 100 anos, sendo desbaratada pela justiça em fins do século XIX. Para o jogo, sugere-se uma antecipação da criação da ordem. Sobre sua origem, foi mantido o nome original de seu criador, que era de fato um marinheiro à frente de uma expedição cartográfica, e parece ter mesmo desafiado a Machi.]

Published in: on 21 de setembro de 2016 at 20:18  Deixe um comentário  

PERSONAGENS E HISTÓRIAS

A Caverna

Enquanto mapeava a região de Tapé, acompanhado de um pequeno grupo de fiéis guaranis, um jesuíta chegou às serras que separam as vacarias do estreito litoral. Em meio à subida, encontrou uma caverna escondida pela vegetação. As pedras em sua entrada pareciam esculpidas, mas o padre não se demorou muito ali e decidiu entrar. Chegou, então, a uma câmara ricamente ornamentada com esculturas e objetos dourados. Rapidamente pegou seu material e fez um rascunho no papel. Depois, fez o que qualquer um em seu lugar faria: Aura.

O padre só se recorda de despertar em uma clareira afastada da caverna. Os índios lhe contaram que, de repente, ele pareceu tonto e desmaiou. Temerosos que o padre tenha sido atacado por alguma magia poderosa, trataram de carregá-lo o mais rápido possível para bem longe da caverna.

Desconcertado com o ocorrido, decidiu partir para Candelária e ter com o Padre Superior. Este convocou seus conselheiros e, em um consenso, decidiram que era melhor esquecer a caverna. Na época os missionários já eram perturbados pelas autoridades coloniais com os boatos de que escondiam minas de ouro e prata na região. Se viesse à tona a descoberta de uma caverna com objetos de ouro, a desconfiança só aumentaria e eles poderiam ser expulsos.

O jesuíta cartógrafo, então, retornou à caverna com seus índios e cuidou para que ninguém jamais a encontrasse novamente. Porém, não destruiu o rascunho que fizera. Anos depois, suas anotações foram incluídas no documento elaborado por um jesuíta um pouco antes da expulsão da Companhia de Jesus da Terra de Santa Cruz. O tal que só seria encontrado mais de 250 anos depois.

Provincial Ignácio Álvarez de Irigoyen

Padre Irigoyen se destaca dos demais provinciais da Companhia de Jesus por ser o primeiro com Poder Divino a ocupar a função. Em determinado momento de sua vida, após ver sua missão ser arrasada pelos bandeirantes, chegou à conclusão que serviria a Deus de forma mais eficiente case se dedicasse aos círculos de poder político.

Padre Irigoyen começou a galgar a hierarquia da Companhia de Jesus até tornar-se Provincial em Córdoba. Houve um certo desconforto na Companhia, mas ninguém ousava questionar as suas qualidades administrativas e a justeza de suas decisões. Nas províncias do sul, sua palavra é lei, e seguida com o fervor religioso habitual dos Jesuítas. Mesmo na Congregação Geral seu nome passa a ser bem falado, a ponto de ser reconduzido ao cargo por três mandatos.

Entretanto, as outras ordens e as autoridades coloniais se sentem ameaçadas com o prestígio de Irigoyen. Como criticar um homem-santo, alguém tão próximo de Deus? No posto de Provincial, Irigoyen ameaça o equilíbrio entre as Ordens. E tal preocupação é muito mais do que paranoia e inveja. Durante seu mandado, os Jesuítas conseguiram retomar o projeto missionário no Rio da Prata, armar os Guaranis de forma permanente e tornar a região, na prática, uma província independente.

Sem argumentos para confrontá-los, seus opositores passam a incentivar sua promoção à Congregação Geral. Seria uma forma de afastá-lo do cotidiano da colônia. Contudo, seus admiradores, ante tal perspectiva, começam a cogitar a possibilidade de Irigoyen tornar-se o próximo Papa.

Bispo Martins de Saavedra

Bispo franciscano de Assunção, principal opositor dos Jesuítas nas colônias castelhanas. Apoia e incentiva qualquer boato que possa prejudicá-los. Acredita sinceramente que a Companhia de Jesus esconde algum segredo nas missões guaraníticas. Opõe-se às regalias e vantagens às quais nenhuma outra Ordem tem direito. Considera o favorecimento do Rei obra da política, não de Deus, e a omissão e a cumplicidade dos governadores, frutos de suborno.

Sem ter poder mágico, mas profundo conhecedor de artefatos religiosos, o Bispo considera os franciscanos igualmente capazes, muitos deles também abnegados homens-santos, mas que não são devidamente reconhecidos pela Coroa e por Roma devido à politicagem dos Jesuítas.

Padre Maurício

Padre Maurício é um jesuíta nascido em São Sebastião, que passa boa parte do tempo embrenhado nas matas da Terra de Santa Cruz. Sempre desgrenhado, com barba por fazer, batina rasgada e um mosquete a tiracolo (“não se caça na mata com reza e luz divina”, é o seu lema), sua presença impertinente só é tolerada pelos círculos superiores da Igreja porque nenhum homem branco sabe mais sobre os mistérios de Santa Cruz do que ele (exceto Sumé, claro).

Crítico, irônico, muitas vezes incômodo, particularmente com sua tolerância em relação à feitiçaria dos índios e dos negros (ele reconhece haver espíritos poderosos que não são necessariamente maus, e compreende que, com o poder alcançado, pajés e sacerdotes negros tenham se acomodado e não prosseguido no caminho da total iluminação), Padre Maurício tem a qualidade de ser muito discreto quanto às coisas da Igreja. E mais de uma vez pôde mostrar o valor disso. Além do mais, ele aceita as missões que nenhum padre em sã consciência aceitaria. E mais: é o tipo de missão que ele procura!

Sobrevivente do Vale dos Acritós, mediador do acordo entre uma tribo maoári e os lusitanos que possibilitou a construção do Forte Albuquerque, principal fonte do bestiário secreto que a Igreja mantém sobre as criaturas do Novo Mundo, ninguém seria mais indicado para investigar as circunstâncias da morte do jesuíta San Roque Gonzalez.

Após verificar os poderes do Machado de Ñezú, cujos ferimentos infligidos não podem ser curados por encanto nem por reza, a cúpula da Igreja ficou preocupada com a possibilidade de que tão poderosa feitiçaria pudesse armar os índios contra os colonos e os missionários. Para deixar a Igreja ainda mais desconfiada, o encanto de Aura se mostrou inútil, como se o artefato fosse uma página em branco. Padre Maurício, então, foi enviado às missões guaraníticas de Tapé para investigar a origem do machado. Apesar de ser um lusitano, os padres castelhanos da Companhia de Jesus, conhecedores de sua fama, não fizeram óbice à indicação.

Entretanto, muitos anos haviam se passado, e Ñezú já não estava mais entre os vivos. Tampouco era prudente sair perguntando abertamente sobre tal machado. Restou ao padre fazer o que sabia fazer de melhor: viver junto aos índios para tentar descobrir e entender seus segredos mais profundos. Com os anos vividos entre os Maoáris, Padre Maurício aprendeu que a melhor forma de fazer este tipo de investigação é ganhar o respeito e a confiança de um Caraí. O que não é tarefa fácil. Entre os Maoáris, ele pôde assumir o papel de um diplomata. Em Tapé, ainda que os Jesuítas tivessem conquistado o respeito mesmo dos índios não reduzidos, eles são vistos como concorrentes ou inimigos dos pajés.

Published in: on 21 de setembro de 2016 at 18:45  Deixe um comentário  

OUTRAS MISSÕES

Missões de Chiloé

A atividade missioneira nas ilhas dos Chonos teve sucesso relativo. A experiência ajudou a Companhia de Jesus a perceber a ação limitada das missões itinerantes, passando a adotar assentamentos permanentes.

Missões da Patagônia

Com os Hets, nos pampas, os padres pedem ajuda ao governador para reprimir a insolência dos índios, enviando-os à capital da província para realizar trabalhos forçados. O governador ainda garante que os punirá se não houver arrependimento e submissão.

Os Hets têm uma postura bem diversa dos Guaranis. Eles esperam o missionário ir buscá-los em casa para ir à catequese.

As missões pampeanas junto aos Hets, um conjunto de três vilas, não vão pra frente, sendo aniquiladas pelos Mapuches em poucos anos.

As missões erguidas na região do lago Nahuel Huapi, junto às cordilheiras, também têm vida curta (ainda que não tão curta quanto às dos Hets), apesar do empenho dos padres, o que só fez aumentar o número de padres.

Missões do Chaco

No Chaco Austral foram estabelecidas algumas reduções de índios Guaicurus, algumas fundadas pelo padre Roque Gonzalez, antes mesmo de ser fundada a missão de San Ignacio Guazú em 1609. Contudo, as reduções dos Guaicurus tiveram início nada promissor, conseguindo se estabelecer apenas no século XVIII.

Na Província de Tucumán, as missões abrangem diferentes tribos e não formam um estado paralelo, como ocorre nos rios Paraná e Uruguay. Apesar da concorrência com as encomiendas, são toleradas por estarem atreladas às necessidades das cidades, contribuindo para a pacificação da região.

Padre Pedro Romero fundou várias missões no Chaco e em Tapé, sendo Padre Superior das missões do Paraná e Uruguay. Nesta qualidade, liderou os Guaranis na batalha de Mbororé. Acabou sendo morto em um ataque de Guaicurus ao tentar iniciar o projeto missioneiro no Chaco Boreal, em 1645. Os índios da região veem os padres como espiões do exército castelhano e os xamãs exploram essa suspeita.

No final do século XVII, os padres de Assunção sugerem ao Conselho das Índias uma guerra aberta contra os índios do Chaco como forma de pacificação. Os índios sofrem muitas derrotas por causa de um prisioneiro castelhano que cresceu entre os Guaicurus e se tornou um chefe guerreiro. Ferido e capturado pelas tropas coloniais, tornou-se um guia eficaz contra os índios.

Na última década da presença jesuítica na colônia, os Jesuítas logram erguer missões entre os Guaicurus ao norte de Assunção, subindo o rio Paraguay. Mas só as crianças vão à missa.

De todas as tribos do Chaco, os Calchaquis, entre os Diaguitas, são os mais arredios, recusando com repugnância as coisas da salvação.

Missões Chiquitanas

As missões jesuíticas do Chaco Boreal começam em 1691, formando um total de 11 missões até a expulsão dos Jesuítas. Ao contrário das missões do sul, os Guaranis da região, os Avá, são os inimigos. Os índios que servem de base à atividade missioneira são os Chiquitanos. Seu idioma, o Bésiro, é adotado como língua oficial das missões, mesmo com a chegada posterior de outras etnias. Apenas uma das reduções é atacada e destruída por uma tribo de Chiquitanos. Todas as outras prosperaram.

Os Chiquitanos são agricultores, o que contribui para o processo de redução. Adaptam-se com gosto ao machado de ferro e aos bois. Enquanto os nômades do Chaco pilham o gado castelhano, os Chiquitanos abraçam a revolução econômica.  Os colonos acreditavam poder conquistar uma mão de obra numerosa para suas plantações, mas esbarraram na resistência dos Jesuítas.

Os Chiquitanos têm o hábito de organizar anualmente expedições contra os vizinhos, arrebanhando escravos que ganham a liberdade após adotar o cristianismo.

Em um determinado momento, os Chiquitanos incorporam bem demais o discurso pacifista de sua nova religião, tornando-se presas fáceis nos confrontos com os Avá. Os padres são obrigados a readequar seu discurso de forma a preservar o espírito guerreiro dos Chiquitanos, ao menos no que diz respeito à autodefesa. Essa mudança é essencial para barrar os ataques dos Avá em 1726 e, posteriormente, dos bandeirantes.

Assim como os Guaranis no sul, usados nos confrontos contra os Charruas, os Chiquitanos e suas flechas envenenadas são utilizados para conter o ímpeto guerreiro dos Avá. Em ambos os casos, as missões servem também como obstáculo para o avanço da fronteira lusitana.

As reduções junto aos Moxos, tribo de Aruaques que vivem a sudoeste, são incorporadas ao conjunto das missões chiquitanas. Esse conjunto, e apenas ele, atinge o mesmo desempenho das missões guaraníticas.

Missões Franciscanas

A Ordem de São Francisco também administra missões na Terra de Santa Cruz, mas a Ordem é mais ativa no norte do continente, incluindo Nova Castela. Nas missões do sul, destaca-se um conjunto de reduções próximas a Assunção e outras no Chaco Austral. Entretanto, funcionam basicamente como vilas satélites das cidades coloniais.

Missões Mercedárias

Os Mercedários chegaram ao rio da Prata em 1536, participando da fundação de Assunção. Quando os Jesuítas são expulsos, herdam dez missões na região.

Chegaram a Tucumán em 1557 e estabeleceram missões em Santiago del Estero e nas cidades do norte da província.

Os Mercedários chegaram junto com Pedro de Valdívia a Nova Extremadura, estabelecendo missões no vale central, no norte da capitania e na região dos lagos, incluindo Nahuel Huapi. Com a revolta dos Mapuches, tiveram que abandonar as missões do sul e acabaram perdendo terreno para a Companhia de Jesus.

Assim como as missões franciscanas, as missões mercedárias no sul seguem a política dos governadores. A Ordem se encontra mais fortemente presente em Nova Castela.

Published in: on 21 de setembro de 2016 at 18:02  Deixe um comentário  

O FIM DAS MISSÕES

Em 1759, a Coroa lusitana expulsa os Jesuítas de Santa Cruz. Em 1767 foi a vez da Coroa castelhana. Nas últimas décadas, a Ordem estava sob cerrado ataque na Europa, acusada de fomentar a rebelião indígena, desobedecer às ordens da Coroa e construir um império independente na Terra de Santa Cruz.

Os Inimigos

Desde o início, a sociedade colonial reclama dos Jesuítas. Os colonos queixam-se da competição comercial com as reduções. Os bispos queixam-se de não receber o dízimo. As autoridades, civis e eclesiásticas, de não poderem exercer sua jurisdição sobre as vilas guaranis. Denunciam a existência de um Estado dentro do Estado; que os Jesuítas pregam o ódio aos colonizadores; que os índios são subtraídos das encomiendas para serem escravizados pelos padres. O muro de silêncio em torno das missões gera também reclamações direcionadas à Metrópole, acusada de favorecer os interesses da Companhia de Jesus.

O Bispo franciscano de Assunção defende que qualquer padre por ele nomeado seria mais capaz do que os Jesuítas no serviço de catequese, e faz campanha cerrada contra a Ordem.

As Intrigas

O desejo dos colonos por riquezas, a falta de metais preciosos na bacia do Prata e a preocupação gerada pelo avanço das missões geram uma série de denúncias de que os Jesuítas possuíam minas de ouro, prata e metais preciosos escondidas na região, e que até comerciavam com os estrangeiros, ou mesmo que estivessem montando um império independente com moeda própria. Tais denúncias são infundadas, mas levam as autoridades a diversas fiscalizações no local.

A intenção dessas denúncias é mesmo provocar a expulsão dos Jesuítas. Mesmo as outras ordens religiosas veem com preocupação o crescimento do prestígio jesuíta. Temem, principalmente, o que pode acontecer se um jesuíta chegar a Papa.

Os inimigos da Companhia de Jesus pagam guaranis que migraram para as cidades para contarem histórias de que haviam trabalhado nas minas dos Jesuítas. Porém, levados a mostrar onde ficam tais minas, acabam fugindo ao se aproximarem das missões, denunciando assim a fraude.

Na verdade, o que há de ouro e prata nas igrejas das reduções é proveniente de Nova Extremadura e de Nova Castela, mas muitos querem acreditar que há uma mina escondida na região. Quando os Jesuítas são expulsos da Terra de Santa Cruz, muitos mapas são vendidos com a “real” localização das minas.

A Expulsão

Com o crescimento do poder militar e econômico das missões, o grau de independência atingido incomoda a Metrópole e os governos locais, e até mesmo o Papa. Além da disputa pela mão de obra e o boato de riquezas, minas e tesouros secretos, a guerra guaranítica complicou de vez a situação, pois os Jesuítas são considerados culpados pela revolta. Até então, os interesses da Companhia coincidiam com os interesses reais. Não coincidem mais, ante a perspectiva de acordo com a Coroa lusitana sobre as fronteiras. O clero torna-se um dos adversários mais violentos da Ordem, e o Papa lava as mãos.

A paciência dos reis europeus com a Companhia de Jesus acaba. Ela é suprimida em Portugal (1759), França (1762) e Espanha (1767). Quando os missionários são presos, nenhum guarani se revolta. Já nas outras reduções, alheias ao conflito, há dor e indignação. É preciso mentir, dizendo que os padres estavam com saudades de casa, para evitar uma revolta. Ao voltarem para casa, os jesuítas castelhanos são presos e exilados para os Estados Pontífices. Em 1773, o próprio Papa extingue a Companhia.

As missões jesuíticas são distribuídas para as outras ordens. Entre os nômades do Chaco, os novos Curas acabam fugindo de volta para a cidade na primeira oportunidade, seguidos por alguns paroquianos. Com o tempo, essas tribos vão sendo exterminadas ou assimiladas pela sociedade colonial mestiça. Só os Moxos e os Chiquitanos mantêm-se protegidos com os Franciscanos, que assumem com sucesso as missões do Chaco Boreal. Já as missões guaraníticas são exterminadas, uma vez que a gestão econômica fica por conta dos colonos.

Nos últimos meses da presença dos Jesuítas na Terra de Santa Cruz, um padre decide fazer um mapa e reunir todas as informações das missões em um único documento. O mapa com as anotações é perdido em meio à confusão da retirada. Só veio a ser encontrado mais de 250 anos depois, mas isso já é outra história, outro RPG.

Published in: on 21 de setembro de 2016 at 17:21  Deixe um comentário  

O EXÉRCITO MISSONEIRO

A Batalha de Mbororé

Os Guaranis parecem para os bandeirantes uma presa privilegiada: numerosos e desorganizados, falam língua similar aos Tupis, estão no caminho para as riquezas de Nova Castela. Habitam regiões onde há poucos castelhanos estabelecidos e já estão pacificados nas reduções. Além disso, atacá-los significa um avanço da fronteira.

Após ter destroçado as missões do Guayrá e realizado várias escaramuças sobre as missões jesuíticas da região do Tapé e de Itatín, os bandeirantes já ameaçavam as reduções do lado ocidental do rio Uruguay. Em 1638, uma comissão de padres missioneiros viaja até a Metrópole para expor o problema e pedir ao Rei permissão de armar os índios missioneiros com armas de fogo, o que lhes foi concedido. A Real Cédula redigida para este fim permite aos índios continuarem a usar as armas em defesa das missões, desde que o Vice-Rei de Nova Castela seja comunicado com antecedência. Da Metrópole, um dos padres seguiu para Lima, sede do Vice-Reino, e outro a Roma.

Assim, com todas as autoridades cientes e a favor, os índios receberam as armas e treinamento militar, preparando-se para a invasão bandeirante. Após alguns confrontos que equilibraram as forças, os bandeirantes recuaram a fim de se preparem melhor para a nova realidade. Uma enorme bandeira parte de Piratininga em setembro de 1640, com 300 brancos e mestiços e 6 mil tupis, disposta a destruir todas as missões da região.

Ciente da ameaça, os Jesuítas armam um exército de 4.200 índios, dos quais apenas 300 portavam armas de fogo. O exército é liderado pelo Padre Superior, com o auxílio de três irmãos ex-militares.

À medida que a bandeira avança, índios que escapavam do apresamento se juntam ao exército missioneiro, servindo-se como informantes e espiões. O confronto ocorre em março de 1641, em torno do cerro Mbororé, na margem ocidental do Uruguay, tanto por terra quanto pelo rio, coberto por centenas de canoas. A batalha dura alguns dias, fazendo com que os Tupis desertem ou mesmo passem para o lado dos missioneiros.

No sexto dia de combate, os bandeirantes enviam uma carta de rendição, que é rasgada pelos missioneiros. Ao tentarem fugir do local de combate, deparam-se com 2 mil guaranis armados, que continuam a persegui-los até sobrar uns poucos homens, que retornam a Piratininga.

Com esses ataques, os Jesuítas decidem concentrar as missões entre os rios Uruguay e Paraná, fortificá-las e manter o treinamento militar dos índios adultos. Obtêm autorização do Vice-Rei para terem sua própria milícia, permitindo aos padres comprarem armas de fogo.

Os índios que compõem as milícias são liberados dos trabalhos comunais. Claro que o Vice-Rei não se preocupa tanto com o bem-estar dos índios, mas sim com o avanço dos Lusitanos. Por isso, naquele momento, não se recusou a dar mais autonomia às missões, pois teria em troca um verdadeiro exército de fronteira, do qual poderia lançar mão para resolver problemas internos, como o conflito com os Charruas, ao sul, ou a revolta comunera em Assunção.

Em 1648, a Coroa lusitana decide proibir as bandeiras de apresamento em reduções, tanto por pressão da Companhia de Jesus quanto para evitar maiores conflitos com os Castelhanos.

As missões jesuíticas se transformam em obstáculo para a expansão lusitana, tanto no sul quanto na região central da Terra de Santa Cruz, no Chaco Boreal.

A Milícia Guarani

Os frequentes ataques dos bandeirantes levaram, então, a uma militarização das missões, incluindo o uso de armas de fogo pelos índios. As táticas de combate são incluídas no currículo das missões, que passam a contar com milícias permanentes. Além de guerrear em nome dos governadores e do Vice-Rei, a milícia também se obrigava a ajudar em construções defensivas, como a muralha de Montevideo.

A milícia guarani utiliza arco, lança, pique, espada, funda, escudo circular, mosquete, escopeta e até canhões rudimentares, como as taquaras, peças feitas de tronco de laranjeira escavado e reforçado com couro, com capacidade para três tiros. Há de 20 a 30 armas de fogo em cada redução, podendo chegar a 50 naquelas que enfrentam maior perigo de ataque. Estas armas são confiadas aos índios mais hábeis. A pólvora fabricada localmente é de má qualidade.

Cada arqueiro possui 50 flechas, 2 arcos e 4 cordas. Os arsenais são abastecidos com 6 mil flechas. Os fundeiros têm 30 pedras talhadas e 12 fundas. Cada cavaleiro possui dois cavalos treinados para suportar o barulho das batalhas. Há um local de refúgio para mulheres e crianças, pois, quando são capturadas pelos inimigos, os guerreiros se rendem.

Os oficiais são os próprios Guaranis, e os Curas são os conselheiros de guerra. O comando fica por conta de um sargento-maior e um mestre-de-campo. A infantaria comporta 100 homens e a de cavalaria e de fundeiros, 50 cada. Cada uma delas é comandada por um capitão. Todo mês há um exercício de guerra. Os melhores atiradores são premiados com alimentos extras.

Poucos são os índios que sabem manusear a pólvora das armas ou fazer a mira como se deve. Também há pouca disciplina para manter a formação durante o combate. Por serem características alheias à cultura de guerra dos Guaranis, eles rendem melhor quando liderados por um branco.

As reduções guaranis são obrigadas a socorrer militarmente a colônia. Em grande número e bem comandados, são uma poderosa máquina de guerra, lutando várias vezes contra colonos rebeldes e Guaicurus. Os índios missioneiros combatem os pagãos ou os índios rebeldes das encomiendas com vigor. Às vezes os Jesuítas conduzem suas próprias guerras contra os nômades, sem pedir autorização oficial.

A maior vítima deles, entretanto, são os Charruas. Os Jesuítas não fazem muito esforço para converter os Charruas, considerados inimigos. Eles não aborrecem as missões, mas arrasam as estâncias e atacam as expedições às vacarias, atacando a reserva de gado. Rivais naturais dos Guaranis, estes partiram com gosto para atacá-los quando convocados pelo governador da Província do Rio da Prata.

Quando ameaçadas, as reduções armam paliçadas e fossos a seu redor. Há grandes barcos de guerra, principalmente nas reduções suscetíveis aos ataques dos Paiaguás.

Guerras Guaraníticas

Com a assinatura do Tratado de Madrid, em 1750, a região de Tapé passou a pertencer à Coroa lusitana, em troca da posse castelhana de Colônia do Sacramento. Os índios missioneiros, incentivados por alguns jesuítas, recusam-se a sair e se transferir para a banda ocidental, bem como os lusitanos de Colônia não deixam a cidade de imediato. Os índios consideram que são bons súditos à Coroa e que não cometeram crime algum que justifique o exílio, e escrevem uma carta ao Rei nesse sentido.

Os Guaranis censuram os Castelhanos e os Jesuítas por não agirem como cristãos e os fazerem perder a fé. Os Curas já não parecem mais agir em favor do povo. Os paroquianos decidem morrer em defesa do Santo Sacramento. Em 1753, os índios começam a criar dificuldades à ocupação lusitana na região, levando à guerra no ano seguinte. Só que, dessa vez, os Guaranis são obrigados a enfrentar também as forças castelhanas vindas do Rio da Prata.

Os caciques têm a seu favor o orgulho tribal e a bravura pessoal, mas não têm autoridade para falar por todos os Guaranis, nem conhecimento estratégico para combater Castelhanos e Lusitanos ao mesmo tempo. Assim, cada redução faz a guerra por si, com as tropas divididas em vários bandos. Não se prevê nenhum dispositivo de abastecimento, nem qualquer plano de campanha. Logo surgem divergências quanto às táticas a serem adotadas.

Com duas frentes de batalha e as forças divididas, a resistência acaba em 1756, de forma dramática, com a morte do principal líder guarani, Sepé Tiaraju.

Sepé tinha um grande dom para a magia, mas optou por ser um guerreiro em vez de um Caraí. Reza a lenda que Sepé era um Charrua cuja aldeia foi atacada pelos Castelhanos. Um jesuíta que acompanhava a tropa decidiu acolher o órfão e levá-lo até as missões, mas acabou o entregando a uma aldeia guarani antes de concluir a viagem.

Seu avô adotivo era um poderoso e adorado Caraí, de forma que Sepé foi criado para sucedê-lo. Entretanto, passou a frequentar a missão vizinha, onde aprendeu castelhano e a arte militar. Considerou que, como guerreiro, poderia contribuir mais para uma convivência harmoniosa entre brancos e índios. Na guerra, Sepé adota táticas de guerrilha, evitando grandes batalhas. Seu corpo nunca foi encontrado.

O Tratado de Madrid, de 1750, é rompido em 1761, mas os Guaranis haviam perdido a fé nos jesuítas. Ao mesmo tempo, todo mundo acredita que os Jesuítas fomentaram a guerra com os Guaranis. Muitos se convencem que os Jesuítas, ou parte deles, queriam fundar um império. Assim, os jesuítas se sentem isolados dos dois lados.

Published in: on 21 de setembro de 2016 at 17:08  Deixe um comentário