Dos Bandeirantes

Bandeirantes é como são conhecidos os moradores das capitanias de São Vicente e Itanhaém que partem em entradas sertão adentro por razões das mais diversas. Formam verdadeiras tropas particulares, acompanhadas geralmente por um bem disposto exército Tupi, especializadas em passar longos períodos na mata. Conhecem os segredos da floresta quase tão bem como os próprios nativos. Aliás, muitos deles são mestiços, caboclos, verdadeiros filhos da Terra de Santa Cruz.

Enquanto a capital da província tenta emular os ares da Metrópole, Piratininga parece ter nascida da própria terra. O povo do planalto é diferente de qualquer outro na colônia. Homens e mulheres. Brancos e mestiços.

Para os fidalgos do litoral, principalmente os do Nordeste, o bandeirante é antes de tudo um bárbaro. Vestindo roupas antiquadas, poeirentas, modos rudes, pés descalços, falam a língua dos nativos melhor do que a língua da Metrópole. O bandeirante é a antítese daqueles que procuram reproduzir na colônia os hábitos da Corte. Nas minas dos Cataguás, o convívio forçado entre piratrininganos e aventureiros vindos do Nordeste é explosivo, tamanha a discrepância de hábitos.

Se as entradas podem proporcionar glória e riqueza aos bandeirantes, o destino mais certo para muitos é a morte anônima na floresta. Por isso a maioria faz seu testamento antes de partir. Suas esposas ficam nas vilas tocando em frente as fazendas e os negócios. Apesar da vida dura do planalto, essas mulheres, se vivem com menos conforto, acabam tendo mais liberdade e iniciativa do que as mulheres do litoral.

Das bandeiras

No Reino, a Bandeira substitui a Companhia de Ordenança nas zonas rurais. Semelhante às milícias, compostas por grupos de 250 homens, as bandeiras lusitanas são divididas em esquadras, reunindo aqueles que estejam a uma légua da sede.

Na Província de Santa Cruz, do original lusitano as bandeiras só conservam o nome e o caráter de milícia interiorana. Ainda que porventura possam ser convocados pelo Governador-Geral ou pela Coroa, as bandeiras são iniciativas particulares que se armam e se sustentam com recursos próprios. Tanto faz se é um grupo de 15 ou de 500 homens, é o objetivo e o ímpeto de seus integrantes que caracterizam a bandeira. Uma significativa diferença das bandeiras da colônia para as bandeiras lusitanas é a ausência do brasão real na insígnia exibida nos estandartes. Isso quando se preocupam em portar um.

O líder da bandeira, chamado de capitão, é quem dá nome à empreitada. Um capitão é sempre auxiliado por um lugar-tenente, o segundo em comando. Em bandeiras muito grandes, geralmente aquelas que partem em missões de guerra, há a necessidade de outros postos de comando mais abaixo. Uma bandeira não parte sem proteção divina. Inicialmente, quem acompanhava a tropa eram os irmãos da Companhia de Jesus, mas estes acabaram sendo proibidos de se embrenhar na mata para não esvaziar os aldeamentos. Depois, a própria Companhia entrou em atrito com os bandeirante devido ao ataque às missões castelhanas. O cargo passou a ser ocupado, em sua maioria, por padres seculares. Caboclos e batedores tupis seguem à frente denunciando qualquer perigo. Quando possível, segue junto um barbeiro-cirurgião. Mas não é fácil arrumar um disposto a aventurar-se. E às vezes é preciso vencer a resistência da Câmara, que pode não permitir a partida daquele que, muitas vezes, é o único curador disponível na vila. Às vezes lança-se mão do serviço de curandeiros, nativos, mestiços ou brancos, sob protestos veementes do capelão.

As bandeiras costumam ser compostas também por um exército de Tupis, que pode chegar a 2 mil nativos nas grandes campanhas. Eles acompanham os bandeirantes com entusiasmo, pois é a oportunidade de se colocarem à prova como guerreiros e se verem livres da vida de camponês que levam em nossos aldeamentos.

A presença de negros é bastante reduzida, geralmente servindo como carregadores. Mulheres são raríssimas, mas, estando presentes, também marcham armadas. Mais comum é a presença de algumas nativas nas bandeiras maiores, para servir como cozinheiras ou como concubinas. Meninos de 13 e 14 anos também participam. Muitos deles filhos de capitães e futuros líderes de bandeira, assim como seus pais aprenderam com seus avôs.

Quando partem para o sertão, os bandeirantes caminham quase sempre descalços, em fila indiana. Exceto pelas armas e munição, quase não carregam bagagem. O bandeirante leva no corpo quase tudo: um chapéu, carapuça ou lenço na cabeça; ceroulas, calça de baeta, camisa de algodão e gibão bem acolchoado; rede de dormir com cobertor, toalhas e uma almofadinha. Levam ainda pratos de estanho, cuias, cantis, bateia de lavrar ouro, facas, colheres, cabaças com sal e farinha de guerra. Carregam consigo poucos mantimentos. Comum também a presença de pequenas ferramentas, até mesmo para serem trocadas com os nativos: machado, foice, agulha, anzóis, rede de pesca. Às vezes alguém leva um baralho.

Outros objetos que podem ser encontrados em uma bandeira: cunhas, alavancas, caldeirões, caixas de boticas, estojo de cirurgia, tesoura, navalhas, pedra de afiar, pente, tinteiro, tabaqueiro.

Das armas de fogo, a mais comum é a escopeta. Um só homem pode carregar 5 ou 6 escopetas consigo. Mas não somente. Há também pelo menos um bacamarte, pistola, espingarda ou mosquete. Arco e flecha, dezenas delas guardadas em canos, a maioria fabricada pelos próprios nativos, assim como as lanças. Entre as armas brancas, espadas, adagas, machete e terçados.

A munição é composta de pólvora e chumbo. A carga individual de cada integrante da bandeira varia enormemente de acordo com a viagem, podendo ser de quatro a cem libras, acrescido de duas arrobas de chumbo. Item importante é o polvarinho, um objeto feito com chifre de animais para colocar a pólvora na arma.

Para proteção, carregam no máximo um capuz de couro de anta, chamado de gualteira, e um broquel de madeira, circundado por um arco de metal e recoberto de couro, mas que é pouco usado. As principais armaduras são mesmo o gibão ou a coura, uma carapaça de couro cru de anta, sem mangas, com recheio de algodão e forro de baeta. A coura é mais pesada e mais longa que o gibão, que é feito de algodão, oferecendo maior proteção contra as flechas.

Os bandeirantes marcham apenas metade do dia, para evitar demasiado desgaste e para que tenham tempo de caçar e forragear adequadamente. Durante a viagem, a bandeira faz longos pousos para plantar mandioca. Enquanto esperam a colheita, os bandeirantes passam o tempo pescando, caçando, coletando ervas, raízes e mel. Às vezes, quando se pretende estabelecer uma rota habitual, um pequeno contingente fica para trás cuidando da roça, de modo que haja colheita no retorno ao planalto. Outra atividade necessária é a fabricação de canoas improvisadas, seja para acelerar a viagem ou atravessar um rio, o que conseguem fazer em um dia.

Das rotas

Os bandeirantes inicialmente utilizaram os peabirus para penetrar as regiões inexploradas, mas, com o tempo, acabaram traçando suas próprias rotas pela Terra de Santa Cruz. Expandiram a colônia para o sul, dando origem à Capitania de Nossa Senhora do Rosário do Paranaguá. Avançaram para o oeste, levantando o Forte de Albuquerque e chegando até as cordilheiras. Avançaram para o norte, chegando até o rio Solimões. E, atravessando os Campos dos Cataguás, chegaram ao Nordeste em diversos pontos.

O alto do rio São Francisco foi navegado pelos piratiniganos desde o início do século. O vale serviu de estrada para combater os Neerlandeses e a Confederação dos Cariris, na sangrenta Guerra dos Bárbaros, e permitiu que alguns bandeirantes se estabelecessem no sertão do Piauhy.

Descendo o rio Paraupava e o Araguaia, chegaram até a Capitania do Maranhão. Uma dessas bandeiras decidiu permanecer por lá, atraindo a desconfiança e hostilidade das autoridades locais, criando um entrevero que mereceu intervenção da Coroa.

Do futuro das bandeiras

Com o retorno da Companhia a Piratininga, os Jesuítas pensaram que os dias das bandeiras de apresamento haviam ficado definitivamente para trás. Contudo, uma bandeira, em 1696, atacou as missões jesuíticas entre os Chiquitanos, mas a iniciativa foi frustrada pela valorosa resistência da milícia montada pelos padres.

Há uma enorme insatisfação dos piratininganos com o governo-geral em relação à exploração das minas. Alguns, mais pessimistas, em vez de partir para os Campos dos Cataguás, preferem arriscar a sorte para além do Forte Albuquerque, à procura de um novo Eldorado. De fato, ainda há muito a ser explorado na Terra de Santa Cruz, e ainda não se assistiu ao ocaso dessa gente destemida.

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Published in: on 10 de janeiro de 2019 at 19:20  Deixe um comentário