DOS SERES ENCANTADOS*

Os seres encantados podem ser encontrados em qualquer parte do Novo Mundo, ou mesmo do velho continente. Tanto no campo como nas cidades. Eles têm como origem maldições ou feitiços que saíram do controle.

Capiango

Habitat: Relatos sobre sua aparição foram registrados na Província do Guayrá e nas capitanias de São Vicente e Paranaguá. Mas sua natureza não apresenta nenhum limite de atuação.

Capiango é um homem que se transforma em onça, passando a atacar sem amor ou piedade. Ele tem origem quando alguém que não domina o feitiço de Metamorfose realiza um ritual específico para se transformar em onça. Este ritual inclui uma pele de um a onça, de qualquer parte do corpo, que a pessoa deverá vestir, e um coração do felino, que deverá ser comido. Não poderá ser qualquer pele de onça, mas uma pele já preparada em ritual mágico para esse fim.

Por não ter familiaridade com o feitiço, a pessoa perde facilmente o controle sobre a transformação e de suas ações. Uma vez transformada em onça, ela em o homem como vítima preferencial. Seu pelo é à prova de balas, sendo necessário acertar os olhos ou a boca.

Essa perda de controle não ocorrerá necessariamente nas primeiras transformações, mas acontecerá progressivamente. Quando o descontrole atingir seu ápice, o ritual se tornará desnecessário e a transformação ocorrerá de forma natural, passando a ser parte da natureza da pessoa.

Considerações adicionais: o Capiango pode ser tanto o monstro a ser batido ou a pessoa a ser salva, caso o grupo deseje desfazer os efeitos do ritual. Pode ser pensado também o motivo que levou a pessoa a fazer o ritual.

Corpo-Seco

Virar um Corpo-Seco é o destino de toda pessoa que passou pela vida semeando malefícios e que maltratou a própria mãe. Quando ela morre, nem Deus nem o Diabo o querem. A terra a repele, enojada de sua carne. Então ela vaga pela noite, com a pele pendurada sobre os ossos, feito assombração.

Há suspeita de que aqueles que mantiveram relações carnais com o demônio, ou os amaldiçoados e mortos sem penitência, terão o mesmo fim.

Considerações adicionais: pelos relatos colhidos, o Corpo-Seco não parece estar atrelado a sua tumba ou ao lugar em que viveu ou morreu. Uma vez repelido pela terra e recusado até mesmo pelos vermes, ele ganha livre atividade noturna ao som de berros e gargalhadas. Seu propósito pode ser bem diverso, e nunca positivo.

Cumacanga

Cumacanga é, antes de mais nada, uma maldição. A sétima filha de um casal sem filho homem nasce encantada se os pais não a batizarem imediatamente. A partir de uma determinada idade, a cabeça sai do corpo à noite, durante o sono, e voa como uma bola de fogo.

Analisando mais detalhadamente as ocorrências, é possível concluir que a Cumacanga só ataca se for molestada, quando então lançará labaredas sobre o eu agressor.

Considerações adicionais: não é conhecido se a moça está consciente ou não de suas ações como Cumacanga ou mesmo de sua maldição. É possível que se recorde de tudo como se fosse um sonho e se sinta um tanto cansada. Tampouco parece haver lógica ou objetivo em seu voo noturno. Talvez este seja dirigido por seus desejos mais secretos.

Lobisomem

Lobisomens são homens amaldiçoados que, em noites de lua cheia, se transformam em um monstro peludo com feições de lobo, que vagam alucinados pela noite atacando a todos.

Há muitas informações desencontradas sobre as origens dessa maldição. Uns dizem que a Licantropia é uma maldição fruto de sortilégio. Outros, que acomete o sétimo filho homem de um casal. Sendo um sortilégio, haveria a possibilidade da pessoa se auto-infligir tal maldição em algum tipo de ritual macabro? De qualquer forma, há poucos casos no Novo Mundo.

O Lobisomem possui garras poderosas e força descomunal, além das presas bestiais. Sua resistência é igualmente sobrenatural. Parece ser invulnerável a tiro. Para perfurar sua pele, a pólvora haveria de estar benzida em altar ou a lâmina revestida de prata. Também o fogo é mortal para a criatura. Se um de seus membros for decepado, ele volta à forma humana.

A Licantropia pode ser também contagiosa. Não se sabe ao certo se é o contato com o sangue da criatura ou sua mordida que transfere para o outro a sua triste herança.

Considerações adicionais: o Lobisomem é uma criatura mais infeliz do que má, aprisionado em sua fúria irracional, obrigado a esconder a sua maldição e a conviver com a terrível consequência de seus atos.

Mãe do Ouro

Relatos desencontrados sobre um ser de fogo chegam das regiões mineiras de São Vicente e Campos dos Cataguás. Nas noites de sexa-feira, uma bola de fogo indicaria o lugar onde há um tesouro escondido ou ouro não revelado. Seria a manifestação da alma de um ladrão, que em vida escondeu um tesouro formado por meio de crimes, ou de um mineiro que haveria falecido antes de revelar a sua descoberta. De uma forma ou de outra, essa alma procura a paz, que parece ser alcançável apenas com a revelação do segredo que carregou em vida.

Mais misteriosa é a alcunha Mãe de Ouro dada ao que parece ser uma cabeça flamejante. É possível que, hipnotizado pelo misto de horror e fascinação, o viajante noturno acredite ser seduzido por uma espécie de sereia ígnea.

Considerações adicionais: não há razões para acreditar que a sua ocorrência represente qualquer perigo para quem a encontre vagando na escuridão da noite. Porém, o viajante pode desconhecer a lenda em torno da aparição e julgar ser um demônio de fogo a assombrá-lo. Talvez venha daí os relatos que a Mãe de Ouro lance bolas de fogo ou exploda em chamas contra os aventureiros desavisados. Possivelmente venha daí a falsa noção de que seu objetivo seja proteger o ouro, e não revelá-lo.

Mula sem cabeça

De todos os seres encantados, a Mula Sem Cabeça tem sido a mais avistada na Terra de Santa Cruz. Não apenas na colônia lusitana, mas também nas províncias castelhanas do sul. O que é uma triste constatação, considerando-se sua origem.

A maldição recai sobre a concubina de um padre católico. Nas noites de quinta pra sexta-feira, ela se transforma em uma forte mula negra, que galopa veloz e assombra as vilas por onde passa. Como uma besta desenfreada, ela percorre vários povoados em uma só noite, correndo até o terceiro cantar do galo.

Sua visão é aterrorizante. Engana-se aquele que pensa que, por causa do nome, ela é desprovida de cabeça. O nome lhe foi dado devido às chispas de fogo que saem pelo nariz, olhos e pela boca, de forma a cobrir-lhe toda a cabeça de chamas e fumaça. Poucos são aqueles que conseguiram vislumbrar em sua testa uma cruz de pelos brancos.

As chamas não se limitam a essas partes, percorrendo-lhe também a cauda, que corta a escuridão como um facho de fogo que nenhum vento ou chuva parece capaz de apagar.

Suas patas são como calços de ferro, cuja violência do galope pode ser ouvida à distância. Quem cruzar o seu caminho morre cortado pelos cascos afiados como navalhas, muito mais fatais que as labaredas que solta pela boca.

Tão aterrador quanto a sua aparição é a estridência de seu relincho, seu soluçar quase humano e o barulho excruciante dos dentes mordendo o freio de ferro. Quem conseguir arrancar-lhe da cabeça o freio de ferro quebrará o encanto. A concubina, então, reaparecerá despida, humilhada e arrependida, e não voltará à forma encantada.

Outra forma de fazê-la reverter à forma humana é fazer-lhe sangue, por qualquer meio. Mas tanto a encantada quanto o audacioso herói serão levado ao erro em acreditar que maldição teve fim. Na semana seguinte, a Mula Sem Cabeça retomará a sua sina.

A outra forma definitiva de por fim ao encantamento é a morte da criatura, que voltará à forma humana.

Considerações adicionais: acredita-se que, quando uma Mula Sem Cabeça é morta em sua forma encantada, apesar de seu corpo recuperar a humanidade, sua alma haverá de penar sobre a terra como uma assombrosa visagem.

Yaguareté-Abá

Habitat: matas das províncias do Guayrá e Rio da Prata, e sul a Província de Santa Cruz.

O Yaguareté-Abá é um homem-onça, mais precisamente velhos índios que se transformam em uma onça feroz para dar morte ao inimigo.

Se a pessoa não for feiticeira e realizar o feitiço de metamorfose por qualquer motivo, poderá ter como efeito colateral a perda da consciência humana. Se, neste estado, copular com uma onça, perde de vez a condição humana. O Yaguareté-Abá raciocina como um animal, mas pode ter insights de sua parte humana.

O efeito pode ser reversível ao ser removida a magia, mas o Yaguareté-Abá resistirá contra essa tentativa de remoção. Caso volte ao normal, a pessoa será como uma onça no corpo de um homem, uma espécie de Tarzan felino.

Considerações adicionais: há várias lendas de homens-onças. A maior dificuldade é saber qual é a origem da criatura. Geralmente, a razão da transformação está relacionada com alguma vingança. Esse desejo de vingança, ou simplesmente o desejo de matar alguém, induz naturalmente a pessoa a adquirir a consciência de uma onça. O uso do amuleto de Metamorfose também pode ser um possível causador desse efeito colateral.

Zumbi

Zumbi é o cadáver animado por forças mágicas e obrigado a trabalhar para o encantador. Portanto, sua aparência depende do tempo decorrido entre o encanto e sua morte. O mais comum é a aparência de um ser humano semidecomposto.

Geralmente, o Zumbi é criado para fins malignos, mas não significa que ele próprio seja um ser maligno. Ele não tem vontade própria, é um corpo escravizado por magia, retirado de seu repouso. É comum também sua utilização para fins mundanos, como mover engenhos e fazer colheitas durante a noite.

Há casos em que o morto-vivo seja é abandonado à deriva, agindo sem objetivo, como uma fera irracional. Mesmo sem estar sob a influência do mal, agirá de forma caótica, com tendência à destruição.

Considerações adicionais: é normal que a primeira reação para combater um Zumbi seja por meio de exorcismo, mas a alma que o anima é a sombra daquela própria que um dia a habitou. Trata-se de um feitiço, e como tal deve ser desfeito, removido.

*Compilação extraída do bestiário de Padre Maurício.

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Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 12:33  Deixe um comentário