OS JESUÍTAS

A Companhia de Jesus foi criada em 1534, em Paris, por sete amigos reunidos em uma capela de Montmartre. Iñigo López de Loyola, seu fundador, selecionou Francisco de Jasso Azpilicueta Atondo y Aznáres, Diogo Laínez Gómez de León, Alfonso Salmerón, Simão Rodrigues de Azevedo, Alfonso Nicolás Pérez de Bobadilla e Pierre Favre, então o único sacerdote presente, para se submeterem pela primeira vez aos Exercícios Espirituais que havia elaborado. O objetivo de tais exercícios é estabelecer regras disciplinares para a vida religiosa e para as missões de evangelização.

Com a ameaça da expansão Protestante, Iñigo e seus companheiros decidiram recuperar antigas áreas perdidas para a nova religião. Elaboraram, então, uma estratégia de contra-ataque. Estruturam a Companhia de Jesus como uma milícia para defender a fé e combater a heresia. Os Jesuítas se tornaram a antítese dos monges contemplativos.

Iñigo era um ex-militar e transmitiu a seus seguidores o espírito aguerrido e a língua ferina, transformando os Jesuítas em um exército rigidamente disciplinado, verdadeiros soldados da fé católica. A hierarquia é a principal característica da Companhia. Além dos votos comuns de castidade, pobreza e obediência, os Jesuítas professam o voto de obediência absoluta ao Papa, de quem são os mais hábeis defensores, renunciando à própria vontade.

Em um momento que os reformadores criticavam o excesso de luxo dos sacerdotes e a atitude condescendente da Igreja, os Jesuítas passaram a valorizar as viagens de conversão, o heroísmo e o sacrifício, enfrentando doenças desconhecidas, alimentos estranhos, a distância da família, a fome e a própria morte.

Os Jesuítas se espalharam rapidamente, tornando-se educadores e confessores de reis. Sua íntima ligação com a Santa Sé faz da ordem alvo de desconfiança e criticas das outras ordens. Com o quarto voto, eles se mostram os mais fiéis dos fiéis, buscando se desvencilhar da submissão às autoridades locais no regime de Padroado. Sua submissão é ao Papa, que se encontra quase sempre bem distante.

A expansão da Ordem pôs em chegue um dos seus principais pilares: a união e coesão de seus integrantes. Nem mesmo a obediência e a hierarquia firme seriam suficientes para manter o espírito original dos Jesuítas de Paris. Os sacerdotes da Companhia adotaram, então, o hábito da constante troca epistolar.

A Companhia não possui regras de vida em comunidade nem ofícios sagrados, o que dá à ordem grande flexibilidade de ação. Também não possuem religiosas a seu cargo, nem regras para penitências, e não aceitam cargos eclesiásticos.

Pragmáticos e racionais, planejam e buscam alcançar suas metas com arrojo e determinação. Dedicados a tornarem-se modelo de perfeição espiritual, observam com rigidez as regras que mais repercutem na sociedade. Para eles, a confissão é essencial para compreender e ajudar as almas, encontrando a solução para seus problemas. Já a conversão de novos fiéis deve ser alcançada pela educação.

Hábito: os Jesuítas não adotam um hábito específico, variando as vestes conforme a região.

Cruz: os Jesuítas também não possuem uma cruz característica. Entretanto, nas missões castelhanas, destaca-se a Cruz de Caravaca, um crucifixo com duas barras horizontais. Ela é um símbolo de poder e proteção. Em Caravaca há uma fortaleza militar construída para expulsar ou Mouros. Há quem afirme que a cruz original foi levada até por dois anjos e que nela há um pedaço da cruz onde foi crucificado Jesus Cristo. Dizem, também, que ali havia um antigo reduto da Ordem dos Templários. Os dois braços simbolizam a fé redobrada, foco e abnegação.

A Formação

A Companhia conciliou a formação religiosa e intelectual de seus noviços com a resistência física e a articulação política necessárias às atividades missionárias. Os Jesuítas são também instruídos nas habilidades administrativas e financeiras que asseguram a autonomia da ordem.

Tanto o desenvolvimento espiritual quanto o intelectual são considerados essenciais para um Soldado de Cristo. Mas o jesuíta também não deve descuidar da saúde física ou causar intencionalmente qualquer debilidade em si mesmo.

O noviciado da Companhia é prolongado e inclui formação literária e científica. São dois anos de noviciado, três de filosofia, algum tempo dedicado ao magistério, quatro anos de teologia e mais um de noviciado. Os Jesuítas são grandes estudiosos e mestres em oratória, pois só assim acreditam poder exercer bem suas funções. Usam a lógica sem paixão, buscando sólidos argumentos.

Não pode ingressar na Companhia quem já renegou a fé, quem já tenha negado ou depreciado a autoridade da Igreja Católica ou quem já tenha praticado crime grave ou de conhecimento público. Não se trata, portanto, de uma Ordem aberta a qualquer pessoa. Ela exige do aspirante a submissão prévia, voluntária; virtudes raramente encontradas em um homem; o total desprendimento de seus próprios desejos.

Durante o noviciado, o noviço não pode ter contato com seus familiares ou usar qualquer coisa sua, a fim de acostumar-se desde o início com a pobreza.  O retiro espiritual da Companhia é distinto do praticado pelas outras ordens. Os Jesuítas praticam os Exercícios Espirituais elaborados por Iñigo de Loyola. Ele acreditava que a disciplina da fé desenvolvia o Poder Divino, da mesma forma que o exercício físico desenvolve o corpo. Os Exercícios são, portanto, a contrapartida religiosa da dedicação à filosofia e à ciência.

Os Exercícios Espirituais focam na adaptação às circunstâncias, flexibilidade e ajuste a todo tipo de cultura e forma de pensar, circunspecção e preferências que devem ser respeitadas. Os Jesuítas valorizam a aptidão individual de seus membros, pois são particularmente concentrados na busca pela perfeição.

O primeiro exercício é o da imaginação, construir na mente o próprio cenário, os lugares em que as coisas se passaram, com os personagens e todas as circunstâncias. O segundo exercício é educar o ouvido interior para ouvir o que dizem os personagens.  Se meditar sobre o pecado, é preciso imaginar o inferno, ouvir os gritos dos condenados, sentir o odor das carnes queimadas. E assim se segue.

A obediência é imperfeita quando, apesar de executar a ordem, a pessoa não estiver de acordo com o que fez. É preciso uma comunhão de sentimentos entre aquele que comanda e aquele que obedece.

Os noviços são orientados a exigir dos catecúmenos apenas o essencial, o Cristianismo mais fácil de praticar. A Companhia defende que não há um caminho rígido para a eternidade, mas sim muitos.

Os noviços, chamados de Escolásticos, no final de sua formação, dependendo de seu desempenho nos treinamentos, são ordenados Padres Coadjutores ou Padres Professos.

Os Padres Coadjutores são aqueles que proferem apenas os três votos básicos de todas as ordens: castidade, obediência e pobreza. Esses padres auxiliam os Padres Professos na organização geral da estrutura da Companhia e atuam diretamente nas paróquias.

Os Padres Professos são os Jesuítas que completaram todo o complexo processo de formação, que dura de 12 a 15 anos, provando sua excelência escolástica, e, no final, proferem o quarto voto, o de obediência ao Papa. Os Professos ocupam os cargos de professores nas faculdades de Filosofia e Teologia, comandam o processo de treinamento dos noviços, e exercem o cargo de Padre Provincial. É exigido do Professo rigor na prática da pobreza.

Há ainda os Irmãos Leigos, que nunca se tornam padres, pois completaram apenas a primeira parte do noviciado. Auxiliam nos serviços mais básicos das casas e colégios jesuíticos, servindo também como enfermeiros.

A Estrutura

O órgão superior da Societas Iesu é a Congregação Geral. Ela é formada pelos Padres Professos eleitos em suas províncias. Trata-se de uma assembleia internacional de Jesuítas sediada em Roma, responsável somente perante o Papa.  A Congregação elege o Superior-Geral, com mandato vitalício, e só poderá depô-lo por motivos justos.

O Superior-Geral tem autoridade sobre toda a estrutura da Ordem, sem estar vinculado a qualquer conselho ou consentimento, exceto ao próprio regulamento da Companhia e ao Papa. Mas o Geral tem a seu lado um Vigilante que o adverte de suas faltas cotidianas. Caso necessário, o denuncia. Caso caia em fala grave, o Conselho pode destitui-lo. Até o momento, isso nunca aconteceu.

Quando o Geral morre, seus assistentes convocam nova Congregação Geral, que deve ser composta por três professos por província. A eleição é por maioria de votos.

Diferente das ordens mendicantes, a Companhia depende diretamente do Geral da Ordem, sem passar pelo Rei. Apesar dos conflitos com autoridades reais, civis e eclesiásticas, os Jesuítas sempre gozaram do favor da Coroa.

Nos reinos ibéricos, a Companhia de Jesus desenvolveu forte estrutura de milícia, tornando-se um poderoso braço da Contrarreforma. Ela se espalhou por todas as colônias lusitanas, incluindo as do Extremo Oriente.

À divisão administrativa da Companhia chama-se de Província, que seguem lógica distinta da administração colonial, mas podem coincidir. A sede provincial da Companhia na Província de Santa Cruz coincide com a sede do Governo-Geral. Já a sede da Companhia em Nova Castela fica em Córdoba, bem distante de Lima, a capital do Vice-Reino.

Cada província é dirigida por um Padre Provincial, também professo, designado pela Companhia de Jesus para cuidar de todas as missões de sua região. A ele, os demais jesuítas da colônia devem total obediência. Tem a seu dispor um conselho consultor, secretários e procuradores nas principais cidades.

Cada região da província tem um Padre Superior, que conta também com seu grupo de consultores. O Superior não tem autonomia para tomar qualquer tipo de decisão, precisando muitas vezes do consentimento dos consultores.

De tempos em tempos, o Geral envia um Visitador para verificar as condições de uma determinada província, tanto no aspecto espiritual e escolástico quanto no financeiro e político.

Apesar da rigidez hierárquica, não se trata, contudo, de uma organização absolutista. Seus membros são livres para emitir opiniões, propor soluções e alternativas. Os padres não ficam no aguardo de ordens superiores para lidar com determinada situação, sendo livres para improvisarem e colocarem em prática todo o seu conhecimento. Mas, uma vez tomada a decisão do superior hierárquico, obedecida ela será.

Embora ambos sejam vinculados à Congregação em Roma, não há relação direta entre os Jesuítas que servem à Coroa lusitana e aqueles que servem à Coroa hispânica, havendo muitas diferenças entre as missões lusitanas e as missões castelhanas.

Atualmente, a Companhia de Jesus se divide em 35 províncias, 3 vice-províncias, 579 colégios, 88 seminários, 160 residências, 106 missões, e aproximadamente 17655 jesuítas.

O Poder Divino

Após décadas dedicadas aos Exercícios Espirituais, os Jesuítas concluíram que havia um ingrediente individual, uma graça impossível de ser simulada. Porém, os Exercícios pareciam ajudar a despertar essa graça, sem precisar esperar que ela despertasse eventualmente. Assim, atualmente a Companhia de Jesus é a ordem que mais apresenta sacerdotes com Poder Divino, o que só faz aumentar os atritos com as demais ordens regulares.

Nos primeiros anos da Societas Iesu, só se tornava Padre Professo aquele que tivesse poder divino. Mas quando os Jesuítas se lançaram pelos quatro cantos do mundo para espalhar o Evangelho, não foi possível compor as fileiras dos Soldados de Cristo, com essa restrição, na velocidade com que surgiam as missões. A Congregação, então, foi obrigada a afrouxar seus critérios de seleção.

A prioridade da Ordem passou a ser que os padres com poder divino militassem nas fronteiras do mundo cristão. Por isso, em toda a Terra de Santa Cruz há padres de diversas origens atuando: Castelhanos, Lusitanos, Bretões, Vienenses, Genoveses, Helvéticos, Prussianos. Isso vem mudando o perfil da estrutura administrativa da Companhia e, particularmente, influenciando na política da Congregação e em sua relação com o Papa.

Os Jesuítas na colônia

No século XVI, o Rei de Portugal enviou um embaixador a Roma para convencer os Jesuítas a lideraram o processo de evangelização em suas colônias. Assim, os Jesuítas chegaram á Terra de Santa Cruz em 1549 sendo a única ordem religiosa autorizada a atuar na colônia, juntamente com os padres seculares. Ergueram imediatamente um colégio na capital. Levaram na bagagem plantas e animais, livros e medicamentos, música e disciplina, fé e um ambicioso projeto missionário.

Da capital, espalharam-se rapidamente por Santa Cruz, pois as ordens de Roma era trazer o gentio para o seio da Igreja. Partiram logo para o sul, onde fundaram Piratininga e uma série de aldeamentos. A partir de pontos estratégicos, dos colégios, penetravam o interior do Novo Mundo.

No início, os padres da Companhia acompanhavam as bandeiras. Nas expedições mata adentro, não era raro ver um jesuíta empunhando uma pistola para se defender das criaturas da mata.

O padre Juan de Azpilikueta y Sebastian participou da primeira entrada que subiu o rio Opará (futuro São Francisco) em busca de pedras preciosas. O jesuíta buscava nativos para converter, mas seus companheiros de viagem, a pedido da Coroa, tentavam confirmar a lenda da Serra das Esmeraldas e o da lagoa Vupabaçu. A viagem começou em 1553 e percorreu 1600 km pelo interior do continente. Erguiam capelas de barro com cruzes de madeira sempre que acampavam por muito tempo.

Com a alimentação improvisada, as caminhadas com calçados inadequados e o uso de batina no calor, Azpilikueta retornou doente, com febres recorrentes e muitos ferimentos. Sendo todo o grupo inexperiente com as coisas do sertão, a ajuda dos nativos foi essencial para que a expedição não terminasse em tragédia. Apesar do fracasso, Azpilikueta aproveitou a longa e difícil viagem para ser o primeiro europeu a dominar o idioma tupi.

Depois de um tempo, os Jesuítas foram proibidos de se ausentarem por longos períodos das vilas e aldeamentos, onde eram mais necessários. Passaram, então, a participar como diplomatas em expedições militares, atividade no qual se destacou o padre José de Anchieta. Em troca, os Jesuítas esperavam ter o apoio do Governador-Geral em sua luta contra a escravização dos nativos pelos colonos.

Com a morte de Azpilikueta em 1556, Anchieta deu continuidade ao trabalho do padre de Navarra e organizou a primeira gramática tupi. A partir daí, os Jesuítas enviados à Província de Santa Cruz passaram a ter de memorizar as orações básicas em Tupi.

Padre Anchieta e Padre Nóbrega, então o Provincial da Companhia, defendiam a guerra justa, na qual o bom cristão podia revidar. Pegar em armas era um mal menor, desde que o coração de quem apertava o gatilho estivesse recheado de intenções cristãs: o cristão deveria ser atacado primeiro, nunca tomando a iniciativa; os atacantes deveriam ter alguma culpa; em sua ação de defesa, o cristão deveria ter boas intenções.

Anchieta se tornou provincial em 1577. Preocupado com o isolamento da Capitania do Espírito Santo, ao largar o cargo de Provincial dez anos depois, fundou Reritiba, onde passou o resto de seus dias. Anchieta foi enterrado na Vila do Espírito Santo, no Colégio Jesuíta São Tiago.

Os Jesuítas fundaram casas, colégios e centros missionários. Em 1580, com a União das Coroas, os Jesuítas perderam a exclusividade. Chegaram a Santa Cruz os Carmelitas, Beneditinos e Franciscanos.

Da queda de braço com a Coroa

Apesar de toda a organização da Companhia de Jesus, suas atividades na colônia lusitana enfrentaram desde o início o obstáculo do Padroado. Em Santa Cruz, a Ordem não recebia da Coroa o mesmo amparo que lhe era dado na Metrópole. Assim, os Jesuítas tiveram de buscar recursos próprios para tocar seus projetos missionários. Eles não queriam ficar a mercê da inconstância da Coroa.

Desesperado com a falta de recursos, o Padre Provincial permitiu aos Padres Superiores adquirirem propriedades territoriais, para que a Companhia se tornasse autossuficiente. Apesar da contradição com o voto de pobreza, tão caro à Ordem, o Padre Geral corroborou a iniciativa, preferindo o relaxamento nas normas a um eventual conflito diplomático com a Coroa lusitana. As fazendas jesuíticas se tornaram tão lucrativas quanto alguns engenhos. Elas contam tanto com o trabalho servil dos nativos quanto com o de escravos negros.

A Companhia passou então a atuar junto ao rei para garantir maiores benefícios e concessões aos missionários. O acerto foi vantajoso para a Coroa, pois, ainda que abrisse mão de algumas posses e tributos, a empresa jesuíta garantiria seu próprio sustento a longo prazo.

De fato, em pouco tempo a Companhia criou uma sólida base econômica para atender a suas necessidades. Os padres instalaram suas fazendas, prolongaram estradas, montaram engenhos, fizeram comércio, exploraram a terra e civilizaram os nativos para o trabalho. Trouxeram do estrangeiro várias frutas e especiarias que vingaram nas terras do Novo Mundo, como laranja, coco, figo, romã e uva. As fazendas da Companhia são as propriedades mais bem administradas de São Vicente e São Sebastião, um modelo para os colonos.

Da queda de braço com os colonos

Os Jesuítas não são imediatistas. Desde o início eles sabem que o seu trabalho exige paciência e que só renderá fruto após gerações. Entretanto, as terras dos colonos precisavam de braços na lavoura e eles não tinham a mesma paciência e tampouco entendiam a importância que os padres missionários davam aos nativos catequizados. Mas entenderam rapidamente que escravização dos nativos ia de encontro aos interesses da Companhia, e que mais cedo ou mais tarde o atrito seria inevitável.

Os padres, então, tentaram conciliar a sua missão com as necessidades da colônia, disponibilizando mão de obra à medida que os nativos fossem sendo cristianizados. Mas não como escravos, mas sim homens livres. Tal postura colocou, como previsto, os Jesuítas frequentemente em conflito com os colonos, e o governo-geral ás voltas com delicadas tratativas diplomáticas.

Com o apreço cada vez maior dos Lusitanos pelo trabalho escravo dos negros e o crescimento da mineração do ouro, a importância do trabalho missionário dos Jesuítas começa a perder prestígio. Tanto para a Coroa quanto para o Governador-Geral, já não vale tanto o esforço para convencer os nativos da importância da atividade produtiva.

Os Jesuítas e a cultura colonial

Os Jesuítas têm em seus quadros engenheiros, arquitetos, carpinteiros, oleiros, músicos, escultores, cartógrafos, astrônomos e diversos outros mestres. Conseguem unir conhecimento, criatividade e fé como nenhuma outra ordem é capaz. Atuam na arte e na educação, marcando a formação e produção intelectual e artística nos dois primeiros séculos da colônia.

Devido às ordens da Coroa, não há universidades, apenas colégios, onde buscam instruir as crianças analfabetas e divulgar o saber e a caridade. O colégio ensina a ler e a escrever em Tupi, além de noções de Latim. As crianças aprendem carpintaria e marcenaria. Os filhos dos europeus são educados em Latim, Matemática e Astronomia.

Os Jesuítas não se limitam ao ensino elementar e das primeiras letras, oferecendo também curso de Letras, Filosofia, Teologia e Ciências. Os futuros sacerdotes recebem aulas de Teologia moral e especulativa. A formação do clero é muito superior à da média da população, e os Jesuítas são responsáveis pela formação da maior parte, inclusive na Metrópole. A biblioteca do Colégio da capital ultrapassa com sobras a marca de 3 mil volumes, tendo importantes atualizações científicas.

Há três tipos de estabelecimentos educacionais: o colégio primário, que cuida da educação dos filhos de colonos e nativos, com instrução simples, que funciona nas casas da Companhia ou nas aldeias; os Colégios propriamente ditos, onde estudam os meninos brancos, principalmente filhos dos Lusitanos, com instrução clássica, onde se formam mestres em artes; e os Seminários, local de recolhimento e formação de noviços. Há um seminário na capital e outro em São Sebastião.

Da vida nas Missões

A atividade missionária, conforme vislumbrada por Iñigo de Loyola, consistiria de padres itinerantes percorrendo vilas e aldeias ao redor do mundo, espalhando a palavra de Deus. Mas logo nas primeiras iniciativas na Terra de Santa Cruz, tanto do lado lusitano quanto no lado castelhano, os Jesuítas perceberam que a catequese só seria produtiva com a presença constante de um sacerdote e a construção de uma capela. Do contrário, os nativos voltariam rapidamente ao estado anterior.

Parte da estratégia catequista passou a ser aprender a língua nativa. Na colônia lusitana, a fluência em Tupi é uma obrigação. Os missionários têm de fazer curso de um ano na língua. Só depois de dominado o Tupi é que assumem seu posto nos aldeamentos.

Os padres chegam desarmados, pacíficos. Passam alguns dias com os nativos comendo e dormindo com eles. Quando há boa vontade, começam a pregação. O alvo principal são as crianças. A proposta inicial de transformar jovens nativos em padres gerou grande polêmica na Igreja.

Os Jesuítas também perceberam que não seria possível converter os nativos à fé católica sem que soubessem ler e escrever. Trataram de elaborar um dicionário e uma gramática da língua Tupi para ser ensinado nas aldeias. Este mesmo material passou a servir também aos noviços da Companhia. Os padres também ensinam música aos nativos, que é muito apreciada.

Os terreiros das missões seguem o plano urbano castelhano da Plaza Mayor: uma praça central, grande, onde ficam as principais construções, e a partir da qual se desenvolve o aldeamento. O terreiro é o ponto de encontro, o centro. O primeiro edifício é a igreja. As casas são de taipa ou de sapé. Elas não se diferenciam das malocas tupi: são unicelulares e sem divisão, cheias de fumaça, sem janela. A palha foi aos poucos sendo substituída por telha.

Todos os aldeamentos são erguidos em terreno elevado, para facilitar o escoamento da água. As roças são distantes, pois não se pode plantar no aldeamento. Assim, os nativos passam a semana fora. Nessas roças, misturam-se aos colonos, atendendo ao desejo do governo, que não queria ver os nativos convertidos andando pelas aldeias de nativos não convertidos.

O aldeamento é marcado pela instabilidade. Os Jesuítas permitem que os nativos consigam preservar um pouco de seus traços culturais. Apesar de serem livres após a catequese, os padres têm medo de perdê-los para os colonos, que tentam burlar a fiscalização e manter os nativos trabalhando em suas terras. O acordo oficial é que os nativos trabalhem de forma rotativa, remuneradamente, por apenas seis meses. Além do trabalho nas plantações, os nativos também atuam como força de segurança das vilas e em expedições militares ou exploratórias.

Dos descimentos

Com o passar do tempo, os aldeamentos passaram a ter composição étnica heterogênea, misturando os nativos de diferentes tribos descidas do sertão. O descimento consiste em trazer nativos de aldeias do interior para as missões. De preferência pelo convencimento, se necessário pela força.  Os Jesuítas acreditam estarem, com isso, protegendo esses nativos de um conflito trágico contra os Lusitanos.

Para o governo, por sua vez, o descimento não só minimiza possíveis conflitos futuros na expansão territorial, como também garante a ocupação das terras coloniais. Essa estratégia foi particularmente útil nas capitanias de São Sebastião e do Cabo Frio. Essas tribos convidadas ou obrigadas a ocuparem os territórios religiosos são escoltadas por tropas do governo até o aldeamento.

As aldeias servem para abrigar o maior número possível de nativos, que trabalharão nos campos e na construção, e seguirão as regras católicas de comportamento. Viverão em um único lugar e terão uma única esposa. Dominarão uma profissão e se tornarão figuras integradas ao novo mundo.

Pelo menos esse é o plano.

Do regulamento das missões

O padre visitador Antônio Vieira elaborou um regulamento de conduta a ser seguido pelos missionários.

Os Exercícios Espirituais devem ser praticados no espaço de 8 dias, quando a presença do padre não fizer falta nas atividades da aldeia. Para tanto, deve se recolher ao Colégio, onde, livre de todo o cuidado, melhor possa conseguir a eficácia e frutos dos Exercícios.

Os padres devem se confessar sempre que possível. No caso de haver apenas um sacerdote na missão, deverá ir até a Residência mais próxima, de forma a não passar mais de um mês sem se confessar.

Dentro das casas dos sacerdotes não pode dormir moço ou nativo algum. E nelas o padre só pode ter a seu serviço 4 ou 5 nativos. Mulher ou meninas sequer podem adentrar a residência em momento algum do dia.

A aldeia deve manter uma casa de hóspedes para visitantes ou viajantes. Estes não podem dormir na aldeia para não causar inconvenientes, exceto se for sacerdote.

Nos lugares em que podem ser assaltados ou nas viagens perigosas, para defender os missionários ou em legítima defesa, os nativos poderão portar arma de fogo.

Os missionários não poderão viajar em canoa própria junto com uma mulher, salvo em caso de extrema necessidade. E em todos os dias de viagem rezarão com os nativos.

Os missionários não poderão viajar em rede carregados pelos nativos, exceto em caso de necessidade.

Os padres poderão repreender e mandar castigar os delinquentes. O castigo deverá ser ministrado pelo Principal de sua tribo.  O castigo ordinário é a prisão por 3 dias. Castigos mais graves, ou que envolver pessoa hierarquicamente importante, deverão ter a aprovação do Padre Superior. No caso do delituoso ser o Principal da aldeia, deverá ser avisado o governador, e o caso será tratado pelo Padre Superior.

Se o Principal da aldeia morrer, sucede o filho. Se não houver, cabe ao conselho da aldeia escolher seu sucessor. A decisão deve ser comunicada ao governador, que oficializará a escolha.

Só os homens adultos poderão ser enviados para trabalhar nas vilas. As mulheres, apenas em quatro casos: como ama de leite; se for mulher desobrigada e adulta, para servir ao governador, ao vigário-geral ou a ministros da Coroa; mulher desobrigada para servir a mulher pobre e desamparada, como último recurso; e para acompanhar os maridos na época da colheita.

Os nativos que se ausentarem da aldeia devem constar em três listas: uma fica na aldeia; outra deve ser entregue ao padre do lugar de destino; e a terceira para o chefe administrativo.

Das críticas à Companhia

Os detratores dos Jesuítas nas Cortes e nas colônias alegam que, após a morte de seu fundador, a Ordem se transformou numa sociedade secreta, com objetivos políticos e comerciais inconfessáveis. Sua atividade missioneira seria mera fachada para um projeto mais ambicioso e audacioso, de interesse particular da Companhia.

O clero secular não gosta da postura dos Jesuítas. A Ordem foi perseguida pelo primeiro bispo de Santa Cruz. A Inquisição disputa com eles uma queda de braço de poder não declarada. Os Franciscanos se opõem abertamente à Companhia. Nenhuma outra Ordem aprova as flagelações públicas, as missas em tupi, as confissões com intérprete. Mais ainda, não gostam do favorecimento que a Coroa parece dar aos Jesuítas.

Em 1612, foi revelado ao público europeu a Monita Secreta, um documento secreto supostamente escrito pelo Geral da Companhia, instruindo os padres jesuítas a roubar, manipular os reis e tirar dinheiro de viúvas ricas. O Santo Ofício romano, após quatro anos de investigação, classificou a peça como falsificação. Seu possível autor teria sido o padre polonês Jerome Zahorowski, expulso da Companhia um ano antes da publicação do documento.

Até o momento, tais teorias conspiratórias não encontraram eco nos salões reais ou em Roma. Entretanto, a crença sincera dos Jesuítas de que eles são, com o trabalho de catequese, a salvação da fé católica, leva à loucura até mesmo aqueles que os defendem

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Published in: on 11 de janeiro de 2019 at 0:50  Deixe um comentário