TERRA DO FOGO E DO GELO

A Patagônia Austral é constituída de um arquipélago no qual habitam três diferentes etnias: os Selknam, os Yámanas e os Kawésqar. É o último ponto da Terra de Santa Cruz a ser habitada pelo homem branco, ainda que tenham atravessado seus estreitos com certa intensidade, com uma única tentativa trágica de colonização.

Geografia e Fauna

O arquipélago é dominado pela grande ilha que dá nome ao conjunto composto por dezenas de ilhas de tamanhos bem variados. As ilhas voltadas para o Pacífico e ao sul da grande ilha, incluindo o sul desta, são dominadas pelo relevo das cordilheiras, com montanhas altas de neve perpétua. Não há planícies, mas vários vales cobertos por bosques, entremeados por lagoas e pântanos. As costas são rochosas e escarpadas, sem formação de praias, com águas profundas mesmo próximas ao litoral.

Já a ilha principal, excetuando-se a já mencionada parte sul, apresenta baixa altitude, um relevo monótono semelhante à Patagônia continental, mas coberto por bosques. O clima é seco e quase sem nuvens. No fundo dos vales abundam lagos e charcos.

As ilhas voltadas para o Pacífico, onde vivem os Kawésqar, sofrem de constante mau tempo, chuvas intensas e céu nublado. São assoladas por um vento contínuo e com pouca variação de temperatura ao longo do ano. A fauna é basicamente de pássaros e animais marinhos. As ilhas do sul, mais próximas do Atlântico, onde se concentram os Yámanas, apresentam um clima menos inclemente.

A grande ilha, onde predominam os Selknam, abriga manadas de guanaco, umas poucas espécies de roedores, o huillín (uma nutria nativa), diversas aves, incluindo o condor, além de vários animais marinhos que chegam a suas praias. O zorro colorado da Terra do Fogo é bem maior que seus parentes da Patagônia. Os répteis estão representados por uma única espécie de lagartixa, assim como os anfíbios se resumem a uma pequena espécie de sapo.

O clima é subpolar, com verões curtos e frescos e invernos longos, úmidos e moderados. O nordeste da ilha é marcado por fortes ventos e poucas chuvas. O sul e a costa ocidental são úmidos e brumosos, com muito vento e poucos dias sem chuva, granizo ou neve. A temperatura média apresenta pouca amplitude ao longo do ano, variando entre 0º e 10° C. Algumas áreas do interior da Terra do Fogo possuem clima polar, chegando a 10° C negativos.

Os Exploradores

Quando o lusitano Fernão de Magalhães, em 1520, passou pelo estreito que separava o arquipélago do extremo sul do continente, conhecido então como Cola do Dragão, avistou as fogueiras dos Selknam no alto das falésias, dando àquela região gélida o insólito nome de Terra do Fogo. O fogo era aceso por uma pirita de ferro facilmente encontrada em uma ilha na saída do estreito, compartilhada por Yámanas e Kawésqar. A frota lusitana avistou também milhares de pinguins e muitas baleias. O próximo a passar pelo estreito foi o corsário britânico Francis Drake, em 1577, que teve um navio avariado e, nessas circunstâncias, travou contato com os Yámanas.

Em 1540, o bispo Plasencia Carvajal partiu para o estreito com três navios. Ao lá chegar, uma tempestade separou as embarcações. Uma delas conseguiu atravessar o canal e chegar à Nova Castela. Outra perdeu o rumo e chegou às ilhas Sebaldinas, onde ficou ancorado por quatro meses fazendo reparos. A terceira afundou.

Em 1584, Pedro Sarmiento de Gamboa fundou a Cidade do Nome de Jesus na ponta continental atlântica do estreito. A ideia era criar duas vilas com 350 pessoas e 400 soldados cada, a fim de evitar o uso do estreito por estrangeiros. Depois de 10 dias às voltas com o mau tempo, houve um motim e três embarcações se retiraram. As pessoas que embarcaram na futura colônia estavam em péssimo estado. Posteriormente, os soldados marcharam por terra até quase o final do estreito, chegando a enfrentar alguns Aonikenkes pelo caminho, com o objetivo de fundar a Cidade do Rei Felipe.

Após erguer os dois assentamentos, Gamboa voltou à Metrópole para buscar mais recursos e colonos, mas teve muitas dificuldades, chegando a ser preso, só retornando em 1590. Nesse meio tempo, os colonos de Nome de Jesus enfrentaram dificuldades de arrumar alimento e decidiram abandonar o local, marchando rumo a Rei Felipe. Os colonos e os poucos soldados que ali estavam foram morrendo de fome no decorrer da marcha. Um dos colonos foi resgatado três anos depois pelo corsário inglês Thomas Cavendish. Os outros 20 sobreviventes não puderam ser resgatados devido aos fortes ventos.

Ao passar por Rei Felipe, Cavendish só encontrou cadáveres, batizando o lugar de Porto da Fome. Pouco antes, um sobrevivente de Rei Felipe havia sido resgatado por outra embarcação inglesa.

Poucos anos depois, o pirata holandês Olivier Van Noort aportou em Porto da Fome e o usou como base para explorar a região, combatendo Selknam e Kawésqar. O imediato de Van Noort tentou desertar levando um dos navios, mas foi traído por seus homens e abandonado em Porto da Fome quando os holandeses deixaram a região.

No século XVII, passam pelo arquipélago uma expedição holandesa em 1615-1617; a expedição dos irmãos Garcia de Nodal em 1618-1619, que entram em contato com os Mánekenks; a Frota Nassau em 1624, de Jacob de L’Hermite, que tem um contato mortal com os Yámanas; e a expedição do pirata holandês Hendrik Brouwer, em 1642, rumo à Terra dos Araucos.

A Frota Nassau, ao descer em uma ilha para pegar água e lenha, teve 19 tripulantes retidos em terra devido ao mal tempo repentino. Os Yámanas, que até então os ajudavam, atacaram e mataram 17 deles, sendo que cinco quedaram esquartejados na praia e os outros doze foram levados. Apenas dois sobreviveram.

No século XVIII, navios da Coroa Britânica exploram o estreito e são combatidos pelo futuro Vice-Rei de Nova Granada. Nesta época começam as expedições científicas, responsáveis por divulgar no Velho e no Novo Mundo a riqueza da fauna marinha na região. Assim, em poucas décadas chegam os primeiro baleeiros. Em 40 anos a matança é tanta que prejudica a alimentação dos Yámanas e Kawésqar.

Terra Australis Incognita

Três navios saem de Valparaíso sob as ordens do Vice-Rei de Nova Castela, a fim de reprimir as incursões de piratas holandeses no extremo sul. Mas, errando um pouco a latitude, acabam chegando a uma terra coberta de gelo e neve, toda branca e montanhosa. Alguns navegantes holandeses também esbarraram nesse continente branco.

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Published in: on 22 de setembro de 2016 at 1:59  Deixe um comentário