OS SELKNAM

Conhecidos como Selknam pelos Aonikénk, de quem são parentes distantes, e como Onas pelos Yámanas (denominação também adotada pelos Castelhanos), esses índios habitam quase todo o território da ilha grande da Terra do Fogo. Seus vizinhos insulares, os Kawésgar e os Yámanas, possuem origem étnica distinta.

Os Selknam possuem média de altura de 1,80 metros, são musculosos, corpulentos e bronzeados, de grande agilidade. Agrupam-se em núcleos familiares, e estes em clãs de 40 a 120 membros, ocupando o mesmo haruwen (território), que é bem delimitado. Os territórios podem ser compartilhados em ocasiões especiais, como na festa do Hain, casamentos e escassez de alimentos. As esposas são tomadas de outros clãs.

Os homens caçam e fazem as armas; as mulheres cuidam dos assentamentos, das crianças, e transportam e instalam as kawi (tendas). As kawi possuem forma semicircular ou de cone, coberta com pele de animais. As ferramentas são de pedra, osso e madeira. Os Selknam cobrem-se com capa de pele de guanaco do pescoço ao joelho e vestem mocassins para os pés. Por baixo, há outra vestimenta. A pintura facial é usada no cotidiano.

Alimentam-se de aves, guanaco e tucotucos, um pequeno roedor de pelo acinzentado que vive na ilha. Na costa, podem encontrar mariscos na praia. Também há dois frutos silvestres, o calafate e a chaura. Caçam com arco e flecha. Usam sinais de fumaça para comunicar perigo ou uma grande descoberta, como uma baleia encalhada na praia.

Foram avistados por Fernão de Magalhães em 1520 no alto do estreito com suas fogueiras, mas o primeiro contato só ocorre em 1580. Os contatos continuam esporádicos até 1880. No século XIX, são em torno de 4 a 5 mil Selknam na ilha.

Os Selknam não gostam muito de visitantes em sua ilha. Toleram apenas a presença dos Mánekenks e dos Yaganes, desde que estes respeitem seus limites territoriais. Caso chegue algum outro visitante, os Selknam irão monitorar a presença deles no litoral e, caso avancem ilha adentro, pedirão não muito delicadamente que partam até a manhã seguinte.

MÁNEKENKS

Vivem em uma península no sudeste da ilha, para onde foram empurrados pelos Selknam, de quem são parentes, porém mais atrasados em seu desenvolvimento técnico. Os Selknam consideram os Mánekenks inferiores, apesar de compartilharem muitos costumes e usarem as mesmas armas.

Vivem de guanaco, lobos marinhos, mariscos, crustáceos, pinguins e peixes, além de um cogumelo chamado “pão de índio”. As canoas são mais precárias que as das demais tribos do arquipélago. Os Mánekenks são responsáveis pela maioria dos sambaquis existentes na ilha. O primeiro contato com o homem branco ocorre em 1619, em uma expedição castelhana comandada por Garcia de Nodal.

Ao contrário dos Selknam, mais isolacionistas, os Mánekenks recebem bem os visitantes, havendo, inclusive, mestiçagem com os vizinhos Yámanas.

MAGIA E RELIGIÃO

Os Selknam esperam a morte com serenidade, sem lamentações. Eles enterram seus mortos em uma cova superficial e queimam seus pertences. Sua vida é estreitamente ligada ao mundo espiritual, ainda que não haja orações ou idolatria. Kon são os xamãs e Yakamouch são os feiticeiros.

Temáukel é o ser supremo, criador de tudo. Criou a raça dos Howenh, os poderosos antepassados dos Selknam, que depois deixaram a terra, mas continuam a influir na vida das aldeias como espíritos.

O Hain é o principal ritual dos Selknam, feito para a iniciação dos Klóketen, os homens que completam a maioridade. O rito remonta à época em que os Selknam eram um matriarcado no qual as mulheres se disfarçavam de espíritos para dominar os homens. Segundo a lenda, Krren, o Homem-Sol, descobriu a farsa das mulheres e matou todas elas, exceto sua esposa, Kreek, a Lua, que fugiu. Só as meninas foram poupadas, consideradas inocentes das ações das adultas.

O ritual é feito no início do inverno. Os Selknam se cobrem de máscara e pinturas corporais referentes a cada um de seus espíritos. No auge do ritual, os Kon são efetivamente possuídos por eles. Uma vez neste estado, eles reproduzem suas desavenças e relações da época em que caminhavam sobre a terra. Kénos cuida para que o Hain não fuja ao controle e que os espíritos retornem a seus lugares no final do ritual.

Os Mánekenks também fazem o ritual do Hain, o que revela a origem em comum dos dois povos.

Os Howenh

Kenós é o protetor dos Selknam, o primeiro howenh, de caráter nobre e conduta impecável, servidor de Temáukel.

Kwányip é o espírito da morte, o único que rivaliza em poder com Kenós. Mantém-se completamente distante da vida cotidiana dos Selknam, desde que Kenós mantenha o acordo de só trazer de volta à vida aqueles vitimados diretamente por um howenh.

Krren é o Homem-Sol.

Kreek, a Mulher-Lua, esposa de Krren, inicia as jovens na idade adulta durante o Hain. Após matar as mulheres na revolta contra o matriarcado, Krren perseguiu Kreek, espancando-a e atirando-a ao fogo, mas ela logra escapar de sua ira. De seu esconderijo na noite, às vezes desce para matar e devorar os homens pelo prazer da vingança.

Xalpen é o espírito feminino do submundo, esposa de Shoort. Ela tem ódio das demais mulheres. Glutona e canibal, Xalpen pode devorar um Klóketen, uma mulher ou uma criança durante o Hain. Imprevisível, pode ter um ataque de ira a qualquer instante e matar com sua unha comprida do indicador. Além de comida, quer sexo sem medida, deixando seus parceiros feridos. Todos os espíritos da terra se submetem a ela, menos Halaháches. Durante o matriarcado, as mulheres pediam comida aos caçadores em nome de Xalpen, mas elas mesmas a comiam, o que acabou dando origem à guerra entre Krren e Kreek.

Shoort vive no submundo com Xalpen. Possui um chifre na cabeça e um porrete de pedra branca. Durante o Hain, é muito agressivo com as mulheres e tortura os jovens iniciados.

Oleming é o espírito do céu. Cura as feridas sem deixar cicatriz. Quando o Hain se encerra, dá atenção especial aos feridos por Shoort.

Halaháches é o espírito da terra. Possui chifres como Shoort. É representado no Hain pelos chefes xamãs. Grotesco, aterrador, rápido, agressivo e muito atento. Tem força e determinação suficientes para encarar Xalpen, fazendo-a fugir para o mundo de baixo. Consegue ser cômico quando de bom humor.

Kulpush é o espírito feminino da terra.

Shénu é o espírito do vento, irmão de Krren, sendo seu aliado na luta contra Kreek.

Josh é o espírito da neve, irmão de Kreek.

Kulan é um espírito feminino que se apresenta no Hain à noite. Jovem, sedutora e bela, gosta de receber os homens no bosque. Se lhe agrada um em particular, faz amor tantas vezes que o deixa estropiado. Seus amantes retornam à aldeia sem lembrar o ocorrido.

Kojh é o espírito do mar, rival de Shénu.

Chálu é o espírito da chuva.

Exceto por Kwányip, estes são os howenh que participam da iniciação dos Kon ao mundo mágico. Há outros howenh que, assim como Kwányip, preferem manter distância das coisas da terra, só se manifestando durante o Hain.

Quando os howenh partiram da terra, ficou estabelecido que eles só se manifestariam entre os vivos na iniciação dos Kon e no Hain, ou, excepcionalmente, quando invocados pelo Olum. Kenós e Kwányip ficaram encarregados de garantir que esse acordo fosse cumprido.

Entretanto, não é incomum que alguns deles burlem essa regra. Os mais obedientes são Krren, Oleming, Halaháches, Kulpush, Josh e Chálu.

Shénu e Kojh, devido à rivalidade entre eles, acabam atuando mais diretamente, um achando que o outro está tramando alguma coisa.

Kulan, em seus ardentes arroubos românticos, acaba seduzindo um de seus Kon para recebê-la fora do Hain, a fim de satisfazer seus desejos. Se o Kon é homem ou mulher, não é empecilho para ela.

Xalpen é muita voluntariosa e dificilmente aceita os limites que lhe são impostos. Shoort acaba a acompanhando para evitar que sua imprudência atraia a atenção de Kenós e Kwányip. As ações de Xalpen são erráticas, seus interesses desconexos, movidos por impulso. É difícil prever as suas ações.

Kreek é quem mais sistematicamente burla as regras. Vingativa, não perde uma oportunidade para atormentar os homens. Inicia um Kon homem apenas para seguir a tradição. Mas, por diversão, trata de lhe proporcionar dificuldades. Se o Kon for uma mulher, ela se colocará bastante solicita. Uma Kon iniciada por ela recuperará 2 pontos a mais de poder mágico durante a noite. Aliás, toda intervenção indevida de Kreek será feita durante a noite, longe da eterna vigilância de Krrek, o Homem-Sol.

Yósi

Enquanto os howenh são antepassados dos Selknam, os Yósi são espíritos dos bosques, dos animais, das coisas da natureza. Eles não participam do Hain, mas podem criar dificuldades ou facilidades no dia a dia.

PERSONAGENS SELKNAM

Os personagens sem magia seguem o padrão dos personagens indígenas.

Os Mánekenks possuem as mesmas características e classes dos Selknam, exceto o Olum.

Kon

Kon é o xamã dos Selknam. Ele evoca um howenh para, com seu auxílio, usar seus poderes. Essa evocação só é necessária na primeira vez que o xamã for utilizar seus poderes. Enquanto o Feiticeiro Negro pode se relacionar com vários espíritos, sendo um de cada vez, o Kon é vinculado a apenas um espírito.

Os Kon de cada haruwen se reúnem em conselhos em situações de crise, guerra ou festivas, como o Hain. O chefe desse conselho é o único com poder de evocar todos os espíritos.

Quando um Kon morre, um membro eleito da aldeia recebe o poder mágico do falecido xamã e desenvolve seus poderes a partir de um howenh, que não será necessariamente o mesmo do xamã anterior. Mas, assim como ocorre com os Feiticeiros Negros, nem sempre essa relação com os espíritos é fácil.

Pode haver mais de um Kon relacionado ao mesmo howenh. Só durante o Hain é que apenas um será escolhido para representá-lo. Geralmente a honra cabe aos chefes, mas não é necessário que seja assim.

Todo Kon tem acesso a um grupo básico de feitiços, adquirindo mais quatro por meio dos howenh.

Lista de Habilidade: Cultura indígena; Ervas e plantas; Mitos e lendas; Ocultismo (atributo relacionado: Inteligência). Habilidades obrigatórias: todas.

Lista básica de feitiços: Desviar ataques; Detectar magia; Remover magia.

Lista de feitiços por Howenh:

Chálu: Criar nevoeiro; Estiagem; Invocar Tempestades; Relâmpago.

Halaháches: Agilidade; Aríete; Exorcismo; Pele de ferro.

Josh: Camuflagem (neve e gelo)*; Hibernação; Mão de Gelo; Nevasca.

Kojh: Andar sobre as águas; Controlar água; Olhos D’Água; Respirar sob as águas.

Krren: Chama solar; Chama da verdade; Controlar fogo; Luz solar.

Kreek: Camuflagem; Lua Cheia; Visão noturna; Trevas.

Kulan: Amizade; Apaixonar; Criar ilusão; Êxtase.

Kulpush: Comunhão com a floresta; Controlar plantas; Metamorfose; Raízes.

Oleming: Aura; Comunicação; Cura; Ventura.

Shénu: Controlar vento; Levitar; Ouvir o vento; Ventania.

Shoort: Aríete; Barreira Astral; Dardos de pedra; Porrete de Shoort.

Xalpen: Garra de Xalpen; Medo; Viagem astral; Visão astral.

*O feitiço Camuflagem de Josh só poderá ser usado para se camuflar na neve e no gelo.

Olum

Acima dos chefes dos conselhos dos Kon, há Olum, o grande xamã de todos os Selknam, o chefe dos chefes. Ele é o único capaz de invocar Kenós, o que o torna capaz de devolver a vida às vítimas dos espíritos assassinos, curando suas feridas em um instante.

Durante o Hain, muitos Selknam são mortos pelas ações dos espíritos. Para controlar esses excessos, a ação de Kenós é essencial, pois ele traz de volta aqueles que foram mortos pelos howenh. Mas só pelos howenh. Qualquer outro tipo de morte, Kenós é incapaz de reverter.

Mas não só durante o Hain os howenh fazem suas vítimas, particularmente Kreek. O Olum tem até três dias para tomar ciência do ocorrido e reverter a situação.

O Olum segue a mesma lista de habilidades e feitiços do Kon, acrescida dos poderes de Kenós.

Lista de feitiços de Kenós: Adivinhação; Invocar espíritos; Pacificar; Toque de Temáukel.

Yakamouch

É uma casta de feiticeiros e curandeiros, geralmente mais velhos. Nos primórdios, os primeiros Yakamouch foram Kon que, ao tomarem ciência de outras formas de magia, resolveram ter acesso a elas. Tal ousadia e quebra das tradições levou ao rompimento com os howenh. Mas estes feiticeiros perceberam que era possível realizar magia mesmo sem a ajuda deles. Então, tornaram-se estudiosos da magia, voltando sua existência unicamente para a ampliação e desenvolvimento de seus próprios poderes, desinteressados da vida cotidiana da tribo. Para esse fim, formaram um conciliábulo, vivendo isolados em cavernas no interior da ilha. Os novos membros dos Yakamouch não precisam ser necessariamente Kon, podendo aprender magia diretamente com os feiticeiros.

Eles não possuem contato com os howenh como os Kon, sendo seu poder semelhante aos dos demais feiticeiros indígenas. Com o passar do tempo, viram que poderiam ampliar esses poderes por meio dos poderes das trevas. Porém, logo perceberam que o Diabo não era tão confiável. Em vez de entregar a alma, como fazem os Compactados, passaram a negociar favores. Claro que os Yakamouch não possuem escrúpulos quanto à natureza de tais favores. Só lhes interessa o fato de que nenhum deles terá sua alma levada ao submundo em uma nuvem de enxofre. Se falharem, eles simplesmente ficarão sem o que desejam.

Essa forma de negociar acabou os aproximando, secretamente, de alguns howenh. Schoort, Xalpen e Kreek costumam dar as caras nas montanhas habitadas pelos feiticeiros.

Os Selknam os temem, mas evitam confrontá-los, pois, em épocas de crise e de guerra, os Yakamouch acabam sendo de boa ajuda. Apesar dos Selknam terem um comportamento hostil em relação aos Yakamouch, a recíproca não é verdadeira. Eles simplesmente não se importam. Para os Yakamouch, os Selknam são apenas um manancial de futuros feiticeiros da casta. Aos ajudá-los contra invasores, guerras, fome ou desastres climáticos, os feiticeiros não só preservam essa fonte como também garantem a sua própria segurança.

Os Yakamouch apreciam e incentivam o isolacionismo dos Selknam, pois assim eles acabam servindo aos feiticeiros como cães de guarda. Mas os Yakamouch não relutam em aceitar um pupilo dos Mánekenks ou dos Yámanas. O Yakamouch, na verdade, gosta de um intercâmbio, mas ele prefere voar até outros territórios em busca de conhecimento a ser visitado em sua caverna. Caso se aproxime algum visitante indesejado (praticamente todos o são), os Yakamouch não se darão ao mesmo trabalho que os Selknam. Eles simplesmente chamarão o Taquatu (ver Mitos e Lendas). E o visitante nem precisa chegar à praia, basta estar se dirigindo até a ilha. São os Yakamouch, mais do que os Kon, os responsáveis pelo isolamento dos Selknam na ilha.

A lista de feitiços do Yakamouch retrata apenas um momento de seu desenvolvimento, pois a casta está sempre procurando aprender novos feitiços.

Lista de Habilidade: Cultura indígena; Ervas e plantas; Mitos e lendas; Ocultismo (atributo relacionado: Inteligência). Habilidades obrigatórias: Ervas e plantas; Mitos e lendas; Ocultismo.

Lista de feitiços: Adivinhação; Amaldiçoar; Andar sobre as águas; Aura; Barreira astral; Camuflagem; Comunicação; Conjuração; Conjurar animais; Controlar água; Controlar animais; Controlar entidades; Criar doenças; Criar dor intensa; Criar ilusão; Criar nevoeiro; Cura; Desviar ataques; Detectar magia; Elo mental com animais; Espada astral; Exorcismo; Invocar tempestades; Levitar; Medo; Metamorfose; Nevasca; Relâmpago; Remover magia; Respirar sob as águas; Tornado; Trevas; Ventania; Ventura; Viagem astral; Visão astral; Visão noturna.

Kuayeshin

Se os Yakamouch não são necessariamente inimigos dos Selknam, o Kuayeshin o é. Não se trata de uma casta ou de um grupo, ainda que ocasionalmente possa haver mais de um. Um Kuayeshin pode ser tanto um antigo chefe Kon quanto um membro dos Yakamouch. Seu objetivo é dominar os Selknam. Julga-se poderoso demais para ser outra coisa se não o senhor de toda a ilha. Tal postura vai de encontro aos interesses dos Yakamouch, que o expulsam da ordem.

O mais famoso Kuayeshin foi um poderosíssimo Olum que enlouqueceu e quis dominar a todos. Só com a ajuda dos Yakamouch foi possível derrotá-lo. Em respeito a tudo o que havia feito de bom enquanto Olum, os Selknam decidiram exilá-lo nas Ilhas Sebaldinas.

Os Selknam falam muito sobre o Kuayeshin assumir a forma de um falcão cujas asas, quando abertas, chamam as ventanias para fustigar as aldeias e as pessoas. Trata-se, na verdade, do domínio que o Kuayeshin possui de realizar feitiços de controle da natureza metamorfoseado. Mas nem todo Kuayeshin é capaz de atingir essa raríssima capacidade, apenas aqueles que foram Olum.

A lista de feitiços e habilidades do Kuayeshin irá variar de acordo com sua origem, Kon ou Yakamouch.

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Published in: on 20 de setembro de 2016 at 14:58  Deixe um comentário